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sexta-feira, 28 de abril 2006
Belo Horizonte (post republicado)

(aproveitando o embarque para Belo Horizonte nesta sexta-feira, republico um post do ano passado sobre a cidade)
Eu tenho por Belo Horizonte esse amor cheio de idealizações que é próprio dos expatriados. É curioso chegar aqui anualmente e renovar esse amor com rituais que beiram o patético: ir à Praça da Liberdade comer uma coxinha de galinha com guaraná; ir ao Mineirão ver um jogo; ir ao Santa Tereza e redescobrir que ainda há lugares onde as pessoas passam 8 horas numa mesa de bar, bebendo e cantando até o amanhecer. É difícil explicar como é, para um expatriado, descobrir o que já se sabe, ver o velho com olhos de novidade. Estar de volta no Brasil, estar de volta em Minas.
É curioso porque, analisando-se friamente, Belo Horizonte não é uma cidade das mais fascinantes. Não tem praias e hospeda a população mais obcecada com praia que há no mundo. Você quer falar de praia, tecer teorias sobre a praia, chame um mineiro. Você escutará as teorias mais insólitas.
Bonita a cidade não é, com certeza. Porto Alegre, por exemplo, é muito mais chamativa plasticamente. O trânsito de Belo Horizonte é o pior que eu conheço, e olha que eu já viajei por este mundo (sempre que digo isso, meus amigos paulistanos exibem o comprimento dos seus engarrafamentos e o tempo que passam no trânsito; em números absolutos, eles têm razão, mas acreditem: São Paulo não chega aos pés de BH em caos por centímetro quadrado).
BH é um arraial planejado para existir dentro de uma avenida circular, a Contorno. A cidade se espraiou loucamente em todas as direções e transbordou a Contorno por dezenas de quilômetros, mas continua existindo como se fosse o velho arraial. Enquanto que é perfeitamente possível, por exemplo, viver em Copacabana de forma relativamente auto-suficiente, em BH todos os cinemas, teatros, repartições públicas e tudo o mais continuam localizados dentro da Contorno. Todo mundo tem que ir ao centro por algum motivo. O centro é um aglomerado de ruas estreitas, planejadas para abrigar o movimento de uma população de, no máximo, uns 200.000. O resultado é que 3 milhões de pessoas vivem aqui em convergência permanente em direção a um espaço onde elas não cabem. Dirigir no centro de BH é das experiências mais enlouquecedoras que pode passar um ser humano.
De onde vem, então, o fascínio? BH combina, de forma singular, o cosmopolitismo e o provincianismo. Cosmopolita, cheia de opções culturais, BH mantém algo do velho Curral d’el Rey: os mineiros dão informação, por exemplo, como se ainda estivessem no arraial. Tudo é logo ali. Tudo tem uma certa intimidade que não noto nem mesmo em cidades menores, como Curitiba ou Fortaleza.
O salto cultural dado pela cidade nos últimos anos foi impressionante. Eu sou muito crítico do governo federal, mas há que se reconhecer que as sucessivas prefeituras petistas belo-horizontinas (em coalizão com o PSB e o PC do B) têm sido notáveis. BH é hoje a capital internacional do teatro de bonecos. É conhecida mundialmente pelos seus eventos de teatro de rua. Acontecimentos como o Salão do Livro e o Comida de Buteco continuam atraindo multidões anualmente. A cena musical continua tão rica como sempre foi, mas muito mais estruturada e com melhores canais de comunicação com a população. À pilhagem das igrejas evangélicas sobre os cinemas seguiu-se uma proliferação de cineclubes que fazem que a oferta de cinema hoje seja ainda melhor do que era quando a cidade possuía suas salas de cinema clássicas. Os bairros periféricos fervilham de atividades culturais inovadoras.
Há tempos escrevi um post, ainda no velho UOL, que diferenciava cidades-véu de cidades-vitrine, cidades que o abraçam quando você chega e cidades que exigem um guia. BH pertence a esta última categoria. Chegar aqui e zanzar ao léu, como é possível zanzar em NYC ou no Rio, é decepção na certa. A cidade não se oferece a você e não o seduz, como Salvador. Você tem que seduzi-la.
Tudo aqui é cheio de recovecos. As pérolas estão escondidas. Mais ou menos como na psicologia do mineiro, a melhor parte é a que se esconde atrás do véu e que só se descobre com o tempo.
É muito intensa a experiência de renovar esse laço com a cidade.
