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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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segunda-feira, 31 de julho 2006

Revista Época publica a melhor matéria já feita sobre a blogosfera no Brasil

epoca.jpg Das matérias sobre blogs já publicadas na grande imprensa, a da revista Época desta semana me pareceu a melhor. Fez uma análise ponderada do impacto dos blogs nos últimos anos, apresentou uma lista de 8 importantes blogs brasileiros e 10 grandes blogs em inglês, ofereceu algumas estatísticas úteis. Relatou alguns casos históricos da Internet brasileira, como o plágio cometido por Antônio Carlos Magalhães num discurso no Congresso e denunciado pelo Catarro Verde. A revista traz também uma entrevista com John Batelle, fundador da Wired e colaborador do Boing Boing, e até ensina aos internautas mais incautos os primeiros passos para a confecção de um blog. Para concluir, a matéria oferece uma cronologia de alguns momentos chave da blogosfera americana, desde a criação do Links.net, em 1994, até o inédito evento ocorrido em Janeiro de 2006, quando a revista Time pagou para ter o blog de Andrew Sullivan en seu site. Na versão online da matéria, a Época também traz uma excelente cronologia da blogosfera tupiniquim, feita por Alexandre Inagaki.

Se há alguma matéria sobre blogs em língua portuguesa melhor que essa, eu desconheço. Como este blog não tem papas na língua quando se trata de malhar os erros da imprensa, faço questão de deixar meu pitaco: parabéns aos jornalistas Ricardo Amorim e Eduardo Vieira.

Segundo a revista, os critérios usados para a seleção dos blogs foram não apenas a audiência, mas também "o impacto e relevância do conteúdo gerado”. Os 8 blogs selecionados pela Época como “os mais quentes do Brasil” foram: Jesus, me chicoteia, Kibe Loco, Cocadaboa, Interney, Querido Leitor, Pensar Enlouquece, Noblat e Juca Kfouri. É uma lista de respeito, sem dúvida, pelo que esses blogs já realizaram. Só para que conste: são 7 homens e uma mulher.

Esta é minha única crítica à lista: há vários blogs de mulheres (tratando ou não de interesses específicos das mulheres) que já construíram uma história na internet brasileira. A minha lista traria pelo menos um desses blogs: Drops da Fal, Bibi’s Box ou Mothern.

Pela comunidade que criou, pelo estilo que inventou, pela interação que promove com os leitores, acho que a Fal merecia estar na lista. A Fal bloga desde março de 2002. Pelo incrível mapeamento que faz dos recursos da Internet, a Bibi também mereceria um lugar ali, apesar de blogar em inglês. Os arquivos do Bibi’s Box se remontam a maio de 2004.

Mas talvez a proposta mais inovadora e relevante para a vida de seus leitores a ficar fora da lista foi o Mothern, revolucionário blog sobre maternidade (e tudo o que acompanha o tema, ou seja, o universo) criado por Laura Guimarães e Juliana Sampaio. O Mothern já virou livro e no dia 19 de agosto estréia como programa de televisão no canal GNT. O Mothern também é responsável pela criação de um verdadeiro fórum de mulheres que cotidianamente trocam experiências no livro de visitas, independentes das atualizações do blog.

Além das mencionadas, Hernani Dimantas, Cris Dias e Tiago Dória seriam outros nomes que me viriam à memória para uma lista dessas, pela qualidade e consistência do trabalho que têm feito na blogosfera.

Da lista publicada pela Época, quem eu tiraria para pôr as Mothern, a Fal ou a Bibi? Bom, eu tenho infinito respeito pelo trabalho do Juca Kfouri e, sem dúvida, 10 milhões de visitas em menos de um ano é um número impressionante. Mas se o critério é não só “audiência” como também “relevância”, eu me atreveria a dizer que a presença do Juca na lista se deve mais ao (extraordinário) trabalho feito por ele em outros veículos do que ao blog em si – onde dificilmente você verá algo que não sejam resumos de jogos facilmente encontráveis, com mais detalhes, nos portais de esportes.

E você aí? Considerando estes critérios (audiência + conteúdo), de quais outros blogs você sentiu falta na lista feita pela competente matéria da Época? Alguém, entre os que já leram a matéria, teria outras observações?

PS: O Marcos Donizetti também fez um belo post sobre o tema.

PS 2: A conversa minha com o Biajoni sobre a Síndrome da Biblioteca de Babel versus a Síndrome de Robinson Crusoé continua rendendo. Agora Rafex Galvão entrou no papo com um excelente post.



  Escrito por Idelber às 04:07 | link para este post | Comentários (30)



sábado, 29 de julho 2006

Uns links, rumo ao Rio

* Desta segunda até o dia 09 de agosto, eu e a Ana estaremos no Rio. De segunda até quinta ocorre o X Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), lá na UERJ. A reunião bi-anual da Abralic já é considerada, entre muita gente, o mais importante congresso literário da América Latina. Este ano são quase 2.000 inscritos. Ao contrário da maioria dos congressos acadêmicos, em que dezenas de mesas simultâneas são muitas vezes feitas de modo arbitrário, os congressos da Abralic se organizam por "simpósios", grupos maiores que passam todas as tardes do congressos juntos, dedicados a um único tema - as manhãs são reservadas para as plenárias. Minha palestra acontece no dia 03 de agosto, às 14 horas, e o tema é a música popular no século XIX e a obra de Machado de Assis, assunto sobre o qual os leitores deste blog já leram algo. Claro que a apresentação será bem mais detalhada que o texto curto publicado aqui no blog. Estão todos convidados. Levarei o iPod com algumas gravações raras de maxixe.

* Aliás, como anda o tempo aí no Rio?

* Depois, no próprio dia 03, às 19 horas, na Livraria Argumento do Leblon, acontece o lançamento de Um defeito de cor, da Ana. Também convido os leitores cariocas a aparecerem e os amigos blogueiros a ajudarem na divulgação. Roubem o selinho à vontade:

ana-lançamento2.jpg

* Por falar em divulgação, aqui vai mais uma: O Carreira Solo, um dos projetos mais interessantes da internet brasileira, está promovendo um concurso para designers: crie a programação visual dos livros do Alex Castro. Passe por lá quem estiver interessado.

* Para a turma da literatura que ainda não conhece, vale a pena ler a excelente entrevista com Antonio Cícero. No bem cuidado site do autor, também há um depoimento valioso de Caetano sobre ele, extraído do livro Verdade Tropical.

* Para a turma do futebol: parece que o Zangaddo, quero dizer, o Dunga, já estreou em estilo, dizendo asneiras sobre Telê Santana, culpando-o pela derrota de 1982. Se Dunga está tão interessado em falar sobre as derrotas da seleção em Copas, ele poderia começar explicando quem foi aquele saco de batatas que desmoronou duas vezes ao lado de Zidane quando o craque magrebiano fez dois gols de cabeça no Brasil na final de 1998. Ou talvez ele prefira explicar quem era aquele outro saco de batatas que se espatifou com a bunda no chão depois de um drible humilhante de Maradona, que serviu a Caniggia o gol que eliminou o Brasil em 1990. Mexeu com Telê Santana, mexeu com este blog.

* Há exatamente um ano atrás, morria o maior escritor argentino das últimas décadas. Na única vez em que estive com Juan José Saer, ele quis que eu explicasse por que tantos brasileiros batem palmas quando o avião aterriza (tenho a sensação de que esse hábito era mais forte então do que hoje). Claro que eu não tinha resposta. Para conhecer melhor esse gigante do romance do século XX, há uma boa conversa com Horácio González, em espanhol, e outra boa entrevista feita em São Paulo. Há romances seus disponíveis em português, incluída a obra-prima O enteado.

* Um dos maiores intelectuais do Brasil, e colunista de futebol da Folha de São Paulo, José Geraldo Couto, andou fazendo elogios a este blog e às discussões que tivemos aqui durante a Copa do Mundo. Obrigado, Zé.

Atualização: Com dois dias de atraso, aqui vão os parabéns ao pioneiríssimo Alexandre Inagaki, pelo seu trigésimo terceiro aniversário. Ina foi destaque na recente matéria da revista Época sobre blogs, e nos brindou com uma bela lista de 25 momentos marcantes da blogosfera nacional. Parabéns e obrigado por tudo, Ina.



  Escrito por Idelber às 04:49 | link para este post | Comentários (17)




A "única democracia do Oriente Médio"

guerra-israel.jpg

(tirado daqui)



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post



sexta-feira, 28 de julho 2006

A Síndrome da Biblioteca de Babel e a Síndrome de Robinson Crusoé

labyrinth.jpg.jpg
imagem: daqui.

