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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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quarta-feira, 31 de maio 2006
Palpites para a Primeira Fase da Copa
Aqui vão meus palpites para a primeira fase:
Grupo A: Alemanha, Polônia, Costa Rica e Equador. Os donos da casa pegaram uma moleza. Eu já assisti essa equipe do Equador várias vezes nos últimos dois anos. É uma baba. A Costa Rica não assusta ninguém. Crave Alemanha e Polônia sem medo. E olhe que a Polônia anda mal das pernas, perdendo 3 jogos seguidos e sofrendo incrível gol de goleiro na reposição de bola! Mas sinceramente, não vejo nem Equador nem Costa Rica incomodando os europeus nessa chave.
Grupo B: Inglaterra, Suécia, Paraguai e Trinidad e Tobago. O jogo decisivo do grupo, obviamente, é entre Suécia e Paraguai. O que é bom na seleção paraguaia é velho. O que é novo é ruim. A Suécia, no seu último amistoso, não conseguiu fazer um gol sequer nos seus sofríveis vizinhos finlandeses. A Inglaterra passa com certeza. Aposto no Paraguai para a segunda vaga porque, pela sua defesa, eles têm mais chance de arrancar um ponto da Inglaterra do que os suecos.
Grupo C: Argentina, Holanda, Sérvia e Montenegro, Costa do Marfim. Os hermanos, mais uma vez, tiveram um azar incrível no sorteio. Sem dúvida, é o “grupo da morte”. Os marfinenses são hoje a mais forte seleção africana, Sérvia e Montenegro herda o legado do forte futebol iugoslavo e a Holanda é favorita sempre que participa. Qualquer coisa pode acontecer aqui, mas eu só sei que a Argentina passa. Seria um escândalo se fossem eliminados na primeira fase em duas Copas consecutivas. Argentina e Holanda, no sufoco.
Grupo D: Portugal, Irã, Angola, México. Os angolanos são os simpáticos debutantes nessa que é primeira Copa com três países de língua portuguesa. O Irã encerrou a preparação com uma bela vitória sobre a Bósnia – perdiam por 2 x 0 e viraram para 5 x 2. A lógica manda cravar Portugal e México, mas atenção com o Irã, que vai entrar bem motivado, depois de ser vítima da palhaçada anti-esportiva da União Européia.
Grupo E: Itália, Gana, EUA, República Tcheca. Aqui eu cravo a zebra. A seleção italiana está abaladíssima pelos escândalos de manipulação de resultados lá na bota. Certo, nada disso é novo, e a equipe tem tradição de chegar mal, começar mal e crescer durante a competição. Mas acho que desta vez não acontece. Os EUA, razão principal para que a FIFA tenha reservado quatro vagas para a fraquíssima CONCACAF, se classificam junto com a República Tcheca. A Itália fica fora, para desconsolo da mulherada.
Grupo F. Brasil, Croácia, Japão, Austrália. Não acho que o Brasil vá ter grandes dificuldades para se classificar e não acredito que a Austrália arranque mais que um ou dois empates. O jogo decisivo aqui é Croácia x Japão. Tenho toda a simpatia pela seleção do Zico, mas acho que dá Brasil e Croácia – apesar do horroroso uniforme desta última, o mais feio da Copa.
Grupo G. França, Suíça, Coréia do Sul, Togo. Desta vez, a França passa sem grandes percalços, deixando Suíça x Coréia do Sul como o jogo decisivo do grupo. A Suíça está na Copa, mas isso não significa muito. Classificou-se para a repescagem num grupo em que, além da França, primeira colocada, estavam Irlanda, Israel, Chipre e Ilhas Faroe – e mesmo assim quase perdem a vaga para os israelenses. Seu grande mérito foi eliminar, na repescagem, a Turquia, terceira colocada em 2002. Meu palpite é França e Coréia do Sul.
Grupo H. Espanha, Ucrânia, Tunísia, Arábia Saudita. A Tunísia fez bonito no seu último amistoso e goleou Belarus. Mas não acho que dê conta de complicar as coisas para a Espanha e a Ucrânia. A Ucrânia é um dos meus palpites de zebra para as fases finais. Olho neles: possuem um dos melhores atacantes do mundo, Shevchenko e um dos mais tarimbados goleiros da competição, Shovkovskiy. A Espanha tem a antiga fama de morrer na praia, mas neste grupo não há por onde: Espanha e Ucrânia.
O meu palpite, então, é que o Brasil pega os gringos nas oitavas-de-final, reeditando o horrendo jogo de 1994.
PS: Vocês acreditam que o meu vôo para o Brasil sai exatamente na hora do jogo Argentina x Holanda, provavelmente o melhor da primeira fase? Na hora de comprar a passagem olhei os horários de jogos do Brasil, claro, e me esqueci de olhar os outros. Chego aí algumas horas antes de Brasil x Japão. Até o dia 22 assistirei os jogos com os "maravilhosos" comentaristas gringos.
