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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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sexta-feira, 30 de junho 2006

Ah, Argentina, que castigo

argentina.gif
Ah, a infinita crueldade do futebol. Não é esse afinal o segredo do seu encanto?

O plano de jogo da Argentina foi perfeito. Ou quase. Mas nesse “quase” os hermanos dançaram. Até os 20 do segundo tempo, Pekerman havia feito tudo certo. Errou numa substituição. E a Alemanha ganhou mais germanicamente que nunca.

Eu, argentinófilo assumido, fiquei triste, sim: a Argentina não merecia o castigo. Pekerman montou o time perfeitamente: é um 3-5-2 que se recita como um 4-4-2. Ou seja, o lateral-direito é na verdade o terceiro da linha de zagueiros. Pela esquerda, Sorín jogava livre para atacar, às vezes fechando como ala, às vezes apoiando como um verdadeiro ponta-esquerda. Na frente, Pekerman foi ousado ao tirar Saviola, mais cerebral e menos guerreiro, e iniciar o jogo com Tévez, que infernizava a saída de bola alemã. No meio-campo, entrou Lucho González, que dá combate e cria, e ficou no banco Cambiasso, que não tem o mesmo talento criador. O esquema foi ousado: a marcação era feita no campo alemão. A Argentina tinha a bola durante 63% do tempo, e não era aquela vantagem ilusória, de quem tem mais posse de bola mas se mantém no próprio campo. A Argentina controlou o tempo do jogo no primeiro tempo e, se não criou grandes chances de gol, pelo menos impediu que a Alemanha montasse suas blitzes; de quebra, colocou-se na posição de ganhar todos os rebotes no meio-campo. No primeiro tempo a Alemanha não viu a bola e no lado esquerdo do ataque argentino os pobres Mertesacker e Friedrich comiam o pão que o diabo amassou com Tévez e Sorín.

A Argentina foi recompensada no comecinho do segundo tempo com o gol de Ayala. E ainda por uns bons 10 ou 15 minutos parecia que a Alemanha não teria poder de reação. Seu meio-campo não acertava passes, Ballack estava completamente apagado. Era a hora de matar o jogo, enfiar o punhal goela abaixo do bicho. Faltou a Pekerman instinto matador. Sacou Riquelme (que realmente não vinha bem) e colocou Cambiasso, volante. Mexeu mal, num momento em que mandava no jogo. E logo depois, no momento de sacar Crespo (que, lento e preso entre os zagueiros, já não era efetivo), Pekerman mexeu pior ainda: não teve confiança no jovem craque Messi, que teria certamente infernizado a defesa alemã nos contra-ataques. Pôs o limitado Cruz, que não só tem feições de boliviano: tem futebol de boliviano também.

A Alemanha cresceu mas, mesmo depois de empatado o jogo e iniciada a prorrogação, era a Argentina quem tinha mais gás, era ela quem tinha poder de definição. Os alemães sabiam que tinham vantagem nos pênaltis, que só chama de “loteria” quem não entende nada de futebol. Findo o segundo tempo da prorrogação era nítida a expressão de confiança entre os alemães: chegamos onde queríamos. Lehmann fez o resto, também ajudado por um erro anterior de Pekerman, que deixou em Buenos Aires o grande Germán Lux e levou o jovem Franco para a reserva de Abbondanzieri. O Pato se machucou durante o jogo e entrou Franco. Franco não teve culpa no gol que levou, mas tampouco chegou sequer perto de pegar algum pênalti.

A Argentina foi ousada na preparação e nos primeiros 70 minutos de jogo. Pagou caríssimo pela falta de instinto matador no que restava do jogo. Contra a Alemanha, é pecado mortal.

PS: Blogs argentinos que linkam o Biscoito: Linkillo, Monolingua, Conejillo de Indias, Salón Mati, Mejor en fiestado e vários outros.



  Escrito por Idelber às 16:44 | link para este post | Comentários (21)



quinta-feira, 29 de junho 2006

Palpites para as quartas

Enquanto você se cura da Síndrome de Insuficiência Futebolística causada por essa pausa de 48 horas na Copa, deixe aí o seu palpite para as quartas. Aqui vão os meus, acompanhados da devida falta de credibilidade de quem acertou só 60% na primeira fase.

Itália x Ucrânia
italia.gif

Desde que o futebol foi inventado, no ano 513 a.C., os italianos passam das oitavas-de-final derrotando uma seleção menor com um pênalti aos 45 do segundo ou um gol de bola espirrada na prorrogação. Podem conferir. Remonta a Rômulo e Remo. Desta vez não foi diferente com a Austrália. A Ucrânia chega às quartas mas para mim é, junto com os tchecos, a grande decepção da Copa: levaram um sapeca-iaiá da Espanha, se classificaram roubado contra a Tunísia e protagonizaram com a Suíça o 0 x 0 mais grotesco da história das Copas, coroado por uma disputa de pênaltis onde os suíços não acertaram o gol uma só vez (deve ter sido a única seleção eliminada duma Copa sem levar um gol sequer). Foi digno de vídeo cassetada, aquilo. Passa a Itália, por 1 x 0 porque afinal é a Itália.

Alemanha x Argentina
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Essa é a verdadeira briga de cachorro grande. É o jogo da Copa. Daqui sai um finalista. Meu filho vai matar aula para assistir, com bênçãos da família inteira: há coisas mais importantes que a escola. Você pode dizer que o Brasil é favorito contra a França, com certeza deve dizer que a Itália é favorita contra a Ucrânia, e até que a Inglaterra é favorita contra Portugal. Mas aqui quem acha que a Alemanha é favorita por jogar em casa não se lembra de quão entalado está na garganta dos argentinos aquele pênalti inventado na final da Copa de 1990. A Alemanha está para a garganta argentina assim como a Argentina está para a garganta inglesa. O time alemão surpreende positivamente nesta Copa, mas a Argentina tradicionalmente encaixa bem o jogo contra eles. E vai jogar pela honra. Passa a Argentina.

Jogo inesquecível no passado: Argentina 3 x 2 Alemanha, na final da Copa de 1986. Maradona dá o seu baile, a Argentina abre 2 x 0 e tem pinta de que vai golear. O já veterano Rummenigge entra no time alemão, incendeia os caras e em 10 minutos a Alemanha empata o jogo, bem no seu estilo. Tudo cheirava a prorrogação, quando Maradona escapuliu um segundo; dois segundos depois Burruchaga estava na cara do gol, com a bola lhe dizendo: faça, meu filho. Foi a única vez que um ser humano ganhou uma Copa sozinho.


Brasil x França

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Émerson parece continuar sua sina de melhorar a seleção brasileira contundindo-se. Tudo indica que entra Gilberto Silva, o que dará pelo menos um passe melhor ao meio-campo-de-pior-passe da história da seleção, desde que Friedenreich fez nas Laranjeiras o gol que originou o choro de Pixinguinha. Dizem por aí que Parreira tem dado muita atenção a Robinho, o que pode indicar que Adriano sai do time: não é quem eu tiraria, mas já melhora. A França queria mesmo era derrotar a Espanha do técnico racista Aragonés, a Espanha que vinha soberba enquanto os bleus comiam poeira e humilhação. Para a França que correu o risco de dar um vexame à la 2002 e fazer mestre Zizou despedir-se melancolicamente, as quartas estão de bom tamanho. Vão jogar duro, claro, mas nem o Parreira consegue impedir que passe o Brasil.

Jogo inesquecível do passado: Pensaram na final de 1998 ou nos pênaltis de 1986, imberbes desmemoriados, pois não é não. O jogo inesquecível é Brasil 3 x 1 França, no dia 15-05-1981, quando mestre Telê Santana e a troupe do Clube Atlético Mineiro Brasil Futebol Clube fizeram o Parc des Princes se levantar para aplaudir o show de Luizinho, Cerezzo, Reinaldo, Éder e dois coadjuvantes razoáveis chamados Zico e Sócrates. Foram 3 mas poderiam ter sido 7. No final da partida os jogadores franceses quase que batiam palmas. Nesse jogo o estádio parou para ovacionar Reinaldo, que deu a mais longa, acrobática e inusitada seqüência de dribles jamais realizados no espaço correspondente a um guardanapo. Meninos, eu vi. Ali nasceu a máquina da qual Parreira e Zagallo morrem de inveja e despeito até hoje.