Escrito por Idelber às 04:30 | link para este post
| Comentários (29)
#1
A sensaçao que eu teve depois de ler este post foi paradoxica, como quase todo nesta vida. Fiquei com uma vontade grande de conhecer a cidade...e fiquei com essa "raiva" de saber que sera dificil que eu conheça. O "ruim", bem entre muitas aspas, de estar casado com uma brasileira e morar em Espanha é que as ferias sao de uso quase exclusivo para ficar com seus pais e seus irmaos, lá na bela Joao Pessoa e visitar essa quantidade inacreditavel de tios, primos etc. Eu só fui trez vezes na minha vida ao Brasil. Na primeira, Rio e Salvador, fui como um simples turista europeio, quase no pior dos sentidos da palavra turista, a segunda, Joao Pessoa, foi para conhecer a quem agora é minha mulher (ja sabe...uma dessas curiosas relaçoes ciberneticas que deu certinho)...e a terceira, em dezembro e janeiro, voltei a joao pessoa..mas eu teve a sensaçao de que foi a primeira vez que, realmente, conheci o Brasil...mas isso ja é para outro post..que aqui fiquei muito chato :) :)
javi brasil em abril 28, 2006 7:32 AM
#2
Admiro bastante este blog, aprecio fazer comentários ocasionais quando o assunto é política (o melhor blog pra esse assunto é aqui, na minha humilde opinião) e gosto também dos posts sobre música, sempre surpreendentes. Dito isso, peço perdão pelo off-topic para passar um link:
http://brnuggets.blogspot.com/
Tem o Paêbirú para download!
daniel em abril 28, 2006 12:44 PM
#3
Que lindo post, Idelber. Tem a alma daqui mesmo. Concordo com tudo, exceto com a parte que diz que a cidade não é bonita. Tem momentos em que ela é linda, mas não é daquelas belezas descaradas como o Rio, há que se olhar com ternura para vê-la. Sou apaixonada por este lugar. Nos vemos no lançamento da Ana, até lá!
Ju em abril 28, 2006 3:23 PM
#4
Seja bem-vindo. Temos que aproveitar o Comida di Buteco ! Um abraço.
Fefê em abril 29, 2006 11:21 AM
#5
Lendo o seu poste me lembrei de Porto Alegre. Onde tudo converge para o Centro. Mas sabe que prefiro assim. Morei 14 anos na Barra da Tijuca, Rio, e quase nem saia do bairro. Fiz minha vida ali. Era uma mini-cidade dentro da outra.Quase tudo tinha ali, para que sair??? Só para um passeio diferente com a família em algum fim de semana.
Boa viagem.
Bjos.
Vera em abril 29, 2006 11:34 AM
#6
Caro e estimado Idelber
Voltando ao Brasil você estará praticamente em contato com outro país. Após o retorno do 'astronauta brasileiro' de sua viagem ao espaço sideral a situação em nosso país mudou bastante.
Hoje sentimos que a auto-estima do nosso povo encontra-se hiper animada. As ondas de desânimo fruto de movimentos políticos já estão domadas. Até mesmo o companheiro José Dirceu foi aplaudido em reunião política!
Tudo graças aos bons fluídos que nos trouxe do espaço o 'astronauta brasileiro'.
Feliz retorno.
Paulo
Paulo em abril 29, 2006 12:23 PM
#7
Acredito que esse negócio de centro é coisa de mineiro! Claro que JF (outra mania de mineiro, abreviar BH) não é tão extra ordinária, como BH, mas aqui também as coisas funcionam assim: há bairros com movimento comercial e cultural próprios, mas se alguém precisa de algo realmente importante, tem que ir ao centro (cujo trânsito também é caótico). mas há uma força que impele todos para a periferia no quesito diversão (BH também tem uns bares que se afastam do centro). Aliás (adora essa palavra) em qualquer minúscula cidade de Minas há centro! Bom retorno, e se passar por JF, nos encontramos no calçadão!
maria Andréia em abril 29, 2006 4:19 PM
#8
bom retorno, professor.
Thiago em abril 29, 2006 5:06 PM
#9
É interessante como as cidades têm personalidade. A sensação que me passa é que não é só pelas populações que lá residem. Se trocassem de lugar os cariocas e os paulistas, Rio e São Paulo continuariam a ser Rio e São Paulo, não lhes parece? Brasília de Minas, onde trabalhei por dois anos, era única, assim como São Gabriel da Cachoeira, onde fiquei três meses. Será só pelas condicionantes físicas? Ano passado, com a cara e a coragem, fui conhecer Buenos Aires por cinco dias. A impressão que me deu é a de uma grande sala íntima. Não vi em nenhuma cidade brasileira tanto carinho aparente de um povo por sua cidade.
mauro chazanas em abril 29, 2006 6:33 PM
#10
Legal ouvir um 'ex-patriado' falar dessa cidade realmente paradoxal. Sou um morador de BH e vivo em constante 'lua' com a cidade. Um dia a amo, outro a odeio, ou no mesmo dia as duas coisas.
