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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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quarta-feira, 31 de maio 2006

Palpites para a Primeira Fase da Copa

copadomundo.jpg Aqui vão meus palpites para a primeira fase:

Grupo A: Alemanha, Polônia, Costa Rica e Equador. Os donos da casa pegaram uma moleza. Eu já assisti essa equipe do Equador várias vezes nos últimos dois anos. É uma baba. A Costa Rica não assusta ninguém. Crave Alemanha e Polônia sem medo. E olhe que a Polônia anda mal das pernas, perdendo 3 jogos seguidos e sofrendo incrível gol de goleiro na reposição de bola! Mas sinceramente, não vejo nem Equador nem Costa Rica incomodando os europeus nessa chave.

Grupo B: Inglaterra, Suécia, Paraguai e Trinidad e Tobago. O jogo decisivo do grupo, obviamente, é entre Suécia e Paraguai. O que é bom na seleção paraguaia é velho. O que é novo é ruim. A Suécia, no seu último amistoso, não conseguiu fazer um gol sequer nos seus sofríveis vizinhos finlandeses. A Inglaterra passa com certeza. Aposto no Paraguai para a segunda vaga porque, pela sua defesa, eles têm mais chance de arrancar um ponto da Inglaterra do que os suecos.

Grupo C: Argentina, Holanda, Sérvia e Montenegro, Costa do Marfim
. Os hermanos, mais uma vez, tiveram um azar incrível no sorteio. Sem dúvida, é o “grupo da morte”. Os marfinenses são hoje a mais forte seleção africana, Sérvia e Montenegro herda o legado do forte futebol iugoslavo e a Holanda é favorita sempre que participa. Qualquer coisa pode acontecer aqui, mas eu só sei que a Argentina passa. Seria um escândalo se fossem eliminados na primeira fase em duas Copas consecutivas. Argentina e Holanda, no sufoco.

Grupo D: Portugal, Irã, Angola, México. Os angolanos são os simpáticos debutantes nessa que é primeira Copa com três países de língua portuguesa. O Irã encerrou a preparação com uma bela vitória sobre a Bósnia – perdiam por 2 x 0 e viraram para 5 x 2. A lógica manda cravar Portugal e México, mas atenção com o Irã, que vai entrar bem motivado, depois de ser vítima da palhaçada anti-esportiva da União Européia.

Grupo E: Itália, Gana, EUA, República Tcheca. Aqui eu cravo a zebra. A seleção italiana está abaladíssima pelos escândalos de manipulação de resultados lá na bota. Certo, nada disso é novo, e a equipe tem tradição de chegar mal, começar mal e crescer durante a competição. Mas acho que desta vez não acontece. Os EUA, razão principal para que a FIFA tenha reservado quatro vagas para a fraquíssima CONCACAF, se classificam junto com a República Tcheca. A Itália fica fora, para desconsolo da mulherada.

Grupo F. Brasil, Croácia, Japão, Austrália. Não acho que o Brasil vá ter grandes dificuldades para se classificar e não acredito que a Austrália arranque mais que um ou dois empates. O jogo decisivo aqui é Croácia x Japão. Tenho toda a simpatia pela seleção do Zico, mas acho que dá Brasil e Croácia – apesar do horroroso uniforme desta última, o mais feio da Copa.

Grupo G. França, Suíça, Coréia do Sul, Togo. Desta vez, a França passa sem grandes percalços, deixando Suíça x Coréia do Sul como o jogo decisivo do grupo. A Suíça está na Copa, mas isso não significa muito. Classificou-se para a repescagem num grupo em que, além da França, primeira colocada, estavam Irlanda, Israel, Chipre e Ilhas Faroe – e mesmo assim quase perdem a vaga para os israelenses. Seu grande mérito foi eliminar, na repescagem, a Turquia, terceira colocada em 2002. Meu palpite é França e Coréia do Sul.

Grupo H. Espanha, Ucrânia, Tunísia, Arábia Saudita. A Tunísia fez bonito no seu último amistoso e goleou Belarus. Mas não acho que dê conta de complicar as coisas para a Espanha e a Ucrânia. A Ucrânia é um dos meus palpites de zebra para as fases finais. Olho neles: possuem um dos melhores atacantes do mundo, Shevchenko e um dos mais tarimbados goleiros da competição, Shovkovskiy. A Espanha tem a antiga fama de morrer na praia, mas neste grupo não há por onde: Espanha e Ucrânia.

O meu palpite, então, é que o Brasil pega os gringos nas oitavas-de-final, reeditando o horrendo jogo de 1994.

PS: Vocês acreditam que o meu vôo para o Brasil sai exatamente na hora do jogo Argentina x Holanda, provavelmente o melhor da primeira fase? Na hora de comprar a passagem olhei os horários de jogos do Brasil, claro, e me esqueci de olhar os outros. Chego aí algumas horas antes de Brasil x Japão. Até o dia 22 assistirei os jogos com os "maravilhosos" comentaristas gringos.

Atualização: Vejam também os palpites do Mestre Fábio Sampaio.



  Escrito por Idelber às 23:47 | link para este post | Comentários (40)



terça-feira, 30 de maio 2006

Lembrete: Duas Vezes Junho

Eu comecei a reler Duas vezes junho. Já tinha me esquecido de quanto eu gosto desse romance.

Novidades para o Clube de Leitura:

1. Troquei emails com o autor do livro, Martín Kohan. Amabilíssimo, se dispôs a me conceder uma entrevista e acompanhar as discussões aqui no blog. Preferem que eu publique a entrevista antes da discussão ou depois, para não interferir ou influenciar na leitura? Em tempo: há boas entrevistas com Martín Kohan aqui e aqui.

2. Quem me escreveu também foi o Marcelo Barbão, tradutor do livro ao português e editor na pioneira Amauta. Dei-lhe os parabéns pelo desbravador trabalho de tradução de literatura hispano-americana que a editora tem feito, mas de todas formas aqui vai o reconhecimento público. A Amauta está fazendo o que já clamava por ser feito: possibilitar ao público leitor brasileiro um mínimo de contato com a riquíssima literatura dos países vizinhos. Portanto, quem for criticar a tradução do romance de Kohan, faça-o com elegância. O tradutor está olhando :-)

3. O grande Mauro Amaral fez, não um, mas dois selinhos para o Clube. Tem uma versão dark e uma versão colorida. O permalink aos posts relacionados ao Clube já está embutido. Usem a que preferirem:

selinho2_idelba.jpg


selinho_idelba.jpg
.

Muitíssimo obrigado, Mauro!

Então, só para confirmar: a data da discussão é 8 de junho, véspera da abertura da Copa. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Quem preferir ler o original em castelhano pode adquiri-lo na Prometeo ou na Cúspide (dicas do Alex Castro), ou na Bigger Books, que entrega aqui nos EUA (dica do Fábio Sampaio).

Antes do dia da discussão, vou fazer um contato com alguns blogs argentinos, para que eles venham aqui participar da brincadeira ou repercutam lá nos seus blogs.

E aí, quem já adquiriu, encomendou ou começou a ler o livro?

PS. Excelente blog uruguaio: Criticar es fácil.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (30)



domingo, 28 de maio 2006

Famas exageradas: Zagallo, o “vencedor”

zagallo.jpg Insuportável na Copa do Mundo é ter que agüentar Zagallo. Zagallo imagina o planeta como uma gigantesca bola amarelofóbica. Todos “tremem” ante a amarelinha, todos “têm medo” de enfrentar o Brasil, todos têm pesadelo com a nossa seleção.

Não importa que a Holanda de Cruyff nos dê um vareio de bola, que sejamos derrotados por diferença de três gols pela primeira vez nas Copas ante a França, que a Nigéria vire um 3 x 1 em cima da gente em menos de 15 minutos – todos em jogos contra equipes comandadas por Zagallo. O velho continua no seu delírio egocêntrico e patrioteiro.

Deselegante e grosseiro, amigo das piores pessoas, Zagallo já aproveitou para fazer promessas idiotas, oferecer suposições bobas sobre o medo alheio e – seu passatempo predileto – insultar Telê Santana, a quem odeia. Afinal, a Telê são dedicados o amor e respeito universais de que, apesar de todas as conquistas, Zagallo jamais desfrutou. Sua raiva de Telê é exacerbada pelo fato de que o Fio de Esperança foi o verdadeiro inventor do ponta que fecha pelo meio, invenção que o Lobo adora reclamar para si.

