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quinta-feira, 08 de junho 2006

Sobre Duas Vezes Junho, de Martín Kohan

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¿A partir de qué edad se puede empesar a torturar a un niño? É a frase assombrosa que escolhe Martín Kohan para começar o seu Dos veces junio. A frase é encontrada por um recruta numa mesa de recados de uma delegacia policial argentina, em 1978.

Mas empezar em espanhol se escreve com z. O erro ortográfico introduz um corte, uma distração, um cisco no horror da pergunta. Fornece o mote para a operação notável que realiza esse romance: falar do terror absoluto com uma voz que não percebe, não se dá conta. Ele fala do apocalipse de dentro dele, como se ele não estivesse acontecendo. O protagonista tem um tom neutro, asséptico. O pano de fundo é a questão quase inimaginável: a tortura de crianças como forma de chantagem sobre os pais e o roubo e venda de bebês, extensamente praticados pela ditadura argentina.

A tarefa do recruta é achar o chefe, o “doutor” Mesiano, um dos responsáveis pelo horror, a quem ele é ligado também por laços de respeito e amizade. Precisa conseguir uma resposta para essa pergunta. E o chefe não está lá.

Aí entra o futebol. O chefe foi ao jogo. É a noite da partida entre Argentina e Itália, vencida pela Itália por 1 x 0. Engenhosamente, Kohan toma a euforia pela Copa do Mundo mas escolhe o único dia de derrota da seleção. Faz dessa derrota “o momento de verdade” mascarado pelo patriotismo triunfante que o esporte ofereceu, a calhar, à ditadura dos militares.

Para esquecer a derrota, vão uma noitada com mulheres, durante a qual conhecemos Sergio Mesiano, filho do chefe, quase um pateta. Não sabe dizer ao recruta o que aconteceu no jogo, porque não entende o futebol. Depois da noitada, viaja mordendo os lábios no carro, como se algo estivesse errado. Vão a Quilmes, cidade da província de Buenos Aires, onde se decidirá quem terá direito ao próximo bebê roubado.

O encontro entre o “doutor” Mesiano e o “doutor” Padilla (o que havia telefonado para fazer a pergunta) nos dá a chave do acontecido. Uma mulher, ao fundo, grita, pede ajuda. Acaba de dar à luz. Está à beira da morte, como resultado da tortura. Mas tudo isso chega a nós sem sentimentalismo, sem arroubos retóricos, sem tom de denúncia. Chega quase como um fato banal porque, afinal, percebemos o horror pelos olhos do cúmplice.

Corte, flash forward. Quatro anos mais tarde, também em junho, o recruta lê uma lista em que aparecem os mortos na guerra das Malvinas. Encontra o nome de Sergio Mesiano. A ironia é atroz: provavelmente morreu numa ilha que ele não saberia localizar num mapa. O ex-recruta, agora estudante de medicina visita seu antigo patrão, recebe o recado de que ele está na casa da irmã, num churrasco. Parte para lá e vê o garoto, “Antonio”, o bebê roubado. A mulher dá cantadas baratas no recruta, avisa que o marido viaja muito. O “doutor” Mesiano avisa que se aproximam tempos difíceis: ele já percebe que a ditadura tem seus dias contados. Também é dia de jogo contra a Itália, pela Copa de 1982, na Espanha. Outra derrota argentina.

Depois do abraço de despedida no ex-patrão o recruta sai, liga o rádio do carro e observa que não consegue se lembrar bem dos seus sonhos. Fim da história.

A literatura argentina dos anos 80 e 90 foi rica em romances sobre o descalabro vivido pelo país entre 1976 e 1983. O regime militar argentino matou ou “desapareceu” mais de 20.000 pessoas em sete anos, cifra que faz a ditadura de Médici parecer brincadeira de criança. Mas a maioria dos textos argentinos sobre o período foram grandes máquinas alegóricas ou relatos testimoniais verborrágicos, retóricos, indignados.

Kohan faz algo que nunca se havia feito: coloca a voz narrativa na boca de um recruta, um cúmplice que não é um ideólogo, mas um subalterno. Eu me apaixonei por esse livro porque ele trabalha tão bem essa voz, a do subalterno. Pouco a pouco vemos que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade.

A forma do romance é coerente com a escolha da voz: são pequenos parágrafos com frases curtas, secas. Há toda uma poética, uma estética anti-sentimental e poderosamente política nesse livro. O recurso ao futebol, apesar de revelar o seu papel como mascaramento patrioteiro dos horrores da ditadura, não repete o surrado clichê do “esporte como ópio do povo”. Pelo contrário: é ali, no momento de derrota futebolística, que a verdade suja da sociedade se faz visível ao leitor.

Enfim, fiquei fã do autor. E aproveito este post para parabenizar a Amauta pela iniciativa e o tradutor e editor Marcelo Barbão, por disponibilizar ao público brasileiro esse texto tão poderoso, vindo do país que produz uma das mais ricas literaturas do mundo.

