Meu Perfil
Um weblog anti-apocalíptico sobre polí­tica, música, futebol e literatura.



email: idelberavelar arroba gmail ponto com
Sobre o autor
 Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane
 Prêmio Itamaraty (pdf)
 The Untimely Present
 The Letter of Violence
 Alegorias da Derrota
 Ensaio sobre o PT
 Balanço Governo Lula
 Ensaio Música Mineira
 Ensaio sobre 11/09
 Entrevista no Chile
 Entrevista no Gravatá
 Ensaio sobre o Galo


Sobre ela
 Um defeito de cor
 Ao lado e à margem do que sentes por mim
 Prêmio Casa de las Américas
 Comentário de Millôr
 Comentário de Risério
 Resenha na Folha de Pernambuco
 Entrevista na Record
 Entrevista na Globo News
 Entrevista na Novae (2002)


Direto do arquivo
 Decálogo do blogueiro
 Perfil do direitista tupiniquim
 ABC das eleições americanas
 Valsa, Polca e Maxixe
 Discoteca do Mangue Beat
 Homenagem a Silviano Santiago
 A Globo e as eleições
 Katrina, em 10 datas
 On Cult studies and blogs
 Bloomsday
 Sobre o luto
 Entrevista com José M. Wisnik
 Entrevista com Martín Kohan


Histórico
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 Clube de leituras
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Visito
 Acontecimentos
 Afrodite sem Olimpo
 Afonso, o Chato
 After the Fall
 Agência Carta Maior
 Aguafuertes
 Alcinéa Cavalcante
 Alê Felix
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Amante profissional
 Ane Aguirre
 Animot
 Antônio Carlos Miguel
 Ao mirante, Nelson!
 Bala perdida
 Balípodo
 Bereteando
 Biajoni!
 Bibi's Box
 Big muff
 Blog do Alon
 Blog do Cássio
 Blog do galinho
 Blog do Juarez
 Blog do Mello
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blog dos Perrusi
 Blogafora
 blowg
 The brain eaters
 Brainstorm # 9
 Branco Leone
 Bratislava
 Bugio
 Caldos de tipos
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Caryorker
 A casa da colina
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinefilia
 Cinematógrafo
 Cintaliga
 Cocadaboa
 Conejillo de Indias
 Contra Capa
 Contraditorium
 Controvérsia
 Conversa afiada
 Cria Minha
 Cris Dias
 Crônicas perversas
 Cultura e barbárie
 Cyn City
 Cynthia Semíramis
 Uma dama não comenta
 Daniel Lopes
 De olho no fato
 De primeira
 De Rasuras
 Dez polegadas
 Diálogico
 Diário da Lulu
 Diário da Odalisca
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Diário gauche
 Diplomacia bossa nova
 Discoteca básica
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Don Quijote
 Dossiê Alex Primo
 ¡Drops da Fal!
 Duas Fridas
 É bom para quem gosta
 É por aqui que vai pra lá?
 eblog
 Ecologia Digital
 Enloucrescendo
 Enquanto seu blog não vem
 Epicaos
 EraOdito
 Escrúpulos Precários
 Eugenia in the meadow
 O eu profundo
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 A Feminista
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Fósforo
 Fina flor
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Futebol, política e cachaça
 Gabinete dentário
 Galo é amor
 Garotas que dizem ni
 Gejfin
 Gravatá
 Gravataí Merengue
 Groselha news
 Guga Alayon
 Guia de literatura
 Hedonismos
 Hermenauta
 Histórias do Brasil
 HQ e cultura
 Hunny.bunny
 Idéias mutantes
 Impedimento
 Impostor
 Imprensa Marrom
 Incautos do ontem
 Ingresia
 InternETC
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jon Kepa
 Juca Kfouri
 Juliano Rosa
 Kit Básico da Mulher Moderna
 La lectora provisoria
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 Letícia na web
 Liberal Libertário Libertino
 Limpo no lance
 Linkillo
 Lino Resende
 Lixo Tipo Especial
 Lixomania
 Lord Broken Pottery
 Luis Nassif
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 Maísa na blogosfera
 Uma Malla pelo mundo
 Marcelo Coelho
 Marconi Leal
 Marmota
 Martelada
 Meio bossa nova
 Melômano
 Meta.comunix
 Milton Ribeiro
 Mineiras, uai!
 Mino Carta: direto da Olivetti
 Mothern
 Monolingua
 Mox in the sky with diamonds
 Música popular do Brasil
 Na média
 Na prática a teoria é outra
 Nababu
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Noncapisconiente
 Nova corja
 Novo mundo
 Nóvoa em folha
 Odisséia literária
 Óleo do diabo
 Olho de boi
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 A Ostra e o vento
 Outros dias
 Overmundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Paralelos
 Parede de meia
 Pátria futebol clube
 Pecus Bilis
 Pedro Alexandre Sanches
 Pedro Dória
 O pensador selvagem
 Pensamentos esparsos
 Pensar enlouquece
 Perto do coração selvagem
 Pirão sem dono
 Poemas del alma
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Prosaico20mgs
 Puente aéreo
 Quando, onde e como
 Que cazzo
 Querido leitor
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Retrato do artista quando tolo
 Ricardo Antunes da Costa
 Río fugitivo
 Rizomas
 Roda de ciência
 Rosebud NYC
 RS urgente
 Sandino
 Seqüências parisienses
 Sergio Leo
 Serbão
 Sérgio blog 2.3
 Silenzio, no hay banda
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Soninha
 Soninha (gabinete)
 A Sopa no exílio
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 Superfície reflexiva
 Talqualmente
 Tapera
 Taxitramas
 Tentativas de mitologia
 Terapia Zero
 Tiago Dória
 Todo prosa
 Todos os fogos o fogo
 Tordesilhas
 Torero
 Torre de marfim
 Três amigos
 Tudo pode acontecer
 Tudo que é sólido se desmancha no ar
 Túlio Vianna
 Umbigo do sonho
 Ultimas de Babel
 Universo anárquico
 Vejo tudo e não morro
 Velho do farol
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 A vida em palavras
 Virunduns
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« junho 2006 :: Pag. Principal :: agosto 2006 »

