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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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quarta-feira, 22 de novembro 2006
Mentiras de marqueteiro

O marqueteiro Antônio Melo, que fez a campanha de Jackson Lago (PDT) ao governo do Maranhão, teve, pasmem leitores, a parcimônia, a cara-de-pau, o desplante de reivindicar a paternidade da campanha Xô Sarney, iniciada pela blogosfera em solidariedade aos ataques jurídicos do coronel maranhense à blogueira e jornalista Alcinéa Cavalcanti. Em entrevista ao panfleto conhecido como Veja, o marqueteiro afirma:
Veja - Roseana começou a disputa com 66% das intenções de voto. Como essa vantagem foi invertida?
Melo - O primeiro passo foi prender José Sarney no Amapá. Achávamos que, se ele tivesse problemas para se eleger senador por aquele Estado, deixaria a campanha da filha no Maranhão em segundo plano.
Veja - Como vocês fizeram isso?
Melo - Espalhamos na internet a frase "Xô Sarney", que apareceu em uma pichação em Macapá. Sarney censurou os sites que a divulgaram. Com isso, deu ainda mais corda ao caso.
Os que acompanharam a campanha sabem muito bem que não foi nada disso. Sarney entrou na justiça contra a publicação de uma charge no blog de Alcinéa, conseguiu uma absurda decisão judicial a seu favor e a partir daí multiplicou-se o movimento de desafio ao coronel, com reproduções da charge em todo o Brasil. Obviamente, o jornalismo "investigativo" do panfleto conhecido como Veja publicou a mentira sem corrigi-la, apesar de que a estas alturas do campeonato eu, minha avó e a torcida do Corinthians sabemos que o movimento Xô Sarney foi iniciado por Alcinéa, e não por marqueteiro nenhum. Quem quiser saber mais sobre a história pode visitar os posts de política deste blog ou ler o resumão do Inagaki.

Eu e umas cachacinhas mineiras ao fundo. A camiseta foi presente de Alcinéa.
Crédito a quem de direito: o primeiro grito contra a mentira foi do blog Aqui não, Genésio!. Também já protestaram o blog Bomfinado e o Cejunior. Seria muito bom, claro, que o maior número possível de blogueiros repercutissem o desmentido. Seria igualmente interessante que o Reinaldo Azevedo, que na época prestou solidariedade à Alcinéa, ajudasse a corrigir mais essa mentira veiculada na revista onde trabalha, ainda que desta vez por um entrevistado.
Escrito por Idelber às 11:55 | link para este post
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Recife e Olinda
Na falta de tempo para textos, aqui vão umas fotinhas:

Praia da Boa Viagem, Zona Sul.

Margens do Rio Beberibe, Centro de Recife.

Litoral de Olinda/Recife, visto do pátio do Mosteiro de São Francisco.

A fachada do Mosteiro.

Detalhes do barroco no Mosteiro de São Francisco.

Sacristia da Catedral da Sé, Olinda.
 
No túmulo de Dom Hélder Câmara (Catedral da Sé). Arte no Mosteiro de São Francisco, o segundo mais antigo do mundo.

Momento jabá gratuito: restaurante que adorei em Olinda, o Gameleira Regional. Bom e barato.

O lugar onde morreu Chico Science (caminho de Recife a Olinda, nas imediações da Escola de Aprendizes de Marinheiros).
Leitores deste blog: não morram sem vir ao Recife.
Escrito por Idelber às 11:14 | link para este post
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sábado, 18 de novembro 2006
Crônica de expatriado
Anteontem, uma discussão acalorada com um amigo muito querido sobre o caderno Mais!, da Folha (que eu tenho achado cada vez mais fraco e que esse amigo defendia) me fez revisitar alguns dos paradoxos que assombram o expatriado. Depois do papo eu me vi recolocando velhas perguntas: quão distorcidas são as percepções do Brasil que temos os brasileiros que moramos fora? Eles são inevitáveis? Quais as distorções mais comuns? Por outro lado, quão distorcidas são as percepções que têm os nossos amigos daqui sobre as ilusões de ótica dos expatriados?
Em 17 anos morando fora, já encontrei brasileiros que se esqueceram completamente de fenômenos como a violência urbana e a miséria no Brasil, e passaram a idealizar um país de cordialidade e doçura que só existe, claro, em suas lembranças distorcidas. Já encontrei brasileiros que se esqueceram de tudo o que existe de positivo no Brasil e passaram a referir-se ao país com uma lamentável mistura de desprezo e ressentimento. Já encontrei brasileiros com crise de depressão "por causa da" falta de Bom Bril, coxinha de galinha ou Fanta Uva (as aspas se devem ao fato de que tais faltas não eram, claro, as causas reais da depressão). No outro extremo, já encontrei brasileiros que acreditavam piamente que jantar às 5:30 da tarde era uma demonstração de superioridade civilizatória. Mas também já encontrei, no Brasil, muita gente que está convicta de que é impossível para qualquer um que resida fora do país entender a dinâmica da sociedade brasileira.
