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segunda-feira, 28 de agosto 2006
Diadorim
O nome de batismo de Diadorim-Reinaldo, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, nascida num dia de “11 de setembro de éra de 1800 e tantos”, evoca muita coisa, mas chave mesmo é decompor “Deodorina”, teo + dorón, presente de Deus. Trata-se ali de um presente que Rio-baldo (baldo, segundo Aurélio: falto, falho, carecido, carente, sem naipe) não pode abrir, presente ao qual ele, portanto, não faz justiça, não dá fluência ou circulação, presente que ele não sabe receber.
O leitor em empatia com o narrador – o leitor que caiu no conto simpático do velhaco latifundiário Riobaldo que se justifica – com certeza objetará, e com razão, que Riobaldo amou Diadorim, amou-o verdadeiramente do jeito que lhe foi possível, no limite do que era concebível e aceitável numa sociedade homofóbica onde, afinal de contas, o nome de Deodorina era Reinaldo Aí, claro, entra a tragicidade do personagem Riobaldo, emblematizada no fato de que em sua essência verdadeira, mais profunda, interior ao vestuário, Diadorim era-lhe, sim, possível como objeto de amor que não perturbava suas tão queridas convenções sociais, já que biologicamente mulher.
Mas ser mulher não é uma opção possível para Deodorina numa sociedade onde ela deve vingar a morte do pai, Joca Ramiro. Diadorim, o que só tem pai; Riobaldo, o que só tem mãe. O transgendering de Diadorim (o termo aqui é exato, acho: Diadorim não é andrógino nem muito menos “hermafrodita”) é necessário devido à interdição da jagunçagem à mulher. É ali que Diadorim tem que se provar como o mais valente. Se no meio dos acontecimentos Riobaldo podia achar que “esse menino, e eu [...] éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário!” (310), a ironia amarga é que é somente Diadorim quem dá cabo do demo, Hermógenes, na ponta faca, na luta fatal que Riobaldo assistiu impotente e paralizado, já que só sabia atirar. O preço da covardia de Riobaldo é a morte de Diadorim e a revelação de Maria Deodorina. Diadorim, por outro lado, morre como figura definitiva da coragem, emblema da donzela guerreira.
Diadorim é também Diá-adorar, adoração do demo e figura do demoníaco: joga Riobaldo no redemoinho do amor homoerótico e vira cifra, para ele, da obrigatoriedade do pacto. Deus é sempre um; o demoníaco está cifrado no nome de Diadorim como di + adorar, o amor do duplo. O diabo é sempre legião:
...a gente criatura ainda é tão ruim, tao, que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus -- quando o projeto que ele começa é para muito adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de Deus é em figura do Outro? ...Deamar, deamo...Relembro Diadorim. Minha mulher que nao me ouça.
Em livros e artigos sobre Guimarães Rosa, Diadorim tem sido estudado a partir do topos da donzela guerreira (personagem fascinante, claro) ou como figura andrógina do coincidentia oppositorum. Alguns outros estudos recentes fazem observações interessantes sobre Diadorim como figura da poética de Rosa, como emblema da própria paixão do autor pela invenção e pelo desconhecido. Há sempre que se lembrar que o primeiro encontro de Riobaldo com Diadorim – na iniciática travessia do Rio São Francisco liderada por Diadorim com 14 anos, então “o Menino” – ocorre no porto do Rio-de-Janeiro, Janus sendo, claro, a figura do deus de dupla face, dos rituais de passagem.
Mas pouco tratada, na verdade – vejam que interessante - é a questão de Diadorim como desestabilização de uma certa masculinidade sertaneja de longa história ou como, digamos, figura da redefinição dos códigos de masculinidade mesmo. O tema é tão óbvio que pulula, mas há um ponto a partir do qual não se trata dele: Grande Sertão como romance gay. Por que tão poucos estudos sobre a experiência que é especificamente homoerótica ali? Diadorim, afinal, é mulher que vive como homem e é o amor frustrado por esse homem que Riobaldo relata. Diadorim também é di(á) + dor, a experiência do duplo e do demoníaco na dor.
