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quarta-feira, 26 de julho 2006
O demoníaco e o pacto fáustico em Grande Sertão: Veredas
Das várias maneiras de se engajar nesse exercício fútil que é resumir, numa frase, o Grande Sertão: Veredas, duas me parecem ir ao âmago da trama do livro: 1. GSV é a história de um interdito, impossível amor de um jagunço por uma mulher que viveu como homem para vingar o pai; 2. GSV é o relato de um jagunço que narra sua vida a um interlocutor forâneo para saber se concertou ou não um pacto com o demônio. A genialidade de Rosa reside no entrelaçamento desses dois motivos, o do amor impossível e o do pacto fáustico. É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destapa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco.
O motivo fáustico na literatura se remonta à história de D. Iohan Fausten e seu suposto pacto com o demônio em troca do conhecimento absoluto. A lenda alemã serve de base para o clássico de Marlowe, que inspira o Fausto de Goethe, que por sua vez é o marco de um infindável cânone de obras que tratam o tema, incluindo-se de sinfonias a filmes de Hollywood. Nesse cânone, Grande Sertão: Veredas tem a singularidade de ser uma narrativa construída sobre a incerteza de se houve pacto ou não (é essa incerteza que está na raiz da completa desordem das 30 primeiras páginas). Trata-se aqui menos de uma história de soberba faustiana em busca do conhecimento total que a expressão de uma interrogação trágica acerca de um fragmento de saber indispensável: sou ou não sou pactário? Riobaldo não pode senão perguntar-se pela desordem que rege as coisas. Essa pergunta, aliás, não mantém com a desordem do mundo uma relação de mera representação. Pelo contrário, ela interfere nesse mundo. Quanto mais a pergunta é feita, mais a desordem aumenta. Isto ocorre num contexto fáustico, no qual a inteligência é estreitamente associada ao demoníaco.
Um dos paradoxos maravihosos da tradição fáustica é que o Diabo aparece como ser muito mais interessado na humanidade que Deus. Estudioso desses paradoxos, Rosa leva o avesso das coisas a suas últimas conseqüências: no sertão, Deus é um afterthought, é algo chega depois, é o resultado da equação que tenta demonstrar que o demo não pode ser o motor último das coisas. Mas o dado, o que a realidade oferece, é o demo. Em Grande Sertão, o personagem que busca equilibrar e racionalizar essa ubiqüidade do demoníaco é Compadre meu Quelemém, uma espécie de Sancho Panza espírita, que encontra no kardecismo a tranqüilidade de saber que suas perguntas têm respostas inequívocas e definitivas. É o alter ego conformado e resignado de Riobaldo. Há Grande Sertão porque Riobaldo é incapaz dessa certeza religiosa reconfortante de seu Compadre.
Guimarães Rosa era um escritor de formação humanista cristã conservadora. Na verdade, ele não só não se importava de ser chamado de “conservador” em política, como preferia a palavra “reacionário”, usada no sentido estritamente etimológico, insistia ele, daquele que quer voltar ao âmago das coisas, a um momento original perdido na tagarelice pós-babélica. Cristão até os ossos, ele escreveu a obra mais cheia de heresias da literatura brasileira. Só há narração, só há linguagem, porque o mundo está atravessado pelo demoníaco. Conhecedor e estudioso de uma tradição cabalística que associa a pronúncia do nome à materialização da coisa, Rosa faz Riobaldo recorrer ao circunlóquio para falar do demo: o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim.... (p.33). Profundamente influenciado pelo neo-platônico Plotino, Rosa não acredita na materialidade do mal - Solto por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum (p.11) - o que não quer dizer que o mundo não esteja atravessado por ele: O senhor vê? O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo (p.49).
Se o mundo está atravessado pelo demoníaco, assim está o amor. O único amor não diabólico é Otacília, moça de família prometida no começo da história, resgatada depois dos combates e hoje companheira de velhice do barranqueiro. Em Diadorim, por outro lado, tudo é duplicidade demoníaca. No nome de Diadorim encontra-se dor, adorar, mas também a raíz de diabo: que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? (p.33); o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta (p.108).
