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sexta-feira, 09 de junho 2006
Entrevista com Martín Kohan
O escritor argentino Martín Kohan nasceu em 1967 e é autor de nada menos que 10 livros. Escreveu os romances La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002) e Segundos afuera (2005), as coleções de contos Muero contento (1994) e Una pena extraordinaria (1998) e os livros de ensaios Zona urbana: ensayo de lectura sobre Walter Benjamin (2004), Narrar a San Martín (2005) e Imágenes de vida, relatos de muerte: Eva Perón, cuerpo y política (1998), este último em co-autoria com Paula C. Rocca. Além de Duas vezes junho, já foi lançado no Brasil Uma pena extraordinária. Não é todo dia que aparece que um cabra que, antes dos 40 anos de idade, já deixou uma marca dessas na literatura. Enquanto vocês liam o livro, eu bati um papo com Kohan por email.
1. O que eu mais gosto em Duas vezes junho é o tom, a dicção do protagonista: um recruta que é obviamente cúmplice e agente do horror, mas que quase provoca a empatia do leitor por sua simplicidade. Esse caráter despojado, contido, pouco retórico do romance contrasta com certa literatura pós-ditatorial que privilegia vozes testemunhais ou grandes máquinas alegóricas. Você pode nos dizer um pouco sobre como chegou a essa voz?
Chegar a essa voz foi realmente o determinante para poder escrever o romance. De fato, eu já tinha uma idéia razoavelmente clara da trama e da armação geral que eu me propunha fazer, e no entanto não podia começar a escrita do texto porque não havia resolvido ainda esse tom que me parecia que o romance tinha que ter: um registro sinistramente neutro em alguém que está muito perto dos fatos mas se comporta como se não estivesse, alguém que pode ver o que está acontecendo mas que se comporta como se não o visse. Encontrei esse tom e essa voz quando me ocorreu o episódio inicial da falta ortográfica. Eu tinha pensado em começar com a frase sobre a tortura de crianças, que é real e que para mim é uma verdadeira cifra do horror absoluto. Com a idéia do erro de ortografia na escrita dessa frase, e com o desvio conseqüente do narrador, que se põe a pensar no erro ortográfico e não no conteúdo do que a frase diz, encontrei essa voz e pude escrever o romance daí em diante.
Eu fico entusiasmado que você perceba uma diferença discursiva com o registro que é próprio das vozes testemunhais, porque me parece que em Duas vezes junho o que aparece tem mais a ver com uma posição geracional – a minha – que não responde à geração dos setenta e à militância, e sim a outro tipo de experiência da ditadura (não é o balanço da geração da militância, e sim a vivência cotidiana da infância, que foi minha experiência da ditadura: eu tinha nove anos em 1976).
2. Em Duas vezes junho, e também em outros textos seus, nota-se a preocupação de revisitar os mitos fundadores da nação. Parece-me chave o fato de que você tenha escolhido, na Copa de 1978, a única partida que a Argentina perdeu, e em 1982 outro momento de derrota, curiosamente também ante a Itália. Seriam as derrotas das obsessões coletivas os momentos privilegiados para vislumbrar o que constitui a nação?
Efetivamente, interesa-me muito indagar quais são os dispositivos com os quais se conforma uma identidade nacional. De fato, minha tese de doutorado teve como objeto estudar as estratégias narrativas da construção da figura do herói nacional argentino, José de San Martín. Há uma dimensão épica, heróica e vitoriosa que se deslocou evidentemente ao futebol, novo palco da pirotecnia nacionalista (sempre se fizeram objeções severas a que em 1982 se asimilassem, na sociedade, a guerra das Malvinas e a Copa da Espanha; de certo ponto de vista, no entanto, e ressalvando-se a distância evidente do que é o custo, em vidas, de uma guerra, isso me parece perfeitamente lógico).
As derrotas oferecem, neste sentido, um ponto de vista que é sempre mais interessante, porque ali não se verifica nem o destino de grandeza nem o esplendor patriótico (em suma, um lamento paranóico que na Argentina costuma pegar: que há uma conspiração adversa, mundial, se for necessário, para nos fazer perder).
Em Duas vezes junho, eu me propunha reverter a memória social da Copa de 78 como uma experiência de euforia coletiva. Já não indicar o pano de fundo trágico dessa euforia, o horror que subjazia aos festejos das partidas. Não isso, e sim outra coisa: construir uma imagem triste e desolada do que foi a Copa; não a da alegria enganosa, e sim a de uma profunda tristeza coletiva. Por isso tomei a noite da derrota (sem salvá-la com a perspectiva da vitória posterior, como quando se conta na história argentina a derrota de San Martín en Cancha Rayada já da perspectiva da vitória que ele logo teria na batalha de Maipu. Não: somente a derrota, sem revanche, sem redenção). Muita gente – na verdade toda a que não esteja tão informada sobre o futebol – já esqueceu completamente essa partida. A memória social inventou uma recordação de pura vitória. Então eu quis fazer um romance que fosse pura derrota.