segunda-feira, 31 de julho 2006

Revista Época publica a melhor matéria já feita sobre a blogosfera no Brasil

epoca.jpg Das matérias sobre blogs já publicadas na grande imprensa, a da revista Época desta semana me pareceu a melhor. Fez uma análise ponderada do impacto dos blogs nos últimos anos, apresentou uma lista de 8 importantes blogs brasileiros e 10 grandes blogs em inglês, ofereceu algumas estatísticas úteis. Relatou alguns casos históricos da Internet brasileira, como o plágio cometido por Antônio Carlos Magalhães num discurso no Congresso e denunciado pelo Catarro Verde. A revista traz também uma entrevista com John Batelle, fundador da Wired e colaborador do Boing Boing, e até ensina aos internautas mais incautos os primeiros passos para a confecção de um blog. Para concluir, a matéria oferece uma cronologia de alguns momentos chave da blogosfera americana, desde a criação do Links.net, em 1994, até o inédito evento ocorrido em Janeiro de 2006, quando a revista Time pagou para ter o blog de Andrew Sullivan en seu site. Na versão online da matéria, a Época também traz uma excelente cronologia da blogosfera tupiniquim, feita por Alexandre Inagaki.

Se há alguma matéria sobre blogs em língua portuguesa melhor que essa, eu desconheço. Como este blog não tem papas na língua quando se trata de malhar os erros da imprensa, faço questão de deixar meu pitaco: parabéns aos jornalistas Ricardo Amorim e Eduardo Vieira.

Segundo a revista, os critérios usados para a seleção dos blogs foram não apenas a audiência, mas também "o impacto e relevância do conteúdo gerado”. Os 8 blogs selecionados pela Época como “os mais quentes do Brasil” foram: Jesus, me chicoteia, Kibe Loco, Cocadaboa, Interney, Querido Leitor, Pensar Enlouquece, Noblat e Juca Kfouri. É uma lista de respeito, sem dúvida, pelo que esses blogs já realizaram. Só para que conste: são 7 homens e uma mulher.

Esta é minha única crítica à lista: há vários blogs de mulheres (tratando ou não de interesses específicos das mulheres) que já construíram uma história na internet brasileira. A minha lista traria pelo menos um desses blogs: Drops da Fal, Bibi’s Box ou Mothern.

Pela comunidade que criou, pelo estilo que inventou, pela interação que promove com os leitores, acho que a Fal merecia estar na lista. A Fal bloga desde março de 2002. Pelo incrível mapeamento que faz dos recursos da Internet, a Bibi também mereceria um lugar ali, apesar de blogar em inglês. Os arquivos do Bibi’s Box se remontam a maio de 2004.

Mas talvez a proposta mais inovadora e relevante para a vida de seus leitores a ficar fora da lista foi o Mothern, revolucionário blog sobre maternidade (e tudo o que acompanha o tema, ou seja, o universo) criado por Laura Guimarães e Juliana Sampaio. O Mothern já virou livro e no dia 19 de agosto estréia como programa de televisão no canal GNT. O Mothern também é responsável pela criação de um verdadeiro fórum de mulheres que cotidianamente trocam experiências no livro de visitas, independentes das atualizações do blog.

Além das mencionadas, Hernani Dimantas, Cris Dias e Tiago Dória seriam outros nomes que me viriam à memória para uma lista dessas, pela qualidade e consistência do trabalho que têm feito na blogosfera.

Da lista publicada pela Época, quem eu tiraria para pôr as Mothern, a Fal ou a Bibi? Bom, eu tenho infinito respeito pelo trabalho do Juca Kfouri e, sem dúvida, 10 milhões de visitas em menos de um ano é um número impressionante. Mas se o critério é não só “audiência” como também “relevância”, eu me atreveria a dizer que a presença do Juca na lista se deve mais ao (extraordinário) trabalho feito por ele em outros veículos do que ao blog em si – onde dificilmente você verá algo que não sejam resumos de jogos facilmente encontráveis, com mais detalhes, nos portais de esportes.

E você aí? Considerando estes critérios (audiência + conteúdo), de quais outros blogs você sentiu falta na lista feita pela competente matéria da Época? Alguém, entre os que já leram a matéria, teria outras observações?

PS: O Marcos Donizetti também fez um belo post sobre o tema.

PS 2: A conversa minha com o Biajoni sobre a Síndrome da Biblioteca de Babel versus a Síndrome de Robinson Crusoé continua rendendo. Agora Rafex Galvão entrou no papo com um excelente post.



  Escrito por Idelber às 04:07 | link para este post | Comentários (30)



sábado, 29 de julho 2006

Uns links, rumo ao Rio

* Desta segunda até o dia 09 de agosto, eu e a Ana estaremos no Rio. De segunda até quinta ocorre o X Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), lá na UERJ. A reunião bi-anual da Abralic já é considerada, entre muita gente, o mais importante congresso literário da América Latina. Este ano são quase 2.000 inscritos. Ao contrário da maioria dos congressos acadêmicos, em que dezenas de mesas simultâneas são muitas vezes feitas de modo arbitrário, os congressos da Abralic se organizam por "simpósios", grupos maiores que passam todas as tardes do congressos juntos, dedicados a um único tema - as manhãs são reservadas para as plenárias. Minha palestra acontece no dia 03 de agosto, às 14 horas, e o tema é a música popular no século XIX e a obra de Machado de Assis, assunto sobre o qual os leitores deste blog já leram algo. Claro que a apresentação será bem mais detalhada que o texto curto publicado aqui no blog. Estão todos convidados. Levarei o iPod com algumas gravações raras de maxixe.

