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Um blog sobre política, literatura, música e futebol basquetebol. Na rede desde outubro de 2004.



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segunda-feira, 13 de novembro 2006

Políticos processando cidadãos

orwell.jpg Nos últimos anos, quatro episódios envolvendo três processos e uma ameaça de processo a cidadãos comuns por supostas injúrias ou calúnias contra políticos de diferentes ideologias colocaram de novo na mesa o debate sobre a livre expressão no Brasil. Em defesa, não da imparcialidade, mas da coêrencia deste blogueiro, diga-se que nos quatro casos eu me coloquei inequívoca e publicamente do lado dos processados - ao contrário, imagino, de boa parte dos que me criticam (alguns anonimamente) por defender `cegamente´ o governo Lula ou o PT. Dois dos políticos que moveram ou ameaçaram mover processos nesses quatro casos eram do PT.

Na semana passada, Emir Sader foi condenado a um ano de reclusão (a ser cumprida em liberdade, dada sua condição de réu primário) e, pasmem, à perda de um cargo na UERJ, por haver se referido à `mente suja´ e ao ´racismo´ do senador Jorge Bornhausen, que declarara jubilante, antes da surra do 29 de outubro, que o Brasil iria `ficar livre dessa raça´ [o PT] por ´trinta anos´. Num processo por crime de opinião, movido por um parlamentar que goza de imunidade, contra um cidadão comum (seja jornalista, sociólogo ou o que for), você, me desculpe o maniqueísmo, só pode ocupar um de dois lugares: o lado da liberdade de expressão ou o lado do cala-boca. Não há meio-termo. Daí que os debates sobre o acerto da opinião de Emir Sader sobre Bornhausen ou sobre a estatura intelectual de Sader sejam, agora, completamente inapropriados – e eu tenho minhas opiniões sobre o que infelizmente disse Marcelo Coelho aqui ou o que desdenhosamente disse, na Folha, o desconhecido Fernando de Barros e Silva aqui , ou o que afirmou, com incomum cretinice, Bárbara Gancia aqui (os dois últimos links para assinantes). Agora, o que importa é uma coisa: você acha que o cidadão deve ser livre, ´neste país´, para achar que as declarações de um senador podem ter sido movidas por racismo, ou acha que não? Por achar que sim, assinei o manifesto de solidariedade a Sader encabeçado pelo meu mestre Antonio Candido. O Biscoito convida: assine você também.

Durante a recente campanha eleitoral, o coronel ex-ARENA, ex-PDS, ex-Frente Liberal e neolulista José Sarney processou a minha amiga blogueira e jornalista Alcinéa Cavalcanti, numa seqüência de ataques covardes que resultaram em condenações a indenização monetária e, pasmem, direito de resposta em blog pessoal que já tinha sido tirado do ar como resultado do próprio processo judicial! Na época, o apoio deste blog a Alcinéa expressou-se aqui, ali, e acolá; o resumão do movimento de solidariedade blogueira a Alcinéa foi feito por mestre Inagaki, da forma classuda de sempre, aqui.

No dia 14 de abril de 2005, Demétrio Magnoli publicou, na Folha de São Paulo, um artigo em que se referia ao Ministro Tarso Genro como o Ministro da Classificação Racial. Tarso, que sempre gostou de se apresentar como ´intelectual´no PT, atualmente está movendo contra Mignoli um processo que ainda aguarda sentença. O Biscoito manda a inequívoca e incondicional solidariedade a Magnoli e o repúdio à infeliz decisão de Tarso Genro.

Em novembro de 2003, o talentosíssimo sociólogo Francisco de Oliveira, lenda viva do pensamento de esquerda no Brasil, referira-se ao então todo poderoso ministro José Dirceu como `espertalhão´ e, ao contrário do que afirmou a Folha de São Paulo, não o chamou de ´safado´, e sim disse, literalmente, A política não se resume a rapapés, salamaleques e golpes de espertalhões que pensam que estão inventando a roda, como esse ministro José Dirceu. Nisso, ele se parece com qualquer político safado do Brasil . Na época, o ex-guerrilheiro e ex-chefe da ´Articulação´ que criou os Delúbios ameaçou publicamente, do alto da sua condição de ministro da Casa Civil, um processo contra Chico. O professor Chico, como cavalheiro que é, emitiu uma retratação meia-boca para acalmar o espertalhão, e evitou-se o processo. Na época em que Dirceu ainda era o ministro poderosão, num site com um público leitor considerável, dentro e fora do Brasil, eu escrevi em inequívoca solidariedade a Chico o ponto número 7 desse texto aqui (alguém que saiba inglês traduza o parágrafo aí nos comentários).

Por isso, leitor que ocasionalmente, de forma educada ou não, tenha questionado a minha defesa do governo nesta campanha eleitoral, dê uma olhadinha no histórico do blog no quesito ´defesa da liberdade de expressão´. Nos comentários a este post, como sempre, você é livre para discordar e achar que uma ou mais dessas quatro vítimas cometeram crime passível de processo. Mas sinto-me obrigado a dizer que qualquer comentário que ataque Chico, Magnoli, Alcinéa ou Sader com injúrias será apagado. No minifúndio deste blog, a palavra final sobre qual comentário ultrapassou a linha da injúria cabe, obviamente, a mim.

De minha parte, acrescento: esse negócio de político com imunidade parlamentar ou ministerial processando cidadão comum por crime de opinião tem que acabar. E você, o que acha? Estou particularmente interessado em saber se você vê alguma diferença importante entre esses quatro casos. Diga lá.



  Escrito por Idelber às 01:43 | link para este post | Comentários (62)


Comentários

#1

Grande Idalba,

Não é de se admirar muito que após pelo menos uma ou duas décadas com faculdades de esquina despejando advogados no mercado, a cultura da litigância tenha chegado entre nós.

Dito isto, tenho que dizer que carrego mixed feelings sobre esta história toda. Vamos fazer algumas distinções. Nos casos de Sader, Chico e Magnoli, temos pessoas bastante conhecidas veiculando suas opiniões em veículos de mídia importantes. Um agravante em qualquer processo de calúnia e difamação é o tamanho da publicidade que teve a injúria. O caso da Alcinéa é diferente, pois ela é uma blogueira e os blogs (ainda) não têm o alcance que os grandes veículos de mídia têm _ embora essa distinção venha se apagando aos poucos.