O que gerou em mim essa reflexão foi a crítica que meu amigo me fazia, que nos levou a um ponto em que nenhum dos dois transigia: eu criticava o Mais!, ele dizia, porque eu estava partindo de paradigmas do jornalismo estadunidense ou europeu. Comparado com o NYT ou o Le Monde, claro, o Mais! é um caderno cultural fraco. Não, eu insistia. Eu não o comparava com nada; meu único termo de comparação implícito era o jornalismo cultural brasileiro de épocas anteriores. Não, retrucava o amigo. Você está pensando no primeiro mundo. Você não tem idéia de como é pobre a discussão intelectual sobre literatura e cultura nos jornais brasileiros. Não, não, eu respondia desesperado. Eu leio quatro jornais brasileiros diariamente, como não vou ter idéia? Mesmo comparado com cadernos culturais como o Radar, do argentino Página 12, o Mais! é fraco, redudante, pouco criativo, demasiado dependente de traduções de textos já conhecidos pelos especialistas e de nenhum interesse para o público médio. A partir do momento em que usei a Argentina como termo de comparação, abri a guarda: ora, você não pode nos comparar com um país letrado como a Argentina. No final da conversa decidimos que discordávamos até mesmo acerca das razões que nos faziam discordar. E pronto. Pedimos outro chope.
Em todo caso, este é um post sem conclusão. As distorções que provocam o expatriamento são, muitas vezes, invisíveis para o sujeito que mora fora. Ninguém deixa de ter uma relação forte com o país porque escolheu morar em outras plagas – mesmo que mascare essa relação com o ressentido “detesto o Brasil”. Mas também, entre os que moram aqui e têm amigos fora, é bem comum que se cometam injustiças: que se veja, por exemplo, uma ilusão de ótica ali onde só há a expectativa de que ela exista. Nada garante que seu amigo que trocou Governador Valadares por New Jersey não esteja observando a realidade brasileira de forma distorcida. Mas nada garante, tampouco, que você não esteja distorcendo as distorções dele.
PS: Como sabem meus amigos, não gosto de quem corrige português dos outros e não faço isso. Mas, relacionado ao assunto deste post, confesso que há uma imprecisão lexical me incomoda: é quando vejo algum expatriado brasileiro referindo-se a si mesmo como “exilado”. Ora, não há exilados brasileiros desde 1979. Mora fora quem quer.
PS 2: Parabéns ao campeão!
PS 3: Abraços e bom domingo para todos aqui da incomparável, ensolarada Recife.
Escrito por Idelber às 19:46 | link para este post
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quarta-feira, 15 de novembro 2006
ESPN Internacional rende-se à mística da torcida do Galo
“São muito mais apaixonados pelo Atlético que os torcedores de qualquer outro time no qual joguei. É difícil de explicar mas acho que tem a ver com a cultura aqui, os torcedores são em maioria pessoas humildes e o futebol é o ponto alto. Para muitos, o Atlético é a única grande paixão. Ontem à noite foi incrível; o povo estava na rua comemorando até as cinco da manhã.”
 
Considerado um gigante adormecido, o clube conhecido como Galo não é apenas um dos times brasileiros de mais torcida, mas também um dos mais consistentes. Apesar de que o clube ganhou o Campeonato Brasileiro somente uma vez, em 1971, ele chegou entre os quatro primeiros outras 13 vezes.
É o time em que jogadores como Cicinho, Gilberto Silva, Toninho Cerezo e Éder adquiriram destaque, e também onde o legendário técnico Telê Santana construiu seu nome. O Galo orgulhosamente se gaba de ser o único clube a ter batido a seleção brasileira, superando um time que incluía Pelé, Carlos Alberto Torres, Gérson, Rivellino e Jairzinho num amistoso pré-Copa em 1969.
Sob o título Os Melhores Torcedores do Brasil? (Brazil´s Finest Fans?) e fechando com a frase "com torcedores como esses qualquer coisa é possível", a ESPN Internacional fez matéria de capa babando com a torcida do Galo e saudando a volta do clube a seu lugar (dica da Ana do Mineiras, Uai!).
PS: no mundo da falsa atribuição, dá-lhe mais do meu ensaio sobre o Galo aparecendo na internet atribuído a Armando Nogueira.
PS 2: no mundo da cartolagem, dá-lhe Eurico Miranda vencendo mais uma eleição suspeita no Vasco.
Escrito por Idelber às 11:50 | link para este post
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Momento Fathern Coruja
Direto do jornalzinho da Escola da Serra, Belo Horizonte:

Isso é o que ela dizia quando tinha 6 anos. Agora tem 7.
Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post
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El entenado, de Juan José Saer
(post escrito em espanhol para discussão entre meus alunos do seminário de doutorado em literatura em Tulane University; dedicado à obra-prima do argentino Juan José Saer, El entenado, da qual existe tradução brasileira)
Se podría leer El entenado (1983), de Juan José Saer, como un pastiche de géneros y discursos consagrados en la tradición: adaptado de las peripecias de Juan Díaz de Solís en las cercanías del Río de la Plata (y de varios otros viajes, como el de Hans Staden) y escrito como relato autobiográfico que mantiene fuerte parentesco con la picaresca, el libro insiste en su condición de “memorias de viejo”, de historias de cosas acaecidas hace mucho. Esa dicción Saer la toma prestada de las crónicas de Indias, especialmente las de los castellanos viejos semiletrados, como Bernal Díaz del Castillo, que narran en la vejez melancólica sus aventuras épicas en América. Paródicamente, El entenado no narra victorias, sino un desastre, un naufrágio que conlleva, incluso, un borramiento de la subjetividad española del narrador, de su propia identidad. Ésta será, entonces, la historia de un sujeto que pierde su nombre y olvida su lengua materna.
El título remite a una relación familiar anclada no en una presencia, sino en una ausencia: el entenado, aquél al cual le falta el padre (y/o la madre). En efecto, el relato está salpicado de escenas de muertes de figuras simbólicamente paternas. La llegada a América produce el naufragio y la muerte instantánea del capitán; lanzado a la intemperie de la vida en la tribu, el protagonista sólo readquire una figura paterna al ser adoptado por un cura, quien también muere. En los rituales de canibalismo descritos en la novela, es nítida la marca de Totem y tabú, de Freud, que narra el asesinato del padre en manos de los hijos celosos, seguido del ritual antropofágico que erige la figura del padre en tabú. 
El narrador reflexiona intensamente sobre la diferencia entre la temporalidad de los hechos enunciados, su juventud de náufrago en América, y el tiempo presente, el de su enunciación. Esa linealidad que desemboca en la vejez contrasta con la temporalidad a que se sometió él cuando vivía entre la tribu: un tiempo cíclico puntuado por dos rituales que se repiten periódicamente, el de las orgías sexuales y el de los juegos de niños. La orgía sexual, una suerte de ritual fundante de la tribu, se nutre de cuerpos que “se disimulaban en su propio olvido” (69). La repetición del ritual coincide con la sistemática pérdida de la memoria de su acaecer. El efecto más nítido de la orgía parece ser, incluso, la producción de su propio olvido.
El entenado difiere de manera considerable de las novelas de reconstitución de época, en la medida en que no “finge” estar en el siglo XVI; su narrador escribe como alguien que ha leído la antropología, el psicoanálisis, la teoría del cine, la lingüística y una serie de otros cuerpos de saber del siglo XX. Los hechos suceden en un tiempo extemporáneo, no en el presente del lector, pero seguramente tampoco en el siglo XVI. Los indígenas parecen preservar al protagonista de todas las hecatombes, como si necesitaran que él operase como testigo. El dilema que enfrenta el narrador al final es la testigo absolutamente solitario, una suerte de testigo del apocalipsis, de la muerte de un mundo: ¿cómo legitimar una narración de la cual todos los protagonistas están muertos? ¿cómo documentar, atestiguar, una memoria sin pruebas?
El protagonista vive así algunos de los dilemas que sólo en la contemporaneidad las artes y las ciencias humanas han estudiado con detenimiento: las fallas, lapsos, traiciones, invenciones e insuficiencias de la memoria. Erigido en una suerte de archivo de un pueblo que cíclicamente se olvida, el protagonista provoca en ellos la enunciación repetida de un término, def-ghi, palabra de múltiples y contradictorios sentidos que parece decir mucho sobre la vida en la tribu.
Privilegiando cualquier aspecto de este rico texto, deja tu comentario reflexionando sobre tu experiencia de lectura de la novela.
Lecturas adicionales: Entrevista de Horacio González a Juan José Saer.
El color justo de la patria: Agencias discursivas en El entenado, de Juan José Saer (pdf), de Brian Gollnick
Repetição e existência em El entenado, de Juan José Saer (pdf), de Antônio Davis Pereira Júnior
Novelas de Saer disponibles en la red (archivos compactados):
El limonero real.
Glosa.
La pesquisa.
Ensayo de Juan José Saer: El concepto de ficción.
Escrito por Idelber às 00:26 | link para este post
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segunda-feira, 13 de novembro 2006
Políticos processando cidadãos
Nos últimos anos, quatro episódios envolvendo três processos e uma ameaça de processo a cidadãos comuns por supostas injúrias ou calúnias contra políticos de diferentes ideologias colocaram de novo na mesa o debate sobre a livre expressão no Brasil. Em defesa, não da imparcialidade, mas da coêrencia deste blogueiro, diga-se que nos quatro casos eu me coloquei inequívoca e publicamente do lado dos processados - ao contrário, imagino, de boa parte dos que me criticam (alguns anonimamente) por defender `cegamente´ o governo Lula ou o PT. Dois dos políticos que moveram ou ameaçaram mover processos nesses quatro casos eram do PT.
