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Um blog atleticano e antropocêntrico.



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sábado, 18 de novembro 2006

Crônica de expatriado

coxinha.jpg Anteontem, uma discussão acalorada com um amigo muito querido sobre o caderno Mais!, da Folha (que eu tenho achado cada vez mais fraco e que esse amigo defendia) me fez revisitar alguns dos paradoxos que assombram o expatriado. Depois do papo eu me vi recolocando velhas perguntas: quão distorcidas são as percepções do Brasil que temos os brasileiros que moramos fora? Eles são inevitáveis? Quais as distorções mais comuns? Por outro lado, quão distorcidas são as percepções que têm os nossos amigos daqui sobre as ilusões de ótica dos expatriados?

Em 17 anos morando fora, já encontrei brasileiros que se esqueceram completamente de fenômenos como a violência urbana e a miséria no Brasil, e passaram a idealizar um país de cordialidade e doçura que só existe, claro, em suas lembranças distorcidas. Já encontrei brasileiros que se esqueceram de tudo o que existe de positivo no Brasil e passaram a referir-se ao país com uma lamentável mistura de desprezo e ressentimento. Já encontrei brasileiros com crise de depressão "por causa da" falta de Bom Bril, coxinha de galinha ou Fanta Uva (as aspas se devem ao fato de que tais faltas não eram, claro, as causas reais da depressão). No outro extremo, já encontrei brasileiros que acreditavam piamente que jantar às 5:30 da tarde era uma demonstração de superioridade civilizatória. Mas também já encontrei, no Brasil, muita gente que está convicta de que é impossível para qualquer um que resida fora do país entender a dinâmica da sociedade brasileira.

O que gerou em mim essa reflexão foi a crítica que meu amigo me fazia, que nos levou a um ponto em que nenhum dos dois transigia: eu criticava o Mais!, ele dizia, porque eu estava partindo de paradigmas do jornalismo estadunidense ou europeu. Comparado com o NYT ou o Le Monde, claro, o Mais! é um caderno cultural fraco. Não, eu insistia. Eu não o comparava com nada; meu único termo de comparação implícito era o jornalismo cultural brasileiro de épocas anteriores. Não, retrucava o amigo. Você está pensando no primeiro mundo. Você não tem idéia de como é pobre a discussão intelectual sobre literatura e cultura nos jornais brasileiros. Não, não, eu respondia desesperado. Eu leio quatro jornais brasileiros diariamente, como não vou ter idéia? Mesmo comparado com cadernos culturais como o Radar, do argentino Página 12, o Mais! é fraco, redudante, pouco criativo, demasiado dependente de traduções de textos já conhecidos pelos especialistas e de nenhum interesse para o público médio. A partir do momento em que usei a Argentina como termo de comparação, abri a guarda: ora, você não pode nos comparar com um país letrado como a Argentina. No final da conversa decidimos que discordávamos até mesmo acerca das razões que nos faziam discordar. E pronto. Pedimos outro chope.

Em todo caso, este é um post sem conclusão. As distorções que provocam o expatriamento são, muitas vezes, invisíveis para o sujeito que mora fora. Ninguém deixa de ter uma relação forte com o país porque escolheu morar em outras plagas – mesmo que mascare essa relação com o ressentido “detesto o Brasil”. Mas também, entre os que moram aqui e têm amigos fora, é bem comum que se cometam injustiças: que se veja, por exemplo, uma ilusão de ótica ali onde só há a expectativa de que ela exista. Nada garante que seu amigo que trocou Governador Valadares por New Jersey não esteja observando a realidade brasileira de forma distorcida. Mas nada garante, tampouco, que você não esteja distorcendo as distorções dele.

PS: Como sabem meus amigos, não gosto de quem corrige português dos outros e não faço isso. Mas, relacionado ao assunto deste post, confesso que há uma imprecisão lexical me incomoda: é quando vejo algum expatriado brasileiro referindo-se a si mesmo como “exilado”. Ora, não há exilados brasileiros desde 1979. Mora fora quem quer.

PS 2: Parabéns ao campeão!

