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sexta-feira, 25 de agosto 2006
Mais uma das nossas muitas histórias de racismo
Cenário: Rio de Janeiro, Zona Sul, agosto de 2006. Hotel três estrelas.
Um casal de hóspedes, branco, recebe suas primeiras visitas durante a estadia no hotel, um casal amigo que chegava; ele, norte-americano, também branco, e ela, carioca, negra. Na entrada do hotel o casal que sobe responde perguntas sobre se ficariam por muito tempo e ouvem algo sobre o regulamento do horário de visitas no hotel. Não dão importância - a alegria do reencontro com o casal amigo que espera acima é grande. O relógio marcava algo como 20:30.
Segunda noite da estadia no hotel, o mesmo casal de hóspedes combina uma farra com um grupo grande de amigos, e um dos que a eles se juntam antes da saída para a rua é o amigo da noite anterior, americano, branco. Veio sem a namorada, a carioca, negra – ela se encontrava com indisposição estomacal. Ao anunciar-se na portaria, foi-lhe dito que subisse, sem que nada lhe fosse perguntado. O relógio marcava 21:30.
Terceira noite da estadia no hotel, o mesmo casal de hóspedes combina com o mesmo casal de amigos uma saída para um restaurante. Agora vêm os dois, ela já melhor da indisposição estomacal da noite anterior. O dado novo em relação à primeira noite é que eles chegam separados, pois vinham de lugares diferentes da cidade.
Ela – carioca, negra – chega não depois de 20:30 e ao anunciar-se na portaria, enfrenta uma bateria de perguntas sobre quanto tempo ficaria, se sabia do horário de visitas do hotel, se “demoraria”. Atônita, responde como pode.
Ele – o americano, branco – aguardado pela namorada e pelos amigos no quarto para a saída ao restaurante, chega não muito atrasado mas em todo caso não antes de 20:45. Anuncia-se na portaria. Sobe sem que nada lhe seja perguntado.
Relato verídico, dedicado singelamente a todos os que, por ingenuidade ou por maldade, dizem – com todas as letras ou meias-palavras – que “não há racismo” no Brasil.
PS: Rosana Hermann descobriu – através de um leitor de seu blog, ah, os leitores de blog, mes amis, não tema nada neste mundo mas tema um leitor de blog! – que o “jornalista” Miltinho Cunha roubou toneladas e toneladas de posts seus, durante tempos, e publicou-os no jornal O estado, de Florianópolis. O caso é de plágio imenso, descarado, burro e comprovado. Ver os posts da Rosana com toda a documentação do roubo aqui e também a nota do Blue Bus e o post de Cesar Valente. Na época em que se comprovou o plágio cometido por Carlos Alberto Parreira, o Biscoito fez esse post.
Escrito por Idelber às 06:02 | link para este post
| Comentários (30)
#1
Olha, não sei se essa tua história é sobre racismo ou preconceito, porque, pelo jeito, confundiram a carioca com uma prostituta.
Convenhamos, é bem mais frequente encontrar cariocas negras se prostituindo no Rio do que norte-americanos brancos.
Bender em agosto 25, 2006 9:03 AM
#2
Idelber, bom dia. Um post e dois motivos para indignação. Já tinha visto o post da Rosana e fiquei perplexo! Cara-de-pau do pseudo-jornalista, ou melhor: desonestidade que merece um processo. Quanto ao racismo: estamos tão embebidos dessa cultura de preconceito e racismo que, às vezes, nem percebemos como existe, é real e fere os mais elementares direitos.
Cláudio Costa em agosto 25, 2006 11:25 AM
#3
Caro Idelber, sem descartar a forte hipótese do racismo, sua tese necessita de um teste. Mande uma mulher loura para o mesmo hotel, à noite, desacompanhada. Se não for também confundida com uma das prostitutas que abundam nos hoteis de Copacabana, foi racismo. Se não, foi sexismo, pragmatismo, o que melhor achar que se encaixa.