Na semana passada, Emir Sader foi condenado a um ano de reclusão (a ser cumprida em liberdade, dada sua condição de réu primário) e, pasmem, à perda de um cargo na UERJ, por haver se referido à `mente suja´ e ao ´racismo´ do senador Jorge Bornhausen, que declarara jubilante, antes da surra do 29 de outubro, que o Brasil iria `ficar livre dessa raça´ [o PT] por ´trinta anos´. Num processo por crime de opinião, movido por um parlamentar que goza de imunidade, contra um cidadão comum (seja jornalista, sociólogo ou o que for), você, me desculpe o maniqueísmo, só pode ocupar um de dois lugares: o lado da liberdade de expressão ou o lado do cala-boca. Não há meio-termo. Daí que os debates sobre o acerto da opinião de Emir Sader sobre Bornhausen ou sobre a estatura intelectual de Sader sejam, agora, completamente inapropriados – e eu tenho minhas opiniões sobre o que infelizmente disse Marcelo Coelho aqui ou o que desdenhosamente disse, na Folha, o desconhecido Fernando de Barros e Silva aqui , ou o que afirmou, com incomum cretinice, Bárbara Gancia aqui (os dois últimos links para assinantes). Agora, o que importa é uma coisa: você acha que o cidadão deve ser livre, ´neste país´, para achar que as declarações de um senador podem ter sido movidas por racismo, ou acha que não? Por achar que sim, assinei o manifesto de solidariedade a Sader encabeçado pelo meu mestre Antonio Candido. O Biscoito convida: assine você também.
Durante a recente campanha eleitoral, o coronel ex-ARENA, ex-PDS, ex-Frente Liberal e neolulista José Sarney processou a minha amiga blogueira e jornalista Alcinéa Cavalcanti, numa seqüência de ataques covardes que resultaram em condenações a indenização monetária e, pasmem, direito de resposta em blog pessoal que já tinha sido tirado do ar como resultado do próprio processo judicial! Na época, o apoio deste blog a Alcinéa expressou-se aqui, ali, lá e acolá; o resumão do movimento de solidariedade blogueira a Alcinéa foi feito por mestre Inagaki, da forma classuda de sempre, aqui.
No dia 14 de abril de 2005, Demétrio Magnoli publicou, na Folha de São Paulo, um artigo em que se referia ao Ministro Tarso Genro como o Ministro da Classificação Racial. Tarso, que sempre gostou de se apresentar como ´intelectual´no PT, atualmente está movendo contra Mignoli um processo que ainda aguarda sentença. O Biscoito manda a inequívoca e incondicional solidariedade a Magnoli e o repúdio à infeliz decisão de Tarso Genro.
Em novembro de 2003, o talentosíssimo sociólogo Francisco de Oliveira, lenda viva do pensamento de esquerda no Brasil, referira-se ao então todo poderoso ministro José Dirceu como `espertalhão´ e, ao contrário do que afirmou a Folha de São Paulo, não o chamou de ´safado´, e sim disse, literalmente, A política não se resume a rapapés, salamaleques e golpes de espertalhões que pensam que estão inventando a roda, como esse ministro José Dirceu. Nisso, ele se parece com qualquer político safado do Brasil . Na época, o ex-guerrilheiro e ex-chefe da ´Articulação´ que criou os Delúbios ameaçou publicamente, do alto da sua condição de ministro da Casa Civil, um processo contra Chico. O professor Chico, como cavalheiro que é, emitiu uma retratação meia-boca para acalmar o espertalhão, e evitou-se o processo. Na época em que Dirceu ainda era o ministro poderosão, num site com um público leitor considerável, dentro e fora do Brasil, eu escrevi em inequívoca solidariedade a Chico o ponto número 7 desse texto aqui (alguém que saiba inglês traduza o parágrafo aí nos comentários).
Por isso, leitor que ocasionalmente, de forma educada ou não, tenha questionado a minha defesa do governo nesta campanha eleitoral, dê uma olhadinha no histórico do blog no quesito ´defesa da liberdade de expressão´. Nos comentários a este post, como sempre, você é livre para discordar e achar que uma ou mais dessas quatro vítimas cometeram crime passível de processo. Mas sinto-me obrigado a dizer que qualquer comentário que ataque Chico, Magnoli, Alcinéa ou Sader com injúrias será apagado. No minifúndio deste blog, a palavra final sobre qual comentário ultrapassou a linha da injúria cabe, obviamente, a mim.
De minha parte, acrescento: esse negócio de político com imunidade parlamentar ou ministerial processando cidadão comum por crime de opinião tem que acabar. E você, o que acha? Estou particularmente interessado em saber se você vê alguma diferença importante entre esses quatro casos. Diga lá.