* Aliás, como anda o tempo aí no Rio?

* Depois, no próprio dia 03, às 19 horas, na Livraria Argumento do Leblon, acontece o lançamento de Um defeito de cor, da Ana. Também convido os leitores cariocas a aparecerem e os amigos blogueiros a ajudarem na divulgação. Roubem o selinho à vontade:

ana-lançamento2.jpg

* Por falar em divulgação, aqui vai mais uma: O Carreira Solo, um dos projetos mais interessantes da internet brasileira, está promovendo um concurso para designers: crie a programação visual dos livros do Alex Castro. Passe por lá quem estiver interessado.

* Para a turma da literatura que ainda não conhece, vale a pena ler a excelente entrevista com Antonio Cícero. No bem cuidado site do autor, também há um depoimento valioso de Caetano sobre ele, extraído do livro Verdade Tropical.

* Para a turma do futebol: parece que o Zangaddo, quero dizer, o Dunga, já estreou em estilo, dizendo asneiras sobre Telê Santana, culpando-o pela derrota de 1982. Se Dunga está tão interessado em falar sobre as derrotas da seleção em Copas, ele poderia começar explicando quem foi aquele saco de batatas que desmoronou duas vezes ao lado de Zidane quando o craque magrebiano fez dois gols de cabeça no Brasil na final de 1998. Ou talvez ele prefira explicar quem era aquele outro saco de batatas que se espatifou com a bunda no chão depois de um drible humilhante de Maradona, que serviu a Caniggia o gol que eliminou o Brasil em 1990. Mexeu com Telê Santana, mexeu com este blog.

* Há exatamente um ano atrás, morria o maior escritor argentino das últimas décadas. Na única vez em que estive com Juan José Saer, ele quis que eu explicasse por que tantos brasileiros batem palmas quando o avião aterriza (tenho a sensação de que esse hábito era mais forte então do que hoje). Claro que eu não tinha resposta. Para conhecer melhor esse gigante do romance do século XX, há uma boa conversa com Horácio González, em espanhol, e outra boa entrevista feita em São Paulo. Há romances seus disponíveis em português, incluída a obra-prima O enteado.

* Um dos maiores intelectuais do Brasil, e colunista de futebol da Folha de São Paulo, José Geraldo Couto, andou fazendo elogios a este blog e às discussões que tivemos aqui durante a Copa do Mundo. Obrigado, Zé.

Atualização: Com dois dias de atraso, aqui vão os parabéns ao pioneiríssimo Alexandre Inagaki, pelo seu trigésimo terceiro aniversário. Ina foi destaque na recente matéria da revista Época sobre blogs, e nos brindou com uma bela lista de 25 momentos marcantes da blogosfera nacional. Parabéns e obrigado por tudo, Ina.



  Escrito por Idelber às 04:49 | link para este post | Comentários (17)




A "única democracia do Oriente Médio"

guerra-israel.jpg

(tirado daqui)



  Escrito por Idelber às 04:43 | link para este post



sexta-feira, 28 de julho 2006

A Síndrome da Biblioteca de Babel e a Síndrome de Robinson Crusoé

labyrinth.jpg.jpg
imagem: daqui.

O Biajoni fez um excelente post sobre o que ele chama de Síndrome da Biblioteca de Babel: a desvalorização dos conteúdos que – em velocidade e profusão inauditas – são veiculados na internet. O exemplo do Bia é a música. Ele se lembra de suas experiências (que foram as minhas também) de economizar uma grana suada para comprar um bolachão de vinte e poucos minutos de cada lado e escutá-lo um mês inteiro: a grana para o próximo disco só pingaria no mês seguinte. Desolado, ele compara essa atenção ao artefato cultural com a euforia meio vazia de um amigo seu que hoje celebra ter baixado “48.000 músicas”! Com toda a razão, o Bia se pergunta quantas dessas músicas o amigo ouvirá com um mínimo de atenção.

Os efeitos da síndrome de Biblioteca da Babel são implacáveis e atingem especialmente a circulação de música popular. Baixa-se e apaga-se música de tal maneira que as novas gerações não mantêm nem mesmo a relação com o “disco”: no reino do MP3 as canções existem soltas, fragmentadas – mesmo os arquivos com terminação .rar, que compilam discos inteiros, com freqüência sofrem recortes de cada usuário depois de baixados. O garoto hoje ouve a canção sem saber de que disco ela saiu, o que para os velhos puristas fãs de música popular teria sido uma heresia inaceitável.

O problema é que, no frigir dos ovos, eu prefiro viver num mundo onde se pode baixar 40.000 canções em alguns dias do que num mundo onde eu compre um bolachão de 45 minutos por mês. A relação deste último comprador com o produto que ele adquiria era mais atenta? Sem dúvida. Mas era uma atenção movida pela escassez compulsória. Havia também aquele momento horrível – o Bia se lembrará de exemplos – em que o bolachão comprado com a grana suada era uma porcaria. Na profusão, cabe a cada um nadar ou afogar-se: eu, particularmente, confio no meu tino para organizar o redemoinho de informações. Prefiro, digamos, achar que é possível nadar do que me queixar que há água demais na piscina.

