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quinta-feira, 10 de novembro 2005
O Fox-Trotezinho de Bush

Pode-se concordar ou não com a avaliação do New York Times de que a visita de George W. Bush à América Latina foi desastrosa, mas o fato é que a Cúpula das Américas de Mar del Plata teve um grande palhaço: o presidente Vicente Fox, do México, perdeu várias oportunidades de ficar calado.
Ao chegar à Argentina e se deparar com as manifestações nas quais dezenas de milhares de pessoas (entre elas Diego Armando Maradona) protestavam contra Bush e a ALCA, Fox declarou que encontrou em Mar del Plata uma "bagunça" e um "futebolista com a cabeça cheia de fumaça metendo-se em política". Levou uma seqüência de tamancadas da sociedade argentina e no seu próprio país que colocaram as coisas nos eixos. Provavelmente sessenta anos de sistemáticos assassinatos de opositores políticos no México deixaram a presidência sem muita noção de que os protestos são parte da democracia e que os jogadores de futebol também têm o direito de participarem neles. Provavelmente os últimos anos de política externa ultra-subserviente ante os Estados Unidos impedem o ex-executivo da Coca-Cola de reconhecer que, em qualquer país do planeta que George W. Bush ponha os pés, ele será recebido com faixas de protesto e repúdio.
Depois da conclusão do encontro sem que os Estados Unidos conseguissem impor seu plano, o patético presidente mexicano declarou que a ALCA avançaria "com ou sem o Mercosul" e que Néstor Kirchner "estava orientado para a opinião pública" e que por isso os acordos continentais não haviam se realizado. Recebeu de novo a tamancada que merecia. O presidente argentino, que trabalhou com o Brasil, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela para barrar a ALCA e levantar de novo o problema das assimetrias no tratado e dos subsídios agrícolas americanos, respondeu afirmando que diplomacia não é abaixar a cabeça ante os poderosos: "que ele se ocupe do México". O próprio senado mexicano deu razão ao argentino e envergonhou-se do seu presidente.
O mais curioso é que qualquer que seja a opinião que se tenha sobre a ALCA, sabe-se que ela é um tratado nos moldes do NAFTA, celebrado entre EUA, Canadá e México. Em outras palavras: o tratado estenderia ao resto do continente a condição que o México já usufrui. Se o acordo impulsionado pelos EUA é tão bom, por que tanto desespero do mexicano em estender a todos os outros países um "privilégio" que ele, México, já possui?
No México, 11 anos depois da implementação do NAFTA, aumentou a pobreza no campo, cresceu a dependência do país da importação de alimentos, 88% das exportações passaram a ir aos Estados Unidos (dando a estes últimos, obviamente, controle quase completo da economia do vizinho) e um milhão de pequenos proprietários perderam seu sustento. A imigração mexicana atingiu níveis record: dos 9.9 milhões de residentes ilegais dos EUA, 58% são mexicanos e 20% são centro-americanos, cidadãos de países que já têm o "privilégio" de terem tratados de livre comércio com os EUA.
Nota-se nas declarações de Fox, claro, a vontade clara que "ficar bem" com o Império, depois que a rejeição de 90% da população mexicana à Guerra do Iraque tornou absolutamente impossível que o presidente mexicano lambesse as botas de Bush também naquele episódio.
O candidato favorito à sucessão de Fox é o oposicionista de esquerda López Obrador. Cardenal Hinojosa, do PAN, partido de Fox, segue muitos pontos atrás.
Por aqui, o amiguinho de Bush não deixou nenhuma saudade.
Escrito por Idelber às 00:02 | link para este post
| Comentários (23)
#1
É impressionante como a "fumaça" denunciada por Fox fez bem a Maradona. Tenho assistido a seus programas e o homem parece que nasceu apresentador. Ele ri de suas poucas mancadas e é um bom e curioso entrevistador. Acho que todos temos um lado Polyanna (é assim que se escreve?) e fico feliz ao vê-lo magro, alegre, irreverente e competente. Sua figura atual não é nada patética.
Sua entrevista com Fidel foi, no mínimo, muito simpática. Maradona estava tranqüilo e Fidel é que parecia mais ansioso por agradar.
Quanto ao Fox... Como é servil e adequado, não?
Abraço.
Milton Ribeiro em novembro 10, 2005 9:16 AM
#2
Uma pena que um povo tão simpático como o mexicano seja representado dessa forma.
E o Maradona realmente parece que nasceu de novo.
Abraço!
Ricardo Antunes da Costa em novembro 10, 2005 9:21 AM
#3
Pensei que não iria ver isso nunca. Pessoas defendendo Maradona e Fidel Castro...
