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sexta-feira, 28 de abril 2006

Belo Horizonte (post republicado)

belo.jpg

(aproveitando o embarque para Belo Horizonte nesta sexta-feira, republico um post do ano passado sobre a cidade)

Eu tenho por Belo Horizonte esse amor cheio de idealizações que é próprio dos expatriados. É curioso chegar aqui anualmente e renovar esse amor com rituais que beiram o patético: ir à Praça da Liberdade comer uma coxinha de galinha com guaraná; ir ao Mineirão ver um jogo; ir ao Santa Tereza e redescobrir que ainda há lugares onde as pessoas passam 8 horas numa mesa de bar, bebendo e cantando até o amanhecer. É difícil explicar como é, para um expatriado, descobrir o que já se sabe, ver o velho com olhos de novidade. Estar de volta no Brasil, estar de volta em Minas.

É curioso porque, analisando-se friamente, Belo Horizonte não é uma cidade das mais fascinantes. Não tem praias e hospeda a população mais obcecada com praia que há no mundo. Você quer falar de praia, tecer teorias sobre a praia, chame um mineiro. Você escutará as teorias mais insólitas.

Bonita a cidade não é, com certeza. Porto Alegre, por exemplo, é muito mais chamativa plasticamente. O trânsito de Belo Horizonte é o pior que eu conheço, e olha que eu já viajei por este mundo (sempre que digo isso, meus amigos paulistanos exibem o comprimento dos seus engarrafamentos e o tempo que passam no trânsito; em números absolutos, eles têm razão, mas acreditem: São Paulo não chega aos pés de BH em caos por centímetro quadrado).

BH é um arraial planejado para existir dentro de uma avenida circular, a Contorno. A cidade se espraiou loucamente em todas as direções e transbordou a Contorno por dezenas de quilômetros, mas continua existindo como se fosse o velho arraial. Enquanto que é perfeitamente possível, por exemplo, viver em Copacabana de forma relativamente auto-suficiente, em BH todos os cinemas, teatros, repartições públicas e tudo o mais continuam localizados dentro da Contorno. Todo mundo tem que ir ao centro por algum motivo. O centro é um aglomerado de ruas estreitas, planejadas para abrigar o movimento de uma população de, no máximo, uns 200.000. O resultado é que 3 milhões de pessoas vivem aqui em convergência permanente em direção a um espaço onde elas não cabem. Dirigir no centro de BH é das experiências mais enlouquecedoras que pode passar um ser humano.

De onde vem, então, o fascínio? BH combina, de forma singular, o cosmopolitismo e o provincianismo. Cosmopolita, cheia de opções culturais, BH mantém algo do velho Curral d’el Rey: os mineiros dão informação, por exemplo, como se ainda estivessem no arraial. Tudo é logo ali. Tudo tem uma certa intimidade que não noto nem mesmo em cidades menores, como Curitiba ou Fortaleza.

O salto cultural dado pela cidade nos últimos anos foi impressionante. Eu sou muito crítico do governo federal, mas há que se reconhecer que as sucessivas prefeituras petistas belo-horizontinas (em coalizão com o PSB e o PC do B) têm sido notáveis. BH é hoje a capital internacional do teatro de bonecos. É conhecida mundialmente pelos seus eventos de teatro de rua. Acontecimentos como o Salão do Livro e o Comida de Buteco continuam atraindo multidões anualmente. A cena musical continua tão rica como sempre foi, mas muito mais estruturada e com melhores canais de comunicação com a população. À pilhagem das igrejas evangélicas sobre os cinemas seguiu-se uma proliferação de cineclubes que fazem que a oferta de cinema hoje seja ainda melhor do que era quando a cidade possuía suas salas de cinema clássicas. Os bairros periféricos fervilham de atividades culturais inovadoras.

Há tempos escrevi um post, ainda no velho UOL, que diferenciava cidades-véu de cidades-vitrine, cidades que o abraçam quando você chega e cidades que exigem um guia. BH pertence a esta última categoria. Chegar aqui e zanzar ao léu, como é possível zanzar em NYC ou no Rio, é decepção na certa. A cidade não se oferece a você e não o seduz, como Salvador. Você tem que seduzi-la.

Tudo aqui é cheio de recovecos. As pérolas estão escondidas. Mais ou menos como na psicologia do mineiro, a melhor parte é a que se esconde atrás do véu e que só se descobre com o tempo.

É muito intensa a experiência de renovar esse laço com a cidade.



  Escrito por Idelber às 04:30 | link para este post | Comentários (29)



segunda-feira, 24 de abril 2006

Seleção musical do Overmundo

Ótimo dia para fazer para vocês uma seleção musical do Overmundo. Li por aí, já não me lembro onde, outra daquelas terríveis cantilenas apocalípticas do tipo "a música brasileira já não é o que era", "já não temos compositores como antes", etc. Acho que de todas as bobagens que leio na internet, essa é uma que ainda tem o poder de me irritar um pouco.

Já ficou conhecendo o trabalho de um novo músico brasileiro hoje? Quer sugestões? Todos os links que se seguem levam a arquivos MP3 do Overmundo, disponibilizados em regime Creative Commons:

O que eu mais gostei até agora foi a batida tecno com guitarra suingada da banda paraense Cravo Carbono, na faixa Café BR (o Hermano Vianna, que sabe tudo de música paraense, recomenda).