Atualização: Vejam também os palpites do Mestre Fábio Sampaio.
Escrito por Idelber às 23:47 | link para este post
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terça-feira, 30 de maio 2006
Lembrete: Duas Vezes Junho
Eu comecei a reler Duas vezes junho. Já tinha me esquecido de quanto eu gosto desse romance.
Novidades para o Clube de Leitura:
1. Troquei emails com o autor do livro, Martín Kohan. Amabilíssimo, se dispôs a me conceder uma entrevista e acompanhar as discussões aqui no blog. Preferem que eu publique a entrevista antes da discussão ou depois, para não interferir ou influenciar na leitura? Em tempo: há boas entrevistas com Martín Kohan aqui e aqui.
2. Quem me escreveu também foi o Marcelo Barbão, tradutor do livro ao português e editor na pioneira Amauta. Dei-lhe os parabéns pelo desbravador trabalho de tradução de literatura hispano-americana que a editora tem feito, mas de todas formas aqui vai o reconhecimento público. A Amauta está fazendo o que já clamava por ser feito: possibilitar ao público leitor brasileiro um mínimo de contato com a riquíssima literatura dos países vizinhos. Portanto, quem for criticar a tradução do romance de Kohan, faça-o com elegância. O tradutor está olhando :-)
3. O grande Mauro Amaral fez, não um, mas dois selinhos para o Clube. Tem uma versão dark e uma versão colorida. O permalink aos posts relacionados ao Clube já está embutido. Usem a que preferirem:

.
Muitíssimo obrigado, Mauro!
Então, só para confirmar: a data da discussão é 8 de junho, véspera da abertura da Copa. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Quem preferir ler o original em castelhano pode adquiri-lo na Prometeo ou na Cúspide (dicas do Alex Castro), ou na Bigger Books, que entrega aqui nos EUA (dica do Fábio Sampaio).
Antes do dia da discussão, vou fazer um contato com alguns blogs argentinos, para que eles venham aqui participar da brincadeira ou repercutam lá nos seus blogs.
E aí, quem já adquiriu, encomendou ou começou a ler o livro?
PS. Excelente blog uruguaio: Criticar es fácil.
Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post
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domingo, 28 de maio 2006
Famas exageradas: Zagallo, o “vencedor”
Insuportável na Copa do Mundo é ter que agüentar Zagallo. Zagallo imagina o planeta como uma gigantesca bola amarelofóbica. Todos “tremem” ante a amarelinha, todos “têm medo” de enfrentar o Brasil, todos têm pesadelo com a nossa seleção.
Não importa que a Holanda de Cruyff nos dê um vareio de bola, que sejamos derrotados por diferença de três gols pela primeira vez nas Copas ante a França, que a Nigéria vire um 3 x 1 em cima da gente em menos de 15 minutos – todos em jogos contra equipes comandadas por Zagallo. O velho continua no seu delírio egocêntrico e patrioteiro.
Deselegante e grosseiro, amigo das piores pessoas, Zagallo já aproveitou para fazer promessas idiotas, oferecer suposições bobas sobre o medo alheio e – seu passatempo predileto – insultar Telê Santana, a quem odeia. Afinal, a Telê são dedicados o amor e respeito universais de que, apesar de todas as conquistas, Zagallo jamais desfrutou. Sua raiva de Telê é exacerbada pelo fato de que o Fio de Esperança foi o verdadeiro inventor do ponta que fecha pelo meio, invenção que o Lobo adora reclamar para si.
Nas derrotas, Telê Santana assumia integralmente a responsabilidade; nas vitórias, transferia todo o mérito aos atletas. Zagallo é exatamente o oposto: cansa-se de falar das “suas” vitórias e nas derrotas (algumas delas grotescas) acovarda-se atrás de desculpas, insulta jornalistas ou põe a culpa em fatores externos ou nos jogadores.
Depois da derrota do Sarriá, Telê Santana deu uma coletiva em que foi aplaudido de pé pela imprensa do mundo inteiro. Depois da derrota na França em 1998, Zagallo protagonizou uma das cenas mais embaraçosas da história da seleção: insultos e gritos contra jornalistas depois uma final de Copa do Mundo.
Um dos grandes mitos do futebol brasileiro – mito bem exagerado – é o de Zagallo “grande vencedor”. Vejamos se o mito resiste à análise.
Zagallo comandou a seleção brasileira em três Copas do Mundo e uma Olimpíada. Na primeira Copa, em 1970, foi campeão, herdando de João Saldanha a equipe pronta, com os maiores meio-campistas e atacantes que o planeta já viu jogar. Zagallo fez mínimas alterações naquela equipe: Clodoaldo entrou e Rivellino foi deslocado para a ponta-esquerda. Mas alguém tem dúvidas de que teríamos sido campeões da mesma forma com Piazza no meio-campo e Edu na ponta-esquerda?
