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sexta-feira, 25 de novembro 2005
Violência contra a mulher

Hoje é o dia internacional pela eliminação da violência contra a mulher e o Biscoito é parte da conversa.
Estima-se que no Brasil a cada dia uma mulher é assassinada pelo seu companheiro. De cada três mulheres do mundo, uma já sofreu espancamento ou abuso sexual, segundo dados da ONU (link via Leiloca). 70% das mulheres vítimas de assassinato no mundo foram mortas por seus próprios maridos.
Os números não devem chegar a surpreender ninguém, mas é útil recordá-los àqueles que estão sempre prontos a criticar e ridicularizar o dia da consciência negra, o dia da mulher ou o dia do índio. Para eles, o macho adulto branco no comando também deveria ter o seu dia, ou não deveria haver dia para ninguém: trata-se, claro, de uma forma de negar o problema e tentar escondê-lo.
Há uma série de formas de violência que vitimam especificamente, ou prioritariamente, as mulheres. Das mais nefastas, o estupro: estima-se que menos de 10% dos estupros aparecem nas estatísticas, por razões que qualquer vítima entenderia muito bem.
Em anos de trabalho próximo ao núcleo de mulheres do PT-MG, pude constatar o calvário que é fazer um boletim de ocorrência de estupro no Brasil. Há uma perversa lógica machista que torna a vítima de estupro, por antecipação, uma ré num tribunal onde os juízes são invariavelmente homens que jamais pararam para refletir um minuto sobre o que deve ser passar por essa experiência: "O que você estava vestindo?", "Você o provocou?" "Você disse ou deu a entender algo que o possa ter levado a fazer isso?" Se a vítima, por qualquer razão, demora para denunciar, esse próprio intervalo já é outro motivo de suspeita: "Por que só denunciou agora?" E por aí vai. Quando nos damos conta, a vítima já está no banco dos réus. As delegacias de mulheres têm sanado, muito parcialmente, esse problema.
Há um belo livro recente coordenado por Cecília de Mello e Souza e Leila Adesse que oferece um estudo detalhado do porquê do silêncio sobre a violência sexual no Brasil. Naturalmente, aqueles que condenam as mulheres que fazem abortos clandestinos (ao invés de lutar para que o aborto deixe de ser ilegal) refletiram pouco sobre qual é o contexto no qual uma mulher estuprada é obrigada a narrar sua história para conseguir abortar legalmente.
Uma vez, quando eu descrevia a alguém um quase-estupro sofrido por uma conhecida, o primeiro que escutei foi: É.... fulana é muito bonita. Naquele contexto, o elogio da beleza da vítima me pareceu a coisa mais ignóbil. Avalizava o estuprador. Encerrei o assunto antes que aparecesse a pergunta sobre se a vítima estava de mini-saia.
Mil outras formas de violência contra a mulher têm lugar não nos atos, mas na linguagem. São formas diferentes de violência e como tais devem ser tratadas. A essa distinção, e à dificuldade de fazê-la em determinados contextos, a feríssima Judith Butler dedicou um belo livro, sobre palavras que ferem.
Este blog critica, com freqüência, a política externa, os costumes, a estrutura política e a ideologia dominante nos Estados Unidos. Mas na questão da prevenção e punição da violência contra a mulher, nos atos e na linguagem, o Brasil ainda está anos-luz atrás do que já se conseguiu nos Estados Unidos. No Brasil ainda se faz, por exemplo, humor dizendo coisas como hoje as meninas querem dar para o crioulinho que elas acham bacana, coisa da qual, nos EUA, ninguém acharia graça. No Brasil, quando as "meninas" ou o "crioulinho" se ofendem, em geral escutam que são culpados de "patrulha". Seria bom se os que querem sempre imitar os EUA no "livre mercado" e na "cultura capitalista" tentassem imitá-los também no terreno da consciência sobre os efeitos dos discursos racistas ou sexistas.
Apesar de que pessoalmente acho que nenhum discurso deve ser objeto de censura (sou a favor, por exemplo, de que grupos nazistas tenham liberdade de expressão, pois proibi-los só alimenta a mística do martírio da qual eles se nutrem), acho que os que reclamam de "patrulhamento" contra suas bobagens sexistas ou racistas são, pura e simplesmente, uns hipócritas.
