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quinta-feira, 06 de abril 2006
Paêbirú (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho
É das coisas mais malucas e assombrosas que já se fez em música brasileira, mas eu me surpreenderia muito se eu tiver mais de 5 leitores que a conheçam. O nome é escrito assim mesmo, com a combinação agramatical de acentos.
Em 1973, o paraibano Zé Ramalho estava cansado de animar bailes em bandas de iê-iê-iê de João Pessoa e Campina Grande. O pintor Raul Córdula lhe avisou que no Recife havia um pessoal diferente, conhecido pela alcunha de udigrudi pernambucano. Foi pra lá. O guru era Lula Côrtes, um hiperativo que dividia seu tempo entre o desenho e o seu inseparável (e legendário) tricórdio.
Este disco não foi a estréia de Zé. Ele havia entrado no estúdio em 1973 para participar de uma maluquice coletiva chamada Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários. Lula Côrtes se firmara como líder da turma durante a I Feira Experimental de Música do Nordeste (11/11/1972), também conhecida como Woodstock cabra da peste.
“O ácido era distribuído ao público, cerca de duas mil pessoas, dissolvido num balde com K-suco”, testemunhou depois Marco Polo, futuro membro da Tamarineira Village, numa entrevista ao jornalista pernambucano José Telles (autor de Do Frevo ao Manguebeat, Editora 34).
No início de 1974 Zé foi apresentado a Lula, que vivia com a namorada Kátia Mesel no então distante subúrbio de Casa Forte (que virou bairro nobre do Recife). Lula lhe falou da Pedra do Ingá e da idéia de fazer um disco inspirado no sítio arqueológico de Ingá do Bacamarte. O disco foi feito em 1975 no estúdio da Rozenblit (empresa fundamental para a história da música pernambucana) e lançado imediatamente. Mas na terrível enchente de julho daquele ano no Recife, as águas do Capibaribe invadiram a fábrica e destruíram praticamente toda a prensagem do disco, com a exceção de 300 cópias que haviam sido levadas para a casa de Lula e Kátia.
Dessas 300 cópias nasceu o mito, que é tão incrível que há gente que não acredita.
Hoje é possível encontrá-lo em CD, lançado pela Shadoks, um obscuro selo alemão. Aí no Brasil o disco sai por um preço bem salgado: alguém oferece um exemplar do CD no Mercado Livre por 120 mangos. No site da CliqueMusic é possível ouvir os primeiros 30 segundos de cada faixa. E também está disponível por aí na rede, claro, para quem tem as manhas.
Eu acho 90% do que se passa por “psicodelia” uma grande embromação. O Pink Floyd fez um disco, chamado The Piper at the Gates of Dawn (1967), ainda com Syd Barrett. O resto é trilha sonora de imberbe experimentando um baseado pela primeira vez. Estou em boa companhia ao achar o Grateful Dead uma chatice: o desfrute da música depende seriamente de uma ajudazinha de psicotrópicos e da mitologia da "viajandice" propagada pela banda.
Não é o caso deste LP duplo, em quatro partes: Terra, Ar, Fogo, Água. 11 canções no total, sendo o “Ar” representado só por duas faixas. “Trilha de Sumé”, com 13 minutos, passa por tambores, cantorias em marcação de coco, flauta, saxofone, o tricórdio de Lula e a guitarra distorcida de Zé Ramalho. É impossível saber o que vai acontecer no momento seguinte. As seqüências melódicas são interrompidas por cantorias de pássaros, sons de cachoeiras e outros barulhos da natureza que vão pontuando a viagem. “Harpa dos Ares” é uma bela peça instrumental com diálogo de cordas, flauta e canto de pássaros. O fechamento da parte “Terra” é com “Não existe molhado igual ao pranto”, melodia arrastada à base de cordas, com gritos esganiçados ao fundo (sugerindo tortura, talvez) e solos de sax. O barítono rouco e arranhado de Zé ecoa melancólico: Não se escuta da terra quem for santo / Não se cobre um só rosto com dois mantos / Nem se cura do mal quem só tem pranto / Nenhum canto é mais triste que o final.
Eu gosto menos da seqüência do “Ar” (faixas 4 e 5) que é mais plácida, menos trabalhada musicalmente e mais dependente de ruídos externos.
A seqüência “Fogo” começa com uma canção intitulada com versos que depois ficariam famosos na voz de Zé: “Nas paredes da pedra encantada / os segredos talhados por Sumé”. Essa é um petardo, um rock alucinógeno, com bateria, baixo, órgão. Um resenhista definiu a canção como “o som que os Doors teriam se eles fossem capazes de se divertir”. Essa seqüência termina com “Maracas de Fogo” e "Louvação a Iemanjá”, um canto responsorial sobre um batuque polirrítmico bem próprio dos sons dos orixás. Mais três faixas completam o disco, louvando a água: ali de novo predominam as cordas, pontuadas por ruídos aquáticos vários. Destaque para “Pedra Templo Animal”, um xaxado psicodélico.