Para a Copa de 1974, Zagallo contava com uma das maiores gerações de craques da história do futebol: Pelé e Tostão já não estavam, mas o Brasil ainda tinha Ademir da Guia, Dirceu Lopes, Carpeggiani, Leivinha, Paulo César Caju, Rivellino, Jairzinho e inúmeros outros craques, todos no auge. Zagallo conseguiu, com todas essas opções, montar uma seleção grotesca, que passou 180 minutos sem fazer gol (0x0 com Iugoslávia e 0x0 com a Escócia) e só avançou da primeira fase graças a um frango homérico do goleiro do Zaire (que garantiu o 3 x 0 que precisávamos, contra uma seleção que a Iugoslávia havia derrotado por 9 x 0). Depois, na segunda fase, Zagallo fez questão de dizer que a Holanda “não era nada”, num momento em que já havia dois anos que a Laranja Mecânica e o Ajax encantavam o mundo. O resultado foi o que se viu: Brasil eliminado levando um show de bola e apelando no final.
Nas Olimpíadas de 1996 em Atlanta, o Brasil se preparou como nunca para tentar conseguir o único título futebolístico que ainda não tem: o ouro olímpico. O regulamento permitia a presença de três atletas com mais de 23 anos, o que nos possibilitou levar uma equipe com Roberto Carlos, Rivaldo, Ronaldo, Dida, Bebeto e Aldair. A empáfia de Zagallo, que insistiu que a Nigéria “tremeria com a amarelinha”, influiu diretamente no time que, displicente e irresponsavelmente, começou a dar toques de calcanhar no momento em que vencia o jogo por 3 x 1, aos 32 do segundo tempo. Resultado final: Nigéria 4 x 3 Brasil, na morte súbita.
Na Copa de 1998, outra talentosa geração foi parar nas mãos de Zagallo e – há que se reconhecer – os seus dotes de motivador foram fundamentais na vitória nos pênaltis sobre a Holanda, nas semifinais. Na final, o comandante escala um jogador que acabava de ter uma convulsão, numa das grandes irresponsabilidades já cometidas no comando do time. A equipe entra visivelmente preocupada com Ronaldo e leva um vareio de bola da França, sofrendo pela primeira vez uma goleada em Copas do Mundo.
Aliás, só em três edições da Copa do Mundo o Brasil perdeu mais de um jogo. Em duas dessas três edições o técnico era Zagallo.
Sim, ele foi campeão carioca com o Flamengo em 2001, com um gol de Petkovic no último minuto. Não se lhe pode negar uma coisa: uma sorte incrível, que já vem de anos. Vale lembrar que o ponta-esquerda titular da seleção às vésperas da Copa de 1958 era Pepe, que se contundiu um pouco antes da competição. Zagallo inclusive não deveria ter ido: os grande pontas do Brasil naquele momento eram Pepe e Canhoteiro.
Depois da Copa de 1998, Zagallo foi contratado para dirigir a Portuguesa de Desportos. Com um grupo talentoso em mãos, ele levou a equipe às últimas posições do Campeonato Brasileiro, iniciando a queda da Lusa rumo à Segundona.
Mas segundo Zagallo, ele é o “único pentacampeão do mundo”, já que em 1994 foi coordenador técnico e em 2002 era comentarista da Globo.
Escrito por Idelber às 21:35 | link para este post
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sexta-feira, 26 de maio 2006
Os pecados da gula
Os números do Datafolha mostram que Garotinho perdeu 1,3 ponto por cada quilo perdido na greve de fome. 6,2 quilos a menos na balança, 8 pontos a menos nas pesquisas.
Com mais duas dobras do pneuzinho que tivessem ido embora, a brincadeira teria ficado bonita :-)
Escrito por Idelber às 17:39 | link para este post
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Decidido: Calendário do Clube de Leituras
Ok, depois de ouvir todo mundo e ponderar os prazos para o nosso Clube de Leituras, proponho o seguinte:
Discutiremos, sim, Grande Sertão: Veredas, mas em meados de julho, depois da Copa. Comecem a ler desde já, porque a jornada é longa.
Para esquentar os tamborins deixamos marcada para 8 de junho, quinta-feira (daqui a 14 dias) uma discussão sobre Duas vezes junho, de Martín Kohan. O livro está disponível na Cultura e na Saraiva. Este romance é uma publicação da Editora Amauta e custa só 25 reais.
Eu acho que vocês vão gostar. E é apropriadíssimo que o discutamos na véspera da abertura da Copa, já que a história tem lugar durante as Copas de 1978 e 1982. Quem não gosta de futebol, não se preocupe: não é um romance sobre futebol, necessariamente.
Até o dia 08 de junho eu acho que posso conseguir uma entrevista com o autor e quem sabe até convencê-lo a aparecer por aqui.