Dito isto, eu acho que há dois elementos a serem levados em consideração: em primeiro lugar, acho que a luta política é um campo um tanto distinto das querelas privadas, e que os juízes deveriam ou poderiam ter um pouco mais de sensibilidade em julgar casos assim. Especialmente no caso do Sader, o sentenciamento à perda do cargo não guarda nenhuma proporcionalidade com o que foi dito sobre o Senador _ o Sr. Bornhausen certamente não teve sua subsistência ameaçada pelo que o Sader disse, não é?

Por outro lado, as pessoas também tem que ser um pouco mais cuidadosas com o que dizem. Eu também achei o artigo do Sader um pouco raivoso demais e desproporcional ao que o Bornhausen disse. Pode ser até que o Sader tenha informações de coxia sobre o Senador, pode até ser que o Bornhauser tenha uma fazenda de escravos em Santa Catarina _ a prática infelizmente não é incomum entre parlamentares fazendeiros(!) _ mas no frigir dos ovos a resposta dele ao Bornhauser foi acima do tom.

Uma coisa que vivo observando nos blogs americanos é que dificilmente a gente vê, por exemplo, o tipo de troll que se vê pela terra brasilis. Claro, pode ser um certo bias, vai ver os blogs que leio são de melhor qualidade, ou vai ver que eles apaguem os trolls mais rápido que nós, mas não creio, acho que lá a coisa é um pouco mais civilizada no embate de idéias _ o que aliás rende momentos belissimos no exercício da grande arte da ironia. Porque rir com arte de alguém sempre é melhor do que xingá-lo.

abçs!

Hermenauta em novembro 13, 2006 6:01 AM


#2

Idelber,
Acho que todos têm o direito de se sentirem ofendidos, entrarem com processo, e coisa e tal. Mas como o Hermenauta disse, o julgador tem que ser mais responsável ao analisar casos assim, pois realmente a pena do Sader me parece ter sido muito desproporcional ao incoveniente causado ao Bornhausen... "certamente não teve sua subsistência ameaçada pelo que o Sader disse, não é?
Mudando de assunto: não sei se estará aqui, mas 4ª feira, dia 15 - FERIADO - haverá show do Chapéu Panamá, comemoração de 02 anos de banda com convidados especiais no palco. Vc e a minha escritora predileta são nossos convidados, ok?
Será no RECICLO - ASMARE.
Mais informações no site da banda: www.chapeupanama.com
Bjos

Ana em novembro 13, 2006 7:11 AM


#3

Caro Idelber
Acho lamentável a decisão judicial sobre o episódio ‘professor Emir Sader x o senador’. O caminho desta ação seria certamente o ARQUIVAMENTO! O fato dos congressistas possuírem IMUNIDADE QUANTO A TRIBUNA, deveria levar a Justiça a entender que os demais cidadãos possam se expressar publicamente e de forma CONTRÁRIA à dos parlamentares. Com esta prática penso que haveria equilíbrio entre as partes.

O eminente professor Emir Sader, em relação a PUBLICAÇÃO de suas opiniões, NÃO É um “cidadão comum” (na expressão infelizmente popularizada). Ao contrário, ELE É UM CIDADÃO QUE POSSUI MAIS ESPAÇO NA MIDIA que nós outros. Faltou a Emir Sader, no entanto, uma maior CAPACIDADE DE ARGUMENTAÇÃO contra o senador, em assunto especialmente espinhoso. E acabou que o professor caiu em alguma coisa semelhante a uma cilada nas AFIRMAÇÕES GRATUÍTAS ESPERANDO CONTESTAÇÃO, feitas pelo senador. O PIOR É que o senador conseguiu, em grande medida, NEUTRALIZAR suas afirmações estapafúrdias sob a cortina de uma DECISÃO JUDICIAL que aparentemente lhe beneficiou. ASSIM PERDEMOS TODOS com esta decisão que poderá eventualmente se voltar contra cada um de nós.

Não creio, NO ENTANTO, que temos um time de ‘mauzinhos’: Sarney, Dirceu, Bornhausen e Tarso Genro; contra um time de ‘bonzinhos’: Chico, Mignoli, Alcinéa ou Sader. Mas a questão contra ALCINEA, por seu caráter inicialmente informativo e não de franca expressão de uma opinião, revela-se diferente se comparado com os demais apresentados. É injusto.

P.S.
A prova de que há no país um problema BEM MAIOR de falta de eqüidade na relação PODER PÚBLICO x cidadão, é o caso do acesso criminoso à conta bancária do jardineiro pelo ministro da fazenda!

Paulo em novembro 13, 2006 7:43 AM


#4

Olá. Engraçado é que há poucos dias escrevi um post citando também o 1984, de Orwell. Tal obra previu muito do que acontece atualmente, e muito do que pode vir a ocorrer no futuro. É de pasmar.

Edd em novembro 13, 2006 9:22 AM


#5

Desculpe, mas não é MAgnoli, ao invés de MIGnoli?

Eu não entendo a perseguição que rola com o Emir Sader, antes e depois da história do processo do Senador. Se ele e sua obra são tão desimportantes e medíocres como dizem, por que se gasta tanta tinta e tantos pixels na tentativa de desqualificá-lo? Li vários textos dele na internet (meio fracos), vários na Caros Amigos (bem melhores) e o vi falando algumas vezes, no Forum Social Mundial. Pode não ser o mais brilhante intelectual do mundo, está certamente há milhas e milhas de ser um Chico de Oliveira, mas nunca me pareceu o paspalho que pintam por aí.

Eu não sabia do caso do Chico de Oliveira nem do caso do Tarso Genro x Demétrio Magnoli. Que horror, hein? Concordo com o Idelber: em todos esses casos, independente da escala de influência dos processados, não tem como ficar do lado de quem está processando.