É evidente que existe racismo no Brasil. E evidente que só os negros t~em a real dimensão dessa praga. Mas a legítima preocupação com o problema está levando as pessoas a apontarem racismo onde outras coisas há, às vezes tão condenáveis quanto, mas diferentes.
S Leo em agosto 25, 2006 12:07 PM
#4
A Glória Maria, jornalista da Globo, passou por situação parecida há uns 20 anos. Sendo que foram mais agressivos, disseram na sua cara que era prostituta e tentaram expulsá-la da portaria do hotel. Foi tão marcante na sua vida que volta e meia ela conta essa história. Só quem passa por isso é que sabe.
Concordo com o Leo, deviam fazer esse teste para ver se também não seria sexismo, o que também é revoltante.
Te em agosto 25, 2006 1:21 PM
#5
lamentável idelber.
perfeito leo, mas de qq maneira trata-se de uma discriminação sexual, ou profissional, ou racial.
um amigo branco com 2 filhos negros, cansado de ver seus filhos discriminados pela polícia, escolas, etc ficou puto depois de saber que mais uma vez o filho foi prejudicado. disse que denunciaria no jornal. o rapazinho pediu que não, isso só pioraria a situação prá ele, afirmando que aí sim seria perseguido.
anna em agosto 25, 2006 1:36 PM
#6
Eu não fiz a "prova dos nove com uma loira", mas se conheço bem o meu país, uma mulher loira, vestida com a discrição com que estava vestida minha amiga, com certeza teria subido sem percalços.
O curioso do episódio é que tanto na primeira noite como na terceira (não na segunda, sintomaticamente), mencionaram-se coisas sobre "horário de visita", mas, de maneira bem curiosa e brasileira, não ficou claro para ninguém se havia uma regra sobre horário. A impressão dada é que se menciona uma suposta regra para que depois se possa manipulá-la, a bel prazer das suposições de quem atende na portaria a cada momento. Nessa fresta opera o racismo brasileiro, informal e inferencialmente.
Idelber em agosto 25, 2006 2:48 PM
#7
Passando por aqui para conhecer seu blog. Gostei bastante e voltatei mais vezes.
Passo tbm para te convidar a dar uma olhadinha no meu cantinho e aprender mais sobre meu estado.
Abraços e bom fim de semana.
shirley em agosto 25, 2006 3:03 PM
#8
Racismo, sexismo e outros.
Triste, triste...
Expor a questão, discutir o assunto, quem sabe assim se possa arejar um pouco ar empestado de preconceitos.
Belon em agosto 25, 2006 3:59 PM
#9
Nossa! Meu pai conhece o tal "Miltinho Cunha". Esse é um que tem de ir pro limbo dos plagiadores! Deus nos livre destes tipos!
Capedonte em agosto 25, 2006 4:17 PM
#10
Tenho acompanhado o caso Rosana x Miltinho e estou revoltado. Não tenho nem a milésima parte do prestígio e do talento da Rosana, mas também já fui vítima desses piratas virtuais. Copiaram um texto do meu blog sem mudar vírgulas e nem pontos. É um crime hediondo contra quem tem o maior trabalho de produzir um texto, que é roubado com apenas alguns cliques.
Quanto ao racismo descrito acima, é mais comum do que se imagina.
gd ab
Julio Cesar Corrêa em agosto 25, 2006 5:32 PM
#11
Há racismo em todo os lugares. O pior desses lugares é o espaço que fica entre a ignorãncia e a arrogância na mente de algumas várias pessoas.
Flavio Prada em agosto 25, 2006 7:14 PM
#12
Em caixas como esta, onde o que quis dizer já está dito no post, vou me desobrigar de responder os comentários individualmente, para que não fique tedioso para o leitor,
mas não queria deixar de mandar um abraço para os de casa, e as boas-vindas a quem chega.