Estupro e discurso sexista são coisas bem diferentes, mas assim como na delegacia onde a duras penas uma vítima tenta relatar um crime, também na violência "meramente" discursiva com freqüência opera-se uma inversão. Assim como o estuprador em geral foi "provocado", o agressor lingüístico em geral se adianta para apresentar-se como o "patrulhado".
Neste, como em outros casos, não custa ouvir a vítima real.
Sobre assuntos relacionados às mulheres, sua saúde e a violência contra elas, o Biscoito já escreveu aqui e aqui. Sobre o uso de tortura sexual contra mulheres nos porões de regimes autoritários ou democráticos, pode-se ler o primeiro capítulo desse livrinho meu.
Este post é parte de uma blogagem coletiva. A lista de blogs participantes está lá no Síndrome de Estocolmo.
Escrito por Idelber às 01:38 | link para este post
| Comentários (26)
#1
Caro Idelber
Contra a violência. Sempre!
P.S.
- Acredito caro Idelber que não estejamos em nada, 'anos-luz atrás dos EUA'. Há em nosso país, por exemplo, uma intolerância da Sociedade em relação a TORTURA.
Desculpe talvez seja coisa para se falar em outro dia, outra oportunidade, mas não consigo entender como os EUA tolera coisa como Guantanamo.
Paulo em novembro 25, 2005 5:58 AM
#2
Caro Idelber
Fiz questão de levantar esta bandeira hoje, juntamente com diversos blogueiros.
Infelizmente muito ainda teremos que lutar para este abuso ter fim e estas estatísticas passarem bem longe do chamam hoje de aceitável.
Qualquer forma de discriminação é uma afronta ao SER HUMANO, ao seu modo de pensar e agir.
Mas a violência contra a mulher só vai diminuir quando NÓS denunciarmos!!! Quando os olhares, piadinhas e comentários numa delegacia não nos afetar (o que nunca deveria ocorrer), quando acharmos que denunciar violência não é humilhação e sim defesa.
Obrigada amigo, em nome das mulheres, pela força!
Beijão.
Sandra em novembro 25, 2005 10:19 AM
#3
tô nessa também. Abaixo qq tipo de covardia
gugala em novembro 25, 2005 11:26 AM
#4
Não preciso nem dizer que o post está consistente e super informativo, porque isso é praxe no Biscoito... Só queria registrar o que mais me immpresisonou, dentre todos os dados coletados: "70% das mulheres vítimas de assassinato no mundo foram mortas por seus próprios maridos". ???? Meu Deus, o que é isso, que mundo é esse?
(Em tempo: não tenho muita certeza se o mundo está piorando ou se agora a gente sabe de coisas que não sabíamos antes da imprensa globalizada, mas isso não importa diante da gravidade do fato.)
Bjs
Monix em novembro 25, 2005 11:49 AM
#5
Querido Paulo: há uma Guantánamo em cada delegacia de polícia de bairro pobre no Brasil.
Intolerância em relação à tortura? A regra aqui é que nem tenhamos notícia que ela acontece, porque as vítimas são sempre pretos e pobres. Eu, de família de advogados e delegados, sei do que lhe falo. Tome o que você puder imaginar, e o quadro será muito pior.
Idelber em novembro 25, 2005 12:45 PM
#6
Sim, não quero desmerecer os outros posts sobre o assunto, afinal todos querem a mesma coisa (o fim desses abusos contra a mulher, mas quero dizer que é muito bom ler um texto escrito por um homem sobre esse assunto. Um texto livre de preconceitos, acessível, indignado, lúcido, solidário. Fico feliz de ler você. Feliz em saber que existe um homem como você. Porque você tocou na ferida: os homens das delegacias, dos tribunais podem até não estuprar as mulheres, mas as condenam mesmo assim, numa inversão de valores, numa camaradagem masculina fora de limite ou razão.
Mais uma vez obrigada. Como leitora, como mulher.
Um beijo,
Luciana.