Agora só precisamos de um selinho para o Clube. Eu já contactei o Mauro, mas ainda não tive resposta. Se alguém se animar e fizer o selinho primeiro, a gente usa.
Então, dia 8 de junho, aqui no Biscoito, Duas vezes junho, disponível na Cultura e na Saraiva.
Conto com todo mundo para encomendar o livro, começar a ler e ajudar a divulgar? Tudo bem assim?
Escrito por Idelber às 16:43 | link para este post
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quinta-feira, 25 de maio 2006
Sobre o clube
Vários amigos passaram por aqui e toparam a idéia do clube de leituras.
O livro mais votado foi Grande Sertão: Veredas. Para mim não seria problema, é um romance que eu já li umas quatro vezes.
Mas estou em dúvidas sobre se conseguiríamos mesmo encarar esse livro em véspera de Copa do Mundo. A minha idéia inicial era decidir e aí dar duas semanas para que todos lessem o livro.
Mas com GSV, claro, seria necessário mais tempo, o que nos coloca já dentro da Copa.
Outras sugestões que rolaram: A cidade ausente, de Ricardo Piglia; Zama, de Antonio di Benedetto; Wasabi, de Alan Pauls; Duas vezes junho, de Martín Kohan; Um artista aprendiz, de Autran Dourado; Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.
Tirando este último, todos os outros são livros relativamente curtos.
Ponderem o que eu disse aí sobre os prazos, a dificuldade do texto, e tudo mais, e aí me digam: com qual ficamos?
Escrito por Idelber às 23:57 | link para este post
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quarta-feira, 24 de maio 2006
Enquete sobre um possível clube de leituras
Um dos planos meus é falar mais de literatura aqui no blog, então eu queria deixar uma perguntinha. Suponhamos que decidíssemos montar um grupo de leitura no Biscoito, nos moldes do clube que o Alex Castro montou uma vez, e que foi muito bem-sucedido na primeira discussão (Crime e Castigo).
Qual obra literária, brasileira ou estrangeira, antiga ou contemporânea, você gostaria de ler e discutir comigo e com os outros leitores?
Não vale nada de mais de 400 páginas, porque já se viu que se o livro for longo demais não funciona. Pode ser algo que você já leu e gostaria de discutir, ou algo que não leu e tem vontade de ler.
É isso. Quem sabe a gente não começa a ler umas coisas juntos. Digam lá.
PS: Parabéns, parabéns, parabéns às Duas Fridas pelo segundo aniversário do blog! A festa é neste 27 de maio, sábado, aí na Cidade Maravilhosa. Se quiser ir, escreva para a Monix ou a Helê.
Escrito por Idelber às 22:56 | link para este post
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Literatura : Contra os Chatos e Passadistas de Plantão
Alguns comentários a esse post do Pedro Dória sobre o Sexo Anal, o romance do Biajoni, me fizeram voltar a sentir pena de um tipo de leitor: o que diz que não pode / não tem tempo de / disposição para ler . . . (preencha aqui com o nome de qualquer autor contemporâneo, iniciante ou veterano) porque afinal de contas deve usar seu tempo para ler . . . (preencha aqui com o nome do seu monstro sagrado favorito).
Sendo a leitura por definição o encontro com o outro, com o não conhecido, em geral quem diz isso ainda não aprendeu a ler, no sentido mais básico da palavra. Ou seja, esse tipo de leitor lê somente para validar um cânone sacralizado que ele, de antemão, sabe que tem que reverenciar. Na atividade que é por definição encontro com o outro, ele vai lá e insiste em procurar o mesmo. É o leitor que vai morrer resmungando e infeliz.
Esse tipo de leitor é primo primeiro de um certo "jornalismo" que proclama que já não há romances bons, que não há escritores como antigamente, ou que na língua portuguesa não há boa literatura como em outras. Esses profetas do apocalipse em geral leram pouco, manejam poucas línguas ou são monolíngües e, ao invés de compensar as limitações de formação com mais leituras, fazem-no com julgamentos peremptórios que lhes dão a falsa sensação de conforto: controlar um pouco a angústia ante o não lido.
São os que na época de Shakespeare diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Homero, e na época de Balzac diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Shakespeare e na época de Faulkner diziam que boa literatura se escrevia no tempo de Balzac. São os mesmos que hoje dizem que já não há escritores como Faulkner, em geral tendo lido uma parcela ínfima da produção contemporânea.
Homero: contemporâneo da idéia de que a boa literatura se escrevia mesmo era antigamente.
Há 30 anos eles diziam que Luiz Vilela e Ivan Ângelo, escritores de certo sucesso nos anos 70, não poderiam jamais serem comparados com Graciliano Ramos. E talvez não se comparem mesmo. O problema é que enquanto esses apressados comentaristas perdiam tempo proclamando isso, esqueciam-se de ler Catatau, de Paulo Leminski, ou Armadilha para Lamartine, de Carlos Süssekind, os dois mais inovadores e complexos romances brasileiros da segunda metade dos 70. E continuam pecando por miopia até hoje, preocupados que estão em demonstrar que tudo é decadência.
