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sexta-feira, 16 de junho 2006
Ulisses, de James Joyce: Celebração do Bloomsday

Pausa na Copa porque um valor mais alto se alevanta.
Hoje é o dia em que, no mundo todo, os leitores do mais radical, inventivo e revolucionário romance jamais escrito celebram (de preferência com uma boa cerveja) a Irlanda, James Joyce e Ulysses, a obra-prima. Na blogosfera brasileira, pelo segundo ano consecutivo, o Odisséia Literária pilota as comemorações, com vários posts espaçados durante as quase 24 horas em que tem lugar a ação do livro.
A história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.
Em cada um dos 18 capítulos, aproximadamente uma hora de ação; em cada um, correspondências cheias de ironia com um episódio da Odisséia, de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, paranomásias, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas. Foi o romance que inventou essa coisa que hoje parece tão banal: o monólogo interior.
Publicado em 1922 e proibido como “pornográfico” nos EUA até 1933, Ulisses pode até não ser o maior livro jamais escrito, mas com certeza é a resposta mais produtiva à famosa perguntinha sobre qual livro levar à ilha deserta. “Eu coloquei nele tantos enigmas e quebra-cabeças que ele manterá os professores ocupados durante séculos ” disse Joyce sobre Ulisses. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que dará trabalho por muito mais.
Não leu ainda? Se domina bem o inglês, há uma fantástica versão em hiper-texto. Antônio Houaiss fez uma já legendária tradução ao português; agora há uma nova tradução, de Bernardina Pinheiro, que eu ainda não li, mas que vem sendo elogiadíssima como texto mais coloquial e picante que o de Houaiss – e portanto, talvez, mais fiel a Joyce.
Não se deixe levar pela fama de "difícil" do livro: poucas vezes escreveu-se coisa tão engraçada, escandalosa, divertida e sexual como Ulisses. Em cada diálogo, cada cena, cada capítulo, mil sentidos. O treco não acaba nunca.
Manuscrito da primeira página de Ulisses.
Todo 16 de junho eu sinto saudades de Haroldo de Campos, que comandava as comemorações aí no Finnegans Pub, em Pinheiros, Sampa. Se você está em São Paulo e quer comemorar o Bloomsday, o point é esse. Em Belo Horizonte, poetas e músicos se reunirão no Teatro Francisco Nunes às 18:30 para celebrar “Bloomsday com Rosa” porque afinal Grande Sertão: Veredas, o mais joyceano dos nossos romances, completa 50 anos de publicação.
Links para curtir o Bloomsday:
Odisséia Literária, que vai estar fervilhando hoje, com sucessivos posts.
Texto completo do Ulisses em inglês.
Ulysses for Dummies (Ulisses para idiotas) com quadrinhos hilários.
Pequeno resumo e informações sobre o legado da obra.
Leitura coletiva da obra no blog português Leitura Partilhada.
Mapas, enigmas e histórias relacionados com Ulisses.
Tim-tim, feliz bloomsday para todo mundo, visitem o Leandro e viva a Irlanda.
Escrito por Idelber às 02:03 | link para este post
| Comentários (18)
#1
Que pecado professor, ainda não li Ulissess.
Acho que é um bom dia para começar...
Abs.
Edk em junho 16, 2006 3:52 AM
#2
Idelber, eu também ainda não li e tinha o audacioso objetivo de ler no original. Tenho me virado em inglês, mas sempre soube que a hora de ler Joyce no original iria requerer tempo, paciência, disposição e disciplina (para ler e reler e recorrer ao dicionário). Sobram-me as três últimas, sempre me falta o primeiro. Peço, portanto, um conselho ao professor. O que é melhor: ler a versão traduzida e ficar com o gostinho de que não li Joyce de verdade ou continuar esperando as CNTP para ler o original?
Alessandra Alves em junho 16, 2006 11:04 AM
#3
Com certeza ler a tradução, Alessandra. Parece que a tradução da Prof. Bernardina é muito boa, vale a pena. Você sempre pode voltar depois e ler o original também :-)
Idelber em junho 16, 2006 11:19 AM
#4
“Eu queria dar trabalho aos críticos e leitores por 300 anos” disse Joyce sobre Ulisses. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que dará trabalho por muito mais.
VIDE _New Yorker_ desta semana em que ha' um perfil do neto de James Joyce, que vem negando acesso a tudo manuscritos e cartas etc. assim como autorização de todo tipo para reprodução, citação, etc. Stephen James Joyce o cara se chama e detesta acadêmicos e pessoas bem-sucedidas./ E o filme que nunca mais foi visto nestas paragens?
charles324@hotmail.com em junho 16, 2006 12:04 PM
#5
Verdade, Charles. O neto de Joyce pertence a uma larga galeria de herdeiros preocupados em aparecer e dificultar a vida de quem ama a obra. Inclusive o projeto do Ulisses digital gorou por intervenção dele. É um chato!