Portugal x Inglaterra
portugal.gif

Sabem que eu acho que passa Portugal, para delírio da Ticcia? A Inglaterra tem mais talentos, claro, ainda mais contra um Portugal que joga sem Deco. Mas o time da Inglaterra ainda não mostrou nadica de nada nesta Copa: Lampard, Gerrard, Beckham, Owen e Rooney não apresentaram o que se esperava deles. O único que tem estado bem em todos os jogos é J. Cole. No time inglês, o que me incomoda não é nem a tática, é uma certa atitude blasê. Perfeita para um time candidato a ser eliminado pelo Felipão. Vejam só, eu me inteirei via Feminista de Frankfurt que em Portugal as declarações do Parreira contra a qualidade do espetáculo Portugal x Holanda repercutiram super mal (cá entre nós, como se o Brasil estivesse dando grande espetáculo) e, para piorar, circulou um vídeo do Milton Neves dizendo que Portugal é timinho, o que gerou muita revolta entre leitores portugueses. Daí, claro, foi um passo para que saísse uma pilha de comentários xenófobos anti-Brasil. Mas alguém tem que avisá-los que no Brasil quem acompanha esporte não leva Mílton Neves muito a sério, e que Portugal é o segundo time de quase todo mundo. Ou alguém torcerá contra Felipão? Passa Portugal, na raça.

Jogo inesquecível do passado: Inglaterra 2 x 1 Portugal, em 26-7-1966, semifinais da Copa. Eusébio marcou mas, diz a lenda, Bobby Charlton jogou a partida mais irretocável já feita com a camisa do English Team. Eu não vi, mas é o que dizem.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (27)



quarta-feira, 28 de junho 2006

Agora é a tal da corrente

ronaldo.jpg


Pois então. Está combinada a história, né? Até o final da Copa, nós fingimos que aceitamos que esse é o melhor time do Brasil, o Parreira finge que acredita que é isso mesmo, os adversários fingem que têm medo, e vamos que vamos porque já estamos nas quartas. E esse time da França é ruim demais. Semifinais, já estamos aí, e depois é Zagallo esgoelando só faltam dois e tudo como dantes como no quartel de abrantes, porque afinal de contas precisamos é de pão e circo, e o ano promete hexa seguido de reeleição.

Combinamos assim? Nós nos estribuchamos exigindo mais meio-campistas – que chega de duas torres paradas lá na frente – o Parreira nos xinga vai tomar no cu, porra, porque afinal ele está certo sempre, e o Brasil vai avançando, com a ajuda inestimável da ruindade dos adversários e da boa-vontade das arbitragens. E no final será que será a mesma história de 1994, eles levantando e taça e xingando-nos, isso aqui é para vocês, seus traíras, para depois rirem da nossa cara trazendo 5 aviões de muamba não declarada?

Se for, não há problema. Até que já estou acostumado com esse papel do torcedor que torce para que dê certo o time que ele acha que não pode dar certo. Se ganhar, ora, que se dê ao nosso pobre treinador o direito de dizer a frase de que ele gosta tanto, eu estava certo.

Mas em verdade eu lhes digo:

* Jamais em quase 30 anos de futebolismo eu vi um 3 x 0 tão no sufoco como esse. O Brasil foi vergonhoso no segundo tempo. Não sei se repararam, mas as vaias do público só foram abafadas pelos gritos de sou brasileiro / com muito orgulho / com muito amor porque afinal de contas, eu posso falar mal da minha mãe / do meu país, os outros não.

* Às vezes o faro de expatriado percebe algumas coisas mais rapidamente: estou enganado ao supor, depois de umas duas semanas no Brasil, que a Rede Globo de Televisão decretou que Ronaldo está jogando bem, e que, de tão decretada, a afirmativa passou a ser verdadeira, passou a ser aceita pela maioria como verdade, contra todas as evidências?

* Se é para passar o jogo recuando a bola para o goleiro, que ponham o Rogério Ceni que sabe jogar com os pés, né Mary W? Quantas bolas o pobre do Dida foi forçado a chutar para fora?

* O Brasil melhora ou não melhora quando um dos centroavantes é substituído por um meio-campista?

* O Valdir Bigode seria ou não seria titular nesse ataque de Gana? Lembram do Valdir Bigode? É o homem que mais perdeu gols preparados por um garçom na história do futebol brasileiro (o garçom aqui sendo o maravilhoso Marques). Até o Valdir Bigode é melhor que esses atacantes de Gana. Vão chutar mal assim lá no raio que os parta.

PS: Eu errei várias previsões no bolão da Copa. Mas acertei que a Espanha cairia fora. A Espanha treme. Não adianta. Treme mesmo. Morri de rir de quem achava que eles chegariam nas finais. Foi o típico jogo não propriamente ganho por uma camisa, mas perdido por uma camisa.



  Escrito por Idelber às 02:27 | link para este post | Comentários (23)



segunda-feira, 26 de junho 2006

Leitura labial pega os palavrões de Parreira

- Agora vamos ver, filhos da puta! E ainda pedem pro Ronaldo ir embora. "Tira ele...". Vai se foder, vai tomar no cu, porra!.

Incrível. Neste vídeo (via Pensar Enlouquece via Samjaquimsatva).



  Escrito por Idelber às 21:41 | link para este post | Comentários (24)



sábado, 24 de junho 2006

Parabéns vários

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Blogosfera belzontina em festa :-)

Um dos blogs pioneiros do Brasil, o Mothern, além de ser blog, livro, coluna de revista e "casa de ópio para mães internautas viciadas em guestbooks", como dizem elas, será programa semanal no GNT, com estréia programada para agosto e primeira temporada com 13 episódios.

Parabéns às Mothern, por mais essa vitória e conquista pioneira.

E a Laura, das Mothern, faz aniversário hoje.

E quem também faz aniversário hoje é a Fernanda, do lindo Cria Minha.

Parabéns às cancerianas e tim-tim.



  Escrito por Idelber às 12:15 | link para este post | Comentários (5)



sexta-feira, 23 de junho 2006

Este post não é sobre Brasil 4 x 1 Japão

juninho.jpgAntes do jogo Brasil x Japão circularam duas notícias interessantes sobre a seleção brasileira: a primeira foi divulgada para todo mundo, a segunda era exclusividade da TV Globo.

A primeira: a comissão técnica divulgou o peso atual de Ronaldo e o peso com que ele chegou à Alemanha. Chegou com 95 quilos, 13 a mais que seu peso “ideal”, que é 82 kg. Desde então, emagreceu 4,5 kg e está agora com 90,5 kg.

A segunda: a TV Globo divulgou, algumas horas antes do jogo, que Ronaldo, Émerson e Cafu, com cartões amarelos, não jogariam e seriam substituídos por Robinho, Gilberto Silva e Cicinho. De acordo com o Juca Kfouri, que tem boas fontes e não costuma se enganar nessas coisas, numa conversa com um produtor da Globo, o assessor da CBF, Rodrigo Paiva, teria dito: “só sabíamos dessa escalação eu, Parreira e Zagallo. Vocês não receberam essa informação de nenhum dos três. Então vão quebrar a cara.”

Quebraram, mas talvez a longo prazo a maior prejudicada seja a seleção. Como se sabe, Parreira sacou Émerson e Cafu, mas entrou com Ronaldo. Sacou também Adriano, Zé Roberto e Roberto Carlos. Entraram Robinho, Juninho, Gilberto Silva, Cicinho e Gilberto. Beleza.

Ainda passado de sono do vôo internacional para BH, e sem saber dessa divulgação feita pela Globo de manhã, comentei com ela, minutos antes do jogo: é a típica mudança feita por um treinador que age de má fé. Com “má fé” quero dizer: a preocupação do cara não é acertar, é mostrar que antes ele já estava certo. O tempo todo. Chega a ser irritante.

Por que? Ora, porque no momento em que toda a torcida e crônica esportiva brasileiras pediam a saída de Ronaldo e a entrada de Juninho e/ou Robinho, com as 5 mudanças que fez, Parreira se colocava numa win-win situation. De qualquer jeito ele ganharia. Se o time jogasse mal, empatasse, perdesse ou ganhasse de pouco do Japão, ele poderia dizer: “Estão vendo como o meu esquema anterior era o certo?”

Se o time jogasse razoalvelmente bem e ganhasse de goleada, de preferência com um ou mais gols de Ronaldo (porque afinal de contas é impossível um time como o Brasil enfrentar uma baba aberta como o Japão, jogar bem e não colocar o seu centroavante em condições de fazer um ou mais gols), ele poderia dizer, como já deve estar insinuando: “Estão vendo, Ronaldo calou a boca de vocês!”