Se a duplicidade de Diadorim (o que possui as duas essências) remete ao demoníaco, o verdadeiro alter ego do diabo em GSV é Hermógenes. Tampouco aqui o nome é gratuito: Hermógenes, literalmente a gênese da interpretação, a partir do deus grego Hermes, o mensageiro. Na origem do pensamento especulativo, o demoníaco. Eis aí a fórmula profundamente anti-racionalista de Rosa, inimigo declarado da "megera cartesiana". Hermógenes (nome que o diabo compartilha com a teoria da interpretação, a hermenêutica) é um jagunço descrito como trapaceiro, traidor; ele atira pelas costas e derruba Joca Ramiro, o grande líder dos sertões, para vingar-se de ter sido voto vencido no julgamento de Zé Bebelo, que havia sido capturado pelos ramiros mas solto por não ser autor de crime nenhum. É para vingar a morte traiçoeira imposta a Joca Ramiro, seu pai, que Diadorim abraça a jagunçagem, até a vingança final, na qual ele mata Hermógenes na faca mas é morto também, desvelando o corpo de mulher cuja descrição é tão inesquecível.
Ourives minucioso de seus textos, Rosa colocou a cena do suposto pacto com o diabo exatamente na metade do livro. Trata-se de um momento em que o sujeito perde seus referenciais e a linguagem volta à desordem febril das primeiras páginas. A incerteza sobre o que sucedeu naquela noite no descampado retrospectivamente organiza toda a narrativa. Se no término do livro o Compadre meu Quelemém oferece sua usual explicação reconfortante – “tem cisma não. Pensa para adiante” – o próprio signo do infinito ao final do livro o desmente. Não há fechamento nem resolução do pacto, nem mesmo confirmação de sua existência: dúvida que é, ela mesma, prova definitiva de quanto o Dito-Cujo está impregnado nas coisas.
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Todas os números de páginas remetem à 15a edição (1982), da José Olympio.
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Leiam também: A Questão do Mal: Uma Abordagem Psicológica Junguiana (sugestão da Juliana Mothern)
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A casa convida não só ao debate, mas também à confecção de uma pequena antologia de citações do romance sobre esse tema. Quem tiver uma citação favorita sobre o demo, pode deixá-la aí.
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Atualização: a coluna de Mônica Bergamo na Folha (link só para assinantes) noticiou que Grande Sertão: Veredas, cujos direitos pertencem integralmente a Eduardo Tess, neto da segunda mulher de Rosa, estará em breve disponível para download gratuito na internet! (link via Alfarrábio).
Escrito por Idelber às 05:48 | link para este post
| Comentários (27)
#1
Durante a primeira metade do livro, Riobaldo já vai dando dicas de que o demônio é seu camarada. Mas uma parte que me marcou foi quando ele diz algo do tipo "só o demônio sabe", num local onde normalmente se citaria deus.
Tchê, que livraço!
Bender em julho 26, 2006 9:22 AM
#2
Olá,
Idelber.
Infelizmente não pude iniciar a leitura deste livro em tempo de participar deste debate, mas pelo pouco que li por aqui já estou mais do que com vontade de iniciar tal leitura.
Acho bacana esse lance de clube de leitura. Gostaria de sugerir algum livro de Milan Kundera, talvez "A vida está em outro lugar". O que achas?
Um abraço.
Ferreira em julho 26, 2006 11:42 AM
#3
Postaço, herr professor. E excelente o link com o texto do Bonfatti.
Nelson Moraes em julho 26, 2006 11:53 AM
#4
Ué, onde estão os debatedores que pediram o GSV?
Off-topic: Excelente teu post sobre os ataques de Israel. Aqui, em Porto Alegre, temos um jornal que mancheteou alegremente hoje: "Barreira contra o Hezbollah". Sinceramente, quase vomitei meu café da manhã. É repugnante.
Milton Ribeiro em julho 26, 2006 11:59 AM
#5
_The Devil to Pay in the Backlands_,
one of the only achados of the trans.
Subtitle de frontispicio que reune quase tudo:
_O diabo na rua, no meio do redemoinho..._. Logo mais, no final do quinto parágrafo aparece em _itálico_. Remete ao /re-aparece no encontro final Diadorim e H. (p. 450 & 451).
Após _Grande Sertáo: Veredas_ e o subtítulo
nesta 12 ed. tem uma gravura do demo, que pode ser a contrapartida do signo do infinito final? 8 deitado? _Title page_ pode ser parte do romance?
Bom, a contemplar a contraposição de duas imagens espaciais. Sertão, abarca tudo, aberto; e veredas, linhas que atravessam, m/m rua// no meio da rua, ponto definido; redemoinho concêntrico,centrífugo, centralizante, circular. A natureza material da colocação da imagem é outro lado da moeda do elemento espiritual (Deus-Demo)... Diga?
charles anjo carlo angelo em julho 26, 2006 12:10 PM
#6
Idelber, querídolo!
me desculpe me utilizar desse meio, mas eu preciso de ti. Help!!!!! estou literalmente fora da caixinha, hehehe, por isso não te enviei emeio em pvt. podes me retornar? via emeio, hehehe
lelex
elenara em julho 26, 2006 3:42 PM
#7
Idelber,
o que ando me perguntando é que, um pacto pressupõe uma troca, e não entendi que Riobaldo queira do diabo o fim do impedimento ao amor de Diadorim.