O que Diadorim desestabiliza é tão grande que só depois de umas 4 releituras do romance e da leitura recente de um estudo do Willi Bolle, grandesertão.br, me dei conta de quão orgânicos são os vínculos entre Otacília, o latifúndio, a transmissão da propriedade e a solidez da família nuclear monogâmica heterosexual. Claro, já na primeira leitura fica óbvio que o amor por Otacília é a opção pela segurança e estabilidade de uma relação – forte e amorosa, sem dúvida – socialmente sancionada. Mas Bolle mapeia de uma forma bem interessante toda a trajetória de Riobaldo na segunda parte da seqüência de acontecimentos, posteriores ao pacto, até a sua assunção como chefe e a luta final onde morrem Hermógenes e Diadorim: trajetória de progressiva má fé, soberba e acovardamento, emblematizados no abandono (autoritariamente justificado) de seus comandados, em meio a possibilidades de batalha, para uma visita a Otacília. Isso se fecha na paralisia de Riobaldo, pelo medo, na batalha final. Digamos que esse medo tem raízes bem sólidas numa opção de classe e numa ordem heterossexista compulsória. Diadorim é a força desestabilizadora dessa ordem. Bolle diz bonito, no seu livro:
a figura bissexual de Diadorim é um meio para evidenciar, por contraste, o que há de unilateral e redutor no retrato do povo apresentado por Euclides. O autor d'Os Sertões valoriza o sertanejo apenas como guerreiro - postura sintetizada na frase que se tornou célebre: 'O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Quase todos os demais valores culturais das pessoas do sertão - suas práticas religiosas, formas de organização econômica e política, sua fala, sua sensibilidade e, em particular, todo o universo feminino - são relegados à margem ou desprezados (pag. 214-5).
Eu me lembro de que em 1985, quando Walter Avancini fez para a Rede Globo uma mini-série sobre Grande Sertão: Veredas, a imagem de Bruna Lombardi como Diadorim tirava da personagem, para mim, toda verossimilhança: além de “feminina” em excesso, Bruna já era conhecida demais como mulher para que toda a ambigüidade de Diadorim se deixasse entrever. Eu me lembro de pensar que uma atriz desconhecida mas fisicamente bem masculina teria sido o ideal – alguém que ninguém conhecesse, que fizesse justiça ao personagem, que é, afinal, uma figura do desconhecido e do inexplorado, das mil identidades existentes por aí ainda sem representação.
PS: Eu teria mais a dizer sobre Diadorim, mas é hora de arrumar mala. Fiquem à vontade para puxar outros fios de conversa sobre a personagem, ou outras facetas do livro. Sugestão de leitura de hoje: o volume da coleção Fortuna Crítica sobre Guimarães Rosa, que reúne um time de ensaístas de primeira, e o estudo de Bolle citado acima, belíssimo.
PS 2: Nossa próxima tarefa é Terras do Sem Fim, de Jorge Amado, para dentro de algumas semanas, ok?
PS 3: Valeu, Belo Horizonte. O próximo post lhes chegará de Nawlins, onde aterrizo, com a benção dos orixás, na terça de manhã.
Escrito por Idelber às 01:57 | link para este post
| Comentários (18)
#1
Idelber
O seu texto vale leituras e releituras. O texto de Rosa também. A narrativa casa-se por amor com a crítica. A sua indicação da FORTUNA CRÍTICA parece-me muito feliz. Não vejo nada melhor.
Belon em agosto 28, 2006 10:24 AM
#2
Idelber, como pode o nome "Diadorim" significar tanta coisa?
O livro definitivamente não trata de um romance gay. Na minha opinião é mais um retrato daquela porção de terra.
Raramente li algo que fosse tão representativo de de um cenário como este livro. Parece que ele dá conta de todas as situações possíveis e imagináveis para época. Só não se fala de ecologia, o resto tudo está lá.
Bender em agosto 28, 2006 11:42 AM
#3
idelber, 1o.- boa viagem e breve regresso! 2o.- da 1a. vez que li GRANDE SERTAO..., quando cheguei ao nome de Diadorim, chorei tanto, mas tanto... acho agora que o clímax do livro está no majestoso alexandrino MARIA DEODORINA DA FÉ BETTANCOURT MARINS, que capta toda a grandeza, a contradiçao e o mistério do livro inteiro. abraços.
vera em agosto 28, 2006 11:55 AM
#4
Bom retorno, Idelber. Foram ótimos nossos encontros aqui em BH. Em outubro vamos repetir a dose. E o Biscoito Fino continua ótimo, como sempre !