No terreno da literatura, juízos de valor sobre períodos inteiros da história são bem difíceis de se fazer. Desconfie dos que o fazem com muita facilidade. Talvez hoje seja relativamente seguro dizer que a década de 1930 foi mais fértil para o romance brasileiro que a década de 1910, por exemplo. Mas nem isso é tão certo assim, porque quem saberá do vasto terreno dos livros jamais reeditados, dos textos esquecidos que podem de repente aflorar?
No caso do presente, nem se fala. Dizer que “hoje não há escritores da qualidade de um Graciliano”, como se lê às vezes em certo comentarismo literário de nível superficial, é uma bobagem sem tamanho. “Graciliano”, como assinatura e nome de uma obra, é o que é depois de décadas de presença no cânone, circulação, recepção, sacralização. Por definição não pode haver um autor contemporâneo “como” Graciliano.
Isso não significa que hoje não se escreva literatura da mesma qualidade que nos anos 30: simplesmente quer dizer que o que se considerará “boa literatura” neste momento ainda é terreno a ser delimitado. Se a partir de Mário e Oswald de Andrade o romance modernista privilegiou um tipo de texto paródico e lúdico, e depois com Graciliano e José Lins do Rego se voltou para uma veia regional e realista, e depois com Clarice e Lúcio Cardoso transformou-se em investigação psicológica e introspecção, e depois com José J. Veiga e Antonio Callado converteu-se em alegoria nacional, o fato é que hoje ainda está em pugna qual será a vertente dominante do romance.
E o pior tipo de leitor é o que se recusa a influir nos rumos dessa pugna em nome de uma segurança bobinha, de que antes as coisas eram melhores e que agora já não há mais nada.
Por isso, leia Homero e leia Sexo Anal. Leia Um defeito de cor nos intervalos do seu Shakespeare. Intercale Stevenson com Mãos de cavalo. Ou vice-versa. Não faz mal nenhum.
A literatura agradece.
PS bem a propósito: a primeira ocorrência registrada da frase "já não se faz samba como antigamente" é do livro Na roda de samba, do jornalista e cronista Vagalume. Data de publicação do livro? 1933.
Escrito por Idelber às 03:32 | link para este post
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segunda-feira, 22 de maio 2006
Pela descriminalização do consumo de drogas
Eu preparava um post sobre toda a discussão gerada a partir dos ataques do PCC em São Paulo na semana passada e os assassinatos de pelo menos 107 “suspeitos” pela polícia logo depois. E eis que encontro um texto que traduz, melhor que eu poderia, o que penso.
Não deixem de ler A Matança dos Suspeitos, da psicanalista Maria Rita Kehl.
O que eu tenho para acrescentar a toda a discussão sobre a necessidade de equipar melhor a polícia, de bloquear celulares na prisão, de investir em educação de forma a dar um pouco de perspectiva ao jovem da periferia, etc. etc. é algo que não vi comentado em lugar nenhum: é fundamental a descriminalização completa de todo o consumo de drogas, especialmente das drogas leves como a maconha.
O tráfico de drogas é a galinha dos ovos de ouro da bandidagem organizada, e ela se sustenta no monopólio que detêm os traficantes. Esse monopólio só pode ser quebrado com a descriminalização completa do uso. O monopólio tem uma relação direta com o poder assombroso do crime organizado e também com a propina para o policial - fruto da possibilidade que tem este de intimidar e chantagear o usuário real ou o "suspeito" de ser usuário.
Não, essa legislação que temos ainda não é suficiente, pois ainda prevê pena de até 2 anos para os atos de "Adquirir, guardar, ou trazer consigo, para uso próprio, substância entorpecente" (artigo 16 da lei 6.368). Mais que a legislação, é necessário mudar a política pública de drogas. Não conheço ninguém da minha geração e classe social que nunca tenha tido experiência com drogas, mas paira na sociedade brasileira uma resistência hipócrita a discutir o assunto. Com freqüência temos que ouvir diatribes moralistas de "especialistas" como padres, que não sabem nada sobre o assunto: ouve-se, por exemplo, que "da maconha o viciado passa para as drogas mais pesadas", o que é o equivalente de se dizer que quem gosta de suco de abacaxi amanhã vai se apaixonar por suco de groselha. Os usuários não passam de uma droga a outra por um misterioso motivo químico ou bioquímico. Os usuários passam de uma droga a outra porque ambas vêm do mesmo traficante, que está em condições de dizer: hoje não tem do preto, leva do branco. Afinal de contas, o "branco" dá mais lucro, vicia mais, cria laços mais fortes com o tráfico que o "preto". Para quem não tem grana para o "branco", dá-lhe crack, essa droga horrorosa que é quase um caminho sem volta.
