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sábado, 02 de setembro 2006

Andar com Fé, Bola na Rede, Democracia

rede.jpg

Imagine um país que é o melhor do mundo no futebol, mas cujo esporte é dirigido por máfias, enraizadas em redes capilares de clientelismo local que se ramificam até os altos escalões dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Imagine que esse país há década e meia vive sob ditadura militar, regime que se alimenta de e reforça o controle destas máfias sobre a maior paixão cultural e esportiva de seu povo. Imagine que esse sistema se reproduz por toda sorte de falcatruas, incluindo-se aí o suborno, a corrupção, o deslavado uso de vagas no Campeonato Nacional como instrumento de troca política, a total falta de prestação de contas do uso do dinheiro público repassado à Confederação Nacional de Desportos e do dinheiro arrecadado pelos clubes, uma estrutura ditatorial baseada na ausência de poder decisório dos responsáveis pelo espetáculo (os jogadores), submetidos a concentrações e a decisões autoritárias nunca discutidas. Imagine que essa cultura anti-democrática se reproduz pelo terror, já que todos os jogadores sabem que a carreira é curta, o país é cheio de craques, o “passe” (ou seja, o direito de ir e vir de um emprego) não lhes pertence e, para os poucos que conseguem a fama, esta é efêmera. Imagine o medo. Imagine o Brasil em 1979.

Agora imagine que os jogadores e comissão técnica de um dos dois clubes mais populares do país se reúnem e decidem: de aqui em diante, aqui nesta casa reina a democracia. Tudo será decidido entre todos, tudo é passível de discussão, do detalhe na camisa à tática de jogo aos planos para a semana de folga. Nossa vida será permanentemente reinventada pelo diálogo coletivo. Tudo será novo.

Continue lendo Andar com Fé, Bola na Rede, Democracia, o texto deste mês no Alegorias, minha coluna na revista literária Germina. A edição deste mês está belíssima e inclui também um dossiê sobre Minas Gerais.



  Escrito por Idelber às 20:07 | link para este post | Comentários (15)


Comentários

#1

Idelber, o bloglines tá de mau com você de novo! Não mostras as atualizações. Confesso que passei mais aqui para tirar uma dúvida cruel e não ver se o bloglines tinha pirado, mas já que posso resolver dois problemas...

Pois bem, queria saber o nome do livro do Saramago que você me indicou outro dia, lá no canto da vila. Era "O Ano de 1993"? Se for é um livro de poesias e achei apenas uma edição portuguesa. Gostaria de confirmar antes de me aventurar na livraria portuguesa.

Beijinhos

Bibi em setembro 2, 2006 8:32 PM


#2

É esse mesmo, Bibi, mas apesar das aparências é um relato...

Não sei o que está acontecendo no Bloglines. Você e Milton já me disseram que têm tido problemas para ver as atualizações aqui do Biscoito. Quando abro o meu as atualizações aparecem normalmente. Beijos,

Idelber em setembro 2, 2006 8:39 PM


#3

oi Idelber

belíssimo texto sobre a democracia corintiana!
sempre bom te ler.

abs,

PS: o meu bloglines atualiza vc normalmente tb...

dra em setembro 2, 2006 9:36 PM


#4

Valeu, dra. Estou curtindo muito o livro, aliás. Um monte de coisas que eu não sabia ....

Idelber em setembro 2, 2006 9:45 PM


#5

Idelber,

caramba, me deu vontade de chorar! Esse time, o da Democracia, foi o que me capturou para sempre para as garras do futebol. 1982 foi um ano e tanto para quem gosta do riscado - Copa da Espanha, Telê, Democracia Corintiana.

ah, que saudade...

belíssimo texto, obrigada!

bem off-topic, você viu isso (http://blogdasoninha.folha.blog.uol.com.br//), no blog da Soninha?

beijos,

Alessandra

Alessandra Alves em setembro 2, 2006 10:02 PM


#6

Pois é, Alessandra, pensei em você, no Xico Sá e na Ivana Arruda Leite, blogueiros corinthianos...

Sim, vi o post da Soninha sobre New Orleans, comentei faz uns dois dias, mas parece que ela ainda não teve tempo de liberar os comentários.

Beijos :-)

Idelber em setembro 2, 2006 10:05 PM


#7

Caraca, que belo texto sobre o Corinthians (ou sobre o Brasil?). O finzinho foi de arrepiar. Não curto futebol (bom sujeito não devo ser),mas gosto muito de historias de futebol, principalmente no nosso país, porque são na verdade histórias do Brasil.

Sobre o post anterior, da censura, há um tempo atrás rodou pela net um manualzinho em PDF que ensinava várias maneiras de se publicar um blog "anônimo", das mais simples às mais "hackers", para se evitar censura. Era de uma organização de repórteres (não lembro qual) e era dirigido a blogueiros de paises como Irã e China, para que conseguissem publicar sem serem perseguidos. Mas, pelo jeito, o manualzinho vai ser útil aqui por essas bandas também...

daniel em setembro 3, 2006 1:21 AM


#8

Obrigado, daniel. Pois é, aquele Corinthians diz muito sobre o Brasil de 1982; aí achei que era um filão de se explorar.

