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Um blog sobre política, literatura, música e futebol basquetebol. Na rede desde outubro de 2004.



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quarta-feira, 09 de agosto 2006

Blogueiro convidado no Clube de Leituras: Maurício Lara

(meu amigo Maurício Lara é o blogueiro convidado de hoje. Ele nos conta um pouco sobre sua relação com Grande Sertão: Veredas).

O ÚNICO LIVRO QUE EU LI

Tenho a nítida sensação de que li somente um livro em toda a minha vida. E nem foi há tantos anos assim. Foi o único que li e uma única vez. Nunca mais comecei a leitura do princípio e fui até o fim. Como nunca mais parei de folhear, folhear, ler pedaços, rabiscar... Antes achava que tinha lido vários outros; depois, não pude entender mais nada. Depois dele, parecia que pouco ou nada havia para dizer ou para contar. Estava tudo lá no Grande Sertão:Veredas, de João Guimarães Rosa.

Escrevi livros. E nem estou deles livrado, como diria Manoel de Barros. Em todos me vali do Grande Sertão, na epígrafe, no miolo do texto e/ou na inspiração. Um conta a história da eleição presidencial de 1989, a primeira depois da ditadura, que mobilizou este País e em que Fernando Collor de Melo venceu Luiz Inácio Lula da Silva. É um livro-reportagem chamado Campanha de Rua (Geração Editorial, 1994) e tem a seguinte epígrafe: “Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuvas e negócios bons...”

Outro fala de câncer. Da doença que eu tive e que marca a ferro a vida de quem com ela convive. Chama-se Com todas as letras – o estigma do câncer por quem enfrentou esse inimigo silencioso e cruel (Editora Record, 2005). Tem epígrafe do Grande Sertão: “Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”. E bem no final do livro: “Tudo que já foi, é o começo do que vai vir.” Toda a história do câncer e do livro foi travessia e travessia é Grande Sertão, o que se atravessa é o grande sertão.

Um outro fala de política e da relação da esquerda com o poder. É o romance Em Nome do Bem – uma alegoria da política brasileira (Editora Planeta, 2005). Está lá: “De despiço, olhei: eles nem careciam de ter nomes – por um querer meu, para viver e para morrer, era que valiam. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo.” O poder está no Grande Sertão, como estão Deus, o diabo, o amor, a amizade, o ódio, a vida e a morte. Tudo.

Estão lá, também, Riobaldo, Diadorim e... Otacília, a da “firme presença”. E em torno do livro muitos outros livros, que falam de Riobaldo, de Diadorim e de... Otacília, ainda que muito menos. Como só li um livro, tenho dificuldade em ler os outros, até os que falam daquele único. Fico pensando no mesmo, no de sempre. A ele recorro, folheando ou recordando, quando preciso de uma explicação, de encontrar um Norte, de me inspirar.

Não quero analisar o Grande Sertão, quero senti-lo; não quero refletir sobre o Grande Sertão, quero refletir sobre a vida e ela está lá; não quero pensar o Grande Sertão no banco da academia; quero é mantê-lo na minha cabeceira, como ele está: surrado, quase rasgado, sentido, cheirado, admirado. E para sempre.



  Escrito por Idelber às 01:42 | link para este post | Comentários (16)


Comentários

#1

Perfeito. É essa a impressão que eu tenho às vezes.

Bender em agosto 9, 2006 10:52 AM


#2

Poxa, por que ao invés de fazer propaganda dos livros dele ele não falou mais do GSV?

Marcelo em agosto 9, 2006 10:56 AM


#3

Lindo o texto! O grande barato do GSV é esse mesmo: ele nos serve em qualquer altura da travessia que a gente esteja.

Ju em agosto 9, 2006 1:07 PM


#4

É isso mesmo, é isso mesmo o que sinto quando quero me referir ao GSV, mas nunca consegui falar.

Cibele em agosto 9, 2006 4:00 PM


#5

Livros bons são assim mesmo, deles a gente não quer se separar. Nunca "se livra" deles, como diz o Manoel de Barros, como você bem lembrou.

Fefê em agosto 9, 2006 6:42 PM


#6

que maravilha esse texto. mesmo porque eu tenho uma relação bem parecida com GSV, de ter lido-sentido o livro, e ter feito umas relações com meu processo de análise. muito mais do que analisar a obra, eu a senti, e foi uma experiência incrível (não que eu não tenha o maior interesse em conhecer as análises sobre GSV, tenho e muito!).

Kellen em agosto 10, 2006 1:27 AM


#7

maurício, qual é a ediçao que está na sua cabeceira, o exemplar surrado, rasgado, ou a melhor palavra pra livro bem usado, espangongado? ponha a foto aqui. adorei o texto.

vera em agosto 10, 2006 1:26 PM


#8

Paulo sabe o quanto a ditadura doeu e dói na carne de todos nós. Mas uma coisa ele agradece ao regime militar que o colocou na cadeia por uns meses. Lá, finalmente, encontrou tempo, vagar, para ler, com o devido cuidado, a inteira atenção, o livro de Guimarães Rosa. A obra foi sua companheira na travessia prisional.

Belon em agosto 10, 2006 6:16 PM


#9

Estou na correria aqui em Paraty, mas queria deixar ao Maurício o agradecimento público (o particular já foi por email) por este texto.

Também fiquei curioso para saber qual é a edição...

Cibele e Belon, bem-vindos ao blog, acho que são os primeiros comentários de vocês, certo?

Fiquei curioso para saber qual é o `Paulo` ao qual o Belon se refere... Talvez eu passe vergonha aqui, mas não me lembro qual foi o `Paulo` preso pela ditadura....

Idelber em agosto 10, 2006 8:17 PM


#10

Substitua o Paulo por outro nome. Vale o da sua escolha. Não é ficção. Se fosse também nada mudaria. GSV nas esquinas, nas travessias, nas leituras, nas noites de insônia. Sempre ali

Belon em agosto 10, 2006 9:38 PM


#11

Pô, mas que beleza de texto!

João Rosa Neto em agosto 11, 2006 2:16 PM


#12

depois deste texto, lindo, vou correndo ler mais um pouco dele. lindo. lindo. obrigada! ;)

albinha em agosto 11, 2006 7:32 PM


#13

Maurício, nunca li nada sobre o Grande Sertão que me servisse tanto, como uma roupa feita sob encomenda. Obrigada por fazer suas as minhas palavras que eu nem disse, mas sabia todas.
Aquele Abraço.

Helena Costa em agosto 12, 2006 12:58 AM


#14

Maurício, vim aqui através do Cláudio Costa, que colabora no LIVROS & AFINS(Http://literaturaagora.blogspot.com). Gostei muito, tua relação com GSV é parecida com a minha, fico com as palavras do Velho Mestre por dias na cabeça. Será que vc deixa que eu publique lá no Livros?
Grande abraço

valter ferraz em agosto 17, 2006 11:06 AM


#15

Oi, Valter, obrigado pela visita e o texto do Maurício, como os meus do blog também, estão sempre em regime copyleft: citando a fonte, republique e cite à vontade. Abraços,

Idelber em agosto 17, 2006 11:01 PM


#16

Obrigado, Idelber vou publicar lá no LIVROS&AFINS.

valter ferraz em agosto 20, 2006 11:47 AM