Luciana em novembro 25, 2005 1:18 PM
#7
Idelber,
parabéns pelo post.
hoje e um dia de luta e luto, hoje me lembro que parei de usar decotos em pleno rio de janeiro por ter sido cantada pelo sogro, e como isso me feriu, me lembro da sensação de ter sido agarrada por um colega de trabalho porque ele estava bebado e me achava bonita e simpatica.
maria em novembro 25, 2005 2:09 PM
#8
Brother, com certeza esta é uma triste realidade em que vivemos e atravessamos, toda discussão contra o racismo e violência contra a mulher deve ser abordada e rediscutida, para que seja incutida nas pessoas que toda forma de raciscismo é uma forma de exclusão predatória, e toda violência gera violência, parabéns por trazer à tona este enredo e parabéns pela defesa da Campanha. Abraços !
Adriano em novembro 25, 2005 2:32 PM
#9
Para variar, excelente texto. A questao da violencia sexual é terrível. Aqui no Peru, onde moro, uma coisa que tem me chocado é o número de meninas estupradas por seus professores e orientadores ecolares. Praticamente todos os dias tem uma caso novo no jornal. Inacreditável. Parabéns pela abordagem tao lúcida e tao sensível.
Abracos,
Vanessa em novembro 25, 2005 3:42 PM
#10
Idelber, sinto-me como disse a Luciana, revoltada com o tipo de homem que, embora não violente fisicamente, o faz psicologicamente. E vc é um dos que se levantam contra esta violência que envergonha o gênero. Falo sobre a Campanha do laço branco em meu blog. Precisamos ensinar as crianças e conscientizar os jovens à não-violência á mulher.
abraço, garoto
Anonymous em novembro 25, 2005 4:46 PM
#11
Ops, desculpe, o post acima é meu! hehehe
denise em novembro 25, 2005 4:47 PM
#12
Idelber, lindo post. Acho importante lembrar que a violencia extrema começa com um ciume doentio, que leva a um tapinha, um murro e chega ate à morte. É preciso denunciar desde essas ações pequenas, só assim se consegue a prevenção.
Beijo querido
BethS em novembro 25, 2005 6:28 PM
#13
A Mulher tem que viver livre da violência, ponto crucial para se criar um Mundo baseado na cultura de respeito aos Direitos Humanos.
Ana Frank em novembro 25, 2005 7:29 PM
#14
Faço minhas as suas palavras, não tive forças para postar. Belo post ainda mais que você associou a questão da mulher à questão dos afrodescendentes. Beijão.
Ana Lucia em novembro 25, 2005 7:31 PM
#15
É Idelba, infelizmente aqui no Acre não temos muito o que comemorar neste quesito. Afinal , somos um dos campeões nacionais de violência contra a mulher. Sei porque trabalho no sistema.
A Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher aqui do Acre é cheia todos os dias de todas as semanas de todos os meses do ano. Faça chova ou faça sol, os homens acreanos, covardemente agridem suas mulheres.
O pior é que carecemos de estudos que nos apontem as causas e as saídas para esta situação horripilante. Não sabemos se a herança patriarcal do passado nordestino associado às misturas que existem aqui, contribuem para este fato.
O machismo (da pior estirpe) é norma, não exceção. Conheço amigas minhas que são agredidas e nem ao mesmo pensam em denunciar (e dizem que me matariam se eu agisse). Para a minha mente limita é impossível entender como uma mulher espancada não procura proteção e condenação de seu algoz. Mas, o fato é que a demanda é tremendamente maior do que a oficialmente contabilizada.
Há mulheres que têm vergonha por estar na delegacia praticamente todo fim de semana devido aàs agressões e ameaças do companheiro. Diante disso, deixam de procurar a polícia e a proteção.
A única notícia boa é que estamos nos mobilizando para tentar reverter este triste caso. Existem centros que cuidam e protegem das mulheres vítimas de ameaças mais graves e um cuidado especial com estas vítimas.
Conheço seres abjetos que se vangloriam de baterem em suas companheiras. Acredita? Vangloriam-se! É um escândalo! Em pleno século XXI.
Posso parecer piegas (e estou sendo), mas, sou do tempo em que em mulher não se batia nem com flor. E nada me fará mudar!
Abs. Belo e esclarecedor post.