Escrito por Idelber às 01:43 | link para este post
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sexta-feira, 10 de novembro 2006
A Internet do Sr. Eduardo Azeredo
O Senador Eduardo Azeredo, não contente em entrar para a história como a origem do mensalão, decidiu achar um caminho mais rápido para a imortalidade. O destino reservava-lhe papel mais grandioso, o de ser o senador que tentou aprovar um projeto que exige a identificação dos usuários antes de iniciarem qualquer operação que envolva interatividade, como envio de e-mails, conversas em salas de bate-papo, criação de blogs, captura de dados (como baixar músicas, filmes, imagens), entre outros. O projeto já foi saudado como demente, absurdo, inconstitucional, orwelliano, ditatorial, e produto de uma massa encéfalica que não tem a menor idéia de como funciona a internet.
Os primeiros cinco adjetivos se aplicam, sem dúvida, mas pelo que vi até agora só os leitores do Nova Corja sabem que No texto do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar intitulado “As Cabeças do Congresso”, de 2003, o senador Eduardo Azeredo (PSDB/ MG) é descrito da seguinte forma: “É especialista em tecnologia da informação, tendo sido presidente da Empresa de Processamento de Dados do Estado de Minas Gerais, superintendente da DATAMEC, da Empresa de Processamento de Dados de Belo Horizonte, além de presidente do Serviço Federal de Processamento de Dados – SERPRO”. O senador teve o financiamento de R$ 150 mil para sua campanha de 2002 da Scorpus Tecnologia S.A. (link). O Rodrigo Alvares do Nova Corja vai além e mostra o interesse do Bradesco, financiador de Azeredo, nesse projeto.
Mais adiante, o mesmo blog apontou que Quando a Receita Federal decidiu ampliar seus serviços na internet, adivinhe qual empresa chamou garantir os certificados digitais. Isso mesmo: a Serpro de Eduardo Azeredo (PSDB/ MG). Desde 2001, com a criação da Infra-estrutura de Chaves Públicas (ICP-Brasil), a empresa passou a emitir certificados para órgãos da Administração Pública Federal. O negócio foi tão lucrativo que a empresa apostou no novo negócio e começou a oferecer a certificação como um produto para seus clientes.
Fui eu quem passou batido em algum detalhe ou o Nova Corja deu um baile investigativo no Globo, Folha, Estadão e congêneres? O máximo que me lembro ter lido na Folha foi uma referência a um vago "lobby dos bancos". Como se sabe, a votação do projeto foi adiada. Mas que ele tenha sido aprovado na Comissão de Educação do Senado já é motivo suficiente para que façamos barulho.
PS: O bonequinho eu roubei via Träsel.
Escrito por Idelber às 13:26 | link para este post
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quinta-feira, 09 de novembro 2006
Eventos
Acontece em Belo Horizonte dia 11 de novembro, a partir das 17 horas no Balaio do Gato (R. Piauí, 1052), o lançamento de Mil e uma noites de futebol: O Brasil moderno de Mário Filho, de Marcelino Rodrigues da Silva, pela Editora UFMG (dica via Laura).
Diz o release: "No país do samba e do futebol, nada mais oportuno que esse livro sobre uma das vertentes da história do futebol brasileiro, escrito a partir da obra jornalística de Mário Filho. Como resultado de um trabalho acadêmico voltado para a interpretação do discurso do jornalismo esportivo do início do século 20, Marcelino Rodrigues da Silva, com Mil e uma noites de futebol: o Brasil moderno de Mário Filho, acrescenta um ponto a mais na bibliografia sobre a narrativa de construção e modernização da nação brasileira. A passagem de uma posição elitista e socialmente excludente do futebol para a sua popularização e inclusão das classes menos favorecidas representadas, principalmente, pela raça negra, deve-se ao papel do cronista Mário Filho, autor, entre outras obras, do clássico O negro no futebol brasileiro".
Fica a dica do lançamento para os belo-horizontinos; para os demais leitores do blog, fica a notícia do que parece ser um baita livro.
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Amanhã, sexta-feira, às 9:30 da manhã, no Auditório 2001 da Faculdade de Letras da UFMG, professores e alunos conversam com a escritora Ana Maria Gonçalves. Vale a visita para quem é de lá.
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E sai em breve o livro Não sou uma só – o diário de uma bipolar, da amiga e inspiradora Marina W. Entrevista imperdível da Carla Rodrigues com Marina aqui (e relevem os comentários...).
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O Pirão sem dono, do amigo cearense Marcos VP, está de endereço novo.
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Uma grande intelectual latino-americana passa hoje por um daqueles rituais inesquecíveis: Mónica Albizúrez, crítica guatemalteca de quem tenho a honra de ser orientador, defende em Tulane sua tese de doutorado Del siglo XIX al siglo XX: Rastros de un ensayo latinoamericanista alterno, onde analisa uma tradição alternativa do ensaísmo latino-americano: o chileno Francisco Bilbao, o peruano González Prada, o argentino Manuel Ugarte e o brasileiro Manoel Bomfim. É uma das teses mais brilhantes que já orientei. Parabéns à Mónica pela chegada ao rol dos doutores :-)
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PS: Agenda do blogueiro itinerante pelos próximos dias: de 11 a 15 em BH, 15 a 17 no Rio, 17-18 em BH, 19 até 26 em Reeecife! Ainda vou ver se consigo manter um ritmo mínimo de posts durante o périplo aí no Brasil. E que Congonhas e Confins amanheçam calmos no sábado. Inté.