Será algum dia possível fazer a contagem de todos os jovens (quase todos pobres, quase todos pretos) engolidos pela criminalidade organizada ao serem lançados no sistema carcerário por posse de drogas para uso próprio?
Não há dúvida sobre o dano que fazem as drogas ao organismo - algumas mais, outras menos: ter para a maconha a mesma política que se tem para a heroína e o crack é burrice e seria o equivalente do Ministério da Saúde ter a mesma política para a Aspirina e o Gardenal - mas a "guerra às drogas" copiada dos EUA continuará sendo aí no Brasil, como aqui nos EUA, um desastre completo.
Que fique claro o que estou dizendo: não incentivo ninguém a usar droga nenhuma, e a única que eu uso, o cigarro, eu tenho muita esperança de derrotar este ano. Mas tratar o consumo de uma substância como a maconha como caso de polícia só reforça o poder da bandidagem. Obviamente o problema é complexo e são necessárias outras medidas. Mas sem a descriminalização do consumo, nada vai a lugar nenhum. Eu me considero razoalvelmente capaz de entreter outros pontos de vista e de olhar as coisas por ângulos diferentes do meu, mas neste caso, sinceramente, eu não consigo entender como há gente que não enxerga isso.
PS: Não deixem de ler o blog do Ferréz. Pura integridade, lá de dentro do olho do furacão.
Escrito por Idelber às 01:45 | link para este post
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quarta-feira, 17 de maio 2006
Gilberto Gil, doutor honoris causa por Tulane University
Depois de Wisnik, foi a vez de New Orleans receber a visita de Gilberto Gil, na sexta e sábado passados. Eu perdi a festa, mas fotos e relatos não faltaram por aqui. Tulane passou a ser a primeira universidade não brasileira e a segunda do mundo a conceder um doutorado honoris causa ao ministro da Cultura, Gilberto Gil (a primeira, muito apropriadamente, foi a UFBA). A visita de Gil à cidade neste contexto pós-furacão foi bem significativa. Foi para lá de importante, simbolicamente, que Tulane tenha escolhido um dos principais artistas, intelectuais e políticos negros do mundo para receber o doutorado honoris causa em New Orleans, num momento em que boa parte da população negra histórica da cidade está sendo literalmente expulsa da cidade.
Segundo todas as testemunhas, Gil foi o Gil de sempre: sábio, tranqüilo e capaz de encantar uma série de públicos diferentes. Na sexta Gil visitou as partes mais destruídas de New Orleans, palestrou e até deu canja no violão: 
Os doutorados honoris causa são aprovados pelo Senado da Universidade e neste caso não foi diferente. Mas todo o mérito da homenagem a Gil foi de Christopher Dunn, amigo meu e especialista em música brasileira (e autor de um belo livro sobre a Tropicália), que há meses vem trabalhando com o complicadíssimo calendário de Gil para que a festa pudesse acontecer. Chris aparece aí todo orgulhoso, comandando a cerimônia e entregando a Gil um livro sobre as tradições de New Orleans: 
A fofoca da festa é que estavam presentes Bill Clinton e George Bush pai como oradores da formatura. Ao final da cerimônia de graduação, o protocolo era que os dois ex-presidentes saíssem do auditório em primeiro lugar. Ao sair, Clinton quebrou a etiqueta, atravessou o salão e, na frente de todos, deu "aquele abraço" em Gil, com quem ele havia tomado o café da manhã do sábado. Acho que para quem nunca saiu do Brasil deve ser difícil dimensionar a importância dessas viagens de Gil como "embaixador da cultura brasileira". Em dois dias por aqui, ele deve ter conversado com centenas de pessoas: os frutos que se colhem depois desse trabalho de relações públicas são consideráveis, podem acreditar.
Chris me conta que Gil saiu daqui com pilhas de CDs e livros, presenteados por professores de Tulane e membros da comunidade. Adivinhem se o imbecílico blogueiro aqui lembrou de deixar exemplares de seus livros para o ministro? Claro que não. Mas fica aqui a homenagem a ele e os parabéns pelo doutorado honoris causa, com a saudação a Christopher Dunn, que organizou uma festa de quem tanta gente usufruiu. Todas as notícias que chegam aí do Brasil são de que Gil amou a visita, se divertiu à beça e incluirá New Orleans de qualquer jeito na próxima turnê. Foi um gol de placa da nossa universidade, modéstia às favas.
Gil visita a casa da lenda new-orleaniana, Fats Domino.
Gil comendo um po-boy, o tradicional sanduba de New Orleans.
Escrito por Idelber às 01:55 | link para este post
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segunda-feira, 15 de maio 2006
A lista de Parreira

Saiu a lista de Parreira, sem grandes surpresas. Não surpreende tampouco que Zagallo, o rei das grosserias, tenha aproveitado para insultar a memória de Telê. Sobre isso escrevemos outra hora.