O Biajoni fez um excelente post sobre o que ele chama de Síndrome da Biblioteca de Babel: a desvalorização dos conteúdos que – em velocidade e profusão inauditas – são veiculados na internet. O exemplo do Bia é a música. Ele se lembra de suas experiências (que foram as minhas também) de economizar uma grana suada para comprar um bolachão de vinte e poucos minutos de cada lado e escutá-lo um mês inteiro: a grana para o próximo disco só pingaria no mês seguinte. Desolado, ele compara essa atenção ao artefato cultural com a euforia meio vazia de um amigo seu que hoje celebra ter baixado “48.000 músicas”! Com toda a razão, o Bia se pergunta quantas dessas músicas o amigo ouvirá com um mínimo de atenção.

Os efeitos da síndrome de Biblioteca da Babel são implacáveis e atingem especialmente a circulação de música popular. Baixa-se e apaga-se música de tal maneira que as novas gerações não mantêm nem mesmo a relação com o “disco”: no reino do MP3 as canções existem soltas, fragmentadas – mesmo os arquivos com terminação .rar, que compilam discos inteiros, com freqüência sofrem recortes de cada usuário depois de baixados. O garoto hoje ouve a canção sem saber de que disco ela saiu, o que para os velhos puristas fãs de música popular teria sido uma heresia inaceitável.

O problema é que, no frigir dos ovos, eu prefiro viver num mundo onde se pode baixar 40.000 canções em alguns dias do que num mundo onde eu compre um bolachão de 45 minutos por mês. A relação deste último comprador com o produto que ele adquiria era mais atenta? Sem dúvida. Mas era uma atenção movida pela escassez compulsória. Havia também aquele momento horrível – o Bia se lembrará de exemplos – em que o bolachão comprado com a grana suada era uma porcaria. Na profusão, cabe a cada um nadar ou afogar-se: eu, particularmente, confio no meu tino para organizar o redemoinho de informações. Prefiro, digamos, achar que é possível nadar do que me queixar que há água demais na piscina.

Vejam bem, não digo que o Bia está errado: ele está certíssimo. Mas há um risco – e o post do Bia está atento a esse perigo – de que ao combater a Síndrome da Biblioteca de Babel, caia-se em outra síndrome, que eu chamo Síndrome de Robinson Crusoé: a tendência de achar que em algum momento do passado a relação com a cultura, com a música, com o sexo ou com qualquer outra coisa foi mais pura, autêntica ou verdadeira. Em geral essa percepção é só uma ilusão retrospectiva. No fim dos anos 90, ainda havia gente, dentro do campo de estudos de música popular, que insistia que só se poderia escrever sobre música munido de vinil e um toca-discos de 2.000 dólares. Hoje esses saudosistas já desapareceram, ou estão fazendo luto pela morte do CD. Estão sempre a reboque da história. Levada ao limite, a Síndrome de Robinson Crusoé pode alimentar toda sorte de pessimismos reacionários– desses que insistem que tudo o que é produzido pela contemporaneidade não presta.

Foi uma coincidência ter lido o post do Bia ontem: meus dois iPods (15 GB e 20 GB) lotaram. Tive que apagar arquivos para fazer lugar para a nova música que chegava, bem consciente de que aquilo que fosse apagado ali jamais seria ouvido de novo, mesmo eu tendo os CDs em casa: é que já não me lembro qual foi a última vez que toquei um CD. O que foi apagado? Cortei três sinfonias de Beethoven (na antológica gravação de Karajan) para que coubessem dois discos do Sonic Youth – quem precisa ter as nove sinfonias de Beethoven, não é mesmo, Milton Ribeiro?

Outro mergulho recente meu na Síndrome da Biblioteca de Babel foi finalmente ter organizado meus feeds no bloglines, que andam em 150, entre blogs brasileiros, americanos, argentinos, revistas e jornais do mundo inteiro (para ler o Biscoito em RSS, cole no seu agregador este link para ler só posts ou este link para ler tanto os posts como os comentários). Depois de passar algumas horas lendo artigos que há algum tempo eu teria gastado anos para reunir, terminei me convencendo de vez: é importante, sim, estar atento aos efeitos diluidores da Síndrome da Biblioteca de Babel, mas é mais importante ainda não ceder aos clichês da Síndrome de Robinson Crusoé.

Senão, corre-se o risco de não se encontrar, entre as 48.000 músicas, aquelas pérolas que sempre estarão lá, e pelas quais em outras eras teríamos pago, com gosto, o preço de um vinil importado.



  Escrito por Idelber às 05:19 | link para este post | Comentários (42)



quarta-feira, 26 de julho 2006

O demoníaco e o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas

gsv-3.jpgDas várias maneiras de se engajar nesse exercício fútil que é resumir, numa frase, o Grande Sertão: Veredas, duas me parecem ir ao âmago da trama do livro: 1. GSV é a história de um interdito, impossível amor de um jagunço por uma mulher que viveu como homem para vingar o pai; 2. GSV é o relato de um jagunço que narra sua vida a um interlocutor forâneo para saber se concertou ou não um pacto com o demônio. A genialidade de Rosa reside no entrelaçamento desses dois motivos, o do amor impossível e o do pacto fáustico. É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destapa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco.

O motivo fáustico na literatura se remonta à história de D. Iohan Fausten e seu suposto pacto com o demônio em troca do conhecimento absoluto. A lenda alemã serve de base para o clássico de Marlowe, que inspira o Fausto de Goethe, que por sua vez é o marco de um infindável cânone de obras que tratam o tema, incluindo-se de sinfonias a filmes de Hollywood. Nesse cânone, Grande Sertão: Veredas tem a singularidade de ser uma narrativa construída sobre a incerteza de se houve pacto ou não (é essa incerteza que está na raiz da completa desordem das 30 primeiras páginas). Trata-se aqui menos de uma história de soberba faustiana em busca do conhecimento total que a expressão de uma interrogação trágica acerca de um fragmento de saber indispensável: sou ou não sou pactário? Riobaldo não pode senão perguntar-se pela desordem que rege as coisas. Essa pergunta, aliás, não mantém com a desordem do mundo uma relação de mera representação. Pelo contrário, ela interfere nesse mundo. Quanto mais a pergunta é feita, mais a desordem aumenta. Isto ocorre num contexto fáustico, no qual a inteligência é estreitamente associada ao demoníaco.

Um dos paradoxos maravihosos da tradição fáustica é que o Diabo aparece como ser muito mais interessado na humanidade que Deus. Estudioso desses paradoxos, Rosa leva o avesso das coisas a suas últimas conseqüências: no sertão, Deus é um afterthought, é algo chega depois, é o resultado da equação que tenta demonstrar que o demo não pode ser o motor último das coisas. Mas o dado, o que a realidade oferece, é o demo. Em Grande Sertão, o personagem que busca equilibrar e racionalizar essa ubiqüidade do demoníaco é Compadre meu Quelemém, uma espécie de Sancho Panza espírita, que encontra no kardecismo a tranqüilidade de saber que suas perguntas têm respostas inequívocas e definitivas. É o alter ego conformado e resignado de Riobaldo. Há Grande Sertão porque Riobaldo é incapaz dessa certeza religiosa reconfortante de seu Compadre.

Guimarães Rosa era um escritor de formação humanista cristã conservadora. Na verdade, ele não só não se importava de ser chamado de “conservador” em política, como preferia a palavra “reacionário”, usada no sentido estritamente etimológico, insistia ele, daquele que quer voltar ao âmago das coisas, a um momento original perdido na tagarelice pós-babélica. Cristão até os ossos, ele escreveu a obra mais cheia de heresias da literatura brasileira. Só há narração, só há linguagem, porque o mundo está atravessado pelo demoníaco. Conhecedor e estudioso de uma tradição cabalística que associa a pronúncia do nome à materialização da coisa, Rosa faz Riobaldo recorrer ao circunlóquio para falar do demo: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim.... (p.33). Profundamente influenciado pelo neo-platônico Plotino, Rosa não acredita na materialidade do mal - Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (p.11) - o que não quer dizer que o mundo não esteja atravessado por ele: O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (p.49).

Se o mundo está atravessado pelo demoníaco, assim está o amor. O único amor não diabólico é Otacília, moça de família prometida no começo da história, resgatada depois dos combates e hoje companheira de velhice do barranqueiro. Em Diadorim, por outro lado, tudo é duplicidade demoníaca. No nome de Diadorim encontra-se dor, adorar, mas também a raíz de diabo: que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? (p.33); o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta (p.108).

