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quarta-feira, 11 de outubro 2006
Silviano Santiago: Uma homenagem em seu aniversário
Completou 70 anos no dia 29 de setembro o romancista, ensaísta, poeta e contista Silviano Santiago, uma das mais prolíficas e brilhantes figuras da literatura brasileira. Tê-lo como amigo é dessas honras para as quais faltam palavras. Imagine dezenas de estudiosos reunindo-se num mesmo lugar, vindos de vários países e não tendo em comum nada exceto a gratidão pelo papel que cumpriu alguém em suas vidas. Foi essa a homenagem que recebeu Silviano na Casa de Rui Barbosa na semana passada. É difícil imaginar um mestre mais merecedor da honra.
Na literatura brasileira moderna, talvez só Mário de Andrade tenha produzido, simultaneamente, obras ficcional e crítica tão vastas e de importância tão capital em ambos gêneros. Conhecidos dentro da universidade, seus livros ainda não têm o público amplo que merecem. A injustiça vai, aos poucos, sendo sanada, já que não se trata, de forma nenhuma, de um escritor “acadêmico”. Alguns de seus romances, como Em Liberdade e Stella Manhattan, estão entre o que de melhor se fez na ficção latino-americana das últimas décadas.
Mineiro de Formiga, Silviano passa em Belo Horizonte os primeiros anos de sua formação intelectual. Em 1959 recebe uma bolsa para se especializar em literatura francesa no Rio de Janeiro. Junta-se ao numeroso time de mineiros que transformariam a vida intelectual do Rio de Janeiro ao longo do século XX. Em 1961 conhece o médico Octavio Couto e Silva, que possui um manuscrito de André Gide. Silviano passa seis meses descifrando o manuscrito e publica o resultado dos trabalhos na Revue Annueile du Centred'Etudes Supéríeures de Français. Recebe o primeiro lugar e ganha bolsa do governo francês para doutorar-se na Sorbonne. Em 1962 suspende a redação da tese e parte para os EUA, onde trabalharia como professor. Defende a tese sobre Gide em 1968 e continua o trabalho docente nos EUA, em universidades como Novo México, Rutgers, Stanford e SUNY-Buffalo. Retorna em definitivo ao Rio em 1974.
Ali ele começava, calmamente, a realizar uma revolução na crítica literária brasileira. De 1970 é o artigo Eça, autor de Madame Bovary, que preconizava outra forma de se pensar as relações entre tradições centrais e periféricas. De 1971 é seu artigo mais influente, O entre-lugar do discurso literário latino-americano, que desmontava a antiga primazia da crítica baseada no rastreamento de fontes e influências. Esses artigos – junto com outros, sobre temas absolutamente heréticos para um acadêmico de então, como por exemplo a música de Caetano Veloso – seriam compilados em Uma Literatura nos Trópicos (1978). Para quem quer entender o que é a crítica brasileira das últimas décadas, trata-se de um ponto de partida obrigatório. Em 1976 Silviano organizava, com seus alunos da PUC-RJ, um Glossário de Derrida, uma das primeiras obras publicadas no mundo sobre o ineludível pensador magrebiano. No mesmo ano, publicava um livro sobre Drummond, que ainda permanece como um dos melhores estudos de sua obra.
Paralelamente, Silviano ia compondo sua obra ficcional. Já em 1970 lançara O Banquete, livro de contos insólitos, na contra-mão da literatura “engajada” ou “alegórica” que então dominava o cenário brasileiro. Em 1981 publica a luminosa obra-prima que é Em Liberdade. Na capa do livro, o aviso: “uma ficção de Silviano Santiago.” Na página do título, a mesma ressalva. Mas a partir daí começa uma deliciosa brincadeira, bem séria por sinal: Silviano prefacia o livro com uma “nota do editor” em que avisa ter encontrado um manuscrito de Graciliano Ramos, escrito por ele depois de ser libertado da prisão onde o lançara Getúlio Vargas em 1936 (e cuja experiência seria relatada no clássico Memórias do Cárcere). O “diário de Graciliano” é escrito num estilo que mimetiza o escritor alagoano e traz ásperas reflexões sobre a situação do intelectual no Brasil. Inúmeros leitores – e inclusive alguns críticos – esqueceram-se do aviso da capa e caíram na armadilha de achar que estavam lendo Graciliano. A “brincadeira” jogava o leitor na vertigem dos problemas da assinatura, do estilo, da autoria. Se há alguma obra literária contemporânea que penetre mais fundo na reflexão sobre o lugar do escritor brasileiro, eu a desconheço. Leitor deste blog, não morra sem ler essa obra-prima. Depois de devorá-la, você poderá ver se concorda ou não com a análise que dela fiz no capítulo 5 desse livrinho.