Nas derrotas, Telê Santana assumia integralmente a responsabilidade; nas vitórias, transferia todo o mérito aos atletas. Zagallo é exatamente o oposto: cansa-se de falar das “suas” vitórias e nas derrotas (algumas delas grotescas) acovarda-se atrás de desculpas, insulta jornalistas ou põe a culpa em fatores externos ou nos jogadores.

Depois da derrota do Sarriá, Telê Santana deu uma coletiva em que foi aplaudido de pé pela imprensa do mundo inteiro. Depois da derrota na França em 1998, Zagallo protagonizou uma das cenas mais embaraçosas da história da seleção: insultos e gritos contra jornalistas depois uma final de Copa do Mundo.

Um dos grandes mitos do futebol brasileiro – mito bem exagerado – é o de Zagallo “grande vencedor”. Vejamos se o mito resiste à análise.

Zagallo comandou a seleção brasileira em três Copas do Mundo e uma Olimpíada. Na primeira Copa, em 1970, foi campeão, herdando de João Saldanha a equipe pronta, com os maiores meio-campistas e atacantes que o planeta já viu jogar. Zagallo fez mínimas alterações naquela equipe: Clodoaldo entrou e Rivellino foi deslocado para a ponta-esquerda. Mas alguém tem dúvidas de que teríamos sido campeões da mesma forma com Piazza no meio-campo e Edu na ponta-esquerda?

Para a Copa de 1974, Zagallo contava com uma das maiores gerações de craques da história do futebol: Pelé e Tostão já não estavam, mas o Brasil ainda tinha Ademir da Guia, Dirceu Lopes, Carpeggiani, Leivinha, Paulo César Caju, Rivellino, Jairzinho e inúmeros outros craques, todos no auge. Zagallo conseguiu, com todas essas opções, montar uma seleção grotesca, que passou 180 minutos sem fazer gol (0x0 com Iugoslávia e 0x0 com a Escócia) e só avançou da primeira fase graças a um frango homérico do goleiro do Zaire (que garantiu o 3 x 0 que precisávamos, contra uma seleção que a Iugoslávia havia derrotado por 9 x 0). Depois, na segunda fase, Zagallo fez questão de dizer que a Holanda “não era nada”, num momento em que já havia dois anos que a Laranja Mecânica e o Ajax encantavam o mundo. O resultado foi o que se viu: Brasil eliminado levando um show de bola e apelando no final.

Nas Olimpíadas de 1996 em Atlanta, o Brasil se preparou como nunca para tentar conseguir o único título futebolístico que ainda não tem: o ouro olímpico. O regulamento permitia a presença de três atletas com mais de 23 anos, o que nos possibilitou levar uma equipe com Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo, Dida, Bebeto e Aldair. A empáfia de Zagallo, que insistiu que a Nigéria “tremeria com a amarelinha”, influiu diretamente no time que, displicente e irresponsavelmente, começou a dar toques de calcanhar no momento em que vencia o jogo por 3 x 1, aos 32 do segundo tempo. Resultado final: Nigéria 4 x 3 Brasil, na morte súbita.

Na Copa de 1998, outra talentosa geração foi parar nas mãos de Zagallo e – há que se reconhecer – os seus dotes de motivador foram fundamentais na vitória nos pênaltis sobre a Holanda, nas semifinais. Na final, o comandante escala um jogador que acabava de ter uma convulsão, numa das grandes irresponsabilidades já cometidas no comando do time. A equipe entra visivelmente preocupada com Ronaldo e leva um vareio de bola da França, sofrendo pela primeira vez uma goleada em Copas do Mundo.

Aliás, só em três edições da Copa do Mundo o Brasil perdeu mais de um jogo. Em duas dessas três edições o técnico era Zagallo.

Sim, ele foi campeão carioca com o Flamengo em 2001, com um gol de Petkovic no último minuto. Não se lhe pode negar uma coisa: uma sorte incrível, que já vem de anos. Vale lembrar que o ponta-esquerda titular da seleção às vésperas da Copa de 1958 era Pepe, que se contundiu um pouco antes da competição. Zagallo inclusive não deveria ter ido: os grande pontas do Brasil naquele momento eram Pepe e Canhoteiro.

Depois da Copa de 1998, Zagallo foi contratado para dirigir a Portuguesa de Desportos. Com um grupo talentoso em mãos, ele levou a equipe às últimas posições do Campeonato Brasileiro, iniciando a queda da Lusa rumo à Segundona.

Mas segundo Zagallo, ele é o “único pentacampeão do mundo”, já que em 1994 foi coordenador técnico e em 2002 era comentarista da Globo.



  Escrito por Idelber às 21:35 | link para este post | Comentários (32)



sexta-feira, 26 de maio 2006

Os pecados da gula

Os números do Datafolha mostram que Garotinho perdeu 1,3 ponto por cada quilo perdido na greve de fome. 6,2 quilos a menos na balança, 8 pontos a menos nas pesquisas.

Com mais duas dobras do pneuzinho que tivessem ido embora, a brincadeira teria ficado bonita :-)



  Escrito por Idelber às 17:39 | link para este post | Comentários (7)




Decidido: Calendário do Clube de Leituras

Ok, depois de ouvir todo mundo e ponderar os prazos para o nosso Clube de Leituras, proponho o seguinte:

Discutiremos, sim, Grande Sertão: Veredas, mas em meados de julho, depois da Copa. Comecem a ler desde já, porque a jornada é longa.

Para esquentar os tamborins deixamos marcada para 8 de junho, quinta-feira (daqui a 14 dias) uma discussão sobre Duas vezes junho, de Martín Kohan. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Este romance é uma publicação da Editora Amauta e custa só 25 reais.

Eu acho que vocês vão gostar. E é apropriadíssimo que o discutamos na véspera da abertura da Copa, já que a história tem lugar durante as Copas de 1978 e 1982. Quem não gosta de futebol, não se preocupe: não é um romance sobre futebol, necessariamente.

Até o dia 08 de junho eu acho que posso conseguir uma entrevista com o autor e quem sabe até convencê-lo a aparecer por aqui.

Agora só precisamos de um selinho para o Clube. Eu já contactei o Mauro, mas ainda não tive resposta. Se alguém se animar e fizer o selinho primeiro, a gente usa.

Então, dia 8 de junho, aqui no Biscoito, Duas vezes junho, disponível na Cultura e na Saraiva.

Conto com todo mundo para encomendar o livro, começar a ler e ajudar a divulgar? Tudo bem assim?



  Escrito por Idelber às 16:43 | link para este post | Comentários (24)



quinta-feira, 25 de maio 2006

Sobre o clube

Vários amigos passaram por aqui e toparam a idéia do clube de leituras.

O livro mais votado foi Grande Sertão: Veredas. Para mim não seria problema, é um romance que eu já li umas quatro vezes.

Mas estou em dúvidas sobre se conseguiríamos mesmo encarar esse livro em véspera de Copa do Mundo. A minha idéia inicial era decidir e aí dar duas semanas para que todos lessem o livro.

Mas com GSV, claro, seria necessário mais tempo, o que nos coloca já dentro da Copa.

Outras sugestões que rolaram: A cidade ausente, de Ricardo Piglia; Zama, de Antonio di Benedetto; Wasabi, de Alan Pauls; Duas vezes junho, de Martín Kohan; Um artista aprendiz, de Autran Dourado; Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.

Tirando este último, todos os outros são livros relativamente curtos.

Ponderem o que eu disse aí sobre os prazos, a dificuldade do texto, e tudo mais, e aí me digam: com qual ficamos?



  Escrito por Idelber às 23:57 | link para este post | Comentários (19)



quarta-feira, 24 de maio 2006

Enquete sobre um possível clube de leituras

Um dos planos meus é falar mais de literatura aqui no blog, então eu queria deixar uma perguntinha. Suponhamos que decidíssemos montar um grupo de leitura no Biscoito, nos moldes do clube que o Alex Castro montou uma vez, e que foi muito bem-sucedido na primeira discussão (Crime e Castigo).

Qual obra literária, brasileira ou estrangeira, antiga ou contemporânea, você gostaria de ler e discutir comigo e com os outros leitores?

Não vale nada de mais de 400 páginas, porque já se viu que se o livro for longo demais não funciona. Pode ser algo que você já leu e gostaria de discutir, ou algo que não leu e tem vontade de ler.

É isso. Quem sabe a gente não começa a ler umas coisas juntos. Digam lá.

PS: Parabéns, parabéns, parabéns às Duas Fridas pelo segundo aniversário do blog! A festa é neste 27 de maio, sábado, aí na Cidade Maravilhosa. Se quiser ir, escreva para a Monix ou a Helê.