Daí não concordo com você quando diz que "É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destampa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco". A meu ver tem mais haver com o mêdo, talvez da morte ou do fracasso. Quando Riobaldo se impõe como chefe e todas as mudanças que daí resultam me levaram a pensar que tinha ocorrido o pacto (Diadorim dizia isso e êle negava).
Desculpe se não a discussão não for assim mas é a primeira vez que participo de uma discussão de literatura. Não preciso dizer que adorei o que vc escreveu e me fez pensar bastante.
carmen em julho 26, 2006 4:50 PM
#8
Idelber,
vou dar minha contribuição ao debate hoje à noite ou amanhã, pois a doidinha aqui saiu correndo de casa e esqueceu o GSV, e há vários trechos que eu gostaria de citar.
Ótimo post, verdadeira aula grátis. Obrigada!
bjs,
Alessandra
Alessandra Alves em julho 26, 2006 4:51 PM
#9
Oi, Carmen, você tem razão que minha frase pode ser entendida como se dizendo que Riobaldo quer do demo o fim do interdito sobre o amor com Diadorim. Mas não era bem isso o que eu quis dizer, ou pelo menos não é o que eu tinha na cabeça, com "É a brutalidade do interdito que o impede de amar Diadorim que destampa em Riobaldo o redemoinho do demoníaco".
A idéia não é que Riobaldo pacta porque quer que o demo o libere para amar Diadorim, claro que não, concordo com você. Na verdade não se sabe porque ele pacta. Nem ele mesmo sabe. Pacta, talvez, inclusive, exatamente por não saber.
Mas é o amor desgovernado por (alguém percebido como) outro homem que enfia na cabeça de Riobaldo adentro a idéia de que o demoníaco é irredutível, que ele está na essência das coisas, que ele rege até mesmo o amor. É isso que eu queria dizer com a inseparabilidade entre os dois eixos, o amoroso e o fáustico.
Não tem que pedir desculpas nada não, está perfeito, a conversa é assim mesmo! Obrigado, abração,
Idelber em julho 26, 2006 5:16 PM
#10
Idelber,
Não seria o pacto uma forma de lutar contra o próprio Hermógenes? Uma maneira de aliar-se ao mal para lutar contra ele? Acredito que há no romance elementos suficientes a sugerir uma intenção de pacto, mas a questão é: o pacto valeu? Ou ainda mais importante: o diabo de fato existe? Porque se não há demo, não há pacto, e o herói não precisa lidar com as consequências do pacto, que seria o sacrifício do grande amor.
Seria interessante observar o romance de Rosa sob o prisma da dialética entre a ordem e desordem (para utilizar a terminologia do Candido em Dialética da Malandragem), já que Riobaldo oscila entre esses pontos o tempo todo. No final, ele concilia-se com a ordem, ao tornar-se fazendeiro e bom marido. Concilia-se com a ordem social, uma vez que abandona a jaguçagem, e concilia-se com sua heterossexualidade, já que além de estar casado com Otacília, consegue atenuar a sua culpa por desejar um homem. Para mim, a questão menos importante não é se Diadorim era uma mulher, mas o sentimento de ambivalência sexual que o personagem é capaz de provocar em Riobaldo. Afinal, Diadorim performatizava (pra falar como a Judith Butler) um homem.
E cá entre nós, só Guimarães Rosa para criar um narrador-sertanejo-jagunço-bom atirador e apaixonado por outro jagunço, e tecer uma história com tão rica verossimilhança e poesia.
Cesar em julho 26, 2006 6:34 PM
#11
Verdade, Cesar, há elementos suficientes sugerindo que essa - a luta contra o Hermógenes - era a intenção do pacto. Mas aí o próprio turbilhão do pacto vai relativizando a intenção, não é mesmo? Riobaldo literalmente perde-se ali, perdendo junto a primazia da intencionalidade que o havia levado até o descampado.
Eu concordo com você, que em Diadorim mais importante do que a condição de mulher é a performance masculina. É ela que produz a culpa, o roçar daquele amor com o demo.
E sabe o que eu descobri nessa releitura? Que a certidão de nascimento de Maria Deodorina da Fé Bettancurt Marins registrava 11 de setembro de 1800 e tantos....
Datazinha do demo, hein?
Idelber em julho 26, 2006 7:51 PM
#12
“Senhor sabe : Deus é definitivamente; o demo é o contrário Dele...”