Vejam bem, não digo que o Bia está errado: ele está certíssimo. Mas há um risco – e o post do Bia está atento a esse perigo – de que ao combater a Síndrome da Biblioteca de Babel, caia-se em outra síndrome, que eu chamo Síndrome de Robinson Crusoé: a tendência de achar que em algum momento do passado a relação com a cultura, com a música, com o sexo ou com qualquer outra coisa foi mais pura, autêntica ou verdadeira. Em geral essa percepção é só uma ilusão retrospectiva. No fim dos anos 90, ainda havia gente, dentro do campo de estudos de música popular, que insistia que só se poderia escrever sobre música munido de vinil e um toca-discos de 2.000 dólares. Hoje esses saudosistas já desapareceram, ou estão fazendo luto pela morte do CD. Estão sempre a reboque da história. Levada ao limite, a Síndrome de Robinson Crusoé pode alimentar toda sorte de pessimismos reacionários– desses que insistem que tudo o que é produzido pela contemporaneidade não presta.

Foi uma coincidência ter lido o post do Bia ontem: meus dois iPods (15 GB e 20 GB) lotaram. Tive que apagar arquivos para fazer lugar para a nova música que chegava, bem consciente de que aquilo que fosse apagado ali jamais seria ouvido de novo, mesmo eu tendo os CDs em casa: é que já não me lembro qual foi a última vez que toquei um CD. O que foi apagado? Cortei três sinfonias de Beethoven (na antológica gravação de Karajan) para que coubessem dois discos do Sonic Youth – quem precisa ter as nove sinfonias de Beethoven, não é mesmo, Milton Ribeiro?

Outro mergulho recente meu na Síndrome da Biblioteca de Babel foi finalmente ter organizado meus feeds no bloglines, que andam em 150, entre blogs brasileiros, americanos, argentinos, revistas e jornais do mundo inteiro (para ler o Biscoito em RSS, cole no seu agregador este link para ler só posts ou este link para ler tanto os posts como os comentários). Depois de passar algumas horas lendo artigos que há algum tempo eu teria gastado anos para reunir, terminei me convencendo de vez: é importante, sim, estar atento aos efeitos diluidores da Síndrome da Biblioteca de Babel, mas é mais importante ainda não ceder aos clichês da Síndrome de Robinson Crusoé.

Senão, corre-se o risco de não se encontrar, entre as 48.000 músicas, aquelas pérolas que sempre estarão lá, e pelas quais em outras eras teríamos pago, com gosto, o preço de um vinil importado.



  Escrito por Idelber às 05:19 | link para este post | Comentários (42)



quarta-feira, 26 de julho 2006

O demoníaco e o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas

gsv-3.jpgDas várias maneiras de se engajar nesse exercício fútil que é resumir, numa frase, o Grande Sertão: Veredas, duas me parecem ir ao âmago da trama do livro: 1. GSV é a história de um interdito, impossível amor de um jagunço por uma mulher que viveu como homem para vingar o pai; 2. GSV é relato de um jagunço que narra sua vida a um interlocutor forâneo para saber se concertou ou não um pacto com o demônio. A genialidade de Rosa reside no entrelaçamento desses dois motivos, o do amor impossível e o do pacto fáustico. É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destapa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco.

O motivo fáustico na literatura se remonta à história de D. Iohan Fausten e seu suposto pacto com o demônio em troca do conhecimento absoluto. A lenda alemã serve de base para o clássico de Marlowe, que inspira o Fausto de Goethe, que por sua vez é o marco de um infindável cânone de obras que tratam o tema, incluindo-se de sinfonias a filmes de Hollywood. Nesse cânone, Grande Sertão: Veredas tem a singularidade de ser uma narrativa construída sobre a incerteza de se houve pacto ou não (é essa incerteza que está na raiz da completa desordem das 30 primeiras páginas). Trata-se aqui menos de uma história de soberba faustiana em busca do conhecimento total que a expressão de uma interrogação trágica acerca de um fragmento de saber indispensável: sou ou não sou pactário? Riobaldo não pode senão perguntar-se pela desordem que rege as coisas: essa pergunta, aliás, não mantém com a desordem do mundo uma relação de mera representação. Pelo contrário, ela interfere nesse mundo: quanto mais a pergunta é feita, mais a desordem aumenta. Isto ocorre num contexto fáustico, no qual a inteligência é estreitamente associada ao demoníaco.

Um dos paradoxos maravihosos da tradição fáustica é que o Diabo aparece como ser muito mais interessado na humanidade que Deus. Estudioso desses paradoxos, Rosa leva o avesso das coisas a suas últimas conseqüências: no sertão, Deus é um afterthought, é algo chega depois, é o resultado da equação que tenta demonstrar que o demo não pode ser o motor último das coisas. Mas o dado, o que a realidade oferece, é o demo. Em Grande Sertão, o personagem que busca equilibrar e racionalizar essa ubiqüidade do demoníaco é Compadre meu Quelemém, uma espécie de Sancho Panza espírita, que encontra no kardecismo a tranqüilidade de saber que suas perguntas têm respostas inequívocas e definitivas. É o alter ego conformado e resignado de Riobaldo. Há Grande Sertão porque Riobaldo é incapaz dessa certeza religiosa reconfortante de seu Compadre.