Se a duplicidade de Diadorim (o que possui as duas essências) remete ao demoníaco, o verdadeiro alter ego do diabo em GSV é Hermógenes. Tampouco aqui o nome é gratuito: Hermógenes, literalmente a gênese da interpretação, a partir do deus grego Hermes, o mensageiro. Na origem do pensamento especulativo, o demoníaco. Eis aí a fórmula profundamente anti-racionalista de Rosa, inimigo declarado da "megera cartesiana". Hermógenes (nome que o diabo compartilha com a teoria da interpretação, a hermenêutica) é um jagunço descrito como trapaceiro, traidor; ele atira pelas costas e derruba Joca Ramiro, o grande líder dos sertões, para vingar-se de ter sido voto vencido no julgamento de Zé Bebelo, que havia sido capturado pelos ramiros mas solto por não ser autor de crime nenhum. É para vingar a morte traiçoeira imposta a Joca Ramiro, seu pai, que Diadorim abraça a jagunçagem, até a vingança final, na qual ele mata Hermógenes na faca mas é morto também, desvelando o corpo de mulher cuja descrição é tão inesquecível.

Ourives minucioso de seus textos, Rosa colocou a cena do suposto pacto com o diabo exatamente na metade do livro. Trata-se de um momento em que o sujeito perde seus referenciais e a linguagem volta à desordem febril das primeiras páginas. A incerteza sobre o que sucedeu naquela noite no descampado retrospectivamente organiza toda a narrativa. Se no término do livro o Compadre meu Quelemém oferece sua usual explicação reconfortante – “tem cisma não. Pensa para adiante” – o próprio signo do infinito ao final do livro o desmente. Não há fechamento nem resolução do pacto, nem mesmo confirmação de sua existência: dúvida que é, ela mesma, prova definitiva de quanto o Dito-Cujo está impregnado nas coisas.

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Todas os números de páginas remetem à 15a edição (1982), da José Olympio.

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Leiam também: A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana (sugestão da Juliana Mothern)

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A casa convida não só ao debate, mas também à confecção de uma pequena antologia de citações do romance sobre esse tema. Quem tiver uma citação favorita sobre o demo, pode deixá-la aí.

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Atualização: a coluna de Mônica Bergamo na Folha (link só para assinantes) noticiou que Grande Sertão: Veredas, cujos direitos pertencem integralmente a Eduardo Tess, neto da segunda mulher de Rosa, estará em breve disponível para download gratuito na internet! (link via Alfarrábio).



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terça-feira, 25 de julho 2006

Amanhã é dia do demo

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Imagem: daqui.

O demo é um ponto tão bom como qualquer outro para começar a discutir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Convido quem tiver lido o livro para passar por aqui nesta quarta e participar do papo. Vai ao ar de madrugada um texto meu sobre o tema - nem que seja meio chinfrim. Ao longo do dia de hoje, quem quiser colaborar com a casa e deixar algum link interessante sobre o demônio, fique à vontade.

Imaginam o que a Bibi seria capaz de encontrar sobre o demo na Internet?

As imagens mais impactantes do dito cujo que eu conheço são os desenhos de William Blake.



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A nova era Dunga

Isso é inaceitável. Chega. É palhaçada demais. Alguém aí tem alguma sugestão sobre para qual seleção torcer em 2010?

Atualização:
Saíram o Zangaddo e o Soneca e entraram o Dunga e o Branco de Neve! (de um leitor do Juca Kfouri).



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segunda-feira, 24 de julho 2006

As cotas raciais em debate

paim.jpg
Curiosos, para dizer o mínimo, os resultados da pesquisa publicada pela Folha de São Paulo neste domingo: ouvidas 6.264 pessoas, 65% são favoráveis à adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras. Para lembrar, o Estatuto da Igualdade Racial (pdf), de autoria do Senador Paulo Paim (PT-RS), em tramitação no Congresso, adota, entre outras medidas, cotas de 20% para afrodescendentes no serviço público e nas instituições de ensino superior.

A maior taxa de aprovação ao projeto ocorre entre pessoas com escolaridade fundamental (71%); a coisa se inverte entre os que têm escolaridade superior: neste grupo, 55% são contra as cotas. Estes números, assim como os números da popularidade de Lula, podem ser lidos basicamente de duas formas: os pró-cotas tenderão a interpretá-los segundo a lógica da preservação do privilégio; os anti-cotas tenderão a lê-los segundo a lógica do “esclarescimento”. Para aqueles, os mais instruídos são majoritamente anti-cotas porque não querem abrir mão daquilo que têm e que, sentem, pode vir a ser ameaçado. Para os anti-cotas, a resistência ao projeto entre os mais escolarizados mostra que estes, segundo Roberto Romano (UNICAMP), “sabem que não existem soluções mágicas, conhecem as dificuldades do ensino e da pesquisa dentro da universidade”. O debate se acirrou bastante nos útimos dias, com manifestos contra e a favor do projeto.

Tanto de um lado como de outro, já vi referências meio equívocas à experiência dos EUA, que é bom esclarecer: nos EUA, jamais houve “cotas”, se por isso entendemos uma reserva percentual de vagas. O que chamamos por lá affirmative action não é exatamente um sistema de “cotas”. No caso da universidade, por exemplo, a admissão não se dá com base numa única prova, como o vestibular no Brasil: levam-se em consideração não só as provas chamadas SAT, mas também cartas de recomendação, histórico escolar, necessidade ou não de auxílio financeiro, etc. Dentro desse “pacote” onde vários elementos contam, negros e latinos recebem uma quantidade determinada de “pontos” no início do processo, como forma de corrigir disparidades históricas. Mas jamais houve uma reserva percentual de vagas.

Entre os anti-cotas, é falacioso o argumento de que o “sistema de cotas” nos EUA “não deu certo.” Inclusive entre boa parte dos conservadores que pedem sua abolição nos EUA, o argumento é precisamente o oposto: que a affirmative action já cumpriu o seu papel ao criar uma sólida classe média negra e que portanto já não seria necessária. Acho difícil levar a sério o argumento de que a affirmative action “acirrou as tensões raciais” nos EUA. Quem conhece a história das relações raciais nos EUA sabe que a tensão vem de muito antes.

Os primeiros estudos sobre a experiência brasileira mostram que os cotistas têm se saído muito bem. Mas entre os críticos do projeto há um argumento sólido: o governo não demonstra entender que as universidades precisam de apoio financeiro maciço para implementar o estatuto. Este blog já debateu o assunto em abril do ano passado e fez uma enquete naquele mesmo momento. Mas hoje, sem dúvida, muito mais gente já leu e se informou sobre o projeto. Opinem aí à vontade.



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sábado, 22 de julho 2006

Cancelado um mestrado na UFRGS por plágio

Chegou uma notícia bem interessante via Fábio Sampaio: pela primeira vez no Brasil, que eu saiba, uma universidade cassou um título de pós-graduação de alguém por motivo de plágio comprovado na tese. Foi na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o plagiador é Gilberto Kmohan. O nome da tese é “O Conceito de Aura em Walter Benjamin", defendida em outubro de 2000, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS (PPGCOM), com nota máxima e louvor constante em ata. Não foi, como não costuma ser, um caso de cópia de uma frase sem referência aqui ou acolá. Foi uma coisa estilo Parreira: o cabra copiou a tese inteira.

O curioso é que o tema da tese é tão exaustivamente estudado que com um pouquinho de esforço, sem genialidade nenhuma e sem uma única idéia original, teria sido possível escrever sobre ele uma tese perfeitamente coerente e aceitável, na base de puras citações e paráfrases. Para Walter Benjamin, “aurática” é a relação quase religiosa, única, irrepetível, que se tem com a arte até a chegada dos meios de reprodutibilidade técnica. Seria aquele momento em que a arte ainda mantém alguma memória das suas origens em rituais e cultos. Depois do advento dos meios de reprodução técnica (especialmente a fotografia) esse valor “ritual” da arte iria se dissolvendo, aniquilado pela reprodução incessante: com uma Mona Lisa já estampada em camisetas não é possível manter qualquer relação aurática. Para Benjamin, o paradigma desse novo momento seria o cinema, que permitiria um outro tipo de recepção – menos religiosa, mais ativa e potencialmente até revolucionária. Essa é a idéia, debatida em centenas de artigos e livros por aí.

