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segunda-feira, 24 de julho 2006

As cotas raciais em debate

paim.jpg
Curiosos, para dizer o mínimo, os resultados da pesquisa publicada pela Folha de São Paulo neste domingo: ouvidas 6.264 pessoas, 65% são favoráveis à adoção de cotas para negros nas universidades brasileiras. Para lembrar, o Estatuto da Igualdade Racial (pdf), de autoria do Senador Paulo Paim (PT-RS), em tramitação no Congresso, adota, entre outras medidas, cotas de 20% para afrodescendentes no serviço público e nas instituições de ensino superior.

A maior taxa de aprovação ao projeto ocorre entre pessoas com escolaridade fundamental (71%); a coisa se inverte entre os que têm escolaridade superior: neste grupo, 55% são contra as cotas. Estes números, assim como os números da popularidade de Lula, podem ser lidos basicamente de duas formas: os pró-cotas tenderão a interpretá-los segundo a lógica da preservação do privilégio; os anti-cotas tenderão a lê-los segundo a lógica do “esclarescimento”. Para aqueles, os mais instruídos são majoritamente anti-cotas porque não querem abrir mão daquilo que têm e que, sentem, pode vir a ser ameaçado. Para os anti-cotas, a resistência ao projeto entre os mais escolarizados mostra que estes, segundo Roberto Romano (UNICAMP), “sabem que não existem soluções mágicas, conhecem as dificuldades do ensino e da pesquisa dentro da universidade”. O debate se acirrou bastante nos útimos dias, com manifestos contra e a favor do projeto.

Tanto de um lado como de outro, já vi referências meio equívocas à experiência dos EUA, que é bom esclarecer: nos EUA, jamais houve “cotas”, se por isso entendemos uma reserva percentual de vagas. O que chamamos por lá affirmative action não é exatamente um sistema de “cotas”. No caso da universidade, por exemplo, a admissão não se dá com base numa única prova, como o vestibular no Brasil: levam-se em consideração não só as provas chamadas SAT, mas também cartas de recomendação, histórico escolar, necessidade ou não de auxílio financeiro, etc. Dentro desse “pacote” onde vários elementos contam, negros e latinos recebem uma quantidade determinada de “pontos” no início do processo, como forma de corrigir disparidades históricas. Mas jamais houve uma reserva percentual de vagas.

Entre os anti-cotas, é falacioso o argumento de que o “sistema de cotas” nos EUA “não deu certo.” Inclusive entre boa parte dos conservadores que pedem sua abolição nos EUA, o argumento é precisamente o oposto: que a affirmative action já cumpriu o seu papel ao criar uma sólida classe média negra e que portanto já não seria necessária. Acho difícil levar a sério o argumento de que a affirmative action “acirrou as tensões raciais” nos EUA. Quem conhece a história das relações raciais nos EUA sabe que a tensão vem de muito antes.

Os primeiros estudos sobre a experiência brasileira mostram que os cotistas têm se saído muito bem. Mas entre os críticos do projeto há um argumento sólido: o governo não demonstra entender que as universidades precisam de apoio financeiro maciço para implementar o estatuto. Este blog já debateu o assunto em abril do ano passado e fez uma enquete naquele mesmo momento. Mas hoje, sem dúvida, muito mais gente já leu e se informou sobre o projeto. Opinem aí à vontade.



  Escrito por Idelber às 08:00 | link para este post | Comentários (35)


Comentários

#1

Ultimamente vejo o pessoal do ministério da educação, em entrevistas, jornais e revistas, falando mais em uma cota "social" do que em uma cota baseada em critérios raciais, ou seja, a vantagem seria oferecida de acordo com critérios sócio-econômicos. A meu ver, parece uma coisa mais eficaz e justa do que o critério racial. Até porque cor da pele é algo muito relativo. Em abril desse ano recebi a visita de um amigo sul-africano. Ele disse que, na África do Sul, a esmagadora maioria dos negros brasileiros seria considerada "colored", uma designação intemediária, entre os negros e os brancos. Na Suécia sei que até eu, um pouco queimado no sol, seria considerado negão. Acho que essa indefinição poderia dar margem a fraudes, principalmente por parte de quem apreciaria a "preservação do privilégio".