  Escrito por Idelber às 22:56 | link para este post | Comentários (31)




Literatura : Contra os Chatos e Passadistas de Plantão

Alguns comentários a esse post do Pedro Dória sobre o Sexo Anal, o romance do Biajoni, me fizeram voltar a sentir pena de um tipo de leitor: o que diz que não pode / não tem tempo de / disposição para ler . . . (preencha aqui com o nome de qualquer autor contemporâneo, iniciante ou veterano) porque afinal de contas deve usar seu tempo para ler . . . (preencha aqui com o nome do seu monstro sagrado favorito).

Sendo a leitura por definição o encontro com o outro, com o não conhecido, em geral quem diz isso ainda não aprendeu a ler, no sentido mais básico da palavra. Ou seja, esse tipo de leitor lê somente para validar um cânone sacralizado que ele, de antemão, sabe que tem que reverenciar. Na atividade que é por definição encontro com o outro, ele vai lá e insiste em procurar o mesmo. É o leitor que vai morrer resmungando e infeliz.

Esse tipo de leitor é primo primeiro de um certo "jornalismo" que proclama que já não há romances bons, que não há escritores como antigamente, ou que na língua portuguesa não há boa literatura como em outras. Esses profetas do apocalipse em geral leram pouco, manejam poucas línguas ou são monolíngües e, ao invés de compensar as limitações de formação com mais leituras, fazem-no com julgamentos peremptórios que lhes dão a falsa sensação de conforto: controlar um pouco a angústia ante o não lido.

São os que na época de Shakespeare diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Homero, e na época de Balzac diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Shakespeare e na época de Faulkner diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Balzac. São os mesmos que hoje dizem que já não há escritores como Faulkner, em geral tendo lido uma parcela ínfima da produção contemporânea.

homer.jpg Homero: contemporâneo da idéia de que a boa literatura se escrevia mesmo era antigamente.

Há 30 anos eles diziam que Luiz Vilela e Ivan Ângelo, escritores de certo sucesso nos anos 70, não poderiam jamais serem comparados com Graciliano Ramos. E talvez não se comparem mesmo. O problema é que enquanto esses apressados comentaristas perdiam tempo proclamando isso, esqueciam-se de ler Catatau, de Paulo Leminski, ou Armadilha para Lamartine, de Carlos Süssekind, os dois mais inovadores e complexos romances brasileiros da segunda metade dos 70. E continuam pecando por miopia até hoje, preocupados que estão em demonstrar que tudo é decadência.

No terreno da literatura, juízos de valor sobre períodos inteiros da história são bem difíceis de se fazer. Desconfie dos que o fazem com muita facilidade. Talvez hoje seja relativamente seguro dizer que a década de 1930 foi mais fértil para o romance brasileiro que a década de 1910, por exemplo. Mas nem isso é tão certo assim, porque quem saberá do vasto terreno dos livros jamais reeditados, dos textos esquecidos que podem de repente aflorar?

No caso do presente, nem se fala. Dizer que “hoje não há escritores da qualidade de um Graciliano”, como se lê às vezes em certo comentarismo literário de nível superficial, é uma bobagem sem tamanho. “Graciliano”, como assinatura e nome de uma obra, é o que é depois de décadas de presença no cânone, circulação, recepção, sacralização. Por definição não pode haver um autor contemporâneo “como” Graciliano.

Isso não significa que hoje não se escreva literatura da mesma qualidade que nos anos 30: simplesmente quer dizer que o que se considerará “boa literatura” neste momento ainda é terreno a ser delimitado. Se a partir de Mário e Oswald de Andrade o romance modernista privilegiou um tipo de texto paródico e lúdico, e depois com Graciliano e José Lins do Rego se voltou para uma veia regional e realista, e depois com Clarice e Lúcio Cardoso transformou-se em investigação psicológica e introspecção, e depois com José J. Veiga e Antonio Callado converteu-se em alegoria nacional, o fato é que hoje ainda está em pugna qual será a vertente dominante do romance.

E o pior tipo de leitor é o que se recusa a influir nos rumos dessa pugna em nome de uma segurança bobinha, de que antes as coisas eram melhores e que agora já não há mais nada.

Por isso, leia Homero e leia Sexo Anal. Leia Um defeito de cor nos intervalos do seu Shakespeare. Intercale Stevenson com Mãos de cavalo. Ou vice-versa. Não faz mal nenhum.

A literatura agradece.

PS bem a propósito: a primeira ocorrência registrada da frase "já não se faz samba como antigamente" é do livro Na roda de samba, do jornalista e cronista Vagalume. Data de publicação do livro? 1933.



  Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post | Comentários (32)



segunda-feira, 22 de maio 2006

Pela descriminalização do consumo de drogas

Eu preparava um post sobre toda a discussão gerada a partir dos ataques do PCC em São Paulo na semana passada e os assassinatos de pelo menos 107 “suspeitos” pela polícia logo depois. E eis que encontro um texto que traduz, melhor que eu poderia, o que penso.

Não deixem de ler A Matança dos Suspeitos, da psicanalista Maria Rita Kehl.

O que eu tenho para acrescentar a toda a discussão sobre a necessidade de equipar melhor a polícia, de bloquear celulares na prisão, de investir em educação de forma a dar um pouco de perspectiva ao jovem da periferia, etc. etc. é algo que não vi comentado em lugar nenhum: é fundamental a descriminalização completa de todo o consumo de drogas, especialmente das drogas leves como a maconha.

O tráfico de drogas é a galinha dos ovos de ouro da bandidagem organizada, e ela se sustenta no monopólio que detêm os traficantes. Esse monopólio só pode ser quebrado com a descriminalização completa do uso. O monopólio tem uma relação direta com o poder assombroso do crime organizado e também com a propina para o policial - fruto da possibilidade que tem este de intimidar e chantagear o usuário real ou o "suspeito" de ser usuário.

Não, essa legislação que temos ainda não é suficiente, pois ainda prevê pena de até 2 anos para os atos de "Adquirir, guardar, ou trazer consigo, para uso próprio, substância entorpecente" (artigo 16 da lei 6.368). Mais que a legislação, é necessário mudar a política pública de drogas. Não conheço ninguém da minha geração e classe social que nunca tenha tido experiência com drogas, mas paira na sociedade brasileira uma resistência hipócrita a discutir o assunto. Com freqüência temos que ouvir diatribes moralistas de "especialistas" como padres, que não sabem nada sobre o assunto: ouve-se, por exemplo, que "da maconha o viciado passa para as drogas mais pesadas", o que é o equivalente de se dizer que quem gosta de suco de abacaxi amanhã vai se apaixonar por suco de groselha. Os usuários não passam de uma droga a outra por um misterioso motivo químico ou bioquímico. Os usuários passam de uma droga a outra porque ambas vêm do mesmo traficante, que está em condições de dizer: hoje não tem do preto, leva do branco. Afinal de contas, o "branco" dá mais lucro, vicia mais, cria laços mais fortes com o tráfico que o "preto". Para quem não tem grana para o "branco", dá-lhe crack, essa droga horrorosa que é quase um caminho sem volta.

Será algum dia possível fazer a contagem de todos os jovens (quase todos pobres, quase todos pretos) engolidos pela criminalidade organizada ao serem lançados no sistema carcerário por posse de drogas para uso próprio?

Não há dúvida sobre o dano que fazem as drogas ao organismo - algumas mais, outras menos: ter para a maconha a mesma política que se tem para a heroína e o crack é burrice e seria o equivalente do Ministério da Saúde ter a mesma política para a Aspirina e o Gardenal - mas a "guerra às drogas" copiada dos EUA continuará sendo aí no Brasil, como aqui nos EUA, um desastre completo.

Que fique claro o que estou dizendo: não incentivo ninguém a usar droga nenhuma, e a única que eu uso, o cigarro, eu tenho muita esperança de derrotar este ano. Mas tratar o consumo de uma substância como a maconha como caso de polícia só reforça o poder da bandidagem. Obviamente o problema é complexo e são necessárias outras medidas. Mas sem a descriminalização do consumo, nada vai a lugar nenhum. Eu me considero razoalvelmente capaz de entreter outros pontos de vista e de olhar as coisas por ângulos diferentes do meu, mas neste caso, sinceramente, eu não consigo entender como há gente que não enxerga isso.

PS: Não deixem de ler o blog do Ferréz. Pura integridade, lá de dentro do olho do furacão.