Putz...
Pablo Vilarnovo em novembro 10, 2005 10:13 AM
#4
Me parece que é evidente!! Exatamente porque o México está tão dependente dos EUA que o Fox está querendo tanto a ALCA (ou ampliação do Nafta), para poder exportar para os outros países também.
Fábio K. em novembro 10, 2005 10:35 AM
#5
Pois é, Fábio! O que nos leva à curiosa conclusão de que o México quer usar como remédio a universalização da doença que ele mesmo contraiu :)
Idelber em novembro 10, 2005 10:45 AM
#6
Quando será que o México vai ter um presidente decente? A terra dos aztecas merece dirigentes melhores, né não?
Ana Maria em novembro 10, 2005 10:46 AM
#7
your critique is a bit harsh. fox's problem clearly was his unrealistic expectations of the summit. his position that "anyone who blocks an accord like this is certainly looking out for their own interests and not the interests of others" was unrealistic and unfair, not even necessarily shared by bush himself.
at the same time, did brazil and argentina really work to bar the FTAA, as venezuelan president hugo chavez clearly did? brazil has taken a very sensible and understandable position -- waiting for the outcome of the doha world trade talks in order to gain better leverage when considering a free-trade agreement.
brian em novembro 10, 2005 10:55 AM
#8
Good point, Brian; it was a bit rushed of me to collapse Mercosul's position with Venezuela's, you're right. In fact, the presence of Chávez is a blessing for Lula: it allows him to appear "sensible" and "moderate" while letting Chávez do the dirtier work of firing at FTAA. What's amazing is that in spite of his slavish attitude in the summit, Fox was not even able to get an appointment with Bush! Meanwhile Bush praised Kirchner, who has criticized the US extensively in the media: another example that if you're dealing with the US the first thing to do is to maintain self-respect. Regards,
Idelber em novembro 10, 2005 11:18 AM
Fábio S. em novembro 10, 2005 11:59 AM
#10
Cara, você disse tudo o que estava entalado em minha garganta acerca do Fox. Concordo com o Ricardo, quando ele diz que os mexicanos não merecem o presidente que têm. Agora, o fato de Fox estar fazendo beicinho não se deve por uma possível convicção de a extensão da NAFTA seria benéfica para a América Latina. É subserviência mesmo. A Alca é benéfia e necessária aos EUA, que estão com sua balança comercial pra lá de desequilibrada.
Ivan em novembro 10, 2005 12:13 PM
#11
50%, Fábio! Uau, isso é que eu chamaria de "livre comércio"... Frase tirada do link deixado pelo Fábio: Wal-Mart today controls 50 percent of the grocery sales in Mexico, which is just staggering. The idea that a foreign company would control half of the grocery sales in Mexico must be a source of enormous frustration to local retailers. Someone's been hurt, of course you have a lot of casualties .
É isso, Ivan. O que moveu Fox foi mesmo a vontade de remendar a mínima dignidade que ele manteve durante a Guerra do Iraque. . .
Idelber em novembro 10, 2005 12:35 PM
#12
Nao acho que seja subserviencia aos EUA nao. Eh uma estrategia bastante pensada e que jah vem sendo implementada pelo Mexico ha algum tempo. O Mexico passou pelo impacto de abertura de mercado e tem empresas bastante competitivas para investir no resto da America Latina. Sem falar que adquiriram experiencia no mercado americano. Isso da ao Mexico alguns anos de vantagem em relacao ao resto da regiao e, claro, eles querem explorar isso em seu beneficio, assim como o Brasil tambem o faria se tivesse a oportunidade. A ideia do Mexico eh funcionar como uma "ponte" entre os EUA e a America Latina em termos comerciais.
Mas tambem acho o Fox um inepto, desastrado e completamente despreparado presidente para o Mexico, um pais que eu amo de paixao. Sem falar em todas as consequencias negativas do NAFTA que o Idelber apontou.
BB em novembro 10, 2005 12:41 PM
#13
Alô para todos.
Dois pontos:
O México fica ao lado dos EUA.
O México está apenas vivendo os efeitos do Neo-Liberalismo.
Revogam-se as disposições em contrário!
P.S. Alguém esperava mais do presidente daquele país do que representá-lo protocolarmente?
VIVA MEXICO!
Paulo Zobaran em novembro 10, 2005 12:55 PM
#14
Olha eu concordo com o BB. O que se tem dito não é que o México é o país que mais cresce na América Latina hoje? cerca de 8% ao ano se não me engano. Eu acho que a jogada do México é a mesma dos EUA com o NAFTA. O Brasil poderia concorrer com o México? Acho que não.