Guimarães Rosa era um escritor de formação humanista cristã conservadora. Na verdade, ele não só não se importava de ser chamado de “conservador” em política, como preferia a palavra “reacionário”, usada no sentido estritamente etimológico, insistia ele, daquele que quer voltar ao âmago das coisas, a um momento original perdido na tagarelice pós-babélica. Cristão até os ossos, ele escreveu a obra mais cheia de heresias da literatura brasileira: só há narração, só há linguagem, porque o mundo está atravessado pelo demoníaco. Conhecedor e estudioso de uma tradição cabalística que associa a pronúncia do nome à materialização da coisa, Rosa faz Riobaldo recorrer ao circunlóquio para falar do demo: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim.... (p.33). Profundamente influenciado pelo neo-platônico Plotino, Rosa não acredita na materialidade do mal - Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (p.11) - o que não quer dizer que o mundo não esteja atravessado por ele: O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (p.49).

Se o mundo está atravessado pelo demoníaco, assim está o amor: o único amor não diabólico é Otacília, moça de família prometida no começo da história, resgatada depois dos combates e hoje companheira de velhice do barranqueiro. Em Diadorim, por outro lado, tudo é duplicidade demoníaca: no nome de Diadorim encontra-se dor, adorar, mas também a raíz de diabo: que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? (p.33); o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta (p.108).

Se a duplicidade de Diadorim (o que possui as duas essências) remete ao demoníaco, o verdadeiro alter ego do diabo em GSV é Hermógenes. Tampouco aqui o nome é gratuito: Hermógenes, literalmente a gênese da interpretação, a partir do deus grego Hermes, o mensageiro. Na origem do pensamento especulativo, o demoníaco: eis aí a fórmula profundamente anti-racionalista de Rosa, inimigo declarado da "megera cartesiana". Hermógenes (nome que o diabo compartilha com a teoria da interpretação, a hermenêutica) é um jagunço descrito como trapaceiro, traidor; ele atira pelas costas e derruba Joca Ramiro, o grande líder dos sertões, para vingar-se de ter sido voto vencido no julgamento de Zé Bebelo, que havia sido capturado pelos ramiros mas solto por não ser autor de crime nenhum. É para vingar a morte traiçoeira imposta a Joca Ramiro, seu pai, que Diadorim abraça a jagunçagem, até a vingança final, na qual ele mata Hermógenes na faca mas é morto também, desvelando o corpo de mulher cuja descrição é tão inesquecível.

Ourives minucioso de seus textos, Rosa colocou a cena do suposto pacto com o diabo exatamente na metade do livro: trata-se de um momento em que o sujeito perde seus referenciais e a linguagem volta à desordem febril das primeiras páginas. A incerteza sobre o que sucedeu naquela noite no descampado retrospectivamente organiza toda a narrativa. Se no término do livro o Compadre meu Quelemém oferece sua usual explicação reconfortante – “tem cisma não. Pensa para adiante” – o próprio signo do infinito ao final do livro o desmente. Não há fechamento nem resolução do pacto, nem mesmo confirmação de sua existência: dúvida que é, ela mesma, prova definitiva de quanto o Dito-Cujo está impregnado nas coisas.

*******************

Todas os números de páginas remetem à 15a edição (1982), da José Olympio.

*******************

Leiam também: A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana (sugestão da Juliana Mothern)

*******************

A casa convida não só ao debate, mas também à confecção de uma pequena antologia de citações do romance sobre esse tema. Quem tiver uma citação favorita sobre o demo, pode deixá-la aí.

******************
Atualização: a coluna de Mônica Bergamo na Folha (link só para assinantes) noticiou que Grande Sertão: Veredas, cujos direitos pertencem integralmente a Eduardo Tess, neto da segunda mulher de Rosa, estará em breve disponível para download gratuito na internet! (link via Alfarrábio).



  Escrito por Idelber às 05:48 | link para este post | Comentários (27)



terça-feira, 25 de julho 2006

Amanhã é dia do demo

devil.jpggsv-3.jpg
Imagem: daqui.

O demo é um ponto tão bom como qualquer outro para começar a discutir Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Convido quem tiver lido o livro para passar por aqui nesta quarta e participar do papo. Vai ao ar de madrugada um texto meu sobre o tema - nem que seja meio chinfrim. Ao longo do dia de hoje, quem quiser colaborar com a casa e deixar algum link interessante sobre o demônio, fique à vontade.

Imaginam o que a Bibi seria capaz de encontrar sobre o demo na Internet?

As imagens mais impactantes do dito cujo que eu conheço são os desenhos de William Blake.



  Escrito por Idelber às 05:05 | link para este post | Comentários (10)




A nova era Dunga

Isso é inaceitável. Chega. É palhaçada demais. Alguém aí tem alguma sugestão sobre para qual seleção torcer em 2010?

Atualização:
Saíram o Zangaddo e o Soneca e entraram o Dunga e o Branco de Neve! (de um leitor do Juca Kfouri).



  Escrito por Idelber às 05:01 | link para este post | Comentários (26)



segunda-feira, 24 de julho 2006

As cotas raciais em debate

paim.jpg
Curiosos, para dizer o mínimo, os resultados da pesquisa publicada pela Folha de São Paulo neste domingo: ouvidas 6.264 pessoas, 65% são favoráveis à adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras. Para lembrar, o Estatuto da Igualdade Racial (pdf), de autoria do Senador Paulo Paim (PT-RS), em tramitação no Congresso, adota, entre outras medidas, cotas de 20% para afrodescendentes no serviço público e nas instituições de ensino superior.