PS 3: Abraços e bom domingo para todos aqui da incomparável, ensolarada Recife.



  Escrito por Idelber às 19:46 | link para este post | Comentários (42)


Comentários

#1

A decadência do Mais! é gritante! Reflexo da decadência abissal da qualidade do jornalismo brasileiro, que conserva raras (raríssimas) exceções. Fruto do pensamento único e de uma política de contenção de gastos das empresas.
Na verdade, o caderno de cultura dominical da Folha era o Folhetim, um tablóide de excelente qualidade e que possuía densidade. (Originou até um livro Os poemas do Folhetim, uma coletânea de primeiríssima). Isso na década de 80, quando o jornal tentou e conseguiu fazer jornalismo. A própria Ilustrada, nessa ocasião tinha outro nível. Era eclética, abrigava Paulo Francis e Paulo Leminski. Décio Pignatari, os irmãos Campos e outros. Temas e abordagens num padrão infinitamente mais elevado. Hoje, os dois cadernos são ilegíveis e dispensáveis. Como o jornal.
Valeu Galo!

Jeferson Melo em novembro 18, 2006 8:46 PM


#2

Sei lá. Antes eu achava a Folha fraca frente ao Clarin ou The Independent, hoje eu acho fraca frente o Kansas City Star ou o Des Moines Register...

André Kenji em novembro 18, 2006 9:04 PM


#3

E o expatriado tá por aqui, pertinho. Pernambuco me lembra música, sempre (tempão q n tem post sobre, né?) Sim, 'achei' um site novo e bacana sobre música brasileira. Eles estão organizando uma 'Discoteca Básica' e tem tb várias resenhas e ensaios (inclusive um de Goli Guerreiro sobre o samba baiano). Se ainda n o conhece, fica a dica: http://www.jornalmusical.com.br/home.asp

Beijos,

Cipy em novembro 18, 2006 9:34 PM


#4

eu gostava do mais no comeco da decada de 90. no comeco da decada de 00, assinei o globo e a folha, e o prosa e verso, que nao eh nenhum bombril, dava de dez a zero no mais toda semana. nao leio o mais desde cancelei minha assinatura da folha, em 2004, mas ele me parecia ter teoria demais, livros de menos.

alex castro em novembro 19, 2006 12:10 AM


#5

Ah Idelber,
que bom ler esse post! Anda tão cansativo emocionalmente procurar um meio termo entre os brazucas porque-me-ufano-de-meu-país-e-não-posso-viver-sem-goiabada-cascão e os graças-a-deus-estou-longe-dessa-gentinha-rebolativa-e-sequestradora!
Post sem conclusão, desabafo idem. Garçom, mais um!
Deleite-se no Recife. Abraços

Márcia W. em novembro 19, 2006 6:52 AM


#6

Ao menos eles não demitiram o Wilson Martins e o Affonso Romano pra ficar propagandeando a galera semi-analfa da gangue de novos escritores moderninhos, quando não o último best-seller cocô. O Prosa e Verso chegou ao cúmulo de falsificar a entrevista com o Alberto Manguel, reproduzindo algumas falas da palestra. Aquela gente come grama.

Nec em novembro 19, 2006 8:34 AM


#7

Olha, tenho uma visao dessa historia do expatriado muito pessoal. Sinto-me expatriada do mundo. Se estou no Brasil, tenho saudades de Berlim. Se estou em Berlim, puxa, Hong Kong era tao legal, neh... Se estou em Hong Kong, quero conhecer a Africa. E la nave va. Todo lugar tem defeitos e qualidades incrivelmente deliciosas, nao dah pra olhar soh pro extremo de cada local. Nao sei, acho q me desprendi demais do conceito de cidadania. Mesmo tendo ciencia de q sou brasileira por ter nascido aqui, meu pensamento hoje nao consegue o ser plenamente. Em qqer lugar do mundo q esteja.

Sou e nao sou, eis a questao.