Daniel em novembro 13, 2006 9:30 AM


#6

Assino embaixo,

Milton Ribeiro em novembro 13, 2006 10:19 AM


#7

É difícil não concordar que a reação do senador Bornhausen foi ridiculamente desproporcional, histérica e descabida. Mas eu realmente não acho que Emir Sader está lá muito coberto de razão. É preciso pensar e evitar o double standart: será que se falaria a mesma coisa a respeito de liberdade de expressão e censura se o senador Bornhausen (que na minha opinião realmente não é lá flor que se cheire) chamasse Sader de mente suja, mesquinho, despezível, racista, fascista? Isso é crime contra a honra, tipificado claramente no Código Penal. Por mais que haja motivo, sair falando desse jeito é no mínimo ingênuo. Mesmo que moralmente Sader tenha razão (que na minha opinião tb não tem, me parecem dois bobos brigando, um mais errado que o outro), legalmente não tem nenhuma.

Alessandra em novembro 13, 2006 10:59 AM


#8

Gente, no link abaixo há o novo artigo do "desconhecido" (sic) Fernando Barros e Silva. Ali podemos constatar a contradição de Emir Sader como vítima em um processo e testemunha de acusação em outro do mesmo tipo:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1311200603.htm

Qual seria a opinião do blog sobre este segundo processo ?

Juca Azevedo em novembro 13, 2006 11:05 AM


#9

Idelber,

O bloglines não esta atualizando os feeds do Biscoito. Algum problema conhecido?

[]'s

RodrigoSol em novembro 13, 2006 11:06 AM


#10

Extraído do artido de Fernando Barros e Silva:

"Alguns leitores consideraram muito duras ou injustas as palavras que dirigi a Emir Sader na última segunda. Explico-me melhor e agrego novos fatos à discussão, cuja importância vai muito além da estatura do personagem.
No texto do abaixo-assinado em solidariedade a Sader se lê que a decisão do juiz visa "impedir o direito de livre expressão" e "criminalizar o pensamento crítico". Balela.
O manifesto é oportunista e hipócrita. É oportunista porque quem aprova a execução dos dissidentes cubanos não pode ser a favor da "livre expressão". São coisas excludentes -e isso é simples assim.
É hipócrita porque o petista mobiliza contra outro intelectual o mesmo instrumento que condena para si. Embora pouca gente saiba, Sader é testemunha de acusação de um processo em curso contra César Benjamin, vice de Heloísa Helena.
Trata-se, como este que o senador Bornhausen move contra Sader, de um processo por calúnia e difamação. Quem acusa (ou tenta "impedir o direito de livre expressão" de) Benjamin é Ivana Jinkings, grande parceira de Sader e sócia da editora Boitempo. E por quê?
Porque num e-mail de circulação restrita, escrito em 2004 e destinado ao próprio Sader, Benjamin narra como praticamente flagrou a dupla -que, segundo ele, fraudou uma licitação e superfaturou a publicação do livro "Governo Lula: Decifrando o Enigma". Resultado de um convênio com uma fundação alemã, a obra foi publicada pela Boitempo.
O caso está na Justiça e um dia seus detalhes sórdidos (são muitos) virão a público. Sem dúvida menor, esse episódio ilustra no entanto a deterioração e o cinismo de parte expressiva da esquerda brasileira.
Uma esquerda que se vale de manifestos e recorre à patota ao mesmo tempo em que invoca princípios para legitimar sua demanda por impunidade diante da lei e do público. Uma esquerda intelectualmente embotada, incapaz de refletir a sério sobre o alcance da vitória de Lula, tão mais problemática e passível de críticas do que sugerem os slogans triunfalistas repisados pelos que teriam a obrigação de pensar."

Juca Azevedo em novembro 13, 2006 11:08 AM


#11

Daniel, você está certo, é Magnoli. Já corrigi o post, obrigado.

Rodrigo, estamos mesmo com problema no RSS. Estou tentando resolver, valeu o toque.

Obrigado, Ana, infelizmente no dia 15 à noite já estarei no Rio...

Juca, se os detalhes do processo forem os que diz o tal Fernando Barros e Silva, a posição do blog seria clara: a favor de Cesar Benjamin e contra Sader, da mesma forma como fiquei contra Dirceu a favor de Chico de Oliveira.

Daqui a pouco volto para responder aos demais com calma, porque quero expandir um pouco em cima do que disseram Hermê, Alessandra e Paulo. Abraços,

Idelber em novembro 13, 2006 11:17 AM


#12

Não entendi o comentário de Fernando Barros Silva trazido pelo Juca.

Pelo que eu sei, o manifesto é contra a expulsão de Sader da UERJ, não a favor dele incondicionalmente, em qualquer situação e/ou lugar. Se ele falou bobagem, acho que o direito de expressão, inclusive concernente a bobagens, deveria sempre ser observado. Se ele é testemunha em outro processo, tão estúpido quanto o que há contra ele, então que o juiz do outro processo seja mais sábio que o que condenou Sader. E se for o caso, que haja neste outro processo um manifesto também, a favor de Cesar Benjamin.

Enfim, não há porque desqualificar o manifesto, que é a favor da liberdade de expressão, não a favor de Sader.

Daniel em novembro 13, 2006 12:58 PM


#13

Idelber, o assunto é sério, mas devo dizer que ao me deparar com o livro do Orwell pensei que o post era sobre ele, o que seria maravilhoso. Mas tudo bem. Quanto aos bobalhões que criticam sua parcialidade política, deixa eles se fazerem lá na isenção do Reinaldo Azevedo. nem dê bola.

Daniel em novembro 13, 2006 1:31 PM


#14

Infelizmente, estamos sob a regra de ouro: "Quem tem o ouro faz as regras".

Podem me execrar, mas estou olhando minha emigração para Austrália.

Abraços.

Joao Reis em novembro 13, 2006 1:35 PM


#15

Idelber, o mais interessante é que essas ameaças são feitas por muitos daqueles que dizem que lutaram pela volta da democracia. Vivemos uma hipocrisia epidêmica.
gd ab

JULIO CESAR CORREA em novembro 13, 2006 2:22 PM


#16


Otimo post, Idelber.

Apesar de achar a intervenção do Sader completamente despropositada (ele não só chamou Bornhausen de racista, mas também de assassino!), o processo que condenou Sader é falho. Deveria ser dada chance de conciliação, ou como manda a Lei da Imprensa, um retratamento.

Interessante também é verificar que poucas pessoas sabem do caso de Tarso Genro X Magnoli e do PT x Chico de Oliveira. Por que será?

