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sexta-feira, 21 de abril 2006
Morreu o Mestre
(morreu hoje em Belo Horizonte o mestre, o melhor de todos, o maior técnico de futebol brasileiro de todos os tempos. Não há personalidade mais querida no mundo do futebol que Telê Santana. Adorado muito especialmente por atleticanos, são-paulinos, gremistas, palmeirenses e tricolores cariocas, Telê tinha a admiração de todos. Como homenagem, o blog republica o post feito no dia 27 de julho do ano passado, quando Telê comemorou 74 anos. Foi o seu último aniversário)
Com um dia de atraso, o blog saúda o 74o aniversário de Telê Santana, comemorado neste dia 26 de julho. Seria exagero dizer que foi o maior técnico da história do nosso futebol? Com certeza, foi o maior entre os que eu vi.
Como jogador, no Fluminense, do alto dos seus 57 kg, inventou uma posição: a do ponta que fecha para o meio, recua, ajuda na marcação e arma o contra-ataque.
Mas as maiores glórias foram como técnico. Três anos depois de encerrada a carreira, em 1965, recebe o comando do Fluminense e leva a equipe ao título do Campeonato Carioca de 1969 e do Roberto Gomes Pedrosa de 1970, o Brasileirão da época. Ainda em 1970 assume o Atlético-MG e quebra a hegemonia de 5 anos do ex-Ipiranga, que tentava o hexacampeonato.
Ainda sob a euforia do tricampeonato da seleção no México, a antiga CBD decide organizar o primeiro certame realmente nacional do nosso futebol, o Campeonato Brasileiro. Naquele pioneiro Campeonato de 1971, havia vários favoritos: o Santos de Pelé; o São Paulo de Gérson e Pedro Rocha; o Botafogo de Jairzinho e Carlos Alberto; o Palmeiras de Ademir da Guia; o ex-Ipiranga de Tostão e Dirceu Lopes.
Mas quem papou o título foi o Galo de Dadá.
Obra pessoalíssima de Telê Santana, que forjou uma equipe campeã com 11 jogadores limitados, que sabiam suas funções e seguiam fielmente o seu técnico. Só Telê Santana foi capaz de quebrar a hegemonia do rolo compressor do Internacional, conquistando com o Grêmio - de novo, no comando de um limitado elenco - o histórico Campeonato Gaúcho de 1977.
Na Seleção Brasileira, armou a maior máquina de jogar futebol que vimos desde a era Pelé, o escrete de 1982 - que parecia jogar por música, sempre ofensivamente, surpreendendo o espectador e o adversário com jogadas geniais. Perdeu a Copa de 1982 numa fatalidade e começou aí o absurdo mito do "Telê pé frio".
A corja da CBF, a camarilha da Rua da Alfândega, jamais lhe perdoou alguns pecados: um deles, o de ser mineiro. O outro, o de ser avesso à politicagem e ao conchavo. O terceiro, o de jamais aceitar interferências no seu trabalho. E finalmente o de jamais deixar de denunciar a violência e os árbitros e cartolas coniventes com ela.
Uma vez, perguntaram ao grande Zico se havia algum treinador que jamais havia mandado bater num adversário. Zico respondeu: somente Telê.
Por tudo isso, torci muito pela seleção de 1986, que poderia ter sido a redenção de Telê no comando do Brasil. Mas de novo, numa fatalidade povoada de penais perdidos, o Brasil foi eliminado da Copa e o futebol ofensivo de Telê foi substituído por retrancas e brucutus. Ganhou força o mito do "pé frio".
Assumiu o Galo de novo e, às vesperas da decisão do Campeonato Mineiro de 1988, teve que ouvir durante toda a semana que o ex-Ipiranga já festejava o bicampeonato, pois tinha a melhor equipe e enfrentava um "pé frio". Os garotos do Galo, quase todos oriundos dos juvenis, fizeram um pacto pela vitória por Telê, por amor a Telê. A massa tomou 2/3 do Mineirão, como é de costume nos clássicos mineiros, e gritou o nome do seu técnico ao longo do jogo. Os meninos se encheram de brios e venceram por 1 x 0. Galo campeão mineiro de 1988. Uma multidão esperou Telê para carregá-lo nos ombros.
Mas ainda faltava a grande volta por cima.
Em outubro de 1990, o São Paulo era uma equipe em crise, já há quatro anos sem títulos importantes. Telê assume o Tricolor e em menos de um ano monta o maior esquadrão da história do clube. Naquele time, Telê burilou peça por peça. Um certo lateral direito apenas esforçado recebeu horas e horas diárias da atenção do mestre (especialmente nos cruzamentos) e em pouco tempo se transformou no Cafu depois capitão do pentacampeonato.