Pelo que eu li do relatório, a “tese” em questão tomava alguns desses livros, recortava e colava, sem dizer que se tratavam de citações. Um professor da UFRGS, Luis Milman, denunciou o caso em 2001 e só agora saiu o veredito. O relatório da comissão de professores encarregada do assunto comprovou plágio em 63 das 98 páginas de capítulos analíticos da tese. Viram:

a) plágios diversos de trechos (curtos e longos) de obras conhecidas, das quais 6 (seis) são referidas e 9 (nove) não são referidas na Bibliografia;

b) parágrafos em que o fraudador mistura trechos que pilhou de distintas obras;

c) plágios com mutilação dos trechos pilhados;

d) utilização de notas de rodapé com referência adulterada e trechos de obras plagiadas

Nestas horas, claro, a coisa pega muito mal para quem orientou a tese. Quem orientou e assinou a monstruosidade foi o Prof. Sérgio Caparelli, que é acusado pelo mesmo Prof. Milan de ter publicado um artigo plagiado, ele também.

Para lembrar o caso Parreira, no ano passado a Folha de São Paulo denunciou que 10 páginas inteiras do livro Evolução Tática e Estratégia de Jogo, de Parreira, foram copiadas (traduzidas ao português) de um livro do inglês Charles Hughes: 10 páginas inteiras, ipsis literis. O livro que sofreu o plágio é simplesmente citado na bibliografia como uma “leitura adicional”. Com a empáfia que lhe caracteriza, a única explicação que Parreira deu foi que “traduziu mesmo” e que “a apostila não foi vendida como livro,” como se o que configurasse o crime fosse a comercialização do produto plagiado. Ou seja, Parreira confessou o plágio.

A mesma internet que facilita a vida do aluno que quer plagiar torna quase impossível que o plágio não seja descoberto. No caso da universidade, eu defendo punição severa para quem plagia livros, mas expulsão sumária para quem plagia algo da internet: deveria haver uma punição extra para a burrice de achar que se pode copiar o conteúdo de um site, hoje em dia, sem ser pego.

Atualização: Com muito mais conhecimento do contexto do caso, obviamente, o blogueiro gaúcho Marcelo Träsel fez um post sobre o assunto (obrigado pelo link, Roger). Há toda uma polêmica também no Observatório da Imprensa.



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quinta-feira, 20 de julho 2006

A Basel Irmad Termos, pela vida que não foi

lebanon-2.jpg

Basel Irmad Termos, o garoto paranaense de 7 anos assassinado no Líbano por um míssil israelense, caiu na vala daquelas vítimas desafortunadas: as vítimas da máquina de guerra israelense, sobre as quais pesa sempre um poderoso intedito. É preciso não falar muito. É preciso não assinalar, para a consciência culpada do Ocidente, que o Estado criado para aplacar a culpa transformou-se num gigantesco monstro bélico, que dá passos acelerados para igualar o monstro bélico original, aquele à raiz do qual esse próprio Estado foi criado. Ah, as amargas ironias da história.

Sobre as vítimas palestinas, já estamos acostumados a silenciar: eles são sempre suspeitos de “terrorismo,” como se alguma vez algum poder de ocupação colonial moderno houvesse inventado rótulo diferente para suas vítimas. Como se outro nome tivessem recebido os argelinos que lutaram contra a ocupação colonial francesa, como se outro nome tivessem recebido os que lutavam contra o Apartheid. Dessas vítimas, recusam-se até obituários com nome completo, idade, residência, causa e data mortis. Elas são as vítimas silenciadas para que o Ocidente continue mantendo o aplacador de sua consciência culpada que atende pelo nome de Israel.

beirut family.jpgFilhos se separam da mãe em Beirute. Foto: NYT.


Quando Israel saiu da faixa de Gaza, a canalha saudou o gesto de “nobreza” do verdugo, mais ou menos como o colaboracionista pronto para beijar as botas do oficial nazista que lhe permita lustrá-las depois; como se “nobreza” houvesse em terminar de criar o maior campo de concentração a céu aberto do mundo, com direito a checkpoints humilhantes, ausência de toda autonomia - da hidrográfica à fiscal – e ocasionais bombardeios, tudo isso numa faixa de terra sobrepovoada e submetida a décadas de ocupação.

Sobre as vítimas libanesas – em todas partes, mas muito especialmente em São Paulo – haverá o que dizer, oxalá: são 6 milhões de descendentes no Brasil. Quantos deles estarão em pânico de que um ser amado seja o próximo Basel Irmad Termos? Lembro-me vividamente de muitos deles, quando visitei São Paulo durante a última hecatombe promovida por Israel no Líbano, no começo dos anos 1980. Lembro-me do horror e do medo.

Quantas centenas de vítimas tomadas de surpresa por este bombardeio criminoso, este verdadeiro ato de terrorismo de estado? Quantas escolas, pontes, comércios, vidas, esperanças, futuros destruídos para que Israel prove que mata e faz prisioneiros, mas não os troca? É um curioso mundo, este em que dois soldados seqüestrados não podem ser trocados por prisioneiros políticos, mas a vida de centenas de civis inocentes e o futuro de milhões podem ser descartados e aniquilados no apertar de um botão – desde que sejam as vidas dos outros, deles, os árabes, os palestinos, os libaneses, os iraquianos, os que são sempre suspeitos de “terrorismo.”

Sim, porque dia haverá, parece, em que Israel bombardeará um vizinho porque este não bloqueou suficientemente o fornecimento de estilingues para as crianças palestinas refugiadas e famintas.

E a canalha continuará dizendo que “Israel tem o direito de se defender.”

PS: Amanhã reiniciam-se os posts com caixa de comentários aberta. O de hoje exerce o seu direito de não convidar discussão, apenas luto.



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terça-feira, 18 de julho 2006

Guimarães Rosa em imagens

rosa-menino.jpgGuimarães menino

guimaraes-casa.jpgCasa de J.G.R. em Cordisburgo, hoje museu.

gsv-2.jpg Edição contemporânea de Grande Sertão.

gsv-3.jpg Meu exemplar da 15a edição, de 1982.

gsv-espanhol.jpgGrande Sertão em espanhol. .

gsv-frances.jpgEdição de "Meu Tio, o Iauretê" e outros contos, em francês.

gsv-italiano.jpgGrande Sertão, em italiano.

redemoinho.jpgRedemoinho, xilogravura de Arlindo Daibert.

otacilia.jpgOtacília, pastel, grafite e colagem de Arlindo Daibert.

diadorim.jpgDiadorim, xilogravura de Arlindo Daibert.



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Novo blog da Ticcia

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segunda-feira, 17 de julho 2006

Dia Internacional do Rock e os 20 anos de carreira do Witchhammer

Não faltaram shows de comemoração do dia do rock aqui em BH, a capital brasileira do metal. Eu conferi dois deles: na sexta-feira a atração no Lapa Multishow foi a Banda Concreto, ganhadora do Prêmio Mineiro de Música Independente com seu metal pesado mas melódico e cheio de variações. Nos seus treze anos de estrada a Concreto participou de inúmeras coletâneas e lançou três CDs (A Calma da Alma, de 1998; Aquele que tem, de 2001; Volume III, de 2004). Já reconhecida como uma das principais bandas de hard rock do cenário underground brasileiro, a Concreto é veterana de apresentações para públicos de 50 mil pessoas ao lado de gente grande como Sepultura, Dio e Nação Zumbi.

Nessa sexta a Concreto apareceu de baterista novo, Alysson (que eu, como irmão, sou supeito para elogiar, mas toca pra cacete). Um gostinho do som da Concreto, aqui. Galeria de fotos, aqui.

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No domingo, no Matriz, tanto a velha como a nova guarda do metal se reuniram para render homenagem ao vigésimo aniversário do Witchhammer, legendária banda da cena underground mineira. A bruxa veio com tudo e fez um repasso dos vinte anos de carreira, desde a demo tape de 1986, que incluía uma das canções mais conhecidas da banda, "Weekend in Auschwitz", passando pelo primeiro disco solo (The First and the Last, 1988), pelo segundo, o operático, heterodoxo e genial Mirror, my Mirror (1990), pelo terceiro, disco de maturidade política e musical da banda, o Blood on the Rocks (1992) e pelo recente petardo Ode to Death (2006). Não faltaram os tributos aos pioneiros do Sagrado Inferno e do Chakal, duas das bandas que fizeram de Belo Horizonte uma cidade conhecida mundialmente pela força do seu heavy metal.

witch.jpg

Assim como as grandes sacadas de Chico Science foram 1) que o padrão rítmico do maracatu podia (e devia!) ser combinado com o de gêneros afro-atlânticos como o funk e o reggae e 2) que a arte verbal da embolada tinha tudo que ver e era uma prima genuína do rap, as grandes sacadas do metal mineiro foram: 1) que a fórmula aparentemente fechada do metal permitia uma variação infinita em timbre, volume, harmonia; 2) que as bandas que sobreviveriam seriam as que tivessem boa e imprevisível "cozinha", ou seja, especialmente uma bateria ancorada no jogo com os contratempos (e nisso tanto Teddy, baterista do Witchhammer, como Alysson, da Concreto, são feras); 3) que da onda "anti-cristã" (satânica) do primeiro momento do death metal, eles podiam se desfazer do adjetivo e ficar só com o prefixo anti, e ser, conforme o caso, antipolítica, antipsiquiatria, antiestado, antireligião; 4) que o estilo gutural do vocal do death metal (que apareceu para que as pessoas pudessem entender as letras, já que o volume instrumental do gênero é alto) era também uma poderosa arma para sincopar, "quebrar" a música.