Da fornada do grande compositor gaúcho Marcelo Birck, que já tem história na música popular do Rio Grande, vem a banda Os Atonais, que ele lidera junto com Leandro Blessmann. A faixa é a pós-jovem guarda Chamas do Inferno.

Moda de viola em bonita homenagem a São Paulo, de Esso A., é a Guigue.

O Lado 2 apresenta o sambinha requebrado sincopado malandro cheio de breques de Samba Bloody Samba.

Tem o rock'n'roll sem frescura, porrada, dos paulistas do Fuzzly, que gravaram na Argentina a faixa Black Flame.

Você que, como eu, for fanático do mangue beat, ouvirá os ecos das justaposições rítmicas próprias do movimento em Pernambuco Tramways, de Alex Mono e Modal Transgress.

Bárbara e os Perversos deixam um muito estranho Lamento.

Bem reminiscente do som de Max de Castro e da geração da Trama é o som do 2 Cafés em Se não vai dar prá te amar.

E, last but not least, está imperdível o resumo feito pelo Pedro Alexandre Sanches dos lançamentos de música brasileira de 2005. Não ouvi todos os discos resenhados pelo Pedro ainda, mas recomendo o "Cabeça Elétrica Coração Acústico", de Silvério Pessoa. O cabra é muito bom.

PS: Iuhuu! Sexta-feira embarco de novo para BH. Mais farinha no tropeiro aí, please.



  Escrito por Idelber às 23:27 | link para este post | Comentários (20)




Links atrasados para o Dia da Terra

Com dois dias de atraso, fica o link e a recomendação de que leia, quem ainda não leu, Dia da Terra, do Mar e do Ar, o belo post da Lucia Malla que puxou neste fim de semana uma blogagem coletiva sobre o 22 de abril, dia da Terra. A lista de blogs participantes está no Nós na Rede.

Katrina1329.jpgcachorro banhado em óleo, nas redondezas de um tanque furado. St. Bernard Parish, New Orleans, 5 setembro de 2005, pós-furacão Katrina. Foto: Times-Picayune.



  Escrito por Idelber às 03:22 | link para este post | Comentários (3)



sexta-feira, 21 de abril 2006

Morreu o Mestre


(morreu hoje em Belo Horizonte o mestre, o melhor de todos, o maior técnico de futebol brasileiro de todos os tempos. Não há personalidade mais querida no mundo do futebol que Telê Santana. Adorado muito especialmente por atleticanos, são-paulinos, gremistas, palmeirenses e tricolores cariocas, Telê tinha a admiração de todos. Como homenagem, o blog republica o post feito no dia 27 de julho do ano passado, quando Telê comemorou 74 anos. Foi o seu último aniversário)

tele.jpgCom um dia de atraso, o blog saúda o 74o aniversário de Telê Santana, comemorado neste dia 26 de julho. Seria exagero dizer que foi o maior técnico da história do nosso futebol? Com certeza, foi o maior entre os que eu vi.

Como jogador, no Fluminense, do alto dos seus 57 kg, inventou uma posição: a do ponta que fecha para o meio, recua, ajuda na marcação e arma o contra-ataque.

Mas as maiores glórias foram como técnico. Três anos depois de encerrada a carreira, em 1965, recebe o comando do Fluminense e leva a equipe ao título do Campeonato Carioca de 1969 e do Roberto Gomes Pedrosa de 1970, o Brasileirão da época. Ainda em 1970 assume o Atlético-MG e quebra a hegemonia de 5 anos do ex-Ipiranga, que tentava o hexacampeonato.

Ainda sob a euforia do tricampeonato da seleção no México, a antiga CBD decide organizar o primeiro certame realmente nacional do nosso futebol, o Campeonato Brasileiro. Naquele pioneiro Campeonato de 1971, havia vários favoritos: o Santos de Pelé; o São Paulo de Gérson e Pedro Rocha; o Botafogo de Jairzinho e Carlos Alberto; o Palmeiras de Ademir da Guia; o ex-Ipiranga de Tostão e Dirceu Lopes.

Mas quem papou o título foi o Galo de Dadá.

Obra pessoalíssima de Telê Santana, que forjou uma equipe campeã com 11 jogadores limitados, que sabiam suas funções e seguiam fielmente o seu técnico. Só Telê Santana foi capaz de quebrar a hegemonia do rolo compressor do Internacional, conquistando com o Grêmio - de novo, no comando de um limitado elenco - o histórico Campeonato Gaúcho de 1977.

Na Seleção Brasileira, armou a maior máquina de jogar futebol que vimos desde a era Pelé, o escrete de 1982 - que parecia jogar por música, sempre ofensivamente, surpreendendo o espectador e o adversário com jogadas geniais. Perdeu a Copa de 1982 numa fatalidade e começou aí o absurdo mito do "Telê pé frio".

A corja da CBF, a camarilha da Rua da Alfândega, jamais lhe perdoou alguns pecados: um deles, o de ser mineiro. O outro, o de ser avesso à politicagem e ao conchavo. O terceiro, o de jamais aceitar interferências no seu trabalho. E finalmente o de jamais deixar de denunciar a violência e os árbitros e cartolas coniventes com ela.