Também já vi planos de instaurar não um sistema de cotas, mas sim uma pontuação mais camarada (por exemplo, 5% de aumento na nota - acho que a Unicamp fez isso) para candidatos com histórico educacional e familiar mais humilde, como escolas públicas e famílias pobres. Creio que este critério social é bem mais justo e fácil de aplicar do que o critério racial. E pode até ser que por esse critério social acabem entrando muito mais negros na universidade.

Lá no começo falei em "vantagem", mas não creio que com esses sistemas de cotas, qualquer que seja o critério, estaremos oferecendo "vantagens" aos cotistas. Estaremos apenas correndo atrás de um prejuízo secular, de uma dívida social e educacional muito antiga. E a dívida se espalha também pelo primeiro e pelo segundo grau, esse problema da universidade elitista é apenas a ponta do iceberg, infelizmente.

daniel em julho 24, 2006 11:06 AM


#2 Para ser sincero, não vejo com bons olhos este sistema de cotas. Não sou totalmente contra, mas também não sou completamente a favor. Em cima do muro vejo tudo isto como uma espécie de mal necessário.

Deixe-me tentar ser um pouco mais claro: O sistema de cotas como medida isolada seria o mesmo que ao acordar no meio da noite e perceber que sua casa estava tomada pela água, ao invés de procurar a causa do problema (uma torneira que ficou aberta durante toda noite), você pegasse um balde e começasse esvaziar a casa, balde por balde, através de sua janela.

Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para dar algum pitaco neste assunto, pois, apesar de ser negro, minhas condições financeiras me permitem pagar uma faculdade e, apesar de minha base educacional ter sido feito em escola pública, me considero inteligente e capaz o suficiente para competir em uma faculdade pública ou particular com quem quer que seja. Mas, cada vez que penso nisto, me vejo mais como uma espécie de exceção que confirmasse a regra, e isto é triste.

Creio que o modelo americano seja mais eficaz, pois leva em consideração pontos mais importantes do que apenas a cor da pele ou a condição financeira da pessoa, porque se durante o ensino fundamental e médio a pessoa não foi no mínimo um aluno razoavél, ela não pode ter uma vaga assegurada em uma faculdade só por causa destes dois fatores.

Para finalizar, eu acho que é necessária a criação de cotas, mas não para negros, mas sim para pessoas que não tenham condição financeira de custear uma faculdade (seja ela negra (infelizmente a grande maioria) ou branca). Porém paralelo a isto deveria haver uma solução maior, um projeto correndo em paralelo de forma a realmente melhorar a qualidade da educação nas escolas públicas de nível médio e fundamental. E em adição a isto, um projeto de diminuição da desigualdade social tão presente hoje me dia.

Se não fecharmos a torneira que durante uma noite inteira encheu toda a casa de água, os baldes d'água lançados pela janela só nos darão uma ilusão de que uma ação está sendo tomada.

Post Scriptum: O mais triste (ou engraçado) disto tudo é que as pessoas que tem mais condições finaceiras estudam em escolas particulares durante o ensino fundamental e médio, mas no momento de cursar uma faculdade procuram uma pública. Já as pessoas sem tais condiçoes estudam em escolas públicas durante o médio e o fundamental e, depois, por não terem uma base suficiente boa para concorrerem a uma vaga em uma instituição pública (leia-se gratuita) de ensino superior, têm duas opções: ou pagam uma faculdade particular ou deixam de estudar.

A pergunta que fica é: Por que a qualidade de ensino das escolas públicas de nível fundamental e médio não é a mesma das outras escolas particulares? No meu modo de ver este é um dos muitos pontos que precisam ser revistos e melhorados no ensino.