Eu não li a tradução brasileira, mas todos os relatos são de que ela é impecável. Estou curioso para saber como o tradutor resolveu a questão do erro ortográfico inicial.

E quero saber, claro, o que vocês acharam do livro. Digam lá.

Atualização: Amanhã estará no ar a entrevista com Martín Kohan.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (40)


Comentários

#1

já fiz um post... tb li em espanhol mas a resposta a sua duvida é facil: o cara deve ter escrito começar com dois SS

alex castro em junho 8, 2006 5:26 AM


#2

É quase isso Alex, ele escreveu começar com um
S apenas.

Rodrigo Viana em junho 8, 2006 8:24 AM


#3

Como primeira observação, declaro o mais fundamental, ou seja, minha impressão ao fechar o livro: é excelente e muito bem traduzido - aleluia! - por Marcelo Barbão. (Eu ia comprar o livro em espanhol, mas recuei após saber do preço. Não me arrependi de ler a versão em português, da Amauta Editorial, com sua bela e estimulante capa.)

Gostaria de delimitar algumas coisas relativas ao livro. Seu título refere-se a dois junhos de Copa do Mundo, o de 1978 (dias 10, 11 e 12 de junho) e o de 1982 (dia 29 de junho, penso eu). São dias - e isto não é casual - de derrotas do futebol argentino, porém, isto apenas serve para reforçar uma metáfora, pois Duas Vezes Junho fala é da Grande Derrota Moral da Argentina daquele período. E não, não é um livro apenas para futebolistas, é um livro que usa o futebol na sua mais gloriosa função periférica, a de servir como representação de nossas vidas. O futebol fica sempre no fundo do cenário, como a lembrar que, ali ou na vida, as coisas podem não sair confome o previsto.

Martín Kohan começa o livro com uma curiosa indagação presente numa espécie de diário de bordo de uma das prisões argentinas: A partir de que idade se pode começar a torturar uma criança? Esta pergunta, de um absurdo quase cômico para quem está fora do contexto, vai tomando proporções e significados diferentes à medida em que o relato avança. E o relato avança em dezenas de pequenos capítulos contrapontísticos, onde várias vozes vão contando e completando seus temas para estabelecer o todo. Raramente uma destas vozes exalta-se ou é confrontada; cada uma delas tem sua lógica, sua razão e a função de formar o mosaico de Kohan. O resultado deste mosaico é estarrecedor e a inconclusão do momento dramático mais importante do livro - a cena entre o soldado e a mulher torturada na prisão, ocorrida no mesmo momento em que os "médicos" discordam e que é o único capítulo em que o contraditório comparece plenamente - nos dá a medida de uma história que repetiu-se tantas vezes a ponto de tornar-se pedra de um outro mosaico ainda maior, o da verdadeira tragédia que representaram os governos militares daquele país.

Ao ler o som dessas vozes, algumas contando fatos que ficam inacabados, ao ler a forma como Kohan finaliza as duas seções de sua novela, ao perceber que não há excessos em Duas Vezes Junho não consigo deixar de pensar no Tchekhov dramaturgo. Isto é um dos maiores elogios que este modesto escriba pode fazer a alguém.

Todos nós sabemos que a posição do Brasil em relação à literatura argentina é o inverso de sua posição futebolística... Acho lamentável que o Brasil, que também sofreu uma ditadura duríssima - casualmente com um de seus piores períodos ocorrendo durante a Copa de 70 -, tenha tão poucos romances dedicados ao assunto. Os que li são da época dos "Romances de Resistência dos Anos 70". Há bons romances - Quarup, Incidente em Antares, Bar Don Juan, a obra-prima esquecida Quatro-Olhos, de Renato Pompeu, e outros -, mas os poucos que atualmente dedicam-se àquele periodo preferem utilizar um tom emocionado muito próximo da indignação e do discurso político. A opção de Kohan por uma narrativa fria, distanciada e paradoxalmente nostálgica, causa um impacto muito maior. Vejam bem, escrevi distanciada, não escrevi cínica. Não se precisa descrever as entranhas e cada atitude de um monstro para sentir-se quão terrível ele é. Se espreitarmos algumas atitudes dele, nossa imaginação faz o resto de modo muito mais eficaz.

Final futebolístico: o que não assustava muito era aquela seleção argentina de 78, cujos zagueiros centrais eram dois pigmeus - Galván e Passarella - e cujo inexistente ponta-esquerda - Ortiz - fora dispensado do Grêmio por deficiência técnica. Lembro de Grenais em que Ortiz era vaiado pelos próprios Bananas de Pijamas. Como os argentinos venceram aquela Copa? Ah, não sei; havia o Peru, havia Videla e havia Claudio Coutinho preferindo Chicão a Falcão. É melhor nem pensar a respeito. Hoje, sugiro aos argentinos escrever livros e esquecer o futebol. E viva a Holanda e Costa do Marfim!