(Edk, não há dia melhor para começar!)
Idelber em junho 16, 2006 12:28 PM
#6
Et moi aussi! Estou terminando o post, só vim aqui conferir para ver se tinha alguma coisa relacionada. òtimo post aliás. Beijinhos
Bibi em junho 16, 2006 5:29 PM
#7
tem muita gente, patrioteira, diga-se de passagem, q vê semelhanças entre o magistral ulysses de joyce e o grande sertão veredas de guimarães rosa. mas um enorme abismo os separa. o ulysses é um marco na literatura moderna. inovador em todos os sentidos, cosmopolita, mordaz enquanto o "nosso" guimarães rosa é rural demais, até, diria, provinciano. tudo bem, a exemplo de joyce, existem alguns trocadilhos e palavras coloquiais da lingua "brasileira" incorporadas à literatura. e paramos por aí. mas daí a comparar guimarães rosa a joyce é uma tremenda forçação de barra. os dois estão anos-luz distantes um do outro.
frank em junho 16, 2006 5:36 PM
#8
Voltei só para dizer que mudei o feed que assinava do seu blog. Agora assinei o que você recomenda aqui no blog - embora odeie as atualizações com comentários. Arrumei para não recebê-las. Vamos ver se agora o puto do Bloglines funciona com esse novo feed.
Fui!
Bibi em junho 17, 2006 6:36 AM
#9
"Não se deixe levar pela fama de "difícil" do livro: poucas vezes escreveu-se coisa tão engraçada, escandalosa, divertida e sexual como Ulisses. Em cada diálogo, cada cena, cada capítulo, mil sentidos. O treco não acaba nunca."
Agora vc entrou em contradição: são esses mil sentidos possíveis justamente o que fazem da obra uma obra difícil. ;)
alex castro em junho 17, 2006 2:59 PM
#10
hmmm, Alex, talvez eu não tenha me expressado bem; acho que há duas confusões aqui: polissemia e dificuldade não são sinônimos. Há mil sentidos em L'étranger de Camus também, um romance de leitura simples.
No caso de Joyce, é verdade que Ulisses é difícil. Pacas. A fama é justificada. Mas com "não se deixar levar pela fama de difícil" eu quis dizer: "não deixe de ler só porque todo mundo fica falando (com razão) que é difícil". Só isso. A seleção brasileira pode até ser a melhor do mundo, mas se você entrar em campo contra ela só pensando que ela é a melhor, não vai vencer nunca. Dá uma olhada nesse texto que o Leandro postou aqui e no comentário que eu fiz; veja o que você acha. Abraços,
Idelber em junho 17, 2006 11:55 PM
Idelber em junho 18, 2006 12:26 AM
#12
ih, nem sei mais. Matei o coitado ontem à noite. Esse que você sugere aqui está funcionando. O que eu gostava no outro, quando funcionava, era a ausência dos comentários.
Beijinhos e bom domingo.
Bibi em junho 18, 2006 2:36 AM
funny ringtones em julho 18, 2006 8:40 AM
#14
Caríssima Bibi
Guimaraes Rosa é provinciano?
E um comemtario pertinente, para uma pessoa "cosmopolitana" possuidora de uma riquíssima linguagem como: uma tremenda forçada na barra.
Sorte de seu professor que tem papagaios, a nao conhecer e a repetir suas lições.
Dá o pé loro..
Julia Andrade em julho 20, 2006 4:11 PM
#15
Julia, a pessoa que fez o comentário sobre o "provincianismo" de Rosa não é a Bibi; o comentário é assinado Frank. Eu, particularmente, achei que não valia a pena responder...
Idelber em julho 20, 2006 5:32 PM
#16
Peço desculpas a Srta Bibi, transferindo a indignaçao do mal comentário feito referente o escritor Guimaraes Rosa. Transferindo a indignacao ao Sr Frank.
Sem mais
Prof Julia
Julia Andrade em julho 21, 2006 7:42 PM
#17
James Joyce é realmente o maior autor do Seculo XX. Seu intricado processo de criação resultou num trabalho cuja decifração é dificil, senão impossível a uma só pessoa. Sua grandeza é justamente esta, porque contar uma estória é fácil, o difícil é contar uma estória de uma maneira totalmente diferente dos demais. Creio que a pesquisa formal é o verdadeiro caminho da nova literatura, qualquer outro caminho é pura repetição do que já fora feito anteriormente. Joyce nos introduz num mundo cuja apreensão não se faz num simples olhar, mas num constante contacto e meditação até que a vista nos torne acostumados àquele mundo que nos é mostrado. El Carmo.
El Carmo em julho 29, 2006 6:02 PM
#18
Ainda não li, MAS SOU FASCINADO PELOS COMENTÁRIOS, muitos que já li. Vou criar coragem, vou ler.
dacorte
derlei corte' em agosto 3, 2006 10:30 AM