E espero poder continuar dizendo o que quero em meu próprio nome, mas é verdade que há sinais preocupantes...

Abraços,

Idelber em setembro 3, 2006 2:22 AM


#9

Caro Idelber

Como é bacana torcer por um clube! Como é bonito ter seus ídolos.

Só isso explica, por exemplo, que Waldir Peres apareça em um texto sobre futebol. Que o boa praça do Mario Travaglini seja mencionado como grande técnico. E que um país como o nosso, que 'exporta' neste ano de 2006 cerca de 4.000 jogadores de futebol tivesse apenas 3 times entre 1979 e 1982!

Mas o Travaglini teve o seu valor. Foi uma das vozes no Palmeiras que brecou a iniciativa do técnico Rubens Minelli (aquele que barraria Pelé, por causa da altura) de que o Palmeiras se desfizesse de um Ademir da Guia - ainda não consagrado.

E torcer não é só com o torcedor não, também tem a imprensa paulista! Pois é, o Wladimir (que é boa gente) sempre foi um bom lateral esquerdo. Mas nas páginas da imprensa paulista voava, era o melhor do mundo.

Acho, aliás, que esse foi o calcanhar de Aquiles da ‘Democracia Corinthiana’, a imprensa paulista. A imprensa e a maioria dos jornalistas esportivos não conviviam bem com um processo tão aberto de gestão do time. Sentiam-se claramente inseguros diante da ‘Democracia’. O discurso atual dos jornalistas em relação a ‘Democracia’ é saudosista (mas com exceção, poe exemplo, de um Juca Kfouri) foi um alivio quando aquele processo terminou.

Eu acho que a ‘Democracia Corinthiana’ foi importante e deixou marcas. A imprensa esportiva paulista depois do ‘susto’ aprofundou-se novamente no seu conservadorismo. [Creio que em relação ao Corinthians, a imprensa até piorou, pois a imprensa abriu o ano de 2006 contabilizando uma 'crise' no timão a cada dia. Isto num clube que era (e é ainda) o campeão brasileiro!] Nas eleições por você citadas, caro Idelber, havia dois candidatos das correntes progressistas do estado de S.Paulo, e ambas vieram a governar o país. No âmbito do clube, há um personagem importante, o político, que creio nunca deu uma versão sincera sobre os momentos finais do movimento. Parece que ainda há historia a ser contada.
Para os torcedores ficaram os resultados.

Paulo em setembro 3, 2006 6:29 AM


#10

Idelber,
vou lá ler o texto.
Um ótimo domingo
Uma ótima semana
Um grande abraço

Julio Cesar Corrêa em setembro 3, 2006 9:02 AM


#11

Idelber,

Aproveito a carona em teu texto, e pergunto: Saiu um belíssimo texto de Nuno Ramos (um dos textos mais bonitos que já li sobre o futebol), no "Estadão" de hoje. Alguma possibilidade de colocar o link à disposição dos leitores?

Abraços,

Luis

Luis Fragoso em setembro 3, 2006 12:51 PM


#12

Quando comecei a ler seu texto achei que vc estava falando da Itália...
"Imagine um país que é o melhor do mundo no futebol, mas cujo esporte é dirigido por máfias, enraizadas em redes capilares de clientelismo local que se ramificam ..."

Não é que poderíamos estar falando da Itália também neste primeiro parágrafo?! Afinal, até 2010 eles serão os melhores do mundo, não?! E a máfia do futebol também está "presente" por lá, né não?

beijinhos

Alline em setembro 3, 2006 1:06 PM


#13

Oi, Alline, com certeza a primeira frase se aplica à Itália também, não é? Mas as estruturas do esporte aqui são, com certeza, mais arcaicas :-( Pena mesmo.

Luis, eu colocaria o link com prazer. Mas procurei o texto no site do Estadão e não encontrei. Notei que a vasta maioria das matérias é de acesso online restrito a assinantes. Se alguém tiver acesso ao texto, pode copiá-lo aqui na caixa sem problemas.

Paulo, que belo comentário. Você disse tudo. Houve, sim, um mal disfarçado alívio por parte da imprensa (e não só paulista!) quando a experiência foi interrompida. E bem notado o fato de que daquela eleição saíram as duas correntes que depois governariam o Brasil...

Idelber em setembro 3, 2006 2:35 PM


#14

Idelber, o curioso é que hoje, nesse exato momento, eu entrei no blog justamente para recomendar a leitura desse dossiê. Mas já que você é colunista da revista... Bom, agora vou lê-la com mais atenção.
Um abraço e boa semana.

Beto em setembro 3, 2006 3:40 PM


#15

Por essas e por outras é que sou Corinthiana até a morte! Em qualquer divisão, em qualquer circunstância. A Democracia Corinthiana foi uma lufada de ar fresco numa época em que a repressão ainda existia, especialmente na imprensa, nos meios futebolísticos e em muitas áreas da sociedade. Nem todos se lembram mas, em 82 mesmo com a Lei Falcão a oposição ganhou eleições em muitos estados brasileiros e foi mais um passo para o fim de um regime militar violento, truculento e ditatorial.

Valéria em setembro 4, 2006 5:44 PM