Belo blog!
Abraço
Rodrigo em abril 29, 2006 6:43 PM
#11
Boa tarde a todos e obrigado a quem passou aqui e a quem ainda vai passar :-)
Verdade o que diz o Paulo: cheguei e senti um clima diferente no país, distinto do que eu deixei em janeiro. Curioso como a atmosfera muda em quatro meses, né? Será a Copa, será o astronauta, será outra coisa?
Javi, morar em Madri e passar férias em João Pessoa não é nada mau, hein?
Daniel, obrigado pelas palavras e pelo link. Pronto, agora só não ouve o Paêbirú quem não quiser. . .
Oi, Ju, eu também tenho a maior fascinação por BH, e cada vez mais acho lugares belos, belos por aqui. Acho que ao escrever o post pensei na falta de ´plasticidade´ de uma certa paisagem ultra-urbana do centro de BH, mas buscando-se os recovecos e olhando ´com ternura´, como você diz, vê-se muitas pérolas, né?
Oi, Fefê, obrigado, e vamos sim, conferir o comida de buteco :-) Vejo você e Ju no lançamento da Ana também, né?
Pois é, Vera, o Rio tem essas coisas, muito diferentes de PoA e BH: bairros completamente auto-suficientes. Eu gosto, mas a loucura convergindo para o centro também tem o seu encanto, né?
Maria Andréia, acho que desta vez não vai dar tempo de ir aí ao calçadâo não, uma pena. Mas procure por mim no próximo número da Ipotesi, tá?
Obrigado, Thiago :-)
Mauro, também tenho a sensação que você teve em Buenos Aires. Visito a cidade com frequência. Há alguns posts sobre Bs. As. aqui no blog, não sei se você os viu:
http://www.idelberavelar.com/archives/2005/08/esses_estranhos.php
http://www.idelberavelar.com/archives/2005/08/desde_buenos_ai.php
Obrigado, Rodrigo, pelas palavras e pelo link no Aphasia, que eu gostei muito de visitar e onde retornarei outras vezes, com certeza. Também compartilho o amor/ódio, o segundo muito especialmente quando tenho que dirigir no centro . . .
Abraços e bom domingo,
Idelber em abril 30, 2006 12:18 PM
#12
Bacana este texto, Idelber. COmo mineira do interior compartilho muitas de suas sensacoes, com a diferenca de que a minha cidade, Pirapora, está perdendo seu principal atrativo: o Velho Chico. Portanto, a volta ao lar tem sido marcada por uma melancolia crescente.
Ainda assim, acho delicioso ver que algumas outras coisas nao mudam, mesmo as ruins (ao menos, nos dao identidade).
Beijos e divirta-se,
Vanessa
Vanessa em maio 1, 2006 3:03 AM
#13
Caro Idelber
Sobre um assunto que já se comentou por aqui.
O zagueiro Luizinho apareceu em breve entrevista no Globo Esporte. Falando sobre a seleção de 82 e o fatídico jogo, disse ele (com expressão calma e tranquila) que a seleção estava começando a se achar imbatível, e não era bem assim (como foi comprovado).
Para a minha economia particular era o registro que faltava! Gostei da franqueza de Luizinho. Seria interessante que mais Valdir Peres, Júnior e Toninho Cerezzo dessem as suas versões. Estes dois últimos ainda conseguiram administrar suas carreiras.
É justo o desempenho de Luizinho na Seleção que me faz ter medo de uma possível titularidade de Rogério Ceni. Pois ele foi protagonista de dois dos maiores frangos da história do time brasileiro.
paulo em maio 1, 2006 7:36 AM
Melômano em maio 1, 2006 10:36 AM
#15
Sou alemão do sul do Brasil, estou te escrevendo pra te dizer que 'adorei' esse teu escrito. Trocado em miúdos, aí tú falas de mim, do meu jeito de ser, do meu povo e de meu lugar de origem. Viva o Brasil! -P.
-P. em maio 1, 2006 2:31 PM
#16
Putz, eu ia perguntar sobre o festival de jazz desse fim de semana... Boa estadia em Belo Horizonte.
Flavio Prada em maio 1, 2006 3:26 PM
#17
Idelber:
é off-topic, mas é irresistível:
vc viu o Garotinho fazendo greve de fome?
risos... como vc disse em algum post um tempinho atrás, a política brasileira tem coisas q são realmente impagáveis!
pelo menos ele vai perder uns quilinhos, né?
abs,
dra em maio 1, 2006 4:26 PM
#18
Boa estada em Minas, rapaz. Muitos Anapolinas e Guaranis te aguardam...
