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quinta-feira, 12 de janeiro 2006
Notícias de New Orleans, pós-Katrina
Eu ainda não andei o suficiente pela cidade, portanto o que vai aqui são as primeiras impressões. Primeiro, um mapinha para que vocês entendam a coisa:

Só a área ao longo do Rio Mississippi (de ambos os lados) escapou da destruição. Essa é a área a que está reduzida a vida "normal" da cidade, com energia elétrica, comércio, bancos e todo o demais funcionando com normalidade. Tulane University é essa área branquinha do lado esquerdo do mapa, na região chamada de uptown. Foi atingida, mas não da forma devastadora como as regiões inundadas pela água que vazou do lago. Muita gente duvidou, mas a universidade se reestruturou, eliminou alguns programas de pós-graduação (o nosso, em literaturas e culturas latino-americanas e ibéricas, continua firme e forte), mandou funcionários embora e está pronta para reiniciar atividades na próxima terça - tudo ainda um pouco caótico, mas o simples fato de que já vamos começar as aulas é, em si mesmo, espantoso.
No resto da cidade, a coisa é bem diferente. Toda a área próxima ao imenso lago Pontchartrain foi quase que totalmente destruída. Pouca gente de lá voltou. As pessoas que perderam suas propriedades têm direito a um trailer do governo - o drama é que elas devem estacionar os trailers no seu próprio terreno, o que significa, na maioria dos casos, viver num lugar sem luz, sem comércio, sem vizinhos e com montanhas de detritos em volta. Não surpreende que o que mais se veja hoje na cidade seja gente com trailers sem ter onde estacioná-los. Muita gente ainda não recebeu seus trailers.
Se você traçar uma linha horizontal exatamente na metade do mapa, tudo o que estiver acima dessa linha é hoje cidade-fantasma. Mas o horror mesmo é o que está ao leste da linha vermelha.
Ao leste do Industrial Canal, está o Lower Ninth Ward, berço de uma das culturas musicais mais vibrantes do planeta. O Lower Ninth tem uma peculiaridade: é um bairro de classe pobre, mas basicamente de gente que não paga aluguel - famílias negras que são donas de suas casas há gerações. Dali saíram alguns dos músicos mais brilhantes dessa genial cidade da música. Lá no Lower Ninth ainda há toque de recolher, e tudo é pura devastação. Nada indica que seus moradores poderão voltar algum dia, dada a ferocidade da especulação imobiliária que já se instalou na cidade. O bairro anda mais ou menos assim:


Leste do Lower Ninth estão os bairros de St. Bernard Parish e Chalmette, também berços da grande cultura musical de New Orleans. Também essas áreas estão, basicamente, desaparecidas. Ao nordeste do Industrial Canal está a região chamada de New Orleans East - e também ali pouca coisa sobreviveu.
A população da área urbana de New Orleans antes do furacão era de 500.000 habitantes (1 milhão se considerarmos a "grande" New Orleans, incluindo os subúrbios). Ela está hoje reduzida a pouco mais de um quarto disso, e mesmo assim tudo (bancos, restaurantes, serviços públicos) está mais cheio, dada a tripinha de terra a que foi reduzida a cidade.
Sobre as responsabilidades da criminosa administração Bush nessa tragédia, este blog já disse o que tinha que dizer. A documentação sobre quantas vezes a cidade pediu verbas para a restauração dos diques é extensa. Obviamente, a esmagadora maioria dos que não podem voltar são os negros, o que é desastroso para a singular cultura de New Orleans. Na reconstrução, são latinos, contratados a salário de fome (e muitas vezes não pagos), os que fazem o serviço.
Claro que há sinais encorajadores. Uma padaria reabre ali, outra casa de show é reinaugurada acolá. Kermit Ruffins, o legítimo sucessor de Louis Armstrong, já está de volta com seu show de quinta à noite no Vaughn's, que vários brasileiros já conhecem - trata-se do primeiro lugar onde eu levo meus hóspedes. Não tenho idéia de como o cabra está dando esse show, porque o Vaughn's fica bem perto do Canal. Mas é para lá que eu vou quando terminar este post, para abraçá-lo. Eu temi muito pela vida de Kermit.
No French Quarter, o bairro turístico, a vida vai pouco a pouco voltando ao normal. No momento, o importante é ganhar a batalha política para que os verdadeiros donos desta cidade, os que a construíram, possam voltar e reocupá-la. A batalha é, naturalmente, morro acima.
PS. A todos os que perguntaram, escreveram e se preocuparam por mim: obrigado. Eu estou bem, e instalado com conforto. Ainda não sei se a metade da minha biblioteca que ficou guardada num galpão (a outra metade está no gabinete) escapou, mas tudo indica que sim, já que o galpão fica no lado oeste do rio. Quanto mais histórias eu ouço, mais eu me sinto abençoado, sortudo e protegido pelos orixás. Graças a três amigos maravilhosos, meu carro está ainda em melhores condições do que estava antes da tragédia.
PS 2. Há uma impressionante coleção de fotos de New Orleans pós-Katrina aqui.
Escrito por Idelber às 20:24 | link para este post
| Comentários (14)
#1
Idelber,
Nem imagino o quanto pode estar sendo difícil este reencontro com o que restou do que você tanto amava. Talvez seja bom um dos meus poemas favoritos de Drummond.
Beijos,
Ana
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Ana em janeiro 13, 2006 1:40 AM
#2
Idelber, por mais brutal que tenha sido a destruição, você acha que está sendo lento o ritmo da retirada dos escombros e lixo?