Ferreira em julho 24, 2006 12:01 PM


#3

Importante você ter mencionado a necessidade de apoio financeiro para aplicar o estatuto. A UERJ - que tem um programa de cotas raciais composto de aulas complementares para os alunos "mais fracos" - não terá vestibular (para ninguém) esse ano porque o governo do estado reduziu o orçamento em 40% e a universidade não tem condições de receber novos alunos e já encontra dificuldades em continuar funcionando.

Krys em julho 24, 2006 12:12 PM


#4

"Um instrumento de controle, em primeiro lugar. Restaura uma espécie de clientelismo que não leva à política. Ela passa a ser determinada não por opções, mas pela "raça". Não é raça em termos raciais, é a "raça" da classe. É pelas suas carências que você é classificado perante o Estado."

Entrevista foderosa do Francisco de Oliveira na Folha, dizendo que o buraco é bem mais embaixo. Isolada, a frase citada parece dar munição prá quem é contra as cotas, mas a entrevista dá muito o que pensar.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2407200614.htm

daniel em julho 24, 2006 12:17 PM


#5

PÔ,cara num pais/cidade onde voce so ve creolo,neguinhos,mulatos, em sinal luminoso fazendo malabarismo para ganhar algum...onde nas salas de aulas das escolas particulares voce praticamente nao ve um so neguinho...onde nos shoppings mesmo nos balcoes voce nao ve um so negro...onde nos bons teatros, nos bons cinemas voce nao ve negros...na televisao,naos anuncios,enfin,onde voce tem a falsa sensaçao de que vive num pais branco e onde é claro os negros estao no submundo(favelas,suburbios,praias de ramos da vida,etc) alguma coisa ta muito errada e dessa formas essas cotas sao benvindas...como açoes afirmativas da maior qualidade...quer ver negro no brazil( com z...) procure as favelas, os guetos ou excepcionalmentes as " gerais " dos clubes que nem existem mais...fique muito feliz com o resultado do datafolha...vox populi vox dei...in shallah...

enocir mello

enocir mello em julho 24, 2006 12:30 PM


#6

Cotas raciais são um absurdo num país onde há tanta mistura de raça. Como definirão qual é a minha? Serei negro? Branco? Pardo? Prefiro ser brasileiro. Criarão um tribunal racial para definir quem é de que raça, assim como Hitler?

Biológos e geneticistas do mundo inteiro concordam que não há distinção de raça ainda nos humanos, não há diferenças suficientes em nossa espécie para separar raças.

Não quero ser mulato, nem branco, nem negro, quero ser brasileiro!

Tiago Motta em julho 24, 2006 12:44 PM


#7

Querido Idelber,

Essa e' a primeira vez que provo do seu biscoito fino e posso dizer que gostei. Quando nao estiver com a mao na massa, venha ler as minhas aventuras sexuais. Tenho certeza que voce vai gostar...

Beijos

Valenttina

Valenttina em julho 24, 2006 1:29 PM


#8

Caro Idelber

Sou favorável a existência de "cotas" na Universidade e no Serviço Público.

A implementação das chamadas "cotas" só se dará de maneira eficaz, no entanto, com ACRÉSCIMO DE VERBAS. Político que pensar de outra forma está fazendo DEMAGOGIA.

A UERJ está quebrada graças a implementação de políticas de 'caixa única' no Estado do Rio, sob inspiração de Brizola (Não era ele que era favorável a Educação?). A UERJ (ao tempo UEG) foi instituída com automia financeira!!!

Se o programa é de inclusão, creio então que NESTE PRIMEIRO MOMENTO é secundário (ou até mesmo marginal) a apreciação quanto ao desempenho dos alunos. O nosso país ficou marcado por uma colonização refratária ao ENSINO (em geral, e especificamente ao superior), que infelizmente teve continuadores brazucas e já está passando o momento de dar um passo adiante.

