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quinta-feira, 24 de novembro 2005

Reflexões sobre o Conto

conto-joyce.jpgconto-borges.jpgconto-poe.jpg


(este é um post antigo, dos primordios do blog, e foi utilizado para uma aula "virtual" aos alunos de Cipy Lopes em Salvador. Vai aí republicado, com poucas alterações, pois acho que pouca gente o conhece).

Os dicionários dizem: conto é uma curta narrativa de ficção em prosa. Hoje em dia, máximo 25 páginas. Mais que isso já vira novela. Mas qual é a essência do conto como forma?

Tomemos o microconto mais ilustre, o do guatemalteco Augusto Monterroso:

Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá.
* *

O que faz com que o texto de Monterroso seja um conto, apesar das parcas oito palavras, é a presença de duas temporalidades: a do cochilo do cara e a do dinossauro ainda estando lá.
* *

O argentino Ricardo Piglia tem uma tese: um conto sempre conta duas histórias. As diferentes épocas escolhem diversas formas de relacionar as duas histórias.

Para exemplificar, tome-se uma anotação do contista e dramaturgo russo Tchekhov: um sujeito chega numa cidade, instala-se num hotel, vai ao cassino, ganha um milhão de dólares, volta ao hotel e se suicida. Aí você tem um conto porque normal seria o cara ganhar e fazer outra coisa, ou perder e suicidar-se, mas ganhar e depois suicidar-se é insólito. Por ser insólito, o evento dissocia as duas histórias. Há a história da viagem/jogo e a história do suicídio. Pois bem, o que é um conto do século XIX?

O mestre do conto do século XIX é Edgar Allan Poe, que em 1840 e poucos, tiritando de frio na Filadélfia, pobre que só vendo, tendo que queimar a própria escrivaninha para se aquecer, inventou nada menos que a narrativa policial, a narrativa de horror e a ficção científica.

Um conto do século XIX relata a história da viagem, mudança, instalação no hotel, ida ao cassino, vitória e tudo mais de forma a dissociá-la completamente da outra história, a do suicídio. Há uma história visível (a viagem) e uma história secreta (o suicídio).

O bom contista é o que lhe conta a história 1 sem que você suspeite a história 2 que vai explodir no final. O bom leitor é aquele que aprende as manhas dos escritores para esconder a história 2 na história 1. Esse é o jogo gato-e-rato da literatura do século XIX. Autores e leitores se cansam desse jogo por volta de 1910-20, a porra toda explode e começa-se a contar contos de maneira muito diferente.

O que é um conto do século XX? É um relato em que a história 2 (a secreta) já não está embutida invisível na história 1, já não é um enigma que se revelará no final para arredondar a coisa bonitinho. O que faria o escritor moderno com a anedota de Tchekhov?

James Joyce narraria a história da viagem arrastada, sem esperança, tanto que quando chegasse a história do suicídio você já nem ligaria que o cara está se suicidando. Destruição total do efeito catártico.

Hemingway simplesmente não te contaria que o cara suicidou. Daria alguma pista, mas no mais, contaria o conto da viagem. Em detalhes secos, onde tudo é um puro acontecer sem significar. Você terminaria o relato com cara de “Que porra é essa?” porque você poderia até não ter entendido que o sujeito se suicidou. É como se não tivesse acontecido nada.

Kafka é o mais incrível, ele inverteria a história 1 com a 2. Contaria a história da morte como se fosse o mais banal, como se fosse a descascada de uma laranja. O horror seria totalmente transferido para a história 1 – a partida para o hotel – narrada de forma terrorífica e ameaçadora.

Jorge Luis Borges contaria a história 1 como se ela já tivesse sido contada mil vezes. Tudo seria tirado, parodiado de algum lugar. Até que no final o sujeito encontraria no suicídio uma verdade não revelada pelos livros que tinha lido.

Há outras mil variantes, claro.

No Brasil, o mestre em contar a história 1 enquanto esconde a história 2 é Machado de Assis. Muitos conhecem Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cubas, seus romances famosos. Mas a arte inigualável de Machado está no conto. Para ver algumas obras-primas, é só conferir Papéis Avulsos ou Histórias sem Data.

A melhor contística do mundo, para mim, é a da Argentina, infelizmente ainda pouco traduzida entre nós.