E é o que já está se ouvindo por aí. O Juca Kfouri, coitado, está que leva bordoada no seu blog, como se Ronaldo tivesse feito chover em Dortmund. Marcou dois gols, igualou o record de Gerd Müller e previsivelmente foi eleito o melhor do jogo pelo comitê da FIFA. Parabéns para ele. O comitê da FIFA na certa não contou os 61 passes de Juninho no jogo (60 deles certos) ou os 14 dribles de Robinho (11 deles certos) ou os 17 desarmes de Gilberto Silva (sem uma falta sequer). Viu os dois gols de Ronaldo, e escolheram não ver todas as vezes em que ele não chegou na bola ou foi desarmado por estar fora de forma. Parabéns para eles.

Mas que conste: quem será sacrificado na brincadeira, muito provavelmente, é um atleta que está em condições físicas, técnicas, táticas e psicológicas infinitamente superiores às de Ronaldo e que joga na mesma faixa do campo que ele: Adriano, que vai acabar saindo do time, porque já não há como conter o clamor por Robinho.

Tudo bem. Provavelmente passaremos por Gana. E depois?



  Escrito por Idelber às 03:33 | link para este post | Comentários (29)



quarta-feira, 21 de junho 2006

Clube de leituras, II

Eu vou ali pegar um avião para Belo Horizonte e já chego, a tempo de ver Brasil x Japão na transmissão da ESPN Brasil: férias, que este ano demoraram a chegar.

gsv.jpg

Depois do papo sobre o Duas Vezes Junho, de Martín Kohan, ficamos de conversar sobre Grande Sertão: Veredas. Como eu disse antes, eu topo reler o romance do Rosa se pelo menos o mesmo número de pessoas que participaram do primeiro debate se animarem a ler um segundo livro - embora eu não tenha a menor idéia de como organizar uma discussão sobre um treco tão infinito como o Grande Sertão.

Se houver quórum, que tal começar a papear lá pelo dia 17 de julho, 8 dias depois do fim da Copa do Mundo? Quem começasse a ler agora teria quase um mês para digerir o livro.

E aí, quem está dentro?

PS: Vou perder Argentina x Holanda, voando entre New Orleans e Miami. Buá. Quem assistir o jogo e tiver observações pessoais, deixe-as por aqui também. O fanático futebolístico aqui agradece.



  Escrito por Idelber às 04:50 | link para este post | Comentários (29)



terça-feira, 20 de junho 2006

Enquete sobre a teimosia

Considerando que quase todo mundo tem uma variação ou outra da mesma explicação para o mau futebol do Brasil (a ausência de um armador no meio-campo e o esquema com dois centroavantes, tendo um deles o corpo de um atleta de luta greco-romana), você acha que Parreira mantém Ronaldo no time porque:

a. há pressão de Nike, AmBev ou o patrocinador que seja.

b. o Galvão Bueno mandou.

c. o trio Parreira-Zagallo-CBF tem medo de sacar Ronaldo.

d. querem mantê-lo até que ele quebre o raio do record do Gerd Müller (14 gols em Copas, Ronaldo tem 12).

e. agora Parreira decidiu que se for pra ganhar, terá que ser na teimosia do seu esquema, como em 1994, só para ter o gostinho de dizer isso é para vocês, seus traíras, como o fez Dunga na mais deselegante erguida de taça da história do futebol brasileiro.

f. Zagallo ainda não descobriu que Ronaldo é gordo tem treze letras.

Digam lá. Não precisa ser uma resposta só, claro. Aceitam-se outras teorias também.



  Escrito por Idelber às 05:06 | link para este post | Comentários (29)



domingo, 18 de junho 2006

Santo Antônio 2 x 0 Austrália

st0-antonio.jpg Crédito da imagem.

Depois do jogo de hoje, a manchete do UOL, que não sei por quanto tempo ficará lá, era "Brasil sofre, mas dupla de ataque se redime". Se redime? Será que eles viram o mesmo jogo que eu? Está certo, o Ronaldo correu um pouco mais, mas teve uma atuação bisonha. O meu único medo é que não tenha sido bisonha o suficiente para que Parreira o tire do time. Deu um passe para o gol. Meu Deus! Ele deu um passe certo! Nossos amigos do Eu odeio o Galvão Bueno disseram que na hora daquela furada monumental do Ronaldo no primeiro tempo, com uma bola açucarada caindo para ele dentro da área, o nosso boçal-mor disse "Ronaldo se apresenta para o jogo". Foi isso mesmo? Se apresenta para o jogo? Foi a furada mais feia que eu já vi numa Copa!

É verdade que o Ronaldo entrou com vontade de correr, pelo menos. Mas isso só tornou ainda mais visível o fato de ele não tem nenhuma condição de jogo.

Meus pitacos:

* Excelente, excelente arbitragem.

* Os melhores em campo na minha opinião:
Zé Roberto: cometeu um erro durante a partida, foi lá e consertou na hora; no resto do jogo, impecável.
Lúcio: sim, pode se argumentar que ele tem saído demais para o ataque; mas com uma ou duas exceções foram jogadas de escanteio, nas quais o papel dele é esse mesmo; no combate, esteve impecável.
Juan: seguro e firme, o tempo todo.
Robinho: em 20 minutos fez mais que Ronaldo e Adriano juntos nos dois jogos.

* Agora, vejam só: O que dizer de uma partida contra a Austrália onde os melhores em campo são os dois zagueiros e um volante de contenção? Dá o que pensar, né?

* Roberto Carlos tem sido péssimo, especialmente na defesa, que é sua principal responsabilidade. Há tempos joga com o nome e com as cobranças de falta - que têm ido todas, por sinal, na arquibancada.

* Dida é um grande goleiro. Embaixo das traves. Todo mundo sabe disso, claro, mas não custa repetir: saiu da pequena área, é um Deus-nos-acuda.

* Dá muita pena ver o Ronaldinho Gaúcho jogando tão longe da posição dele. É um crime contra o futebol.

* Sobre o esquema tático, eu continuo mantendo o que disse ali embaixo.

Antes da Copa, por causa do oba-oba, muita gente disse que a coisa estava com cara de 1982. Eu acho que está mais com cara de 1994. O que não quer dizer que o Brasil vá ser campeão, claro, porque time nenhum pode contar durante muito tempo com a sorte que o Brasil teve hoje - sorte e incompetência do adversário nas finalizações.

É verdade, o time correu mais (ainda que completamente sem alegria). Mas eu não gostei não.



  Escrito por Idelber às 16:14 | link para este post | Comentários (22)



sexta-feira, 16 de junho 2006

No blog da copa

Há vários posts novos no nosso Verbütsfussballbloge, incluindo-se um post antológico do Almirante. Passem por lá.



  Escrito por Idelber às 14:04 | link para este post




Ulisses, de James Joyce: Celebração do Bloomsday

bloomsday.jpg

Pausa na Copa porque um valor mais alto se alevanta.

Hoje é o dia em que, no mundo todo, os leitores do mais radical, inventivo e revolucionário romance jamais escrito celebram (de preferência com uma boa cerveja) a Irlanda, James Joyce e Ulysses, a obra-prima. Na blogosfera brasileira, pelo segundo ano consecutivo, o Odisséia Literária pilota as comemorações, com vários posts espaçados durante as quase 24 horas em que tem lugar a ação do livro.

joyce.jpgA história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.

Em cada um dos 18 capítulos, aproximadamente uma hora de ação; em cada um, correspondências cheias de ironia com um episódio da Odisséia, de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, paranomásias, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas. Foi o romance que inventou essa coisa que hoje parece tão banal: o monólogo interior.

Publicado em 1922 e proibido como “pornográfico” nos EUA até 1933, Ulisses pode até não ser o maior livro jamais escrito, mas com certeza é a resposta mais produtiva à famosa perguntinha sobre qual livro levar à ilha deserta. “Eu coloquei nele tantos enigmas e quebra-cabeças que ele manterá os professores ocupados durante séculos ” disse Joyce sobre Ulisses. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que dará trabalho por muito mais.

Não leu ainda? Se domina bem o inglês, há uma fantástica versão em hiper-texto. Antônio Houaiss fez uma já legendária tradução ao português; agora há uma nova tradução, de Bernardina Pinheiro, que eu ainda não li, mas que vem sendo elogiadíssima como texto mais coloquial e picante que o de Houaiss – e portanto, talvez, mais fiel a Joyce.