Grande notícia: Roque Júnior está fora da Copa!
Comentários sobre a lista:
Goleiros: Dida, Rogério Ceni e Júlio César. É uma pena que Marcos esteja de fora, mas é a decisão correta. Ele está há tempos sem jogar. O Juca Kfouri teria convocado Gomes no lugar de Júlio César. Também não sou grande fã de Júlio César, mas com Dida e Rogério me sinto tranqüilo.
Laterais: Cafu, Cicinho, Roberto Carlos e Gilberto. Os três primeiros estavam confirmadíssimos e a última vaga estava entre Gilberto, Serginho, Júnior e Gustavo Nery. Apesar de todo o lobby do Galvão Bueno e da Rede Globo, Gustavo Nery está fora, com toda razão: não tem bola para vestir a amarelinha, nunca teve. Eu não levaria Gilberto. Levaria Zé Roberto como lateral titular, com Roberto Carlos na reserva e um lugar no meio-campo para Juninho Pernambucano.
Zagueiros: Lúcio, Juan, Luisão e Cris. Dos males o menor, Roque Jr. ficou fora. Eu levaria Cláudio Caçapa (mesmo em recuperação) ou Alex no lugar de Cris. Agora é torcer para que Lúcio não se machuque.
Meio-campo: Émerson, Zé Roberto, Kaká e Ronaldinho Gaúcho, titulares. Gilberto Silva, Edmílson, Juninho Pernambucano e Ricardinho, reservas. Perfeito, mas eu jogaria com Juninho no time titular e Zé Roberto na lateral esquerda. Muita gente não gosta de Émerson, e eu também não, mas no esquema do Parreira não vejo como prescindir dele.
Ataque: Ronaldo, Adriano, Robinho e Fred. Perfeito.
Provavelmente foi das convocações mais consensuais da história da Seleção. Alguma discussão aqui ou ali, mas não há grandes polêmicas. A lista é muito boa.
Sobre as outras seleções, os meus palpites são:
Campeões do mundo que desta vez não têm fôlego para ir longe: Alemanha e Itália (não, não acredito nem no favoritismo "caseiro" da primeira nem no "bom momento" da segunda).
Campeões do mundo que têm time para ir até o fim: Inglaterra e Argentina.
Times que sempre morrem na praia mas que desta vez podem levar: Holanda e Espanha.
Muito cuidado com: México e Ucrânia.
Em breve, um blog sobre a Copa, com um título esquisitíssimo em alemão, e participações de feras como Milton Ribeiro e Ubiratan Leal, além de palpiteiros como eu.
Escrito por Idelber às 13:48 | link para este post
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sábado, 13 de maio 2006
Fotos do lançamento de Um defeito de cor

burburinho na Quixote no lançamento de Um defeito de cor.

Antônio Sérgio Bueno, querido amigo e um grandes críticos literários do país, passou por lá.

Blogueiros: Juliana, das Mothern, Ana, Fefê e namorado, Leandro Oliveira. Sentado, o companheiro da Ju. O Cláudio Costa e esposa ainda não haviam chegado.

Eu e Laura, das Mothern.

Autora e pai coruja.
Foi uma festa linda. Que esse livro encontre todos os leitores que merece.
Escrito por Idelber às 14:22 | link para este post
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sexta-feira, 12 de maio 2006
É hoje!

PS: Gracias muy mucho a quem ajudou a divulgar: o Carlos Herculano Lopes do Estado de Minas, o Alécio Cunha do Hoje em dia, o Inagaki, a Meguita, Biajoni, Tiago Dória, Alê Félix, Sérgio Rodrigues (que fez nota e entrevista com Ana), o Prás Cabeças, o Odisséia Literária, o Alfarrábio, as Motherns, o Amigos blogueiros, o Contando Causos, o Nanbiquara.
Escrito por Idelber às 12:09 | link para este post
quinta-feira, 11 de maio 2006
... a primeira como tragédia, a segunda como farsa...
Houve uma época em que as greves de fome tinham dignidade. Ela foi ferramenta de luta de gente muito respeitável: Mahatma Gandhi, Nelson Mandela. Nas suas memórias, Mandela conta que nas assembléias do African National Congress, o partido anti-apartheid, ele em geral votava contra a greve de fome como estratégia. Mas uma vez decidida pela maioria, ele se transformava no mais ferrenho executor e defensor da iniciativa. Conquistaram vitórias importantes com ela nos porões do apartheid, e pelo menos numa conseguiram provocar uma inédita greve de fome dos carcereiros.
Ancorado numa visão de mundo que acredita no jejum periódico como purificação, Gandhi fez algumas greves de fome, as políticas nem sempre vitoriosas.