Uma vez, perguntaram ao grande Zico se havia algum treinador que jamais havia mandado bater num adversário. Zico respondeu: somente Telê.

Por tudo isso, torci muito pela seleção de 1986, que poderia ter sido a redenção de Telê no comando do Brasil. Mas de novo, numa fatalidade povoada de penais perdidos, o Brasil foi eliminado da Copa e o futebol ofensivo de Telê foi substituído por retrancas e brucutus. Ganhou força o mito do "pé frio".

Assumiu o Galo de novo e, às vesperas da decisão do Campeonato Mineiro de 1988, teve que ouvir durante toda a semana que o ex-Ipiranga já festejava o bicampeonato, pois tinha a melhor equipe e enfrentava um "pé frio". Os garotos do Galo, quase todos oriundos dos juvenis, fizeram um pacto pela vitória por Telê, por amor a Telê. A massa tomou 2/3 do Mineirão, como é de costume nos clássicos mineiros, e gritou o nome do seu técnico ao longo do jogo. Os meninos se encheram de brios e venceram por 1 x 0. Galo campeão mineiro de 1988. Uma multidão esperou Telê para carregá-lo nos ombros.

Mas ainda faltava a grande volta por cima.

Em outubro de 1990, o São Paulo era uma equipe em crise, já há quatro anos sem títulos importantes. Telê assume o Tricolor e em menos de um ano monta o maior esquadrão da história do clube. Naquele time, Telê burilou peça por peça. Um certo lateral direito apenas esforçado recebeu horas e horas diárias da atenção do mestre (especialmente nos cruzamentos) e em pouco tempo se transformou no Cafu depois capitão do pentacampeonato.

Com Telê, o São Paulo foi campeão dos dois campeonatos mais importantes do país em 1991, o Paulista e o Brasileiro. Em 1992 levou o São Paulo ao título da Libertadores. Ganhou o campeonato mundial interclubes. Trouxe ao seu time outro mineiro apedrejado depois da tragédia da Copa de 1982, o já veterano Toninho Cerezzo. Sob a batuta de Cerezzo, Raí e Telê, o São Paulo repetiu a dose em 1993: campeão da América e campeão mundial. Durante 5 anos no São Paulo, Telê fartou-se de ganhar títulos, de calar a boca dos críticos e de encantar o mundo com o futebol bonito e ofensivo que a seleção brasileira jamais voltou a jogar desde que ele deixou de ser seu treinador.

Vive agora com a saúde bem debilitada, mas cercado, aqui em Minas Gerais, de um amor absolutamente unânime.

Hoje à noite jogam Atlético-MG e São Paulo no Mineirão. Seria uma linda oportunidade para que as torcidas dos dois clubes prestassem uma homenagem àquele que foi o maior técnico de suas histórias.

Evoé, Telê.



  Escrito por Idelber às 16:13 | link para este post | Comentários (27)




Vamos lá criticá-los!

Dois leitores deste blog, que discordam de mim em tudo e a quem eu quero muito bem, porque já nos proporcionaram excelentes polêmicas aqui (polêmicas de verdade, não baixarias), abriram seus próprios blogs, blogaram, blogaram e não me contaram. Mas eu descobri assim mesmo.

Com vocês, Big Head Strikes Again!, do Kbção, e Fala Aí, do Pablo Villarnovo. Vale a visita.



  Escrito por Idelber às 00:02 | link para este post | Comentários (4)



quinta-feira, 20 de abril 2006

Depoimento de um passageiro, a quebra da Varig e o dedo de Gerald Thomas

varig.jpg

Eu moro nos EUA há 16 anos e viajo ao Brasil no mínimo duas, às vezes três vezes por ano. Só aí são umas 40 viagens. Além disso, viajo à beça para congressos ou palestras. Devem ter sido umas 120 viagens aéreas nesses últimos 15 anos. Viajei Varig no máximo umas 4 vezes. Por quê? A passagem sempre saía mais cara, e o programa de milhagem não se compara ao da American. Com a American, numa média de cada duas viagens ao Brasil eu ganhava – e ganho – uma de graça.

No começo, eu ainda atazanava a minha agente com os pedidos insistentes “olha, veja se acha uma passagem pela Varig que não seja o dobro do preço. . .” Depois, desisti. Em condições iguais de temperatura e pressão, eu escolho o produto nacional, mas não dá para se fazer filantropia com empresas na hora de comprar passagens aéreas. E se é verdade que os vôos da Varig traziam algumas regalias que, já havia muito tempo, estavam ausentes nos outros – melhor comida, cervejinha grátis na classe econômica, etc. – a verdade é que para o passageiro típico, o mais importante é o preço e o programa de milhagem. E a quebra da Varig tem muito a ver com o investimento num padrão de qualidade que a empresa não tinha condições de sustentar, além de uma dependência parisitária do Estado.

Lembremos que foi por um decreto do ditador Médici, em 1973, que a Varig recebeu o monopólio dos vôos internacionais no Brasil. Esse monopólio só terminou nos anos 90. Luiz Martins, ex-presidente da própria companhia, disse à Exame: "A Varig sempre achava que o governo iria dar um jeito. Seus controladores imaginavam que, de repente, uma fada madrinha resolveria o problema com uma varinha de condão. Não entenderam que o Estado brasileiro tinha mudado" (link, para assinantes). Desde 1995, nada menos que 11 indivíduos e 1 comitê passaram pela presidência da companhia.