Não se deixe levar pela fama de "difícil" do livro: poucas vezes escreveu-se coisa tão engraçada, escandalosa, divertida e sexual como Ulisses. Em cada diálogo, cada cena, cada capítulo, mil sentidos. O treco não acaba nunca.

primeira-pagina-ulysses.gifManuscrito da primeira página de Ulisses.

Todo 16 de junho eu sinto saudades de Haroldo de Campos, que comandava as comemorações aí no Finnegans Pub, em Pinheiros, Sampa. Se você está em São Paulo e quer comemorar o Bloomsday, o point é esse. Em Belo Horizonte, poetas e músicos se reunirão no Teatro Francisco Nunes às 18:30 para celebrar “Bloomsday com Rosa” porque afinal Grande Sertão: Veredas, o mais joyceano dos nossos romances, completa 50 anos de publicação.

Links para curtir o Bloomsday:

Odisséia Literária, que vai estar fervilhando hoje, com sucessivos posts.
Texto completo do Ulisses em inglês.
Ulysses for Dummies (Ulisses para idiotas) com quadrinhos hilários.
Pequeno resumo e informações sobre o legado da obra.
Leitura coletiva da obra no blog português Leitura Partilhada.
Mapas, enigmas e histórias relacionados com Ulisses.

Tim-tim, feliz bloomsday para todo mundo, visitem o Leandro e viva a Irlanda.



  Escrito por Idelber às 02:03 | link para este post | Comentários (17)



quinta-feira, 15 de junho 2006

Parreira inventa o revolucionário esquema 6-0-4

parreira.jpgParreira e Golias: separados no nascimento?

Com outras palavras, o Milton Ribeiro já explicou a coisa lá no Verbütsfussballbloge, mas quem achou a expressão exata foi a Mary W: o time do Parreira joga no 6-0-4. Depois do 3-7-0 inventado pelo Geninho no Corinthians, é a grande invenção da tática tupiniquim: um time sem meio-campo. Não pode dar certo mesmo.

Todas as grandes equipes têm uma cabeça pensante no meio-campo, um armador de jogadas. É o velho meia-armador: o Brasil de 58 e 62 tinha Didi, o Brasil de 70 tinha Gérson, o Inter dos bons tempos tinha Falcão, o Galo tinha Cerezzo, o Flamengo tinha Adílio, extraordinário jogador ofuscado pelo brilho de Zico. Não há como armar uma grande equipe sem um cérebro pensante no meio-campo (não, isto não é um pleonasmo: há uma legião de cérebros não-pensantes por aí).

O Brasil de Parreira, tendo em mãos uma geração talentosíssima, joga com dois volantes (Emerson e Zé Roberto), dois meias-atacantes (Kaká e Ronaldinho Gaúcho, este último atuando completamente fora de sua característica), dois centroavantes (Adriano e Ronaldo) e nenhum armador nato. O resultado é que o time não tem meio-campo propriamente dito: ele vira uma sucessão de compartimentos estanques.

Emerson é um bom volante de contenção, mas é incapaz de criar jogadas na saída de bola do Brasil. Zé Roberto até tem algum talento criador, mas no esquema de Parreira ele é destruidor, roubador de bolas e responsável pela cobertura de Roberto Carlos – funções que ele executa bem, mas que não lhe deixam tempo nem energia para criar nada. Quando o Brasil recupera a bola, essas funções ficam nos pés de Kaká e Ronaldinho Gaúcho, que têm que voltar para atuar numa faixa do campo que não é a sua.

Kaká demonstrou raça contra a Croácia e voltou para buscar jogo. Mas aí ele sai de sua característica, que é a arrancada a partir da intermediária adversária. Ronaldinho, recebendo bolas lentas no círculo central e tendo diante de si toda a defesa adversária, jamais será o jogador que conhecemos no Barcelona. Para piorar as coisas, a dupla de ataque é redundante: tanto Ronaldo como Adriano são finalizadores, jogadores de área. Adriano até tentou, mas jamais será capaz de sair da área para armar tabelas. Não sabe fazer isso. Ronaldo andou em campo. Com dois tanques lá na frente e sem meio-campo, não dá. Juca Kfouri disse isso outro dia no blog dele e eu também falei da impossibilidade de que Ronaldo e Adriano joguem juntos exatamente um ano atrás.

De tanto ser chamado de retranqueiro, parece que Parreira, por pirraça, resolveu montar um time com um excesso de atacantes – só na teoria, claro, ele é um time “mais ofensivo”. Termina sendo até um time mais defensivo, porque não consegue manter a bola no campo do adversário.

Muita gente se pergunta por que Ronaldinho Gaúcho – apesar de às vezes jogar muito bem na seleção – não consegue repetir lá as atuações encantadoras que faz no Barcelona. Parreira responde com o papo-furado de que no Barcelona ele brilha porque é a única estrela, e na seleção tem que dividir o palco. Nada disso: ele não brilha porque meia-atacante nenhum vai brilhar recebendo a bola no círculo central, sem arranque e tendo 6 defensores pela frente.

Conclusão clara para quem conhece o plantel da seleção: o Brasil precisa de Juninho Pernambucano, armador nato, que além do mais sabe dar combate. Isso possibilitaria adiantar o Ronaldinho Gaúcho para que ele atuasse na faixa do campo onde ele é o melhor do mundo. Possibilitaria também que a bola chegasse a ele e a Kaká na faixa de campo em que eles arrebentam.

Quem deve sair? Ronaldo, claro. Será que vocês vão achar que é arrogância minha se eu disser que isso é o óbvio do óbvio?



  Escrito por Idelber às 02:16 | link para este post | Comentários (17)



terça-feira, 13 de junho 2006

Blogagem ao vivo da estréia do Brasil

Já estou a postos aqui em New Orleans para a estréia do Brasil. Laptop conectado, telão ligado, cervejinha na geladeira. A história das últimas 24 horas foi o pedido de prisão de Cafu por um promotor italiano no caso dos passaportes falsos e depois a sua absolvição pelo juiz.

Ao longo do jogo, vou atualizar este post a cada 5 ou 10 minutos com comentários. Quando você se cansar do Galvão Bueno, passe por aqui e deixe seu pitaco.

1 min: ótima notícia. Lúcio não está dormindo.

5 min: segundo grande desarme do Zé Roberto. O cabra joga.

10 min: duas coisas me preocupam: a vulnerabilidade defensiva quando o time perde a bola e a lentidão do Ronaldo. Esse impedimento dele foi ridículo.

14 min: patada atômica de Roberto Carlos. Única razão para jogar com ele no time titular: esses chutes.

20 min: o time brasileiro é muito vulnerável quando perde a bola. É um problema. Ronaldo continua me dando a impressão de lentidão total em campo.

26 min: Alívio no rosto dos jogadores croatas, de terem suportado o 0 x 0 durante mais da metade do primeiro tempo.

30 min: Até o comentarista gringo percebeu que o Ronaldo está andando em campo.

31 min: Falta para o Brasil !

38 min: Cruzamento croata passa razante pela defesa do Brasil. Ninguém na bola. Jogo fica típico das estréias, bem tenso.

43 min; Golaço de Kaká! Igualzinho o que ele fez na Copa das Confederações contra a Argentina.

45 min.: Detalhe interessante: Kaká sofre falta (mais um lance de jogo perigoso, realmente). Começa a rolar pelo gramado e o árbitro mexicano discretamente passa por ele e diz: estás bien. Kaká se levanta na hora.

Bom, não deu para blogar o segundo tempo. Não fez falta. Não sei ainda o que vão dizer aí no Brasil, mas para mim os destaques do time foram Dida, Lúcio, Juan e Emerson. O que diz algo sobre o jogo, suponho.

PS: Ronaldo deve ser sacado do time. . Não sou só eu que digo. Oito de cada dez comentários a esse post do Juca Kfouri pedem a saída imediata de Ronaldo. E o próprio Juca também.



  Escrito por Idelber às 15:11 | link para este post | Comentários (44)



segunda-feira, 12 de junho 2006

Copa do Mundo: Pílulas

Depois de assistir México 3 x 1 Irã e Portugal 1 x 0 Angola, não há cristão nem ateu que consiga fazer um post decente. Então o de hoje é só para vocês brincarem na caixa de comentários mesmo. O link ao vídeo que fecha este post chegou via Megeras.

* Eu disse aqui que o Equador não passava, ele ganhou da Polônia, e o Biscoito já começou a levar sarrafo na blogosfera equatoriana :-) Continuo torcendo, mas pelo amor de Deus não se empolguem. Faltam dois jogos ainda. Ganhando da Costa Rica, aí sim, ficam bem na foto. Seria legal ver o Equador nas oitavas. Mas a empolgação exagerada é o pior inimigo nessas horas.