A maior taxa de aprovação ao projeto ocorre entre pessoas com escolaridade fundamental (71%); a coisa se inverte entre os que têm escolaridade superior: neste grupo, 55% são contra as cotas. Estes números, assim como os números da popularidade de Lula, podem ser lidos basicamente de duas formas: os pró-cotas tenderão a interpretá-los segundo a lógica da preservação do privilégio; os anti-cotas tenderão a lê-los segundo a lógica do “esclarescimento”. Para aqueles, os mais instruídos são majoritamente anti-cotas porque não querem abrir mão daquilo que têm e que, sentem, pode vir a ser ameaçado. Para os anti-cotas, a resistência ao projeto entre os mais escolarizados mostra que estes, segundo Roberto Romano (UNICAMP), “sabem que não existem soluções mágicas, conhecem as dificuldades do ensino e da pesquisa dentro da universidade”. O debate se acirrou bastante nos útimos dias, com manifestos contra e a favor do projeto.

Tanto de um lado como de outro, já vi referências meio equívocas à experiência dos EUA, que é bom esclarecer: nos EUA, jamais houve “cotas”, se por isso entendemos uma reserva percentual de vagas. O que chamamos por lá affirmative action não é exatamente um sistema de “cotas”. No caso da universidade, por exemplo, a admissão não se dá com base numa única prova, como o vestibular no Brasil: levam-se em consideração não só as provas chamadas SAT, mas também cartas de recomendação, histórico escolar, necessidade ou não de auxílio financeiro, etc. Dentro desse “pacote” onde vários elementos contam, negros e latinos recebem uma quantidade determinada de “pontos” no início do processo, como forma de corrigir disparidades históricas. Mas jamais houve uma reserva percentual de vagas.

Entre os anti-cotas, é falacioso o argumento de que o “sistema de cotas” nos EUA “não deu certo.” Inclusive entre boa parte dos conservadores que pedem sua abolição nos EUA, o argumento é precisamente o oposto: que a affirmative action já cumpriu o seu papel ao criar uma sólida classe média negra e que portanto já não seria necessária. Acho difícil levar a sério o argumento de que a affirmative action “acirrou as tensões raciais” nos EUA. Quem conhece a história das relações raciais nos EUA sabe que a tensão vem de muito antes.

Os primeiros estudos sobre a experiência brasileira mostram que os cotistas têm se saído muito bem. Mas entre os críticos do projeto há um argumento sólido: o governo não demonstra entender que as universidades precisam de apoio financeiro maciço para implementar o estatuto. Este blog já debateu o assunto em abril do ano passado e fez uma enquete naquele mesmo momento. Mas hoje, sem dúvida, muito mais gente já leu e se informou sobre o projeto. Opinem aí à vontade.



  Escrito por Idelber às 08:00 | link para este post | Comentários (35)



sábado, 22 de julho 2006

Cancelado um mestrado na UFRGS por plágio

Chegou uma notícia bem interessante via Fábio Sampaio: pela primeira vez no Brasil, que eu saiba, uma universidade cassou um título de pós-graduação de alguém por motivo de plágio comprovado na tese. Foi na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o plagiador é Gilberto Kmohan. O nome da tese é “O Conceito de Aura em Walter Benjamin", defendida em outubro de 2000, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS (PPGCOM), com nota máxima e louvor constante em ata. Não foi, como não costuma ser, um caso de cópia de uma frase sem referência aqui ou acolá. Foi uma coisa estilo Parreira: o cabra copiou a tese inteira.

O curioso é que o tema da tese é tão exaustivamente estudado que com um pouquinho de esforço, sem genialidade nenhuma e sem uma única idéia original, teria sido possível escrever sobre ele uma tese perfeitamente coerente e aceitável, na base de puras citações e paráfrases. Para Walter Benjamin, “aurática” é a relação quase religiosa, única, irrepetível, que se tem com a arte até a chegada dos meios de reprodutibilidade técnica. Seria aquele momento em que a arte ainda mantém alguma memória das suas origens em rituais e cultos. Depois do advento dos meios de reprodução técnica (especialmente a fotografia) esse valor “ritual” da arte iria se dissolvendo, aniquilado pela reprodução incessante: com uma Mona Lisa já estampada em camisetas não é possível manter qualquer relação aurática. Para Benjamin, o paradigma desse novo momento seria o cinema, que permitiria um outro tipo de recepção – menos religiosa, mais ativa e potencialmente até revolucionária. Essa é a idéia, debatida em centenas de artigos e livros por aí.

Pelo que eu li do relatório, a “tese” em questão tomava alguns desses livros, recortava e colava, sem dizer que se tratavam de citações. Um professor da UFRGS, Luis Milman, denunciou o caso em 2001 e só agora saiu o veredito. O relatório da comissão de professores encarregada do assunto comprovou plágio em 63 das 98 páginas de capítulos analíticos da tese. Viram:

a) plágios diversos de trechos (curtos e longos) de obras conhecidas, das quais 6 (seis) são referidas e 9 (nove) não são referidas na Bibliografia;

b) parágrafos em que o fraudador mistura trechos que pilhou de distintas obras;

c) plágios com mutilação dos trechos pilhados;

d) utilização de notas de rodapé com referência adulterada e trechos de obras plagiadas

Nestas horas, claro, a coisa pega muito mal para quem orientou a tese. Quem orientou e assinou a monstruosidade foi o Prof. Sérgio Caparelli, que é acusado pelo mesmo Prof. Milan de ter publicado um artigo plagiado, ele também.

Para lembrar o caso Parreira, no ano passado a Folha de São Paulo denunciou que 10 páginas inteiras do livro Evolução Tática e Estratégia de Jogo, de Parreira, foram copiadas (traduzidas ao português) de um livro do inglês Charles Hughes: 10 páginas inteiras, ipsis literis. O livro que sofreu o plágio é simplesmente citado na bibliografia como uma “leitura adicional”. Com a empáfia que lhe caracteriza, a única explicação que Parreira deu foi que “traduziu mesmo” e que “a apostila não foi vendida como livro,” como se o que configurasse o crime fosse a comercialização do produto plagiado. Ou seja, Parreira confessou o plágio.