De qualquer modo, creio que faça parte do estado direito a livre expressão, mas toda liberdade tem seus limites. Por que a constituicao veda anonimato? Exatamente porque nos somos responsaveis por aquilo que falamos. O estado de direito dá instrumentos para que a pessoa que se sinta caluniada peça retratamento público. Creio que isso é legítimo. O que está errado no caso de Sader (onde não houve discussões de idéias, como no caso de Magnoli, mas ofensas pessoais) é a punição extrema: Cadeia e demissão do emprego. Se houvesse retratação dos termos, eu não acharia errado.

Alias, vc viu a decisao do juiz no caso Eduardo Jorge? Estah no blogue do Nassif. O juiz condenou o jornal o Globo.

Ah, e parabens pelo Atletico! Primeira divisao. Estou torcendo para o Nautico nao morrer na praia.
Abraco!

Cesar em novembro 13, 2006 3:13 PM


#17

Já assinei a petição pela liberdade de expressão e contra a condenação de Sader. O artigo de Sader não tem nada de calunioso, apenas expressou a opinião dele sobre o senador. Não acredito que a liberdade de expressão seja absoluta. Na minha opinião, manifestações explícitas que incitem a violência contra grupos raciais, políticos, de gênero etc, devem ser punidas exemplarmente. Mesmo insinuações, que tenham como objetivo construir pontos de vista compartilhados contra tais grupos devem ser monitoradas com atenção e cortadas pela raiz. O caso clássico do "perigo judeu" na Alemanha nazista não deve ser esquecido. Filmes, peças e artigos de jornal colaboraram para criar um inimigo para o combalido povo alemão dos anos 30. Começou como "perigo" e acabou em genocídio. Não foi algo impulsivo como o massacre de São Bartolomeu (ao menos na versão que ficou dessa história), foi planejado e pensado desde a chegada de Hitler ao poder. É esse tipo de construção ideológica que Sader denunciou. Essa ação desmesurada contra o Sader tem um óbvio sabor político. Faz parte do "terceiro turno", e certamente tem a ver com a frustração do PFL por sua derrota fragorosa nas urnas, que já se pronunciava quando o senador processou Sader. Todos os artigos que atacam Sader não tocam na questão central da liberdade de expressão, então, não passam de mais uma tentativa de transformar Sader em réu, que deu certo em primeira instância. Ele pode até não ser elegante nos seus escritos, mas estes vão sempre direto ao ponto. Me lembro do "A gargalhada das Hienas", um dos primeiros a sair na Folha durante a crise do mensalão que não tinham como objetivo acusar o governo ou defendê-lo, mas atacar a hipocrisia dos acusadores. Na verdade não me lembro tanto do conteúdo, mas o título me pareceu expressar bem o que via e ouvia entre a tal oposição. Me parece que ali ele foi transformado em alvo. Esperaram pela primeira oportunidade de enquadrá-lo. Espero que o juiz de segunda instância julgue na letra da lei e não politicamente.

Leo Vidigal em novembro 13, 2006 3:20 PM


#18

Caro Idelber,
Muito bom o texto.
Para mim, o caso Sader x Bornhausen é de uma total falta de justiça, mas se deveria dar mais publicidade a esses casos do Tarso x Magnoli, e Sader x Chico de Oliveira, ou ainda Delúbio x Chico de Oliveira como falou este mesmo Fernando Barros na coluna dele da semana passada. Talvez o pessoal esteja abusando da reparação por dano moral.
Acho que o caso da Alcinéia é um pouco diferente, e no caso dela, realmente o processo é injusto e desproporcional...

Jose em novembro 13, 2006 4:10 PM


#19


E tambem hoje o Diogo Mainardi foi condenado na justica por violacao da honra e injuria, num processo movido por jornalista Mino Carta.

"Numa coluna na revista Veja, Mainardi disse que Mino se submetia ao empresário Carlos Jereissati para fazer reportagens contra Daniel Dantas, na revista Carta Capital.

Mainardi também disse que Mino se equipararia aos “mensaleiros”.

Por isso, Mainardi e a Abril foram condenados e vão ter que pagar uma indenização a Mino Carta"

Equiparar Mino a mensaleiros é opinião ou calúnia?

Os casos se avolumam, como a gente pode ver.

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/399501-400000/399983/399983_1.html

Cesar em novembro 13, 2006 4:51 PM


#20

caro Idelber,
curioso é que nos artigos sobre o Sader, que indica o post, a maioria das matérias se inicía com uma avaliação depreciativa das qualidades intelectuais do Sader. Essa opinião gratuita e insinuativa não tem nenhuma ligação com a condenação de Sader, mas reforça a idéia sobre a livre expressão.
Se não estou enganado, Paulo Francis morreu e se livrou de um processo movido pela direção da Petrobrás na justiça americana por calúnia ou difamação, ou os dois juntos, ainda no governo FHC.
Millôr foi processado por Aldo Rebelo pois era contra o projeto deste de proibir termos estrangeiros na lingua portuguesa. Millôr disse que o projeto era uma idioletice (Aldo Rebelo o processou pensando que foi chamado de idiota).
Lula decidiu expulsar o jornalista americano, no caso da bebedeira, dizendo que era para '-servir de exemplo'.
Essa truculência está longe de ser nova, é uma velha companheira nossa. Todos querem intimidar todos e proibir que escrevam coisas negativas um sobre os outros.
Fora o fato dos políticos serem inemputáveis, (só lembrando, os loucos também o são), e do tempo recorde em que o judiciário decidiu dar ganho de causa ao Borhausen, nada de novo na república. A imunidade que nasceu para protegê-los de reis, tornou-os reis.
Existe uma legislação sobre crimes contra a honra, e é um direito de cada um recorrer a ela cada vez que se achar no direito, resta ao tribunal decidir se a ação é cabível ou não, porque também há legislação sobre a liberdade de expressão.
Então eu acho que o olhar deve ser dirigido ao judiciário. E talvez aí fazer alguma consideração sobre o que foi dito no primeiro comentário, sobre ' cultura da litigância'.

frank de morais em novembro 13, 2006 5:19 PM


#21

Caro Idelber

Depois de ler suas linhas, os comentários e o noticiário da noite, chego a conclusão que:

(1) O eminente professor Emir Sader é hoje o que já se chamou no passado de POLEMISTA;
(2) A reação do nosso presidente Lula, em evento com Chaves (da Venezuela), quando ele criticou duramente a imprensa brasileira por emitir opinião contra o governante venezuelano! O QUE NÃO É NADA BOM, especialmente para quem tem memória.

