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quinta-feira, 15 de junho 2006
Parreira inventa o revolucionário esquema 6-0-4
Parreira e Golias: separados no nascimento?
Com outras palavras, o Milton Ribeiro já explicou a coisa lá no Verbütsfussballbloge, mas quem achou a expressão exata foi a Mary W: o time do Parreira joga no 6-0-4. Depois do 3-7-0 inventado pelo Geninho no Corinthians, é a grande invenção da tática tupiniquim: um time sem meio-campo. Não pode dar certo mesmo.
Todas as grandes equipes têm uma cabeça pensante no meio-campo, um armador de jogadas. É o velho meia-armador: o Brasil de 58 e 62 tinha Didi, o Brasil de 70 tinha Gérson, o Inter dos bons tempos tinha Falcão, o Galo tinha Cerezzo, o Flamengo tinha Adílio, extraordinário jogador ofuscado pelo brilho de Zico. Não há como armar uma grande equipe sem um cérebro pensante no meio-campo (não, isto não é um pleonasmo: há uma legião de cérebros não-pensantes por aí).
O Brasil de Parreira, tendo em mãos uma geração talentosíssima, joga com dois volantes (Emerson e Zé Roberto), dois meias-atacantes (Kaká e Ronaldinho Gaúcho, este último atuando completamente fora de sua característica), dois centroavantes (Adriano e Ronaldo) e nenhum armador nato. O resultado é que o time não tem meio-campo propriamente dito: ele vira uma sucessão de compartimentos estanques.
Emerson é um bom volante de contenção, mas é incapaz de criar jogadas na saída de bola do Brasil. Zé Roberto até tem algum talento criador, mas no esquema de Parreira ele é destruidor, roubador de bolas e responsável pela cobertura de Roberto Carlos – funções que ele executa bem, mas que não lhe deixam tempo nem energia para criar nada. Quando o Brasil recupera a bola, essas funções ficam nos pés de Kaká e Ronaldinho Gaúcho, que têm que voltar para atuar numa faixa do campo que não é a sua.
Kaká demonstrou raça contra a Croácia e voltou para buscar jogo. Mas aí ele sai de sua característica, que é a arrancada a partir da intermediária adversária. Ronaldinho, recebendo bolas lentas no círculo central e tendo diante de si toda a defesa adversária, jamais será o jogador que conhecemos no Barcelona. Para piorar as coisas, a dupla de ataque é redundante: tanto Ronaldo como Adriano são finalizadores, jogadores de área. Adriano até tentou, mas jamais será capaz de sair da área para armar tabelas. Não sabe fazer isso. Ronaldo andou em campo. Com dois tanques lá na frente e sem meio-campo, não dá. Juca Kfouri disse isso outro dia no blog dele e eu também falei da impossibilidade de que Ronaldo e Adriano joguem juntos exatamente um ano atrás.
De tanto ser chamado de retranqueiro, parece que Parreira, por pirraça, resolveu montar um time com um excesso de atacantes – só na teoria, claro, ele é um time “mais ofensivo”. Termina sendo até um time mais defensivo, porque não consegue manter a bola no campo do adversário.
Muita gente se pergunta por que Ronaldinho Gaúcho – apesar de às vezes jogar muito bem na seleção – não consegue repetir lá as atuações encantadoras que faz no Barcelona. Parreira responde com o papo-furado de que no Barcelona ele brilha porque é a única estrela, e na seleção tem que dividir o palco. Nada disso: ele não brilha porque meia-atacante nenhum vai brilhar recebendo a bola no círculo central, sem arranque e tendo 6 defensores pela frente.
Conclusão clara para quem conhece o plantel da seleção: o Brasil precisa de Juninho Pernambucano, armador nato, que além do mais sabe dar combate. Isso possibilitaria adiantar o Ronaldinho Gaúcho para que ele atuasse na faixa do campo onde ele é o melhor do mundo. Possibilitaria também que a bola chegasse a ele e a Kaká na faixa de campo em que eles arrebentam.
Quem deve sair? Ronaldo, claro. Será que vocês vão achar que é arrogância minha se eu disser que isso é o óbvio do óbvio?
Escrito por Idelber às 02:16 | link para este post
| Comentários (17)
#1
Viste o R. Gaucho lançando no vazio mais de uma vez ? Estamos sem armador e com 2 centro-avantes batendo cabeça, ou melhor, barriga.
Quero ver o Ronaldo começar o jogo com a Australia. Se não der mais mesmo p/ ele então banco direto até o fim da Copa. (Ele está com algum problema além de somente o físico. Febre amarela? Como bem disse o Sérgio Faria)
Alemanha suou para arrancar unzinho da Polonia mas jogou pra cacete.
Fábio S. em junho 15, 2006 10:03 AM
#2
Muito bem explicado. Ainda assim, a seleção que você propõe não me parece a ideal, mas a possível com estes jogadores e com o Parreira.
andre lopes em junho 15, 2006 10:21 AM
#3
Ronaldinho Gaúcho chegou ao Barcelona no início da temporada 2003/2004, mas só começou a brilhar no segundo turno, com a chegada de Davids ao time.
O Barcelona começou aquela temporada de forma desastrosa, passou o primeiro turno na ponta de baixo da tabela e, com a chegada do jogador holandês, fez um segundo turno magnífico, e só não levou o título porque o Valência foi regular o campeonato inteiro. Acabou na segunda colocação.