Com Telê, o São Paulo foi campeão dos dois campeonatos mais importantes do país em 1991, o Paulista e o Brasileiro. Em 1992 levou o São Paulo ao título da Libertadores. Ganhou o campeonato mundial interclubes. Trouxe ao seu time outro mineiro apedrejado depois da tragédia da Copa de 1982, o já veterano Toninho Cerezzo. Sob a batuta de Cerezzo, Raí e Telê, o São Paulo repetiu a dose em 1993: campeão da América e campeão mundial. Durante 5 anos no São Paulo, Telê fartou-se de ganhar títulos, de calar a boca dos críticos e de encantar o mundo com o futebol bonito e ofensivo que a seleção brasileira jamais voltou a jogar desde que ele deixou de ser seu treinador.
Vive agora com a saúde bem debilitada, mas cercado, aqui em Minas Gerais, de um amor absolutamente unânime.
Hoje à noite jogam Atlético-MG e São Paulo no Mineirão. Seria uma linda oportunidade para que as torcidas dos dois clubes prestassem uma homenagem àquele que foi o maior técnico de suas histórias.
Evoé, Telê.
Escrito por Idelber às 16:13 | link para este post
| Comentários (27)
#1
Que descanse merecidamente! Ao mestre, com carinho, do tricolor do morumtri (graças a ele)
gugala em abril 21, 2006 4:28 PM
#2
Virei fã de bola por causa dele. E olha que tinha tudo para ter certo nariz torcido, como corintiana que sou. Mas 82 foi acima e além de rivalidades clubísticas. Será que lembraríamos tanto, se tivéssemos ganho? Também deixei minha homenagem lá no meu blog.
Alessandra Alves em abril 21, 2006 6:53 PM
#3
Idelber, aqui na Itália não vi ainda ninguém que comentasse a vitoria daquela copa sem acrescentar: "ainda que aquele Brasil fosse mais forte". Eu nunca comento futebol, faz parte das coisas que me fazem indiferente. Mas o cidadão Tele Santana é dos brasileiros que o Brasil precisa ter como modelo. Uma perda grande em termos humanos. Que descanse em paz.
Flavio Prada em abril 21, 2006 7:08 PM
#4
Hoje BH está com tempo frio, apesar de um céu azul arroxeado agora no final da tarde: prenúncio de mais friagem.
A cidade está "parada" por causa do feriado de "Tiradentes" e, após a notícia da morte do Telê - cuja agonia acompanhei pelo noticiário - me parece que BH está triste. Telê, para mim e para muitos, representa a "honestidade de propósitos" - termo entendido por alguns que ainda acreditam na "ética", inclusive no esporte. Um homem e muitas lições. Espero que a amnésia coletiva não nos deixe esquecer, nem o homem, nem suas lições.
Cláudio Costa em abril 21, 2006 7:15 PM
#5
Eu odiei Telê quando ele transformou o São Paulo no clube de ponta que dominou o mundo no começo da década de 90. Mas era raiva passageira, quase uma inveja por ele não ter ido nunca para o Parque São Jorge. Era um treinador fantástico, incomparável, com personalidade própria, rígido e carinhoso ao mesmo tempo... Uma pessoa memorável.
Que esteja em paz.
Abraços.
Thiago em abril 21, 2006 7:37 PM
#6
É isso, Flávio, Telê tinha o dom de encantar até mesmo os que não gostavam de futebol, por esse dado que o Cláudio mencionou. O homem tinha uma ética assombrosa. Não negociava um só princípio.
Alessandra, li a história do nhoque, muito bacana :-) Acho que todos nos lembramos do que fizemos ou do que vestimos ou do que comemos naquela tarde do Sarriá, não é?
Pois é, Gugala, quem é tricolor tem uma razão especial para amá-lo. Os grandes times são conhecidos pelos seus jogadores marcantes: o Santos de Pelé, o Inter de Falcão, o Botafogo de Garrincha. Mas o São Paulo tem a honra de ser o São Paulo de Telê. Caso único.
E o carinho do Thiago e da Alessandra, corintianos, por ele, mostra o amor universal de que ele desfrutou.
Juca Kfouri também fez homenagem, lembrando, muito bem, que no dia 21 de abril morreram três mineiros cujos nomes começam com T e que representaram a esperança: Tiradentes, Tancredo e Telê. Bem assombrosa essa coincidência de datas.
Idelber em abril 21, 2006 8:12 PM
#7
Coloquei um post no Mirante sobre Telê. O fato da gente de certa forma já estar esperando esse fato lamentável não diminuiu o impacto da notícia.