O negocio eh q soh consigo achar aquele pedaco de papel verde com brasao na capa meramente o q ele eh: um papel. Q te abre as portas pro mundo, esse sim, o local de real cidadania q escolhi - infelizmente nao-disponivel ainda no cartorio local. Nao hah sensacao melhor do q livrar-se de uma bandeira q te coloca dentro de uma caixinha rotulada e lacrada. Qualquer bandeira.

Sabe q vc me deu ideia pra um post com seu post? Assim q eu tiver internet continua (sabe-se lah quando, mas tudo bem...), escreveh-lo-ei em sua homenagem.

Beijos.

Lucia Malla em novembro 19, 2006 10:43 AM


#8

Oi Idelber,
Depois de um sumiço, resolvi olhar o blog e ops! quantas novidades! Terras do sem fim... :-)
O post de hoje eu passei a manhã inteira pensando se comentava ou não, mas não aguentei. Então vá lá: Concordo plenamente sobre a decadência do Mais! ( e da própria FSP,que sempre assumiu a posição de um jornal de opinião), mas o que me incomodou mesmo foi essa história de expatriado e exilado. Dá p/ vc me explicar que diferença vê nesses termos? E que história é essa de que não há exilados no Brasil? Quanto à Geografia ou à Literatura? Que tipo de exílio?
PS: O bom do Biscoito fino e a massa é a polêmica...

Joelma em novembro 19, 2006 1:01 PM


#9

ele está dizendo que exilado é quem é forçado a sair do país e não pode voltar. expatriado é quem saiu por vontade própria. hoje, oficialmente, legalmente, não existem brasileiros exilados. qualquer brasileiro que more no exterior pode voltar a morar no Brasil quando bem entender.

alex castro em novembro 19, 2006 3:27 PM


#10

Isso eu entendi. Mas,
1) se nem o Aurélio, nem nenhum teórico que eu conheça faz diferença entre um e outro termo, por que usar isso aqui? Há diferenças de exílio, mas não de exílio p/ expatriado.
2) Falar que não há exilados brasileiros hoje é generalizar demais; como é que ficam testemunhas ameaçadas de morte que precisam sair do país incógnitas? não é exílio? ( ainda que não oficial)
3) Quem sai do país por própria vontade, ao meu ver, não é nem expatriado, nem exilado, e sim um deslocado. Não há, nos dois primeiros, uma perda da identidade nacional, mas sim um afrouxamento daquela identidade da qual o sujeito a achava pertencente.Tô complicando? :-)
PS: O Mais! continua ruim.

Joelma em novembro 19, 2006 4:16 PM


#11

Caro Idelber

Na minha família já houve exilados e agora temos expatriados. Digo para você, não vejo diferença no sentimento.
Lamento, talvez por uma formação antiquada, que alguns milhões (1, 2, quem sabe?) de brasileiros, estejam nos EUA seja expatriados ou exilados. Lamento da mesma forma.

É terrível, por exemplo, ficar sabendo que a atual presidente da Câmara (speaker, vamos lá) é “amiga dos imigrantes”, e por conseqüência “amiga dos brasileiros”.
Mas o que fazer? Nós que estamos por aqui ficamos naquela situação: é impossível aceitar o atual poder norte-americano (Bush), mas devemos torcer para que os brasileiros não sejam maltratados!
Saudações cariocas

Paulo em novembro 19, 2006 5:17 PM


#12

Cara Lucia, entendo o que você diz, mas acho que cidadania planetária nem neste século vai rolar. Nacionalidade, passaportes e que tais são mais que papéis! Mesmo quando você se desvincula afetivamente desses papéis, em duplo sentido, vai dizer que já não faz diferença na hora de fazer fila no aeroporto? Concordo que lugares e pessoas nunca tem só lados bons ou ruins, e dentro do possível a gente tem que tentar extrair o melhor. Parece que isto está difícil com o Mais, ha ha ha!!!