  Escrito por Idelber às 02:25 | link para este post | Comentários (23)


Comentários

#1

Bacana a republicação deste post, Idelber. Foi uma experiência e tanto, hein? Educação a distância via blog. Amanhã faz um ano esta aula inovadora. Valeu!!!

Bjos,

Cipy em novembro 24, 2005 5:37 AM


#2

Puxa! Há outras jóias como essa lá no começo do teu blog? Faça-as aparecerem como recapitulações das histórias 1 ou Primeiras Histórias.

Conforme informo no blog, viajo hoje. Na volta, Inter campeão (sei lá como), Grêmio na segundona, Dirceu cassado e Galo salvo. Tranqüilo. Não sei sei blogarei em viagem. Talvez umas linhazinhas...
Como leio todos os teus posts desde...? - vou ter bastante trabalho aqui na volta.

Abração e tchau.

Milton Ribeiro em novembro 24, 2005 6:36 AM


#3

Fiquei pensando sobre como Raymond Carver jogaria com as duas histórias. Gosto muito deste contista seco. Também divaguei sobre Sergio Faraco, que contaria a h1 com as palavras da tragédia/solução/redenção da h2, criando a atmosfera de estranheza que o liga aos teus queridos argentinos, dos quais ele é tradutor.

Para mim, Faraco é o melhor contista brasileiro hoje. Curiosamente, é um cara ultra-platino.

Como vês, a coisa ficou na minha cabeça, tanto que voltei.

Agora é tchau e ponto.

Milton Ribeiro em novembro 24, 2005 8:06 AM


#4

Eu sempre achei que o melhor do Machado eram os contos, mas não tinha visto ninguém falar isso ainda;)

juliana em novembro 24, 2005 9:06 AM


#5

Esse é um texto muito bom! Fiquei pensando como Guimarães Rosa (um contista de primeira) contaria a história! Acho que seria bem semelhante a Borges, mas num espaço diferente!

Maria Andréia em novembro 24, 2005 9:33 AM


#6

Perguntas técnicas:
Existe a "necessidade" de um título para um conto?
O conto não inicia no título?
Um micro-conto não prescisaria de um micro-título?
Ou poderia ter um título enorme, já que o conto em si, é que deveria ser micro.

Gostaria de comentários sobre a necssidade de título nas diversas formas de expressão, até blog tem título para os diferentes post.

O Aluno em novembro 24, 2005 10:24 AM


#7

Amei, principalmente por ter citado Allan Poe e Kafka. You made my day! BTW, Happy Thanksgiving! (resolvi felicitar todos os meus amigos brasileiros só para não perder a piada).

Bibi em novembro 24, 2005 11:39 AM


#8

Interessante é a volta do conto na literatura brasileira contemporânea. A crítica Flora Sussekind fala da "miniaturização narrativa" na última década. Nos anos 80, veio a onda do romance, cujo exemplo é Rubem Fonseca, que deixou a narrativa curta anterior e voltou a ela mais recentemente. João Gilberto Noll escreveu um livro de contos e partiu para os romances. Agora vem publicando textos breves de ficção no Correio Braziliense. Aos poucos, reaparecem os contos. Há várias coletâneas lançadas pelas grandes editoras com escritores brasileiros. Mas a qualidade ainda está abaixo da geração dos anos 70. A professora Beatriz Resende organizou agora o livro "Literatura latino-americana no século XXI" (editora Aeroplano), que traz um contos como de Cesar Aira e de brasileiros como Luiz Rufatto e Sérgio Sant'anna.

enio vieira em novembro 24, 2005 3:38 PM


#9

Bem lembrado, Enio. E do Noll há também as "Instantâneas", publicadas na Folha e depois recopiladas em livro.

Idelber em novembro 24, 2005 4:00 PM


#10

Pois é, Juliana, eu também sempre que os contos são o auge dele, especialmente os de Papéis Avulsos e posteriores. Beijos,

Idelber em novembro 24, 2005 4:02 PM


#11

Vixe, Cipy, já faz um ano??? Este blog está ficando velho. . .

Aluno, não sei, sua pergunta está muito difícil... Mas o próprio Monterroso experimentou com títulos quilométricos também.

Happy Thanksgiving to you too, Bibi. E obrigado pelos links sempre maravilhosos.