  Escrito por Idelber às 01:45 | link para este post | Comentários (48)



quarta-feira, 17 de maio 2006

Gilberto Gil, doutor honoris causa por Tulane University

IMG_5454.jpgDepois de Wisnik, foi a vez de New Orleans receber a visita de Gilberto Gil, na sexta e sábado passados. Eu perdi a festa, mas fotos e relatos não faltaram por aqui. Tulane passou a ser a primeira universidade não brasileira e a segunda do mundo a conceder um doutorado honoris causa ao ministro da Cultura, Gilberto Gil (a primeira, muito apropriadamente, foi a UFBA). A visita de Gil à cidade neste contexto pós-furacão foi bem significativa. Foi para lá de importante, simbolicamente, que Tulane tenha escolhido um dos principais artistas, intelectuais e políticos negros do mundo para receber o doutorado honoris causa em New Orleans, num momento em que boa parte da população negra histórica da cidade está sendo literalmente expulsa da cidade.

Segundo todas as testemunhas, Gil foi o Gil de sempre: sábio, tranqüilo e capaz de encantar uma série de públicos diferentes. Na sexta Gil visitou as partes mais destruídas de New Orleans, palestrou e até deu canja no violão: IMG_5396.jpg






Os doutorados honoris causa são aprovados pelo Senado da Universidade e neste caso não foi diferente. Mas todo o mérito da homenagem a Gil foi de Christopher Dunn, amigo meu e especialista em música brasileira (e autor de um belo livro sobre a Tropicália), que há meses vem trabalhando com o complicadíssimo calendário de Gil para que a festa pudesse acontecer. Chris aparece aí todo orgulhoso, comandando a cerimônia e entregando a Gil um livro sobre as tradições de New Orleans: IMG_5378.jpg



A fofoca da festa é que estavam presentes Bill Clinton e George Bush pai como oradores da formatura. Ao final da cerimônia de graduação, o protocolo era que os dois ex-presidentes saíssem do auditório em primeiro lugar. Ao sair, Clinton quebrou a etiqueta, atravessou o salão e, na frente de todos, deu "aquele abraço" em Gil, com quem ele havia tomado o café da manhã do sábado. Acho que para quem nunca saiu do Brasil deve ser difícil dimensionar a importância dessas viagens de Gil como "embaixador da cultura brasileira". Em dois dias por aqui, ele deve ter conversado com centenas de pessoas: os frutos que se colhem depois desse trabalho de relações públicas são consideráveis, podem acreditar.

Chris me conta que Gil saiu daqui com pilhas de CDs e livros, presenteados por professores de Tulane e membros da comunidade. Adivinhem se o imbecílico blogueiro aqui lembrou de deixar exemplares de seus livros para o ministro? Claro que não. Mas fica aqui a homenagem a ele e os parabéns pelo doutorado honoris causa, com a saudação a Christopher Dunn, que organizou uma festa de quem tanta gente usufruiu. Todas as notícias que chegam aí do Brasil são de que Gil amou a visita, se divertiu à beça e incluirá New Orleans de qualquer jeito na próxima turnê. Foi um gol de placa da nossa universidade, modéstia às favas.

IMG_5355.jpgGil visita a casa da lenda new-orleaniana, Fats Domino.

IMG_5457.jpgGil comendo um po-boy, o tradicional sanduba de New Orleans.



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segunda-feira, 15 de maio 2006

A lista de Parreira

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Saiu a lista de Parreira, sem grandes surpresas. Não surpreende tampouco que Zagallo, o rei das grosserias, tenha aproveitado para insultar a memória de Telê. Sobre isso escrevemos outra hora.

Grande notícia
: Roque Júnior está fora da Copa!

Comentários sobre a lista:

Goleiros: Dida, Rogério Ceni e Júlio César. É uma pena que Marcos esteja de fora, mas é a decisão correta. Ele está há tempos sem jogar. O Juca Kfouri teria convocado Gomes no lugar de Júlio César. Também não sou grande fã de Júlio César, mas com Dida e Rogério me sinto tranqüilo.

Laterais: Cafu, Cicinho, Roberto Carlos e Gilberto. Os três primeiros estavam confirmadíssimos e a última vaga estava entre Gilberto, Serginho, Júnior e Gustavo Nery. Apesar de todo o lobby do Galvão Bueno e da Rede Globo, Gustavo Nery está fora, com toda razão: não tem bola para vestir a amarelinha, nunca teve. Eu não levaria Gilberto. Levaria Zé Roberto como lateral titular, com Roberto Carlos na reserva e um lugar no meio-campo para Juninho Pernambucano.

Zagueiros: Lúcio, Juan, Luisão e Cris. Dos males o menor, Roque Jr. ficou fora. Eu levaria Cláudio Caçapa (mesmo em recuperação) ou Alex no lugar de Cris. Agora é torcer para que Lúcio não se machuque.

Meio-campo: Émerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho, titulares. Gilberto Silva, Edmílson, Juninho Pernambucano e Ricardinho, reservas. Perfeito, mas eu jogaria com Juninho no time titular e Zé Roberto na lateral esquerda. Muita gente não gosta de Émerson, e eu também não, mas no esquema do Parreira não vejo como prescindir dele.

Ataque: Ronaldo, Adriano, Robinho e Fred. Perfeito.

Provavelmente foi das convocações mais consensuais da história da Seleção. Alguma discussão aqui ou ali, mas não há grandes polêmicas. A lista é muito boa.

Sobre as outras seleções, os meus palpites são:

Campeões do mundo que desta vez não têm fôlego para ir longe: Alemanha e Itália (não, não acredito nem no favoritismo "caseiro" da primeira nem no "bom momento" da segunda).

Campeões do mundo que têm time para ir até o fim: Inglaterra e Argentina.

Times que sempre morrem na praia mas que desta vez podem levar: Holanda e Espanha.

Muito cuidado com: México e Ucrânia.

Em breve, um blog sobre a Copa, com um título esquisitíssimo em alemão, e participações de feras como Milton Ribeiro e Ubiratan Leal, além de palpiteiros como eu.



  Escrito por Idelber às 13:48 | link para este post | Comentários (32)



sábado, 13 de maio 2006

Fotos do lançamento de Um defeito de cor

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burburinho na Quixote no lançamento de Um defeito de cor.

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Antônio Sérgio Bueno, querido amigo e um grandes críticos literários do país, passou por lá.

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Blogueiros: Juliana, das Mothern, Ana, Fefê e namorado, Leandro Oliveira. Sentado, o companheiro da Ju. O Cláudio Costa e esposa ainda não haviam chegado.

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Eu e Laura, das Mothern.

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Autora e pai coruja.

Foi uma festa linda. Que esse livro encontre todos os leitores que merece.



  Escrito por Idelber às 14:22 | link para este post | Comentários (11)



sexta-feira, 12 de maio 2006

É hoje!

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PS: Gracias muy mucho a quem ajudou a divulgar: o Carlos Herculano Lopes do Estado de Minas, o Alécio Cunha do Hoje em dia, o Inagaki, a Meguita, Biajoni, Tiago Dória, Alê Félix, Sérgio Rodrigues (que fez nota e entrevista com Ana), o Prás Cabeças, o Odisséia Literária, o Alfarrábio, as Motherns, o Amigos blogueiros, o Contando Causos, o Nanbiquara.



  Escrito por Idelber às 12:09 | link para este post



quinta-feira, 11 de maio 2006

... a primeira como tragédia, a segunda como farsa...

Houve uma época em que as greves de fome tinham dignidade. Ela foi ferramenta de luta de gente muito respeitável: Mahatma Gandhi, Nelson Mandela. Nas suas memórias, Mandela conta que nas assembléias do African National Congress, o partido anti-apartheid, ele em geral votava contra a greve de fome como estratégia. Mas uma vez decidida pela maioria, ele se transformava no mais ferrenho executor e defensor da iniciativa. Conquistaram vitórias importantes com ela nos porões do apartheid, e pelo menos numa conseguiram provocar uma inédita greve de fome dos carcereiros.

Ancorado numa visão de mundo que acredita no jejum periódico como purificação, Gandhi fez algumas greves de fome, as políticas nem sempre vitoriosas.

Em 1981, 10 irlandeses deram a vida numa greve de fome numa prisão inglesa, lutando pela manutenção de seus estatutos como presos políticos. Em Guantánamo, continua a haver greves de fome dos presos, em protesto contra maus tratos e o estado de limbo jurídico em que vivem.

Mas o Brasil – talento infinito para avacalhar até a mais desesperada das formas de luta – inventa um outro espécimen: o político no poder que faz greve de fome!

Um sujeito cuja digníssima esposa governa o segundo ou terceiro estado mais importante da federação, que é pré-candidato a Presidente da República, sobre o qual pesam citações na justiça por práticas irregulares e que, apesar de poder chamar uma coletiva de imprensa a qualquer hora para se explicar sobre uma série de denúncias, entra em greve de fome por estar sendo “perseguido”?