Witchhammer foi pioneiro em todas essas sacadas. Qualquer que seja seu gosto musical, 20 anos de estrada no underground (com uma interrupção, é certo, nos anos 90) é de se respeitar e tirar o chapéu. Se você não ouve rock pesado mas está aberto a outros sons - mais, digamos, distorcidos que o usual seu - ouça Mirror, my Mirror e depois me diga. Está no meu top 10 de rock pesado brasileiro, em todos os tempos (só não acredite no que diz o link sobre "banda norueguesa", claro; eles são do Sagrada Família, Belo Horizonte).

Tanto no show de 20 anos do Witch como no show da Concreto verifiquei mais uma vez uma coisa bacana. No mundo anglo-saxão se fala muito do heavy metal como gênero "masculino" e "branco". Como já é de costume no metal mineiro, a coisa aqui vai por outro lado: as mulheres perfaziam, fácil, 50 ou 60% do público em ambos shows (maravilha de se ver) e negros e mulatos são sempre pelo menos 30 ou 40% da galera presente.

Mas todo mundo torce pro Galo. Headbanger cruzeirense eu não conheço. Aos atleticanos da Concreto, parabéns pela celebração em grande estilo do dia do rock, e aos atleticanos do Witchhammer, sobretudo, parabéns, por vinte anos de integridade e rock'n'roll.

PS: Dependendo de um conhecido, rolam fotos do show do Witch para atualizar o post. Seria impagável: Paulo Caetano (guitarra/vocais) de preto, com o número da besta, cara pintada de vermelho, cabelo arrepiado, pregando. Oxalá alguém tenha registrado. Eu esqueci a máquina, imperdoável.

PS 2: Mais sobre heavy metal:
a. Running with the Devil: Power, Gender, and Madness in Heavy Metal Music, de Robert Walser, já um clássico da etnomusicologia, que inclui um capítulo fantástico sobre o metal como releitura da música barroca.

b. De Mílton ao Metal (pdf), artigo curto meu.

PS 3: Deixamos Guimarães Rosa para a semana que vem, eu acho. Há várias pessoas ainda lendo, inclusive eu.



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sexta-feira, 14 de julho 2006

Clube de leituras: Antes do Grande Sertão

Guimaraes.jpg

São fracos os recursos existentes na internet sobre Guimarães Rosa. O Projeto Releituras traz um resumo biográfico mínimo com quatro contos ; há um bom artigo de um professor da medicina da UFMG, um interessante blog de citações e não muito mais. O artigo da Wikipedia não traz nem o essencial e fala de Rosa como “realista mágico,” o que é um chute bem longe do gol: o “realismo mágico”, tal como desenvolvido por García Márquez a partir de uma idéia de Alejo Carpentier em El reino de este mundo (de 1949, quando este ainda chamava a coisa de “lo real maravilloso”) tem pouco que ver com o que faz Rosa, tanto nos contos como nas novelas ou no Grande Sertão. Em Rosa não há formigas invadindo cidades ou mulheres gordas que voam. Não há essa tentativa de produzir um espanto artificial com a realidade: o realismo mágico pressupõe um olhar estrangeiro, alheio ao mundo que se narra, olhar que é a chave para que se produza o efeito "fantástico" ou “mágico”. Em Rosa, todo o contrário: Riobaldo é dali, do sertão, rigorosamente interno ao que narra. O estranhamento que aquele mundo produz não é fruto de um olhar que o vê como exótico. O estranhamento vem das entranhas mesmas.

Há excelentes estudos acadêmicos sobre Rosa, mas a universidade também já tropeçou bastante para falar dele: num colóquio recente, a chamada avisava que "Guimarães Rosa soube conciliar as reflexões e os estilos mais autenticamente brasileiros (ensaismo e oralidade) com as formas narrativas das vanguardas (fluxo de consciência, memória involuntária), como se não existissem ensaísmo e “oralidade” em outros lugares, ou como se as “formas de vanguarda” já não fossem, em 1956, tão “brasileiras” como o futebol. Ou seja, confusão pura. Generalidades sobre o “local” e o “universal” – e a combinação entre eles – são o pão-com-manteiga da crítica roseana. Já não acrescentam muito.

Nos sites de língua estrangeira há alguns chutes na arquibancada também. Um verbete americano fala de “naturalismo” em Guimarães Rosa (aliás, a tradução ao inglês de GSV, The Devil to Pay in the Backlands, é o trabalho de tradução mais horrendo já feito com um grande autor). “Naturalismo”, aqui no caso, está bem longe do justo; “naturalista” é a secura de Euclides da Cunha, autor ainda marcado por determinismos vários. Se no mundo naturalista a realidade se deduz com um grau razoável de certeza a partir de certas determinantes (raça, meio, herança genética), em Rosa tudo é turbilhão e incerteza, não só na cabeça do personagem, mas no tempo e fluxo do próprio texto. Mais inventivo e anti-naturalista, impossível.
gsv-2.jpg

“Regionalista” é outra palavra que aparece com freqüência para designar a literatura de Rosa. Aplicado a ele, o termo mais confunde que explica. O rótulo tem longa história na literatura brasileira, pelo menos desde os romances “regionais” de José de Alencar (como O Gaúcho), e designa aquela literatura (em geral rural) que se dedica não só a retratar uma região mas a criar personagem e problemática supostamente únicos àquele lugar. O regionalismo é uma fábrica de tipos (o vaqueiro, o retirante, a mulata do Recôncavo, etc.). Em Rosa não há tipos, só personagens múltiplos e fragmentados. O cenário de Rosa é, sim, rural e o lugar é tematizado repetidas vezes, mas o movimento é inverso ao do regionalismo: tudo no sertão de Rosa acaba virando mundo e englobando a própria cidade ao qual o sertão aparentemente se oporia. Quanto mais tu entras no movimento centrífugo do redemoinho, mais ele te joga, centrípeto, para o universo.

Essas são apenas algumas das palavras problemáticas que se repetem sobre Rosa. Isso não quer dizer que aqui ou ali elas não possam ser úteis, mas para descrever o que fez Rosa, são redutoras. Como ele renovou a língua mais que qualquer outro autor em português, o léxico da crítica também tardou um bom tempo para começar a dar conta do que acontecia. Ainda falta muito, mas há incontáveis trabalhos de qualidade por aí. Na vastíssima coleção de títulos, três me são especiais:

O volume da Coleção Fortuna Crítica, já esgotado mas facilmente encontrável em sebos e bibliotecas, traz uma compilação de muitos dos melhores artigos já escritos sobre Rosa, por feras como Haroldo de Campos e Benedito Nunes. Vale a pena.

O Léxico de Guimarães Rosa, de Nilce S. Martins, é um trabalho recente, assombroso, organizado em forma de dicionário. São 8 mil verbetes, com todas as invencionices de Rosa. Para quem quer ir fundo, é indispensável.

A Vereda Trágica do Grande Sertão: Veredas, da minha conterrânea (e feríssima) Sônia Viegas, é a mais aguçada leitura filosófica do romance.

Eu estou relendo o livro pela sexta vez, acho. E estou ainda mais assombrado do que fiquei em 1985, quando li pela primeira vez, no colégio.

Na semana que vem começamos uma discussão sobre Grande Sertão: Veredas aqui, organizada o demo sabe como. Talvez possamos fazê-la por assuntos, ao longo de três ou quatro posts, que poderiam tratar de temas como o fáustico (todo o drama da alma e do pacto com o diabo), o amor Riobaldo-Diadorim (que é pano pra manga que não acaba mais) a estrutura do texto e a linguagem (que tal uma coleção de citações do livro?), o rico problema da memória no texto, e o que mais nos der vontade. Provavelmente os assuntos vão se misturar. É a lei do sertão.



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quarta-feira, 12 de julho 2006

Quem é Zinedine Zidane?

líder.jpg

Copa do Mundo? Chega! Ça suffit! Enough is enough! !Basta ya! Genug! Tudo bem. Mas essa cabeçada do Zidane tem que ser mais discutida. Porque ela é tão simbólica e rica de sentidos, não é mesmo?