A idéia de que o romance tivesse uma segunda parte em 1982 ocorreu-me enquanto eu o escrevia (e só então, é claro, ocorreu-me o título). Me parecia necessário avançar com a idéia de que a cumplicidade do recruta se prolonga mais além do momento em que está sob o domínio militar. A idéia da derrota nacional poderia extender-se então a seu ponto dramático: Malvinas. E também ratificar-se no futebol: a Argentina volta a perder para a Itália (quando reparei nesse detalhe, me pareceu que não podia deixar de aproveitá-lo).
3. Considerando a paixão pelo futebol, tanto na Argentina como no Brasil, é curioso que ele não tenha cumprido um papel mais central na literatura. Claro, existem os relatos de Fontanarrosa, alguns de Osvaldo Soriano, mas em geral a literatura argentina – e também a brasileira – ocupou-se pouco do futebol. Você vê alguma explicação para isso?
Há uma certa insistência muito recente no futebol como tema literário. Não sei se durará. Há por exemplo um romance de Esteban López Brusa, La yugoslava, e outro de Sergio Olguín, El equipo de los sueños. Mas é verdade que o tema do futebol não encontra a abundância que seria de se supor. Eu acredito que é difícil escapar de alguns atalhos que o tema impõe: um olhar populista sobre o mundo do futebol ou um olhar ternurista à figura do torcedor. E também talvez outra coisa: que os escritores tendem a escrever sobre as equipes das quais são torcedores. Então é mais difícil que abordem a situação da derrota (mas uma derrota sem épica nem salvação, a pura derrota, a pura desgraça). Eu mesmo não escreveria um romance onde o Boca Juniors perdesse. Não o faria. Poderia fazê-lo com uma derrota da Seleção Argentina, em Duas vezes junho, ou a derrota célebre de um boxeador argentino em Segundos afuera (Firpo em 1923: derrubou Jack Dempsey para fora do ringue, conseguiu essa façanha, mas depois perdeu a luta e não foi campeão. Esse destino de derrota, mas com a ilusão de vitória, contém para mim toda uma cifra da argentinidade). Pude escrever sobre derrotas argentinas porque meus sentimentos nacionalistas foram sendo mitigados ou até mesmo desativados de uma maneira quase cirúrgica ao longo destes anos. Quando vejo a Seleção Argentina jogar só me interesso pelos jogadores do Boca (agora: Abbondanzieri, Riquelme, Tévez) e se algum jogador do River faz um gol para a Seleção (Crespo, Saviola, Aimar) simplesmente não o comemoro. Posso escrever então sobre uma derrota argentina, mas não o faria sobre uma derrota do Boca. E escrever sobre as vitórias da própria equipe não me resulta literariamente interessante.
4. Há uma tradição na literatura argentina que culmina, digamos, em escritores como Juan José Saer, que vê na cultura de massas a esfera da banalização e da automatização. Outra tradição, com a qual se alinham escritores como Osvaldo Soriano, abraça a cultura de massas e faz dela seu material privilegiado. Estou correto se suponho que você embaralha um pouco essa oposição? Tanto em Duas vezes junho como em Segundos afuera, você trabalha com os materiais da cultura de massas, mas nota-se uma certa distância cética com respeito a ela. Você poderia nos falar um pouco disso?
Sim, você está certo. A antinomia entre “alta cultura” e “cultura de massas” é um tanto redutora, e também esquemática, e também simples em demasia, e também rígida demais; e no entanto, no meu ponto de vista, apesar do já dito, ela é substancialmente verdadeira. Acontece com os enfoques de Theodor Adorno: inclusive ali onde exagera, ali onde evidentemente não tem razão, diz entretanto uma verdade: tem razão. É claro que é um problema para a teoria cultural ver como se continua pensando depois de que alguém formulou uma crítica tão fechada e tão taxativa, e no entanto tão verdadeira. A anedota de que Adorno nem sequer atendia o telefone nas terças-feiras à noite porque estava assistindo Daktari na televisão, e não perdia um capítulo, nos dá um certo alívio. Mas acho que é basicamente certo que há na cultura de massas um fator poderoso de alienação e banalização. E também acredito que nos seus diálogos com a assim chamada alta cultura há mais mal-entendidos e distorção do que outra coisa, porque ali há duas lógicas alternativas que estão se chocando (e não dois modos culturais afins que estariam confluindo). É o que tentei expressar com os diálogos de Segundos afuera: os personagens dialogam, mas não se escutam. E se se escutam, não se entendem. E se se entendem, não se suportam.