Milton Ribeiro em junho 8, 2006 9:36 AM


#4

Idelber, em algumas partes do post você escreveu Masiano. E no final o cara seria ex-recruta, então estudante de medicina.
Estou gostando... o comentário do Milton ficou muito bom. Depois envio o meu.

Isadora em junho 8, 2006 10:07 AM


#5

Caro Idelber:

A propósito da editora Amauta: excelente a epígrafe Derrubando o muro de Tordesilhas. A edição é caprichada: cuidados gráficos, capa e brilhante tradução. Clap!Clap!

Barbão resolve o erro ortográfico com o brasileiríssimo cê cedilha. Boa tirada.
Kohan foi brilhante ao distanciar emocionalmente o narrador dos fatos, o que aumenta a participação do leitor na compreensão-realização da obra. Como nos bons filmes de suspense, a ação só é sugerida, ainda que o clima criado seja por demais revelador.

O estraga-prazeres colorado Milton Ribeiro já comentou a melhor passagem do livro (o encontro da torturada com o soldado-estudante). Depois dele, melhor ficar quieto.

Um detalhezinho deveras interessante: os títulos dos capítulos, todos em números. São placares dos jogos, número de identidade, número de convocação para o serviço militar, pesos e medidas... números, números, números. Que remetem a contagem. Contagem de vítimas??

Roberson em junho 8, 2006 11:10 AM


#6

Eu achei o livro muito bom. O formato em pequenos parágrafos me agradou bastante.

Realmente é interessante a forma que livro denuncia os abusos da ditadura, (a tortura de uma mulher grávida, o estupro de uma garota por alguns soldados), porém colocando-os como fatos secundários e paralelos à história.

Eu fiquei esperando a conexão desses acontecimentos com a história contada pelo recruta, mas houve apenas o encontro dele com a mulher torturada. No resto, eram apenas denúncias, de forma distanciada, como escreveu o Milton, no meio do romance.

No mais, está sendo muito legal participar do clube. Li o livro, mas não sabia o que esperar do debate. Já aprendi muito com os comentários do Idelber e do Milton. Espero ansioso pelos demais.

Abraços.

Ricardo Antunes da Costa em junho 8, 2006 11:11 AM


#7

Idelber e colegas de clube,

"Mas você JÁ terminou o livro?", foi a pergunta que meu filho Gabriel, seis anos semana que vem, fez com toda ênfase no "já", ao sair da consulta de quarenta e cinco minutos da qual eu o aguardava, na sala de espera. Não tinha terminado: faltavam vinte páginas e eu estava naquele ponto que se quer avançar, para conhecer um final já imaginado, mas pesarosa de me apartar daquela sequência impactante de fatos e reflexões.

Dizer que "Duas Vezes Junho" tem uma narrativa cinematográfica seria um reducionismo imperdoável. É uma seqüência de imagens, curtas e secas, sem dúvida, mas com uma carga de tensão que enseja não apenas a reflexão sobre o momento histórico relatado como a própria análise do papel de cada personagem.

Essa tensão crescente produziu em mim um apego à história e uma ansiedade por chegar ao seu final de paralelos raros em minha vida de leitora. No passado mais recente, lembro de ter ficado assim, tão envolvida com a trama, apenas na leitura de "Crime e Castigo", na primeira e excelente tradução direta feita para o português.

A comparação com Dostoievski me parece procedente porque as duas narrativas, tão diferentes em sua forma - a russa, longuíssima e detalhada à exaustão; a argentina, condensada e direta - direcionam para uma análise da psiqué dos protagonistas. Os dois autores traçam perfis humanizados de seus personagens, levando o leitor a um entendimento de seus atos, por mais horrendos ou desprezíveis que sejam.

Mas algo torna o recruta de Martín Kohan muito especial do ponto de vista de um protagonista. Ele é o narrador da história, mas quase um anti-protagonista, na medida que não exerce a ação em dois momentos cruciais do livro. Ele não assiste ao jogo, ele não dá o telefonema que a presa/torturada lhe suplica. Essa não-ação me sugeriu uma passividade que seria alegoria da própria cumplicidade da sociedade argentina com o momento sócio-político em questão.

A relação de respeito e até admiração entre o recruta e o doutor Mesiano, esse sim, um agente (ele assiste ao jogo, ele rouba o bebê), também me sugeriu uma analogia sobre a relação de respeito temeroso do povo com os ditadores. Mas que não se enxergue erronemente uma "simpatia" do autor/narrador passivo à figura do ditador. O ajuste de contas histórico, quase uma lógica moral, nos dá pistas da "vingança" da sociedade com seu déspota, na morte em combate do filho do militar.