Enquanto publicava uma série de ensaios sobre o problema da dependência cultural, depois compilados no livro Vale quanto pesa, Silviano escrevia outro marco do romance brasileiro contemporâneo: Stella Manhattan, uma teia nova-iorquina onde se encontram La Cucharacha, um(a) hilário(a) exilado(a) cubano(a), o Sr. Vianna, vetusto servidor da ditadura militar e drag queen nas horas vagas, Eduardo, funcionário da embaixada durante o dia travestido de “Stella Manhattan” à noite, além de uma série de outros personagens que dão o tom a uma ácida reflexão sobre sexo, poder e perversão numa Nova Iorque latino-americanizada. Imperdível. Em Liberdade é o meu favorito, mas Stella Manhattan é, certamente, o que mais o divertirá, leitor. 
As obras-primas vão se sucedendo: Viagem ao México, romance caudaloso que narra a incursão mexicana do enlouquecido gênio teatral francês Antonin Artaud, em 1936; Uma história de família, curto e denso relato que explora um tema que os mineiros bem conhecem: o fato de ser sob a família nuclear, heterossexual, monogâmica e religiosa que se escondem as perversões mais indizíveis; De Cócoras, outro relato breve e poderoso sobre uma imagem recorrente na ficção de Silviano, a perda precoce da mãe; Keith Jarrett no Blue Note, contos homoeróticos que vão se tecendo como improvisos jazzísticos ao redor de um tema; O falso mentiroso, um exercício de "imaginação pura" a partir do conhecido paradoxo grego do mentiroso (o fato de que a frase "eu minto" é, por definição, impossível e contraditória consigo mesma).
Enquanto Silviano construía seu projeto ficcional, a obra ensaística não parava de dar frutos: Nas malhas da letra (1989) trazia uma série de estudos que transformavam completamente a forma como percebíamos o modernismo, que devia ser lido, insistia Silviano, não mais como modelo mas como construção canônica que limitava e tolhia a chegada dos jovens escritores. As obras mais recentes de Silviano são O cosmopolitismo do pobre, Ora (direis) puxar conversa! e As raízes e o labirinto da América Latina. Ainda encontrou tempo, nos últimos anos, para editar uma coleção de obras clássicas de interpretação da realidade brasileira.
Resumindo, então: imaginem alguém que é o primeiro crítico acadêmico a tratar seriamente a cultura pop; o primeiro crítico literário a desmontar a idéia de que brasileiros e latino-americanos estão condenados a estudar literatura rastreando as fontes e influências localizadas alhures; o primeiro a perceber a importância da desconstrução; o primeiro crítico a produzir obra vasta e capital como ficcionista (ou vice-versa, claro); o primeiro a abrir veredas na sufocante celebração do modernismo como modelo literário; o primeiro a carnavalizar o romance político com travestis e drag queens e fazê-lo refletir sobre a sexualidade como tema político; o primeiro a tecer uma consistente poética homoerótica na ficção; o primeiro a escrever, entre nós, um romance influente utilizando-se, com sucesso, da armadilha da falsa autoria. Last but not least, ele foi o primeiro a gerar, no Brasil, uma vasta família de doutores em literatura unidos no afeto pelo seu exemplo.
Esse é Silviano Santiago, meu amigo e mestre, que fez 70. Que viva mais 70. Evoé.
