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sexta-feira, 15 de setembro 2006
Uma crônica brasileira em New Orleans
Eu não sei quantos brasileiros vieram a New Orleans ajudar no trabalho de reconstrução, mas certamente são milhares. Hoje em dia, ouvir português nas ruas da cidade não é nenhuma surpresa. Em geral, eles dormem nas casas que estão desinfetando ou reconstruindo. Amontoam-se às dezenas numa mesma residência.
A maioria desembolsou de 10 a 15 mil dólares para entrar nos EUA ilegalmente. Em média, trabalham dois anos só para pagar os empréstimos feitos no Brasil. Não raro, ficam presos aos intermediários que fazem o contato com as empresas e exploram-nos de todas as formas imagináveis.
Na semana passada eu conheci o Sr. C. J., de uns 60 anos de idade. Deve ter no máximo 1,63m, mas impõe respeito pela pele calejada, por marcas de vida que traz o corpo, pelo português impecável – às vezes até excessivamente rebuscado – que fala. Pernambucano, ele chegou aos EUA há alguns anos. Morou na Flórida. Teve um tremendo desengano amoroso. Ouviu falar que havia trabalho em New Orleans. Veio.
Há quatro anos, ouvindo na internet um programa da rádio BH-FM, conheceu Maria, de Contagem, MG. Um pouco mais jovem que ele, Maria procurava um homem sério, trabalhador, honesto. Ele se apresentou. Começaram a relação. Apaixonaram-se. O Sr. C.J. conhece cada momento do cotidiano de Maria, cada gosto, cada mania.
Falam-se todos os dias pelo MSN ou pelo Skype. Maria também conhece cada recoveco da rotina do Sr. C.J: quais os melhores lugares para trabalhar, os patrões pilantras, os brasileiros que o trapacearam, as melhores receitas da cozinha créole, a cara do quartinho que ele aluga em New Orleans.
O Sr. C.J. me entrega uma cerveja gelada com aquela comovente hospitalidade nordestina. Tira um sarro com minha cara pela goleada que, na semana passada, sua equipe – o Náutico – impôs à minha – o Galo. Enquanto isso, ele me mostra as mudanças que está fazendo no quartinho para quando chegar a sua amada, Maria.
O Sr. C.J. e Maria se amam há quatro anos e nunca se viram ao vivo. Nesta semana, Maria faz uma viagem ao consulado norte-americano no Rio de Janeiro para tentar, pela terceira vez, um visto de entrada aos EUA que lhe permita vir ver seu amado.
Escrito por Idelber às 00:40 | link para este post
| Comentários (23)
#1
Ai Idelber, que história mais linda!! Não há uma forma de ajudar os dois?
beijos.
ps. Mudei de sítio....
Sandra em setembro 15, 2006 1:11 AM
#2
Espero que dessa vez a coisa mude e que Maria veja logo as mudanças no quartinho do sr C.J.. Ninguem que se ama merece estar separado.. Um abraço!
Celinho em setembro 15, 2006 9:12 AM
Ju - que adora uma love story! em setembro 15, 2006 12:26 PM
#4
O mais dificil é saber que a Maria pode não conseguir o visto, e que se descoberto o sr. C.J. poderá ser deportado para o Brasil, sem qualquer perspectiva de vida, emprego (será consideado velho e desqualificado), ou chance de uma vida digna.
Valéria - q história linda! em setembro 15, 2006 1:02 PM
#5
Ai, eu também fiquei tocada com esse romance tão singelo e tão bacana... Deve ser por causa da Maria mineira. E pelo seu relato primoroso, Idelber. Precisamos saber o desenrolar dessa história. Acabarão no altar ???
Um abraço
Fefê em setembro 15, 2006 1:49 PM
#6
A coisa tá tão feia que o próximo congresso da LASA vai ser em Montreal, porque eles negam visto até pra acadêmico latino-americano vir passar uma semana nos EUA, imagina para casos assim. Eu tinha um amigo refugiado do Congo, que passou 6 anos aqui e não conseguiu fazer vir a mulher e os filhos...agora que a situação teoricamente se acalmou por lá, ele voltou. Bom final de semana pra todos.
Ana Lucia em setembro 15, 2006 1:54 PM
#7
A melhor coisa que poderia acontecer é termos as fronteiras tão abertas para as pessoas quanto para as mercadorias.
Aliás, para que fronteiras?
Bender em setembro 15, 2006 2:02 PM
#8
Ué!nao entendi a do Alexandre la em cima.. O comentario nao tem nada a ver com o assunto =(
Que eu saiba o concurso foi promovido pelo Ministerio de Relaçoes Exteriores e nao da Cultura ou Educação.. e o objetivo da iniciativa estava lá escrito, mas nao foi copiado para o comentário. Acho que era aberto a qualquer cidadão, brasileiro ou não residente no exterior..