Mas Gerald Thomas – o mais talentoso entre todos os diretores teatrais que só dizem besteira – nos avisa que a Varig está quebrando por negligência do governo Lula!! É mole? Gerald Thomas, que escreveu sobre New Orleans confundindo cajun com creole, nos diz que os US$10 milhões investidos na viagem do astronauta brasileiro mostram que Lula está tentando tirar a dignidade da Varig!! Claro que ele não nos diz que US$10 milhões representam pouco mais de 1% da dívida da Varig. Na manifestação de artistas em defesa da Varig, Gerald Thomas - que já comparou Gilberto Gil com Goebbels e acusou o ministro de "assassino" (porque supostamente "assassinou" o teatro brasileiro!) - nos brindou com essa pérola: Quando o Lula fala que é a falência de uma companhia, não é a falência de uma companhia, ele está decretando a falência do próprio Brasil. Bem-vindo ao mundo das metonímias geraldianas! Para completar, um gesto obsceno, o do dedo, ao presidente Lula, o grande vilão.

Entendo a relação romantizada que muitos brasileiros, de uma geração anterior à minha, têm com a Varig. Sim, para quem está no exterior é uma alegria ver uma companhia brasileira que demonstre um padrão de qualidade superior. Sim, é verdade que muitas vezes os balcões da Varig são verdadeiras embaixadas brasileiras.

Mas acusar o governo por não desviar dinheiro de seus programas "sociais" para a Varig - colocando o "sociais" assim, entre aspas mal-intencionadas - e depois criticar a imprensa por não apresentar soluções, como fez Alberto Dines nesse texto (link via Flávio Prada) me parece uma asneira sem tamanho.

Numa matéria feita para a Valor Econômico no ano de 2002, o jornalista Sergio Leo já citava um estudo do BNDES, que concluía que por ser propriedade de uma associação dos próprios funcionários, a Varig teria sofrido conflito de interesses entre os sócios e os funcionários.

Enfim, trata-se de um clássico caso de má gestão e dependência do Estado. Não me produz nenhuma alegria ver a mais tradicional empresa aérea do Brasil nessa situação, mas não entendo a raiva com que algumas pessoas cobram do governo uma solução para seus problemas. Símbolo nacional? Se é para cuidar dos símbolos nacionais, que estatizem a CBF, que escandalosamente administra como empresa privada um patrimônio que é público.

PS: Ana Maria Gonçalves lança no dia 12 de maio, na livraria Quixote, em Belo Horizonte, o super romance Um Defeito de Cor, pela Editora Record. Se você estará em BH nessa data e quer receber um convite para a tarde de autógrafos, mande um email para blog arroba idelberavelar ponto com.



  Escrito por Idelber às 04:16 | link para este post | Comentários (28)



sexta-feira, 14 de abril 2006

A minha mais insólita noite no Mineirão

A Milton Ribeiro

mineira.jpg

O Flávio é um amigo de Belo Horizonte, e uma das figuras mais brilhantes que conheço: bacharel em história pela UFMG, mestre com uma dissertação nacionalmente premiada sobre a história oral entre deficientes visuais, doutor em música com uma tese sobre a educação musical e o canto orfeônico nos anos 30, campeão de natação, compositor, exímio violonista e ativo membro da comunidade que trabalha com direitos humanos em Minas Gerais.

Tudo isso já seria impressionante em qualquer ser humano, mas Flávio o faz com deficiência visual de praticamente 100%. Para ele, e para nós que somos seus amigos, isso é só um detalhe – mas importante para entender o que aconteceu conosco no dia 23 de julho de 2003. Era uma quarta-feira à noite e jogariam Atlético-MG e Juventude no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro.

Eu havia convidado o Frajola – como ele é conhecido entre nós – para ir ao Mineirão comigo. Ele estaria trabalhando na Faculdade de Educação da UFMG, que fica na Pampulha. Seria fácil passar por lá e pegá-lo. Na manhã do jogo desisto de ir ao estádio, telefono e cancelo o programa. De tarde, resolvo que vou, sim, e telefono de novo:

- Porra, Idelber, não dá. Você falou que não ia, eu saí de casa sem o meu radinho.
- Vamo’ embora. Eu narro o jogo para você.
- OK, então vamos. Mas tem um amigo meu mexicano que quer ir também.
- Beleza, ‘bora.

Foi dos jogos mais horríveis que já se viu na história do Estádio Magalhães Pinto. Como sabe a Massa, o Galo não joga futebol desde 1999/2000. Na minha tentativa de apimentar um pouco a coisa, Cicinho recebendo a bola na intermediária do Galo se transformava, na minha narração, em escapa Cicinho com perigo pela lateral direita, tem a opção de Guilherme na entrada da área . . . . De quando em quando, eu me virava para o mexicano – que usava uns óculos de fundo de garrafa – e dava uma explicação em espanhol sobre o Campeonato Brasileiro, porque o cabra, como bom hispano, não entendia patavina de português falado.