* Confundindo chute para fora por fair play com passe errado, traduzindo just married por "apenas casados", sugerindo Rogério Ceni na linha da seleção, traduzindo Schumacher who? por "Cadê o Schumacher?", confundindo Costa Rica com Costa do Marfim, quem pode ser? Galvão Bueno, é lógico. Época de Copa é época de Eu odeio Galvão Bueno.

* Portugal x Angola e México x Irã disputaram neste domingo duas pelejas de um esporte que se parecia vagamente com o futebol.

* Eu não entendo quando meus amigos portugueses se queixam da ruindade do time pondo a culpa em Felipão ou dizendo que perderam a final da Copa da Europa por responsabilidade dele. Não conheço o futebol português o suficiente para dar pitaco na escalação, mas qual a última vez em que a Seleção portuguesa havia chegado à final da Copa da Europa antes de Felipão mesmo?

* Comentário do narrador da rede norte-americana ABC, durante o jogo México x Irã: "Caminhando pelo estádio de Nuremberg onde se realizavam os comícios nazistas, não dá para não ficar imaginando o que pensam os jogadores iranianos sobre a posição do seu líder sobre o Holocausto". Nesta segunda-feira, jogam EUA e República Tcheca. Aguardo ansiosamente o comentário do narrador sobre como os norte-americanos se sentem jogando para um país que apoiou Hitler de 1933 até 1938. Êta povo que não se enxerga.

*Craque da Copa até agora: Robben, da Holanda. Como é bom ver um time jogando no velho 4-3-3, com pontas natos! Não o defendo como fórmula, mas que é bom ver a Holanda insistindo nele, ah, isso é.

* No geral, acho que as arbitragens até agora estão excelentes.

* É a Soninha que afirma em seu blog: Quase todo mundo por aqui teme uma falcatrua... Uma das teorias da conspiração possíveis: a Confederação aceita perder a Copa para uma seleção européia, em troca de ter garantida a sede de 2014. É um pouco menos bizarra que a de 98, que dizia que os jogadores teriam aceitado entregar o jogo. . .

*García Márquez uma vez disse: yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.

* Há bem mais coisas sobre a Copa lá no nosso Verbütsfussballbloge.

* Lula calado é um poeta.



  Escrito por Idelber às 01:43 | link para este post | Comentários (38)



sexta-feira, 09 de junho 2006

Entrevista com Martín Kohan

kohan-foto.jpg O escritor argentino Martín Kohan nasceu em 1967 e é autor de nada menos que 10 livros. Escreveu os romances La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002) e Segundos afuera (2005), as coleções de contos Muero contento (1994) e Una pena extraordinaria (1998) e os livros de ensaios Zona urbana: ensayo de lectura sobre Walter Benjamin (2004), Narrar a San Martín (2005) e Imágenes de vida, relatos de muerte: Eva Perón, cuerpo y política (1998), este último em co-autoria com Paula C. Rocca. Além de Duas vezes junho, já foi lançado no Brasil Uma pena extraordinária. Não é todo dia que aparece que um cabra que, antes dos 40 anos de idade, já deixou uma marca dessas na literatura. Enquanto vocês liam o livro, eu bati um papo com Kohan por email.

1. O que eu mais gosto em Duas vezes junho é o tom, a dicção do protagonista: um recruta que é obviamente cúmplice e agente do horror, mas que quase provoca a empatia do leitor por sua simplicidade. Esse caráter despojado, contido, pouco retórico do romance contrasta com certa literatura pós-ditatorial que privilegia vozes testemunhais ou grandes máquinas alegóricas. Você pode nos dizer um pouco sobre como chegou a essa voz?

Chegar a essa voz foi realmente o determinante para poder escrever o romance. De fato, eu já tinha uma idéia razoavelmente clara da trama e da armação geral que eu me propunha fazer, e no entanto não podia começar a escrita do texto porque não havia resolvido ainda esse tom que me parecia que o romance tinha que ter: um registro sinistramente neutro em alguém que está muito perto dos fatos mas se comporta como se não estivesse, alguém que pode ver o que está acontecendo mas que se comporta como se não o visse. Encontrei esse tom e essa voz quando me ocorreu o episódio inicial da falta ortográfica. Eu tinha pensado em começar com a frase sobre a tortura de crianças, que é real e que para mim é uma verdadeira cifra do horror absoluto. Com a idéia do erro de ortografia na escrita dessa frase, e com o desvio conseqüente do narrador, que se põe a pensar no erro ortográfico e não no conteúdo do que a frase diz, encontrei essa voz e pude escrever o romance daí em diante.

Eu fico entusiasmado que você perceba uma diferença discursiva com o registro que é próprio das vozes testemunhais, porque me parece que em Duas vezes junho o que aparece tem mais a ver com uma posição geracional – a minha – que não responde à geração dos setenta e à militância, e sim a outro tipo de experiência da ditadura (não é o balanço da geração da militância, e sim a vivência cotidiana da infância, que foi minha experiência da ditadura: eu tinha nove anos em 1976).

2. Em Duas vezes junho, e também em outros textos seus, nota-se a preocupação de revisitar os mitos fundadores da nação. Parece-me chave o fato de que você tenha escolhido, na Copa de 1978, a única partida que a Argentina perdeu, e em 1982 outro momento de derrota, curiosamente também ante a Itália. Seriam as derrotas das obsessões coletivas os momentos privilegiados para vislumbrar o que constitui a nação?

Efetivamente, interesa-me muito indagar quais são os dispositivos com os quais se conforma uma identidade nacional. De fato, minha tese de doutorado teve como objeto estudar as estratégias narrativas da construção da figura do herói nacional argentino, José de San Martín. Há uma dimensão épica, heróica e vitoriosa que se deslocou evidentemente ao futebol, novo palco da pirotecnia nacionalista (sempre se fizeram objeções severas a que em 1982 se asimilassem, na sociedade, a guerra das Malvinas e a Copa da Espanha; de certo ponto de vista, no entanto, e ressalvando-se a distância evidente do que é o custo, em vidas, de uma guerra, isso me parece perfeitamente lógico).

As derrotas oferecem, neste sentido, um ponto de vista que é sempre mais interessante, porque ali não se verifica nem o destino de grandeza nem o esplendor patriótico (em suma, um lamento paranóico que na Argentina costuma pegar: que há uma conspiração adversa, mundial, se for necessário, para nos fazer perder).

Em Duas vezes junho, eu me propunha reverter a memória social da Copa de 78 como uma experiência de euforia coletiva. Já não indicar o pano de fundo trágico dessa euforia, o horror que subjazia aos festejos das partidas. Não isso, e sim outra coisa: construir uma imagem triste e desolada do que foi a Copa; não a da alegria enganosa, e sim a de uma profunda tristeza coletiva. Por isso tomei a noite da derrota (sem salvá-la com a perspectiva da vitória posterior, como quando se conta na história argentina a derrota de San Martín en Cancha Rayada já da perspectiva da vitória que ele logo teria na batalha de Maipu. Não: somente a derrota, sem revanche, sem redenção). Muita gente – na verdade toda a que não esteja tão informada sobre o futebol – já esqueceu completamente essa partida. A memória social inventou uma recordação de pura vitória. Então eu quis fazer um romance que fosse pura derrota.

A idéia de que o romance tivesse uma segunda parte em 1982 ocorreu-me enquanto eu o escrevia (e só então, é claro, ocorreu-me o título). Me parecia necessário avançar com a idéia de que a cumplicidade do recruta se prolonga mais além do momento em que está sob o domínio militar. A idéia da derrota nacional poderia extender-se então a seu ponto dramático: Malvinas. E também ratificar-se no futebol: a Argentina volta a perder para a Itália (quando reparei nesse detalhe, me pareceu que não podia deixar de aproveitá-lo).

3. Considerando a paixão pelo futebol, tanto na Argentina como no Brasil, é curioso que ele não tenha cumprido um papel mais central na literatura. Claro, existem os relatos de Fontanarrosa, alguns de Osvaldo Soriano, mas em geral a literatura argentina – e também a brasileira – ocupou-se pouco do futebol. Você vê alguma explicação para isso?