Em 2003 eu vi um show de Zé Ramalho no Canecão, como convidado de Jorge Mautner. Depois, tive acesso ao camarim, porque estava com o mestre. Ia perguntar sobre Paêbirú. Não perguntei. Saí e fui escutar Mautner dissertar sobre Heidegger na areia de Ipanema.
Leitor: não morra sem ouvir este disco.
PS: se alguém conhecer outra resenha deste disco em português, além da minha e das duas páginas dedicadas a ele por José Telles em Do Frevo ao Manguebeat, por favor me avise.
Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post
| Comentários (47)
#1
Q bom vê-lo falar de música, menino. N conheço o disco, mas já ouvi falar dele. Agora, curiosa para ouvi-lo.
Beijão,
Cipy em abril 6, 2006 2:31 AM
#2
Fiquei completamente alucinada em ouvir esse material. Vou procurar, sem dúvida. Agora, me corrija se eu estiver falando besteira, mas "A danca das borboletas" é dessa época?! Porque me parece tao psicodélica como a descricao que voce fez...
Saudacoes atleticanas e seja bem-vindo de volta,
Vanessa
Vanessa em abril 6, 2006 2:42 AM
#3
Idelber, ouvi algumas poucas coisas desse disco. Não o conheço no todo, mas do que conheço, concordo com o que tu escreves. Vanessa, "A Dança das Borboletas" é do disco-solo de Zé Ramalho de 1978 (sua estréia solo, não é, Idelber?) que tem, entre outras, "Chão de Giz", "Avôhai" (que abre o disco), "Vila do Sossego" e "Bicho de 7 Cabeças", além de um inusitado Bezerra da Silva (caso eu não esteja enganado) tocando percussão. Abraço!
Zema Ribeiro em abril 6, 2006 10:02 AM
#4
Idelber,
Pois foi Zé Ramalho que me fez ter uma discussão áspera e sem sentido com meu filho de... cinco anos (faz seis em junho).
O paraibano gravou uma antologia acústica, já neste século, que você deve conhecer e é um disco adorado lá em casa. Pois o Gabriel, meu filho, dia desses começou a me questionar sobre música sertaneja e eu, sem exacerbar, disse a ele que não gostava desse gênero. Teimoso feito boi marrento, insistiu que eu gostava sim, pois ele já tinha presenciado uma audição minha de... Zezé di Camargo!
Aí tomei como ofensa (isso daria tanto pano pra manga nas discussões lá do blog do PAS, mas deixa para lá). Afirmei que nunca tinha ouvido um CD de Zezé di Camargo na vida, que não gostava desse gênero. O turrão teimou, e eu quase gritei com ele que, para mim, aquele tipo de música deveria se chamar "sertanojo". Serenamos os espíritos.
No mesmo dia, fui pegar um CD na estante e o pequeno voltou a me inquerir: "Mamãe, de quem é aquele CD branco ali?" Zé Ramalho, respondi, e Gabriel fez uma cara de "ah, então é isso". Confundiu Zé Ramalho com Zezé di Camargo (engraçado é que, uns doze anos atrás, eu vivi uma situação parecida com o boy da empresa onde eu trabalhava, que pegou carona em uma conversa minha sobre Zé Ramalho e disse que sua mãe ADORAVA Zé Ramalho, para depois concluir que estava se referindo ao sertanejo!)
Foi demais a discussão com o menino, mas o genial paraibano não merece tal confusão, concorda?
Alessandra Alves em abril 6, 2006 10:22 AM
#5
E é com a curiosidade aguçadíssima de quem conheceu melhor o Cordel do Fogo Encantado (tinha um Cd deles, mas não conhecia muito sobre a banda)através do Biscoito que vou atrás dessa obra do Mestre Zé!
Abraços!
John Coffey em abril 6, 2006 11:05 AM
#6
Idelber, infelizmente não conheço essa obra do Zé Ramalho mas vou procurar...
Bjos.
Vera em abril 6, 2006 1:00 PM
#7
Tenho do Lula Côrtes "O Gosto Novo da Vida", um ótimo disco de 1981, e desde então busco algo mais dele, sem conseguir. Tenho que descobrir as manhas e descolar o Paêbirú. De "O gosto..." tem um fato interessante: com uma das músicas Lula participou de um festival da Globo e passou despercebido (um crime). Se não me engano no mesmo festival poucos atentaram a "o Peão Na Amarração", do Elomar. Depois reclamam da má qualidade de nossa música. Busquem também "O Gosto Novo da Vida", comtemporâneo e de raiz (é possível sim).