A analogia mais evidente está na tática de futebol como tática de guerra, mas uma outra comparação me impressionou muito. É um trecho em que o recruta reflete sobre as palavras do doutor Mesiano, acerca de entrega da prostituta (ao cliente) e do doente (ao médico), localizando nos dois casos a origem desse desapego - são corpos que já não lhes pertencem. E não seria também o caso dos torturados? Só que Kohan não fecha a análise dessa forma, o que me soou muito interessante, como se o autor nos oferecesse essa reflexão, generosamente deixando o leitor pensar por si.

Enfim, um livro magnífico. Agradeço à Amauta pela iniciativa de lançar no mercado brasileiro a obra latino-americana contemporânea. Não li o original, mas a tradução só pode ser louvada, até pelo desafio vencido de não comprometer o cerne da narrativa, em uma frase que enseja tanta reflexão a partir de um erro ortográfico.

Meus cumprimentos ao autor e, se for possível, já que ele deve ter contato com nossa discussão, gostaria de deixar uma pergunta a ele:

Qual lhe parece ser o interesse das jovens gerações argentinas por esse período da história (a ditadura militar) e de que maneira obras artísticas como seu romance contribuem para trazer luz a fatos daquele período?

Idelber, obrigada pela indicação do livro e pela oportunidade de discussão. Que venha o Rosa!

Alessandra Alves em junho 8, 2006 11:25 AM


#8

Idelber,
O livro parece muito bom e o que vc disse "que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade" me lembrou a Alemanha nazista, guardando as devidas proporções.
Milton, tb gostei muito do seu post.
Porém, apesar das boas referências, vou passar, não vou ler o livro. Sofrimento de crianças me causam uma dor tão grande que não consigo ver filme ou ler livro em que isso ocorra.

Krys em junho 8, 2006 11:32 AM


#9

Não deu tempo nem condição de ler antes de começar a discussão, mas seu opost me obriga a correr pra comprar o livro, Idelber. Tinha pensado como o Alex, o S, claro. Me vieram à mente os belíssimos filmes que os argentinos fizeram sobre a ditadura. Belos porque bem feitos, um deles, lamentavelmente esqueci o nome, é um soco nas visceras, que fala também sobre esse uso de crianças pelos meganhas. No caso, uma menina. Tem umas babaquices paranormais, mas é espetacular. Desculpe se fujo ao Kohan. Vale discutir esse ponto abordado por você, de como tratar do horror, sem panfletarismo?

S Leo em junho 8, 2006 1:15 PM


#10

Idelber.

É verdade, há o "Antonio" que se chama Guillermo e a morte de Sergio a completarem brilhantemente a novela.

Descobri indagorinha que Marcelo Barbão é um blogueiro cansado, hospedado no Gardenal. Sabias?

http://www.gardenal.org/barbao/

Só falta conferir se ele usa mesmo barba.

Abraço.

Milton Ribeiro em junho 8, 2006 1:20 PM


#11

Está muito legal o debate! Ainda estou meio sonolento, acabei de acordar. Daqui a mais ou menos uma hora eu volto para conversar.

Enquanto isso, quem ainda não viu, deveria ver o comentário do Alex Castro, que é uma contraposição interessante. Ao contrário da maioria aqui, o Alex não gostou do livro. Já volto.

Idelber em junho 8, 2006 2:19 PM


#12

(podes deletar este comment)

O Paulo Miranda, grande e premiadíssimo escritor português, amigo meu, está com um curioso texto no Verbütsfussballbloge. Vai brilhantemente do grande ao pequeno interesse.

Milton Ribeiro em junho 8, 2006 2:56 PM


#13

Idelber, valeu a indicação de Duas vezes junho porque talvez eu nunca o comprasse pois não gosto muito de futebol e porque desconhecia a Amauta Editorial.
A frase do livro que me tocou foi "Depois de ter-se resignado que ia morrer, teria que se resignar agora de que a vida continuaria". (Trecho em que a garota presa, cansada de tudo, espera um tiro e foi um blefe).
Quanto ao narrador destaco duas atitudes suas, interessantes até, mas que não compreendi:
 - Quando o soldado de Quilmes perguntou se ele sabia que o termo colimva vinha das palavras corre, limpa, varre ele, mesmo tendo o costume de não mentir, disse que não sabia.
- Quando enterrou o anel para depois, mesmo querendo, não encontrar.
Também me chamou a atenção "um certo desdém" que ele transmitia quando se referia aos outros. Apenas o doutor Mesiano e o "Falcom reluzente" receberam elogios de sua parte. Doutor Mesiano, então, era quase um herói para ele. Alguns exemplos que colhi do livro:
- Ele próprio: "...mas isso não me dava o direito de corrigir, nem eu devia, por isso, me sentir superior porque, nesse lugar, eu não era um superior mas um subordinado", também dizia-se ignorante e que só tinha valor, ou ido longe demais, por ter recebido a confiança do doutor Mesiano e não por mérito próprio.
- Quando falava do pai e suas "dicas".
- Sergio Mesiano: "...tive a impressão que Sergio não tinha preferências ou ao menos as desconhecia".
- Sheila, a prostituta: seu tique e a história de não ter nome autêntico.
- Padilla: "Mais grave que a minha demora é a sua ignorância, doutor".
- Lugo: "...tinha uma posição mais relegada que a minha".
Essa atitude de ver mais aspectos negativos nas pessoas -- a inveja dos militares com relação ao seu ídolo o doutor Mesiano, as conversas enjoadas do pai dele, o jeito sem graça de Sergio em contraponto ao pai, só viu o povo mudo e cabisbaixo porque o time perdera um jogo (será que ninguém comentava nada do jogo na saída?) -- não me agradou muito. E mais: ele termina sozinho. Disse que ia ver amigos e termina em casa, requentando comida e nem fala dos pais. Vai ver que é por isso mesmo: não vê graça em quase ninguém.

