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quinta-feira, 24 de agosto 2006
No Memorial da América Latina, Sampa
Ao lado do terminal da Barra Funda, ocupando quase 85 mil metros quadrados, mais com cara de Brasília que de Sampa, fica o Memorial da América Latina, inaugurado em 1989 e projetado por Oscar Niemeyer. É um complexo de edifícios com aquela marca registrada da utopia modernista brasiliense:


De longe, o mais interessante é o museu, que cobre três grandes regiões, o Norte/Nordeste brasileiro, a Mesoamérica (México/Guatemala) e os Andes (especialmente Peru e Equador). É um recorte que privilegia áreas indígenas ou não urbanas. À direita, um tablado com bonecos de maracatu:


Luxo carnavalesco e trabalho em madeira do Nordeste:


Depois inicia-se o setor meso-americano, com o (para nós) quase ininteligível mundo das alegorias mexicanas


e suas cosmogonias caveirocêntricas, onde tudo é Dia dos Mortos:


Ainda na parte mesoamericana, o museu traz algumas peças da região maya - o sul do México (Chiapas, terra dos Zapatistas e dos indígenas, terra onde a Reforma Agrária mexicana nunca chegou) e o altiplano guatemalteco, que é de onde vêm os suéteres e o trabalho em cerâmica:


A parte andina do museu traz algumas peças equatorianas, mas privilegia mesmo os departamentos de Ayacucho (em quechua: lugar dos mortos; lá se luta a última batalha pela independência hispano-americana, em 1824) e Cusco, ambos no Peru. Desse dois departamentos vêm, respectivamente, o trabalho de tecelagem e o tablado:


O Memorial da América Latina foi produto, em grande parte, da vontade visionária do maior crítico literário hispano-americano da segunda metade do século XX, Angel Rama, um uruguaio que amava São Paulo. Além do museu, o Memorial contém um auditório, uma galeria de arte, um pavilhão e uma pequena biblioteca, que fiz questão de visitar para ver se recomendava. Não é uma coleção de impressionar, mas tem boas seleções de literaturas argentina e mexicana, além de algumas estantes de história e ciências sociais latino-americanas. A mítica Biblioteca Ayacucho, fundada por Angel Rama na Venezuela e dedicada a lançar edições críticas e comentadas de clássicos latino-americanos, está todinha lá:


PS sobre outro museu: Também fui ao Museu da Língua Portuguesa, lá na Estação da Luz, mas sem máquina fotográfica. É uma rica coleção de aparatos, vídeos interativos, linhas evolutivas, quadros explicativos: um museu bem high-tech. O destaque é o mapa do Brasil acoplado a vídeos gravados em toda a Federação, que documentam a variação dialetal do português brasileiro. No primeiro andar há uma exposição (não sei se permanente) sobre o Grande Sertão: Veredas, que inclui mapas, reconstituições do ambiente e reproduções gigantescas do manuscrito com as correções de Rosa. Vale a visita, se seus ouvidos conseguirem abstrair os irritantes relinchos, cantos de pássaros e ruídos de água reproduzidos em playback. As explicações históricas sobre a evolução do latim, a hipótese da língua indo-européia e a origem do português são profissionais e bem-informadas. O "panteão" de 100 obras da literatura lusófona é escolhido e organizado por Alfredo Bosi, com a concepção romântico-grandiloqüente que o caracteriza. Nas placas identificatórias há pelo menos um erro: Corpo de Baile, de Rosa, é atribuído a Clarice Lispector. Não encontrei nenhum outro erro. Vale a visita.
Escrito por Idelber às 00:59 | link para este post
| Comentários (21)
#1
Vendo a arte dos mayas, impossível não simpatizar com os espanhóis e, até certo ponto, absolvê-los.
Um abraço.
Falstaff em agosto 24, 2006 8:20 AM
#2
Bom Idelber, em primeiro lugar obrigado pela visita guiada ao Memorial, coisa que um paulistano que agora mora em Portugal, como eu nunca fez, infelizmente..
Em segundo lugar, tenho curiosidade em visitar o Museu da Lingua Portuguesa, apesar de ser mais uma midiateca do que um museu, nao é? So uma pergunta que sempre tive: o museu explora bem todas as variantes que vc explicou em todos os paises falantes de portugues? Tenho a impressao que é beeem mais brasileiro do que dos PALOP por exemplo. To certo ou to errado? ;-) Abraço!
Celinho em agosto 24, 2006 9:45 AM
#3
me incomoda um pouco a falta de verde no memorial.
o VERDE tão característico do continente.
:>/
Biajoni em agosto 24, 2006 10:12 AM
#4
Acho arquitetonicamente o Memorial um desastre. Caso tivesse sido bem feito, com uma grande área verde, por estar perto do Terminal da Barra Funda, da Marginal Tietê e do centro da cidade seria um dos pontos mais badalados da cidade. Infelizmente, somente professores de literatura latino-americana e alunos de escola em excursão acabam visitando o lugar... ; )
André Kenji em agosto 24, 2006 11:17 AM
#5
Rapaz! Já voltas para New Orleans. Eu esqueci de te mandar aqueles Mp3 dos Les Luthiers!!!
Mando para aquele endereço de BH na semana que vem? Confirme, por favor.
Abraço.
Milton Ribeiro em agosto 24, 2006 11:59 AM
#6
Também achei o Memorial arquitetonicamente um desastre. Não convida a visitação, os prédios são absurdamente distanciados uns dos outros, e tem a falta do verde que o Biajoni mencionou.
Celinho, o Museu da Língua Portuguesa tem bastante material sobre os outros países lusófonos. O foco é o Brasil, mas há bastante sobre os países africanos, o Timos Leste, etc.
Milton, pode mandar para BH. Eu vou embora na segunda, mas em outubro já estarei de volta :-)
Idelber em agosto 24, 2006 1:57 PM
#7
Explicando o que eu quis dizer: não vejo nada errado com os edifícios como peças individuais - mas a distância entre eles e a aridez do caminho são de lascar.
Idelber em agosto 24, 2006 3:17 PM
#8
Dezenas de "especialistas" escreveram sobre o museu da Língua Portuguesa, e vêm escrevendo há meses; mas só você mesmo para notar a gafe do Corpo de Baile, mestre Idelber.
S Leo em agosto 24, 2006 4:56 PM
#9
Ai que saudades do Memorial!
Quando morava no interior de São Paulo (Jales) e trabalhava na rede pública estadual de ensino, ia sempre lá. Aproveitava as frequentes viagens para cursos na capital.
Um dia desses passei por ali; vinha do aeroporto para a rodoviária; era noite; nada vi do Memorial.
Concordo com as opiniões que reclamam verde; ali existe muito concreto. Mas é bom, vale a pena.
Belon em agosto 24, 2006 6:53 PM
#10
Caro Idelber
Creio que você visitou os museus certos na hora certa!
Língua Portuguesa e América Latina por vezes entram neste coquetel que é a convivência internacional, em doses que podem ser muito apetitosas para o consumo mundial, mas que não atendem aos anseios brasileiros na medida certa.
Há uma grande corrente em nosso país que volta e meia diz que “o Brasil sempre esteve de costas para a América Latina”. Bem, esteve muito tempo por questão de sobrevivência! Ou não estaríamos falando o Português e chamando este pedaço de terra de Brasil.
Veja por exemplo a questão das alegorias mexicanas que você citou. E fotografou! Creio que é ininteligível 9em certa medida) tanto para nós brasileiros, quanto, por exemplo, para argentinos (nota: povo que vive à beira do rio da Prata e fala um idioma bem parecido com espanhol). E mesmo não sendo o culto da morte tão popular na Argentina quanto no México, mexicanos e argentinos estão no mesmo saco, o saco da América Hispânica.