Celinho em setembro 15, 2006 2:41 PM
#9
O comentário do dito cujo Alexandre foi apagado, caro Celinho, porque, obviamente, se alguém quer me insultar por ter ganhado um concurso de ensaios do Itamaraty, que crie um blog para isso, no meu não. E obviamente se alguém tem algum problema com o Itamaraty promover um concurso de ensaios, que reclame lá, não aqui.
Não reparem, o rapaz é meio obcecado mesmo. E muito infeliz. Está há um ano vasculhando a internet procurando algo ilegal na minha biografia, e não acha nada. Eu só sinto muito pelos outros leitores catarinenses que possam estar tentando acessar o blog pelo IP 201.34.168.206.
Idelber em setembro 15, 2006 3:47 PM
#10
Link devidamente atualizado, cara Sandra. Está chique agora com o próprio pontocom, hein?
Fefê, Ju, prometo acompanhar a história, ok?
Valéria, o mais duro é que a Maria não conseguir o visto é o desenrolar mais provável da história...
Pois é, Bender, não seria bacana um mundo sem passaportes? O triste é que estamos cada vez mais longe disso...
Idelber em setembro 15, 2006 4:01 PM
#11
Caro Idelber
Os brasileiros nos EUA tentam dar o seu grito de presente, como fizeram no 'Brazilian Day'. O evento que neste ano foi patrocinado pela TV Globo, ao que dizem foi presenciado por brasileiros que moram em várias partes dos EUA. Eles querem gritar presente!
P.S. Acho interessante a questão da participação nas eleições, dos brasileiros que vivem no exterior.
Paulo em setembro 15, 2006 4:05 PM
#12
Uau, Paulo, a Globo patrocinou o Brazilian Day este ano? Não sabia. Bacana...
Idelber em setembro 15, 2006 4:27 PM
#13
Que história bonita (e triste).
Abraços.
Milton Ribeiro em setembro 15, 2006 6:12 PM
#14
Olá, Idelber. Belíssima história, muito comovente. É por causa de postagens como esta que eu volto sempre ao seu blog.
Grande abraço,
Paulo (da Andressa).
Paulo Morais em setembro 15, 2006 6:49 PM
#15
Abração, Milton :-)
Oi, Paulo, que bacana que você passou por aqui hoje. O seu Uaipod (que ótimo nome!) já está devidamente linkado aí à esquerda. Abração.
Idelber em setembro 15, 2006 6:55 PM
#16
Lindo!!! Obrigada pela visita. Um sonho realizado, e é tão bom ver aquele cantinho...
Beijão
Sandra em setembro 15, 2006 6:58 PM
#17
show de bola
vou torcer para que tudo dê certo....
abs.
Edkallenn em setembro 15, 2006 8:58 PM
#18
Um programa (bastante editado) do Brazilian Day passou na TV Globo próximo da meia-noite do último domingo (o evento tinha sido uma semana antes). Segundo a colunista de TV do jornal 'O Globo', o IBOPE do programa do Brazilian Day foi expressivo para o horário!
Paulo em setembro 15, 2006 9:40 PM
#19
Idelber, projetos de novas campanhas no ar. Sugiro que visite o UaiPod pra conferir. Grande abraço.
Paulo Morais em setembro 15, 2006 11:22 PM
#20
Eu tentei trabalho logo antes do Katrina em New Orleans. Fiquei três meses aí recebendo "não" todos os dias. Quando não consegui um emprego de barback numa stripjoint (após DUAS entrevistas), desisti.
Nunca sofri tanto na minha vida como tempo que passei em New Orleans. Uma pena, porque amava a cidade. Meu sonho era trabalhar em qualquer coisa durante a manhã e tarde e tocar durante a noite. Só consegui tocar num bar na Bourbon, mas mesmo assim não ganhei nada. :(
Nix em setembro 16, 2006 5:24 AM
#21
Nix, é super interessante seu blog, gostei muito de visitar e ler seus relatos. Sinto muito que a experiência aqui tenha sido tão dura - é uma cidade maravilhosa para o fã de música, mas difícil para o músico. Espero que você possa passar por aqui em outra oportunidade.
Abraços, Edk, Paulos, Sandra.
Idelber em setembro 16, 2006 5:36 AM
#22
Olá!
Venho sempre aqui, mas raramente comento. Hoje não resisto: que história comovente, linda. Não deixe de nos contar como continuou, Ok?
grande abraço,
Tina em setembro 16, 2006 12:42 PM
#23
Oi, Tina, obrigado pelo primeiro comentário, e sim, vou tentar acompanhar a história, ok? Abração :-)
Idelber em setembro 16, 2006 5:09 PM