Lembremos: esta Copa foi promovida pela FIFA como parte da luta contra o racismo no futebol. A partir das oitavas quartas (obrigado, Daniel), os capitães de cada equipe leram, antes de iniciada cada partida, uma declaração contra o racismo (bem, no caso do capitão brasileiro, gaguejou seria o verbo mais apropriado). Não é amargamente irônico que a seleção mais multicultural, mais etnicamente inclusiva da Europa tenha dado adeus ao título no momento em que seu capitão – ninguém menos que o maior craque da última década – decidiu que não engoliria um insulto racista? Interessa-me a cena, como vislumbre do que está em jogo quando se fala de racismo no futebol.

Materazzi já admitiu que insultou, embora diga que não foi com epíteto racista. O grupo SOS Racismo diz que tem fontes confirmando que Zidane foi chamado de “terrorista sujo”. Até aí, na minha cabeça, era uma palavra contra a outra. Mas se há uma habilidade que você desenvolve dando aulas, é a de pegar o mentiroso na mentira. E Materazzi, ao dizer que “não é culto” (je ne suis pas cultivé) e que “não sabe o que significa” a palavra “terrorista”, está mentindo: mentira tão transparente como a do aluno que mata três avós por semestre, sempre na véspera de provas.

Em primeiro lugar, os pingos nos devidos is: Zidane é o maior jogador de futebol do mundo; Materazzi é um carniceiro, um assassino em potencial. Exagero? Vejam esse vídeo aqui com suas pérolas, que poderiam ter enviado ao hospital ou ao cemitério algumas de suas vítimas. Não condeno o craque que revida a violência de zagueiros brucutus; aliás, como sabe quem joga futebol, se você é atacante, talentoso e não revida, você tem os dias contados. Como foi muito lembrado desde domingo, Pelé já quebrou propositalmente a perna de um adversário alemão no Maracanã em 1965. No México, em 1970, o Rei quase esmigalhou o crânio de um uruguaio com uma cotovelada que bem poderia ter mandado o cabra desta para a melhor. Cenas similares aconteceram na carreira de todos os grandes craques.

Por isso não se trata aqui de dizer quem está certo ou errado. A coisa é mais complexa. Não há nada que eu ache mais repugnante do que o discurso da indignação santa tão presente em mesas-redondas sobre futebol: aquela coisa do tipo como esse grande jogador pode ter feito isso?. Por aí não se chega a lugar nenhum.

Tudo naquela cena – o trote aparentemente calmo de Zidane com Materazzi falando nas suas costas, a virada tranqüila, a cabeçada calculada, a ausência de qualquer outra agressão ao italiano caído – parece indicar que Zidane pensou sim no que estava fazendo. Se for o caso, não se poderia ler a cabeçada como a última grande jogada do gênio, dizendo à FIFA e ao hipócrita mundo do futebol: Fiquem com a taça, eu acabo de condenar a Copa anti-racismo a ser ganha com um epíteto racista. Esse gesto, para mim, vale mais que a Copa.

baile.jpg

Sim, porque na hora da cabeçada ele sabia, eu sabia, quem acompanha futebol sabia que ali, naquele momento, a Copa tinha dono, e era a Itália. E quem dominou o jogo na prorrogação foi a França. Então, a pergunta do boleiro seria: por que não esperar a bola entrar em jogo e quebrar o tornozelo do cabra, como Pelé fazia? Com certeza Zidane teria o talento para fazê-lo sem ser expulso, escapando no máximo com um amarelo. Por mais voltas que se dê a esse incidente, não vejo outra conclusão: Zidane sabia muito bem o que fazia. Com o ato, expressou-se, falou. Sobre o racismo, disse o mesmo que havia dito nessa maravilhosa entrevista de 2004.

Suponhamos que Zidane não tivesse revidado. Suponhamos que ele tivesse arregimentado uma testemunha de sua equipe, procurado o árbitro do jogo e afirmado que, como capitão, ele lhe comunicava que a Seleção Francesa não continuaria enquanto Materazzi permanecesse no campo de jogo. E completasse dizendo que na Copa anti-racismo era inaceitável que alguém que usa agressões racistas disputasse uma final. Não teria sido um qüiproquó delicioso, que confrontaria a FIFA com os limites, a hipocrisia da sua própria campanha, impotente até mesmo para punir torcidas espanholas que imitam macacos quando os jogadores negros pegam na bola?

com-camisa-de-portugal.jpgA foto mais bonita da Copa para mim: Zidane com a camisa de Portugal, aplaudindo a torcida portuguesa (Rafex também gostou).

Zizou pode estar triste agora, é natural, mas tenho certeza que está tranqüilo. Materazzi pode estar eufórico com o tetracampeonato da Itália, mas garanto: tranqüilo ele não está. Não, eu não acredito no papo da revista alemã Der Spiegel de que a FIFA pode até tirar o título da Itália. Seria como acreditar na democratização da CBF. Mas quanto mais essa história venha à tona, e quanto mais o tempo passe, mais o revide de Zizou será lido na sua humanidade, e mais a agressão racista de Materazzi será colocada onde deve.

Uma das maiores imbecilidades que a dupla Parreira-Zagallo repete aos quatro ventos é que a história só se lembra dos vencedores. Pura balela. Até minha avó sabe quem foi Puskas. Até especialistas em futebol se esquecem de quem foi Fritz Walter. Por quê? Porque Puskas foi gênio, Walter foi simplesmente o capitão de uma seleção que ganhou a Copa, nada mais.

E sabem que acho o silêncio (temporário, pelo que parece) de Zizou dos mais nobres? Seus compatriotas o entenderam. Blogueiros de outros lugares também. Entre os leitores do Le Monde, solidariedade e respeito. E depois de tudo, minha admiração pela seleção francesa, pelo papel histórico desse time na luta contra a praga do racismo só aumentou.

E a saída de Zizou foi exatamente como a entrada: pela porta da frente, redefinindo o lugar de cada um dos que ficaram.

Salut, Zizou.

Atualização: Não deixem de ler A cabeçada de Zidane , uma história de honra e racismo, maravilhoso texto de Zélia Leal Adghirni; Semideuses, um petardo em três parágrafos de Drex Alvarez; Notas Finais sobre a Copa, de Gravataí Meregue; Demasiadamente Humano, de Alexandre Inagaki, de quem roubei os links aos textos citados nesta atualização. Parece que pelo menos na blogosfera a hipocrisia da mídia bem-pensante teve uma resposta à altura.



  Escrito por Idelber às 03:41 | link para este post | Comentários (57)



terça-feira, 11 de julho 2006

O eterno retorno nietzscheano

parreira-1983.jpg
(capa da Revista Placar em 11 de novembro de 1983)



  Escrito por Idelber às 14:16 | link para este post | Comentários (13)



segunda-feira, 10 de julho 2006

Os cinco mais da Copa

E não é que o Zidane avacalhou com o post que eu trazia quase pronto, independente do resultado da final? Na impossibilidade de fazer a homenagem à despedida de Zizou, fica aqui uma seleção do que eu gostei nesta Copa.

Cannavaro é o melhor zagueiro que vi jogar desde Figueroa. Até os 109 minutos da final, ele era simplesmente o maior zagueiro da Copa. Com a cabeçada de Zidane em Materazzi, Cannavaro arrebatou a coroa de craque do mundial.

felipão.jpg Felipão: Pegou um time com Pauleta, Postiga e Costinha e os levou às semifinais da Copa.

german-fans.jpgTorcida alemã: Nenhum único incidente grave, um astral maravilhoso, identificação com o (antes desacreditado) time alemão e uma lição: é possível ser uma potência futebolística e celebrar com alegria um terceiro lugar. Desde que conquistado com luta e honra, claro.

contra-espanha.jpg Zidane: jogou bola como ninguém nesta Copa. Deu um passeio no Brasil, um vareio na Espanha, mostrou mais arte que qualquer outro jogador. Mas provavelmente não escolherão como craque da Copa um atleta que deu uma cabeçada daquelas no adversário - qualquer que tenha sido a ofensa.

klinsmann.jpg Klinsmann: pela primeira vez, um técnico alemão vibrante, comemorando gols, identificado com a torcida. Armou um time ofensivo e forte a partir de uma Alemanha que havia virado motivo de chacota na Europa. Numa Copa de um único craque, não deixa de ser apropriado que dois destaques tenham sido técnicos motivadores.

Minha seleção da Copa: Buffon (ITA), Zambrotta (ITA), Thuram (FRA), Cannavaro (ITA) e Lahm (ALE); Vieira (FRA), Máxi Rodríguez (ARG), Zidane (FRA) e Cristiano Ronaldo (POR); Henry (FRA) e Klose (ALE).