Paulo em novembro 13, 2006 6:16 PM


#22

Olá, Idelber,

Quando eu era moleque, tinha uma brincadeira com meu irmão que consistia em um ir xingando o outro de tudo o que fosse lembrando, até ver quem ficava definitivamente emputecido e ia embora. Na boa, mas as declarações do Bornhausen e o texto do Sader me lembraram a brincadeira. Nem um nem outro tem fundamento nenhum para o que está dizendo. Parece briga de criança.
De verdade, que benefício traz à democracia o cara escrever um texto atacando pessoalmente um político? Se fosse uma acusação de corrupção, de assassinato, de racismo (o de verdade, porque aquilo que o senador disse não tem NADA de racista), ainda vá lá. Mas "Você é feio" e "Vou contar tudo pra minha mãe", sinceramente, não merece nem atenção.
Só estimula agressões, diga-se, criminosas como as que aconteceram um tempo atrás, em que se espalharam cartazes associando o Bornhausen a Hitler.
O cara é um mala, mas peralá, né? Eu processava também.
Não: eu chamava de bobão.


PS: é claro que acho a discussão que você propôs extremamente válida. A pena imputada a Sader é descabida.

Luis T Ladeira em novembro 13, 2006 11:26 PM


#23

Idelber, o FEEDS do biscoito não está mostrando os últimos posts.

Charley em novembro 14, 2006 7:08 AM


#24

Idelber,

Acho essa discussão muito importante e ela me fala muito de perto, por eu ser jornalista. Meus colegas e eu fomos forjados no lema da liberdade de expressão e esse valor costuma ser muito caro aos da minha classe. Durante o século 20, tendo vivenciado duas longas ditaduras de direita, o conteúdo acadêmico ligado aos temas de comunicação, no Brasil, sempre associou o cerceamento à liberdade de imprensa às condutas totalitárias desses governos. Foi, de certa forma, uma dicotomia "cômoda": de um lado, estava a direita e a censura; do outro, a esquerda e a liberdade de imprensa.

Os próprios veículos de comunicação que se imolaram como mártires da censura carregaram nessas tintas. O Estadão sempre pareceu se orgulhar menos de sua história centenária que da intervenção durante o Estado Novo. A Abril, sempre que pode, lembra o recurso da arvorezinha sinalizando a retirada de um texto censurado para a publicação do símbolo da editora. Tais intervenções parecem troféus a esses veículos. Muitos jornalistas, de diferentes gerações, apegaram-se a esse dogma de imprensa livre como sinônimo de luta popular. E, no entanto, o que tem ficado claro nos anos mais recentes é uma postura bem afastada, desses mesmos órgãos perseguidos, em relação aos anseios populares. Estadão e Veja, de fato censurados, parecem hoje mais inimigos das ditaduras de direita não pelo que elas representavam de atraso em relação à igualdade social, mas aos entraves que esses regimes significavam em relação à prática liberal, que parece o grande ideal de sociedade para esses veículos.

Ficamos diante de um limite tênue: aceitamos a imprensa como agente de investigação e denúncia de condutas inadequadas na vida pública, OK. Mas como garantir que ela mesma não esteja a serviço de uma causa que pode simplesmente ser o interesse econômico de um grupo, ou uma perseguição ideológica, ou um contencioso pessoal?

O que me parece alentador é o fato de que uma parcela de leitores desses órgãos está atenta para o fato de que a imprensa eventualmente comete abusos, advoga em causa própria ou de um grupo de interesses e eventualmente não se sustenta como delatora imparcial de fatos incontestáveis. Essa percepção tem ficado clara, para mim, na leitura das cartas de leitores de alguns desses órgãos (aliás, a sova recebida pelo diretor de jornalismo da Globo, no Observatório da Imprensa, foi um dos exemplos mais evidentes dessa consciência ampliada dos leitores/espectadores).

Seu post expressa exatamente o que penso. Todos - figuras públicas, imprensa, sociedade em geral - temos responsabilidade com o que falamos. Não há imunidade para o quarto poder. Não há o quarto poder. A imprensa não pode tudo: ela é parte da sociedade como qualquer outra entidade e deve responder por seus atos.

Alessandra Alves em novembro 14, 2006 7:13 AM


#25

Alessandra,

Boa análise.

O perigo, porém, é quando se pretende impor "controles", ainda que "sociais", à mídia. Porque aí temos um problema travestido de solução: assim como não existe o "quarto poder", também não existe o "social" fora do conceito abstrato de social _ porque na hora em que se pretende incorporá-lo como voz institucional, o social vira "social", tão suscetível à captura quanto qualquer órgão de imprensa, e às vezes talvez pior porque chancelada pelo poder público e manipulada pelo interesse político.

Acho que só há um remédio prático possível, e é o que a legislação européia parece tendente a abraçar, que é que o Estado se limite a garantir o pluralismo no "mercado de idéias".

Hermenauta em novembro 14, 2006 8:01 AM


#26

Hermenauta,

A questão do controle externo causou toda aquela grita que nós acompanhamos no caso do Conselho Federal de Jornalismo. Aquilo, na minha opinião, teve um erro de condução anterior a qualquer discussão. Eu também não gosto da idéia de um órgão fiscalizador ligado ao governo, porque me parece aparelho de governo totalitário.

No entanto, será impossível pensarmos em um órgão regulador da ética para veículos de comunicação? Uma entidade independente, formada por representantes do próprio segmento? Isso é utopia ou é sinal de amadurecimento? Afinal, o Brasil não se orgulha de ter um órgão como o Conar, que nada mais é do que uma entidade setorial, regulamentadora do setor da publicidade? Por que a publicidade pode lançar mão de um recurso como esse e o jornalismo não?

O modelo do Conar me parece adequado por vários motivos: é multidisciplinar, ou seja, formado por publicitários de diversos ramos de atuação (agências, veículos, entidades etc.), é aberto à participação da sociedade (em geral, as queixas e denúncias apresentadas contra peças publicitárias partem de cidadãos comuns ou entidades representativas de grupos sociais), prevê a defesa do acusado e o julgamento do caso por um profissional, também publicitário, independente do contencioso. É um processo de primeiro mundo que, no entanto, está circunscrito ao intervalo comercial.