No final da mesma temporada, Davids saiu, mas para seu lugar chegou Deco, peça fundamental no esquema do técnico Rijkaard no Barcelona, e de Felipão na seleção portuguesa.
Ou seja, pra Ronaldinho brilhar, alguém tem que carregar o piano no meio-campo. E, na seleção brasileira, o homem certo para fazer isso, com certeza, é o Juninho.
Ricardo Antunes da Costa em junho 15, 2006 10:53 AM
#4
Adicionaria:
Ademir da Guia talvez o mais brilhante armador "de clube" de todos os tempos, já que Didi e Gérson brilharam na seleção. Dirceu Lopes, um dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos.
Mengálvio que foi o armador do Santos no tempo que o time praiano jogava de dois em dois dias, mas que em momentos decisivos teve ao seu lado o volante que 'carregava o piano' como poucos, 'armava como muito poucos' e, vejam só eventualmente 'tabelava' com Pelé!
Sou a favor de que Ronaldo entre jogando.
Paulo em junho 15, 2006 10:57 AM
#5
Bem lembrados o Ademir da Guia, Dirceu Lopes e Mengálvio, Paulo. São nomes que me passaram pela cabeça quando fazia o post.
Você jogaria com a mesma formação que o Parreira tem usado?
Idelber em junho 15, 2006 11:21 AM
#6
¡Si, Se Puede!
Que beleza! O Equador se classificou! Ganhou bem da Costa Rica, e tem até a vantagem do empate contra a Alemanha na decisão do grupo.
Agora é torcer pro Paraguai contra a Suécia.
¡Si, Se Puede!
Ricardo Antunes da Costa em junho 15, 2006 2:24 PM
Rogério Almeida em junho 15, 2006 3:59 PM
#8
e o maior crime do Parreira me parece esse. Tirar o Gaúcho da característica e inviabilizar que ele brilhe. Quem assisti os jogos do Barcelona nao tá reconhecendo mesmo.
mary w. em junho 15, 2006 4:35 PM
#9
(assiste). E minha "soluçao" tambem é o Pernambucano.
mary w. em junho 15, 2006 4:36 PM
#10
Pois é, mary, vamos ver se o Parreira acorda. Hoje a Folha noticiou que ele já confidenciou aos mais "próximos" que Ronaldo pode sair já no terceiro jogo :-)
Idelber em junho 15, 2006 4:44 PM
#11
o pior de tudo é perceber a força que a cobertura da rede globo faz pra que o clima de "sai fora, ronaldo" não transpareça em suas reportagens. em algum momento, um deles até falou que, assim como na copa da frança, o ronaldo resurgirá das cinzas lerdas em que se encontra e brilhará, conseguindo a façanda de se tornar o maior artilheiro das copas...
alguém devia preservar esse moço, respeitar a história dele - que de fato é impressionante. chamar o parreira de lado, na boa e confidenciar a ele o que é óbvio a todos. sim, idelber, é óbvio. mas o parreira nunca vê. ou não quer ver. ou não pode. sei lá...
e agora a austrália. será que seremos campeões com sete gols? campeões e loucos todos? queiram os deuses do futebol que não.
abraço.
Thiago em junho 15, 2006 6:29 PM
#12
Parreira acha que Copa é guerra pra jogar com dois tanques la na frente...Juninho já, Ronaldo nao tem condição nenhuma, parece um amador no meio de atletas profissionais
Penalva em junho 15, 2006 7:51 PM
#13
"Phoda" é o sujeito vir corrigir e ainda corrigir errado. Só para que conste: Antonio Carlos Cerezzo é o nome que consta na certidão, embora muita gente escreva "Cerezo".
Idelber em junho 15, 2006 7:54 PM
#14
Não entendo isso de 6-0-4. Vc falou que o time do Brasil não tem meio-campo e deu uns exemplos anteriores. Só para eu me situar: seria como o Dunga? :)
Isadora em junho 15, 2006 9:09 PM
#15
Não exatamente, Isadora. O Dunga em 94 e 98 cumpria a função que hoje é do Emerson: cabeça-de-área, aquele meio-campista que joga bem na frente dos zagueiros e cuja função é roubar bolas, dar combate. Isso nós temos. O que não temos é o segundo cara no meio-campo: o que recebe as bolas e arma jogadas, lança, cria. É o chamado meia-armador (Didi, Gérson, etc.). Do plantel que o Parreira levou só o Juninho Pernambucano poderia mesmo cumprir essa função com naturalidade. Por isso há tanta gente pedindo a escalação dele.
Idelber em junho 15, 2006 9:49 PM
#16
Eu não concordo que o Émerson e o Zé Roberto não podem ser a saída para o ataque que o Brasil precisa. O problema é que eles precisam ficar muito atrás, assim como acontece com o Ronaldinho. Se tivessem o Gilberto Silva cobrindo, poderiam sair com tranquilidade. Mas o Juninho faria isso com mais qualidade, com certeza.
Mas como eu disse lá no outro blog (o alemão aquele :)), se essa tarefa fosse confiada ao Émerson e ao Juninho, aí sim seria perfeito. Como eu acho que o Zé Roberto não pode sair do time, sobra para o Roberto Carlos.
Locão em junho 16, 2006 2:03 AM
#17
Eu também escalaria o Zé Roberto no lugar do Roberto Carlos, Locão. Aliás, a tua escalação está fantástica.
Idelber em junho 16, 2006 2:05 AM