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sexta-feira, 14 de abril 2006
A minha mais insólita noite no Mineirão
A Milton Ribeiro

O Flávio é um amigo de Belo Horizonte, e uma das figuras mais brilhantes que conheço: bacharel em história pela UFMG, mestre com uma dissertação nacionalmente premiada sobre a história oral entre deficientes visuais, doutor em música com uma tese sobre a educação musical e o canto orfeônico nos anos 30, campeão de natação, compositor, exímio violonista e ativo membro da comunidade que trabalha com direitos humanos em Minas Gerais.
Tudo isso já seria impressionante em qualquer ser humano, mas Flávio o faz com deficiência visual de praticamente 100%. Para ele, e para nós que somos seus amigos, isso é só um detalhe – mas importante para entender o que aconteceu conosco no dia 23 de julho de 2003. Era uma quarta-feira à noite e jogariam Atlético-MG e Juventude no Mineirão, pelo Campeonato Brasileiro.
Eu havia convidado o Frajola – como ele é conhecido entre nós – para ir ao Mineirão comigo. Ele estaria trabalhando na Faculdade de Educação da UFMG, que fica na Pampulha. Seria fácil passar por lá e pegá-lo. Na manhã do jogo desisto de ir ao estádio, telefono e cancelo o programa. De tarde, resolvo que vou, sim, e telefono de novo:
- Porra, Idelber, não dá. Você falou que não ia, eu saí de casa sem o meu radinho.
- Vamo’ embora. Eu narro o jogo para você.
- OK, então vamos. Mas tem um amigo meu mexicano que quer ir também.
- Beleza, ‘bora.
Foi dos jogos mais horríveis que já se viu na história do Estádio Magalhães Pinto. Como sabe a Massa, o Galo não joga futebol desde 1999/2000. Na minha tentativa de apimentar um pouco a coisa, Cicinho recebendo a bola na intermediária do Galo se transformava, na minha narração, em escapa Cicinho com perigo pela lateral direita, tem a opção de Guilherme na entrada da área . . . . De quando em quando, eu me virava para o mexicano – que usava uns óculos de fundo de garrafa – e dava uma explicação em espanhol sobre o Campeonato Brasileiro, porque o cabra, como bom hispano, não entendia patavina de português falado.
No princípio eu narrava baixinho, para não incomodar os outros torcedores. Na medida em que as pessoas iam dando-se conta da situação, armavam-se aquelas cenas insólitas que só acontecem nos estádios de futebol. Todo mundo dava palpite:
- Cara, você errou. Quem deu o passe foi o Paulinho!
- Fala pra ele que quem está afundando o time é o Tucho!
No final do primeiro tempo, aquele petit comité formado ali já era uma atração maior que o jogo. Todos discutiam e apresentavam diferentes versões ao Frajola. O mexica só olhava, atrás de seus portentosos óculos. Lá pelos 20 e poucos minutos do segundo tempo sai um gol do Galo, Deus sabe como. Eu me lembro de haver narrado o gol razoavelmente. Uns poucos minutos depois, o Juventude empata e o jogo volta à modorra em que estava: o Galo sem a menor criatividade para furar a retranca do time da serra gaúcha.
No momento em que nos preparávamos para sair, já aos 46 minutos do segundo tempo, aconteceu. O Galo ganhou um escanteio e o mais incrível é que eu vi o lance nascer desde o primeiro minuto. Por alguma razão, eu estava olhando na direção do goleiro Eduardo. De repente ele disparou, como louco: sai correndo Eduardo, atravessa a linha do meio-campo, entra na área adversária, chega o cruzamento, sobe Eduardo, cabeceia e é goooool, gol de goleiro aos 46 do 2º, incrível vitória do Galo ...
Ganhar com gol de cabeça do goleiro no último minuto já é insólito o suficiente, mas a história não termina aí. Na comemoração, Frajola lança os braços ao ar e os óculos de fundo de garrafa do mexica vão para o espaço. Esmigalhados.
Como é de costume meu, estávamos na parte mais cheia do estádio, no meio-campo, logo acima da faixa da gloriosa Dragões da FAO. O Mineirão não estava lotado, mas o público era bom: digamos, umas 25.000 pessoas. Todas enlouquecidas, claro, com uma vitória daquelas.
A minha tarefa era sair daquele fuzuê guiando dois cegos, só um dos quais falava português.
Eu nem me importei, claro, porque a alegria era grande. Agarrei um braço de cada um e fui gritando dá licença, dá licença até o estacionamento. Chegando no estacionamento, pergunto ao mexica:
- Onde você está hospedado? Vou te levar em casa.