Fefê em julho 27, 2006 11:35 AM
#13
Só hoje vi que a discussão havia começado. Seu post está excelente, uma verdadeira aula.
Quando ao pacto, ao meu ver, quando Riobaldo soube que o Hermógenes tinha um com o Demo, isso o impressionou. Depois, a cobrança para que ele fosse o chefe e a insatisfação com Zé Bebelo - mesmo o admirando, Riobaldo não achava que ele estava realmente dentro da luta contra os judas por sua dúvida entre ser político e chefe de jagunços - o conduziram a fazer o pacto. Não entendi que isso tivesse a ver com Diadorim, mas com força extra para assumir a chefia do bando: um pactuante enfrentando outro (o Hermógenes), no mesmo nível.
Tanto que, logo depois do pacto, ele enfrenta Zé Bebelo, lhe dá as costas e praticamente o força a entregar o comando.
Outra coisa: sabe aquele tipo de pessoa que não aceita algo -- um vício, por exemplo -- e quer que aquilo seja proibido para que ele não tenha acesso? É isso que acontece com Riobaldo. Ele não gosta do demo e não quer crer que ele existe, no entanto, está sempre falando dele. Até que chega ao ponto de dizer: "o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem em definitivo a noção - proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranquilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!" Ou seja, ele deixaria de pensar no demo apenas por força de lei.
Isadora em julho 27, 2006 12:17 PM
#14
Idelber,
antes de mais nada, eu gostaria de agradecer pela iniciativa do Clube de |Leituras, pelos seus posts introdutórios à discussão (reafirmo: turma, isso aqui é aula grátis!) e pela interação com a turma.
E ainda antes de falar sobre o demo, gostaria de dar um depoimento sobre a leitura de GSV neste momento da minha vida. Bem, desde que "A vida do elefante Basílio", Érico Veríssimo para crianças, me caiu nas mãos, em 1977, nunca mais parei de ler e, quase ao mesmo tempo, também comecei a escrever. Essa aventura me trouxe enormes alegrias e alguns poucos dissabores.
Os dissabores estão mais associados a livros difíceis do que a livros ruins. Porque os ruins a gente esquece, os difíceis ficam como pedrinhas no sapato. Talvez o marco zero da minha vida de leitora "adulta" tenha sido o contato com "Cem Anos de Solidão", de García Márquez, que li aos 14 anos e que me marcou profundamente (bem, meu filho se chama Gabriel. Acho que isso já diz muita coisa!).
Foi como se eu tivesse adquirido um passaporte válido para todos os países do mundo literário. Qual o quê! Logo depois de Cem Anos, me aventurei em Proust e confesso que foi muito tempo perdido. Difícil, árduo, travei.
Isso tudo me veio à mente, agora, porque fico imaginando o que teria sido de mim se tivesse encarado GSV naquela altura. Travaria, sem dúvida alguma.
Não só pela densidade da obra, pela complexidade dos temas, mas sobretudo pela linguagem. Em tempo de escola, CDF como eu era, ia achar que o livro estava escrito "tudo errado" e nem consigo me achar risível naquele instante. Quando se está aferrada à análise sintática da oitava série, tá bom que eu ia achar certo o linguajar do velho jagunço.
Mas os anos passaram, minha cabeça colegial se expandiu. Vieram em meu auxílio tantos mestres formais e informais e aprendi que a dita linguagem culta nem por isso é a única certa. E quero ver, daqui alguns anos, meus netos se rindo de mim porque ainda escrevo você e não simplesmente vc (e nessa hora certamente lhes darei uma bengalada e direi que tenham respeito, que essa minha corruptela já contém grande dose de síntese, ou voismecê não sabe?!)
Sobre o tema proposto - o demo - puxa! Dei sorte em entrar pro baile depois de algumas músicas tocadas, porque achei muito enriquecedora as análises somadas do professor, da Carmen e do Cesar.
O emaranhado (o redemoinho) no pensamento de Riobaldo é tamanho que me parece mais lógico concluir que nem ele mesmo sabe se pactou ou por que razão teria pactado. A verbalização do tema é catártica, para ele. Desde o início, ele explica ao interlocutor que já contou tal história a outros visitantes. Aquela não é a primeira revisão de sua própria história.
Ainda na página 31, ele avisa: "(...) para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em mim uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!(...)". Que ninguém se enganasse, pois: é disso que se trata o livro. Um cão farejador procurando as pontas soltas de uma história sem começo, sem fim. O infinito. Um cão farejando o Cão. Farejando a si mesmo. Onde estaria o Demo, senão nele mesmo?