Axel em abril 6, 2006 1:49 PM
#8
Idelber!!
Espetacular!!
Já fui a uns trocentos shows do Zé Ramalho, e sempre me interessei muito por esse "mito"
do Paêbirú.
Que maravilha de post!
Umberto em abril 6, 2006 3:09 PM
#9
Idelber,
em setembro de 2000, na Revista ShowBizz, Fernando Rosa, o Senhor F, fez uma resenha sobre o disco.
No endereço http://www.musicanordestina.com.br/zeramal1.htm também há dois parágrafos sobre. Aliás, José Castro, o cara que fez este, digamos, "esboço de site" no final da década de 90 é meu amigo e um dos 300 felizardos.
Inclusive, quando ele queria expulsar de casa visitas indesejadas metia na vitrola, no volume máximo, as hiper doses de psicodelia de Paêbirú.
Abraços.
P.S no próximo dia 13, quinta-feira da paixão, teu mestre, Jorge Mautner, e Jards Macalé estarão em Nazaré (das Farinhas). E estarei colado na Feira dos Caxixis
Franciel em abril 6, 2006 3:09 PM
#10
Ótimo post, Idelber. Não conhecia esse disco. Vi a resenha, citada pelo Franciel, no site http://brnuggets.blogspot.com/ . Olhei na coleção da Bizz. A resenha faz parte de uma matéria sobre discos brasileiros raros. "Brazilian Octopus", da banda de mesmo nome (1969). "Por Favor Sucesso", do Liverpool (1969). "Eu Queria Ser Um Anjo", de Luiza Maria (1975). O Paêbirú. "Não fale com paredes", do Módulo 1000 (1972). Os Brazões, da banda de mesmo nome(1970). Não conheço nenhum deles.
A RESENHA sobre o Paêbirú:
(Se você quiser mando as outras resenhas)
Ainda em busca do sol"
A primeira vez que o Brasil ouviu Zé Ramalho da Paraíba foi na voz de Vanusa, que gravou "Avohay" no disco Vanusa - 30 Anos, em 1977, pela Som Livre. Um ano depois, já sem o "Paraíba", Zé Ramalho invadiu o cenário nacional com sua enigmática e encantadora mistura sonora. Antes disso, no entanto, tão fantástica quanto suas letras, sua história registra uma gravação que ficou perdida nos escaninhos do tempo. Trata-se do raríssimo álbum duplo Paêbirú, que ele dividiu com Lula Cortês, lançado em 1975 pela gravadora Rozemblit, do Recife (PE). Com eles, estão Paulo Rafael, Robertinho do Recife, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, entre outros.
Clássico do pós-tropicalismo, Paêbirú traz seus quatro lados dedicados aos elementos água, terra, fogo e ar. Nesse clima, rolam músicas como o medley "Trilha De Sumé/Culto À Terra/Bailado Das Muscarias", com 13 minutos de violas, flautas, guitarras, rabecas, pianos, sopros, chocalhos e vocais "árabes", ou a curta "Raga Dos Raios", com uma fuzz-guitar ensandecida. E, destaque do álbum, a obra-prima "Nas Paredes da Pedra Encantada, Os Segredos Talhados Por Sumé" (regravada por Jorge Cabeleira), com seu baixo sacado de "Goin’ Home", dos Stones, sustentando os mais pirados 7 minutos do que se pode chamar de psicodelia brasileira.
O disco por si só é uma lenda, mas ficou mais interessante ainda pelas situações que envolveram a sua gravação. A gravadora Rozenblit ficava na beira do rio Capiberibe, e o disco foi levado por uma das enchentes que assolavam a região. Conta a lenda que sobraram apenas umas 300 cópias, hoje nas mãos de poucos e felizardos colecionadores, muitas das quais no exterior, onde foram parar a preço de ouro. Contando com a co-produção do grupo multimídia (quando essa palavra nem existia) Abrakadabra, o álbum trazia um rico encarte, que também sucumbiu ao aguaceiro.
Hoje "top 10" das paradas de CDRs do país e item valioso no mercado internacional de raridades psicodélicas, o trabalho segue misteriosamente inédito no mundo digital. Paêbirú, que quer dizer "o caminho do sol" para os incas, poderia ser o primeiro de uma série de raridades a ganhar a luz do dia, para ocupar uma fatia de mercado que, se pequena comercialmente, é fundamental para a preservação da cultura musical brasileira.