Além do mais, uma evidência: Saer escreveu uma grande literatura e Osvaldo Soriano não.
5. Você tem também uma carreira como crítico e acadêmico, e no entanto não se nota nos seus romances a sobre-teorização que se vê na ficção de tantos críticos-escritores (penso aqui em Sartre como paradigma disso, mas há muitos outros; na Argentina poderíamos pensar em Ricardo Piglia). Eu gostaria de saber se você trabalha conscientemente com esse dilema, o de separar as duas vozes.
Não, eu não procuro nem fujo dos contatos entre o registro da crítica e o registro da ficção. Escrevo o que me ocorre da maneira que posso, não tenho o propósito definido de enlaçar esses dois discursos, mas tampouco o de cindi-los. Escreve-se basicamente a partir do que se leu, e minhas leituras provêm com freqüência do que faço como crítico literário. Uma vez escrevi um romance sobre San Martín, porque as leituras da tese de doutorado me haviam submerso nesse mundo (mas curiosamente ele não foi visto como um romance acadêmico, e sim como um romance de mercado, porque justamente então os romances históricos entraram na moda. Ou seja, nunca se sabe, a melhor coisa é desentender-se e escrever o que se quer escrever).
Além do mais, não é verdade que os universitários escrevamos para os universitários, como tendem a supor alguns escritores que, por estar fora do mundo universitário, imaginam – e se equivocam – que o que está ali dentro é um mundo de confrarias e cumplicidades. Em todos os lugares eles acreditam ver piscadelas e sub-entendidos que os excluem, mas são seus próprios complexos e sua própria paranóia que geram neles esse efeito.
6. Há um mini-boom de tradução de literatura argetina no Brasil, depois de muito tempo de ignorância completa. Escritores como você e Alan Pauls, que eu jamais imaginaria que fossem estar disponíveis para meus compatriotas, foram publicados em tradução. No caso de que haja algum editor lendo-nos, quais ficcionistas da sua geração você destacaria como fundamentais hoje?
Eu destacaria fundamentalmente Juan José Becerra e Gustavo Ferreyra.
Escrito por Idelber às 03:03 | link para este post
| Comentários (20)
#1
gostei muito do seu blog, vou fazer um link permanente para ele em Contemporânea, posso? Abraço, Carla
Carla Rodrigues em junho 9, 2006 9:38 AM
#2
Bem produtivo, muitas publicações para a idade.
Achei interesante quando ele fala de Adorno e da anedota. Realmente, alivia saber isso.
Idelber, valeu o Clube, ótima idéia. É bom quando um blog favorece debates e estimula a boa leitura. Parabéns pela iniciativa.
Abraço extensivo a todos.
Isadora em junho 9, 2006 1:23 PM
#3
Mas é claro que sim, Carla! Muito obrigado :-)
Idelber em junho 9, 2006 1:48 PM
#4
"Eu mesmo não escreveria um romance onde o Boca Juniors perdesse."
"Posso escrever então sobre uma derrota argentina, mas não o faria sobre uma derrota do Boca."
Caramba! Eu me sinto exatamente assim em relação ao Corinthians e à seleção brasileira. Tenho dito aqui e ali que me empolga a Copa do Mundo por ser uma ocasião na qual assisto aos jogos, inclusive do Brasil, sossegada, sem a tensão das partidas disputadas pelo Corinthians. Até hoje, eu me sentia meio "traíra", para usar uma linguagem futebolística, em função desse sentimento. Vejo que tenho companhia e isso me tranquiliza!
Alessandra Alves em junho 9, 2006 4:31 PM
#5
Excelente entrevista.
(Se ele não torcesse para o Boca, estaria mais perto da perfeição, né?)
Milton Ribeiro em junho 9, 2006 6:06 PM
#6
Alessandra, seu sentimento é normal. A paixão pelo clube supera e muito a paixão pela seleção.
Acredito que a maioria dos torcedores que realmente acompanham o futebol, se tivessem que escolher, prefeririam ver seu clube campeão mundial, a ver a Seleção ser Hexa. Eu sei que eu sou um deles.
Voltando ao tópico, muito boa a entrevista. E fica aqui meus parabéns ao Kohan pelo excelente livro.
Abraços a todos.
Ricardo Antunes da Costa em junho 9, 2006 6:35 PM
#7
Ah, Ricardo, sem dúvida. Mil vezes ver o Inter campeão mundial uma vezinha...