Idelber em agosto 25, 2006 7:29 PM
#13
Muito bom o seu blog. Eu acredito que tenha sido preconceito sim. No Brasil isso e' sempre muito velado e disfarcado. O que me estranha e' que o Brasil tem uma populacao onde a maioria e' mestica ou negra, e mesmo aqueles que tem uma pela mais clara (branca) possivelmente tem ancestrais negros ou mesticos. E' uma vergonha que isso aconteca no nosso pais.
Marcelo em agosto 25, 2006 8:15 PM
#14
Lamentável, caríssimo Idelber!!!
e um segundo lamento vai para o turbilhão de dúvidas se aquilo foi racismo ou não... este construto tácito deixa um monte de gente na defensiva, sem tempo de olhar para dentro e refletir sobre seus próprio habituses, que, certamente, estão permeados de 'racismos', 'preconceitos' e 'discriminações', sobrepostos, complementares e inocentes!
esta briga tem que ser comprada, custe o que custar!!!
até breve
paulinho
paulinho em agosto 25, 2006 11:25 PM
#15
Oi, Idelber. Hoje nem ia comentar nada, mas vou deixar meu recado aqui só pra desequilibrar a balança pro seu lado. ;-)
Para mim é claro que houve racismo. Duvido que toda e qualquer mulher desacompanhada seja alertada sobre horários. Aliás, o falso pretexto de terem suspeitado de que a moça fosse prostituta para mim é agravante e não atenuante... se vc pensar bem. Bjs
Monix em agosto 26, 2006 12:17 AM
#16
É evidente que houve racismo. Recentemente passei por algo semelhante: estava num hotel aguardando a visita de uma amiga jornalista negra e estranhei sua demora em subir. Desci até a recepção e a vi cercada de funcionários, tendo de provar que ela estava lá para ver um amigo. Lamentável. Histórias assim acontecem todos os dias, aos montes, e ainda há quem queira ver nisso outra coisa que não racismo. Todos esses que não querem admitir que racismo e preconceito vigoram no Brasil, são brancos e, certamente, se vêem em algumas dessas situações. Sou branco, com amigos negros, totalmente esclarecido quanto a isso, totalmente consciente da dívida histórica que este país tem para com os irmãos negros. O homem que despreza as conseqüências e os reflexos da escravidão é um estúpido que mantém o Brasil neste atraso secular.
Bruno Ribeiro em agosto 26, 2006 10:57 AM
#17
Idelber, qualquer tipo de preconceito é desprezível. Independe se é por racismo ou se é por sexismo.
Li sobre o plágio da Rosana. Copiar ipsis literis e não dar o crédito não combina com quem é jornalista.
Do Parreira nada me surpreende, de uma hora para outra virou escritor/palestrante ganhando rios de dinheiro, sem ao menos dar crédito a quem de direito. É soda!
Bjos.
Vera em agosto 26, 2006 12:13 PM
alex castro em agosto 26, 2006 3:22 PM
#19
Bruno, que baita entrevista com o "Dotô" e o Jaguar, hein? Valeu a visita, adorei passear por lá, está linkado ;)
Monix, paulinho, alex, Vera, Marcelo :-)
Idelber em agosto 26, 2006 4:00 PM
#20
Obrigado Idelber.
Passo sempre por aqui, teu boteco tá linkado lá no meu faz tempo já. Boa nova discussão.
Forte abraço,
Bruno Ribeiro em agosto 26, 2006 4:15 PM
#21
Idelber, como disse, não descarto racismo. Mas quase todo usuário freqënte de hotel tem alguma história a conta sobre amigas retidas em portaria por "excesso de zelo" da recepção. E, num três estrelas, em Copacabana, meca do turismo sexual, francamente. Me desculpe o paulinho aí em cima, mas nem sempre a pessoa que discorda de acusações de racismo é uma racista inconsciente. É como condenar quem acha que política de cotas não é a forma adequada de se fazer ação afirmativa no Brasil. Não é edesqualificando os opositores que se vai avançar na discussão e na briga contra o preconceito.