- Eu não tenho o endereço aqui, mas é na Avenida do Contorno.
- Onde, na Avenida do Contorno?
- É num lugar que tem uma subida.. . .
- O quê???? Você está hospedado numa das mais longas avenidas de Minas Gerais e só sabe que está “numa subida”? Você sabe que essa avenida se chama Contorno porque ela contorna toda a cidade original?
- Eu acho que eu reconheço o lugar, se você chegar lá . . .
- Reconheceria com óculos, né?
E lá vou eu levar o mexica sem óculos, hospedado em “algum lugar” da Avenida do Contorno. Depois de muito zanzar, perto do bairro da Serra, ouço um “acho que é aqui . .”
Meto o pé no freio, deixo o cabra por lá mesmo, entrego o Frajola em casa e ainda chego ao meu bairro a tempo de comemorar com amigos a vitória do Galo com gol de goleiro no último minuto. Espero que o mexicano tenha achado o caminho de casa e tenha saído com boas memórias da sua estadia no Brasil.
Escrito por Idelber às 03:05 | link para este post
| Comentários (29)
#1
Idelber:
Desculpe o off topic:
Feliz Semana Santa e Feliz Páscoa.
Um forte abraço
Meg
Meg (subrosa) em abril 14, 2006 11:01 AM
#2
Engraçadíssimo, tô rolando de rir aqui. A primeira vez que fui ao mineirão foi com meu pai, meus irmãos e meu tio, que morava aqui antes de nós. Havíamos acabado de chegar a BH, e ele foi nos apresentar o Mineirão. Meu tio é cruzeirense então fomos a um jogo do Cruzeiro e Corintians, se não me engano. O fato é que o Cruzeiro estava perdendo. No meio do segundo tempo a máfia fica cada vez mais agitada. Nós estávamos em frente ao meio do campo. Próximo ao final do jogo, a tensão é crescente, e de repente a máfia começa a correr em nossa direção. Correria e confusão generalizadas. Briga, meu tio e meu pai falam desesperados, com três crianças pra carregar. Saímos correndo do estádio e quando chegamos ao carro, meu pai liga o rádio para ouvir como ficou o final do jogo, quando soubemos o que aconteceu para que a máfia ficasse desesperada e sair agitada correndo pelo estádio: um enxame de abelhas. ;)
beijos
juliana em abril 14, 2006 12:14 PM
#3
Hehehe hilário... Essa e mais outras têm que compor um livro de crônicas.
Abraços
PS: Liga o messenger aí pô.
Charley em abril 14, 2006 12:20 PM
#4
histórias de estádio de futebol são sempre deliciosas. minha vez preferida foi um 4 a 0 do Bahia em cima do seu Galo, com a Fonte Nova lotada. isso, claro, no século passado (o Bahia parou de jogar futebol antes mesmo do Galo...)
dra em abril 14, 2006 12:48 PM
#5
Idelber,
os jogos mais incríveis do meu glorioso rubro-negro estão sempre ligados à dor.
Neste mesmo ano da graça de 2003, exatamenteno simbólico diade finados, lutávamos ainda por vaga na sul-americana. Primeiro tempo, um passeio: 3x0 no Goiás. Fim de jogo, 4x3 para os visitantes. É graça uma porra desta?
Espero que este ano eliminemos o (como é mesmo que você chama?) ex-Ipiranga aí no mineirão na próxima quarta-feira.
Abraços.
Franciel em abril 14, 2006 3:51 PM
#6
Caramba! Deixei de ir ao Mineirão exatamente a partir de 2002 e não me lembrava de mais essa vitória "esmagadora" do "glorioso" Clube Atlético Mineiro. Meus filhotes (Ângelo e Leo) até hoje - talvez um pouco menos - ainda são meio fanáticos pelo Galo e me acompanharam nos idos de 99-2000, quando lhes disse: -"Olhem bem, guardem na memória, porque momentos do Galo como este vão demorar a acontecer de novo". Antes tivesse errado em minha profecia...
Cláudio Costa em abril 14, 2006 5:02 PM
#7
Fiquei com dó dos meninos...rs.
Excelente páscoa!! Beijus
Luma em abril 14, 2006 9:25 PM
#8
Mas rapaz... cê largou o cara lá? E não tinha certeza de que era o lugar certo não? Espero sinceramente que ele tenha encontrado o rumo. Eu tenho uns 5 graus de miopia e já me sinto ultra insegura sem os óculos. Fico imaginando um estrangeiro, numa cidade desconhecida, usuário de fundo de garrafa, solto por aí.