Márcia W. em novembro 19, 2006 6:36 PM


#13

Ah Marcia, nao sou tao iludida assim como meu comentario pode ter transparecido, desculpa o excesso de polianismo! Nao nego q na pratica o passaporte te abre as portas pro mundo - alias, eu disse isso. Abre sim, e eh um documento importante. Infelizmente, um mal necessario. Eh q sou sonhadora, e sonho com o dia em q o conceito de bandeira serah completamente desnecessario, esquecido. Pode ser nesse seculo, daqui a 5 ou mil seculos, mas sonho com isso - sonhar nao custa nada, jah diz o ditado. Seremos nao mais brasileiros, iraquianos ou japoneses, e sim seres humanos "terraqueos", por morarmos no mesmo planeta - se ele ainda existir (ou nos ainda existirmos), eh claro.

Por enquanto, soh me resta adequar ao sistema: ter passaporte e uma cidadania qualquer - no caso, a brasileira. Mas o faco com comichao, com essa ideia-sementinha de q um dia quem sabe ninguem mais terah filas diferentes em imigracao alguma - e imigracao nao mais existirah. Sinto-me melhor tendo esse sonho me incomodando cada vez q cruzo uma fronteira.

Apenas nao gostaria q fosse assim, esse mundo cheio de fronteiras. Mas ateh aih, eu tbm nao gostaria q pessoas morressem de fome ainda, e isso acontece a todo momento, infelizmente. Nao posso fazer muito pra mudar, apenas o q jah faco nos meus limites: respeitar as pessoas, ajudar um pouco, sonhar com melhorias.

Eh uma visao pessoal de "expatriamento" e de vida em si, eu sei. Extremamente pessoal. O mundo talvez seria mais interessante assim. Ou pelo menos, diferente.

P.S.: Existem (poucas) pessoas sem cidadania por escolha. Escrevi sobre isso algum tempo atras aqui.

Lucia Malla em novembro 19, 2006 7:58 PM


#14

Aqui. (Sempre me enrolo com tags, mesmo apos o preview...) :)

Lucia Malla em novembro 19, 2006 8:02 PM


#15

É interessante como este assunto é quase sempre comentado com muita emoção. Está pior? Está, pois quem escreve sobre cultura, de uma maneira geral, é menos preparado hoje em dia. Já se foi o tempo de abrir o caderno B do Jornal do Brasil e ler Drummond falando de coisas do dia-a-dia. Existe também uma pressão para se abordar como cultura manifestações artísticas e musicais menores, ou que vendem muito (o que não significa que são boas).
Mas este é o país hoje, nivelado por baixo em política, governo e, porque não, cultura?

Fernando em novembro 19, 2006 8:42 PM


#16

Rica a caixa de comentários; não dá para deixar de responder, mesmo com conexão precária.

Joelma, o Alex traduziu direitinho o que eu quis dizer. Não tenho o Aurélio ou o Houaiss à mão, mas posso lhe garantir: a palavra "exilado" é usada em geral, sim, para designar o expatriamento forçado. Essa é a diferença. Se você conhece alguma "testemunha" de algo que teve que sair do Brasil à força, por favor avise, porque eu seria o primeiro a denunciar aqui. Duvido, no entanto.

Pois é, Jeferson, o Folhetim era um dos termos de comparação que eu tinha em mente. Não acho que o Brasil tenha deixado de produzir Haroldos, Décios e Leminskis. Mas acho que eles estão fora dos jornais. É uma pena.

E é aí que acho que discordo um pouco de você, Fernando. Não acredito que todo o país esteja nivelado por baixo. Prefiro Lula ao General Figueiredo. Prefiro que as paradas de sucesso sejam lideradas por Nação Zumbi que por RPM. Acho que há uma queda do jornalismo cultural mesmo.

Lucia, adorei, como sempre, seus comentários. Foucault uma vez disse: "sonho com um mundo sem carteiras de identidade e sem passaportes". Compartilho com ele e com você esse sonho. E essa inadequação permanente que você experimenta é também a de Drummond: na roça penso no elevador/ no elevador penso na roça (versos do livro Alguma Poesia, de 1930).

Marcia, adorei a imagem do porque-me-ufano-de-meu-país-e-não-posso-viver-sem-goiabada-cascão contra os graças-a-deus-estou-longe-dessa-gentinha-rebolativa-e-sequestradora. É isso. Desde que saí do Brasil tento escapar desses abomináveis extremos.