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terça-feira, 07 de novembro 2006
Sobre Terras do sem fim
Terras do Sem Fim (1943) é algo diferente do realismo “social” de Jubiabá (1935), do realismo mais claramente socialista de Seara Vermelha (1946) ou da sensualidade ligeiramente folclorizada de Gabriela (1958). Se em Seara Vermelha os personagens parecem ser marionetes de forças mais poderosas que eles (as tais “leis da história”, entendidas segundo um marxismo já naquele momento stalinizado), acredito que em Terras do sem fim as escolhas dos personagens são mais genuinamente abertas. No final eles sucumbem à “lei do lugar”, que é afinal de contas a lei da selva que rege o processo de concentração de terras da indústria cacaueira. Mas essa lei é produto também de uma seqüência de ações humanas cujo sentido não estava dado de antemão. Por isso eu diria que Terras do sem fim é um romance mais polifônico e plural, menos naturalista que Seara Vermelha, por exemplo. Ou seja, na minha escala de valores, um melhor romance.
O texto começa com a cena do navio que transporta trabalhadores e coronéis à região cacaueira, e que oferece uma espécie de panorama do que virá: chefes locais na primeira classe, caixeiros-viajantes, jogadores e prostitutas na segunda, trabalhadores migrantes com sonhos de enriquecimento na terceira. Mesmo o leitor mais distraído já sabe que ali tais sonhos serão derrotados, mas o uso do discurso indireto livre (colocando o leitor “na cabeça” dos personagens) vai construindo empatia com as quimeras de, por exemplo, Antonio Vítor, que se despede da amada com a promessa Enrico num ano, venho lhe buscar. Ao mesmo tempo, o romance vai tecendo um retrato do mandonismo e coronelismo na zona cacaueira, mas os coronéis do livro estão longe, muito longe de serem meros monstros.
Pelos perfis já antecipados no navio, o leitor vai conhecendo os dois coronéis mito que lutam por hegemonia sobre o território: Horácio e Sinhô Badaró (este último acompanhado do irmão mais novo, o não menos temido Juca Badaró). São coronéis distintos de boa parte dos que encontramos na literatura sertaneja realista: há uma certa glorificação de suas figuras. Parecem-se, em certos momentos, com cavaleiros medievais. São bárbaros e violentos, mas também corajosos e heróicos; aliás, não deixam de ter seu próprio código de ética. Plurais, contraditórios, elês têm que encarar escolhas não muito comuns entre seus antecessores no romance brasileiro.
Avessa àquele mundo rude, Ester, a esposa de Horácio, é seduzida pela elegância cosmopolita do Dr. Virgílio, o advogado do coronel Horácio. Corneado pelo próprio advogado, Horácio só descobre o chifre depois da morte de Ester – acontecimento que, como apontou o Milton Ribeiro, convenientemente serve para resolver o dilema que o adultério apresentava (ela morre da febre que assolou o lugar, justo depois de cuidar fervorosamente do marido que havia caído doente com a mesma febre).
Mas a morte de Ester, eu acho, serve para mais que isso. Ester é nome de ressonância bíblica, claro. A sua trajetória no livro repete o padrão ordem – transgressão – punição, que rege o castigo às mulheres no romance de adultério tradicional. Ali, as saídas são três: morte, enlouquecimento ou convento. Talvez exista um mundo em que Ester e Virgílio possam se unir e viver o que seria o único amor real e recíproco do romance, mas eles são impotentes para escapar do “coração das trevas” e chegar a esse mundo: no momento em que Virgílio é destratado pelo coronel Badaró em público ante uma mulher, ele é obrigado a entrar na lógica selvagem do lugar sob o preço de perder a honra. Tem que mandar matar. Na terra do cacau, elegância tem limite.
Alguns dos trechos que mais gostei foram os momentos de falhas dos personagens: o coronel Badaró é ludibriado por um mentiroso contumaz e jogador ladrão João Magalhães; o experiente atirador negro Damião fraqueja e erra um tiro ao pôr-se a pensar na mulher e no filho de sua vítima; o incrivelmente covarde Dr. Jessé é recompensado com a prefeitura depois da mudança dos ventos políticos em nível estadual. Cada um desses personagens escapa daquilo que poderíamos chamar sua "vocação histórica". Nesse momento, me parece, tornam-se personagens menos redutores, mais plurais, mais interessantes.
Claramente o desejo de Jorge Amado era escrever um panorama da vida no coronelismo cacaueiro. Depois, em São Jorge dos Ilhéus (1944), ele acrescentaria a descrição de um momento posterior, aquele em que tanto os Badarós como os Horácios cairiam ante a chegada do capital estrangeiro. Nestes dois romances, a concepção de história é claramente etapista. Mas o mais interessante do texto passa por fora desse esquema histórico e tem lugar no desencaixe entre os personagens e sua função histórica. Mais uma vez a riqueza da ficção não reside necessariamente onde o seu autor esperava.