Isadora em junho 8, 2006 3:09 PM


#14

O engraçado sobre a crítica do Alex Castro é que onde ele vê defeitos, enxergo qualidades. A polêmica é sadia. Mas é verdade que o texto exige uma certa iniciação em assuntos de história argentina e futbebol.

Roberson em junho 8, 2006 3:29 PM


#15

Duas vezes junho é um livro impressionante. Alguns detalhes me chamaram a atenção e eis aqui meu comentário:
1- A impessoalização do ser humano é nítida, seja pelas referências numéricas (até nos capítulos, né Roberson?), seja pela narrativa fragmentada em que comentários sobre futebol se mesclam a conflitos dos personagens. Um trecho ótimo é este: "Ao vê-los sair abrumados, abatidos do estádio, pensei que estranhamente tinham, ao mesmo tempo, a aparência dos inocentes e a aparência dos que não são tão inocentes." Fiquei pensando que o comentário, além de referir-se a futebol, também remete à História do período ditatorial, já que nos intiga a pensar qual é o papel de um povo diante de seu governo? Ser inocente ou fingir-se de inocente?
2- Sobre o capítulo "Vinte e cinco milhões" : os comentários inseridos sobre as táticas do futebol, também podem ser lidos como táticas de tortura ou de combate ao inimigo, certo?
3- O maior sinal de humanização que aparece no livro é justamente um objeto: o anel encontrado pelo narrador com a inscrição "Raúl e Susana, 1973" Seria uma época feliz na Argentina? Quem souber mais sobre História, me informe. De qualquer maneira, é uma época passada, e o fato de o objeto ter o nome de um casal, pressupõe um momento de harmonia, bem diferente daqueles anos pesados da ditadura.
Tenho outras observações, mas vamos ver no que dá essa discussão... Estou achando os comentários muito produtivos.

Joelma em junho 8, 2006 3:48 PM


#16

O filme ao qual o Sergio Leo se refere é o La historia oficial, de Luis Puenzo, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1985. Mas aquele que eu considero o melhor filme argentino sobre o legado da ditadura é o Un muro de silencio, de Lita Stantic.

Tenho muito mais para comentar, mas o dia está meio corrido. Chato essa coisa de ter que trabalhar, né? Já volto.

Idelber em junho 8, 2006 3:50 PM


#17

Idelber,

acabei de saber que você ganhou o prêmio Machado de Assis, do Itamaraty. Meus parabéns! Você comentou sobre isso no Biscoito? Não lembro de ter lido nada a respeito por aqui.

Abraços do seu co-laureado do Ministério das Relações Exteriores (embora o meu seja o América do Sul, para estudos sobre integração regional).

Mauricio Santoro em junho 8, 2006 3:53 PM


#18

Estou acompanhando a "leitura" do livro duas vezes junho pelo blog.Consegui ler apenas alguns textos do livro pelo site da editora;mesmo assim estou achando muito interessante gostaria de ler em sua integra,infelizmente em minha cidade não existem livrarias em q possa comprar,somente pela internet adquiro livros legais menos assim sai muito caro por causa do frete.Estamos montando em minha cidade(Canindé-Ce)um clube de leitura entitulado LER É SER LIVRE e com certeza esse livro vai ser indicado para leitura.É fantástico.Parabéns pelo blog é muito legal.

wladia em junho 8, 2006 4:14 PM


#19

Eu não li a tradução brasileira, mas todos os relatos são de que ela é impecável. Estou curioso para saber como o tradutor resolveu a questão do erro ortográfico inicial.

começar/ comessar, pretty easy, no?

caperrone em junho 8, 2006 4:22 PM


#20

Kris, leia o livro sem susto. Nenhum bebê ou criança é torturado na história.

Sobre a crítica do Alex Castro, bem, ninguém pode acusá-lo do contrário, já que ele mesmo diz, algumas vezes e em variações: talvez o problema seja eu. Me pareceu mais uma auto-análise que uma crítica ao livro!

Mas refletindo sobre algumas coisas que ele fala, me peguei retomando certas partes, para ver se, afinal, quem não é versado sobre futebol perde a essência da trama e, ao meu ver, não perde (mas só vou ter certeza disso depois que meu marido, um brasileiro às avessas, que adora a Argentina e detesta futebol, ler o livro também!).