Milton Ribeiro em junho 9, 2006 10:15 PM
#8
Con todo respeto, estimado Idelber, pero habrá que revisar ahora tus pálpitos para el mundial, ¿no? Ya sé que no confiabas mucho en el Ecuador, una baba (¿bizcocho?) en tu opinión, pero ahora le hemos ganado a Polonia, hazaña menor sin duda, pero hazaña al fin y al cabo. ¿Qué opinas de eso? Yo en todo caso espero que al Ecuador le vaya lo mejor que se pueda, en su modesto nivel, y que a Brasil, que no necesita suerte, le vaya también de puta madre. Brasil es la única selección que ha ganado fuera de casa así que, con experiencia, es posible que lo vuelva a hacer.
Rafa em junho 9, 2006 10:58 PM
#9
Estimado Rafa, mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa. Festejé mucho la victoria de Ecuador con amigos ecuatorianos, en un bar aquí en New Orleans (la festejé a pesar de haber previsto que no ganaba). Mi opinión desfavorable venía de varios partidos que jugó Ecuador al nivel del mar (ya sé que en la altitud nadie les gana). Vi en vivo, por ejemplo, el 0 x 0 contra Chile en Santiago, donde jugaron bastante mal.
!Pero me alegro de haberme equivocado! Claro, hay que rever la previsión. Pasan Alemania y Ecuador.
Perdóname si ofendí con la previsión (nosotros brasileños tenemos la capacidad de ser infinitamente arrogantes cuando el tema es el fútbol) y !felicidades a Ecuador por su segunda victoria en Mundiales!
Abrazos,
Idelber em junho 9, 2006 11:08 PM
#10
Muito boa a entrevista, Idelber.
By the way, serei convidado para blogar tambem no Verbütsfußballbloge?
Tá certo que Peru nao teve folego para chegar à Copa, mas sempre há alguma coisa interessante para se faler deste lado dos Andes.
Um abraço,
Renato
Renato Guimaraes em junho 9, 2006 11:37 PM
#11
Parabéns professor Idelber.
Excelente entrevista.
Grande encerramento.
Roberson em junho 9, 2006 11:40 PM
#12
Obrigado, Renato. Quanto ao blog da Copa, eu sou somente um hóspede lá. Fale com o Milton e o Tiagón, que são os anfitriões. Abraços :-)
Idelber em junho 9, 2006 11:49 PM
#13
Eu também me surpreendi positivamente com o Equador! Fiquei muito feliz com a vitória, apesar de também ter apostado na Polônia.
Agora basta o Equador vencer a Costa Rica, e a Polônia não vencer a Alemanha, que os equatorianos se classificam. Bastante provável, não?
Como diriam os torcedores de Quito:
¡Sí, Se Puede!
¡Sí, Se Puede!
Ricardo Antunes da Costa em junho 10, 2006 11:18 AM
#14
Caro Idelber, essa é a primeira vez que venho parar em seu blog. Li a entrevista com Martin Kohan e já me decidi por comprar, o mais cedo possível, seu livro "Dos Veces Junio" (descobri que a Livraria Cultura vende o original, apenas 66 centavos mais caro que a tradução). Abraço.
Daniel Lopes em junho 10, 2006 11:28 PM
#15
Idelber, sou eu novamente, apenas para agradecer a visita e avisar que já te linkei por lá. Outra coisa: você poderia me mandar um e-mail, para eu te adicionar na minha mail list? Eu a uso apenas uma vez por semana, ou nem isso, para dar um toque nos amigos, quando posto algo que acho ser interessante no blog.
Abraço.
Daniel em junho 11, 2006 10:44 AM
#16
Vim pelos caminhos da Adelaide e gostei demais. Voltar será sempre um prazer. Um abraço e parabéns
vera do val em junho 11, 2006 2:20 PM
#17
Tarde pero llegué. Idelber, muy lúcida entrevista. Ahora voy para abajo, en busca de la lectura crítica. Abrazo
Oliverio em junho 13, 2006 5:08 AM
#18
Oliverio, querido, qué bueno que alcanzaste ver la entrevista. Gracias,
Idelber em junho 13, 2006 1:02 PM
#19
Idelber, corrigindo uma coisa. O livro de contos "Uma pena extraordinária" não foi publicado. Fizemos apenas uma pequena edição que contemplava somente o conto do mesmo nome.
Marcelo Barbão em julho 14, 2006 3:21 PM
#20
Encontrei esse blog logo após assistir um curso de Martín Kohan, aqui em Poa, sobre Jorge Luis Borges. Muito bom crítico e pessoa de rara inteligência, por isso, com certeza comprarei o livro Duas vezes Junho.Os comentários no blog são ótimos.parabéns ao dono do blog e a seus comentadores.
Tiago Pedruzzi em julho 27, 2006 11:40 PM