Ou seja: eu, cidadã, posso protestar contra qualquer coisa que se diga e que eu ache ofensiva contra mim, desde que divulgado entre o "estamos apresentando" e o "voltamos a apresentar". O que vai entre uma coisa e outra - a programação jornalística ou artística da emissora - é salvo conduto absoluto dela, e isso não me parece justo nem equilibrado.

Alessandra Alves em novembro 14, 2006 9:01 AM


#27

Idelber, o mais interessante é que após criticar a decisão da Justiça em uma série de posts veio alguém nos comentários comparando o crime de racismo ao... homicidio...

Nem Al Sharpton conseguiu fazer isso...

André Kenji em novembro 14, 2006 9:54 AM


#28

Idelber, na minha opinião existem apenas dois limites à liberdade de expressão:
a boa educação e a calúnia comprovada.
Respeitando-se esses limites, o cidadão tem o direito, conquistado a duras penas diga-se, de se expressar como quiser.
A censura a esse tipo de comentário, a censura a órgãos de imprensa - incluo os blogs como órgão de imprensa - é um resquício totalitário. De direita, de esquerda, ambidestro, tanto faz. É ato autoritário e por esse simples motivo merece meu total repúdio.
Discordo da tua posição política mas, a sua defesa à liberdade de expressão terá sempre o meu apoio.
Um abraço.

Valéria em novembro 14, 2006 10:07 AM


#29

Caro Idelber,

O caso do Emir Sader me parece ser completamente diferente dos outros. O Sader chamou o Bornhausen de Assassino e Racista.

Se você realmente acha que nenhum crime foi cometido, então é importante iniciar uma mobilização nacional para a retirada da Calúnia e da Difamação como crimes previstos no código penal.

Esse negócio de abaixo-assinado me parece uma grande roubada. Ao dizer que não estão apenas se solidarizando com o Sader mas sim em defesa da liberdade de expressão, os signatários se comprometem moralmente a assinar um abaixo-assinado em defesa do Diogo Mainardi e todos os outros que sejam condenados por Calúnia e Difamação.

Homero em novembro 14, 2006 10:56 AM


#30

Só pra constar: bloglines OK!

RodrigoSol em novembro 14, 2006 11:25 AM


#31

Idelber,

Assino em baixo este teu texto, que até me inspirou uma postagem no meu blog: falando em liberdade de expressão, o que pensas sobre o caso de cancelamento do visto daquele jornalista estadunidense que chamou Lula de "beberrão"? E sobre a retratação do Presidente ao jogador da seleção da Nike, Ronaldo, por este ter-se referido pejorativamente ao mesmo suposto hábito de Vossa Excelência?

Beto em novembro 14, 2006 12:08 PM


#32

Acho que qualquer pessoa, até mesmo o Diogo Mainardi, mereceria um abaixo-assinado se a sentença for desproporcional ao delito. O Mainardi tem um monte de processos em cima dele, perdeu vários, mas ninguém o condenou a perder o posto de arruaceiro da Veja. E olha que o texto do Emir Sader parece escrito por um coroinha perto dos textos do Diogo Mainardi.

Daniel em novembro 14, 2006 12:16 PM


#33

HAHAHA! Muito boa a comparação do Beto, entre o jornalista americano e o Ronaldo Fenômeno. Acho que na verdade são casos diferentes. O Ronaldo na verdade estava lembrando o Presidente que ele, Presidente, também já havia sofrido, com a história da suposta predileção por biritas, o mesmo que ele, Ronaldo, com a história do suposto excesso de peso.

Ou então o Presidente não tinha prá onde expulsar o Ronaldo, já que este já foi embora do Brasil há um tempão atrás.

Daniel em novembro 14, 2006 12:23 PM


#34

Alessandra,

Estamos de acordo, um órgão de auto-regulamentação poderia ser útil. Seria interessante conhecermos a história do CONAR para saber como e porque as empresas de publicidade chegaram a este ponto e porque os órgãos de mídia até hoje não o fizeram. Principalmente quando sabemos que os veículos de mídia também fazem parte do CONAR...

Eu tenho algumas hipóteses: embora a persona pública do CONAR seja muito identificada à ética, acho que há aspectos óbvios do negócio que exigem algum grau de coordenação. Por exemplo, o CONAR tem preocupação expressa com a propaganda comparativa, que é vista no meio como uma forma rápida de arranjar problemas com clientes _ passados ou futuros, já que tudo está bem enquanto a publicidade fala bem de seu produto, mas a coisa se complica quando você tem que falar mal do produto concorrente daquele do seu cliente _ mas que pode ser seu cliente amanhã.

Esse é só um aspecto, existem outros, como direito autoral, concorrência desleal, propaganda enganosa e outros, que podem afetar a lucratividade da indústria de publicidade como um todo _ e cuja regulamentação, claramente, tem muita importância para os próprios players.

Resta saber se os veículos de mídia teriam interesse em se organizar para fazer algo assim. Eu posso imaginar vários motivos pelos quais eles não o teriam. Por exemplo, a liberdade para falar mal de alguém dá a um determinado órgão de mídia um grande poder de barganha política _ tanto maior quanto mais influente é o órgão.

Enfim, é uma discussão beeeem complicada, essa.

abçs

Hermenauta em novembro 14, 2006 12:54 PM


#35

obrigado pelo comentário, bicho.
:>)
beijo no povo.
:>*

Biajoni em novembro 14, 2006 1:36 PM


#36

Para quem ainda não leu o polêmico artigo de Sader:

Juca Azevedo em novembro 14, 2006 2:25 PM


#37

Tomei a liberdade de embutir o link para não esticar a página, Juca. O post trazia o link ao artigo de Sader :-)

Idelber em novembro 14, 2006 3:17 PM


#38

Idelber,

Desculpe, acabei me empolgando na discussão sobre o órgão regulador da imprensa e não respondi ao seu interesse primeiro, que era saber a opinião dos leitores sobre os casos por você listados.