A questão dos nomes/números dos capítulos me pareceu tão interessante e instigante! E justamente esse foi um dos pontos criticados pelo Alex. Talvez porque eu goste de enigmas, embarquei no jogo proposto pelo autor, encontrando no capítulo as pistas que levassem ao número que lhe dava título. O capítulo "cinco" me marcou especialmente: é o capítulo do estupro da menina, por cinco soldados, e o narrador dá a entender que foi também o número, recorde, de orgasmos dele em uma noite. Aliás, a cena do estupro fica no ar como outro enigma: não dá para ter certeza se ela foi uma experiência do narrador, algo que lhe contaram ou apenas uma fantasia sua, vivenciada com a prostituta.

Alessandra Alves em junho 8, 2006 4:38 PM


#21

Há o excepcional Kamchatka, filme argentino que trata deste período. É, na minha opinião, melhor que todos os citados.

Bem, como eu adoro filmes e livros cheios de detalhezinhos que auxiliem e complementem sua compreensão, não me incomodam em nada as charadinhas. Eu as amo!

Milton Ribeiro em junho 8, 2006 4:49 PM


#22

Os comentários estão fantásticos, realmente é um gostinho especial ler as coisas com uma interlocução dessa qualidade.

Deixo um rápido bate-bola sobre algumas coisas que foram ditas:

O Roberson tocou num ponto chave, a função dos títulos dos capítulos: coerente com o despojamento da narrativa e tom neutro do narrador, Kohan escolhe intitular os capítulos com números: "vinte e cinco milhões" se refere, claro, à população argentina. Alguns números são datas. Outros são números de registro. Enfim, a assepsia do personagem se replica nos títulos.

O belíssimo comentário da Alessandra toca em outro ponto chave: as coisas que deveriam acontecer não acontecem. Ele não acha o doutor quando tem que achá-lo, não dá o telefonema, não atende o pedido da torturada. Através da não-ação o horror vai se reproduzindo cotidianamente.

Alessandra, amanhã vou publicar a entrevista que fiz com Kohan, acho que sua pergunta estará respondida nela.

Como a Isadora, a frase Depois de ter-se resignado que ia morrer, teria que se resignar agora de que a vida continuaria foi das que mais me impactou no livro. E me parece que esse "não achar em graça em ninguém" é coerente com o propósito do livro.

A Joelma tocou num ponto importante também: no capítulo "vinte e cinco milhões", todas as referências a formas de atacar e de defender podem ser lidas num contexto futebolístico ou bélico. É notável o trabalho com o duplo sentido das palavras ali.

Respondendo a pergunta da Joelma sobre 1973 na Argentina: 1973 foi o ano da volta de Perón depois de 17 anos de exílio!!! Com certeza, "época feliz" seria um pouco exagerado, mas com certeza a data é simbólica: marca o fim da ditadura iniciada pelo Gal. Onganía (1966-73) e o início de um período democrático que trouxe muita esperança, mas que foi marcado por um conflito político fortíssimo, que pouco a pouco terminou levando ao golpe de 1976.

Muito bacana esta discussão.

Idelber em junho 8, 2006 4:54 PM


#23

ÊÊÊÊÊÊÊÊÊ! Os links estão pulando na tela! Obrigada!
Não li "Duas Vezes Junho", porque agora tô muito entretida com uma outra escritora genial: Ana Maria Gonçalves. ;-) Mas a discussão tá tão boa, que vou procurar esse livro por aqui. De qualquer forma, já tirei o Grande Sertão da estante pra voltar a ele com vocês.

Ju em junho 8, 2006 5:31 PM


#24

Pedido das Mothern , aqui neste blog, é ordem :-)

Maurício, parabéns! Você tem razão, não comentei do prêmio aqui, sei lá, achei que não ficava bem . . .

Milton, Un muro de silencio é muito superior a Kamtchaka! O que está acontecendo conosco que agora discordamos em tudo?

(para quem não viu, Un muro de silencio é um filme argentino que conta a história de uma cinegrafista inglesa que vai à Argentina depois da ditadura filmar os diários de um desaparecido. Chegando lá descobre que a coisa não é tão simples)

Idelber em junho 8, 2006 5:36 PM


#25

Salve, wladia! Salve, Canindé, Ceará! Maravilhas da internet.

Idelber em junho 8, 2006 5:46 PM


#26

O item 1 do comentário da Joelma, principalmente o final, casa bem com esse trecho do post do Idelber: "Pouco a pouco vemos que o acontecido não poderia ter tido lugar sem uma vasta rede de cumplicidade disseminada por toda a sociedade".
Ótimos comentários. Continuo gostando... ;)

Isadora em junho 8, 2006 5:59 PM


#27

não consegui nem começar a ler.
:>(
os afazeres e o matin amis não deixaram!
;>)

Biajoni em junho 8, 2006 6:15 PM


#28

Show de bola os comentários. Valeu a pena a brincadeira. Aguardo agora a entrevista com o autor. Abraço a todos.