Guto em abril 6, 2006 4:10 PM
#11
Paebiru é a estrada indígena que vai do Prata aos Andes, não é?
pecus em abril 6, 2006 4:11 PM
#12
Quanto cê quer pra me mandar uma cópia? Pra eu não correr o risco de morrer sem ouvir essa preciosidade do Zé.
Brincadeira. Mais uma vez, que bom que você está de volta.
Socorro em abril 6, 2006 5:24 PM
#13
Obrigado, Vera, John, Cipy (viu que pretendo atender seu pedido de um post de música a cada 15 dias, né?) .
Saudações atleticanas, Vanessa :-) Sobre "A Dança das Borboletas", é isso que o Zema falou. É do disco de estréia, epônimo, de 1978, que também tem a psicodelíssima "Vila do Sossego".
Zema, tentei confirmar essa informação sobre Bezerra da Silva fazendo percussão no disco de 1978 do Zé. Não consegui. . . Parece-me meio estranho, já que Bezerra estava no Rio e Zé era um semi-desconhecido em Recife, mas tudo é possível. Vou continuar tentando localizar essa informação.
Idelber- em abril 6, 2006 5:51 PM
#14
Alessandra - pois, sim, acho que Zé Ramalho não merece ser confundido com Zezé de Camargo, o que não quer dizer que a viola do Zé não beba nas mesmas fontes de boa parte da música sertaneja "autêntica", anterior a esse processo de pop-breguização do gênero :-)
Obrigado, Umberto, pelo elogio tão hiperbólico :-)
Axel, para quem estiver reclamando da má qualidade da nossa música, cumpadi, dê uma caixa de cotonetes de presente. E as manhas não são difíceis de aprender, não.
Daqui a pouco eu volto ;)
Idelber- em abril 6, 2006 5:56 PM
#15
Idelber,
a informação de Zema procede. Bezerra da Silva, que na época era o, digamos, "princípe do coco", realmente tocou zabumba neste disco de Zé Ramalho.
Aliás, com o bardo nada é impossível. Afinal, mal diagramado daquele jeito, o referido ainda conseguiu ser garoto de programa, né não?
Franciel em abril 6, 2006 6:26 PM
#16
Franciel, muitíssimo obrigado pelo link à resenha :-) Hilária essa história do seu amigo José Castro... Se a visita indesejada fosse eu, o método não funcionaria, hehehe. Obrigado também por confirmar a participação do Bezerra nesse disco de 1978 do Zé. Eu procurei a ficha técnica do raio desse disco e não achei.
Guto, valeu a resenha :-) Ela inclui a informação que eu tinha esquecido de incluir no post. O disco também tem a participação de Alceu Valença esganiçando nos vocais. Também não conheço nenhum desses outros discos.
Socorro, mandar eu não posso :-(, mas cavuca por aí nas "manhas" que você acha.
Pecus: não sei. Também cacei essa informação e não pude confirmar. Sempre vi essa tradução, "caminho do sol", mas não sei se é o nome de alguma estrada real.
Ou seja, não respondi porra nenhuma. Mas vocês fazem perguntas difíceis demais, assim não dá!
:>)
Idelber- em abril 6, 2006 7:21 PM
#17
Idelber: Obrigado pelo post sobre este disco-mito que sempre quis ouvir desde que li o livro de José Teles sobre a música pernambucana. Quero também ouvir!
Agradeço também o link para o relato da enchente de 1975. O próprio Tom Zé sempre me falava desta enchente que destruiu o arquivo da Rozenblit, inclusive a matriz do primeiro disco dele, lançado em 1968 com "São Paulo Meu Amor." Felizmente existia copias de alta qualidade para quando relançaram-no em CD em 2000. Enfim, lendo o trecho sobre a enchente que disse que "80% da cidade ficou inundada" pensei em New Orleans e fiquei um pouco mais otimista em relação a nossa situação, pois não há sinais aparentes hoje desta enchente em Recife, uma cidade que adoro. Agora concordo com suas farpas à música psicolélica-- nunca fui muito fã de Pink Floyd, odiava The Wall-- mas aquele disco "Animals" de 1977 é memso porreta. Vale a pena ouvir também "More" a trilha que fizeram para um filme francês em 1969.
Chris em abril 6, 2006 7:23 PM
#18
Um primor de informações sobre essa raridade de um dos maiores violeiros da MPB. Para quem é fã como eu do Zé desde priscas eras ainda consigo ficar maravilhado com a história desse cabra.
Vem cá, se a gente colocar para download em mp3 umas 2 faixas para divulgar esse trabalho será que vamos em cana ? :-)
Abs.