Grande abraço.
Milton Ribeiro em maio 2, 2006 9:39 AM
#19
Um dia vou a BH - que não conheço - conferir o caos e o clima. :)
Está voltando ? Pois seja bem vindo!
Beijos,
Silvia Chueire em maio 2, 2006 11:23 AM
#20
Vanessa, que bacana saber que você é de Pirapora. Eu tenho uma baita relação com aquela região, gosto de lá. Não tenho visitado ultimamente, tenho vontade de ver como anda :-)
Paulo, obrigado pelas notícias sobre o Luisinho. Ainda estou lhes devendo minha tese sobre como o Brasil perdeu a Copa de 1982 no dia 05 de março de 1978, não é? Um dia desses publico.
Bacana o texto sobre Dorival, Melômano. Obrigado :-)
Obrigado, P, ontem mesmo eu assistia no telejornal uma polêmica sobre qual foi a primeira colônia alemã no Brasil, se São Leopoldo (RS) ou se Nova Friburgo (RJ)...
Flavio, não tenho notícias ao vivo do festival, mas todos os amigos têm dito que o primeiro fim de semana foi lindo, bem emocionante...
dra, esse off-topic é bem-vindo em qualquer post. É impagável, né? Merece um post....
Caro Milton, o vice-líder invicto da Série B se prepara agora é para eliminar o Flamengo... Aguarde-nos :-) (no hay que perder el humor jamás)
Beijos, Silvia, obrigado, e não deixe de vir curtir BH um dia, viu? Não conheço nenhum carioca que não goste :-)
Idelber em maio 2, 2006 2:28 PM
#21
Idelber,
Muito obrigado pelas dicas dos dois posts desde Buenos Aires. Sensacionais. Tentei, como faria um personagem de Borges ou de Bioy Casares, deixar comentários mas não encontrei a "porta". Vou ouvindo a "la 2x4" pela rede - conhece? - enquanto não consigo voltar pra BA. Mas desculpe a insistência: que tal reabrir a temporada de comentários para aqueles posts? Ou, talvez, retomar o assunto. Entre outras coisas, estou com o hino do novo país prontinho. PS: olha a situação do meu Santos: se vencer amanhã, vai enfrentar o teu Galo. Se passar, pega o Cruzeiro. Quer dizer, exagerando Drummond, pro Santos "há uma Minas Gerais inteira no meio do caminho"!
mauro chazanas em maio 2, 2006 7:30 PM
#22
Caro Mauro, o problema é que com o aumento muito grande de acessos ao blog, as caixas de comentários antigas passaram a ser inundadas pelo spam: inundadas mesmo, 100 por dia. Aí, infelizmente, tive que fechá-las para comentários depois de 30 dias. Mas o assunto volta, pode deixar, e aí a gente publica o hino. Guarda aí. . .
Idelber em maio 3, 2006 3:27 PM
#23
Tenho saudade mesmo é do papá.
Não resisti comentar aqui.
SAUDADE...
Minha irmã casa hoje aí, e eu aqui de mãos e pés gelados.
Humpf!!
Simy em maio 6, 2006 2:18 PM
#24
Gostei do que Idel e outros escreveram sobre Beaga,Tenho uma família torta lá e visito uma vez por ano.O melhor de Minas era meu mineiro que morreu.
Leia Beigler em maio 21, 2006 5:45 PM
#25
Idel e leitores
Que conversa interesante essa de Idel e leitores sobre Beaga!Que conversa lnda Idel tem com os leitores.E que organizado é este blog.
Leia Beigler em maio 21, 2006 5:51 PM
#26
ah petista pára com isso!BH é e sempre foi uma droga...e as prefeituras do Pt,Patrus Ananias e do coligado Célio de Castro,além de não agregar nada,deixaram a cidade imunda.O Fernando Pimentel é melhorzinho mas como fez algo,e PT quando faz é porque teve como roubar algum,só o tempo dirá com mais um escândalo.
pedro paiva em junho 9, 2006 12:04 PM
#27
Falar q BH é uma droga é pq vc deve ser uma merda!!
Mineiro em junho 13, 2006 10:30 AM
#28
O cara fala mal de Beagá o tempo todo e as pessoas aqui ainda o vangloriam. É triste quando as pessoas vão p/fora do Brasil e chegam c/comparações sem fundamento. Já q lá fora é melhor, pq não fica por lá hein? Com certeza não fará a menor falta. FALEI!
Seu João em junho 13, 2006 10:39 AM
#29
Uai, não entendi, Seu João. Onde é que o post fala mal de Beagá?
Idelber em junho 13, 2006 1:08 PM