No princípio eu narrava baixinho, para não incomodar os outros torcedores. Na medida em que as pessoas iam dando-se conta da situação, armavam-se aquelas cenas insólitas que só acontecem nos estádios de futebol. Todo mundo dava palpite:

- Cara, você errou. Quem deu o passe foi o Paulinho!
- Fala pra ele que quem está afundando o time é o Tucho!

No final do primeiro tempo, aquele petit comité formado ali já era uma atração maior que o jogo. Todos discutiam e apresentavam diferentes versões ao Frajola. O mexica só olhava, atrás de seus portentosos óculos. Lá pelos 20 e poucos minutos do segundo tempo sai um gol do Galo, Deus sabe como. Eu me lembro de haver narrado o gol razoavelmente. Uns poucos minutos depois, o Juventude empata e o jogo volta à modorra em que estava: o Galo sem a menor criatividade para furar a retranca do time da serra gaúcha.

No momento em que nos preparávamos para sair, já aos 46 minutos do segundo tempo, aconteceu. O Galo ganhou um escanteio e o mais incrível é que eu vi o lance nascer desde o primeiro minuto. Por alguma razão, eu estava olhando na direção do goleiro Eduardo. De repente ele disparou, como louco: sai correndo Eduardo, atravessa a linha do meio-campo, entra na área adversária, chega o cruzamento, sobe Eduardo, cabeceia e é goooool, gol de goleiro aos 46 do 2o, incrível vitória do Galo ...

Ganhar com gol de cabeça do goleiro no último minuto já é insólito o suficiente, mas a história não termina aí. Na comemoração, Frajola lança os braços ao ar e os óculos de fundo de garrafa do mexica vão para o espaço. Esmigalhado.

Como é de costume meu, estávamos na parte mais cheia do estádio, no meio-campo, logo acima da faixa da gloriosa Dragões da FAO. O Mineirão não estava lotado, mas o público era bom: digamos, umas 25.000 pessoas. Todas enlouquecidas, claro, com uma vitória daquelas.

A minha tarefa era sair daquele fuzuê guiando dois cegos, só um dos quais falava português.

Eu nem me importei, claro, porque a alegria era grande. Agarrei um braço de cada um e fui gritando dá licença, dá licença até o estacionamento. Chegando no estacionamento, pergunto ao mexica:

- Onde você está hospedado? Vou te levar em casa.
- Eu não tenho o endereço aqui, mas é na Avenida do Contorno.
- Onde, na Avenida do Contorno?
- É num lugar que tem uma subida.. . .
- O quê???? Você está hospedado numa das mais longas avenidas de Minas Gerais e só sabe que está “numa subida”? Você sabe que essa avenida se chama Contorno porque ela contorna toda a cidade original?
- Eu acho que eu reconheço o lugar, se você chegar lá . . .
- Reconheceria com óculos, né?

E lá vou eu levar o mexica sem óculos, hospedado em “algum lugar” da Avenida do Contorno. Depois de muito zanzar, perto do bairro da Serra, ouço um “acho que é aqui . .”

Meto o pé no freio, deixo o cabra por lá mesmo, entrego o Frajola em casa e ainda chego ao meu bairro a tempo de comemorar com amigos a vitória do Galo com gol de goleiro no último minuto. Espero que o mexicano tenha achado o caminho de casa e tenha saído com boas memórias da sua estadia no Brasil.



  Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 12 de abril 2006

Links

Hoje, só links:

Um dos problemas para quem usa mais de um computador é ter os bookmarks sempre na máquina errada. Há uma bela extensão do Firefox, o Kaboodle, que resolve o problema organizando seus bookmarks online, com a vantagem de que você pode compartilhar seus bookmarks com as pessoas. Com prazer compartilho os meus. Estão bem incompletos ainda. Ah, você usa Internet Explorer? Bom, então, como dizem os gringos, I don't know what to tell you.

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Uma revista literário-cultural peruana de altíssima qualidade: Etiqueta Negra.

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Quer uma perspectiva interessante sobre Ollanta Humala, o candidato considerado "progressista" nas eleições peruanas? Visite o Puente Aéreo. Atualização: Outro blog com excelente análise do processo eleitoral peruano é o Tordesilhas (dica da Vanessa)

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Alvíssaras, meu caro Leandro Oliveira: o tema do próximo Salão do Livro de BH será a literatura do Mercosul. Em tempo.

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O assunto lá no Bombordo são as privatizações. O debate lá tem sido muito bom e, com pouquíssimas exceções, de alto nível. Aliás, a prova de que as forças políticas não são idênticas é a completa ausência, entre a direita, de espaços assim, genuinamente abertos. A maioria dos que têm visitado o Bombordo são críticos em relação aos posts. E os autores vão lá se defender, discutir. Acho bonito, bacana. Eu prezo muito os leitores que têm posições políticas diferentes das minhas. Acho chato um lugar onde todo mundo concorda com tudo.

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Quem for de oração, por favor, que reze por Telê Santana. O mestre, o maior de todos, está internado em Belo Horizonte, no Hospital Felício Rocho, em situação gravíssima. Amanhã espero voltar com mais notícias.

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Para quem ainda não conhece, uma boa contraposição ao noticiário da grande mídia é o Informante.net.