Beijos
Fefê em agosto 28, 2006 12:20 PM
#5
Da próxima, passe pela capital, Idelber de Deus.
Peço perdão por pinçar um detalhinho de todo seu texto interessantíssimo, (splitting hairs, é como coloridamente definem os anglo-saxões para o que vou fazer:) para me deter noutro sertão, o do Euclides da Cunha.
Acho que a frase dele não pode ser entendida se lida assim, incompleta, como foi popularizada pela política nacional. Mais que o lado guerreiro do sertanejo, Euclides nessa frase sintetiza sua tese racista e reducionista, que vê o homem como um reflexo das características do meio: o sertanejo é forte porque vive, isolado e puro, em meio à dureza do sertão. "O sertanejo é antes de tudo um forte, não tem o raquitismo exaustivo do mestiço neurastênico do litoral".
Não havia como o autor dOs Sertões tratar da complexidade cultural e da sensibilidade do nordestino, partindo de tal ponto de vista... Lógico que os políticos se detém na primeira oração, e omitem a coordenada pouco elogiosa.
Isso não invalida a boa provocação que v. levanta. Por que não se deter na questão homossexual da história, desse amor interditado e contraditório? Grande sertão é, sim, um dos clássicos gays de nossa literatura. Com D. Casmurro. Riobaldo, Bentinho, tudo viado. No bom sentido, claro.
S Leo em agosto 28, 2006 5:56 PM
#6
ótimo texto, idelber! me deu vontade de reler o GSV, o farei em breve.
passei aqui também para deixar o novo endereço do meu blog. e boa viagem!
Kellen em agosto 29, 2006 1:01 AM
#7
Idelber,
obrigada pela aula e bom regresso às terras gringas.
Sua menção sobre a minissérie da TV me fez lembrar o filme "Traídos pelo Desejo", no qual o personagem "revelado" seguiu essa linha, ao ser escolhido um ator desconhecido para interpretá-lo. Diacho (êita!) é que fiquei com a imagem da Bruna na cabeça desde então, inclusive na leitura do livro, agora.
Fez muito bem o García Márquez em nunca ter vendido os direitos de "Cem Anos de Solidão" para o cinema, apoiado na justificativa de que quer que o leitor imagine seus próprios personagens. Amaranta, para mim, tem a cara de uma professora solteirona que tive na terceira série. Já pensou, sei lá, se escalam A Anjelina Jolie para o papel?! Iam matar a "minha" Amaranta antes da hora!
Alessandra Alves em agosto 29, 2006 10:18 AM
#8
Vera, e não é que é um belo alexandrino mesmo? Eu não tinha reparado...
Kellen, endereço anotado, já visitado! Voltarei outras vezes :-)
Sergio, "mestiço neurastênico do litoral é muito bom". . .
Fefê, foram super prazerosos os encontros. Ana também adorou. Armemos outros na minha volta, em dezembro.
Pois é, Alessandra, incrível esse poder que têm os personagens de ficção de "criar um rosto" dentro de nós, de tal forma que custamos a aceitar determinados atores no seu papel, né?
Bender, Belon, abraços a todos do aeroporto de Miami (vôo a New Orleans cancelado, longa espera ainda pela frente),
Idelber em agosto 29, 2006 1:15 PM
#9
Idelber
Do not wait too long, there is a brewing hurricane just south of you!
Voce volta no aniversario da Katrina...
BUSH is giving a public speech right now. ugg...
Boa sorte.
Angelo Cinquant'uno
caperrone@cox.net em agosto 29, 2006 3:49 PM
Luiza Voll em agosto 29, 2006 4:04 PM
#11
Charles, estou sabendo, querido. Acabei de vê-lo na TV aqui em Miami, reconhecendo que o governo "failed at all levels"...
Vou tentar fazer um post sobre esse aniversário hoje à noite.