Por enquanto, eu gostaria de terminar lançando uma idéia com gosto de polêmica. Idelber, e amigos, não há uma homossexualidade latente em Riobaldo? Não é apenas Diadorim, a semente é anterior. Uma passagem no início do livro, ainda na infância de pedinte do protagonista, localiza um evento importante: um rapaz moço, "bonito", de finos tratos e fino falar, um passeio pelo rio, o menino de gestos delicados atiçando a coragem do menino Riobaldo, e os dois se perdendo por um mato no qual suscitam a atenção de um outro jagunço, que logo vai maldar as intenções da dupla. E o rapaz bonito se põe a falar com trejeitos efeminados, atrai o jagunço, para depois desferir-lhe um golpe de faca. Não houve nada entre o moço bonito e Riobaldo. Mas a cena ficou na memória do jagunço velho. E aí?
Alessandra Alves em julho 27, 2006 12:45 PM
#15
Alessandra, o menino bonito é Reinaldo/Diadorim.
Mas concordo com o argumento de que não basta que Diadorim seja mulher para rejeitar a homossexualidade de Riobaldo. O cara se apaixona por alguém que ele acreditava ser homem e se enganava dizendo que era "amor de amigo".
Para mim é Brokeback Sertão.
Bender em julho 27, 2006 2:36 PM
#16
Isadora, você tem razão: a incerteza, insegurança, dúvida de Riobaldo, especialmente no momento de assumir a chefia, têm muito que ver com o pacto sim. Parecem ser o que o "empurra" para a cena no descampado. Mas apesar de tudo parece haver algo que ali resiste à racionalidade, que escapa qualquer explicação, não é?
Oi, Alessandra, obrigado pelo depoimento. Quanto ao menino, o Bender já respondeu: era Diadorim! É uma cena importante não só porque é o primeiro encontro com ele, mas também por causa da travessia do rio, na qual o menino o guia. É uma cena cheia de elementos típicos de um rito de iniciação, não é mesmo?
Abraços,
Idelber em julho 27, 2006 3:59 PM
#17
O problema do pacto é exatamente essa nossa desesperada busca pelo sentido, pela razão. Eu não vejo um fim naquele pacto, e isso é a expressão do Demo. Talvez a contraposição entre ordem e desordem esteja no fundo do pacto. Nós pensamos sempre em pactos para criar uma ordem. O problema em "Grande Sertão: Veredas" é que não há essa ordem. Só resta a tensão e a dúvida. "O redemunho no meio da rua."
Felipe Farias em julho 27, 2006 4:41 PM
#18
Aí que está: o fato de o menino bonito ser Diadorim, como já apontou Bender, para mim mais reforça essa homossexualidade latente. Eu acho que o pensamento tortuoso - para o leitor e para Riobaldo - é entender se ele se fascinou desde o primeiro contato pela figura de Diadorim/Reinaldo apesar de ser uma figura masculina efeminada ou justamente por isso.
E essa condição latente se acentua, na minha interpretação, pelo papel das mulheres ao longo do livro. Elas me surgiram quase como redentoras de Riobaldo, portos de segurança e certeza da sua própria sexualidade. Ao mesmo tempo em que a teoria kardecista de compadre meu Quelemém serenava o espírito de Riobaldo, as mulheres - Otacília, sobretudo - acalmavam essa incerteza.
É uma questão menor essa, claro, porque o cerne da obra é mesmo o pacto. Idelber, é verdade: essa cena é um rito de iniciação não só do aspecto sexual, mas sobretudo da própria jagunçagem, do despertar para a malícia, do enfrentamento do perigo. Eu não tinha pensado nisso!
Alessandra Alves em julho 27, 2006 5:11 PM
#19
Só mais um toque: sobre o nome de Diadorim, claro, podem-se escrever tratados. diabo, dor, adorar, duplicidade, todos esses sentidos reverberam lá.
Sobre Reinaldo, o nome: a raiz germânica Ragin significa "conselho"; Hart, claro, é "forte", "duro". O garoto que lidera o rito de iniciação é de "duros conselhos". No nome também ecoa "Rei", do latim Rex: aquele que indica o caminho.
Acerca dos nomes em Guimarães, há um belo livro: Recado do Nome: Leitura de Guimarães Rosa à luz do nome de seus personagens, de Ana Maria Machado.