Telê me ensinou a amar o futebol, e a acreditar que é possível ter integridade num ambiente viciado. Se hoje, mesmo sem ter um time do coração, eu ainda me emociono com a emoção da massa, devo isso a ele.
Marcus em abril 21, 2006 8:18 PM
#8
Telê foi o maior técnico brasileiro, sem dúvida. Ele e Rinus Michels foram meus maiores ídolos na casamata. Foi um gênio para dar dinâmica a suas equipes, além de ter, sobre todas as coisas, ojeriza de ter ojeriza à violência.
Foi técnico do Grêmio nos tempos em que este time dedicava-se mais ao futebol e menos às faltas. Ele veio para impedir que enfileirássemos o nono título consecutivo. Foi um prazer perder só para ele.
Perto dele, os atuais Cappello, Mourinho, Felipão são caricaturas.
Fico triste.
Milton Ribeiro em abril 21, 2006 9:04 PM
#9
Idelber, mto legal a republicação do post. Lembro q aprendi a gostar mais do Telê qdo li seu texto.
Bela homenagem!
Bjos,
Cipy em abril 21, 2006 9:13 PM
#10
Caro Idelber
A primeira vez que eu ouvi falar de Telê foi nas páginas de O Globo. Ele estava treinando no Vasco que, se não me engano, era dirigido pelo Aimoré. Creio que ele chegou a jogar um ou dois jogos do Campeonato Carioca daquele ano.
Não o conhecia. E foi aí que soube que ele tinha sido uma glória como jogador do Fluminense em outros tempos.
Se não me engano Telê foi o treinador dos juvenis do Fluminense em 1968. No campeonato de 1969, que foi muito equilibrado, Telê foi campeão sobre o Flamengo. O que para o Fluminense é um campeonato duplo.
O time campeão carioca de 69 foi campeão do Robertão de 1970. Me lembro que Telê comprou uma briga com a diretoria do Fluminense, por não concordar que os jogadores fossem proibidos de entrar no clube pela portaria dos sócios.
Várias vezes depois desta sua passagem pelo Fluminense, ele foi apontado como esperança, mas nunca mais chegou a ser técnico nas Laranjeiras.
Paulo em abril 21, 2006 10:37 PM
#11
Paulo, muito obrigado pela correção! Você está certo, o Telê foi campeão do Robertão de 1970 com o Fluminense, não de 1969. Em 1969 ele ganhou o Campeonato Carioca. Já corrigi o post.
Êta blog que tem leitores eruditos!
Idelber em abril 21, 2006 11:09 PM
#12
Salve Telê! Acabaram-se os sofrimentos, fica o Fio de Esperança!! Beijus
Luma em abril 21, 2006 11:45 PM
#13
Mestres são chamados rápido assim pra compor a elite que possa salvar a desgraça que se abate sobre nosso planeta. De lá, quem sabe, os Deuses possam aprendem com ele táticas mais eficientes pra combater, e vencer, tanta merda.
Charley em abril 22, 2006 10:09 AM
#14
Por apenas um gol de um jogador que nada mais fez depois de então Telê de quase redentor do futebol brasileiro pós-70 ganhou a injusta pecha de pé-frio. O mestre vai estar a partir de agora dando bronca no Garrincha para voltar na marcação :-) Abs.
Fábio S. em abril 22, 2006 12:56 PM
#15
É incrível a unanimidade dele em qq parte do Brasil. Mais do que Tancredo e do próprio Tiradentes. Abç
gugala em abril 22, 2006 2:27 PM
#16
Quem vai recebe-lo na entrada do céu é São Pedro, mas quem vai leva-lo para perto de Deus é São Paulo. Obrigado Telê.
Leão em abril 22, 2006 3:52 PM
#17
Quem vai recebe-lo na entrada do céu é São Pedro, mas quem vai leva-lo para perto de Deus é São Paulo. Obrigado Telê.
Leão em abril 22, 2006 3:57 PM
#18
Ainda fui obrigado a ouvir, na mesa do buteco, que o Parreira é melhor que o Telê. "Técnico bom é aquele que ganha Copa do Mundo", disse o filho da puta. Eu não mereço isso, e o Telê muito menos!
Paulo Morais em abril 22, 2006 4:29 PM
#19
Na década de 50 quando TELÊ conseguiu os seus títulos como jogador profissional, Zizinho era considerado (pelo menos pelos depoimentos que já li e ouvi) como o melhor jogador brasileiro. E Zizinho foi apenas vice-campeão do mundo.
Depois de 1994, tendo o Brasil conseguido 4 vitórias em Copas, e com a debandada de valores para o exterior, a clasiificação da 'qualidade' dos jogadores - e creio que também dos técnicos -passou a ser baseada na classificação em Copas do Mundo. Com a vitória de 2002 a coisa ficou mais acentuada.