É desmoralização definitiva da greve de fome como arma política no Brasil, claro, qualquer que seja o fim desse patético teatro de Garotinho. O próximo bispo que quiser protestar contra as obras no Rio São Francisco, que escolha outra forma de luta: a greve de fome está queimada.

A menos que - e seria um momento de glória para a política brasileira – Garotinho resistisse bravamente mais 84 dias e, ao final desses 95 de jejum, entrasse para o Guinness Book of Records batendo o recorde mundial da mais longa greve de fome! Seria o ápice: Brasil hexacampeão e Garotinho entrando para o Guinness.

Eis aí uma bandeira que pode unir petistas, tucanos, defensores do voto nulo, anarquistas, conservadores: todo apoio à greve de fome de Garotinho até o final.

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Seria uma morte gloriosa, e aos pobres 7 ou 8 por cento da população que estão dispostos a votar nesse sujeito para Presidente, lhes permitiríamos fundar a Igreja do Sto. Garotinho e viver em paz, num Brasil onde a maioria continue escolhendo quem manda no Estado.

Mas é claro que isso é só um sonho e o mais provável é que a palhaçada acabe antes da convenção do PMDB no sábado.


PS 1: Leitura indispensável sobre a rede e a blogosfera: Linkania, dissertação de Hernani Dimantas, defendida na PUC-SP em 2006 (link via Nemo Nox).

PS 2: Leitura indispensável sobre o imbróglio Bolívia-Petrobrás: Sergio Leo.



  Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post | Comentários (23)



domingo, 07 de maio 2006

Lançamento Nacional: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves

A Editora Record e a Livraria Quixote convidam para o lançamento de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves:

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Ele acontece nesta sexta-feira, em Belo Horizonte, na livraria Quixote - Fernandes Tourinho, 274 - a partir das 19:30.

Para dizer quão extraordinário, inventivo, indispensável é Um defeito de cor, eu sou suspeito, mas digamos: é a primeira grande saga histórica em voz feminina no romance brasileiro, e é muito mais que isso. São umas 1.000 páginas, uns 400 e tantos personagens, 80 anos de história do Brasil-África-Atlântico-negro e uma voz alinhavando tudo: Kehinde, possivelmente Luiza Mahin, talvez a mãe do poeta negro Luiz Gama.

Kehinde nasceu no reino do Daomé, em 1810 e a cena antiga, primordial da qual se lembra é traumática. Abre o livro. Revelar, numa resenha, o que acontece nas primeiras 10 páginas deste livro seria um pecado comparável a revelar o final do melhor thriller. Ela foi violada, foi escrava, foi mãe; foi também preta liberta, pequena capitalista, refugiada, mulher de inglês, dona de padaria, revoltosa com os muçurumins da Bahia de 1835, libertadora de outros pretos, brasileira de volta na África. Ela é o Riobaldo-Diadorim dos subterrâneos da história brasileira do século XIX. Ana contou essa história.

Já menina, Kehinde falava eve, fon e iorubá. Como La Malinche, ela é poliglota e tradutora já na chegada do colonizador. É vendida como escrava ao Brasil, passa por várias cidades – Ilha de Itaparica, Salvador, Maranhão, Recôncavo (Cachoeira), Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Campinas, Salvador, e depois de volta à África, em Uidá e Lagos. Não é uma personagem que caiba em qualquer dicotomia. Assim como Kahinde pode ser Luiza Mahin, o você que escuta a história, filho de Kehinde, pode ou não estar lá, ela pode ou não voltar a revê-lo, ele pode ou não estar vivo: ele é o Omotunde, que nasce na página 400 e tantos – filho que tem Kahinde com Alberto, homem português.

Ele? Não um homem especial; apenas um dos muitos que ela teve, portugueses, pretos ou ingleses, assim como o você fantasmático que escuta a história não é o único filho, é um entre muitos. Outro filho importante é o Banjokô, filho que morre, fio condutor de todo um outro conto. Um defeito de cor é a história dessas muitas, várias maternidades, no seu entrelaçamento com a vasta história dos pretos no Brasil.

romance.jpg Era bem possível que você não se lembrasse de mim, por ter me visto havia mais de dez anos, e eu tinha medo de também não te reconhecer, um rapaz já tão diferente da criança de que eu me lembrava. Durante todos aqueles anos, e principalmente a cada vez que eu achava estar perto de te encontrar, isso era uma grande tortura para mim, tentar imaginar o seu rosto e saber que eu não conheci a maioria das fisionomias que ele teve, não vi nenhuma das modificações causadas pelo tempo. Certa vez comentei isso em uma carta para a Sinhazinha e ela disse que era uma boa coisa, que eu sempre me lembraria de você criança, o que ela não conseguia fazer em relação a nenhuma das filhas, sem se valer dos quadros. Talvez essa seja mesmo a única coisa boa, pois, para mim, você sempre teve sete anos, sempre teve olhos que me seguiam com carinho e atenção, sempre teve o sorriso que eu não vi falhar mesmo quando teve motivo. Como disse a Sinhazinha, a memória é mesmo o melhor retratista.

Capitão Gravatá leu o romance em manuscrito. Mas a primeira que escutou a história, antes que ela virasse palavra escrita, foi Meg Guimarães. Millôr, que já leu alguns livros, diz na orelha que ele está “entre os melhores que li em nossa bela língua eslava”. Imaginem um romance que chega recomendado assim.

Ele, o livro, decidiu que eu seria a quinta ou sexta pessoa a lê-lo, depois de Gravatá, Millôr, Hélia, Andressa: e o mínimo que posso dizer é que quando devorei as 800 páginas do manuscrito original (que viraram 947 no volume da Record), não tive dúvidas que Um defeito de cor está no mesmo nível de Quarup, de Antonio Callado, Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, Catatau, de Paulo Leminski, e Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, todos eles um par de degraus abaixo do romanção-mor das nossas letras (o Sertão de Rosa): ou seja, Ana escreveu um dos cinco grandes romanções-cosmogonias da última metade de século na literatura brasileira, no mínimo.

Que algum futuro leitor desminta a mim e ao Millôr.

Ao contrário desses outros 4 romanções-saga pós-Grande Sertão, masculinos até os ossos, Um defeito de cor se organiza a partir da experiência de uma mulher. Atravessa 8 décadas de história do Brasil e da África, narra a grande rebelião negra do século XIX brasileiro, a Revolta dos Malês, na Salvador de 1835, além de mil outros momentos da história do Brasil e do Atlântico Negro do século XIX, que farão a delícia de historiadores e cientistas políticos que lerão o romance. Mas a essência desse livro está mais além de qualquer sociologia ou historiografia.

Aos nossos vários, muitos amigos blogueiros de Belo Horizonte, deixamos o convite para o lançamento. Nesta sexta, às 7:30, na Quixote Savassi. Rio e São Paulo vêm depois.



  Escrito por Idelber às 02:10 | link para este post | Comentários (33)



terça-feira, 02 de maio 2006

José Miguel Wisnik: Entrevista Exclusiva

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Quem esteve em New Orleans na semana passada foi o crítico, ensaísta, compositor, intérprete e pianista José Miguel Wisnik, um dos pensadores e artistas brasileiros que eu mais admiro. Zé Miguel e sua esposa, a artista plástica Laura Vinci, tiveram um fim de semana memorável em New Orleans, com direito a ver um show do jazz de vanguarda do Astral Project no Snug Harbor (templo do jazz new-orleaniano), um show dos Soul Rebels, grande brass band da cidade, no Café Brasil, uma emocionante reabertura de um clube afro-americano com o já legendário trumpetista Kermit Ruffins, uma festa em sua honra na casa de Christopher Dunn e uma palestra extraordinária sobre música e literatura no Brasil, durante a qual os nossos alunos puderam comprovar porque Zé Miguel é hoje um dos principais intelectuais e artistas brasileiros. A amizade com Zé Miguel é daquelas especiais, não só pelo seu brilhantismo e gentileza, mas também porque suas paixões são as deste blog: música, literatura, política, futebol. Entre um acorde e outro, Zé Miguel me concedeu a seguinte entrevista. Os detalhes sobre seu novo e ansiosamente esperado livro, ora ora, você leu aqui no Biscoito primeiro.

I.A. Você prepara um aguardadíssimo livro sobre o futebol e a cultura brasileira, anunciado numa entrevista publicada no Sem Receita e agora em fase de conclusão durante sua estadia aqui nos Estados Unidos. Sem querer estragar a surpresa, pode nos adiantar do que se trata?

