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segunda-feira, 17 de julho 2006
Dia Internacional do Rock e os 20 anos de carreira do Witchhammer
Não faltaram shows de comemoração do dia do rock aqui em BH, a capital brasileira do metal. Eu conferi dois deles: na sexta-feira a atração no Lapa Multishow foi a Banda Concreto, ganhadora do Prêmio Mineiro de Música Independente com seu metal pesado mas melódico e cheio de variações. Nos seus treze anos de estrada a Concreto participou de inúmeras coletâneas e lançou três CDs (A Calma da Alma, de 1998; Aquele que tem, de 2001; Volume III, de 2004). Já reconhecida como uma das principais bandas de hard rock do cenário underground brasileiro, a Concreto é veterana de apresentações para públicos de 50 mil pessoas ao lado de gente grande como Sepultura, Dio e Nação Zumbi.
Nessa sexta a Concreto apareceu de baterista novo, Alysson (que eu, como irmão, sou supeito para elogiar, mas toca pra cacete). Um gostinho do som da Concreto, aqui. Galeria de fotos, aqui.


No domingo, no Matriz, tanto a velha como a nova guarda do metal se reuniram para render homenagem ao vigésimo aniversário do Witchhammer, legendária banda da cena underground mineira. A bruxa veio com tudo e fez um repasso dos vinte anos de carreira, desde a demo tape de 1986, que incluía uma das canções mais conhecidas da banda, "Weekend in Auschwitz", passando pelo primeiro disco solo (The First and the Last, 1988), pelo segundo, o operático, heterodoxo e genial Mirror, my Mirror (1990), pelo terceiro, disco de maturidade política e musical da banda, o Blood on the Rocks (1992) e pelo recente petardo Ode to Death (2006). Não faltaram os tributos aos pioneiros do Sagrado Inferno e do Chakal, duas das bandas que fizeram de Belo Horizonte uma cidade conhecida mundialmente pela força do seu heavy metal.

Assim como as grandes sacadas de Chico Science foram 1) que o padrão rítmico do maracatu podia (e devia!) ser combinado com o de gêneros afro-atlânticos como o funk e o reggae e 2) que a arte verbal da embolada tinha tudo que ver e era uma prima genuína do rap, as grandes sacadas do metal mineiro foram: 1) que a fórmula aparentemente fechada do metal permitia uma variação infinita em timbre, volume, harmonia; 2) que as bandas que sobreviveriam seriam as que tivessem boa e imprevisível "cozinha", ou seja, especialmente uma bateria ancorada no jogo com os contratempos (e nisso tanto Teddy, baterista do Witchhammer, como Alysson, da Concreto, são feras); 3) que da onda "anti-cristã" (satânica) do primeiro momento do death metal, eles podiam se desfazer do adjetivo e ficar só com o prefixo anti, e ser, conforme o caso, antipolítica, antipsiquiatria, antiestado, antireligião; 4) que o estilo gutural do vocal do death metal (que apareceu para que as pessoas pudessem entender as letras, já que o volume instrumental do gênero é alto) era também uma poderosa arma para sincopar, "quebrar" a música.
Witchhammer foi pioneiro em todas essas sacadas. Qualquer que seja seu gosto musical, 20 anos de estrada no underground (com uma interrupção, é certo, nos anos 90) é de se respeitar e tirar o chapéu. Se você não ouve rock pesado mas está aberto a outros sons - mais, digamos, distorcidos que o usual seu - ouça Mirror, my Mirror e depois me diga. Está no meu top 10 de rock pesado brasileiro, em todos os tempos (só não acredite no que diz o link sobre "banda norueguesa", claro; eles são do Sagrada Família, Belo Horizonte).
Tanto no show de 20 anos do Witch como no show da Concreto verifiquei mais uma vez uma coisa bacana. No mundo anglo-saxão se fala muito do heavy metal como gênero "masculino" e "branco". Como já é de costume no metal mineiro, a coisa aqui vai por outro lado: as mulheres perfaziam, fácil, 50 ou 60% do público em ambos shows (maravilha de se ver) e negros e mulatos são sempre pelo menos 30 ou 40% da galera presente.
Mas todo mundo torce pro Galo. Headbanger cruzeirense eu não conheço. Aos atleticanos da Concreto, parabéns pela celebração em grande estilo do dia do rock, e aos atleticanos do Witchhammer, sobretudo, parabéns, por vinte anos de integridade e rock'n'roll.
PS: Dependendo de um conhecido, rolam fotos do show do Witch para atualizar o post. Seria impagável: Paulo Caetano (guitarra/vocais) de preto, com o número da besta, cara pintada de vermelho, cabelo arrepiado, pregando. Oxalá alguém tenha registrado. Eu esqueci a máquina, imperdoável.
PS 2: Mais sobre heavy metal:
a. Running with the Devil: Power, Gender, and Madness in Heavy Metal Music, de Robert Walser, já um clássico da etnomusicologia, que inclui um capítulo fantástico sobre o metal como releitura da música barroca.
b. De Mílton ao Metal (pdf), artigo curto meu.
PS 3: Deixamos Guimarães Rosa para a semana que vem, eu acho. Há várias pessoas ainda lendo, inclusive eu.
Escrito por Idelber às 03:47 | link para este post
| Comentários (19)
#1
Metal atleticano? Que coincidência maluca. O brabo é que as bandas nacinoais tem uma dificuldade imensa de distribuição. Tu sabes quantas vezes eu já encontrei um disco do Torture Squad ou da Dorsal à venda por aqui?
Eu também ainda estou lendo, mas só vou acbar no final do mês. A leitura está complicada e demorada, droga.