PS: Mesmo sem citá-lo diretamente, fiz uso do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: Romance em Tempo de Utopia (Record, 1996).
Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post
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segunda-feira, 06 de novembro 2006
Aviso aos navegantes
Ficou para amanhã a conversa sobre Terras do sem fim, prevista originalmente para hoje. Desculpem a furada.
Escrito por Idelber às 15:22 | link para este post
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sábado, 04 de novembro 2006
Confesso

Estou viciado na Globo Internacional.
A última vez em que eu tive satélite recebendo sinal da Globo aqui nos EUA foi naquele campeonato brasileiro em que o Galo caiu na semifinal, de virada, sob um dilúvio em São Caetano. 2001? Acho que sim. O Galo tinha um bom time: Felipe, Valdo, Marques, Veloso. Caiu, de novo de virada, de novo na semifinal, de novo ante um time inferior. Para piorar, com narração de Galvão Bueno. Depois daquilo mudei de casa, larguei o satélite.
Agora com o Galo bombando na segundona e as eleições pegando fogo, resolvi me dar o luxo de novo. Não é muito caro: 40 dólares por mês. Nas transmissões de futebol da Globo Internacional, o Galo tem tido prioridade: exibem os jogos quase toda a semana. Também pudera. Os brasileiros no exterior, como se sabe, se dividem em dois grandes grupos: os mineiros de Governador Valadares e os outros.
O interessante da programação da Globo Internacional é que ela é reduzida ao pão e circo básico: jornais, novelas e futebol. Por aqui a gente vê mais futebol que qualquer brasileiro no Brasil que não tenha TV a cabo e Premiere Sports. São três jogos todo domingo e uns 3 ou 4 durante a semana. E no sábado, a segundona. A novela das 8 passa no horário normal e repete de madrugada. Mesma coisa com a das 7. De madrugada mostram documentários antigos, dos anos 70 e 80, que jamais são exibidos por aí.
Mas o mais curioso é a grade de anunciantes: advogados especializados em problemas de imigração, serviços de remessa de dinheiro ao Brasil, Bradesco Internacional, restaurantes gaúchos em Boston, festas da nostalgia mineira em Washington, lojas online com guaraná, doce de leite e paçoquinha. Ah, as pequenas alegrias dos expatriados!
E o pior é que estou gostando da novela. Imaginem se começamos a discutir Páginas da Vida aqui no blog? Arrasamos com a concorrência!
Escrito por Idelber às 03:54 | link para este post
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quinta-feira, 02 de novembro 2006
Entrevista no Estado de Minas, sobre literatura
Uma mui resumida versão desta entrevista, feita a mim pelo jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, foi publicada no Estado de Minas, na época do lançamento do Alegorias da derrota (2003). De lá para cá ninguém mais leu a miniversão que saiu publicada. A versão extensa que segue abaixo é inédita.
1) Quais foram os rumos tomados pelas letras e culturas latino-americanas após o fim das ditaduras no continente, segundo o seu livro?
Ali no livro o assunto é apenas um dos muitos rumos possíveis. Trata-se de ler um conjunto de textos que responderam a um fenômeno cono-sulista e brasileiro, onde as ditaduras, nos anos 60-80, cumpriram papéis comparáveis: realizar ou tornar possível a passagem de um momento de relativa hegemonia do Estado a um momento completamente dominado pelo mercado. A gama de rumos tomados pelas letras latino-americanas ante o legado das ditaduras é ampla e inclui o imobilismo passivo, o pragmatismo cínico, a neovanguarda, a melancolia, o hiper-realismo da neoviolência e uma série de outras posições. Mas todas elas estão respondendo a um mesmo conjunto de dilemas históricos: realizar o luto pelos nomes e ideais que pereceram (o que poderíamos denominar o imperativo de luto pós-ditatorial) e fazê-lo em um momento de amnésia mercado-livrista, de euforia globalizante neoliberal e de crise da cultura letrada. Trata-se um momento difícil para a literatura: ante o horror da tortura disseminada e científica, ela vê questionada sua capacidade de traduzir a experiência. Instala-se a percepção de que há vastas áreas da experiência que não se deixariam traduzir literariamente. Isto reforça o fato de que a literatura se encontra cada vez mais desvinculada da experiência dos leitores, posto que cada vez mais profissionalizada e especializada. No caso hispano-americano, a grandiosa utopia do boom narrativo dos anos 60 vê esgotar sua função histórica, a de oferecer uma modernização latino-americana compensatória, uma espécie de redenção modernista do subdesenvolvimento através das letras. As ditaduras vêm tornar esse projeto de redenção letrada impossível. Para caracterizar os rumos das letras na pós-ditadura, eu diría que eles são marcados por dois fenômenos, o fim do projeto de redenção social letrada e a agudização da separação entre literatura e experiência. No caso da América Latina, esses dois fenômenos, que são globais, se articulam através do instrumental mortuário das ditaduras. 