Ricardo Antunes da Costa em junho 8, 2006 7:04 PM


#29

Esta noite publico a entrevista com o autor :-)

Idelber em junho 8, 2006 7:20 PM


#30

A pergunta que abre Duas vezes junho dá o tom que será mantido através de todo o livro. O quebra-cabeças de peças misturadas tem suas cores definidas desde o começo, como se o texto fragmentado fosse o conjunto das peças aos poucos encaixadas, deixando ver as imagens do terror argentino durante a ditadura.
A grande qualidade literária e narrativa do romance está, eu acho, em duas particularidades que quase nunca andam juntas: um conteúdo do mais puro terror narrado de modo neutro, banalizado, frio por um dos personagens menos importantes. Não seria o mesmo o resultado se o narrador fosse alguém mais importante na trama. O fato de ser um mero soldado que tem que se submeter a todas as ordens recebidas sem hesitar faz dele uma peça neutra da grande engrenagem, militarizada a ponto de decidir e dispor do corpo e da vida de quem por algum motivo caísse entre suas rodas.
E para temperar o clima da ditadura há o futebol, razão de orgulho nacional (como entre nós), ópio do povo. A escolha do jogo perdido para a Itália é outro detalhe notável da estratégia narrativa de Kohan.
Não dá para deixar de pensar no Brasil dos anos 1960-70. Também aqui houve corpos irreconhecíveis, gente “desaparecida”, gente seqüelada para sempre. Pena que, depois de Callado e Veríssimo, talvez poucos outros autores, não tenha surgido um romance da qualidade do argentino sobre o tema. Fora da ficção, Elio Gaspari nos deu um depoimento jornalístico e uma pesquisa apreciáveis. Temos dados, história convencional, arquivos, mas “anistiamos” de vez o terror, em vez de exorcizá-lo. É isso que Duas vezes junho parece ter conseguido realizar, quando trata do tema sem se deixar levar pela emoção e apenas narra os fatos com objetividade. O que Martín Kohan fez me parece uma foto sem retoques, nítida e competente do reino das sombras.

adelaide amorim em junho 8, 2006 9:04 PM


#31

Ah, não sei se alguém já deu a dica, a correção da palavra errada - criansa - foi uma cedilha jeitosa acrescentada ao s.

adelaide amorim em junho 8, 2006 9:06 PM


#32

A respeito da correção do s para cedilha na frase inicial do livro: o próprio narrador admite que "era impossível apagar uma letra, ou meia letra, sem deixar marcas na folha do caderno." É sabido que durante a ditadura muitos apagamentos foram feitos, desde corpos até documentos. Mas esse apagamento na História não faz o apagamento da memória daqueles que sofreram os efeitos da ditadura. Vale lembrar que as mães da Plaza de Mayo lutam contra isso até hoje.
Brilhante essa metáfora que Kohan faz no início do livro, como que já advertindo o leitor para a idéia de que não se trata de uma obra puramente ficcional; ao contrário, a História está nela forçosamente inscrita.

Joelma em junho 8, 2006 9:17 PM


#33

Obrigado, Adelaide, pelo belo comentário. É interessante o paralelo com o Brasil e a relativa falta de reflexões sobre o mesmo tema aqui. Talvez seja porque a ditadura argentina fui muito, muito mais traumática. Não sei. Mas a falta de obras que "exorcisassem" o que aconteceu é notável.

O que é isso companheiro?, do Gabeira, cumpriu um pouco essa função, mas era puro testemunho, auto-crítica. Em Liberdade, do Silviano Santiago - que é um romance sobre os anos 30 - faz algo, mas de uma forma bem elíptica.

Não conheço nada que se pareça ao Kohan, ao mesmo incisivo e alusivo, potente e objetivo mas indireto.

Idelber em junho 8, 2006 9:42 PM


#34

Esse último comentário da Joelma é sensacional. É interessante como o livro ficou ainda melhor depois da discussão aqui no Biscoito.

Parabéns a todos.

Roberson em junho 8, 2006 9:45 PM


#35

Sensacional mesmo, o comentário da Joelma.