J.M.W. Na verdade é um tema difícil, começando pelo fato de que quem gosta de futebol e assiste futebol geralmente não está interessado em especular sobre futebol ou ler sobre ele. Por outro lado, quem se dedica a ler livros e especulações nem sempre conhece o futebol de dentro. Eu li outro dia um texto do Bourdieu sobre a sociologia do esporte em que ele dizia que os sociólogos geralmente não praticam esporte, não conhecem o esporte de dentro. Esportistas, por outro lado, não estão interessados em sociologia. No caso do livro sobre futebol isso é ampliado, porque com a extensão que tem o futebol no Brasil, o alcance e a imersão na vida futebolística se fazem de uma maneira que não passa por uma atividade refletida. Ou passa tanto que todo mundo se considera mais na posição de ensinar futebol do que aprender sobre ele, não é?

Tem-se escrito cada vez mais sobre futebol no Brasil, apesar disso, e não sei se na medida da importância que ele tem para nós. Há, claro, o livro clássico do Mario Filho, O Negro no Futebol Brasileiro, suas crônicas, e tudo aquilo que ele até hoje produz como discussão em torno de si. Há Nelson Rodrigues, o clássico absoluto. Tem os textos de e motivados por Roberto da Matta, há historiadores como o do livro Footballmania (de Leonardo Pereira) que é uma muito boa história do futebol, do princípio até 1938, e as muitas teses que vêm sendo escritas nas universidades, como a que deu origem ao livro de Bernardo de Hollanda, O descobrimento do futebol, sobre relações com a literatura. Os interessantíssimos escritos de João Saldanha, o livro de João Máximo sobre João Saldanha, o de Ruy Castro sobre Garrincha, o de Alex Bellos sobre o Brasil e o futebol, o de Jorge Caldeira sobre Ronaldo. O texto soberbo de Anatol Rosenfeld escrito em 1956 para uma revista alemã, que se encontra em Negro, macumba e futebol. Estou dando apenas alguns exemplos que me ocorrem agora, de memória.

Mas eu observei, no período que estou passando em Berkeley e em que tive acesso a uma biblioteca ampla sobre o tema, que se escreve muito sobre futebol no mundo, cada vez mais nos últimos anos, e que a parte brasileira dessa bibliografia, no conjunto, acaba parecendo magra. A questão das identidades nacionais, ou grupais, na globalização, a violência, a presença de espetáculos esportivos de massa no cotidiano contemporâneo, o futebol feminino, as relações do futebol com economia, política, arte, moda, psicologia de multidões, a partir de muitos pontos de abordagem . A centralidade do futebol na vida dos povos mais diversos tornou-se um assunto mundial, assim como as relações transculturais que se dão através dele. Há coisas escritas sobre futebol africano, indiano, árabe, além, claro, do futebol europeu – aí você encontra a idéia de que só o futebol explica a Europa, de que a União Européia é ininteligível sem o futebol, o fato de que a FIFA ganhou uma dimensão mais extensa que a da ONU, de que o futebol é onipresente e que se tornou uma espécie de língua geral.

Há uma tendência crescente a que os estudos se deparem com a importância que o futebol ganhou no mundo. No entanto, basta alguém estudar o futebol e entrar no mérito do que é o jogo, que vai topar com o Brasil, que é o incontornável do assunto. O futebol é um assunto mundial que implica necessariamente o Brasil. Portanto estamos nessa jogada queiramos ou não (risos)

E aí eu vejo uma coisa curiosa. No Brasil, os estudos sobre futebol tendem a ser mais sociológicos, históricos, biográficos, e menos interpretativos, menos especulativos, menos ensaisticamente ousados do que os que se escrevem em língua espanhola, por exemplo. Há textos, nesta última, em que a bibliografia da crítica literária é fortemente convocada para pensar o futebol. Inclusive, há um livro de um boliviano sobre Garrincha que é surpreendente (Un pajarillo llamado ‘Mané’, de Luis Antezana). O mais belo ensaio interpretativo sobre futebol no Brasil, na minha opinião, é o Anatomia de uma derrota, de Paulo Perdigão, sobre a Copa de 50. Alguns poemas de João Cabral são ensaios concentrados. E quem tem escrito com sabedoria, ironia e muitas vezes ousadia interpretativa, além de esbanjar no conhecimento de causa, é Tostão, que, outro dia, teceu comentários sobre o real, o imaginário e o simbólico em Lacan! Tudo isso me confirmou algo com que venho trabalhando: pensar nas implicações culturais e no caráter artístico, poético, estético do futebol, repensar o tema eterno de como o futebol brasileiro se apropriou do futebol inglês, e porque este ganhou o alcance que tem no mundo.

Então digamos, esse é o sentido geral do livro, que se aprofundou aqui nos EUA, olhando o Brasil à distância e pensando no futebol como o mais mundial dos esportes: aquele jogo que quebra a hegemonia que a cultura americana assume como crivo e padrão da cultura de massa – veja o fato de que a ESPN não conseguiu implantar o basquete como esporte mundial, e que a Nike teve que lidar fora do seu programa com uma coisa que lhe era estranha (a biografia de Jorge Caldeira sobre Ronaldo explica bem isso). Quer dizer, o futebol, que é o mais mundial dos esportes, não faz sentido para os EUA, e os esportes que fazem mais sentido para os EUA estão longe de fazer sentido para o mundo na mesma medida. Esse é o curioso ponto em que se quebra o domínio do imaginário do império, que, se se completasse, fecharia um circuito absolutamente sem saída. Porque se fechariam todas as pontas . . . (risos)

E curiosamente, também, é justamente nesse lugar em que o império americano não completa o processo de dominação imaginária sobre as grandes fantasias de massa, de exercício do jogo e da vida, ali onde falha o império americano e onde falta a coca-cola dos esportes é que desponta uma coisa chamada Brasil, um negócio meio difícil de definir e que ganha uma certa clareza enigmática quando se trata de futebol.

I.A. O livro trata mais diretamente de algum período do futebol brasileiro ou trabalha sempre no nível mais amplo, digamos, do que seria a reflexão conceitual ?

J. M.W. Ele tem um capítulo sobre os jogos de bola e a constituição do futebol inglês. É um capítulo sobre o que distingue o futebol dos outros esportes modernos e porque ele teve esse alcance. Essa é uma parte do livro. Outra parte do livro é como isso foi apropriado e resignificado no Brasil – e aí passa pelos temas que são a formação do futebol brasileiro, o famoso problema do negro no futebol brasileiro e as epifanias, que se deram em diferentes momentos. A de 1938, a primeira epifania do futebol brasileiro, a copa de 1950, que é uma grande epifania em negativo, o ciclo de 1958 a 70. Depois disso vêm, Copa por Copa, as vicissitudes dessa sensação de grandeza e de fracasso, e o fato de se alternar tanto a imagem que fazemos da seleção brasileira, onde ela é tudo ou é nada. Isso é uma questão subterrânea do livro que faz com ele se chame Veneno remédio: o futebol e o Brasil.

I.A. Um tema que é bem apropriado para se tratar aqui em New Orleans é o do futebol como arena onde as relações raciais brasileiras adquirem ao mesmo tempo sua transparência e sua opacidade. Eu queria lhe perguntar em que o trabalho sobre o futebol pode tê-lo levado a refletir sobre as relações raciais brasileiras e até que ponto o futebol confirma, ou nega, ou matiza, Gilberto Freyre.