Criei meus filhos atentando para todo tipo de preconceito escondido em ações aparentemente inocentes, como piadinhas ou apelidos. Acho que, com as melhores das intenções, acontece com freqüência se ver racismo onde há outros desvios de comportamento. E, concordo num ponto: também é comum no Brasil ver ações preconceituosas que, quando denunciadas, tentam se passar por brincadeiras ou atitudes inocentes.
S leo em agosto 26, 2006 10:51 PM
#22
Caro Sergio, eu achei sua leitura ultra plausível e razoável; e eu, de jeito nenhum, jamais de la vie, igualaria aquele que discorda de uma percepção de que houve racismo a um racista inconsciente. Nesse caso em particular eu senti que houve - mas numa coisa concordamos: a natureza inferencial e escorregadia do racismo brasileiro faz com que essas situações sejam duplamente complicadas.
Inclusive, eu conversei com um amigo meu - ele mesmo mulato/negro e morador do Rio - que me fez várias poderações que iam no sentido das suas. Eu as entendi todas, mas os complicadores vários presentes no caso não mudavam a sensação que tive ali, e que a amiga minha em questão teve também.
Mas enfim, não era Copacabana, era Flamengo, o que muda um pouco, né :-)
Abração,
Idelber em agosto 27, 2006 3:16 AM
#23
Me parece que o preconceito (racista) está justamente na presunção de que no turismo sexual no Rio as prostitutas são sempre negras ou mulatas.
O comportamente brasileiríssimo é a humilhação mal disfarçada da mulher, sabe-se lá com que objetivo (hipocrisia, cobrar porcentagem), mas nunca do hóspede.
andre lopes em agosto 27, 2006 8:31 AM
#24
O racismo exite, e é velado, assim como o machismo que transparece nas piadas, ou como outras formas de preconceito...O interessante é que por aqui, no Ceará, isso é visto como se fosse "inocente", e praticado pelas mesmas pessoas a quem isso devia atingir...Frequentemente, vejo esse tipo de comportamento em pessoas negras ( que não veem como iguais aos demais negros..)
Mani em agosto 27, 2006 3:26 PM
#25
Há uns cinco anos, quando Eduardo e eu estávamos morando no Bairro Peixoto, recebemos uma visita de uma amiga minha da época da faculdade, uma norteamericana de pai negro e mãe japonesa. Fomos buscá-la no aeroporto. Chegamos ao nosso prédio, entramos e fomos falar com os porteiros pra explicar que minha amiga ia ficar uma semana com a gente e que ia ter uma chave para entrar e sair quando quisesse. Antes de eu poder terminar de apresentá-la, um dos porteiros olhou para minha amiga e antecipou, “arranjou empregada”? Queria morrer de vergonha. E dei graças a Deus que a minha amiga não entendia português.
tracy em agosto 27, 2006 5:15 PM
#26
Quanto ao roubo de posts, falta vergonha na cara. Decência. Honestidade. Ética.
Quanto ao racismo, muito mais comum do que se pensa. E eu tenho visto é coisa. E ouvido.
Alena em agosto 28, 2006 12:12 AM
#27
Idelber, mudar de Copacabana para o Flamengo não faz muita diferença não... Toda a orla carioca está tomada pela prostituição. Até a Barra da Tijuca já tem...
Pablo Vilarnovo em agosto 28, 2006 11:59 AM
#28
EU GOSTEI MUITO PORQUE NAO EXISTIA NENHUM SITE QUE NOS NEGROS PODESSEM DAR AS NOSSAS OPINIOES E ISSO FOI UMA ATITUDE MUITO LEGAL.
Cleisane Santos em agosto 28, 2006 4:46 PM
#29
EU GOSTEI MUITO PORQUE NAO EXISTIA NENHUM SITE QUE NOS NEGROS PODESSEM DAR AS NOSSAS OPINIOES E ISSO FOI UMA ATITUDE MUITO LEGAL.
Cleisane Santos em agosto 28, 2006 4:46 PM
#30
Bom o texto nos revela que ainda hoje existe o racismo no brasil, e que isso comprova que pessoas que se declaram não serem racistas são.
Rariane em agosto 31, 2006 6:52 PM