Caríssimo Milton, Carver é outro que poderia entrar na lista, né? Eu teria que pensar um pouco sobre como ele narraria essa anedota. E Guimarães também, Maria Andréia.

Abraços,

Idelber em novembro 24, 2005 4:04 PM


#12

Maravilha de aula ! Vou atrás dos links e das sugestões. Concordo com o Milton: se tem mais dessas aulas lá nos primórdios do Biscoito, por favor, reprise. Abs.

PatriciaSK em novembro 24, 2005 4:22 PM


#13

Chegar atrasado só dá nisso. Muito bons seus posts antigos do biscoito. Proponho você reprisar, at least, um por semana, que tal?

Quando vi o retrato do Poe no início tinha certeza que vinha coisa boa. Tive o primeiro contato com Poe no primeiro ano do colegial por intermédio da biblioteca da escola. Imediatamente me apaixonei pelos contos do cara. Então pulei direto ppara os do Borges e daí sigo adorando contos desde então. A rapidez, a precisão, a concisão e a compacta forma do conto me fascinam.

Não sei porque os contos vendem tão pouco no Brasil. Os romances vendem bem mais. Isso me intriga, afinal, temos muito mais excelentes contistas do que excelentes romancistas, in my humble opinion.

Abs.

Edk em novembro 24, 2005 7:07 PM


#14

Maravilha de post!!! Muito bom mesmo! Delicioso de ler e super instrutivo, para blogueiros com pretensoes ou nao... ;-)

Beijoes e até amanha em nossa blogagem coletiva cobre violencia contra mulher.
Vanessa

Vanessa em novembro 24, 2005 7:44 PM


#15

ops, Sobre violencia contra a mulher...

Vanessa em novembro 24, 2005 7:45 PM


#16

Obrigado, Vanessa e Patricia :)

Edk, acho que aí é relativamente fácil explicar. Há uma mentalidade, problemática, claro, mas muito disseminada, de que o conto é uma "arte menor", de que "exige menos" que o romance, que seria supostamente uma forma mais "madura". Bobagem, claro, mas que provoca uma valoração estética diferenciada entre os dois gêneros. A coisa mudou muito nos últimos anos, mas não era raro encontrar editores que diziam que livro de contos era "inviável comercialmente".

Abraços,

Idelber em novembro 25, 2005 3:54 AM


#17

O conto é o trabalho intelectual. O romance o trabalho braçal. [não levem tão a sério :)]

Axel em novembro 25, 2005 12:56 PM


#18

Idelber,
bacana demais o programa da Rede Minas sobre rock e literatura, hein?!
Tive contato com a maioria do pessoal ali, o professor Dolabela, o Thiago Pereira, vizinho de rua...
Só uma pergunta, aliás, duas: onde você gravou seu depoimento? Na escada do seu prédio?rsss

Mudando de assunto e voltando a última: crê no milagre?

Penalva em novembro 26, 2005 12:36 AM


#19

Penalva o depoimento foi gravado nas legendárias escadarias do Teatro Francisco Nunes, heheh.

Quanto ao nosso Galo, estou em compasso de espera.... Quando eu falo de mais dá azar...

Idelber em novembro 26, 2005 2:14 AM


#20

aconteceu comigo:

era uma tardezinha fria, cinzenta. eu sentado - banco de praça. vem uma mulher, 40 e poucos anos. chorava. me pediu um táxi. levantei, chamei o primeiro que vi, conduzi. ela entrou, pediu companhia. no táxi silêncio, mãos dadas, um ou outro soluço. percurso sem curso certo. quase uma hora passada - pediu que o táxi parasse, agradeceu, me deu um beijo, pediu que eu saísse. pela janela do carro ainda disse: moço, toda saudade é uma espécie de velhice.

e agora idelber
me diga lá se vc mata essa

@ em novembro 26, 2005 9:58 AM


#21

parabéns, gostei da forma como tratou de exemplificar o conto do século XIX, com as as possiveis criações de autores famosos do seculo XX.

silvana cosmodias em novembro 26, 2005 11:24 PM


#22

Muito interessante esse post. Nunca havia pensado nessa tese das duas histórias.

Leonardo em dezembro 1, 2005 9:29 AM


#23

Excelente!

Pedro Camargos em dezembro 25, 2005 9:36 PM