Há uma certa insistência muito recente no futebol como tema literário. Não sei se durará. Há por exemplo um romance de Esteban López Brusa, La yugoslava, e outro de Sergio Olguín, El equipo de los sueños. Mas é verdade que o tema do futebol não encontra a abundância que seria de se supor. Eu acredito que é difícil escapar de alguns atalhos que o tema impõe: um olhar populista sobre o mundo do futebol ou um olhar ternurista à figura do torcedor. E também talvez outra coisa: que os escritores tendem a escrever sobre as equipes das quais são torcedores. Então é mais difícil que abordem a situação da derrota (mas uma derrota sem épica nem salvação, a pura derrota, a pura desgraça). Eu mesmo não escreveria um romance onde o Boca Juniors perdesse. Não o faria. Poderia fazê-lo com uma derrota da Seleção Argentina, em Duas vezes junho, ou a derrota célebre de um boxeador argentino em Segundos afuera (Firpo em 1923: derrubou Jack Dempsey para fora do ringue, conseguiu essa façanha, mas depois perdeu a luta e não foi campeão. Esse destino de derrota, mas com a ilusão de vitória, contém para mim toda uma cifra da argentinidade). Pude escrever sobre derrotas argentinas porque meus sentimentos nacionalistas foram sendo mitigados ou até mesmo desativados de uma maneira quase cirúrgica ao longo destes anos. Quando vejo a Seleção Argentina jogar só me interesso pelos jogadores do Boca (agora: Abbondanzieri, Riquelme, Tévez) e se algum jogador do River faz um gol para a Seleção (Crespo, Saviola, Aimar) simplesmente não o comemoro. Posso escrever então sobre uma derrota argentina, mas não o faria sobre uma derrota do Boca. E escrever sobre as vitórias da própria equipe não me resulta literariamente interessante.

4. Há uma tradição na literatura argentina que culmina, digamos, em escritores como Juan José Saer, que vê na cultura de massas a esfera da banalização e da automatização. Outra tradição, com a qual se alinham escritores como Osvaldo Soriano, abraça a cultura de massas e faz dela seu material privilegiado. Estou correto se suponho que você embaralha um pouco essa oposição? Tanto em Duas vezes junho como em Segundos afuera, você trabalha com os materiais da cultura de massas, mas nota-se uma certa distância cética com respeito a ela. Você poderia nos falar um pouco disso?

Sim, você está certo. A antinomia entre “alta cultura” e “cultura de massas” é um tanto redutora, e também esquemática, e também simples em demasia, e também rígida demais; e no entanto, no meu ponto de vista, apesar do já dito, ela é substancialmente verdadeira. Acontece com os enfoques de Theodor Adorno: inclusive ali onde exagera, ali onde evidentemente não tem razão, diz entretanto uma verdade: tem razão. É claro que é um problema para a teoria cultural ver como se continua pensando depois de que alguém formulou uma crítica tão fechada e tão taxativa, e no entanto tão verdadeira. A anedota de que Adorno nem sequer atendia o telefone nas terças-feiras à noite porque estava assistindo Daktari na televisão, e não perdia um capítulo, nos dá um certo alívio. Mas acho que é basicamente certo que há na cultura de massas um fator poderoso de alienação e banalização. E também acredito que nos seus diálogos com a assim chamada alta cultura há mais mal-entendidos e distorção do que outra coisa, porque ali há duas lógicas alternativas que estão se chocando (e não dois modos culturais afins que estariam confluindo). É o que tentei expressar com os diálogos de Segundos afuera: os personagens dialogam, mas não se escutam. E se se escutam, não se entendem. E se se entendem, não se suportam.

Além do mais, uma evidência: Saer escreveu uma grande literatura e Osvaldo Soriano não.

5. Você tem também uma carreira como crítico e acadêmico, e no entanto não se nota nos seus romances a sobre-teorização que se vê na ficção de tantos críticos-escritores (penso aqui em Sartre como paradigma disso, mas há muitos outros; na Argentina poderíamos pensar em Ricardo Piglia). Eu gostaria de saber se você trabalha conscientemente com esse dilema, o de separar as duas vozes.

Não, eu não procuro nem fujo dos contatos entre o registro da crítica e o registro da ficção. Escrevo o que me ocorre da maneira que posso, não tenho o propósito definido de enlaçar esses dois discursos, mas tampouco o de cindi-los. Escreve-se basicamente a partir do que se leu, e minhas leituras provêm com freqüência do que faço como crítico literário. Uma vez escrevi um romance sobre San Martín, porque as leituras da tese de doutorado me haviam submerso nesse mundo (mas curiosamente ele não foi visto como um romance acadêmico, e sim como um romance de mercado, porque justamente então os romances históricos entraram na moda. Ou seja, nunca se sabe, a melhor coisa é desentender-se e escrever o que se quer escrever).

Além do mais, não é verdade que os universitários escrevamos para os universitários, como tendem a supor alguns escritores que, por estar fora do mundo universitário, imaginam – e se equivocam – que o que está ali dentro é um mundo de confrarias e cumplicidades. Em todos os lugares eles acreditam ver piscadelas e sub-entendidos que os excluem, mas são seus próprios complexos e sua própria paranóia que geram neles esse efeito.


6. Há um mini-boom de tradução de literatura argetina no Brasil, depois de muito tempo de ignorância completa. Escritores como você e Alan Pauls, que eu jamais imaginaria que fossem estar disponíveis para meus compatriotas, foram publicados em tradução. No caso de que haja algum editor lendo-nos, quais ficcionistas da sua geração você destacaria como fundamentais hoje?

Eu destacaria fundamentalmente Juan José Becerra e Gustavo Ferreyra.



  Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post | Comentários (20)



quinta-feira, 08 de junho 2006

Sobre Duas Vezes Junho, de Martín Kohan

LIB0518.gif

¿A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño? É a frase assombrosa que escolhe Martín Kohan para começar o seu Dos veces junio. A frase é encontrada por um recruta numa mesa de recados de uma delegacia policial argentina, em 1978.

Mas empezar em espanhol se escreve com z. O erro ortográfico introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta. Fornece o mote para a operação notável que realiza esse romance: falar do terror absoluto com uma voz que não percebe, não se dá conta. Ele fala do apocalipse de dentro dele, como se ele não estivesse acontecendo. O protagonista tem um tom neutro, asséptico. O pano de fundo é a questão quase inimaginável: a tortura de crianças como forma de chantagem sobre os pais e o roubo e venda de bebês, extensamente praticados pela ditadura argentina.

A tarefa do recruta é achar o chefe, o “doutor” Mesiano, um dos responsáveis pelo horror, a quem ele é ligado também por laços de respeito e amizade. Precisa conseguir uma resposta para essa pergunta. E o chefe não está lá.

Aí entra o futebol. O chefe foi ao jogo. É a noite da partida entre Argentina e Itália, vencida pela Itália por 1 x 0. Engenhosamente, Kohan toma a euforia pela Copa do Mundo mas escolhe o único dia de derrota da seleção. Faz dessa derrota “o momento de verdade” mascarado pelo patriotismo triunfante que o esporte ofereceu, a calhar, à ditadura dos militares.

Para esquecer a derrota, vão uma noitada com mulheres, durante a qual conhecemos Sergio Mesiano, filho do chefe, quase um pateta. Não sabe dizer ao recruta o que aconteceu no jogo, porque não entende o futebol. Depois da noitada, viaja mordendo os lábios no carro, como se algo estivesse errado. Vão a Quilmes, cidade da província de Buenos Aires, onde se decidirá quem terá direito ao próximo bebê roubado.

O encontro entre o “doutor” Mesiano e o “doutor” Padilla (o que havia telefonado para fazer a pergunta) nos dá a chave do acontecido. Uma mulher, ao fundo, grita, pede ajuda. Acaba de dar à luz. Está à beira da morte, como resultado da tortura. Mas tudo isso chega a nós sem sentimentalismo, sem arroubos retóricos, sem tom de denúncia. Chega quase como um fato banal porque, afinal, percebemos o horror pelos olhos do cúmplice.

Corte, flash forward. Quatro anos mais tarde, também em junho, o recruta lê uma lista em que aparecem os mortos na guerra das Malvinas. Encontra o nome de Sergio Mesiano. A ironia é atroz: provavelmente morreu numa ilha que ele não saberia localizar num mapa. O ex-recruta, agora estudante de medicina visita seu antigo patrão, recebe o recado de que ele está na casa da irmã, num churrasco. Parte para lá e vê o garoto, “Antonio”, o bebê roubado. A mulher dá cantadas baratas no recruta, avisa que o marido viaja muito. O “doutor” Mesiano avisa que se aproximam tempos difíceis: ele já percebe que a ditadura tem seus dias contados. Também é dia de jogo contra a Itália, pela Copa de 1982, na Espanha. Outra derrota argentina.