Luiza, obrigado :-)
Idelber em agosto 29, 2006 4:26 PM
#12
Blog legal, parabéns! A política, se me atrai por sua importância para a vida social, também me cativa pela inesgotável mineração que nela se faz de excelentes motivos para o riso e a ironia. Há muito de exemplar nela! Nelson Rodrigues:"...sem ter um pouco de agressividade, corre-se o risco de ser atropelado até por um carrinho de picolé." De chuchu? Saúde e paz! www.baratas2006.blogspot.com
baratas em agosto 29, 2006 6:48 PM
#13
um abraço, da capital mundial das baratas, New Orleans :-)
Idelber em agosto 29, 2006 9:41 PM
#14
Ótimo post, Idelber! ( hoje coloquei em dia o que faltava : )
Não posso deixar de me deter na sua observação sobre Diadorim "como desestabilização de uma certa masculinidade sertaneja de longa história ou como, digamos, figura da redefinição dos códigos de masculinidade mesmo."( chegaria a redefinir? penso que não importa tanto). E não posso porque nao consigo resistir.
Diadorim é, ao que entendo, a pergunta,o confronto. A pergunta que "exige" respostas, atos. A “certa masculinidade sertaneja”, na verdade não mais do que a figura masculina papel cristalizado, sem questões, que encontramos pelo mundo afora. Não é a primeira vez que na literatura ou na mitologia universal esta questão é colocada assim, de modo a que a coisa escape ao que seria o puramente sexual (ou homessexual), linear mesmo, para voltar-se abertamente à discussão (ou ensejo dela) sobre o desejo, a paixão, o afeto, os papéis masculino e feminino e o lugar do homem no mundo, seus medos, força, fraquezas, submissão ou recusa dela: a insurreição. Diadorim confronta-nos com questões fundamentais ao mesmo tempo que descortina um mundo arrebatador de sensibilidade e coragem. Num romance que é regional e universal. Com olhos e ouvidos voltados para o povo e uma linguagem. Ah, a linguagem,...Nem digo mais nada.
Beijos, espero que vc tenha feito boa viagem,
ps: gostou do "blues" ? : )
Silvia Chueire em agosto 30, 2006 7:38 AM
#15
Oi, Silvia, obrigado pelo comentário :-)
É assim mesmo que vejo Diadorim, como uma figura que força a colocação de perguntas com frequência vedadas dentro de um certo modelo de masculinidade. Os psicanalistas com certeza sabem algo sobre isso, né?
Beijos, estou adorando o 'blues', indo devagarzinho.
Idelber em agosto 30, 2006 4:58 PM
#16
Caro Idelber,
Gostei muito do post. Em fase de conclusão de dissertação sobre esta obra é sempre bom "refrescar a memória" com comentários e conversas desse tipo. Por ora, gostaria apenas de reiterar a excelência do volume da coleção Fortuna Crítica dedicado ao "grande mistério".
Um abraço,
Beto
Beto em setembro 2, 2006 4:15 PM
#17
Puxa, perdi... com dificuldades de conexão no interiorzão.
Adorei Diadorim e sua força, resignação, altruísmo até. Engraçado, eu não a achei masculina. Muitas vezes me solidarizei a ela durante a leitura.
Abraços
Isadora em setembro 4, 2006 1:05 PM
#18
Tchê, na verdade uma obra literária se presta a várias leituras, assim como texto sreligiosos. Mas a leitura está condicionada a visão de mundo de quea a faz e talvez não guarde relação íntima com aquilo que o autor escreve bem claramente em um texto. Acho que é o caso desse teu artigo, em que detona o personagem Riobaldo a partir de um leitura que eu não vi nem na série nem no livro. Por falar na série, acho, ao contrário, legal ter sido a Bruna o Diadorim, primeiro porque era uma história batida que todo mundo sabia o segredo e o final; depois, porque realçou justamente que se tratava de um "mulher" guerreira, não um "homem", de um "mulher masculinizada" negando a si mesma. Dava daí a nítida impressão de uma "mulher" sublevando a estrutura de um soiedade machista e xcludente. De resto, o perfil psicológico e emocional das personagena fica tão claro, situados na condição que o contexto lhes coloca. Otacília tem uma outra função, creio, como as mulher-dama: Riobaldo buscando lutar (inutilmente) contra o amor, por ele ser por outro homem.
E de resto endosso esse comentário:
"Idelber, como pode o nome "Diadorim" significar tanta coisa?
O livro definitivamente não trata de um romance gay. Na minha opinião é mais um retrato daquela porção de terra.
Raramente li algo que fosse tão representativo de de um cenário como este livro. Parece que ele dá conta de todas as situações possíveis e imagináveis para época. Só não se fala de ecologia, o resto tudo está lá.
Bender "
João Guereiro em dezembro 28, 2010 10:22 PM