  Escrito por Idelber às 03:06 | link para este post | Comentários (21)



terça-feira, 04 de julho 2006

Recordes estabelecidos pelo time do autor de "Formando Equipes Vencedoras" em 2006

recordes.jpg


Se Zinedine Zidane fosse brasileiro, Parreira começaria com ele no banco (um comentarista do blog de Juca Kfouri).

Jogador mais pesado a vestir a camisa da Seleção em Copas: Ronaldo, 95,5 kgs, contra a Croácia.

Maior número de passes laterais ou para trás na história do Brasil nas Copas
: 187 contra a Croácia.

Maior número de derrotas com a camisa canarinho para uma mesma seleção em competições internacionais: Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo, com três derrotas e meia para a França.

Maior número de derrotas de um técnico da seleção de seu país dirigindo outras seleções em Copas
: Carlos Alberto Parreira, com zero vitórias, dois empates e sete derrotas.

Maior número de recordes individuais quebrados por uma equipe que não passou das quartas-de-final: Brasil de 2006, com 2 – o recorde de Ronaldo de gols marcados e o de Cafu, de partidas disputadas.

Tempo mais longo gasto na arrumação de uma meia durante uma partida da Seleção em Copas
: Roberto Carlos, 1 min. e 18 seg durante o gol da França.

Maior número de tropeços nas próprias pernas de um jogador brasileiro em Copas: Ronaldo, com 17 em 5 jogos.

Maior número de chapéus sofridos por jogadores da Seleção Brasileira em Copas
: 3, todos aplicados por Zinedine Zidane.

Menor número de titulares da Seleção Brasileira desembarcando num aeroporto nacional pela porta da frente depois de um Copa: 1

Maior número de torcedores brasileiros mandando o técnico da Seleção ir tomar no cu em território estrangeiro: 8.550, na Alemanha, durante a partida contra a França.

Há vários outros recordes. Alguém se habilita a contribuir com a lista?



  Escrito por Idelber às 22:20 | link para este post | Comentários (30)




Lançamento de Um defeito de cor no Rio de Janeiro

um_defeito_de_cor.jpg Está marcado o lançamento de Um defeito de cor, da Ana, na Cidade Maravilhosa: o evento acontece dia 3 de agosto, quinta-feira, às 19:00, na livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417 - Leblon). Eu estarei lá com a Ana.

Ao contrário do lançamento de BH, para o qual os convites foram enviados por email, desta vez a editora vai providenciar convites impressos, enviados por correio normal. Todos os leitores do Biscoito estão convidados. Se você quer ir, deixe um comentário aqui acompanhado do seu email, para que eu possa pegar o seu endereço. Ou então me mande um email já com a informação, até sexta-feira.

Não se esqueça de convidar o seu amigo rabugento que acha que já não existe literatura como antigamente.

Aliás, eu estarei no Rio durante a última semana de julho e os dez primeiros dias de agosto, para esse lançamento, uma palestra na UFRJ, a Festa Literária de Parati e o Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada, o melhor congresso de estudos literários da América Latina, desta vez com 2.000 participantes (destes, eu e mais 33 colegas passaremos as tardes falando dos contos de Machado de Assis).

Em breve entramos em modo Grande Sertão: Veredas por aqui. Tem gente lendo aí? Sobre futebol eu não falo mais até que alguém acerte o raio da pergunta que eu deixei no post de ontem.

Portanto, amigos do Rio: entrem em contato.



  Escrito por Idelber às 03:06 | link para este post | Comentários (29)



segunda-feira, 03 de julho 2006

Sobre cair de pé e cair de quatro

Eu sou torcedor do Clube Atlético Mineiro. De derrotas eu entendo. Não que nos faltem vitórias: elas são numerosas e algumas foram heróicas, conquistadas sobre adversários superiores. Mas o Galo é marcado, sim, por derrotas famosas, algumas trágicas pelo cruel papel do acaso, outras revoltantes pela participação da arbitragem. Mas os atleticanos nos orgulhamos de torcer para um time que jamais caiu de quatro, jamais perdeu sem honrar a camisa. O Galo jamais perdeu como o Brasil em 1974 ou em 1998 (com Zagallo) ou, especialmente, como o patético Brasil de 2006 (de Parreira). gol-frança3.jpg

O preâmbulo é para dizer que eu não sinto nenhuma necessidade de tripudiar sobre uma Seleção Brasileira pelo simples fato de ela haver perdido. Não o fiz em 1982 ou 1986, quando já era fanático por futebol: aquelas seleções não me roubaram o direito de me sentir triste pela derrota de meu time.

Também não quero fazer um post com tom de eu não disse?, porque não há nenhum mérito em ter dito o que estava óbvio para qualquer um que acompanha futebol de perto.

Mas não há como não fazer um balanço do fim melancólico, da derrota estrepitosa, da mui reveladora e emblemática humilhação final sofrida pela concepção de futebol imposta por Zagallo e Parreira à Seleção nas últimas 3 décadas e meia, concepção só interrompida durante dois intervalos em que Telê dirigiu o escrete nos anos 1980.

Em primeiro lugar, Parreira é um pretenso cientista, um tecnocrata do esporte que fala sempre em nome de uma suposta “eficácia”. É desportista, mas fala com o tom professoral do “mestre” que ainda não aprendeu a lição número um que sabe qualquer professor: a de que o conhecimento é um processo e que ninguém detém a verdade absoluta e final. Parreira se dirige a seus compatriotas com o tom de quem explica o óbvio a um bando de retardados mentais: é um caipira que repete manuais, copia o pior do futebol italiano, gagueja em inglês e pensa que é alemão: “Futebol bonito não ganha jogo”, “quem quiser espetáculo que vá ao circo”, “em Copa dar show é ganhar”, entre outros insultos à nossa inteligência. Há ironia mais deliciosa do que o fato de que sua seleção jogou feio e perdeu para um time que, além de vencer, jogou bonito?

Quando gente como Tostão, Soninha, Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho (e muitos outros que entendem mais de futebol que eu) cobravam, nas primeiras partidas, que o time brasileiro jogasse bem, Parreira respondia com seu bordão de que “jogo bonito não ganha Copa”, como se alguém estivesse pedindo shows de passes de calcanhar, lençóis e bicicletas. Mas quem acompanha futebol sabe que quando Parreira e Zagallo destilam seu ódio contra o “futebol bonito”, na verdade o termo é um código para atacarem Telê Santana, para expressarem seu infinito rancor e inveja de Telê – porque Telê perdeu duas Copas e é amado e reverenciado. E eles ganharam uma Copa cada um e não são amados por ninguém.

Eles puderam, durante 12 anos, enfiar suas platitudes nossa goela abaixo porque ganharam a Copa de 1994 – e aí passaram a falar em nome da “eficiência”. Naquela Copa medíocre, bem inferior a esta, Parreira montou, sim, um time capaz de se defender, enervar o adversário, segurar a bola e contar com o lampejo de gênio definidor de Romário, a quem, diga-se de passagem, Parreira só aceitou convocar no último jogo das eliminatórias, quando o Brasil corria o risco de passar o vexame histórico de não se classificar.

E o que mais esse homem ganhou na vida, meu Deus do céu, que lhe dê direito de falar com tanta empáfia em nome da “eficiência”, pontificar com a certeza de quem sabe a verdade última sobre o futebol? O Campeonato da Série C com o Fluminense? Uma Copa do Brasil com o Corinthians recebido armadinho das mãos de Osvaldo de Oliveira? A classificação para a Copa do Mundo com a Arábia Saudita, jogando contra o Cazaquistão? E mais o quê, em quase quarenta anos de carreira como técnico? Que grande eficiência é essa?

Da mesma forma como não sabe ganhar – quando ganha comporta-se com prepotência e soberba – Parreira não sabe perder. Suas declarações das últimas 24 horas são indignas de um técnico da Seleção. É uma mistura de meias-verdades, transferências de responsabilidade, desculpas esfarrapadas, falsos silogismos, non sequiturs e tudo quanto é truque retórico para fugir do encontro com as lições que ele deveria ter a mínima honestidade de enfrentar. Senão vejamos:

1. Parreira diz que não se arrepende de nada do que fez. Caramba, mas ele mudou o time para o jogo decisivo e escalou a formação que quase todos queriam, com mais um meio-campista (Juninho) no lugar de um centroavante (Adriano; deixemos de lado o fato de que uma parte significativa queria a saída de Ronaldo)! Ora, ou ele tem que se arrepender de ter feito essa mudança ou ele tem que se arrepender de não tê-la feito antes, quando todos já a pediam. Ou ele acha que um grupo de 11 jogadores que jamais jogaram ou treinaram juntos renderiam o suficiente contra as melhores seleções da Copa? E o sujeito tem a parcimônia de se defender com o argumento de que “todos aprovaram as mudanças que eu fiz na equipe”! Ele passa meses escalando um time que quase ninguém aprova, aí na véspera do primeiro jogo de verdade da Copa ele escala, sem jamais ter treinado, a formação pedida pela maioria. Perde e se defende com o argumento de que fez a mexida que todos pediam! Eu quero crer que jamais justificaria um erro ante meus alunos com um argumento esfarrapado desses. Assumiria o erro.