2) Você escolheu alguns autores específicos para, através de suas obras, realizar o seu trabalho. Quais foram eles e por quê?
Dediquei-me a estudar alguns de meus ficcionistas prediletos: os brasileiros Silviano Santiago e João Gilberto Noll, a chilena Diamela Eltit, os argentinos Ricardo Piglia e Tununa Mercado. São alguns dos autores latino-americanos contemporâneos que leio com mais prazer. Depois vai descobrindo-se, claro, a coerência que organiza as escolhas e o próprio livro. São autores que mantém com nossa realidade relações que poderíamos chamar de intempestivas. Este termo, de inspiração nietzscheana, designa aquela parte do presente que se move, no interior de seu tecido, tentando olhar para aquilo que esse presente reprimiu e ocultou, tentando nomear aquilo que o presente silenciou. O intempestivo é então aquilo que se move em discórdia com o tempo presente a partir de uma memória, mas sempre em benefício de um tempo vindouro. Essa relação entre a memória, o presente e a utopia é o elo que une esses cinco autores, embora eles sejam, claro, muito diferentes entre si. Também os une uma percepção aguda da crise entre literatura e experiência, para a qual oferecem “soluções” diversas: o pastiche histórico de Santiago, o minimalismo rarefeito da ficção de Noll ou a paródia politizada de Piglia; o neovanguardismo redentorista da chilena Eltit, que aposta na radicalização de uma linguagem experimental que traduzisse os setores mais marginais, ou a linguagem reflexiva e memorialista, quase pós-psicanalítica, da obra-prima de Tununa Mercado, Em estado de memória, que se dedica a reconstituir os anos de exílio da autora no México e realizar um verdadeiro desmantelamento de mitos pessoais e nacionais. São escritores bem distintos, mas vincula-os uma reflexão comum sobre a memória e a experiência, realizada por todos eles em termos mais matizados, complexos e inteligentes que o pragmatismo e o conformismo dominantes permitiriam.
3)Você também faz uma análise da intelectualidade e da universidade durante e depois das ditaduras. Qual é sua tese principal sobre esses temas?
A tese principal é a de que as ditaduras também realizam a função de transitar a universidade. Ela passa, grosso modo, de um momento em que ainda era possível a luta entre os ideológos que ela produzia para servir à elite e os intelectuais críticos, ao momento atual, em que a universidade já não produz nem ideólogos nem intelectuais, e sim técnicos, especialistas cada vez mais proletarizados. Se os antigos ideólogos produzidos pela universidade humanista clássica já não são necessários (já não são úteis à elite), os antigos intelectuais de raiz sartreana e vocação de completude, de análise total da sociedade, já não são possíveis – não têm lugar na universidade tecnificada e compartimentalizada de hoje. Esta tecnificação é visível nas próprias leituras das ditaduras que realizaram sociólogos como José Joaquín Brunner, no Chile e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil. Ambos definiram as ditaduras a partir do vocábulo “autoritarismo” e teceram a partir dele um modelo do que o deveria suceder. A sociologia do autoritarismo realiza a operação de dar à transição “democrática” uma língua, um léxico, um conjunto de figuras de linguagem. Naquela teoria, o “autoritarismo” teria sido o produto da acumulação de uma camada burocrática no aparato estatal, supostamente alheia aos interesses do capitalismo transnacional: a ditadura militar brasileira teria sido uma espécie de excrescência estatista. Uma vez removida essa camada, as portas estariam abertas para a democratização. Nesse sentido, não há nenhuma contradição entre o FHC que escreve Autoritarismo e Democratização em 1975 e o FHC que implementa o projeto de flexibilização e privatização neoliberais em 1994-2002: o FHC de 1975, sob a forma de “teoria do autoritaritarismo”, já é uma fundamentação a priori da coalização tucano-pefelê de 1994.
4) O que diferencia a literatura latino-americana feita no período das ditaduras, implantadas no Continente a partir dos anos 60, para a que foi feita após a derrocada das mesmas, já nos anos 80 e 90?
Trata-se de um período longo em vários países e duas línguas, claro, o que torna qualquer comparação geral muito difícil. No campo da narrativa entra em crise o projeto modernizador que associava a sofisticação à experimentação com vários narradores, relatos longos e múltiplas temporalidades. Essas características, que foram pilares do discurso do boom hispano-americano dos anos 60, ainda podem ocorrer na ficção, claro, mas já dificilmente com o significado cultural e político que tiveram antes. Esgota-se o paradigma militante, que gerou nas artes sessentistas movimentos como o brigadismo chileno e o CPC brasileiro. Hoje ele não inspira uma produção artística significativa. No campo da poesia chilena observa-se o declínio da hegemonia de uma certa dicção nerudiana, emotiva, épica e grandiosa, e a ascenção de uma série de vozes mais cáusticas, cínicas ou humorísticas inspiradas na anti-poesia de Nicanor Parra. Na Argenti |