Cipy, fantástica a dica. Já naveguei à beça por lá. Os ensaios estão fantásticos, é só gente fera: Goli, Julinho Diniz, Zé Teles. Só gente de primeira mesmo. Você, como sempre, com as melhores dicas. Prometo posts musicais para breve :-)

Paulo e Lu, como tem sorte o seu Fluminense, hein?

Idelber em novembro 19, 2006 9:50 PM


#17

alias, esse fim de semana minha agente escreveu um release sobre mim e tascou essa frase: "por ora exilado num doutorado em Literatura Brasileira na Universidade de Tulane, em Nova Orleans, USA." Pensei logo em vc...

alex castro em novembro 20, 2006 6:04 AM


#18

Lúcia e demais,
sei que você estava escrevendo com o coração apaixonado sobre essas nacio-identidades e quejandos, eu concordo e torço com você. Eu estava pensando, acho, nos poetas futuristas, aqueles que SABIAM que no século 30 as mesquinharias estariam destroçadas e que os sábios do futuro responderiam aos apelos dos sonhadores e (nos) ressuscitariam. Abraços sem fronteiras,

Márcia W. em novembro 20, 2006 7:06 AM


#19

Sobre o caderno ‘Mais!’. Acredito que todos concordem que passamos em nosso país por um momento de transição quanto a mídia.

Hoje há várias opções para se obter informação. Caiu a tiragem dos jornais. Deve até ter caído a quantidade de gente que ‘fila’ os jornais. O transporte individual, por exemplo, “mata” o jornal (o coletivo às vezes até ajuda). As cadeias de rádio especializada em notícias, CBN e Band News estão se expandindo. E sou forçado a aceitar que o William Bonner tem cada vez mais credibilidade na sua informação. E a gente sabe como é isso, não se deve ver show de mágica pela televisão. Só ao vivo! O jornalismo da TV (atualmente) é o que o José Arbex Jr. chama de “showrnalismo”.

É assim mesmo, época de expansão dos meios, época de queda da qualidade. Agora vejam vocês, a coluna ‘Autocrítica’ na página 1 do jornal ‘O Globo’ (se dedica a comentar os erros no jornal) tem feito nestes últimos dias, críticas a colunista política Tereza Cruvinel. Já houve tempo que os colunistas políticos DOS JORNAIS, tinham mais intimidade com o idioma. E com a lógica também! Acredito que nossa imprensa possa voltar a se ombrear com a ‘Des Moines Register’. Mas será que voltará a ser comparável com o ‘JB’ de antigamente? Acho que todos aqui estão esperançosos. Ou não?

Paulo em novembro 20, 2006 7:20 AM


#20

Contrafactual? Olha, eu moro no Brasil, e na minha memória o Mais! piorou e muito. Minha suspeita é que com o ataque das outras mídias sobre as verbas publicitárias, nenhum jornal aguenta mais manter um time de primeiro escalão no seu plantel.

Idelber, deixei um desafio para você lá no Hermê.

Hermenauta em novembro 20, 2006 8:38 AM


#21

Não conheço o Mais!, vale mais a pena ler artigos garimpados na net. Por falar nisso, ler bem em inglês e espanhol é algo que vale a pena.

Goitaca em novembro 20, 2006 8:54 AM


#22

A criação do Mais!, no começo dos 90, havia sido um empobrecimento do jornal. A Folha reuniu uns três ou quatro cadernos que saíam de forma independente. Eram o Leia, aos sábados, um outro de Ciência e tinha mais outro que não me lembro bem. Houve uma fusão para economizar papel, salários de jornalistas. Ao invés de vários editores, o trabalho ficou na mão de apenas um editor e um assistente. É a racionalização de custos.
Outro empobrecimento ocorreu com o fim do "Jornal de resenhas", para economizar papel. Haja neoliberalismo.
Mais recentemente, coisa de um ano atrás, o caderno Mais! sofreu o abalo do Aliás, do Estadão. Este surgiu, e a Folha se ajustou no mês seguinte. Foi esse ajuste, para se aproximar do Aliás, que jogou o caderno na irrelevância.
De vez em quando, aparece um ensaio do Silviano Santiago. E só. Hoje quem domina o Mais! é Boris Fausto, historiador e sócio-fundador do Instituto Fernando Henrique Cardoso (ver na página http://www.ifhc.org.br/Pagina.aspx?mn=1&id=2).
A última do Mais! foi acabar com a publicação periódica dos textos de Slavoj Zizek e Robert Kurz.
Para resumir, no final das contas para valer, é mais um movimento "direita volver" da imprensa brasileira. Um fato como o nascer do sol todos os dias.

