
Basel Irmad Termos, o garoto paranaense de 7 anos assassinado no Líbano por um míssil israelense, caiu na vala daquelas vítimas desafortunadas: as vítimas da máquina de guerra israelense, sobre as quais pesa sempre um poderoso intedito. É preciso não falar muito. É preciso não assinalar, para a consciência culpada do Ocidente, que o Estado criado para aplacar a culpa transformou-se num gigantesco monstro bélico, que dá passos acelerados para igualar o monstro bélico original, aquele à raiz do qual esse próprio Estado foi criado. Ah, as amargas ironias da história.
Sobre as vítimas palestinas, já estamos acostumados a silenciar: eles são sempre suspeitos de “terrorismo,” como se alguma vez algum poder de ocupação colonial moderno houvesse inventado rótulo diferente para suas vítimas. Como se outro nome tivessem recebido os argelinos que lutaram contra a ocupação colonial francesa, como se outro nome tivessem recebido os que lutavam contra o Apartheid. Dessas vítimas, recusam-se até obituários com nome completo, idade, residência, causa e data mortis. Elas são as vítimas silenciadas para que o Ocidente continue mantendo o aplacador de sua consciência culpada que atende pelo nome de Israel.
Filhos se separam da mãe em Beirute. Foto: NYT.
Quando Israel saiu da faixa de Gaza, a canalha saudou o gesto de “nobreza” do verdugo, mais ou menos como o colaboracionista pronto para beijar as botas do oficial nazista que lhe permita lustrá-las depois; como se “nobreza” houvesse em terminar de criar o maior campo de concentração a céu aberto do mundo, com direito a checkpoints humilhantes, ausência de toda autonomia - da hidrográfica à fiscal – e ocasionais bombardeios, tudo isso numa faixa de terra sobrepovoada e submetida a décadas de ocupação.
Sobre as vítimas libanesas – em todas partes, mas muito especialmente em São Paulo – haverá o que dizer, oxalá: são 6 milhões de descendentes no Brasil. Quantos deles estarão em pânico de que um ser amado seja o próximo Basel Irmad Termos? Lembro-me vividamente de muitos deles, quando visitei São Paulo durante a última hecatombe promovida por Israel no Líbano, no começo dos anos 1980. Lembro-me do horror e do medo.
Quantas centenas de vítimas tomadas de surpresa por este bombardeio criminoso, este verdadeiro ato de terrorismo de estado? Quantas escolas, pontes, comércios, vidas, esperanças, futuros destruídos para que Israel prove que mata e faz prisioneiros, mas não os troca? É um curioso mundo, este em que dois soldados seqüestrados não podem ser trocados por prisioneiros políticos, mas a vida de centenas de civis inocentes e o futuro de milhões podem ser descartados e aniquilados no apertar de um botão – desde que sejam as vidas dos outros, deles, os árabes, os palestinos, os libaneses, os iraquianos, os que são sempre suspeitos de “terrorismo.”
Sim, porque dia haverá, parece, em que Israel bombardeará um vizinho porque este não bloqueou suficientemente o fornecimento de estilingues para as crianças palestinas refugiadas e famintas.
E a canalha continuará dizendo que “Israel tem o direito de se defender.”
PS: Amanhã reiniciam-se os posts com caixa de comentários aberta. O de hoje exerce o seu direito de não convidar discussão, apenas luto.