Fábio S. em abril 6, 2006 8:22 PM
#19
Chris, pois é, quem sabe a recuperação do Recife não seja um bom modelo para nossa New Orleans, não é? Mas acho que está difícil... E quanto ao Pink Floyd, meu "favorito" é aquele Atom Heart Mother, conhecido no Brasil como "o disco da vaca". Êta disco chato!
Obrigado, mestre Fábio; rapaz, que pergunta... Não sei, não sei. Deu a tentação de experimentar, né? O lado bom é que um selo independente . . .
Idelber em abril 6, 2006 8:38 PM
#20
Idelber, não sei qual é a sua política sobre esse tipo de coisa no blog, mas, para quem tá curioso com o disco, o blog http://brnuggets.blogspot.com/ é cheio de "manhas". [Se você achar melhor pode deletar esse comentário]
Guto em abril 6, 2006 10:13 PM
#21
Tranqüilo, Guto, sem problema, e valeu a dica. Acho que a estas alturas quem quiser mesmo achar o disco vai poder achar. Não é difícil :-)
Abraços,
Idelber em abril 6, 2006 10:23 PM
#22
Oi Idelber:
q bom poder voltar comentar em seu blog... já estava com saudades!
acho q sou um dos seus cinco leitores q conhece esse disco fantástico, hehe. aliás, já falei dele uma vez, aqui mesmo em sua caixa de comentários (não sei se vc lembra).
essa resenha do Senhor F q foi passada pelo Guto podia ser acessada no próprio site do dito-cujo (www.senhorf.com.br), mas parece q foi tirada do ar. esse site vale uma visita, pois traz muita informação sobre rock brasileiro, de Celly Campelo a Mombojó e Cachorro Grande e etc.
decidi tirar de lá uma resenha sobre o tal disco do Brazilian Octopus, q aliás saiu agora em CD aqui no Brasil (em mais uma boa ação do incansável caçador de pérolas Charles Gavin). Peço sua licença pra transcrever essa resenha aqui. o Brazilian Octopus vale a audição só pelo fato de ter Hermeto Pascoal (!) e Lanny Gordin (!!) no time. já há algum tempo eu tenho uma cópia em mp3, e recomendo conhecer.
PS - a respeito do nome: Paebiru era o sistema de trilhas que teria sido aberto pelos índios sul-americanos há mais de 1200 anos, ligando o planalto paulista à capital inca (Cuzco), através do chaco paraguaio e boliviano. no interior do Paraná (PR), por onde passava um dos ramais desse sistema, existe até hj uma cidade chamada Peabiru. Mais informações na revista Nossa História, edição de agosto de 2005 (dossiê Pré-História do Brasil).
segue a RESENHA DO BRAZILIAN OCTOPUS
'Brazilian Octopus': raridade chega ao CD
* Fernando Rosa
O disco homônimo do grupo Brazilian Octopus, lançado em 1969, curtiu um dos mais longos anonimatos da história da discografia nacional. A ponto de muita gente até mesmo duvidar de sua existência. E sem motivos para isso. Entre seus integrantes estavam ilustres nomes do primeiro time da música popular brasileira: Hermeto Paschoal, Lanny Gordin e Olmir 'Alemão' Stocker. Motivo suficiente para justificar a reedição da obra em CD, o que não ocorreu nem mesmo em vinil.
Oriundos de "fronts" diferentes - Hermeto vinha do Quarteto Novo (com Airton Moreira), Alemão do grupo Os Wandecos (de Wanderléa), e Lannny Gordin engatinhava com os tropicalistas - forjaram uma sonoridade tão peculiar quanto deslocada em seu tempo. Sob a batuta de Hermeto Paschoal, o disco flui num clima low-fi, antecipando o mix jazz + bossa + ritmos populares (incluindo rock, na versão tropicalista), que vingou no final do século. Um som que, se conhecido, integraria a lista de influências de gente tipo Pizzicatto Five, Stereolab ou o brasileiro Júpiter Apple.
O disco traz doze músicas de autorias diversas, incluindo alguns temas populares de autores como André Popp ou Edu Lobo. Algumas curiosidades valorizam o repertório, como a primeira composição de Lanny Gordin - 'O Pássaro', que ganhou letra e versão de Catalau (Golpe de Estado); uma parceria do grupo com o maestro Rogério Duprat e a música 'Canção Latina', de Olmir Stocker e Vitor Martins (depois parceiro de Ivan Lins), classificada no Festival da Canção Latino-Americana. Todas as músicas são instrumentais.