Eu acho que há diferenças entre eles, embora sejam todos relatos de políticos processando cidadãos que se manifestaram pela imprensa. A diferença maior, para mim, está na truculência dos casos ganhos de Bornhausen e Sarney, que extrapolaram a fronteira do veículo de imprensa e foram bater na atuação civil dos dois ofensores (a cadeira de professor de Sader; a condenação monetária a Alcinéia e a suspensão de seu blog pessoal, aliás já suspenso).

Peço licença para transcrever um trecho de uma coluna que escrevi em junho no ww.gptotal.com.br, sobre liberdade de expressão:

"Minha posição pessoal sobre a liberdade de expressão alinha-se com um conceito muito antigo e conhecido, o do respeito ao outro. Manjado, né? Minha liberdade termina onde começa a do outro, é isso aí. Costumo dizer que a defesa intransigente da liberdade irrestrita de expressão é o "manifesto do macho adulto branco", como já escrevi no meu blog: o combate ao politicamente correto me parece muito arraigado na tradição paternalista, machista, elitista de quem nos dirige. O "macho adulto branco" é meio inatacável nesse sentido: ninguém faz piada de homem burro (ou que não sabe dirigir), de heterossexual, de branco. Ser um "macho adulto branco" é como ter um salvo conduto: pode rir de todas as piadas (de loira, de homossexual, de negro, de árabe, de idoso), propagá-las à farta, pois estará resguardado delas."

É detestável ver políticos acuando jornalistas, mas também é muito ruim sentir-se presa de quem se julga acima de todos os julgamentos, como às vezes acontece com alguns representantes da imprensa. Respeito é a chave.

Alessandra Alves em novembro 14, 2006 3:28 PM


#39

Talvez eu tente parecer simplista demais.
Talvez.
Qualquer tipo de liberdade de expressão, é delimitada.
Código Penal.
Crimes de injúria, difamação e calúnia.
Alguém tem uma única justificativa lógica, coerente, inequívoca, e pelo menos minimamente justa para que representantes da imprensa não tenham que se submeter a esta delimitação?
Do ponto de vista legal, não dá pra "ficar de um ou de outro lado". É preciso estabelecer a verdade dos fatos, se houve crime, deve haver punição.
Não somos competentes para isso. A justiça é.
Se achas que deve-se discutir o judiciário...bom... ai é outra história.

Roger em novembro 14, 2006 4:21 PM


#40

//modo politicamente correto off

"O "macho adulto branco" é meio inatacável nesse sentido: ninguém faz piada de homem burro (ou que não sabe dirigir), de heterossexual, de branco"

Ei, eu nunca vi piada de português viado, Manuel e Joaquim sempre são brancos, burros e heterossexuais. :)

//modo politicamente correto on

Hermenauta em novembro 14, 2006 4:23 PM


#41

Para comentar rapidamente algumas coisas levantadas:

Concordo que há que se fazer distinções: dos quatro casos levantados aqui, somente o Sader inclui termos que realmente poderiam ser julgados como daninhos à honra do atacado. Nem "ministro espertalhão" nem " Ministro da Classificação Racial" nem muito menos, claro, a foto de uma charge num muro publicada num blog tem condição de atingir a honra de um senador ou ministro (é incrível como quanto mais a gente analisa mais fica claro o dantesco-orwelliano que foi / é o caso da Alcinéa).

É verdade que o Sader pegou pesado. Mas não é verdade que ele tenha chamado Bornhausen de assassino, da mesma forma como Chico de Oliveira não chamou Dirceu de safado. O dito por Sader, literalmente, é: Não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram – roubando, explorando, assassinando trabalhadores.

Pesado? Pesadíssimo. Mas bem diferente de que se tivesse dito Bornhausen é assassino. Nos processos de calúnia, injúria e difamação a referência exata ao que foi dito - especialmente no que tange à diferença, por exemplo, entre atribuir crime a alguém e atribuir crime a "pessoas como o sr.", ou entre dizer "tal frase de fulano tem conteúdo racista" e " fulano é racista".

A pena a Sader foi 1. protocolarmente falha por não dar chance de retratação; 2. particularmente desproporcional por se tratar de alguém com imunidade parlamentar processando um cidadão comum; 3. descabida no que se refere à perda do cargo na UERJ. Inclusive já foi recomendada reversão de decisão.

Daí que eu não entenda a comparação que alguns leitores fazem entre a condenação a Mainardi e a condenação a Sader. Mino Carta não é deputado nem ministro. Mainardi, do alto de um veículo bem mais poderoso do que a tribuna que tem Mino para se defender (a tiragem da Veja deve ser, quanto? 10 vezes maior que a da Carta Capital?), atacou sua honra. Mino, como cidadão comum, foi lá na justiça buscar e ganhou. Não sou a favor de que se modifique nenhuma das leis de calúnia, injúria e difamação. Estão legais como estão.

Mas sou, sim, contra Senador e Ministro disparar essa artilharia pesada nesses casos. Precisamente pelo que o Hermê colocou: o tamanho da publicidade que teve a injúria. A Agência Carta Maior não é um blog, mas não é o Jornal Nacional. E o Bornhausen tem acesso à tribuna do Senado para se defender. No fundo acredito que é a limitação do poder de parlamentares com imunidade de processar cidadãos comuns por crime de opinião é o que eu acho que eu gostaria de ver repensada.

Idelber em novembro 14, 2006 5:07 PM


#42

Discutir a sentença é fácil, ela é absurda. Difícel é ter coragem de analisar o texto de Emir Sader. O Marcelo Coelho deixa claro que não concorda com os processos, e muito menos com a condenação, mas FELISMENTE Idelber, ele tem opinião. O Marcelo diz que o artigo do sociólogo é " violento e insignificante", eu pessoalmente acho que o texto é só insignificante, a violencia é teatral, ela não é pra valer. O objetivo central do texto é chamar de abjeto o senador, deixando claro que a esquerda, o povo não vai permitir que eles voltem ao poder. Como não vão permitir? Quero crer que sociólogo se refira ao voto. A experiencia diz que em política, "ser ou não ser" abjeto é uma questão de conviniência. Quantos parceiros atuais do presidente Lula foram tratados pelo PT como Abjetos? O texto do sociólogo é insignificante porque ele não se sustenta, ele não trata os "abjetos" da base aliada com a mesma intensidade.

mauro alvim em novembro 14, 2006 8:31 PM


#43

Se trocarmos bando por raça e cortar na própia carne por banir por trinta anos, o Lula teria dito:
Essa raça de aloprados deveria ser banida da vida pública por trinta anos.