Creio que trazer exemplos norte-americanos para a realidade brasileira é uma perda de tempo. As condições são TÃO DIVERSAS, que se leva mais tempo para adequar do que para implementar. Até compreendo que sejam mencionados, mas acredito que em nada acrescentam.

O Senador Paulo Paim que neste momento favorável (eleições) está 'toureando' este projeto, gosta de apresentar projetos com 'lacunas' para que surja a "polêmica". Ou este não é o Brasil?

Paulo em julho 24, 2006 2:32 PM


#9

Idelber, não é por nada não, mas tanto Thomas Sowell quanto o Thomas Woods(Se eu não me engano, dois dos conservadores mais populares dos EUA) costumam criticar a ação afirmativa dizendo que ela teve resultados desastrosos. Como, por exemplo, Woods escreve aqui:

http://www.lewrockwell.com/woods/woods32.html

Woods é ultra-conservador, daqueles que querem missa em latim, mas tem um carreira acadêmica impecável.

Mas eu acho que sim, os anti-cotistas usam argumentos inválidos(http://www.andrekenji.com.br/weblog/?p=452 ) e de que o Estatuto do Paim tem erros graves de concepção(http://www.andrekenji.com.br/weblog/?p=445 ).

André Kenji em julho 24, 2006 2:38 PM


#10

Vixe, esse Thomas Woods é barra pesada, hein? Olha o nome do livro do cabra:

The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy.

Você tem razão, André, que há uma parcela considerável de conservadores que critica a affirmative action com o argumento de que não deu certo, incitou preguiça, etc. Ainda acho que a maior parte usa o argumento oposto, de que ela não seria mais necessária.

Interessante o seu post. Estou aqui matutando ainda sobre ele....


Concordo, Paulo, Brasil e EUA são incomparáveis, mas como vira e mexe alguém os compara nesse aspecto, achei que valia pena explicar como funciona a affirmative action nas universidades...

Idelber em julho 24, 2006 3:09 PM


#11

Ferreira, obrigado pela reflexão tão ponderada. Sobre o seu quarto parágrafo, eu completaria: o sistema de cotas tal como previsto no Estatuto não garantiria a ninguém uma vaga na universidade só pela condição de negro ou pobre. Os candidatos ainda teriam que passar no vestibular; claro, as exigências não seriam as mesmas que para os não-cotistas, mas o sistema de cotas não se confunde com uma "garantia" de vagas para todos.

A não ser, talvez, em estados onde a porcentagem de negros é bem inferior a 20%: Santa Catarina, por exemplo, onde, se entendo bem, praticamente tudo o que o aluno negro teria que fazer seria não zerar nenhuma prova e evitar a eliminação automática.

É uma crítica minha ao projeto: ele não contempla óbvias diferenças regionais na composição racial do Brasil.

Idelber em julho 24, 2006 3:18 PM


#12

Adorei a discussão.
Só conserta os "esclarescer" por "esclarecer"... please!

Anonymous em julho 24, 2006 7:48 PM


#13

Idelber, o Thomas Woods é barra pesada MESMO, mas ele é um conservador que eu gosto de ler, apesar de não concordar com várias coisas que ele escreve. É meu conservador preferido... ;)

Mas eu tendo a concordar com ele com relação à affirmative action. E ainda acho o projeto do Paim totalmente mal-feito...

André Kenji em julho 24, 2006 8:21 PM


#14

Consertado, Anônimo, gracias :-)

André, você apontou uma coisa interessante que é a presença da palavra "disciplina" quando o projeto fala de obrigatoriedade do ensino da história da Africa e dos negros, que é uma obrigatoriedade que eu defendo. Se a palavra fosse "conteúdo", tudo bem. Exigir criação dessas matérias, com as nossas escolas sem recursos para tal, é palhaçada mesmo. Estou contigo nesse ponto aí.