Mas há momentos que nos querem colocar, à força, nesta classificação “geral” de hispânicos, ou ‘assemelhados’ a hispânicos. Somos brasileiros afinal!
Já estava pensando como este ‘culto caveirocêntrico’, que você apontou Idelber, está tão distanciado de nós e em compensação algumas práticas religiosas em Cuba (e talvez no Haiti) estejam muito mais em sincronia com hábitos brasileiros, quando, li o comentário de Celinho citando os países denominados “PALOP”.
Desculpem-me, mas creio que não devemos dar curso a este hábito de nomear países africanos num ‘pacote’. Com todo respeito, mas revestida de roupagem ‘moderna’ por se tratar de uma sigla (ou acrônimo, como quiserem), países africanos que tem histórias DISTINTAS são ‘homogeneizados’ sob o termo “Palop”. O colonialismo, e até mesmo o neo-colonialismo já acabaram!
A César o que é de César! Só a cidade de São Paulo possui um Museu da Língua Portuguesa e um Memorial da América Latina!
Paulo em agosto 24, 2006 7:19 PM
#11
Idelber, por falar na exposição do Guimarães Rosa, soube há pouco que o texto integral do Grande Sertão está disponível num site do Governo Federal, por tempo limitado. Vc sabia? Acho que está tão pouco divulgado. Enfim, fiz um post a respeito no blogue.
Abraços.
anna v. em agosto 24, 2006 8:35 PM
#12
Paulo, quando me referi aos paises africanos de lingua portuguesa como PALOP nao tive a intençao de generalizar ou ofender os mesmos países. Foi apenas uma forma de falar sobre eles, da mesma forma que falamos (pouco) do Mercosul ou da UE. Sei que têm culturas e histórias diferenciadas e aliás, esqueci momentaneamente e fui muito bem lembrado pelo Idelber de Timor-Leste.
Um abraço a todos!
Celinho em agosto 24, 2006 10:06 PM
#13
Anna V., acho que v. misturou as coisas. Há um boato, sem fundamento, de que vai sair do ar o site público que oferece obras de autores brasileiros na Internet, o domíniuopublico.com (ou é .gov?).
Sobre o Rosa, acho que já se falou disso aqui. A Monica Bérgamo, da Folha fez nota, e o Bicarato reproduziu, com link lá no Alfarrábio. Chega-se ao Grande Sertão, por esa porta: www.novafronteira.com.br/grandesertaomec/
Paulo, discordo da história de que demos as costas aos hispanohablantes por questão de sobreviv~encia. Foram, em parte, razões geográficas (a cordilheira dos Andes e a floresta amazônica), em parte razões históricas (única monarquia em país de Repúblicas, a rivalidade com a Argentina e, aí sim, o afastamento, por questões de sobrevivência deles, do Uruguai e Paraguai)... e, em parte, auto-sufici~encia nossa mesmo, auto-centrados num país continental.
.
S leo em agosto 24, 2006 10:19 PM
#14
Pois é, Anna, sobre o Grande Sertão é isso que o Sergio Leo falou: a disponibilização do texto na Internet foi noticiada como algo seria feito no site da Nova Fronteira.
Com efeito, no próprio site da Nova Fronteira há a opção de "baixar o romance", mas como eu expliquei no post anterior, ao chamar o pdf pelo menos eu, até agora, só consegui ver a página-título, mais nada.
Idelber em agosto 25, 2006 12:06 AM
#15
No site que o S leo deixou(da Nova Fronteira) da pra visualizar o livro, em pdf, dentro da janela da pagina da nova fronteira. Apesar deles usarem a expressao baixar e download(se nao me engano) eu nao consegui baixar o livro, apenas ver naquele site.
Celinho em agosto 25, 2006 12:42 AM
#16
Mas se vc digitar www.novafronteira.com.br/grandesertaomec no seu browser, vai cair no portal do dominiopublico.gov.br, que de novo vai te redirecionar para o site da nova fronteira quando você clicar em "download".
Eu consegui visualizar, mas, como o Celinho, sem baixar, só vendo página por página.
anna v. em agosto 25, 2006 11:24 AM
#17
Aquele momumento é ou não é uma referência clara à Bíblia do Idiota Latino-Americano "Veias abertas da América Latina"?.
Tinha que ser eu mesmo :)
Até eu mesmo me divirto com minha rabugentisse...
Pablo Vilarnovo em agosto 25, 2006 3:53 PM
#18
Tinha esquecido que o arquiteto é nosso mais amado comunista milionário...
;)
Pablo Vilarnovo em agosto 25, 2006 3:54 PM
#19
Eu que estou longe demais das capitais tenho que me contentar só em OLHAR.
Abs...
Edk em agosto 27, 2006 3:42 PM
#20
Um dia alguém fará um imenso favor à cidade de São Paulo: jogará uma bomba no memorial da América Latina. Sinceramente, não conheço nenhum paulistano que goste "daquilo". É simplesmente horroroso.
Quanto ao museu da lingua portuguesa um dia irei visita-lo.
Anonymous em agosto 31, 2006 1:56 PM
#21
Um dia alguém fará um imenso favor à cidade de São Paulo: jogará uma bomba no memorial da América Latina. Sinceramente, não conheço nenhum paulistano que goste "daquilo". É simplesmente horroroso.
Quanto ao museu da lingua portuguesa um dia irei visita-lo.
Valeria em agosto 31, 2006 1:56 PM