Puxa, esse é o tema crucial do qual eu espero dar conta minimamente. Eu acho que há uma tendência que vê o futebol como exemplo de uma integração que seria uma prova da democracia racial. E existe uma tendência que critica esta e que joga fora a indagação sobre em que o futebol consiste, porque contesta a idéia de democracia racial brasileira. Na verdade há um embate entre duas fórmulas insuficientes: uma é “o futebol é assim porque é a ginga, é a malandragem, são as capacidades adaptativas ligadas à mestiçagem que fazem com que o futebol ganhe essas propriedades tão únicas”. Por outro lado, há a idéia de que as categorias não são relevantes, e que o que há que se fazer é investigar as relações de classe, quais eram as posições de poder que estavam em vigor na constituição dos times, e que essas categorias (ginga, malandragem) seriam irrelevantes. E aí trazem outras que se mostram igualmente irrelevantes ... (risos)

Por exemplo: critica-se Mario Filho dizendo que ele narra, sem rigor científico, o mito infantil em que o negro está excluído, num primeiro momento do futebol brasileiro, depois ele entra, depois ele conquista um direito de cidadania e finalmente triunfa. Mas acho que inclusive no Mario Filho essa coisa está colocada de uma forma mais complexa. O livro é fartamente anedótico, mas pode ser lido como a partitura de um mito à maneira de Lévi-Strauss (não no sentido estruturalista, mas como rede complexa e não linear). Num primeiro momento o futebol oficial no Brasil é excludente e branco. Ele é bem representado, em Mario Filho, pela figura de Marcos de Mendonça, goleiro do Fluminense e da seleção brasileira, que mereceria um estudo à parte – ele foi o pai da crítica shakespeariana brasileira (é pai de Barbara Heliodora), e é o verdadeiro emblema da fase áurea do amadorismo de elite – o incluído branco, do Fluminense, rico e próximo da cultura letrada (fazendo eco ao papel desempenhado por Coelho Neto). No polo oposto estão os excluídos, os pretos, mulatos (e brancos) pobres. A galera que aparece nas fotos do livro Footballmania, encarapitada nos muros e telhados, vendo o jogo de fora. Mas há também o Friedenreich, que jogava na seleção com o Marcos de Mendonça: é o mulato que se disfarça de não mulato. Esse mulato que se disfarça de não mulato é, no entanto, o grande craque da época, antes de que começasse a entrada dos negros, na década de 20. Marcos Mendonça e Friedenreich são, sintomaticamente, os nomes mais importantes do período. Friedenreich tem a ambivalência do mulato nem rejeitado nem admitido, posição clássica de Machado de Assis no século 19, que procura estar como se não estivesse, posição que eu estudei em “Machado maxixe”. No escravismo mestiço brasileiro, o mulato é o não rejeitado nem admitido que guarda o segredo inconfessável do todo.Depois, e ainda no primeiro capítulo do livro, o Mario Filho fala no Manteiga, que é um preto que foi admitido e logo em seguida rejeitado. Ou seja, o anedotário de Mario Filho tem um espírito de sistema, e capta relações complexas entre incluídos de um lado, excluídos de outro, e as figuras ambivalentes daqueles que são nem incluídos nem excluídos, ou incluídos e ao mesmo tempo excluídos. Essa dinãmica fala, por si só, de uma rede de relações raciais complexas que não pode ser entendida na base do preto no branco. E o mulato vem a ser, justamente, no futebol e na literatura, o melhor intérprete dessa configuração cultural.

Leônidas da Silva será o grande craque do período seguinte, o da profissionalização, com Domingos da Guia, depois de rompidas as barreiras da exclusão. Mas Leônidas, como protagonista, será agora o admitido e rejeitado ao mesmo tempo. Mario Filho mostra isso bem. Ele é o veneno remédio. Ele triunfa como artilheiro da Copa e é contestado em vários momentos, criticado, vilipendiado, xingado. Já Domingos da Guia ecoa o modelo machadiano, com quem Mario Filho o compara, estilisticamente.

I.A. É o mulato elegante.

JMW: Exatamente, é o mulato elegante que queria ser aceito no Fluminense. O Leônidas da Silva é o momento da passagem, da virada, em que esse sujeito que era o negro negado vem a ser o negro afirmado. Então tudo isso é mais complexo e nos instrui mais do que uma mera ideologia da democracia racial, nos instrui mais do que a alternativa asséptica, que pretende desqualificar a questão racial como sendo não-pertinente ao futebol, ou entendê-la segundo um modelo racialista de tipo norte-americano, baseado na oposição binariamente marcada de branco e negro. Essa complexidade já está em Mario Filho. A partir daí, vem o desafio de ver como isso se traduz em linguagem propriamente futebolística, o que seria difícil de reproduzir aqui, mas o desafio do livro é não tratar desse assunto de um ponto de vista puramente sociológico e antropológico, mas também semiótico e poético.

I.A. Mais uma pergunta sobre a questão racial. Nos anos 70, Paulo César Caju dizia “eu sou tricampeão do mundo” mas não posso freqüentar uma boite da Zona Sul sem ser incomodado. Nos últimos anos, os incidentes envolvendo insultos raciais começaram a ganhar uma notoriedade que antes não tinham. Há os exemplos da prisão do argentino Leandro Desábato, do Quilmes, por ofensa racial ao Grafite num jogo da Libertadores da América contra o São Paulo e, algumas semanas atrás, o gesto racista feito por Antônio Carlos, do Juventude, contra o Jeovânio, do Grêmio, num lance que o Brasil acompanhou e que teve uma repercussão que ele jamais teria previsto. Por que isso tem acontecido – recrudesceu o racismo ou aumentou sua visibilidade?

J.M.W. Se vemos o documentário do João Moreira Salles sobre o Paulo César Caju, nota-se que não se pode tomar as declarações dele ao pé da letra. Ou melhor, não se pode tomá-la de maneira simplista. Ele entra e não entra nas boites da Zona Sul. Ele é ao mesmo tempo segregado e aceito. Quer dizer, aquele documentário é justamente sobre o sujeito que entra nas elites, que tem o charme, o prestígio de ser jogador, e ao mesmo tempo a decadência... O documentário é maravilhoso. Mostra facetas controversas e contraditórias da figura. O que o filme mostra é isso, inclusive na relação dele com a equipe de filmagem, que ele dribla várias vezes... Então não se pode tomar essa frase do Paulo César Caju como se fosse simplesmente a expressão reta da verdade, porque aí justamente a gente toma drible... (risos).

Ali se mostra um cara que circulou, em suma, na vida noturna, desfrutando dessa condição, sendo inclusive o pioneiro desse tipo de figura que apareceria depois e que existe hoje: o jogador brasileiro que circula na Europa, que desfila pelas boites, é solicitado pelas mulheres: ele figurou primeiro que ninguém isso. Claro que ele sabe também o quanto isso é ambivalente, mas eu acho que isso está ligado a essa duplicidade, que houve no Brasil desde que os jogadores passaram, como diz Anatol Rosenfeld, por uma “queda pra cima”: o jogador é sugado para o alto da sociedade. Ele é levado, com tudo o que tem sua história pessoal de precariedade, a uma situação onde ele circula por cima, enquanto durar essa sucção. Eu considero tudo isso, sempre, como “veneno remédio”, ou seja, são figuras do farmacós, que o futebol mobiliza intrinsecamente. É violencia e não violencia, é violência e superação da violencia. O futebol desperta posições de caráter racista, sexista, ao mesmo tempo em que ele é uma forma pela qual as culturas se deparam, trocam experiências, se admiram e se aceitam – em suma, jogam o mesmo jogo. Isso é uma coisa com a qual, justamente, o pensamento sociológico que não conhece o jogo tem dificuldade de lidar, porque as categorias sociológicas são mais estáticas (risos).

Falta a elas jogo. Se a gente for pensar direito a complexidade do jogo, mexe-se nas categorias sociológicas e portanto mexe-se na natureza mesma dos Estudos Culturais. Sobre os episódios mais recentes –Grafite etc. – eu acho que o que aconteceu foi que as coisas ficaram mais transparentes. Assim como no Brasil a utilização de dinheiro e poder públicos em benefício próprio é uma coisa secular e agora virou uma discussão pública – valores ligados à transparência e que desnudam esses procedimentos como ilegítimos vieram à tona e xingamentos em campo ganharam uma expressão jurídica e política. Então acho que é em parte isso. Não acho que seja um recrudescimento do racismo. Mostra o quanto ele está subjacente, não propriamente como racismo mas como choques – se entendemos o racismo como atitude ostensiva de desqualificação racial. Isso é algo para o qual eu acho que não há espaço no Brasil. Há algo em que New Orleans se parece vaga e fortemente com o Brasil, sobre o que conversamos antes dessa entrevista e eu concordo com você: aqui, no berço do jazz, os negros irradiam uma certa naturalidade de quem sabe que os símbolos da cidade, que se espalharam decisivamente sobre os Estados Unidos e o mundo, foram criados por eles. É diferente de negros num gueto de Washington, convivendo com os obeliscos, os capitólios e os pentágonos – a simbologia fálica dos brancos.