Renzi em novembro 20, 2006 9:57 AM


#23

Pego carona nos comentários de Lúcia e de Márcia, endossando completamente a mui lúcida (ops, trocadilho involuntário)opinião de Lúcia. Pois ecoam ainda os versos de Raul Seixas, na impagável "Ouro de Tolo": "... longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador". Cercas embandeiradas separando quintais, nada melhor para definir as atuais nações e suas fronteiras. Um abraço,
Luis

Luis Fragoso em novembro 20, 2006 11:14 AM


#24

Salve, mestre Idelber.

Bem, estou morando em Buenos Aires há apenas 20 dias, mas concordo com suas opiniöes sobre a qualidade mais elevada do jornalismo cultural daqui.

Na semana passada dei uma aula na Universidade Torcuato di Tella sobre a visäo que Argentina e Brasil tëm um do outro e foi um debate muito interessante com os estudantes do curso de Relaçöes Internacionais.

Minha postura com respeito ao Brasil é muito crítica e estou de acordo com meus jovens alunos, que afirmam que as desiguldades e injustiças da sociedade brasileira säo um elemento que dificulta as ambiçöes de liderança do Brasil na América do Sul.

Abracos

Mauricio Santoro em novembro 20, 2006 2:19 PM


#25

Idelber,
Ok, expatriado ou exilado. Desculpe se fui enfática demais, ok?
Continuo achando o blog ótimo.

Joelma em novembro 20, 2006 2:24 PM


#26

O "Mais" piorou muito, sem dúvida. Tenho alguns antigos guardados que comprovam a decadência.

Engraçado, gosto que ME corrijam o português. Mas não saio corrigindo por aí a torto e a direita....

PARABÉNS AO GALO!!!!

Milton Ribeiro em novembro 20, 2006 3:06 PM


#27

Joelma, querida, não há problema nenhum :-) "ênfase" em excesso é o que mais se vê neste blog, a começar pelo próprio blogueiro...Obrigado e volte sempre :-)

Hermê, desafio recebido, ainda estou matutando minha resposta.

Caro Mauricio, aproveite essa incomparável cidade e não deixe de visitar a Gandhi aí na Corrientes!

Renzi, você acabou de matar a charada. A exclusão dos textos de Zizek e Kurz e o protagonismo de Boris Fausto dão bem uma medida de para onde tende a coisa politicamente, mesmo no caderno cultural, não é?

Idelber em novembro 20, 2006 3:23 PM


#28

Eu trabalhava na Folha na época da criação do Mais e reitero o que o Renzi disse. O Mais foi um "catadão" de uma época de crise que juntou esses cadernos culturais e também colocou em espaços únicos cotidiano (cidades) e esporte, além de dinheiro e mundo (a redação começou a e referir a esse frankstein como "dirty money", de dinheiro e mundo, dinheiro imundo - hahahahaha).

Alessandra Alves em novembro 20, 2006 3:58 PM


#29

A questão da diferença entre exilado e expatriado eu entendi perfeitamente, ou melhor, já sabia disso, que é mais evidente que umbigo de vedete. O que eu não entendi é a consequencia do pioramento de algo que se chama "Mais". Se "Mais" piora, nunca chegará a ser "Menos", quando muito "Mais ou menos", pelo fato de que o agravamento da condição de somatória intrinseca, não permite diminuições substancias, quando muito, um achatamento qualitativo. Poderia-se porém favorecer a transformaçao nesse caso, de "Mais" em "Demais", que é uma arma com dois gumes, ainda que sempre denotante excesso. Bem, esse é um comentário sem conclusão. Concluo citando Francesco Cossiga, em alusão seja ao caderno que ao Brasil: "Se algo vai mal, só podemos desejar que piore. Do contrário, nunca se toca o fundo e o efeito bola não acontece. A bola só sobe de novo quando toca o chão".