Idelber em julho 27, 2006 6:35 PM
#20
Em um dos livros que o Idelber cita dois posts acima, O bruxo da linguagem no Grande Sertão, de Consuelo Albergaria, ela levanta uma questão que é de grande importância para Guimarães Rosa: a da linguagem. Ela diz que talvez os verbos mais usados por Riobaldo tenham sido “viver” e “contar”, que são dois verbos importantes também na vida de Rosa, como ele citou em várias entrevistas. Para Gunter Lorenz ele diz: “considero a língua como meu elemento metafísico”. E talvez por isso ele tenha se interessado por aprender várias línguas, para poder ter vários meios de acesso à realização metafísica, no sentido de “Délivrance”, e para a qual empreende a “travessia”. Riobaldo, na minha opinião, é o personagem que mais se assemelha a Guimarães, o “Rio” que ele quer atravessar, usando os conhecimentos de uma vida inteira. Ou seja, criou Riobaldo à sua imagem e semelhança: “eu diria que Grande Sertão foi para mim o término de um desenvolvimento, e, ao mesmo tempo, algo que um dia, espero, levar-me-á à meta final”. Como Guimarães, que em muitas ocasiões disse que precisava viajar, precisava conhecer o mundo e o Brasil antes de escrever, Riobaldo primeiro vive, cruza as Gerais e o Sertão de várias maneiras e com vários propósitos, e depois conta. Conta o que viveu, mas esperando que isso vá levá-lo mais além, como nos versos de Lemisnky: “isso de sermos quem nós somos/ ainda vai nos levar/ mais além”. E esse mais além, assim como Rosa se utilizou das línguas, Riobaldo se vale das diversas religiões ou crenças, eruditas e populares, pois o que ele acaba encontrando na jagunçagem é a iniciação/realização esotérica, e por isso está sempre contrapondo Deus e o Diabo. Um não existiria sem o outro, mesmo se em determinados momentos troquem de lugar. Diz ele: “Muita religião, seu moço. Eu cá, não perco ocasião de religião. Bebo água de todo rio... Uma só para mim é pouca, talvez não me chegue”.
Grande Sertão Veredas é um grande ritual, do qual o pacto é apenas – se que é podemos chamar de “apenas” algo que traz em si tanta grandeza, em vários sentidos – uma das pontas do mistério. Aliás, o fato de estar sempre contando sua história (em determinada página Riobaldo diz que a está contando pela nona vez (confessando-a para 7 padres e para o compadre Quelemém), sendo 9 um importante número cabalístico) demonstra o quanto tudo, para Riobaldo, permanece ainda um mistério. Ele precisa contar e recontar, não apenas para reviver – pois sabe que passou por algo grandioso do qual não quer abrir mão –, mas também para tentar entender e para iniciar os outros, para ensinar, visto que foi com essa missão, a de professor de Zé Bebelo, que ele entrou em contato com a jagunçagem. Um mistério no sentido de “verdade revelada”, como o mistério da Eucaristia, por exemplo, que não se pode explicar pela razão, mas sim ser apenas intuído pelos iniciados. Riobaldo está o tempo todo passando por esses rituais de iniciação, e sempre o que mais questiona é a própria fé, ou a força dela sozinha, sem que se junte à fé dos outros. Em Diadorim ele busca a Verdade, a dela e a dele, mas essa verdade não pode senão ser enunciada depois da morte dela. Que é quando, acredito, ele se pergunta: só depois de morrer? Tudo que eu passei não terá valido a pena? E é aí que ele precisa contra e recontar. E o que nós conhecemos é apenas uma das versões, a narrada em Grande Sertão Veredas, onde nada me tira da cabeça que o interlocutor é o próprio Guimarães. Em alguns pontos do texto ele dá a entender isso; de certa forma ele guia a narrativa. Em uma entrevista ele diz que Riobaldo é uma espécie de Raskolnikov sem culpa, mas que mesmo assim deve espiá-la. Talvez a única culpa tenha sido saber da existência do Mistério e se iniciar nele; culpa que também carregam Diadorim e Hermógenes, ambos iniciados. E é Diadorim que, desde a travessia do rio, como Reinaldo, mostra a Riobaldo os rituais dessa iniciação, que tem como primeira etapa a perda do medo, que, não por acaso, forma demo por anagrama. Riobaldo sente muito medo naquela travessia, e inveja a coragem de Reinaldo, querendo-a para si. Aliás, Diadorim não inicia Riobaldo apenas no aprendizado da coragem, mas também no aprendizado do amor, que mais tarde será aplicado na vida com Otacília. Nesse caso, Diadorim é o próprio Mistério, o que não pode ser vivenciado.