Mônica em abril 14, 2006 10:52 PM
#9
Aqui... não comentei por mal não. Nem sei qual foi o lance, pelo visto o cara nem sabia o nome do hotel... Mas é que eu, sem meu par acessório de olhos, não sou ninguém. Eu fico até surda.
Mônica em abril 14, 2006 11:10 PM
#10
Mônica, não era hotel, era casa . . . e eu já tinha dado duas voltas na Contorno :-)
Idelber- em abril 14, 2006 11:23 PM
#11
Caramba... pois então. Situação foda mesmo. Se fosse hotel ficava mais fácil. hehe...
Agora entendi direito a situação. ;)
Mônica em abril 14, 2006 11:31 PM
#12
Idelber,
já conhecia esta história por intermédio da Ana, mas narrada por você, ficou mais hilária e dramática. Fiquei rindo feito boba frente ao computador. Um abraço e Feliz Páscoa!
Hélia.
Hélia em abril 15, 2006 11:33 AM
#13
Maravilhoso!
to achando o máximo!
conta mais dessas que eu ganho o dia :O))
boa páscoa!
glau em abril 15, 2006 7:31 PM
#14
Esse causo foi um dos melhores que já li aqui no Biscoito. Muito bom!
Cesar em abril 15, 2006 10:27 PM
Paulo em abril 16, 2006 1:20 PM
#16
Idelber,
Eu não conheço o Mineirão. Aliás, nem BH. Mas pelos idos de 1982, eu tinha o sonho de estar uma vez que fosse nesse estádio para ver de perto meu ídolo e alvo de paixonite juvenil: Éder Aleixo.
Fiquei caidinha pelo Éder depois daquele golaço contra a então URSS, pela Copa de 82. Olhando em retrospectiva, entendo que o Éder era mais que o ídolo das moças naquela Copa, era mesmo um atleta diferenciado naquele grupo. Enquanto a maioria dos craques de Telê mal se aventurava nos benefícios do trabalho físico de alto desempenho, Éder era sarado, exibia músculos incomuns nos jogadores daqueles tempos, como prova a histórica capa de Placar, depois desse jogo de estréia, com o ponta-esquerda comemorando o gol numa pose que mais lembrava a dos fisiculturistas (embaixo da foto, o título remetia à música do lateral-esquerdo e sambista Júnior: "Voa, canarinho, voa"). Veja os tapes daquela Copa e se divirta com as perninhas de cambitos do doutor Sócrates (as pernas eram habitualmente mais finas e os calções, mais curtos, o que me dá sempre a impressão de que os jogadores daqueles tempos eram pernaltas).
Pois bem, nunca fui ver Éder Aleixo de perto, no Mineirão. Muitos anos depois, em um compromisso profissional, me vi cara a cara com meu antigo ídolo. Antes não tivesse tido essa sorte. Dezessete anos depois, o sarado atacante estava algo calvo e seu peso tinha muito mais de gordura que de músculos. Senti minha juventude esmigalhada nesse dia...
Mas que eu fiquei curiosa para saber o que rolou com o mexicano, isso fiquei.
Alessandra Alves em abril 16, 2006 2:19 PM
#17
Gosto das suas histórias.
Feliz Páscoa.
Bjos.
Vera em abril 16, 2006 3:06 PM
#18
Idelber,
Acordei os vizinhos aqui de tanto rir com a tua estoria. Se eu for despejada a culpa é sua.
Uma beijoca
Soraia
Soraia em abril 17, 2006 3:10 AM
#19
Excelente!
E o tal mexicano ficava lá mesmo?
Que tal se repetirmos a simulação clássica "se o campeonato acabasse agora"? A situaçãos eria muito estranha. O campeão da série B levaria o título da série A neste ano e o campeão da série A seria rebaixado para a B.
Esse ano vai ser divertido.
Até, Bender.
Bender em abril 17, 2006 10:49 AM
#20
Oi, eu lembro desse gol. O Eduardo nunca mais consiguirá tamanha façanha em sua carreira futebolística. Ir ao Mineirão é sempre uma festa.
Beijos, Idelber.
Fefê em abril 17, 2006 1:38 PM
#21
só faltava ter sido o próprio Eduardo que bateu o escanteio. abç
gugala em abril 17, 2006 2:56 PM
#22
Muita boa a história, Idelber. Eu, do meu lado, torço pelo Flamengo, que nao joga futebol desde os anos 80...
Bom, por coincidencia também escrevi la no Tordesilhas um texto com reminiscencias futebolísticas (só que da copa de 82, capitaneada pelo mestre Telê). Quando puder dá uma olhadinha lá.