Bender em julho 17, 2006 9:39 AM
#2
Pô, Idelber. De Milton ao metal? Puxa, obrigado; fiquei comovido...
Hahahaha.
Abraço.
Milton Ribeiro em julho 17, 2006 10:25 AM
#3
Adorei o comentário de que Headbanger não é cruzeirense. Hahahaha. Como você chegou a esta conclusão?
Beijos...
Janaina em julho 17, 2006 2:32 PM
#4
Nossa, essa banda Witchammer ainda existe?! Quando eu tava no 3º ano científico, no colégio Pitágoras, um dos integrantes (o vocalista, acho. Paulinho Metal? Algo assim) era da minha sala. A long, long time ago...
;-)
Ju em julho 17, 2006 4:55 PM
#5
Engraçado, acho difícil acreditar que o rock tem apenas 20 aninhos!!!! Sempre tive a sensação que ele nasceu com o mundo..... rs*
beijos e boa semana,
MM
Ps: passe para conhecer o novo canteiro Fina Flor quando puder ;o)
Mônica Montone em julho 17, 2006 5:58 PM
#6
Bender, no caso da Dorsal eu acho que os discos antigos você encontra para download na internet. Nunca tentei, mas dá uma olhada no Soulseek...
Mílton, eu acho que esse homônimo tem acento, e uma voz ligeiramente superior à sua... (em compensação você tem melhor gosto futebolístico...)
Oi, Janaina, são 20 anos de observação mesmo. Eu convivo muito com o pessoal, e as preferências clubísticas deles costumam vir estampadas, bem visíveis.
Ju, você foi colega do Paulinho!!! Eita, que BH é uma azeitona preta mesmo. É o próprio, Paulo Henrique Caetano, enciclopédia do metal mineiro, guitarrista do Witchhammer e mestre em Letras pela UFMG com tese sobre Bob Marley :-)
Oi, Mônica, bom, o rock mesmo tem quase a idade do mundo, é verdade, são 55 anos... Quem tem 20 é o Witchhammmer.... O novo Fina Flor está muito bacana, já visitei :-)
Beijos,
Idelber em julho 17, 2006 7:43 PM
#7
Caríssimo irmão Idelber:
não só em meu nome mas em nome de todo o Witch, valeu demais sua presença no 'mosh pit' da nossa festa. Quando te vi do palco (eu que andava meio cabisbaixo) me animei muito ao te ver esmagando-esmagado, e meu fogo reascendeu.
Muito obrigado pela sua atenção, suas palavras sábias que conseguem cruzar o universo como um raio perspicaz: O biscoito fino é mesmo massa brother e eu, sempre seu admirador 'invertebrado'!!!
Aproveito para deixar o endereço do nosso site, ainda incipiente: www.witchhammerbh.br22.com
Um abraço a toda(o)s leitora(e)s e para os/as amigos/as do witchhammer. A gente se vê na estrada, bem antes da 'única democracia possível'.
Idelber, estamos te esperando no terraço
paulinho
paulinho em julho 18, 2006 7:23 PM
#8
Paulinho, obrigado a você e ao Witchhammer por esses anos de som e força.
O drink no terraço tá marcado. Abração,
Idelber em julho 18, 2006 7:58 PM
Henrique Cintra em julho 19, 2006 1:03 AM
#10
Idelber, se encontra muita coisa na web sim, mas comprar CD é outra coisa, além de dar uma força para o artista.
Outra coisa, há cinco anos, quando primeiro ouvi whitchammer não existia e-mule e o meu napster tinha sido bloqueado pelo Metalica.
Bender em julho 19, 2006 10:53 AM
#11
Napster bloqueado pelo Metalica é foda, heheh!
Henrique, obrigadão pelos links :-)
Idelber em julho 19, 2006 11:50 AM
Edkallenn em julho 19, 2006 7:00 PM
#13
Oi, Edk, agradeço o link. Anda meio sem ter o que escrever o cabra,né? Para publicar uma carta de leitor daquelas...
Idelber em julho 19, 2006 7:20 PM
#14
Caro Idelber
Navegando por aqui li o seu impecável Decálogo dos Direitos do Blogueiro.Um biscoito fino!! Copiei, roubei, e colei lá no blog para que meu devotos possam saboreá-lo. Um beijo.
Santa em julho 21, 2006 10:09 AM
#15
Caro Idelber
Navegando por aqui li o seu impecável Decálogo dos Direitos do Blogueiro.Um biscoito fino!! Copiei, roubei, e colei lá no blog para que meus devotos possam saboreá-lo. Um beijo.
Santa em julho 21, 2006 10:10 AM
#16
Cara Santa, pode copiar e reproduzir à vontade, é um prazer :-)
Idelber em julho 21, 2006 1:13 PM
#17
Fala brodhi!!!Primeiro quero agradecer sua presença lá no Lapa,fiquei muito emocionado de ver vc e a mamãe lá curtindo o show do Concreto!!!Obrigado pelo post e tb pelos elogios,acho que a galera que esteve lá tb curtiu. Toda mudança de integrante numa banda é complicada e os fãs sempre ficam na expectativa; principalmente quando se trata da bateria, que dá o pulso da música. Espero que os próximos sejam cada vez melhores. Conto com sua presença e a dos leitores do Biscoito tb!!!!Viva o Heavy Metal!!!
AlyssonHell em julho 22, 2006 9:47 PM
#18
Valeu, Alysson, foi um showzaço :-)
Idelber em julho 23, 2006 9:06 PM
#19
Caro Idelber,
Gostaria muito de ler o artigo "De Milton ao Metal", mas não sei porque, infelizmente,não consegui abri-lo no meu PC.
Um abraço.
Beto em setembro 3, 2006 7:56 PM