A iniciação esotérica prevê a existência de alguns fatores, como a presença de um guia, o cumprimento de ritos e uma transformação a personalidade do iniciando. Reinaldo guia Riobaldo e o remador através do rio e diz: “Carece de ter coragem...”, exercendo grande influência espiritual sobre ele, desde então e ao longo de toda a travessia/vida, e que o leva a buscar o pacto. É Diadorim que também presenteia Riobaldo com elementos de grande valor simbólico: uma capanga, tesoura, espelho, navalha, roupas novas. (Um livro interessante para conhecer a força e o poder desses objetos é o Dicionário de Símbolos, de Jean Cevalier e Alain Gheerbrant). No pacto, o que ele procura não é aliar-se ao demo, mas vencer o medo, dando assim o último passo para o seu processo iniciático. Só então ele pode ser chefe, ou seja, começar a guiar os outros. E só então ele pode se dedicar à segunda etapa do processo iniciático: o amor.
Só depois de conhecer, ou pelo menos vislumbrar o amor é que, já como chefe, Riobaldo consegue a proeza de unir muito do que estava separado, como, por exemplar, reunir sob seu comando os bandos da jagunço que viviam no sertão e nas gerais, separados pelo rio – sempre a água, o elemento da travessia. E, mais importante ainda: Riobaldo é o único chefe que permanece vivo depois de ter cumprido seu papel. Riobaldo é o único que transcende, por ter sido iniciado, por ter atingido etapas que nenhum antes dele atingiu. Riobaldo vive para contar, mesmo que, como todo iniciado, não possa revelar os segredos, os (M)mistérios, nos quais Guimarães Rosa quer nos introduzir. E para isso ele não usa o símbolo do infinito, mas não como noção de infinito, mas de movimento, dado por Leibniz.
Uma das provas de que Riobaldo não podia realizar seu amor por Diadorim (a dada por Deus, a por Deus enviada), é a sua sacralização. Diadorim não é homem nem mulher. Diadorim só tem sexo depois de morta, o que nos leva a toda essa discussão em torno do sexo dos anjos, os também enviados por Deus para guiar os homens, é um hierofante mas, ao mesmo tempo, uma hierofania. É a Criança Divina, como apontou Benedito Nunes, e por isso Guimarães a chama de Reinaldo. Riobaldo diz: “Sobre o que, juro ao senhor: Diadorim nas asas do instante, na pessoa dele, vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia. A santa...”. Pegando algumas outras hierofanias, como por exemplo, a Paixão de Cristo, vemos que há a necessidade de uma morte dada em sacrifício, para que a missão se dê por cumprida e o ensinamento advindo dela permaneça. Note-se que em muitos momentos os traidores são chamados de “judas”, como nessa fala de Zé Bebelo: “Assassinos – eles são os Judas. Desse nome, agora, que é o que é deles”.
Diadorim não era para esse mundo, não era para Riobaldo, tinha uma missão a cumprir, apenas. Não pode ser analisada como homem ou mulher, e muito menos como um ser hermafrodita, que não é, mas um ser andrógino, com toda a sua carga simbólica e ambígua. Benedito Nunes diz que “Diadorim, ser andrógeno, é, ao mesmo tempo, divino e diabólico”. O andrógino traz em si a idéia da perfeição humana, da fusão, do ser primordial, da “menos imperfeita definição de Deus”. Consuelo Albergaria, no livro Bruxo da Linguagem no Grande Sertão (de onde tiro a maioria das idéias desse comentário), diz sobre a androginia de Diadorim:
“O andrógino é também um símbolo alquímico: o REBIS, termo empregado pelos alquimistas para designar a matéria ao ponto de sofrer as modificações convenientes, mediante a ação do fogo. (...) Ao pensarmos que Diadorim é o objeto de desejo de Riobaldo, podemos estabelecer a seguinte equivalência: Diadorim está para Riobaldo, assim como o REBIS está para os Alquimistas. Explicitamos: no processo de transformação de Riobaldo, no qual ele se aproxima do Alquimista esotérico, o objeto de desejo do jagunço-narrador é o andrógino Diadorim, equivalente do REBIS, objeto de desejo do Alquimista, substância andrógina por excelência.”
Fica a minha grande pergunta: do que Riobaldo tinha culpa? Uma mera culpa cristã ou algo mais grave? O que ele acha que tanto tem que reparar? Seria o amor por Diadorim? Seria ter se apaixonado pelo mestre? A transferência de que falam os psicólogos? Talvez a culpa seja a de Rosa, e viajando bastante, a de ser um católico reacionário e de ter encontrado resposta para muitas de suas perguntas, em outras doutrinas. Guimarães mesmo disse que não conseguia separar sua obra de sua biografia, e no discurso de posse na academia, dias antes de morrer, ele diz: “Desde cedo, apenas, também eu aprendera que o sábio fia-se menos da solércia e ciências humanas que das operações do Tao. Muito junto do braseiro, gente há às vezes que não se aquece direito, mas corre o risco de sapecar a roupa. Eu gosto do amarelo. Talvez enfim eu nunca pudesse ter sido chefe de gabinete, de ninguém; salvante mesmo só de um João Neves da Fontoura.” (aqui, dada a importância dos nomes da obra de Guimarães: “Fontoura - fons áuria, Neves níveo, claro). O que será que Guimarães quis dizer com um “eu gosto do amarelo”, jogado em meio ao discurso? Será que era a revelação que ele tanto esperava, e pela qual depois podia morrer? Ele confessa gostar do amarelo, como muitas vezes antes tinha feito referências ao Tao, que ainda utiliza como anagrama em parte do nome de Otacília, a mulher com quem ele busca viver o amor e a paz, ou seja, encantar, no único sentido que cabe aqui, o sentido roseano do verbo.