Além de Hermeto (flauta) e dos guitarristas Lanny e Alemão, integravam o grupo os músicos Aparecido Bianchi (piano e órgão), Carlos Alberto de Alcântara Pereira (flauta e sax), Douglas de Oliveira (bateria), João Carlos Pegoraro (vibrafone) e Nilson Carlos Ruiz da Matta (baixo). Era um time de músicos "escolhidos a dedo" que Hermeto, na época, definiu como "o melhor melhor grupo que existe no Brasil". Apesar da ausência de grandes vôos individuais, a figura de Lanny Gordin destaca-se em faixas como 'As Borboletas' (uma harmônica wah-wah) e 'Momento B/8' (clássica fuzz-guitar tropicalista).
Agora lançado em CD, por iniciativa de Charles Gavin, e, até então, um dos mais cotados no mercado de vinil da Internet, chegando a valer 500 dólares, o LP foi, e deve continuar sendo, por muito tempo, objeto do desejo de muita gente, inclusive do próprio Hermeto que, em entrevista no início desta década, disse não ter o disco. Lançado originalmente com uma capa "promocional", diferente da "oficial", o LP ganhou seu formato gráfico definitivo trazendo uma foto do grupo e uma moderna logotipia em cores - a mesma que agora chega ao CD.
E, claro, como toda obra rara, o disco esconde uma curiosidade: Hermeto Paschoal não está na foto da capa, pois, segundo conta a lenda, chegou atrasado à sessão, sendo substuído por um funcionário da produção.
* Texto revisto; original publicado na revista Bizz, no início da década.
abs,
dra em abril 7, 2006 12:33 PM
#23
Grande Dra, muito obrigado por essa resenha do disco do Brazilian Octopus. Eu sabia algo do trabalho anterior do Hermeto com Airto Moreira e outros, mas não sabia desse disco.
Lembro, sim, do seu comentário sobre Paêbirú; e obrigado pelo esclarecimento sobre a palavra :-)
Grande abraço,
Idelber em abril 7, 2006 10:52 PM
#24
Eu tenho dois discos (isso mesmo, discos!) do Lula cortes, mas eu desconhecia a gravação com o Zé Ramalho. Valeu a dica, vou procurar!
maria andreía em abril 8, 2006 12:05 AM
#25
que coincidência: ontem eu estava lendo sobre o disco na bizz especial sobre as 100 melhores capas! procure, eu quase não acreditei tb nessa história da enchente.
vou copiar de um amigo q copiou de um amigo...na parada de cdr esse disco é bem colocado mesmo!
o umaguma(floyd) é chato mas tem umas viagens parecidas com as desse disco(tb é dividido em 4, som mais sons da natureza, sem sample na época!). tb acho os deads chatos, mesmo com aditivos químicos.
abçs
Manoel em abril 9, 2006 8:33 PM
#26
peabiru é o caminho lendário inca, tem algo a ver???
abç
Manoel em abril 9, 2006 8:34 PM
#27
Tem a ver sim, Manoel. É isso mesmo :-)
Idelber em abril 10, 2006 2:09 AM
#28
Grande Idelber:
esse disco anterior de Hermeto, em q ele formava o Quarteto Novo com Airto Moreira (mas tb com Heraldo do Monte e Théo de Barros) tb é simplesmente fantástico. foi tb relançado em CD há pouco tempo aqui no Brasil. a curiosidade fica por conta de Hermeto aparecer na capa sem barba e com cabelo curto, irreconhecível...
abs,
dra em abril 10, 2006 11:15 AM
#29
idelber, fiquei aqui pensando se já escrevi alguma resenha sobre o "paêbirú", e concluí que não... confesso uma certa dificuldade em ouvi-lo, até hoje, mas acho que nem é essa a razão do "lapso" - nos tempos de "folha", só me aproximei do "paêbirú" pelo lado mais fofoqueiro da coisa (êita, essa "grande" imprensa fofoqueira, viu?...). tipo rolou isso aqui uma vez (26/03/2004), na finada seção "o não-lançamento":
"Em 74, o paulista Sérgio Ricardo lançou em disco a trilha sonora de seu filme 'A Noite do Espantalho' (pela Continental, hoje Warner). O pernambucano Alceu Valença era o principal intérprete, mas não aparecia creditado na capa. Em 75, os desconhecidos Lula Côrtes e Zé Ramalho assinaram, nessa ordem, o ultra-experimental 'Paêbirú' (distribuído pela extinta Rozenblit). O paraibano Zé partiu dali para o sucesso, o pernambucano Lula seguiu dali para o culto quase secreto, só na terra natal. Os dois LPs viraram artigos raros, também por atritos entre os participantes. Vão para a gaveta escura das vaidades da MPB."