Em 1981, 10 irlandeses deram a vida numa greve de fome numa prisão inglesa, lutando pela manutenção de seus estatutos como presos políticos. Em Guantánamo, continua a haver greves de fome dos presos, em protesto contra maus tratos e o estado de limbo jurídico em que vivem.
Mas o Brasil – talento infinito para avacalhar até a mais desesperada das formas de luta – inventa um outro espécimen: o político no poder que faz greve de fome!
Um sujeito cuja digníssima esposa governa o segundo ou terceiro estado mais importante da federação, que é pré-candidato a Presidente da República, sobre o qual pesam citações na justiça por práticas irregulares e que, apesar de poder chamar uma coletiva de imprensa a qualquer hora para se explicar sobre uma série de denúncias, entra em greve de fome por estar sendo “perseguido”?
É desmoralização definitiva da greve de fome como arma política no Brasil, claro, qualquer que seja o fim desse patético teatro de Garotinho. O próximo bispo que quiser protestar contra as obras no Rio São Francisco, que escolha outra forma de luta: a greve de fome está queimada.
A menos que - e seria um momento de glória para a política brasileira – Garotinho resistisse bravamente mais 84 dias e, ao final desses 95 de jejum, entrasse para o Guinness Book of Records batendo o recorde mundial da mais longa greve de fome! Seria o ápice: Brasil hexacampeão e Garotinho entrando para o Guinness.
Eis aí uma bandeira que pode unir petistas, tucanos, defensores do voto nulo, anarquistas, conservadores: todo apoio à greve de fome de Garotinho até o final.

Seria uma morte gloriosa, e aos pobres 7 ou 8 por cento da população que estão dispostos a votar nesse sujeito para Presidente, lhes permitiríamos fundar a Igreja do Sto. Garotinho e viver em paz, num Brasil onde a maioria continue escolhendo quem manda no Estado.
Mas é claro que isso é só um sonho e o mais provável é que a palhaçada acabe antes da convenção do PMDB no sábado.
PS 1: Leitura indispensável sobre a rede e a blogosfera: Linkania, dissertação de Hernani Dimantas, defendida na PUC-SP em 2006 (link via Nemo Nox).
PS 2: Leitura indispensável sobre o imbróglio Bolívia-Petrobrás: Sergio Leo.
Escrito por Idelber às 01:47 | link para este post
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domingo, 07 de maio 2006
Lançamento Nacional: Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves
A Editora Record e a Livraria Quixote convidam para o lançamento de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves:

Ele acontece nesta sexta-feira, em Belo Horizonte, na livraria Quixote - Fernandes Tourinho, 274 - a partir das 19:30.
Para dizer quão extraordinário, inventivo, indispensável é Um defeito de cor, eu sou suspeito, mas digamos: é a primeira grande saga histórica em voz feminina no romance brasileiro, e é muito mais que isso. São umas 1.000 páginas, uns 400 e tantos personagens, 80 anos de história do Brasil-África-Atlântico-negro e uma voz alinhavando tudo: Kehinde, possivelmente Luiza Mahin, talvez a mãe do poeta negro Luiz Gama.
Kehinde nasceu no reino do Daomé, em 1810 e a cena antiga, primordial da qual se lembra é traumática. Abre o livro. Revelar, numa resenha, o que acontece nas primeiras 10 páginas deste livro seria um pecado comparável a revelar o final do melhor thriller. Ela foi violada, foi escrava, foi mãe; foi também preta liberta, pequena capitalista, refugiada, mulher de inglês, dona de padaria, revoltosa com os muçurumins da Bahia de 1835, libertadora de outros pretos, brasileira de volta na África. Ela é o Riobaldo-Diadorim dos subterrâneos da história brasileira do século XIX. Ana contou essa história.
Já menina, Kehinde falava eve, fon e iorubá. Como La Malinche, ela é poliglota e tradutora já na chegada do colonizador. É vendida como escrava ao Brasil, passa por várias cidades – Ilha de Itaparica, Salvador, Maranhão, Recôncavo (Cachoeira), Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, Campinas, Salvador, e depois de volta à África, em Uidá e Lagos. Não é uma personagem que caiba em qualquer dicotomia. Assim como Kahinde pode ser Luiza Mahin, o você que escuta a história, filho de Kehinde, pode ou não estar lá, ela pode ou não voltar a revê-lo, ele pode ou não estar vivo: ele é o Omotunde, que nasce na página 400 e tantos – filho que tem Kahinde com Alberto, homem português.
Ele? Não um homem especial; apenas um dos muitos que ela teve, portugueses, pretos ou ingleses, assim como o você fantasmático que escuta a história não é o único filho, é um entre muitos. Outro filho importante é o Banjokô, filho que morre, fio condutor de todo um outro conto. Um defeito de cor é a história dessas muitas, várias maternidades, no seu entrelaçamento com a vasta história dos pretos no Brasil.
Era bem possível que você não se lembrasse de m
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