Edk em novembro 25, 2005 8:24 PM
#16
Idelber, em relação à violência verbal, acredito que o maior desafio a ser vencido é criar nos homens uma empatia com a vítima. Conheço muitas pessoas que repudiam completamente a violência física às mulheres, mas contam piadas machistas. Condenar as piadas, simplesmente, não têm muito efeito prático. "É só uma piada" é a provável resposta que você receberá. Acusar os homens em geral de machistas, por exemplo, só vai alienar uma boa parcela que poderia vir a compreender o problema, se o mesmo fosse abordado de outra forma.
Por exemplo, seguindo um de seus links, para o próprio Biscoito, encontrei o guia "Como inventivar mulheres a usarem e permanecerem no Linux". Nesse guia, que é muito bom, constam muitas situações que eu passei, como estudante do curso de Ciências da Computação e homem. Mas só depois de ler o texto, pude conhecer o lado da vítima, saber o que elas provavelmente sentiram em cada situação dessas. Lendo o guia tive certeza que fiz algumas colegas passarem por situações constrangedoras, mesmo não tendo a intenção de fazê-lo.
Fazer o agressor criar empatia com a vítima pode ser difícil, e dar bastante trabalho, mas acredito ser a melhor forma de combater a violência verbal.
Abraço.
Ricardo Antunes da Costa em novembro 25, 2005 8:38 PM
#17
Cara, sem querer menosprezar os outros assuntos, deixei-me levar por sua paixão, por que não dizer a minha, pelo Galo! Literatura, ensaios e afins são coisas que me interessam extremamente, mas me encantei profundamente pela página do Galo. Li algumas outras, muito interessantes, assuntos pertinentes e profundos; mas a do Galo é incomparável. Sigamos em frente e não nos esqueçamos da frase de Roberto Drummond. Vou procurar sempre navegar pelo seu blog. Abraços, alvinegros! Dri
adriana em novembro 25, 2005 10:34 PM
#18
Idelber, excelente post, muito obrigada, de coração.
Leila em novembro 26, 2005 12:46 AM
#19
Amigos, amigas, uma notinha só para avisar que as mensagens foram lidas todas, com carinho, e que o dia foi cheio e portanto não vai dar para responder uma a uma. Me alegro de que gostaram ;)
Adriana, este é um blog atleticano, esbalde-se. Já viu esse link?
http://www.tulane.edu/~avelar/galo.html
De nada, Leiloca, you deserve it. Feliz thanksgiving aí.
Maria, ouvi sua história. Obrigado pela coragem de relatá-la. Abraços a todos,
Idelber em novembro 26, 2005 2:16 AM
#20
Os links que você oferece nos posts são sempre muito informativos, um primor!
Belo post.
Daniela em novembro 26, 2005 7:59 AM
#21
Idelber, parabéns pelo post.
Sem dúvida nenhuma, como mulher, como ser humano só tenho que fazer coro a todos que tem coragem de levantar a voz e lutar contra qualquer tipo de violência e preconceito.
Sobre violência verbal, tem um post muito bom lá no Menina Prodígio em 18/10/05 com o título Psiu, Psiu.. infelizmente não sei linkar ... Abraço
PatriciaSK em novembro 26, 2005 1:38 PM
#22
Pessoal, o post a que se refere a Patricia - excelente mesmo - é este aqui. Por alguma razão, eu pelo menos só consigo visualizar o blog da Menina Prodígio no IE. No Firefox a página fica cheia de caracteres estranhos. Valeu a dica, Patricia :-)
Idelber em novembro 26, 2005 2:11 PM
#23
Olá, sou nova no seu pedaço e fiquei encantada com o que li. Fiquei freguesa. Também participei da postagem coletiva. Abraço.
Teresa em novembro 27, 2005 5:35 AM
#24
Fantastico esse post, Idelber! muito obrigada por ter participado da blogagem... e fiquei curiosa pra conhecer seu livro :) beijão!
Denise Arcoverde em novembro 27, 2005 10:22 PM
#25
Idelber a solução para você poder visualizar o blog da menina-prodígio no Firefox é simples.
Clique no menu "exibir", opção "codificação" depois selecione "Unicode (UTF-8)".
Voilá. Não se preocupe, tudo dará certo.
Abs.
Edk
Edk em novembro 28, 2005 8:41 PM
Robert Taylor em dezembro 23, 2005 5:36 PM