Mas que o Fox é "tosco" isso é.
Simy em novembro 10, 2005 12:56 PM
#15
Concordo com as opiniões sobre Maradona.
Entrevistas simples. Espero que siga em frente e se torne uma referência pela sua luta contra a droga.
Demorou bastante e espero que a vitória se confirme. A batalha é eterna, até os pênaltis contra o Senhor.
O Aluno em novembro 10, 2005 1:52 PM
#16
O México tem empresas poderosas com grandes interesses no Brasil (Telmex = Claro, Embratel, % ignorada da Net, Vésper, etc, e a CEMEX, gigante cimenteira). Um problema que ocorreu lá é que mesmo estando do lado dos EUA eles perderam um monte de investimento americano para a China.
Outra coisa. Aqui no Brasil, além da própria Wal-Mart, que tinha uma abordagem de crescimento orgânico mas resolveu partir para a ignorância comprando o Bompreço e agora o Sonae, temos Carrefour, que é uma rede francesa, e Pão de Açúcar (que comprou o Sendas), que agora é 50% do Casino, outra rede francesa. Restam poucas redes de peso que sejam nacionais. Não me espantaria se em breve chegarmos aos 50% de internacionalização do varejo brasileiro.
smart shade of blue em novembro 10, 2005 6:02 PM
#17
Ah, acrescento que não vejo tragédia na desnacionalização do varejo em si, que afinal não é propriamente um "setor de ponta" ou "portador de futuro" (embora seja mais sofisticado do que muita gente acha). O diabo é a concentração.
smart shade of blue em novembro 10, 2005 6:04 PM
#18
Amigos. Acho que Chávez tem razão. Será?
Quanto a desnacionalização de empresas, houve nas privatizações uma absorção pelo nosso país de capital verdadeiramente "turista". A Embratel foi comprada pela primeira vez por uma empresa que quebrou nos EUA, na safra das empresas que fraudaram balanços, como a ENRON, que também não nos deixou saudades. O Banco Bilbao (BBV) também participou em um investimento relâmpago em banco brasileiro (já foi embora).
O presidente Chávez diz que Fox é filho do Império (Globo;11/11) e tem uma certa razão (se bem que eu acho que não fica bem que ele diga). O 'capitalismo' do México está representado em nosso país é por investidores que são sub-capitalistas! Assim como o capital portugês e em certa medida o capital espanhol. Portugal por exemplo está quebrado e suas empresas estão entregues novamente a burguesia salazarista, que voltou a comandar as empresas que anteriormente tinham sido expropriadas (a Portugal TELECOM é praticamente uma repartição que abriga todos os ex-alguma coisa naquele país).
Os investidores ERON, Telefonica de Espanha, Banco Santander e Banco Bilbao, ente outros, vieram investir no Brasil em uma estratégia visivelmente CONSENTIDA pelo centro do capitalismo mundial. A EDF francesa, uma empresa estatal, no capital da Light é uma clara EXCEÇÃO.
O possível envolvimento de petistas e Marcos Valério sobre a Portugal TELECOM, só foi verossímel porque a empresa é uma sinecura da família Espírito Santo como os fatos comprovam (se fosse uma empresa com administração profissional NÃO HAVERIA A SUSPEITA).
Se não se praticar um capitalismo em que a MAIORIA das empresas seja aberta e de capital pulverizado, o presidente Chávez terá razão!
E os presidentes mexicanos (e não só este último) acabam sendo um representante de mexicanos ricaços que são donos de empresas mexicanas.
Há o capitalismo e o capitalismo periférico. E sempre que o nosso presidente diz que vendeu o Brasil no exterior (no bom sentido! por favor) ele em geral "vende" as grandes empresas brasileiras (dos ricaços, muitas formalmente 'empresas abertas') e filiais de empresas multinacionais. MAS PELO MENOS CRIA EMPREGOS NO PAÍS! Dessa forma a participação de capital estrangeiro em supermercados não é das piores coisas.
É duro, mas um cara tosco que nem o Chávez está criticando um outro também tosco como o Fox e a crítica do venezuelano tem base! Saudações.
[Ficou extenso]
Paulo Zobaran em novembro 11, 2005 6:52 AM
#19
Apenas uns pitacos rápidos pq já estou atrasado para sair para a labuta...
A concentração de 50% de um mercado de "groceries" na mão de UMA SÓ empresa leva ao "power shift" que atualmente ocorre no México e em menor escala nos EUA. Wal-mart suga o sangue dos fornecedores locais até exauri-los e então passa a comprar na Asia. E depois vende para você que perdeu o emprego na produção local por causa dela.