Idelber em julho 24, 2006 11:00 PM


#15

Caro Idelber! Sou a favor das cotas para negros e alunos oriundos das escolas públicas. Em primeiro lugar, se auto-declarar negro (como me disse meu amigo Lula, não o presidente da república, mas um representante do movimento negro de Juiz de Fora que há mais de 20 anos luta em defesa da cotas) já é uma vitória num país no qual as pessoas simplesmente rejeitam suas origens africanas. Enquanto discute-se numa roda de amigos as origens alemãs, italianas, portuguesa, espanholas, etc, nunca vi alguém dizer: "Tenho origem africana! Em segundo lugar, o universo de alunos pobres ( E como diz Caetano: "São quase todos pobres, pretos") absolutamente excluídos das Universidades públicas é imenso. Vão dizer: Então deve-se melhorar as escolas públicas! Há quanto tempo a ladainha vem sendo rezada e as poucas ações nesse sentido são sempre abortadas! A pressão, com as cotas, viria de dentro das escolas. Em terceiro lugar, imaginar que o aluno negro ou oriundo da escola pública ingressará com zero, é ignorar a diferença entre demanda e oferta de vagas. Em quarto lugar, já houve cotas no Brasil (ainda há, mas ninguém diz abertamente): a favor dos brancos. Há inúmeros relatos desde a abolição de pessoas impedidas de assumir cargos ou ingressar em escolas porque eram negras. Só para ficar no campo literário, há o caso de Cruz e Souza, Lima Barreto, etc.

maria andréia em julho 24, 2006 11:01 PM


#16

É isso aí, falou bonito, Maria Andréia. Concordo :-)

Idelber em julho 24, 2006 11:38 PM


#17

Idelber, sinto muito mas não dá nem pra considerar. Qualquer sistema de cotas, quotas, ou compensação é racista, e não existe racismo do bem. O nazismo também era afirmativo, a proteger a raça ariana em perigo. Confira o post de alta qualidade do "mrfitzwilliam.blogspot.com", com argumentos difíceis de rebater.

pecus em julho 25, 2006 12:28 AM


#18

Que interessante a discussão.... Hoje nos jornais gringos saíram várias reportagens sobre as conseqüências de ter anulado – há 10 anos – a política de affirmative action (AA) numa das maiores e melhores universidades dos EUA: a UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles). Conclusão: dos 4.700 estudantes que vão começar seus estudos em agosto de 2006, 96 são negros. O sistema deles está em crise total.

Os que estão contra a política de AA nos EUA dizem, como muitos dos que são contra as cotas no Brasil, que o problema se origina na incapacidade das escolas primárias e secundárias, que não estão conseguindo preparar os estudantes mais pobres de todas as “raças” para competir por vagas em universidades boas, etc., etc. E é verdade e óbvio. Mas também é óbvio que isso é só parte de um problema muito maior que terá que ser atacado (para não dizer resolvido?) em vários níveis ao mesmo tempo, entre eles a educação superior e o setor público.

Todos nós (ou muitos, pelo menos) desejamos viver em um mundo sem discriminação, sem raça, sem cor. Mas ignorar a desigualdade que existe como herança econômica e social da escravidão não significa, infelizmente, que desigualdade não existe. Quisera o problema fosse tão simples. O fato de ser muito complicado determinar quem deveria se beneficiar de algum tipo de promoção social – seja uma política de AA nos EUA o ou um sistema de cotas não Brasil – não significa que a sociedade não deva se dar ao dificílimo trabalho de responder a essa pergunta. Claro que a raça é ficção, mas o racismo é empírico!

Eu, obviamente, não acredito que seja completamente inútil comparar a situação do Brasil com a situação de outros países e vice-versa. Não é através da comparação (como mencionou Daniel) que a construção da raça fica mais evidente? Comparar não me parece questão de ignorar a história; ao contrário, é reconhecer que a riqueza da experiência humana não se limita às fronteiras e às políticas impostas em/por nossas imaginadas comunidades nacionais. Beijos, Idelber.

tracy em julho 25, 2006 12:40 AM


#19

Oi, Pecus, obrigado pelo link, li com atenção: ando no espírito de ouvir todos os lados de verdade. Com todo o respeito, mas ali de irrefutável não há nada. Há, sim, uma série de erros.