Escrito por Idelber às 03:45 | link para este post
| Comentários (11)
#1
Oi Idelber,
O SS deve ser uma figura interessantíssima para se conhecer. Conheci seus escritos a partir de seu ensaio que abre a coleção Intérpretes do Brasil (que você menciona). A partir daí, fico só babando: babando para ler seus outros escritos, e para ter essa coleção! Li um artigo dele sobre filosofia, em que ele mencionava Derrida. Esse não gostei. Mas seu ensaio sobre o Brasil, muito bom!
catatau em outubro 11, 2006 9:59 AM
#2
Silviano Santiago merece todas as homenagens. Não sei se você tem acesso aí em Nova Orleans ao Suplemento Literário de Minas, mas em junho, saiu um artigo chamado "Regionalismo(s) Aquém e além da literatura, aquém e além do estado-nação" que para mim se tornou obrigatório. Se você tiver a oportunidade, dê uma olhada.
Leandro Oliveira em outubro 11, 2006 1:37 PM
#3
Perfeito, Idelber! (como sempre!) Atualmente ando siderada por O falso mentiroso. o que eu acho de mais interessante nos escritos (não separo crítica e ficção) de Silviano Santiago é a abertura radical ao outro. Há um convite a criar e pensar junto de forma que há sempre o desejo de retornar às suas páginas.
Maria Andréia em outubro 11, 2006 3:40 PM
#4
Valeu Idelber. Uma bela homenagem ao um crítico genial. Parece tão jovem para seus 70 anos! Tom Zé também faz 70 hoje e, como Silviano, está a mil.
Chris em outubro 11, 2006 4:53 PM
#5
Belo post, bela homenagem!
Obrigada por ter me apresentado a ele, literal e literariamente falando. Além de conhecer melhor sua obra, fiquei encantada também com a atenção, a generosidade e a sabedoria que fazem dele um ser humano admirável.
beijos,
Ana em outubro 11, 2006 5:52 PM
#6
Oi, catatau, pelo que já vi do seu gosto acho que você vai apreciar sim, boa parte do ensaísmo do Silviano: ver Vale quanto pesa, que é um livro político de um jeito bem interessante.
Leandro, valeu a dica, sim, temos o SL-MG aqui, mas confesso que há tempos não o consulto. Vou procurar.
Maria Andréia, eu amei o Falso Mentiroso também. Demorei a entrar, verdade, mas adorei :-)
Valeu, Chris, e viva o outro septuagenário, o Tom Zé, tão multifacetado como Silviano.
Pois é, Ana, um dia meus 15 minutos de fama nas histórias literárias será ter apresentado, um à outra, dois dos maiores escritores de suas respectivas gerações :-)
Idelber em outubro 11, 2006 11:07 PM
#7
Idelber, duas notícias da Amauta.
1. No dia 21 de outubro, Martín Kohan, autor de "Duas Vezes Junho" estará em São Paulo para participar da Balada Literária na Vila Madalena. Será uma mesa na Livraria da Vila, dia 21 às 17hs. Como nem tudo é perfeito, eu também estarei na mesa.
2. O próximo lançamento da Amauta será o livro-objeto "Colidouescapo" de Augusto de Campos. Bem no dia das bruxas, 31 de outubro, na Casa das Rosas (Av. Paulista) a partir das 19:30hs. Se você puder ajudar na divulgação.
Abs
Marcelo Barbão
Marcelo Barbão em outubro 12, 2006 1:00 AM
#8
Conte comigo, Marcelo. Obrigado pelas notícias. Chegando mais perto dos dias 21 e 31 eu divulgo sim :-)
Idelber em outubro 12, 2006 2:01 AM
#9
I: SS é também super-importante no que se refere às relações acadêmicas USA-BR (quantas visitas depois de 1974?) e a poetização da polêmica "americanização" pos-WW 2 dos Brasis Tupiniquim. E sacador de Helio. Etc. In other words: sem fim. CAP
cap em outubro 12, 2006 11:21 AM
#10
Bem lembrado, Anjo :-)
Idelber em outubro 12, 2006 12:46 PM
#11
Só para concluir a discussão sobre este post: quando virem algum imberbe, do alto de suas primeiras leituras, proclamar a decadência de tudo o que se faz na literatura brasileira de hoje, perguntem qual é a familiaridade dele com a obra de Silviano Santiago.
Idelber em outubro 16, 2006 6:46 PM