Depois do abraço de despedida no ex-patrão o recruta sai, liga o rádio do carro e observa que não consegue se lembrar bem dos seus sonhos. Fim da história.

A literatura argentina dos anos 80 e 90 foi rica em romances sobre o descalabro vivido pelo país entre 1976 e 1983. O regime militar argentino matou ou “desapareceu” mais de 20.000 pessoas em sete anos, cifra que faz a ditadura de Médici parecer brincadeira de criança. Mas a maioria dos textos argentinos sobre o período foram grandes máquinas alegóricas ou relatos testimoniais verborrágicos, retóricos, indignados.

Kohan faz algo que nunca se havia feito: coloca a voz narrativa na boca de um recruta, um cúmplice que não é um ideólogo, mas um subalterno. Eu me apaixonei por esse livro porque ele trabalha tão bem essa voz, a do subalterno. Pouco a pouco vemos que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade.

A forma do romance é coerente com a escolha da voz: são pequenos parágrafos com frases curtas, secas. Há toda uma poética, uma estética anti-sentimental e poderosamente política nesse livro. O recurso ao futebol, apesar de revelar o seu papel como mascaramento patrioteiro dos horrores da ditadura, não repete o surrado clichê do “esporte como ópio do povo”. Pelo contrário: é ali, no momento de derrota futebolística, que a verdade suja da sociedade se faz visível ao leitor.

Enfim, fiquei fã do autor. E aproveito este post para parabenizar a Amauta pela iniciativa e o tradutor e editor Marcelo Barbão, por disponibilizar ao público brasileiro esse texto tão poderoso, vindo do país que produz uma das mais ricas literaturas do mundo.

Eu não li a tradução brasileira, mas todos os relatos são de que ela é impecável. Estou curioso para saber como o tradutor resolveu a questão do erro ortográfico inicial.

E quero saber, claro, o que vocês acharam do livro. Digam lá.

Atualização: Amanhã estará no ar a entrevista com Martín Kohan.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (40)



quarta-feira, 07 de junho 2006

Canção imperdível

Se você entende pelo menos um pouco de inglês e foi tocado pela tragédia que aconteceu conosco aqui em New Orleans, não deixe de ouvir essa canção comovente. Depois me contem.



  Escrito por Idelber às 18:04 | link para este post | Comentários (14)




Quem tem uma teoria sobre isso?

9 da matina em New Orleans, eu ainda dormindo - afinal havia ficado preparando uma aula sobre poesia mexicana até as 4 - toca meu celular.

- Alô, Sr. Idelber, aqui é da Slate Magazine. Estamos fazendo uma matéria sobre o futebol e queremos saber por que os jogadores da seleção brasileira, ao contrário dos de todas as outras seleções do mundo, são chamados só pelo apelido ou pelo nome de batismo, nunca pelo sobrenome. Qual a razão para isso?

Resposta minha: não tenho a menor idéia.

Alguém aí tem uma teoria sobre isso?



  Escrito por Idelber às 15:08 | link para este post | Comentários (44)



terça-feira, 06 de junho 2006

Post novo no blog da Copa

O Brasil e as Arbitragens, post novo meu no Verbütsfussballbloge. Comentários abertos lá.



  Escrito por Idelber às 21:40 | link para este post




Clube de Leituras e novos blogs

kohan.jpg

Como vai a leitura aí? Gostando?

Confirmo que na quarta-feira à noite eu deixo aqui um pequeno texto com alguns comentários sobre o romance Duas Vezes Junho, de Martín Kohan, e na quinta-feira vocês se encarregam da discussão. Combinado?

E aí, vamos ter fôlego para encarar Grande Sertão: Veredas durante a Copa? Quem vai ler mesmo? De quanto tempo vocês precisam?

******************

Aproveito para recomendar alguns blogs, a maioria novos:

1. O Hermenauta, que me recorda um blog do qual eu gostava muito, não me lembro bem qual.

2. Um novo, excelente blog sobre artes: com vocês, Quintarte.

3. Não tem Folha nem Globo. A melhor cobertura das eleições peruanas quem fez foi o Tordesilhas.

4. Um dos meus colunistas favoritos em todo o jornalismo brasileiro, o Marcelo Coelho, da Folha, inaugurou um blog.

5. Ainda na turma da Folha, o Luis Nassif, que escreve sobre economia e sobre choro (que combinação!), já tem blog. Qualquer dia desses a Folha vira blog.

6. Forma mais original e engraçada de se organizar um blogroll: o argentino Monolingua (vejam que piada o link para o Biscoito).

7. Quem gosta de literatura latino-americana não deve perder este blog: El boomeran(g).

Atualização: Ficou pronta a entrevista com Martín Kohan, que será publicada logo depois da discussão.



  Escrito por Idelber às 02:04 | link para este post | Comentários (19)



segunda-feira, 05 de junho 2006

Aberta a temporada de caça ao escritor austríaco Peter Handke

(o post é bem longo, mas peço uma leitura atenta. O assunto é muito importante)

handke.jpgNo dia 18 de março deste ano, o escritor austríaco Peter Handke, um dos maiores ficcionistas e dramaturgos da história da literatura em língua alemã, compareceu ao enterro de Slobodan Milosevic, em Pozarevac, Sérvia. No dia 06 de abril, uma certa Ruth Vicentini publicou, na revista francesa Nouvel Observateur, uma nota em que ela diz que o escritor austríaco, ao lado de 20.000 “fanáticos”, havia “tremulado a bandeira sérvia”, se referido aos sérvios como “as verdadeiras vítimas da guerra”, “defendido o massacre de Srebrenica”, “depositado flores no carro fúnebre de Milosevic” e, finalmente, designado Milosevic como “um homem que defendeu o seu povo”.

O que acontece é que todas as afirmações acima, feitas na nota de Vicentini, eram falsas. E daí? dirão vocês, foi só o Nouvel Observateur tendo o seu dia de Veja. Mas é que a história só está começando.

A partir da nota publicada na revista, Marcel Bozonnet, diretor da Comédie Française, decide cancelar a temporada da obra teatral de Handke já programada pela instituição. Uma enxurrada de linchamentos ao “defensor do genocida Milosevic” começa a circular em toda a imprensa européia: em inglês, em francês, em alemão, em espanhol. Handke havia recebido o prêmio Henrich Heine, talvez o mais importante das letras alemãs. Logo depois do artigo calunioso e do linchamento que se seguiu, teve início o processo – ainda em curso – de confisco do prêmio.

Imediatamente depois da publicação das mentiras de Vicentini, o escritor austríaco escreveu uma carta ao Nouvel Observateur, em que ele detalhava o que era falso no artigo e citava textualmente o conteúdo do seu discurso no enterro de Milosevic. Mais de três semanas depois a revista ainda não a havia publicado, nem se retratado pelo erro. Só o fez quando um grupo de intelectuais europeus escreveu uma carta aberta à revista, em solidariedade a Handke. A revista finalmente publicou a missiva de Handke, justificando-se com o argumento de que “a pessoa responsável pela correspondência dos leitores estava de férias”.

O que foi, finalmente, que disse Handke no enterro de Milosevic? Handke domina perfeitamente o servo-croata e nessa língua discursou. Ele mesmo traduziu o discurso ao francês para a revista. Traduzido por mim do francês ao português, o texto é este:

O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre a Iugoslávia, a Sérvia. O mundo, o assim chamado mundo, sabe tudo sobre Slobodan Milosevic. O assim chamado mundo sabe a verdade. Por isso, o assim chamado o mundo está hoje ausente, e não somente hoje e não somente aqui. Eu sei que não sei. Não sei a verdade. Mas olho. Ouço. Sinto. Recordo-me. Por isso estou hoje presente, perto da Iugoslávia, perto da Sérvia, perto de Slobodan Milosevic.

Qualquer que seja a sua opinião sobre a guerra nos Balcãs e sobre a extensa produção escrita de Handke sobre ela, o texto está a quilômetros de distância do “defensor de massacres” que neste momento sofre o linchamento nas mãos da Europa bem-pensante. A própria revista assim o reconheceu, ao publicar a correção de Handke sem reparos, infelizmente só depois que o dano já havia sido feito e a calúnia tivesse dado três voltas ao redor do planeta.