Erro 1:
Ao que me consta a UFRJ e o seu sistema de quotas já conseguiu causar um bom estrago, com a qualidade dos cursos caindo. Errado. O sistema de cotas não pode ter causado estrago nenhum na URFJ, porque ele foi rejeitado pelo Conselho de Ensino de Graduação da UFRJ. E a auferição do impacto de uma medida dessas, numa realidade com tantas outras variáveis, só seria possível depois de muitos anos, de todas formas.

Erro 2:
Bem que eu gostaria de dizer simplesmente que pelo menos o projeto está gerando alguma discussão saudável, mas de saudável a conversa não tem nada. As partes envolvidas estão trocando farpas e não argumentos, e qualquer um que se manifeste em contrário é devidamente patrulhado como racista . Tirando a primeira frase que é agramatical, a segunda é falsa. É mentira que qualquer um que se manifeste em contrário é taxado de racista.Se acha isso, não leu debate nenhum. Pelo contrário, neste caso quem tem acusado com mais frequência o outro lado de racista é o lado anti-cotas. Tem havido discussões saudáveis aí aos montes, é só procurar.

Erro 3: Confundir a inexistência da "raça" como fenômeno biológico positivo com a inexistência do racismo: a ciência há muito reconheceu que não existe raça. . Não é tão simples assim, mas suponhamos que seja certo; também é certo que a sociologia há muito provou que discrimina-se muito (no Brasil e em outras partes) pela aparência, herança étnica, cor da pele.

Erro 4: Não enxergar o Brasil: Falam em 50% de quotas para negros, mas não sei onde eles estão. Ando na rua e não encontro, aliás encontrei mais deles em Paris. A primeira frase é falsa. O projeto prevê 20%. A segunda frase é um delírio: por qual Brasil ele anda? Conhece a zona norte do Rio? Bahia? Interior de Minas? Que tipo de óculos é necessário estar usando para ver mais negros em Paris que no Brasil?

Eu poderia continuar, mas deixo o link indicado aí pelo Pecus para que as pessoas visitem e julguem. Mas o texto está bem escrito, sem dúvida. Valeu o link, Pecus :-)

Idelber em julho 25, 2006 1:46 AM


#20

Oi, Tracy, que bom que você apareceu para este papo :-) Pois é, o lance na Califórnia foi uma grande derrota: culpa da política "progressista" californiana, balcanizada, cheia de reclamos identitários chatos, alguns separatistas. Enfim, é uma calamidade esse número que você cita aí, especialmente quando comparado à porcentagem de negros presos ou parados pela polícia no trânsito.

Idelber em julho 25, 2006 1:52 AM


#21

Concordo com o sistema de cotas. Ponto final.
Há racismo no Brasil. Ponto final.
Nem ia comentar esse post, porque muitos já disseram muitas coisas, muito melhor do que eu. Mas não resisti: "Falam em 50% de quotas para negros, mas não sei onde eles estão. Ando na rua e não encontro, aliás encontrei mais deles em Paris."????
Esse é o melhor argumento pró-cotas dos últimos anos! Se nossa classe média circula pelas ruas (suponho que sejam as ruas dos bairros nobres, ou as salas de aula das universidades, talvez?) e não vê negros... onde será que eles estão? Com certeza, nos lugares errados. :P
Bjs

Monix em julho 25, 2006 10:57 AM


#22

Falou tudo, Monix, essa frase é o argumento definitivo a favor das cotas: ela chega a ser cômica (se não fosse trágica). A nossa elite anda pelo Brasil e não vê negros. Beijos,

Idelber em julho 25, 2006 11:50 AM


#23

Caro Idelber, como está?

que bom você discutir e esclarecer esse tema aqui Biscoito Fino! Vejo que seus leitores também têm muitas contribuições riquíssimas e que temos que enfrentar mesmo essa discussão em todas as instâncias da vida social.