Leila em janeiro 13, 2006 1:48 AM
#3
Ontem, dia de nosso Senhor do Bonfim (aliás hoje pq eu ainda não dormi), tenho certeza, muitos aqui na Bahia (inclusive eu) mandaram vibrações positivas para que a galera de New Orleans se recomponha e siga em frente.
Mesmo que muitos aí não saibam o que significa axé, estou mandando um AXÉ bem grande pra galera de New Orleans.
Roberto em janeiro 13, 2006 5:27 AM
#4
Legal que você esteja num lugar agradavel e que a universidade esteja em pé, isso é o que importa em primeiro. Deve ser uma experiência muito dolorida, voltar num lugar depois de uma catastrofe assim, mesmo se tu guardes ainda boas lembranças das ruas, dos lugares. Eu imagino como esta sendo tudo isso para aqueles que viram o desastre chegar, que assistiram a cidade se transformar em lago, ser destruida. Eu nao sei se a recuperaçao ta sendo realmente lenta, mas eu acho que sim, como conceber que tem gente morando em trailer sem agua, sem luz no coraçao dos EUA ? Me pergunto também se ja tem gente fazendo turismo-catastrofe por ai também... Beijos.
Ana Lucia em janeiro 13, 2006 12:11 PM
#5
Fiquei com vontade de ouvir Kermit Ruffins, pra saber como é.
Pelo que conta, os pobres é que se ferraram nessa catástrofe, como sempre. Morar em trailer pra americano é como morar em barraco de madeira pra brasileiro, sinônimo de extrema pobreza. Mas não deixam eles pelo menos se agruparem, para não ficarem sozinhos?
Aposto que se as verbas fossem para preservar cidades de WASPs como Filadélfia ou Boston teriam sido concedidas na hora.
Te em janeiro 13, 2006 12:41 PM
#6
O departamento de business tá em pé ainda? :)
Fica complicada a minha situação agora, mas ainda sim vou falar com a Margarita e ver no que pode dar isso tudo...
Bruno em janeiro 13, 2006 5:41 PM
#7
Poxa, que péssimo isso. Mas Bush, eu esperava qualquer coisa. Eles tiram dinheiro que seriviria para as pessoas e colocam na guerra...
Maitê em janeiro 13, 2006 6:46 PM
#8
Em meio a descrições da tragédia, Idelber, você traz algumas boas notícias. Principalmente que você está bem, seu curso continua, seu ânimo parece alto. Abraços. (Quando volta a BH City?)
Cláudio Costa em janeiro 13, 2006 8:36 PM
#9
Que bom e que mau! Que bom que você acha que seus livros estão bem, quando falei com você em JF, fiquei com o coração apertado de pensar sua biblioteca indo pro lago! Que mau que a vida de tantas pessoas tenham ido para o ralo! Os livros podem ir para o lago da memória afetiva, mas as vidas vão mesmo para os ralos, esgotos, dejetos!
Maria Andréia em janeiro 13, 2006 8:55 PM
#10
E como estão as eleições chilenas! Você é meu comentarista político preferido. Não porque concorde com tudo, mas o acho instigante!
Maria Andréia em janeiro 13, 2006 8:58 PM
#11
Idelber, andei sumida daqui mas estou feliz que vc vai voltar a trabalhar e que a cidade está se reconstruindo...
Que venham muitas músicas, muitos poemas e muita arte depois disso tudo!
Um grande beijo.
Alline em janeiro 14, 2006 3:04 AM
#12
Idelber suas explicações sobre a situação atual foram claras.
Penso que toda a reconstrução deve ser apoiada, ou no mímino respeitada. Reestabelecer situações anteriores a uma crise/tragédia, afinal, é um instinto humano. Mas estou curioso como será a cobertura da imprensa em relação ao futuro da sua cidade. Afinal, trata-se de situação inédita na história recente do país, uma cidade tão grande com problemas desta ordem. O futuro tem muito a nos dizer.
Paulo Zobaran em janeiro 14, 2006 4:41 AM
#13
Respondendo a quem deixou perguntas:
Bruno, a escola de negócios segue firme e forte, continua sendo uma das melhores do país e continua admitindo alunos.
Leila, a coleta do lixo, como tudo, varia segundo a classe social, já que os serviços estão completamente terceirizados. Em Old Metairie, por exemplo, um bairro de classe alta que foi tão alagado como os outros, as ruas e casas já estão impecáveis. Nos bairros de classe pobre os escombros ainda se amontoam pelas ruas....
Ana Lucia, o turismo-catástrofe já começou. Há uma empresa dando "tours" por 35 dólares, não sem avisar que 3 dólares de cada ingresso serão doados aos fundos de assistências às vítimas. Afinal de contas é preciso acalmar as boas consciências . . .
Te, as pessoas podem agrupar seus trailers, desde que os estacionem em suas propriedades ou no lote de alguém que autorize. Mas se não há energia elétrica nem serviço sanitário não ajuda muito . . . Talvez pela internet você consiga canções do Kermit Ruffins. Tente pelo Soulseek: http://www.download-it-free.com/soulseek/
Cláudio, chego a BH dia 20 de fevereiro para o carnaval!
Obrigado pelo poema lindo, Ana; é dos meus favoritos de Drummond também :-)
Maria Andréia, estou acompanhando meio precariamente a eleição chilena, mas pretendo fazer post sobre ela sim.
Abraço aos amigos Paulo, Roberto (obrigado pelo axé!) e Maitê. Tudo de bom sempre.
Idelber em janeiro 14, 2006 3:45 PM
#14
salve, salve, Idelber
e a vida continua - sempre!
felicidades na retomada de sua vida
em New Orleans
@ em janeiro 14, 2006 6:20 PM