Até chegar em Pindorama. No blog Todo Prosa, Sérgio Rodrigues publicou no último dia 03 um post em que dizia:

A vida do escritor austríaco Peter Handke piorou muito desde que ele compareceu ao funeral de Slobodan Milosevic, em março, e fez um emocionado discurso de adeus ao ex-ditador sérvio, o último grande genocida de um século rico nesse gênero.

O post atribuía a Handke a afirmação de que Milosevic foi “um defensor do seu povo”, quase um mês depois dessa afirmação ter sido desvelada como uma calúnia na própria revista que originalmente o publicou. Tudo bem, todo mundo erra. Conto a história para que se veja como se fazem e se destroem reputações, e como nossas “democracias” vilificam e lincham com a mesma facilidade com que pressupõem que a censura é exclusividade de comunistas, fundamentalistas islâmicos e outros bichos estranhos.

Desde então, e seguindo-se a um comentário que eu publiquei lá (e que é uma versão resumida da história relatada acima), a falsa atribuição de citação foi felizmente removida do post, infelizmente sem que se seguisse a ética blogueira de que, quando se altera um post ao qual os leitores já responderam, indica-se no corpo do post qual foi a alteração feita. Ou seja, como está, para que você saiba qual foi o post publicado no dia 03 você tem que ler a caixa de comentários.

Seguindo-se ao meu comentário, o Sérgio me ofereceu uma resposta da qual eu cito os três primeiros tópicos em itálicos. Intercalo minhas tréplicas:

1.Agradeço a informação sobre a notícia sensacionalista do Nouvel Observateur e lamento ter dado curso à frase sobre o “defensor de seu povo” - de todos (sic) as “calúnias” citadas no comentário, a única que veio parar neste blog. Como não tenho compromisso com o erro, já retirei a frase da nota. Não faz a menor falta.

De nada. Com certeza, uma falsa atribuição de citação não faz a menor falta num blog da qualidade do Todo Prosa. Lamento que, mesmo sabendo o que afirmação provocou na Europa, o colunista ainda prefira manter a palavra calúnia entre aspas. Também lamento que a retirada da frase não tenha seguido a ética blogueira de que se altera um post indicando no corpo do post qual a alteração feita. Parecem bobagem, mas não é. 20 leitores responderam a um post que não é o que está lá. Nesses casos, transparência é tudo.

2. As fontes que deram curso à tal frase são muitas, da agência alemã Deutsch Welle (sic) ao jornal The Guardian, para citar apenas duas acima de qualquer suspeita. O Yahoo foi linkado aqui porque trazia um resumo mais amplo da história.

Sérgio tem toda a razão que tanto Deutsche Welle como o Guardian reproduziram a calúnia da nota de Vicentini. O que só prova que há que se suspeitar de todas as fontes secundárias, incluídas as que estão “acima de qualquer suspeita”. Neste caso, claro, a fonte primária era o Nouvel Observateur, onde a calúnia já tinha sido exposta há quase um mês.

3. A frase é, obviamente, secundária. O comparecimento ao velório de um genocida de carteirinha fala por si - e lamento informar a Idelber e Curiango que esse atributo de Milosevic está longe de ser uma questão histórica aberta, infelizmente.

Em qualquer falsa atribuição de citação, a frase nunca é secundária. A frase “secundária” é parte de um amontoado de mentiras que provocaram considerável dano à reputação e à carreira de um dos maiores escritores contemporâneos. Secundária?

Quanto à “informação”, agradeço. Talvez o Sérgio devesse dá-la também aos especialistas em história dos Balcãs, nenhum dos quais usa a expressão “genocida de carteirinha” assim com tanta confiança. Talvez devesse dá-la à Comissão Internacional de Direitos Humanos que investigou a guerra nos Balcãs e explicitamente excluiu a palavra “genocídio” de seu relatório. É o especialista William A. Schabas que afirma, no livro Genocide and International Law (Cambridge University Press, 2000): “quando ficou claro que o líder iugoslavo Slobodan Milosevic pretendia expulsar os Kosovars do território, e não destruí-los fisicamente, as referências a genocídio declinaram. Uma resolução adotada pela Comissão de Direitos Humanos no fim de abril de 1999 descrevia a realização de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, mas não mencionava genocídio. Quando foi ouvido o pedido da Iugoslávia de medidas provisórias contra os estados da OTAN no começo de maio de 1999, os estados qualificaram as ações em Kosovo como limpeza étnica, não genocídio. Pelo Tribunal de Crimes Internacionais . . . Milosevic não foi acusado de genocídio" (página 500).

Como se vê, a afirmação de que está longe de ser uma questão historicamente aberta que Milosevic foi um “genocida de carteirinha” está tão equivocada como a citação atribuída a Handke e originalmente presente no post. Isso não quer dizer que não tenham ocorrido massacres e crimes: o massacre de Srebrenica feito pelos sérvios, o massacre croata em Krajina, massacres contra a minoria sérvia pelo Exército de Libertação de Kosovo. Simplesmente quer dizer que a palavra “genocídio” deve ser usada com cuidado, ou ela perderá a credibilidade. E que a guerra dos Balcãs está longe de ser um conflito em que há um lado “genocida” e um lado “inocente”. Esta caracterização, presente ainda na mídia, tem atendido interesses que não são os de estabelecimento da verdade.

É só isso que Handke tem dito, desde os anos 90.

Quanto à conclusão do post do Sérgio,

Continuo achando difícil conciliar o autor de “Asas do desejo” e o exaltador de Milosevic na mesma pessoa,

eu deixo o desafio de que ele me aponte uma única linha escrita por Peter Handke que possa ser interpretada como de “exaltação” a Milosevic. Já adianto que nem em Ein Wortland. Eine Reise durch Kärnten, Slowenien, Friaul, Istrien und Dalmatien nem tampouco em Unter Tränen fragend. Nachträgliche Aufzeichnungen von zwei Jugoslawien-Durchquerungen im Krieg, März und April 1999, os dois livros de Handke sobre os Balcãs, ele não a encontrará.

Por isso eu sempre achei que a defesa do direito de expressão, o direito de opinião, é sempre, por definição, o direito de ter qualquer opinião, até a aparentemente mais repugnante. Esse direito é como a virgindade: ou você tem ou não tem. Não há meio termo. E esse direito está sendo, no momento, tirado de um grande escritor contemporâneo, com censura, cancelamentos, confisco de prêmios e um linchamento nas mãos dos bem-pensantes.

Por isso acabo de assinar a carta dos acadêmicos norte-americanos em apoio a Peter Handke. Não há meio termo: toda a solidariedade a Handke.



  Escrito por Idelber às 05:11 | link para este post | Comentários (41)



sábado, 03 de junho 2006

Links para a Copa

Hoje, só links:

tango.gif

Gostaram? É a bela arte de Roberto Fontanarrosa.

Soem as trombetas. Está no ar o novo blog coletivo da Verbeat sobre a Copa do Mundo: Verbütsfussballbloge. Eu escreverei lá também durante a Copa, junto com um time de respeito.

O vídeo mais assistido nesta semana no Youtube foi o frangaço de Kuszczak, o goleiro da Polônia. Para mostrar que ele não é um frangueiro, um torcedor polonês foi lá e subiu um vídeo de uma de suas grandes defesas.

E, para acompanhar a Copa, o New York Times já fez um blog. Já erraram uma vez, ao dizerem que Pelé saiu contundido da Copa de 1962 por pancada dada por adversário - na verdade ele distendeu o músculo da coxa sozinho, na partida contra a Tchecoslováquia. Não resisti, fui lá e dei uma corrigida na informação (educadamente, claro).

Durante a Copa, não dá para deixar de visitar o blog de um brasileiro que mora na Argentina: com vocês, Haja Corazón.

Há muitos vídeos interessantes no vídeo blog Batendo Bola (cheguei lá via Marmota, que também recomenda o World Cup Blog).

A cada quatro anos é a mesma história. Parte da população que não gosta de futebol se junta a nós, outra parte continua tranqüila fazendo o que faz sempre (ir ao cinema, ler livros, etc.: atividades que continuam perfeitamente disponíveis para todos) e uma ressentida minoria se dedica a destilar veneno em textos cheios de rancor. Ganhando o campeonato do mau humor este ano estão o Manifiesto antimundial e o texto do ex-filósofo e atual bufão televisivo espanhol Fernando Savater (este homem, há quarenta anos, escrevia bons livros).

E em homenagem à última flor do Lácio, vejam que maravilha eu achei:

rumo-ao-hexa.jpg



  Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post | Comentários (15)