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Eu já recebi várias perguntas sobre como andam as coisas em New Orleans. A resposta é: como mandam as tradições da cidade, as coisas andam lentamente. No entanto, ainda mais condignos da tradição, já estamos nos preparando para o French Quarter Festival. Para quem lê inglês, o melhor que se escreveu por aí sobre o tema da "reconstrução" da cidade é esse texto de Mike Davis.

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No interregno de dois meses do Biscoito, o Pedro Dória disse coisas muito gentis sobre cá este blogueiro. Nas priscas eras do Biscoito, o Pedro, com dois links, catapultou o leitorado diário deste blog de dois para quatro dígitos. Muito obrigado, Pedro. E parabéns pelo novo livro.

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Você lê inglês e quer conhecer um pensador hilário, irreverente, anti-convencional e absolutamente chave para se entender o nosso tempo? Read some Slavoj Zizek. É um maluco que teve tempo, na antiga Iugoslávia, de ler quase tudo o que de relevante foi escrito por aí. Botou tudo no caldeirão de uma impressionante inteligência e saiu com uma filosofia muito original.

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Ao ver a notícia sobre o aparentemente legítimo Evangelho de Judas, quem teve a mesma idéia que eu (pensar em Borges) foi o excelente blog argentino Últimas de Babel, do poeta Guillermo Piro.

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Quem ainda não conhece tem que ir conhecer e, de preferência, se cadastrar para escrever por lá: Overmundo é um site interativo sobre cultura brasileira, de qualquer canto ou tipo. A proposta é interessantíssima: qualquer um pode escrever dando a dica que quiser. Os textos que recebem mais votos são publicados, e os líderes vão para as páginas de abertura do site. Quem vota? Todos. Idéia bacaníssima do antropólogo Hermano Vianna, uma das cabeças pensantes do país, um acadêmico que não fica dentro dos muros da universidade.

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Last but not least: dia 29 de abril eu chego aí em Belo Horizonte. Não, minha passagem não é com a Varig.



  Escrito por Idelber às 03:19 | link para este post | Comentários (19)



terça-feira, 11 de abril 2006

A Eleição Presidencial, a Ética na Política e o Discurso da Indignação Santa

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A ética é como a virgindade: se você bate no peito para dizer que a tem, provavelmente não tem coisa nenhuma ou está doido para perdê-la.

É muito bom para Lula, mas péssimo para a politização da sociedade brasileira, que a oposição aparentemente tenha escolhido centrar o seu discurso no terreno da ética.

Continue lendo A Eleição Presidencial, a Ética na Política e o Discurso da Indignação Santa, minha colaboração com o Bombordo.

(vou deixar a caixa de comentários fechada hoje para que o debate se concentre lá no Bombordo).



  Escrito por Idelber às 03:29 | link para este post



segunda-feira, 10 de abril 2006

A Vida Imita a Arte

06judas.600.jpgFoto: Kenneth Garrett, via Associated Press.

Runeberg . . . admitiu que Jesus, “que dispunha dos consideráveis recursos que a Onipotência pode oferecer”, não precisava de um homem para redimir todos os homens. Rebateu, depois, aqueles que afirmam que nada sabemos do inexplicável traidor; sabemos, disse, que foi um dos apóstolos, um dos eleitos para anunciar o reino dos céus, curar os doentes, limpar os leprosos, ressuscitar mortos e tirar demônios (Mateus 10:78; Lucas 9:1). Um homem a quem distinguiu assim o Redentor merece de nós a melhor interpretação dos seus atos. Imputar o seu crime à cobiça (como fizeram alguns, alegando João 12:6) é resignar-se ao móvel mais torpe. Nils Runeberg propõe o móvel contrário: um hiperbólico e até ilimitado ascetismo. O asceta, para a maior glória de Deus, vilifica e mortifica a carne; Judas fez o mesmo com o espírito. Renunciou à honra, ao bem, à paz, ao reino dos céus, como outros, menos heroicamente, ao prazer. Premeditou com lucidez terrível suas culpas. No adultério costumam participar a ternura e a abnegação; no homicídio, a coragem; nas profanações e blasfêmia, certo fulgor satânico. Judas elegeu aquelas culpas não visitadas por nenhuma virtude: o abuso de confiança (João 12:6) e a delação. Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (I Coríntios 1:31); Judas buscou o inferno, porque a felicidade do Senhor lhe bastava. Pensou que a felicidade, como o bem, é um atributo divino e que não devem usurpá-lo os homens.