Flavio Prada em novembro 20, 2006 5:42 PM


#30

segundo o aurélio:

exílio
(z) [Do lat. exiliu.]
Substantivo masculino.
1.Expatriação, forçada OU
(grifo meu) voluntária; degredo, desterro.
2.O lugar onde reside o exilado.
3.Fig. Lugar afastado, solitário, ou desagradável de habitar.

ainda do aurélio:

expatriação
[De expatriar + -ção.]
Substantivo feminino.
1.Ato ou efeito de expatriar(-se); EXÍLIO
(outro grifo meu), desterro.
2.Emigração (3).

bo em novembro 20, 2006 7:15 PM


#31

Sobre a suposta decadência do Mais! eu não posso opinar, mas quanto à inconclusão do post digo que estou de acordo. Enquanto blogueiro iniciante, gosto de terminar posts com inconclusivos pontos de interrogação, na esperança de que a opinião dos leitores, através de seus comentários, aprofunde as questões levantadas pelos meus posts. No mais, é só saudades de poder conversar sobre suplementos literários tomando um chopp. Macondo deixa a desejar neste aspecto.

Beto em novembro 20, 2006 11:00 PM


#32

Uma perguntinha: vai ter palestra ou participação sua em algum evento até o dia 26 aqui em Recife, Idelber?

Edson em novembro 21, 2006 9:45 AM


#33

O Brasil, com certeza, entre todos os países do mundo é o único a levar a vida na brincadeira. Brinca o País, em suas relações, em seus relatórios de resultados que não nos servem a nada. Não exprimem uma realidade na qual se possa segurar como viga a acreditarmos que estamos realmente seguros. Faklam de uma Balança comercial positiva, aliás é o que mais se fala. E isso é tão mentiroso. A tal Balança se afigura com um saldo positivo em virtude de nós não estamos comprando nada, a não ser bugingangas chinesa feitas de nada, com a mais ordinária matéria prima, enquanto estamos vendendo bem, isso devido a cotação do dólar, que tão cedo não equiparará ao valor do real. A não ser por um acordo - tudo é posssível - ou o governo tomar, como à época da ditadura, a decisão de igualá-los na porrada.
Pura ilusão, o Brasil é considerado pela ONU - isso é pura ilusão criadas por eles lá - com a décima potência mundial. Por outro lado, a mesma ONU o considera o anti-penúltimo país mais miserável do mundo, perdendo apenas para três países (coitados) da Áfria, República Sul Africana e Serra Leoa.
Ha mentira. E isso é regra, é prática. Nós tínhamos de fazer algo contra isso: Deixa-me ver:..... o quê ?
Nós já fazemos muito, fazendo nada.

Naeno em novembro 21, 2006 10:48 AM


#34

O bo tem razão. Verifiquei no dicionário disponível aqui no computador e não há diferença nos termos "expatriado" e "exilado", já que, no fundo, o "exilado" é um "expatriado". Acho que o termo "exílio" tomou uma conotação forte e pejorativa com a ditadura, e isso ficou enraizado em todos. Até eu mesma pensava de forma diferente, conforme vc, Idelber.
Adorei a discussão do Post... Estou lendo "Quando Nietzsche Chorou" e me lembrei da primeira discussão entre o Dr. Breuer e F. Nietzsche, sobre a verdade... O espaço e onde nos colocamos nele, o nosso contexto social e humano, mudam as nossas percepções da realidade, e o ser humano em si é tão complexo, por isso ser tão difícil concordar com alguém...
Beijo

Ana em novembro 21, 2006 11:26 AM


#35

Não, Edson, não haverá evento nenhum, porque estou mesmo fazendo entrevistas e pesquisa.... Mas vou voltar em breve, isso aí com certeza.

bo e Ana, sim, é verdade que o dicionário registra uma possibilidade de sinonímia entre os dois termos. Mas também é verdade que o uso consagrou a diferença. Claro que todo exilado é expatriado. O vice-versa é que não é verdadeiro. Enfim, acho chato ficar discutindo semântica, mas insisto nessa diferença consagrada pelo uso, inclusive em respeito aos exilados de outras eras. Em todo caso, claro, segue esse uso quem quer...