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Isso é apenas um pouquinho da riqueza das informações de “Bruxo da Linguagem no Grande Sertão, de Consuelo Albergaria, entremeadas com algumas divagações minhas. Mas comprem o original, leiam, e depois releiam o Grande Sertão. Vale a pena.
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Desculpe o tamanho do comentário. Eu me empolguei ;-)
Ana em julho 27, 2006 8:05 PM
#21
Em primeiro lugar, quero frisar que você, caro Idelber, descreve os sentimentos de Rioblado ricamente, profundamente. Gostei muitíssimo. Vou imprimir para reler depois.
Para mim, o diabo é a dúvida. Todos aqueles, que almejam a plenitude dos sentidos, experimentam. Riobaldo quer tudo, Otacília, Diadorim, o poder. A vida! Reescrita, recontada, revivida, de várias maneiras, ao mesmo tempo. Voltar atrás, refazer, só mais uma vez! “Quem muito se evita, se convive.”
O diabo é o mistério, o que não conhecemos, ainda. È o que está por vir. Deus é a entidade que não assusta, vem para dar colo, conforto. Paz eterna?
O diabo é tudo o que é incerto, aventura, medo=tesão. Mas para Riobaldo, VIVER é fatal e, portanto, o encontro com o demo idem. O incerto torna-se líquido e certo para quem tem tesão.
Tania em julho 27, 2006 8:37 PM
#22
Ana, i love you!!!!!!!!!
(Tô chegando na discussão agora, corridinha, corridinha, mas volto depois. Se bem que eu acho que não sobrou nada para eu falar, a Ana abordou justamente a minha leitura favorita dessa obra, com muito mais detalhamento, clareza e competência do que eu jamais poderia. Amei!)
Ju em julho 27, 2006 9:11 PM
Idelber em julho 27, 2006 9:11 PM
#24
Ju,
Duvideodó que você não tenha nada a dizer. ;-)
Quando tiver um tempinho aí, compartilha com a gente, vai?
Beijinhos e até logo,
Ana
Ana em julho 27, 2006 11:30 PM
#25
Olhaí que coisa feia: não li o livro mas mesmo assim vou me meter na conversa. Na falta do principal, contribuo com dois pequenos depoimentos.
O primeiro é uma lembrança, de uns 10, 12 anos atrás. No SESC da cidade onde eu morava, Lima Duarte apresentou uma leitura do GSV, alguns trechos que ele, de terno e em pé em um palco vazio, recitava. Apenas dois músicos e algumas luzes. E quem estava no teatro VIA a travessia, a iniciação, o pacto e, principalmente, o redemoinho, todas essas coisas faladas aqui. A gente VIA tudo isso, e não havia nada além de um ator excelente lendo um texto magnífico. Principalmente a confusão, o redemoinho.
O segundo foi esses dias. os "teaser-posts" aqui do blog, junto com a lembrança dessa extraordinária experiência teatral ainda viva mais de uma década depois, me deram uma vontade enorme de ler o livro. E eu pensava nisso quando minha mãe apareceu em casa um dia e me disse que estava lendo o GSV de novo! Por um momento achei que ela era leitora do blog, mas não, foi uma coincidência! Ou algum tipo de alinhamento cósmico, sei lá. Mas agora não tem jeito, vou ler o livro. Tarde demais para participar do debate aqui, mas antes tarde do que nunca.
daniel em julho 28, 2006 1:48 AM
#26
Bacaníssimo esse comentário, Daniel. Eu imagino quão impactante terá sido uma leitura do GSV com Lima Duarte. O homem tem o demo na voz!
Idelber em julho 28, 2006 2:26 AM
#27
quero faze um pacto com o diabo pra se bilhonario,fama,sorte,projeçao,ect. Renatoboy20@hotmail.com.br 031 99 35265481 ou 031 99 91345035 e vendo minha alma por bilhoes
Renato moreira paula em outubro 8, 2006 1:45 PM
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