[...] A fins de 1907 Runeberg terminou e revisou o texto manuscrito; quase dois anos transcorreram sem que ele o entregasse à imprensa. Em outubro de 1909, o livro apareceu com um prólogo (morno a ponto de ser enigmático) do hebraísta dinarmarquês Erik Erfjord e com esta pérfida epígrafe: No mundo estava e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu (João 1:10). O argumento geral não é complexo, se bem que a conclusão é monstruosa. Deus, argumenta Nils Runeberg, rebaixou-se a ser homem para a redenção do gênero humano; cabe conjecturar que foi perfeito o sacrifício obrado por ele, não invalidado ou atenuado por omissões. Limitar o que padeceu à agonia de uma tarde na cruz seria blasfemo. Afirmar que foi homem e que foi incapaz de pecado encerra contradição: os atributos de impeccabilitas e de humanitas não são compatíveis. Kemnitz admite que o Redentor pudesse sentir fadiga, frio, turvação, fome e sede; também cabe admitir que pudesse pecar e perder-se. O famoso texto brotará como raiz de terra sedenta; não há bom parecer nele, nem formosura; desprezado e o último dos homens; macho de dores, experimentado em quebrantos (Isaias 53:23) é, para muitos, uma previsão do crucificado, na hora de sua morte; para alguns (verbi gratia Hans Lassen Martensen), uma refutação da formosura que o consenso vulgar atribui a Cristo; para Runeberg, a pontual profecia, não de um momento, mas de todo o atroz porvir, no tempo e na eternidade, do Verbo feito carne. Deus totalmente se fez homem até a infâmia, homem até a reprovação e o abismo. Para salvar-nos, podia eleger qualquer dos destinos que tramam a perplexa rede da história; podia ser Alexandre ou Pitágoras ou Rurik ou Jesus; elegeu um ínfimo destino: foi judas.
Jorge Luis Borges . . .


Parte de um plano secreto
amigo fiel de Jesus
eu fui escolhido por ele
para pregá-lo na cruz
Cristo morreu como um homem
um martir da salvação
deixando para mim, seu amigo
o sinal da traição
e Raul Seixas . . .


Ao contrário da versão dos quatro Evangelhos oficiais, o texto em questão indica que Judas era um iniciado que traiu Jesus a pedido dele próprio, e para a redenção da Humanidade. A principal passagem do documento é atribuída a Jesus, que diz a Judas: "Tu superarás todos eles. Tu sacrificarás o homem que me cobriu."

. . . já sabiam disso.

PS: A tradução do trecho de "Tres versiones de Judas", de Jorge Luis Borges, é de minha responsabilidade. Só a tradução.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (14)



sexta-feira, 07 de abril 2006

Aforismo do dia

O Partido Democrata americano é uma equipe de futebol que, perdendo de 1 x 0 aos 10 minutos do segundo tempo, jogando em casa, com um jogador a mais, o juiz a favor e os adversários brigando entre si, decide substituir os atacantes por zagueiros.

É de lascar.

Ah, tão mais divertida é a política tupiniquim, com suas histórias mirabolantes!

Sugestão do dia: Flamewars Survival Guide, genial post do Ratapulgo.



  Escrito por Idelber às 00:25 | link para este post | Comentários (18)



quinta-feira, 06 de abril 2006

Paêbirú (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho

cortes_lula_paebiru~~_101b.jpg É das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez em música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de 5 leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos.

Em 1973, o paraibano Zé Ramalho estava cansado de animar bailes em bandas de iê-iê-iê de João Pessoa e Campina Grande. O pintor Raul Córdula lhe avisou que no Recife havia um pessoal diferente, conhecido pela alcunha de udigrudi pernambucano. Foi pra lá. O guru era Lula Côrtes, um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.

Este disco não foi a estréia de Zé. Ele havia entrado no estúdio em 1973 para participar de uma maluquice coletiva chamada Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários. Lula Côrtes se firmara como líder da turma durante a I Feira Experimental de Música do Nordeste (11/11/1972), também conhecida como Woodstock cabra da peste.

“O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo, futuro membro da Tamarineira Village, numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).

No início de 1974 Zé foi apresentado a Lula, que vivia com a namorada Kátia Mesel no então distante subúrbio de Casa Forte (que virou bairro nobre do Recife). Lula lhe falou da Pedra do Ingá e da idéia de fazer um disco inspirado no sítio arqueológico de Ingá do Bacamarte. O disco foi feito em 1975 no estúdio da Rozenblit (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula e Kátia.

Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.

Hoje é possível encontrá-lo em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Aí no Brasil o disco sai por um preço bem salgado: alguém oferece um exemplar do CD no Mercado Livre por 120 mangos. No site da CliqueMusic é possível ouvir os primeiros 30 segundos de cada faixa. E também está disponível por aí na rede, claro, para quem tem as manhas.

Eu acho 90% do que se passa por “psicodelia” uma grande embromação. O Pink Floyd fez um disco, chamado The Piper at the Gates of Dawn (1967), ainda com Syd Barrett. O resto é trilha sonora de imberbe experimentando um baseado pela primeira vez. Estou em boa companhia ao achar o Grateful Dead uma chatice: o desfrute da música depende seriamente de uma ajudazinha de psicotrópicos e da mitologia da "viajandice" propagada pela banda.

Não é o caso deste LP duplo, em quatro partes: Terra, Ar, Fogo, Água. 11 canções no total, sendo o “Ar” representado só por duas faixas. “Trilha de Sumé”, com 13 minutos, passa por tambores, cantorias em marcação de coco, flauta, saxofone, o tricórdio de Lula e a guitarra distorcida de Zé Ramalho. É impossível saber o que vai acontecer no momento seguinte. As seqüências melódicas são interrompidas por cantorias de pássaros, sons de cachoeiras e outros barulhos da natureza que vão pontuando a viagem. “Harpa dos Ares” é uma bela peça instrumental com diálogo de cordas, flauta e canto de pássaros. O fechamento da parte “Terra” é com “Não existe molhado igual ao pranto”, melodia arrastada à base de cordas, com gritos esganiçados ao fundo (sugerindo tortura, talvez) e solos de sax. O barítono rouco e arranhado de Zé ecoa melancólico: Não se escuta da terra quem for santo / Não se cobre um só rosto com dois mantos / Nem se cura do mal quem só tem pranto / Nenhum canto é mais triste que o final.