Um abração,
Renato
Renato Guimaraes em abril 18, 2006 3:28 AM
#23
Eu lembro deste gol! Foi célere a vitória do Galo (uma das poucas e divertidas dos últimos tempos - snif), com o gol do goleiro aos 46' do 2º tempo!
Mas a sua narração, com os dois cegos em pleno Mineira's em polvorosa... Não tem preço!
Ri muito, Idelber!
Beijo
Ana Letícia em abril 18, 2006 11:48 AM
#24
Deliciosa história, Idelber! Nao precisa nem gostar de futebol para gostar da narrativa!
Beijos,
Vanessa em abril 18, 2006 5:06 PM
#25
Salve, salve Idelber!
meu time botou 4 no maracaibo, hehehehe!
Agora essa tua volta com os cegos me lembrou a segunda noite do 3ºFSM, no anfiteatro pôr-do-sol. Show do Lobão, chega um cego que queria conhecer o Lobão, encaminho o moço ao camarim, de repente lobão e banda sobem ao palco e parece que esquecem o cego lá dentro. vou até o camarim e o moço está abrindo a freezer, apalpando as latinhas, lhe dou uma de refri, ele diz que não quer, pergunto se deseja uma cerveja, ele responde não e diz: quero o energetico. Uh? como ele sabia que tinha energetico ali dentro? respondo que, infelizmente, não poderia atender o pedido. convido-o a sair, pois o camarim deve ser fechado até o final da apresentação. Pego-o pelo braço e o encaminho para área reservada, vip, onde poderia escutar o show tranqüilamente, ele aperta a minha mão e diz: aqui não! quero ficar na frente do palco! Cara, juro que não pensei, tamanho desespero que me encontrava para resolver a crenca e curtir o show que disse: como assim na frente do palco? tu não é cego?
E não é que o cara era cego mesmo!?!
bjão,
meu colorado deixou o maracaibo de quatro, hehehe.
Elenara Iabel em abril 19, 2006 2:29 AM
#26
Tem que avisar! Recebo um presente desses e só descubro 5 dias depois? Qual é?
Adorei a história dos cegos!
Uma vez, levei um cego perdido no centro de Porto Alegre até o endereço onde ele queria ir, a umas três quadras de onde estávamos. Começamos a caminhar, conversar animadamente e, com minha atenção inteiramente voltada para ele, dei de cabeça num poste. Ele perguntava: tu sabes onde estás me levando, tu enxergas de verdade? Dávamos risadas enquanto um galo (outro) crescia na minha testa.
Pobre mexicano! Lembranças ao Frajola. Leia o texto para ele.
Rapaz, eu lembro deste gol. O Eduardo acabou aqui no Grêmio, mas era muito ruim. Foi seu momento de glória.
Grande abraço e obrigado pela dedicatória.
Milton Ribeiro em abril 19, 2006 10:29 AM
#27
Oi, todos :-)
Esta semana foi cheia, com um convidado muito especial aqui, então acabei ficando longe da internet. Mas já li os comentários e estou visitando os blogs.
Alessandra, sempre vejo o Éder, ele almoça às vezes no mesmo restaurante que eu lá em BH. É verdade, já não é o mesmo . . .
Renato, obrigado, vou passar lá no Tordesilhas, atrasadíssimo :-)
Bender, tenho a sensação de que era lá mesmo, mas não saberia te dizer com certeza. . .
Obrigado a quem visitou hoje pela primeira vez, voltem sempre.
Idelber em abril 20, 2006 1:53 PM
#28
Idelber, to lendo meio atrasado seu comentário sobre sua visita ao Mineirão quando viu o Éder Aleixo- não era só você a "caidinha pelo Éder" depois da copa 82! Eu fui fã de carteirinha, passei até a torcer pelo Atlético - rsssssssssss!!! E nem vc foi a única que, anos depois, sentiu sua "juventude esmigalhada" ao vê-lo (rsssss)! Outro dia o vi na Globo, não pude acreditar! Mas quer saber? Ainda o achei um gataço - para a idade, claro! Sou destas fãs convíctas! rssss! Beijão, maneiro o espaço! Alahnat
Alahnat em junho 13, 2006 10:57 PM
#29
Última forma, Idelber, meu comentário aí sobre o Éder Aleixo foi por causa do post da Alessandra! Vi meio na pressa; desculpe!! Abraço outra vez, paz, felicidades, alegrias, e Hexa do Brasil na Copa!!! Içaaaaaááááááa!!!!!!!!!!!!!!.....
Alahnat em junho 14, 2006 10:10 AM