é que antes (13/12/1999) tinha rolado, numa matéria sobre o sumido selo rozenblit, o seguinte (xiiii, mais fofoca!, da braba!!):
"Mais complicado é o caso de 'Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol' (75), de Lula Cortes e Zé Ramalho. O pernambucano Lula Cortes era à época líder do movimento udigrúdi, que resultou em LPs experimentais como 'Satwa' e 'Rosa de Sangue'. 'O movimento mostrava a relação da música nordestina com a oriental. Trouxemos rock e maracatu com guitarra elétrica e pedais distorcidos, tudo que agora rotulam como novidade inventada por Chico Science', diz.
Ele não poupa farpas ao mangue beat: 'Esses meninos preocupados com fusão deviam pesquisar. Falta esclarecimento para saber que não é novidade'.
Mais de uma ordem de dificuldades emperra a reedição de 'Paêbirú' em CD, segundo Lula. 'A Polydisc quer relançar, mas não quer pagar nada para mim. Assim não permito. Gostaria muito que fosse relançado. Tenho câncer na garganta, seria o mínimo pagarem meus direitos. Mas os caras não têm sensibilidade nenhuma.'
Outro problema é com Zé Ramalho. 'É uma pessoa difícil. Virou estrela e quer inverter os nomes da capa do LP, de Lula e Zé para Zé e Lula.'
Pioneiro do maracatu elétrico com Ramalho e Alceu Valença, Lula diz não guardar ressentimento dos colegas mais famosos. 'Eles estão no lugar que merecem. Mas sempre me pedem música.'
A Folha procurou Zé Ramalho, mas ele está em férias e não se manifestou sobre o assunto."
êita...
pedro em abril 10, 2006 1:52 PM
#30
Pedro, muito obrigado por compartilhar suas notas da época da Folha - são super valiosas para ver o estado de espírito do Lula Côrtes; é uma pena, né? Mas é meio inevitável, acontece com os pioneiros que depois são esquecidos. Destilam ressentimento, e não há muito o que se fazer. É a poderosa máquina de produzir ídolos a que também produz esquecidos. Putz, eu não sabia que o Lula Côrtes tinha câncer na garganta. Que barra...
dra, o Hermeto sem barba deve ser o máximo. Para quem quiser conferir, o disco mencionado pelo dra é esse aqui.
Idelber em abril 10, 2006 5:01 PM
#31
Olá Idelber!
Acabo de encontrar seu webblog e estou adorando descobrir os textos. Gostaria de ler seu "Ensaio Musica Mineira", mas o link no blog parece não estar mais ativo. Você poderia me disponibilizar o texto?
Grato
Abraço
Leo
Leo Damasio em abril 10, 2006 11:11 PM
#32
Idelber, não só conheço o disco, como conheço também, muito bem, o Teles, que era super amigo do meu ex. :-)
Beijão!
Denise Arcoverde em abril 10, 2006 11:36 PM
#33
Leo, mandei o link, recebeu? O link ao ensaio já está atualizado no blog também.
Denise, eu sempre esqueço que você é pernambucana! Small world, hein? Beijos,
Idelber em abril 11, 2006 12:38 AM
#34
Idelber, eu fiquei caçando seu email por aqui e não achei. Então vou escrever tudo aqui, né? :)
Eu adoro ler o que você escreve. Nunca comento, mas gosto demais, você é uma das entidades que eu mais respeito na blogosfera. (E olha que eu odeio esse papinho de blogosfera, hohoho).
Eu ia te pedir milhares de referências sobre o som de Recife, por onde começar, curiosa que sou. Tenho aquela lista de CDs, e agora vou comprar o livro do Jose Teles.
E ia te pedir ajuda para baixar o Paêbirú.
Ai, escreve demais.
Espero um email, beijo.
Giu! em abril 11, 2006 12:14 PM
#35
Ah, consegui os links para baixar. :)
Giu! em abril 11, 2006 12:19 PM
#36
O que falar de Zé Ramalho? Sem dúvida um dos maiores (se não o maior) compositores e cantores da música brasieleira. Eu aprendi a gostar do Zé Ramalho após comprar seu último cd (ao vivo), achei fantastico e a partir dali venho comprando tudo que acho, e uma das minhas ultimas aquisições foi o Lp Terceira Lâmina, que traz belas canções, e é claro com cargas alucinógenas de profecias e poemas... Parabéns Zé Ramalho!!! Você é demais...
Rodolfo em abril 16, 2006 2:00 AM
#37
Adorei sua resenha sobre este disco. Eu o tenho, foi presente de um grande amigo. Amo os dois.