Idelber em novembro 21, 2006 1:30 PM


#36

Sim, Idelber, discutir semântica é muito chato mesmo. Mas pra te ser sincera, acho estranho o uso dos dois termos, pois para mim, "exilado" me lembra a ditadura :P, e "expatriado" me remete a alguém que perdeu a pátria, mesmo que por sua própria vontade de não ter pátria, e isto é muito triste. No Dir. Internacional existem discussões sem fim sobre o tratamento dos tais "expatriados"...
Agora, no meu comentário anterior me referi quanto à sua discussão acalorada com o amigo sobre o MAIS (que não conheço, então não tenho como opinar), e que levou o nada a lugar nenhum, mas nos presenteou com este belíssimo post. Essa sim me lembrou do livro... A nossa verdade nem sempre é a verdade dos outros, e muitas vezes não é a verdade que os outros querem ouvir... e por aí vai!
Bjs

Ana em novembro 21, 2006 2:35 PM


#37

Oi, Idelber. Nao sabia que voce tinha um blog. Bem legal! Foi o Perrone que me contou. Nao sei se voce sabe, a antropologa Maxine Margolis tem um ensaio sobre isso baseado em pesquisa etnologica dela. Eu tambem tenho um ensaio chamado "Between Heaven and Hell: Perceptions of Brazil and the United States in Brazuca/Brazilian-American Literature" que saiu na Hispania no ano passado que tambem discute isso. Vou lhe mandar.

Um grande abraco,

Luciano

Luciano Tosta em novembro 21, 2006 2:36 PM


#38

Idelber, engraçado, eu prefiro me definir como "exilada", apesar da total inadequação do termo, do que como "expatriada". Expatriada dá a impressão de não ter pátria. Eu não só tenho uma pátria no Brasil, como tenho uma segunda, nos Estados Unidos. Então acho que sou "bipatriada". Ou transplantada.

Leila em novembro 21, 2006 5:48 PM


#39

Oi, Luciano, que surpresa agradável a sua visita! Não, não conheço o trabalho da Margolis, mas vou procurar. E quero, sim, ler seu ensaio. Aguardo. E volte sempre!

Pois é, Leila, eu entendo; eu sou meio chato com o uso dessas palavras, talvez por ter conhecido exilados da época da ditadura. Mas você tem razão que "expatriado" não é lá dos termos mais elegantes. Enfim...

Idelber em novembro 21, 2006 9:12 PM


#40

Não li se alguém já comentou isto, mas acho que se existe o exílio político, também pode-se considerar possível o exílio econômico.

Jean Scharlau em novembro 24, 2006 11:47 PM


#41

Idelber, ao contrário de você - e concordando com o Jean, creio que continuamos a produzir exilados, não por obra de um regime político, mas de um regime econômico. E falando em exílio, Giorgio Agamben tem um belíssimo texto a respeito, não sei se você conhece: "Política [ou Políticas] do exílio".

Mudando de assunto: acabei de ler o seu capítulo sobre Derrida. Fabuloso. Aplica a leitura interna derridiana ao próprio pensador francês, desmontando a retórica da ligação Solução Final -violência divina. Curioso é que Benjamin deixa explícita que a violência divina não pode ser registrada positivamente pelos homens e, mais do que isso, expia a culpa; por sua vez, a Solução Final não fez mais do que produzir culpa, não a culpa de ter cometido um ato, mas uma culpa "existencial" por assim dizer. P.S.: Você tá pensando em lançar o livro em português?

Abraço,

Nodari

Alexandre Nodari em novembro 26, 2006 6:42 PM


#42

Eu também estou achando o Mais! mais fraco!

Alena em dezembro 1, 2006 8:00 PM