I.A. Há dois grandes mitos que habitam o futebol brasileiro há mais ou menos 30 ou 40 anos, que são os mitos do futebol força e do futebol arte. Uma das teses que eu fiquei de apresentar – e ainda não o fiz – aos leitores do blog é a de que o Brasil perdeu a Copa de 1982 no dia 05 de março de 1978, data da decisão do Campeonato Brasileiro de 1977, no qual a invicta equipe do Atlético-MG, formada por jogadores franzinos e associada a um imaginário de oposição à CBD da época, comandada pelo General Heleno Nunes – essa equipe que encarnou no gesto de Reinaldo o punho esquerdo fechado e erguido da Internacional Socialista – foi derrotada nos pênaltis pelo São Paulo de Minelli, capitão do futebol força, depois de um jogo muito violento em que inclusive um jogador do Atlético-MG, Ângelo, foi pisoteado por Chicão. Ali de alguma forma ganha força a idéia de que o Brasil devia copiar a Europa, de que futebol bonito não ganha jogo – mito que se reforçou sobremaneira depois da derrota do Sarriá, e mais ainda depois da segunda derrota do Telê em Copas, já em 1986. Fale um pouco desses mitos, da forma como eles têm sido reescritos ao longo dos anos e de como o seu Santos, o de Robinho, de alguma maneira resgatou o futebol arte que vinha com menos prestígio depois das conquistas de Parreira e Felipão em 1994 e 2002. Não sei se faz sentido essa contraposição.


J.M.W. Totalmente. Eu parto de um ensaio do Pasolini, que ele escreveu no ano de 1971, dizendo que o futebol se joga em prosa e em poesia. Segundo ele, os europeus jogam em prosa. Digamos, os alemães e os ingleses jogam em prosa realista, os italianos jogavam em prosa estetizante . . . (risos)

E os sul-americanos, especialmente os brasileiros, jogariam em poesia. E ele descreve semiologicamente isso. É um texto muito interessante, que coloca a questão do futebol brasileiro como um futebol de poesia. Há uma outra variante disso, que recrudesceu na década de 70, que é a do futebol força: ocupação de espaços, vigor físico para matar a pretensão de jogadas criativas. A Copa de 70 consagrou aos olhos do mundo um futebol poesia, e o desenrolar da década de 70 trouxe uma dúvida sobre isso, porque levantou o futebol força. O futebol em prosa ganhou uma espécie de dominância aparente que fazia, no Brasil, acreditar-se que a arte era uma coisa do passado. Isso está ligado às eternas oscilações entre reconhecimento e negação do ser brasileiro. Então justamente das Copas de 1974 a 1994, são 20 anos em que a pergunta é “entre a poesia e a prosa, qual é a superior”, que é a pergunta do Caetano Veloso na música “Língua”.

E esse episódio do Mineirão que você menciona – eu não sei se é o episódio inicial, mas é um episódio marcante desse desenrolar, que durou até o desrecalque de 94: uma seleção maciçamente defensiva, com um técnico acadêmico, que pensa em prosa acadêmica e que é uma sucessão do paradigma introduzido por Cláudio Coutinho, mas com um diferencial: um centauro com brilho, com um aríete de gênio.

I.A. Romário.

J.M.W. Romário, sem o qual o esquema todo não daria um passo. Então a dualidade continua... (risos). Foi uma Copa ganha sem o brilho de equipe, mas com o brilho de Romário: sempre recebendo duas ou três bolas por jogo e decidindo ali, né? Evitado até o último minuto pela comissão técnica. Serviu, de todo modo, para mostrar que é a oposição entre arte e força é um pseudo-problema no futbeol brasileiro, como Telê Santana sempre soube. Zagallo e Felipão disputam irritantemente com o craque, querem diminuir o craque, colocá-lo no devido lugar subalterno. Parreira hoje é um jogador de pôquer que tirou uma mão cheia de azes e reis, mas que, no fundo do fundo, e diante do espelho mais íntimo, como disse bem o Tostão, preferia ser o técnico da Inglaterra, um equipe mais mediana e aplicada. Na verdade, a poesia é instantânea. Assim como na literatura, dizia Edgar Allan Poe, não existe poema longo: o poema longo é feito de prosa poética com momentos de genuína poesia. O jogo de futebol também é assim: sem o arroz com feijão do jogo, sem jogar prosa, ninguem ganha coisa nenhuma. É preciso a prosa, a boa prosa, para que a poesia apareça. Hoje em dia essa questão parece equacionada, também pelo fato de que o futebol criativo mostrou uma capacidade de reafirmação, de recriação que dá entusiasmo para que a gente trate do assunto. Eu só me animei a escrever este livro depois do Santos de Robinho, o livro veio com ele. Se o futebol estivesse hoje tedioso, seria triste escrever sobre o assunto. Nós teríamos que aceitar mesmo que as coisas foram massificadas, padronizadas e que o futebol é só um espetáculo mercantilizado e nada mais que isso. No entanto, não é assim.

I.A. Perfeito. Mudando de assunto, Zé Miguel. Talvez o grande debate da crítica literária latino-americana, brasileira incluída, dos últimos 15, 20 anos tenha sido o impacto dos Estudos Culturais no estudo da literatura. No caso do Brasil, os paradigmas fundamentais da crítica literária contemporânea foram assentados pela escola uspiana, que tem uma relação orgânica com o ensaísmo de identidade nacional, de Sérgio Buarque de Hollanda para adiante. O pensamento uspiano tem sido muito criticado pelos praticantes dos Estudos Culturais, como pensamento que não foi atento o suficiente para questões de raça, de gênero, de orientação sexual, e que não foi atento o suficiente tampouco para a cultura popular. Por outro lado, os intelectuais uspianos têm reagido violentamente ao suposto “relativismo” dos Estudos Culturais e à suposta perda da possibilidade de se fazer juízos de valor na crítica literária. A sua posição nesse mapa é fascinante porque você é um intelectual formado nessa tradição uspiana, mas com uma relação com a cultura popular que não tem nenhum outro intelectual uspiano. Eu queria saber se você parou para pensar nessa sua localização, que é bem singular.


É o seguinte, Idelber: Fla-flu é bom em futebol. Na vida intelectual, é um tremendo atraso. No meu caso, eu tive uma formaçao uspiana, a qual se você se referiu, que está ligada principalmente ao rigor da análise de texto. É isso que define, para mim, a formaçao uspiana. Isso para mim se combinou com uma formação não acadêmica, mas simultânea, que é a da musica popular, da tropicália. O meu trabalho artístico e crítico resulta dessa combinação. E aí é necessário atentar para certas coisas.

Veja só, a perspectiva do Antonio Candido tem sido criticada como romântica e nacional. Eu acho que ela é uma versão letrada do processo de formação, no qual opera fortemente a categoria da nacionalidade, tendo o Romantismo como um de seus momentos. Eu vejo o Candido mais como um iluminista que como um romântico. Se há limitações, eu as vejo por aí.

Entendo que os estudos culturais têm criticado os processos de formação e suas metáforas biológicas. Mas veja como o futebol reacende o problema da formação, que é o problema que orienta Antonio Candido no tratamento da literatura: por um lado chega-se a Machado, por outro chega-se a Pelé. O que acontece é que no futebol e na literatura realizam-se, defasadamente, é claro, processos de formação, com linguagens, componentes e alcances diferentes, é óbvio, mas também com surpreendentes afinidades. Por isso, no Brasil é importante abrir espaço para pensar nesse processo que inclui a literatura e a música, que supõe a relação com a Europa, com a África, que mobiliza “idéias fora do lugar” e “lugar fora das idéias”.

Portanto, num estudo como este do futebol eu pretendo aplicar todo o rigor que aprendi na análise de textos da USP. E há dois mitos da critica cultural que eu quero driblar – em primeiro lugar, a idéia de que o Brasil é um falso problema. Pensar a singularidade do Braisl no mundo é uma questão que me interessa profundamente. E que eu acho que isso não interessa nem aos meus colegas da Usp nem ao campo dos estudos culturais.

Segundo, o valor literário é uma coisa que interessa, sim. A literatura é uma questão de densidade textual, que se junta com o seu valor de testemunho. É inerente à literatura a postulação do valor – isso é o que determina a capacidade que tem um texto de resistir ao tempo. É claro que a constituição desse valor está em constante mudança – portanto questionar o processo pelo qual ele acontece é legítimo. Mas isso não muda o fato de que há um valor estético que resiste ao tempo. Esse assunto está tratado por mim no livro de entrevistas de que participei, coordenado pela Santuza Cambraia Naves, chamado A MPB em discussão.

I.A. Qual o balanço da sua visita a New Orleans?

Incrível, comovente, impactante. Há meses em outra região dos Estados Unidos, posso sentir o quanto essa cultura da festa, da rua e da música é diferente de tudo, neste país, a ponto de se mostrar renascendo com força irresistível do dilúvio e do abandono. E sentir que o dilúvio pode dar a oportunidade para a destruição daquilo que ele não conseguiu destruir: a redução dessa riqueza humana à lógica da capitalização e uniformização generalizada.



  Escrito por Idelber às 14:58 | link para este post | Comentários (28)