Eu gosto menos da seqüência do “Ar” (faixas 4 e 5) que é mais plácida, menos trabalhada musicalmente e mais dependente de ruídos externos.

A seqüência “Fogo” começa com uma canção intitulada com versos que depois ficariam famosos na voz de Zé: “Nas paredes da pedra encantada / os segredos talhados por Sumé”. Essa é um petardo, um rock alucinógeno, com bateria, baixo, órgão. Um resenhista definiu a canção como “o som que os Doors teriam se eles fossem capazes de se divertir”. Essa seqüência termina com “Maracas de Fogo” e "Louvação a Iemanjá”, um canto responsorial sobre um batuque polirrítmico bem próprio dos sons dos orixás. Mais três faixas completam o disco, louvando a água: ali de novo predominam as cordas, pontuadas por ruídos aquáticos vários. Destaque para “Pedra Templo Animal”, um xaxado psicodélico.

Em 2003 eu vi um show de Zé Ramalho no Canecão, como convidado de Jorge Mautner. Depois, tive acesso ao camarim, porque estava com o mestre. Ia perguntar sobre Paêbirú. Não perguntei. Saí e fui escutar Mautner dissertar sobre Heidegger na areia de Ipanema.

Leitor: não morra sem ouvir este disco.

PS: se alguém conhecer outra resenha deste disco em português, além da minha e das duas páginas dedicadas a ele por José Telles em Do Frevo ao Manguebeat, por favor me avise.



  Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post | Comentários (47)



terça-feira, 04 de abril 2006

Manias

maniacs-800w.gifCrédito

A Christiana Nóvoa passou para o Biajoni, que me passou o meme das cinco manias. Para relaxar um pouco das discussões políticas, aí vão as manias minhas atualmente liberadas para disseminação pública:

1. Jamais fazer uma lista de cinco coisas. É sério. Qualquer outro número vale. Cinco não.

2. Nunca beber o café até o final, mas deixar um restinho suficiente para cobrir o fundo da xícara. Com a comida, a mesma coisa: nunca limpar o prato completamente, mas deixar meia garfada que seja. Essa mania é tão poderosa que venceu até a minha criação católica.

3. Com o cigarro, o contrário: nunca apagar um cigarro que não tenha sido fumado até o toco.

4. Jamais fazer baliza com o cinto de segurança afivelado. Alinhar o carro, soltar o cinto, depois fazer a baliza.

5. Organizar obsessivamente livros e CDs, por assunto e ordem alfabética. Todo o resto – roupas, calçados, documentos – vive numa desordem absoluta. Mas os livros e CDs têm que estar organizados: aqueles entre literatura (poesia e prosa) e livros de não ficção. Primeiro literatura brasileira, depois hispano-americana, anglo-americana, francesa, alemã, russa e depois os outros. Entre os de não ficção, só a ordem alfabética por autor, o que produz hilárias vizinhanças entre um livro sobre a Copa de 1954 e um tratado filosófico. Os CDs, a mesma coisa: música brasileira e não-brasileira. Dentro de cada grupo, ordem alfabética por sobrenome. A coleção brasileira vai de Fernanda Abreu a Tom Zé. A não brasileira vai de Louis Armstrong a ZZ Top (sim, eu tenho um disco de ZZ Top). Obsessivo-compulsivo, vai dizer?

6. Ao ler um livro acadêmico, sempre começar pela bibliografia.

7. Ao chegar numa cidade nova, reservar sempre uma tarde para perder-se . Sem mapa, sem roteiro, sem dicas, sem companhia. É uma mania antiga: sempre achei que é fácil aprender a andar numa cidade. Difícil é aprender a perder-se (um doce para quem souber quem eu estou citando aqui).

8. Ao chegar num estádio de futebol, tentar encontrar um assento exatamente na direção da linha do meio-campo. Só não foi possível quando fomos ao Estádio Nacional do Chile, onde os assentos no meio-campo são de luxo e custam uma fortuna.

Para quem eu passo a batuta? Para quem quiser.

PS: Hoje eu inaguro algo que vou tentar manter diariamente, uma sugestão de blog para fechar cada post. Aqui vai a sugestão do dia: a Bibi, do Bibi’s Box (um dos projetos mais interessantes, inovadores, úteis e inteligentes da internet brasileira) inaugurou há alguns meses, com sua competência habitual, um blog para cinéfilos. Com vocês, o Cinematógrafo. Recomendadíssimo.



  Escrito por Idelber às 22:03 | link para este post | Comentários (19)



domingo, 02 de abril 2006

Testes infalíveis para escalar as seleções de todos os tempos

ubaldo.gif Ubaldo, que, dizem os mais velhos, era melhor que Reinaldo.

Uma das instituições saborosas que o gênero conversa sobre futebol legou à cultura são as inevitáveis seleções de todos os tempos, a escolha dos melhores em cada posição, os 11 verdadeiramente supimpas que jogaram por cada clube, por cada país ou pelo p