O pensamento NEO-LIBERAL é assim!
Portanto não creio que uma CONQUISTA DE COPA DO MUNDO seja parâmetro para a avaliação de TELÊ. Tenho a impressão que o grande trabalho no cartel de técnico do 'Fio de Esperança', foi a Copa de 82.
Paulo em abril 22, 2006 6:02 PM
#20
pois é...
eu tb aprendi a gostar de futebol com Telê e com aquela sua maravilhosa seleção de 82. do alto dos meus 6 anos de idade, mesmo com a derrota, me recusei a chamá-lo de burro. o time era fantástico e me valeu tb muita gozação aqui em casa, já q meu pai é argentino e levou uma saraivada de 3 a 1 naquela copa...
PS: mas já q seu post tocou no nome desse outro ídolo meu, preciso dizer q tb aprendi a gostar de futebol com Dadá Maravilha, que, nesses idos de 1982, já meio velho e cigano, fez uma temporada aqui no Bahia. nunca esqueço de uma de suas frases características, q ouvi em alguma entrevista de rádio naquela época: "só três coisas param no ar: helicóptero, beija-flor e Dadá"...
abs,
dra em abril 22, 2006 7:12 PM
#21
Meu sogro que conheceu Telê nos anos 50, disse-me
com absoluta certeza que Telê é unanimidade: como jogador, treinador e como exemplo da ética no futebol...
abs,
paulinho em abril 22, 2006 10:59 PM
#22
Se TELÊ é unanimidade, o simpático jogador que foi citado quase se tornou um pesadelo na Copa de 70 (ficou no quase).
Paulo em abril 22, 2006 11:54 PM
#23
Grande Idelber! Apareci por aqui porque tinha certeza de que haveria uma homenagem para nosso grande mestre. Eu estou devendo a minha ainda, mas virá. Coisa de torcedor chato: o São Paulo foi campeão brasileiro em 86 e paulista em 87 e 89, como assim 4 anos sem títulos importantes? hehehe Na verdade a crise mesmo ocorreu durante 1990, quando já com Telê perdemos a final do Brasileiro para o time da Marginal S/N e fizemos um péssimo campeonato paulista. Aliás, tivesse ocorrido o natural imediatismo dos dirigentes brasileiros neste caso, o São Paulo não teria as glorias que teve com o mestre. Grande Abraço.
Donizetti em abril 24, 2006 12:21 AM
#24
Tentei falar de Telê em meu blog mas acabei desistindo...
Pra mim o homem que ensina o JÚNIOR BAIANO a se comportar tática e disciplinarmente dentro de um campo de futebol já merece uma estátua! E o mestre Telê fez MUITO mais do que isso! Eu sou torcedor do Coritiba (Ah sofrimento) mas minha simpatia pelo tricolor paulista vem dos tempos do esquadrão montado pelo mestre. Sempre na lembrança e muita saudade de Telê. Exemplo de vida e integridade.
John Coffey em abril 24, 2006 9:47 AM
#25
dia 21 de Abril virou o dia do ta-te-ti-to-tu mineiro.Quem serão ou foram os mineiros to- e tu-? Pensei muito e sempre me vinha à cabeçaa figura do Tostão, espero que seja só lá pelos anos de 2076. O tu- não sei. Será que não pode ser gaúcho?
abç
gugala em abril 24, 2006 9:07 PM
#26
Oi, Doni, você tem razão (eu me lembro do post original, você me fez a mesma correção): 4 anos sem títulos importantes está mal colocado; eu deveria ter dito "4 anos sem títulos nacionais ou internacionais". Mas enfim, era uma crise braba sim, e lembremos o quase rebaixamento no Paulistão de 90, antes da chegada de Telê. O mestre chegou em outubro, e três meses depois era vice-campeão brasileiro com um time que quase havia sido rebaixado no Paulista. Mas a sua correção está mui certa sim :-) Abraços,
Idelber em abril 24, 2006 11:26 PM
#27
Caros amigos,
Apenas uma correção a respeito de uma informação que li acima: em 1970, o meu Fluminense ganhou heroicamente o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Robertão, Taça de Prata) sob a direção do ex-preparador físico da Seleção Paulo Amaral. A confusão que se faz com o Telê diz respeito ao fato de que ele treinara o Flu campeão carioca de 1969 e durante o Robertão também de 1969. Desculpem se o tema já está superado, mas sempre vale lembrar a carreira do grande Telê, eterno herói das Laranjeiras, e sua carreira espetacular.
Saudações Tricolores.
Claudio - Rio de Janeiro.
Claudio em junho 10, 2006 12:02 AM