Mudando de assunto, qualquer noite nesta semana tá legal, sendo que amanhã (quarta) tem ensaio do witch para o qual você é muito bem vindo e quando você pode encontrar mais gente. É só escolher, ok?

um abraço

paulinho

paulinho em julho 25, 2006 12:17 PM


#24

Comnbinado, Paulinho. Te dou uma ligada hoje :-)

Idelber em julho 25, 2006 12:20 PM


#25

É, já tem dois posts depois deste, tô anacrônico, mas esse assunto é tão importante que vou dar mais um humilde pitaco. Lá em cima, no primeiro comentário, falei que aprecio mais a cota socio-econômica do que a cota racial. Agora pensei em mais um fator a favor da primeira. Mudando o foco da raça para a situação socio-econômica do candidato, eliminam-se imediatamente todos os argumentos contrários que levantam a lebre do "racismo", além de resolver o problema de lugares como Sta. Catarina. Lá pode ter bem poucos negros, mas certamente deve ter sua boa parcela de cidadãos pobres. E claro que, como disse lá em cima, o critério sócio-econômico acabará trazendo mais negros e índios para a faculdade de qualquer maneira.

Enfim, acho a idéia de cotas interessante; o projeto atual, porém, tem suas falhas, e apenas através de discussões e debates (como esse!), poderão melhorar o projeto. Parabéns pro blog.

daniel em julho 25, 2006 1:09 PM


#26

Salve, Idelber.

Também sou favorável às cotas, mas gostaria de ver o debate ampliado para outras medidas de ação afirmativa, como bolsas de estudo. Ainda assim, penso que o debate avança no rumo certo.

Abraços

Mauricio Santoro em julho 25, 2006 1:23 PM


#27

Daniel, obrigado de novo, e não está anacrônico de jeito nenhum. Eu queria ter mencionado isso lá em cima, junto a seu primeiro comentário, e me esqueci: também defendo as cotas "sociais", mas há que se lembrar que a legislação atual contempla isso, as duas medidas podem ser implementadas simultaneamente, o que é, inclusive, o objetivo do Estatuto. O argumento para adotar ambas é que para além da exclusão "social", de classe (que obviamente exclui, proporcionalmente, mais negros que brancos) há uma exclusão que opera em termos estritamente raciais no Brasil, e que deve ser corrigida: é a herança sócio-econômica específica dos negros, a operação cotidiana do preconceito, do mito da "boa aparência", etc. Não é fato, não está garantido, que as cotas somente "sociais" (para pobres) ocasionariam uma alteração significativa no número de negros com acesso à universidade, por exemplo.

Não o digo para discordar de você, mas para botar mais um argumento na roda e enfatizar que os dois tipos de cotas não se opõem necessariamente. Abraços,

Idelber em julho 25, 2006 1:32 PM


#28

Mauricio, também acho que o debate está no rumo certo. E concordo que outras medidas de ação afirmativa, como bolsas focadas, teriam um impacto bem significativo. Vamos ver, se no segundo mandato...

Idelber em julho 25, 2006 1:35 PM


#29

Eu já tinha escrito um post sobre o Estatuto da Igualdade Racial, que deixei pra publicar no começo da semana que vem. E minhas conclusões, pelo visto, hoje seriam bem diferentes das suas (e das minhas há alguim tempo atrás). :)

Rafael em julho 25, 2006 2:23 PM


#30

Fala, Idelber!
Concordo com você, mas falo isso da cota "social" mais pelo fato de que isso tiraria da discussão essa lance do racismo às avessas, nazismo negro, etc., que embora sejam argumentos furados são tão chamativos e "irrefutáveis" (quem que vai concordar com uma coisa nazista?) que acabam desviando o debate prum lado que esconde a questão real, que é a da desigualdade, racial e social, que existe no Brasil.