A mesma internet que facilita a vida do aluno que quer plagiar torna quase impossível que o plágio não seja descoberto. No caso da universidade, eu defendo punição severa para quem plagia livros, mas expulsão sumária para quem plagia algo da internet: deveria haver uma punição extra para a burrice de achar que se pode copiar o conteúdo de um site, hoje em dia, sem ser pego.

Atualização: Com muito mais conhecimento do contexto do caso, obviamente, o blogueiro gaúcho Marcelo Träsel fez um post sobre o assunto (obrigado pelo link, Roger). Há toda uma polêmica também no Observatório da Imprensa.



  Escrito por Idelber às 06:42 | link para este post | Comentários (42)



quinta-feira, 20 de julho 2006

A Basel Irmad Termos, pela vida que não foi

lebanon-2.jpg

Basel Irmad Termos, o garoto paranaense de 7 anos assassinado no Líbano por um míssil israelense, caiu na vala daquelas vítimas desafortunadas: as vítimas da máquina de guerra israelense, sobre as quais pesa sempre um poderoso intedito. É preciso não falar muito. É preciso não assinalar, para a consciência culpada do Ocidente, que o Estado criado para aplacar a culpa transformou-se num gigantesco monstro bélico, que dá passos acelerados para igualar o monstro bélico original, aquele à raiz do qual esse próprio Estado foi criado. Ah, as amargas ironias da história.

Sobre as vítimas palestinas, já estamos acostumados a silenciar: eles são sempre suspeitos de “terrorismo,” como se alguma vez algum poder de ocupação colonial moderno houvesse inventado rótulo diferente para suas vítimas. Como se outro nome tivessem recebido os argelinos que lutaram contra a ocupação colonial francesa, como se outro nome tivessem recebido os que lutavam contra o Apartheid. Dessas vítimas, recusam-se até obituários com nome completo, idade, residência, causa e data mortis. Elas são as vítimas silenciadas para que o Ocidente continue mantendo o aplacador de sua consciência culpada que atende pelo nome de Israel.

beirut family.jpgFilhos se separam da mãe em Beirute. Foto: NYT.


Quando Israel saiu da faixa de Gaza, a canalha saudou o gesto de “nobreza” do verdugo, mais ou menos como o colaboracionista pronto para beijar as botas do oficial nazista que lhe permita lustrá-las depois; como se “nobreza” houvesse em terminar de criar o maior campo de concentração a céu aberto do mundo, com direito a checkpoints humilhantes, ausência de toda autonomia - da hidrográfica à fiscal – e ocasionais bombardeios, tudo isso numa faixa de terra sobrepovoada e submetida a décadas de ocupação.

Sobre as vítimas libanesas – em todas partes, mas muito especialmente em São Paulo – haverá o que dizer, oxalá: são 6 milhões de descendentes no Brasil. Quantos deles estarão em pânico de que um ser amado seja o próximo Basel Irmad Termos? Lembro-me vividamente de muitos deles, quando visitei São Paulo durante a última hecatombe promovida por Israel no Líbano, no começo dos anos 1980. Lembro-me do horror e do medo.

Quantas centenas de vítimas tomadas de surpresa por este bombardeio criminoso, este verdadeiro ato de terrorismo de estado? Quantas escolas, pontes, comércios, vidas, esperanças, futuros destruídos para que Israel prove que mata e faz prisioneiros, mas não os troca? É um curioso mundo, este em que dois soldados seqüestrados não podem ser trocados por prisioneiros políticos, mas a vida de centenas de civis inocentes e o futuro de milhões podem ser descartados e aniquilados no apertar de um botão – desde que sejam as vidas dos outros, deles, os árabes, os palestinos, os libaneses, os iraquianos, os que são sempre suspeitos de “terrorismo.”

Sim, porque dia haverá, parece, em que Israel bombardeará um vizinho porque este não bloqueou suficientemente o fornecimento de estilingues para as crianças palestinas refugiadas e famintas.

E a canalha continuará dizendo que “Israel tem o direito de se defender.”

PS: Amanhã reiniciam-se os posts com caixa de comentários aberta. O de hoje exerce o seu direito de não convidar discussão, apenas luto.



  Escrito por Idelber às 03:45 | link para este post



terça-feira, 18 de julho 2006

Guimarães Rosa em imagens

rosa-menino.jpgGuimarães menino

guimaraes-casa.jpgCasa de J.G.R. em Cordisburgo, hoje museu.

gsv-2.jpg Edição contemporânea de Grande Sertão.

gsv-3.jpg Meu exemplar da 15a edição, de 1982.

gsv-espanhol.jpgGrande Sertão em espanhol. .

gsv-frances.jpgEdição de "Meu Tio, o Iauretê" e outros contos, em francês.

gsv-italiano.jpgGrande Sertão, em italiano.

redemoinho.jpgRedemoinho, xilogravura de Arlindo Daibert.

otacilia.jpgOtacília, pastel, grafite e colagem de Arlindo Daibert.

diadorim.jpgDiadorim, xilogravura de Arlindo Daibert.