Os empregos gerados por uma Wal-mart são bastante questionaveis tanto na quantidade como na qualidade. Pela primeira temos que ela não absorve de modo nenhum o excedente gerado devido a sua altissima produtividade. Pela ultima, que uma pesquisa rápida poderia confirmar, temos que o emprego gerado é quase sempre pior no tocante a salarios e beneficios.
Wal-mart é um rolo compressor que possui um poder de fogo amparado em seus 250 bilhões de dólares de faturamento. Fiz as contas e caso mantidas as taxas de crescimento atuais do Brasil e da própria, temos que em 10 anos a Wal-mart vai possuir um faturamento mundial igual ao PIB brasileiro, cerca de 750 bilhões de dólares.
É a globalização yankee. Quem quer, entregue o mercado. E quem não quer, leva bomba na cabeça.
Fábio S. em novembro 11, 2005 9:07 AM
#20
Caro Paulo,
Desculpa, mas nao entendi o seu ponto. Ser capitalista eh malvado, nao podemos deixar. Mas tambem ser "sub-capitalista" eh malvado e tambem nao podemos deixar. Por que os empresarios americanos sao "capitalistas" enquanto os mexicanos sao "sub-capitalistas"? Sao todos iguais pelo que me parece. A unica coisa que os diferencia eh a escala de investimento.
E eu nao sabia que o capitalismo internacional tinha "consentido" as empresas mexicanas a investirem em outros paises (quem consente?). Ao que me parece, eh da natureza do capitalismo fazer isso, nao importa que empresa voce seja --- se tiver capital e condicoes, voce vai tentar se expandir. Os investimentos mexicanos (bem grandes) -- e "subcapitalistas" como voce diz -- geram empregos pra caramba no Brasil.
O smart tem toda a razao quando fala da concentracao ser o problema (e eh realmente), mas nao tenho o menor problema em ver investimento e empregos gerados no pais seja por mexicanos, americanos ou tibetanos. Nao acho que os nossos empresarios sejam muito melhores.
Abraco.
BB em novembro 11, 2005 11:14 AM
#21
Amigos
O ideal seria perguntarmos ao próprio Adam Smith! Gostaria de argumentar, concordando no principal com Fábio S.:
Que o investimento em supermercados por parte de investidores estrangeiros no Brasil não representa problema, se a legislação e o CADE atuarem!
Já houve uma situação de concentração de participação de uma empresa em uma área. Foi na área metropolitana de Salvador: Paes Mendonça (e UNIMAR, marca de fantasia dos filhos do Paes Mendonça) x Estado da Bahia (ACM). O ACM instalou a 'cesta do povo', tomou outras medidas e o mercado de Salvador, depois de algum tempo e em certa medida, se pulverizou.
Caro BB: O capitalismo é praticado no G8! Falei sub-capitalismo, mas poderia enquadrar como Neo-Imperialismo (sendo os países do terceiro mundo - ou os que não são do G8 - submissos aos imperialistas). O capitalismo é concentrador.
O México sofre uma tremenda pressão norte-americana e 'de vez em sempre' ganha umas migalhas.
Na crise do México de 1982 várias empresas brasileiras de MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS quebraram, em virtude de as empresas mexicanas não terem pago. No episódio parecia até que os EUA empurraram o México ladeira à baixo, para deixar de comerciar com outros países.
No capitalismo tem disso!!!
Dizer que o CAPITAL INTERNACIONAL consentiu em que alguns investidores periféricos participassem das privatizações brasileiras (e argentinas), é constatar quem foram os investidores nestas ocasiões. No caso brasileiro só me lembro de uma empresa de primeira linha, a EDF! No capitalismo também tem disso.
Amigos, é o que eu penso.
Abraços
Paulo Zobaran em novembro 12, 2005 8:20 AM
#22
fox e chaves
extremos de uma mesma américa
chaves que não abrem portas
tvs com programação de terceira
@ em novembro 12, 2005 5:07 PM
#23
Quando li seu relato da perda dos posts, lamentando mais a perda dos coment´rios, acjei que era gentileza e exagero, até brinquei com isso; mas esse debate inspírado no seu post foi muito bom, mestre Idelber! Fox realmente está vendo o México abandoná-lo sem pena, e cometeu um erro imperdoável: falou mal de Maradona para os argentinos (!!!!). Notei o tamanho do pecado cometido por ele quando ouvi a comentarista do Clarín, Eleonora Gozman, discorrer sobre o absurdo que é atacar o Maradona. Acho que, hoje, é o único consenso entre os argentinos.
S Leo em novembro 17, 2005 3:20 PM