Idelber em junho 8, 2006 9:48 PM


#36

Caro Idelber:

tive uma dia atribulado e só consegui passar por aqui agora. espero ainda chegar a tempo para dar meu pitaco na discussão, q, como sempre, está de alto nível.
o livro escolhido tb é bastante bom. acho q os dois principais achados do autor já foram amplamente debatidos aqui: a figura do narrador como alegoria de boa parte do povo argentino durante a ditadura, com sua cumplicidade subalterna movida pela omissão ou não-ação; e o uso do futebol como pano de fundo, um pano de fundo tanto mais valoroso qto seja um campo fértil para semeadura de mitologias nacionais, o q certamente é o caso da Argentina, como tb do Brasil (ainda q com tonalidades distintas; na Europa, acho q isso só acontece tão fortemente com a Inglaterra).
mas eu queria levantar tb uma discussão a respeito da tradução (eu li o livro em português, tanto por conta do preço qto pelo tempo hábil de entrega e leitura, antes do prazo final de hoje).
Existe um debate, qdo se fala em "teoria da tradução" ou coisa q o valha, q se coloca nos segtes termos: o texto traduzido deve ou não deve trazer certas "marcações" próprias da língua-fonte, do idioma do qual ele foi traduzido? Tem gente q acha q não, q a tradução deve ser um texto "sem sotaque", um texto q se aproxime o mais possível do texto hipotético que o autor teria escrito se ele fosse escrevê-lo na língua-alvo.
Já outros defendem o uso dessas "marcações", e procuram, de variadas formas, dar ao leitor a impressão de q aquilo q ele lê em português, ainda q esteja escrito em português, transpareça claramente ter sido formulado em outra língua.
eu, particularmente, talvez por conta de minha formação leitora mais *jornalística* e menos *literária*, sempre me inclinei a adotar a primeira posição. mas tenho repensado um pouquinho a esse respeito ultimamente, e a tradução de Barbão tem algumas passagens q me agradaram especialmente, exatamente por serem passagens "com sotaque", com expressões q, traduzidas ao pé da letra do espanhol argetino para o português brasileiro, são perfeitamente compreensíveis, mas q não deixam fugir a impressão de q é um argentino quem diz aquelas frases.
não sei se essa foi uma escolha intencional do tradutor. quem sabe ele não poderia falar um pouquinho sobre o trabalho de tradução pra gente?

abs,

dra em junho 8, 2006 10:21 PM


#37

Discordamos em tudo? Não! Calma, nem vi "Um Muro de Silêncio", cara pálida!

Abraço.

Milton Ribeiro em junho 8, 2006 10:57 PM


#38

Interessante o ponto sobre a tradução, dra. Walter Benjamin achava isso mesmo, que a tradução deveria fazer a língua de chegada receber o impacto da língua original. Ao traduzir do inglês ao alemão, anglicizar o alemão, ao invés de germanizar o inglês.

Eu tenho contato com o tradutor, vou mandar o link.

Idelber em junho 8, 2006 11:17 PM


#39

Tô acompanhando sem ter lido o livro, não tinha aqui, não dava tempo pra comprar. E o comentário da Joelma levanta mesmo um ponto interessante. Acho que a ditadura não foi objeto de muitas obras literárias no Brasil, mas talvez a música tenha cumprido esse papel. A mesma coisa daria para se dizer em relação à pintura. Enquanto na pintura argentina dos anos 60-70, além de ser bastante figurativa, existem bastante referências ao corpo, à tortura, a essa fase negra. Mesmo se menos traumático que na Argentina e no Chile, acho que a história desse período no Brasil ainda está para ser escrita, e talvez com o tempo a memória dessa época saia do esquecimento, que o recalcado retorne. Ah o comentário do Alex ficou engraçado e inusitado, dado o tema do livro. Bjos.

Ana Lucia em junho 9, 2006 12:20 AM


#40

Caro Idelber e Dra,
peço 1 milhão de desculpas por ter demorado quase dois meses para responder. Infelizmente, a Amauta é somente um projeto de fim de semana e todos os 3 sócios precisam trabalhar para sustentar essa aventura. Mas uma aventura muito divertida e prazerosa.
Na verdade, minha formação como tradutor está se iniciando agora, pelo menos em termos teórico. Primeiro traduzo e depois vejo se alguma teoria se encaixa na minha forma de traduzir. hehehehe.
Mas minha opinião é que eu nunca poderia "abrasileirar" ou "aportuguesar" uma história tão definida em todos os sentidos como argentina, ou melhor, portenha. No meu outro trabalho de tradução, Farabeuf de Salvador Elizondo, também fiz o máximo para manter o acento mexicano do autor, apesar de que o livro é muito menos "regional" (sem ser regionalista) do que Duas Vezes Junho.
Como faço outros tipos de traduções (informática e economia), devemos saber separar. As traduções técnicas precisam ser neutras, mas fazer isso em literatura seria matar a voz da obra. Aliás, eu até acho q tradutor de literatura precisa necessariamente ser escritor e tradutor de poesia precisa ser poeta. Radical? Sim, e? hehehehe. Afinal, como diria o Mestre Haroldo de Campos, traduzir é transcriar.
Muito obrigado pelos elogios. Tradutor só é lembrado quando erra, vocês provaram que o oposto também pode acontecer.

Abs
Marcelo Barbão

PS. Amauta se prepara para lançar agora no segundo semestre, uma coletânea de contos de Rubén Darío (minha tradução) e as Gregerías de Ramón Gómez de la Serna

Marcelo Barbão em julho 14, 2006 3:19 PM