  Escrito por Idelber às 04:02 | link para este post




Novo blog da Ticcia

mme-mean.gif



  Escrito por Idelber às 04:00 | link para este post



segunda-feira, 17 de julho 2006

Dia Internacional do Rock e os 20 anos de carreira do Witchhammer

Não faltaram shows de comemoração do dia do rock aqui em BH, a capital brasileira do metal. Eu conferi dois deles: na sexta-feira a atração no Lapa Multishow foi a Banda Concreto, ganhadora do Prêmio Mineiro de Música Independente com seu metal pesado mas melódico e cheio de variações. Nos seus treze anos de estrada a Concreto participou de inúmeras coletâneas e lançou três CDs (A Calma da Alma, de 1998; Aquele que tem, de 2001; Volume III, de 2004). Já reconhecida como uma das principais bandas de hard rock do cenário underground brasileiro, a Concreto é veterana de apresentações para públicos de 50 mil pessoas ao lado de gente grande como Sepultura, Dio e Nação Zumbi.

Nessa sexta a Concreto apareceu de baterista novo, Alysson (que eu, como irmão, sou supeito para elogiar, mas toca pra cacete). Um gostinho do som da Concreto, aqui. Galeria de fotos, aqui.

DSC02289.JPG

DSC02330.JPG

No domingo, no Matriz, tanto a velha como a nova guarda do metal se reuniram para render homenagem ao vigésimo aniversário do Witchhammer, legendária banda da cena underground mineira. A bruxa veio com tudo e fez um repasso dos vinte anos de carreira, desde a demo tape de 1986, que incluía uma das canções mais conhecidas da banda, "Weekend in Auschwitz", passando pelo primeiro disco solo (The First and the Last, 1988), pelo segundo, o operático, heterodoxo e genial Mirror, my Mirror (1990), pelo terceiro, disco de maturidade política e musical da banda, o Blood on the Rocks (1992) e pelo recente petardo Ode to Death (2006). Não faltaram os tributos aos pioneiros do Sagrado Inferno e do Chakal, duas das bandas que fizeram de Belo Horizonte uma cidade conhecida mundialmente pela força do seu heavy metal.

witch.jpg

Assim como as grandes sacadas de Chico Science foram 1) que o padrão rítmico do maracatu podia (e devia!) ser combinado com o de gêneros afro-atlânticos como o funk e o reggae e 2) que a arte verbal da embolada tinha tudo que ver e era uma prima genuína do rap, as grandes sacadas do metal mineiro foram: 1) que a fórmula aparentemente fechada do metal permitia uma variação infinita em timbre, volume, harmonia; 2) que as bandas que sobreviveriam seriam as que tivessem boa e imprevisível "cozinha", ou seja, especialmente uma bateria ancorada no jogo com os contratempos (e nisso tanto Teddy, baterista do Witchhammer, como Alysson, da Concreto, são feras); 3) que da onda "anti-cristã" (satânica) do primeiro momento do death metal, eles podiam se desfazer do adjetivo e ficar só com o prefixo anti, e ser, conforme o caso, antipolítica, antipsiquiatria, antiestado, antireligião; 4) que o estilo gutural do vocal do death metal (que apareceu para que as pessoas pudessem entender as letras, já que o volume instrumental do gênero é alto) era também uma poderosa arma para sincopar, "quebrar" a música.

Witchhammer foi pioneiro em todas essas sacadas. Qualquer que seja seu gosto musical, 20 anos de estrada no underground (com uma interrupção, é certo, nos anos 90) é de se respeitar e tirar o chapéu. Se você não ouve rock pesado mas está aberto a outros sons - mais, digamos, distorcidos que o usual seu - ouça Mirror, my Mirror e depois me diga. Está no meu top 10 de rock pesado brasileiro, em todos os tempos (só não acredite no que diz o link sobre "banda norueguesa", claro; eles são do Sagrada Família, Belo Horizonte).

Tanto no show de 20 anos do Witch como no show da Concreto verifiquei mais uma vez uma coisa bacana. No mundo anglo-saxão se fala muito do heavy metal como gênero "masculino" e "branco". Como já é de costume no metal mineiro, a coisa aqui vai por outro lado: as mulheres perfaziam, fácil, 50 ou 60% do público em ambos shows (maravilha de se ver) e negros e mulatos são sempre pelo menos 30 ou 40% da galera presente.

Mas todo mundo torce pro Galo. Headbanger cruzeirense eu não conheço. Aos atleticanos da Concreto, parabéns pela celebração em grande estilo do dia do rock, e aos atleticanos do Witchhammer, sobretudo, parabéns, por vinte anos de integridade e rock'n'roll.

PS: Dependendo de um conhecido, rolam fotos do show do Witch para atualizar o post. Seria impagável: Paulo Caetano (guitarra/vocais) de preto, com o número da besta, cara pintada de vermelho, cabelo arrepiado, pregando. Oxalá alguém tenha registrado. Eu esqueci a máquina, imperdoável.

PS 2: Mais sobre heavy metal:
a. Running with the Devil: Power, Gender, and Madness in Heavy Metal Music, de Robert Walser, já um clássico da etnomusicologia, que inclui um capítulo fantástico sobre o metal como releitura da música barroca.

b. De Mílton ao Metal (pdf), artigo curto meu.

PS 3: Deixamos Guimarães Rosa para a semana que vem, eu acho. Há várias pessoas ainda lendo, inclusive eu.



  Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post | Comentários (19)



sexta-feira, 14 de julho 2006

Clube de leituras: Antes do Grande Sertão

Guimaraes.jpg

São fracos os recursos existentes na internet sobre Guimarães Rosa. O Projeto Releituras traz um resumo biográfico mínimo com quatro contos ; há um bom artigo de um professor da medicina da UFMG, um interessante blog de citações e não muito mais. O artigo da Wikipedia não traz nem o essencial e fala de Rosa como “realista mágico,” o que é um chute bem longe do gol: o “realismo mágico”, tal como desenvolvido