Claudia Palmeira em abril 20, 2006 2:43 PM
#38
adorei sua resenha sobre este disco. Eu o tenho, foi presente de um grande amigo. amo os dois. Piração do começo ao fim. Recomendo aos viajantes.
Claudia Palmeira em abril 20, 2006 2:45 PM
#39
ZE UM GRANDE POETA E MUSICO E PROFETA DE MENTIRA
WGNER em maio 2, 2006 2:12 PM
#40
O que dizer deste nordestino Zé Ramalho, é algo como "chover no molhado", comecei a gostar de sua música exatamente em meados de 1980, MEU Pai escutava muito, neste ano eu estava com cinco anos de idade, hoje tenho todos os cd´s, inclusive o 1º PAÊBIRÚ, quem realmente gosta de Zé tem que tyer este cd, apesar de ser lançado a 30 anos atrás a sonoridade continua bem moderna, não parece ser um cd tão antigo, e com certeza vale a pena tê-lo ou ouvir...
Gustavo em maio 3, 2006 10:10 AM
#41
Eu tenho 9 músicas desse LP que consegui na Rede, realmente muito alucinógenas as músicas e predominam as músicas instrumentais em 6 das 9 músicas, ainda há muito mistério em torno desse LP e seria bom se regravassem em CD para que ele seja mais conhecido.
Antonino Sciortino Filho em maio 14, 2006 7:23 PM
#42
A informação da participação de Bezerra da Silva no disco AVOHAI é verdadeira é só olhar a ficha técnica do disco.
quanto a outros discos do Lula Côrtes existem o SWATA c/ o Lailson o ROSA SANGUE o BONCHACAR c/ Jarbas Mariz (INSTRUMENTAL)e o LULA CÔRTES E MÁ COMPANHIA.
Vale apena ouvir
Anonymous em maio 19, 2006 6:23 PM
#43
Para o infeliz que falou mal da psicoldelia: Não só a música, mas como a arte em geral está desprovida e liberta de protocolos rígidos e regrinhas idiotas. Quem quiser fazer música de uma maneira organizada, que faça, quem quiser fazer música de uma forma desorganizada, que faça. A psicodelia não se preocupa com organização e metodologias, mas sim, com o que está muito além disso. Se o processo de criação for feito de "cara limpa" ou não, dane-se! O que importa acima de tudo, é a qualidade final da música em si, a força e a vibração que ela passa ou pro corpo, ou pra mente, ou pro espírito e cada um que receba a vibração do seu jeito. Portanto, se tratando de julgar um tipo de música, vamos julgar a música e não os meios. Atire a primeira pedra quem nunca deu umas boas goladas de cerveja, whisky, caipirinha ou coisa parecida pra ficar um pouquinho mais desinibido no carnaval e poder chegar junto da mulherada. Que o Syd Barret te ilumine!!! Viva a música de qualidade, independente de como ela é feita.
Anonymous em maio 25, 2006 1:38 PM
Ulisses Mascarenhas em junho 13, 2006 6:56 AM
#45
eu tenho o cd... acho o disco mais trabalhado que já ouvi!!! Certa vez, falaram-me que o disco foi gravado em dois canais, não sei se é verdade.
Vc está de parabéns, dissertou muito bem, tirou algumas dúvidas que tinha...
abraço
Vitor Hugo em junho 16, 2006 2:18 AM
#46
amigos amantes da boa música. Eu sou um dos 300 que tem esse LP Duplo intacto com direito ao encarte e tudo mais. Vendo a quem interessar.
meu email é mvilar@terra.com.br
Marchelo Villar em julho 16, 2006 3:26 AM
#47
Sou Recifense, moro em Porto Alegre, e sempre que venho ao Recife garimpo pelas preciosidades da música daqui. Último sábado, estive na Livraria Cultura daqui de Recife, e, fazendo meu garimpo, estava ouvindo um cd de Lula Côrtes, quando o vendedor me apresentou ao Paêbirú - sim, o cd, original, comtinua sendo prensado por um selo europeu, senão me engano. O vendedor me recomendou procurar saber mais dele pela web, e cheguei até seu site. Como não achei seu e-mail por aqui, resolvi postar uma informação que, agora vejo, é no mínimo preciosa.
Infelizmente, eu já tinha comprado mais de 10 cd's e estourado o limite do cartão, e não quis nem ouvi-lo... triste ter um tesouro em mãos e deixar escapar simplesmente por deconhecer seu valor, hã? E pior, ainda divulgar o mapa da mina e correr o risco de perder de vez!
Boa sorte aos Garimpeiros, lembrando que a Livraria Cultura trabalha com transferência de estoque e encomendas.
Tacito Gueiros em julho 17, 2006 9:48 PM