2. Parreira diz que “sabia que a França jogaria desta forma, defendendo-se com nove atrás”. Será que ele viu outro jogo? No jogo que eu vi a França atacou com nove jogadores. Ele diz também que “sabia que eles iriam explorar as jogadas de velocidade para o Henry e as bolas paradas com o Zidane”, mas mesmo sabendo disso, ele escala uma equipe onde um dos seus zagueiros, grotescamente, na posição em que Napoleão perdeu a guerra, se dedica a arrumar a meia enquanto Zidane cobra uma falta para o Henry que esse zagueiro teria que estar marcando? Vejam bem, a França mereceu marcar muitos mais. De forma nenhuma sugiro que aquele lance foi uma fatalidade, ou que é tão importante assim. Eles teriam ganhado de qualquer forma. Eu só pergunto: é ou não é emblemático do time de Parreira que o mais arrogante, o mais mascarado, o mais pretensioso dos jogadores tenha sido imortalizado nesta posição?
napoleão-2.jpgRoberto Carlos perde a majestade que nunca teve.

3. Parreira diz que “tivemos que recuperar alguns jogadores que chegaram de uma temporada européia muito desgastante. Além disso, fizemos um único amistoso oficial antes do Mundial”. Ora, se os jogadores brasileiros vinham de “desgastante” temporada européia, onde jogam os atletas franceses, italianos, alemães, portugueses? Na liga de Botsuana? E de quem é a responsabilidade se nenhum amistoso real foi marcado na fase de preparação da Copa? De quem é a responsabilidade se nem mesmo treinos em campo inteiro o time brasileiro fez? Como ter a cara-de-pau de dizer que “não se arrepende de nada”?


4. A uma observação feita por milhares no Brasil inteiro e registrada aqui neste blog nos dez primeiros minutos do jogo contra a Croácia – a de que Ronaldo não tinha a menor condição de jogar a Copa – Parreira respondeu, depois da vitória ilusória sobre o Japão, com um vai tomar no cu dirigido aos críticos, como se dois gols sobre o Japão provassem algo; depois da derrota para a França, ele veio com o “argumento” de que “Ronaldo foi o nosso jogador mais incisivo, com três chutes a gol”. Tanta discrepância com a realidade não pode ser fruto de cegueira; é má fé mesmo. No jogo que eu vi, Ronaldo tropeçava na própria banha, caía sozinho pedindo falta, levava lençóis de Zidane e coroava a “atuação” com um dos momentos mais grotescos da Copa: uma “cortada” de vôlei na bola depois de uma cobrança de falta francesa, seguida de reclamação com a arbitragem pela marcação do toque, como se existisse no futebol alguma regra que autorizasse o toque de mão para se proteger de boladas na bochecha. Desculpem-me, há algumas coisas no esporte que são incontornáveis: se você tem 1,65m você não joga basquete na NBA, se você tem 95 kgs dificilmente estará em condições de jogar futebol no nível exigido por uma Copa do Mundo.

5. Sim, os jogadores, exceção talvez feita a Dida, Juan e Lúcio, todos têm culpa também. Mas o time foi um reflexo fiel do seu comandante: cheio de vaidade, incapaz de reconhecer o erro, desdenhoso com o adversário, preocupado em quebrar recordes pessoais. Ao longo de 360 minutos de futebol o Brasil tentou entregar bolas para que um atleta obeso e quase imóvel pudesse quebrar o recorde de gols em Copas; programou-se para que um outro pudesse quebrar o recorde de participações em Copas; no fim de um jogo, um atleta nega a outro o passe para um gol feito, porque havia prometido homenagem ao filho; numa quarta-de-final de Copa, um jogador ostensivamente grita com o outro sai fora para não deixá-lo bater uma falta. Nunca houve tanto divórcio entre as simbólicas e estatísticas realizações individuais e a (inexistente) realização coletiva.

6. Por último, a forma como se perdeu foi vexaminosa. Lembra-se da eliminação da Argentina? Você iria ao aeroporto vaiar compatriotas seus que fossem eliminados daquela forma? Eu consideraria a possibilidade de ir lá recebê-los e aplaudi-los. Lutaram 120 minutos contra um adversário gigante, empataram um jogo que era uma vitória quase certa porque o técnico cometeu um erro tático, caíram no último pênalti. Choraram sem esconder o rosto, como homens (não aquele choro meio adolescente, envergonhado, de Beckham, que pode ter se machucado feio mesmo, não sei). Tá certo, armaram lá seu empurra-empurra quando o alemão provocou. Mas saíram de cabeça erguida. O apito final de Brasil x França foi humilhante. Nos jogadores brasileiros, nem raiva nem lágrimas: posturas blasê que ocupavam o lugar da vergonha ou, por outro lado, Robinho e Cicinho sorrindo e pulando para abraçar o pescoço de Zizou, o mestre, parabenizando-o como o faríamos eu, você ou qualquer outra testemunha do jogo.

Zidane transformou os jogadores brasileiros em espectadores de sua arte, em plena quarta-de-final de Copa do Mundo. Não foi justiça poética divina, ver os craques da seleção “eficaz”, “competitiva”, “de resultados” de Parreira não só eliminados pela epítome do futebol-arte, mas reduzidos a render-lhe reverentes homenagens ao final, mais visíveis ali que qualquer decepção pela derrota?

Que da vergonha desse primeiro de julho fique pelo menos esse bonito legado.

Pense nisso, Parreira.

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* Todas as citações não acompanhadas de link são tiradas do diário Lance, edição de 02 de julho de 2006.

* Fotos: a primeira, de Ana Maria Gonçalves, do filme do Le Monde. A segunda, roubada de Milton Ribeiro.

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PS aos memoriosos futebolísticos do blog. Há alguns anos, Parreira e Felipão se enfrentaram numa partida em que a equipe de Felipão venceu por 4 x 2, de virada, estilo feliponesco. Foi um resumo antecipado da Copa de 2006. Quem se lembra desse jogo?

PS a todo mundo. Replico aqui a pergunta que fez o cumpadi Inagaki no Pensar Enlouquece: quem você gostaria de ver como técnico da Seleção, entre os possíveis, os prováveis e os impossíveis?

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Atualização às 17:30: Já são 36 comentários e ninguém adivinhou qual foi o 4 x 2 que Felipão enfiou no Parreira? Vocês querem fazer este blog passar vergonha?



  Escrito por Idelber às 01:33 | link para este post | Comentários (56)



sábado, 01 de julho 2006

Crônica de uma eliminação anunciada

A Argentina de Pekerman caiu tragicamente. O Brasil de Parreira caiu grotesca, melancolicamente.

A derrota é dele. parreira-2.jpg

Tomara que ele tenha pelo menos a hombridade de assumi-la. Conhecendo-o, eu duvido.

E parabéns ao Maestro Zizou.

zidane.jpg

Além de ser craque, joga com a alegria que a tecnocracia arrogante e medíocre de Parreira tirou da Seleção Brasileira.

Atualização às 18:14: Parece que Parreira não tem nada a dizer. Quando o Brasil foi eliminado em 1982, fazendo gols e jogando bem, Telê Santana abriu o vestiário alguns minutos depois da derrota. Parabenizou os italianos, agradeceu a hospitalidade espanhola, respondeu perguntas e assumiu a responsabilidade pela derrota. Saiu ovacionado pela imprensa do planeta inteiro. O Brasil se despediu de cabeça erguida: dignidade, dignidade infinita de Telê Santana. Exatamente o oposto de Carlos Alberto Parreira - arrogante nas vitórias e covarde nas derrotas.

Atualização às 19:50: Ambos os técnicos conseguiram proezas históricas hoje. O Felipão levou Portugal às semi-finais. O Parreira conseguiu juntar alguns dos melhores jogadores do mundo e fazê-los sumir. (Ticcia)



  Escrito por Idelber às 18:54 | link para este post | Comentários (59)




Portugal virou Rio Grande

felipão.jpg

Por onde andam os críticos de Felipão?



  Escrito por Idelber às 15:55 | link para este post | Comentários (7)