Daniel em julho 25, 2006 3:00 PM


#31


Rafex, vou aguardar o post ;)

Idelber em julho 25, 2006 3:17 PM


#32

Não sou a favor das cotas, como não sou a favor do estilo de educação implantado no Brasil, onde se dá maior prioridade às faculdades públicas que o ensino de segundo grau.

As cotas irão melhorar a educação do negro? Quase que imperceptivelmente. Como o Idelber já falou, mesmo com as cotas, os estudantes negros irão competir entre si.

Ou seja, não serão todos que conseguirão vagas nas universidades.

Sou totalmente contra ao que a UERJ está fazendo, aulas especiais para alunos cotistas de baixo aproveitamento. Isso distorce totalmente o sentido de uma universidade.

A solução é o investimento no ensino básico que beneficiará não só o negro, mas o pobre também. É fazer que nossas escolas públicas possuam capacidade de competir com qualquer particular. Isso é impossível? Claro que não. É só ver o desempenho dos Colégios de Aplicação e dos Colégios Militares.

A educação básica gratuita de qualidade traria o benefício, também, aos alunos que não quiserem fazer faculdade. Pois isso é outra coisa que tem que acabar: a idéia de que TODOS TÊM que fazer faculdade.

A Petrobrás hoje possui milhares de vagas não preenchidas para serviços técnicos com salários ótimos. E não é só ela.

Acho que o foco está totalmente errado. Deveria ser a qualidade da educação pública de segundo grau.

O artigo de Ali Kamel do O Globo hoje (25/07) é ótimo para o assunto.

E outro motivo é mais lógico: não se resolve um problema de igualdade, causando mais desigualdade.

Pablo Vilarnovo em julho 25, 2006 4:30 PM


#33

Outra coisa que não consigo engolir é essa mania de colocar a culpa nas "zelites brancas". Eu estudei minha vida inteira em colégio particular, fiz cursinho pré e passei para a UFRJ.
Isso apenas me faz parte da "zelite branca". Porém ninguém quer saber do esforço do meu pai, mecânico, que lutou a vida inteira debaixo de um carro para poder pagar uma educação melhor, já que o imposto que ele pagou e paga ainda hoje, não pode me proporcionar isso.

Será que por causa disso deverei ser discrimanlizado?

Juntamente comigo, 80% da minha turma de administração na UFRJ era de alunos que não teriam condições de pagar uma Universidade Particular, de alunos que logo depois já estariam procurando empregos para se sustentar.

Há países no mundo civilizado onde um pai de família que paga um colégio particular para os filhos, tem o difeiro de realizar descontos em seu imposto de renda, pois o governo entende que ele não está utilizando a parte de seu imposto que recai sobre a educação.

As pessoas se esquecem que as universidades públicas são sustentadas pelo imposto de TODOS, não só dos negros, ou brancos, pobres (porque esses também pagam imposto) e dos ricos.

As cotas, na minha opinião, inconstitucionais porque ferem o princípio de igualdade, não resolvem de maneira nenhuma o problema.

Pablo Vilarnovo em julho 25, 2006 4:38 PM


#34

De minha parte, eu admitiria cotas baseadas em (falta de ) poder aquisitivo mas nunca cotas raciais.

E acho que instituir cotas (distorção) direto na universidade é açodamento, populismo e irresponsabilidade. Quer instituir cotas? começe no ensino básico, usando a ajuda financeira aos
pais em troca da frequência do aluno na escola.

Bear em julho 26, 2006 12:48 AM


#35

Não dar para negar que o sistemas de cotas é a solução mais imediata a ser tomada porém não é a melhor, o ideal seria melhorar a educação de forma que todos que sejam de escolas publicas ou particulares competissem igualmente.Apesar desse sistema querer solucionar ou amenizar o problema da diferença social de etnias não deixa de ser injusto

Lilian em setembro 1, 2006 11:28 AM