O Emir Sader criou um factoide.

mauro alvim em novembro 14, 2006 9:34 PM


#44

Para terminar Idelber, Acho que você teria como obrigação, dizer sua opinião sobre o que disse o Marcelo Coelho.

Mauro alvim em novembro 14, 2006 9:45 PM


#45

Hermenauta

Simples: a publicidade brasileira é profissional, o jornalismo amador.

André Kenji em novembro 14, 2006 9:58 PM


#46

Mauro, sobre o que disse Marcelo Coelho, acho duas coisas:

1. Foi infeliz a declaração "quem escreve assim não merece o título de intelectual". Ora, o "título" de intelectual não é um estatuto de nobreza; pelo contrário, o termo sempre significou "trabalhador não braçal (escritor, professor, crítico, etc.) que se ocupa de assuntos da política, da democracia, da comunidade, que intervém na polis mais além de sua área de especialização". Se M. Coelho procurasse, encontraria textos de Marx, Sartre, Zola ou qualquer outro "intelectual" que têm o mesmo tom que o de Sader. Poder-se-ia dizer, inclusive, que TODOS os intelectuais, no sentido estrito da palavra, já escreveram assim. Todos já escreveram libelos.

2. num momento em que alguém é condenado por um texto, acredito que é infeliz dizer que o texto é "insignificante". Para o condenado, a estas alturas, quem dera o texto fosse insignificante!

Acredito que esses dois gestos foram infelizes pelas razões explicadas no post: quando alguém é condenado assim, ou se está solidário ou não. Discutir a qualidade do texto é fugir do assunto que realmente importa, a sentença.

Idelber em novembro 14, 2006 11:21 PM


#47

Do jeito que as coisas vão não demora muito chamar de antipático para qualquer político vai ser crime.
Me preocupa muito a maneira como a Justiça brasileira vem agindo, me parece que há uma relação promíscua entre alguns membros do judiciário e políticos.
A censura interessa - e muito - ao Judiciário.Alguém aqui já viu transparência nas contas do judiciário? Alguém sabe, por exemplo, quanto um desembargador custa por mês a um estado?

Alcinéa Cavalcante em novembro 15, 2006 12:37 AM


#48

Esqueci de dizer no comentário anterior
A imunidade parlamentar tem que acabar.

Já assinei o manifesto.

Alcinéa Cavalcante em novembro 15, 2006 12:48 AM


#49

Obrigado pela atenção.
Estar solidário não é impecilio para o senso crítico, antes é estar atento, para o melhor uso da atividade racional. Acredito ser possível criticar os dois lados, e o fato de não o fazer, neste caso, é a clara incapacidade humana de reconhecer no outro o direito de perceber e daclarar nossas "falhas". "Não se engane Idelber, é isto que esta em jogo. "O Bando de aloprados" possibilitou algo que vai muito além do segundo turno. Antes a militancia aguerrida do PT era a única com "legitimidade" para patrulhar. Isso acabou. O artigo de Emir Sader é no fundo,uma tentativa reacionária de nos esconder esta mudança.

Mauro alvim em novembro 15, 2006 8:45 AM


#50

Subscrevo a todas as palavras de Barbara Gancia. Um candidato a embaixador das Farc como esse criptostalinista merece o repúdio de todos. E é evidente que um fundamentalista desses deve praticar proselitismo ideológico na sala de aula. Você não gostou porque tocou alguma ferida?

Nerac em novembro 15, 2006 1:39 PM


#51

Psor,

desculpe se repito algo que já tenha sido dito, estou com pouco tempo pra ler todos os comentários.

Emir Sader tem todo o direito de fazer discursos inflamados, sem educação, até mesmo chamando palavrão se quiser. Porém, errou em uma coisa: ao chamar o senador de racista, acusou-o de um crime inafiançável.

E não há provas que o senador tenha feito alguma ato racista.

Essa é minha visão.

[Absurdo ele ser demitido por causa disso. ]

Menina-Prodígio em novembro 15, 2006 4:13 PM


#52

Caro Idelber,

Acho que você sabe que o Racismo é crime inafiançável no Brasil. Para a legislação brasileira, Racismo é pior que assassinato. É exatamente desse crime que Emir Sader acusa o senador várias vezes em seu artigo, e só uma vez o chama de assassino.

Pode-se ler o artigo do Emir Sader ao clicar no seguinte link:

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=2171&alterarHomeAtual=1

Logo no começo do artigo está escrito o seguinte:

"“A gente vai se ver livre desta raça (sic), por, pelo menos, 30 anos” (Jorge Bornhausen, senador RACISTA e BANQUEIRO do PFL)"

Além de dizer uma inverdade, que o senador é banqueiro, o autor afirma que o senador cometeu um crime inafiançável, o racismo. Não há outra forma de interpretação possível.

Ao longo do texto o Emir Sader afirma várias vezes que o senador é racista, fascista e banqueiro, que para ele também é xingamento:

"O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares, do governo Collor, do governo FHC, do governo Bush, revela agora todo o seu racismo e seu ódio ao povo brasileiro com essa frase"

"Repulsivo, não por ser loiro, proveniente de uma região do Brasil em que setores das classes dominantes se consideram de uma raça superior, mas por ser racista e odiar o povo brasileiro."

É interessante notar que Emir Sader se acha injustiçado por cometer um "crime de opinião", mas pede punição exemplar para o senador pelo mesmo "crime de opinião":

"Ele merece processo por discriminação, embora no seu meio – de fascistas e banqueiros – sabe-se que é usual referir-se ao povo dessa maneira."

Se a frase não significa que o autor chamou o senador de assassino, significa pelo menos que o senador é cúmplice de assassinato:

"Não, senhor Bornhausen, nosso ódio a pessoas abjetas como a sua, não os deixará livre de novo para governar o Brasil como sempre fizeram – roubando, explorando, assassinando trabalhadores."

E para finalizar o brilhante artigo, Emir Sader não deixa dúvidas que o senador cometeu o crime de racismo:

"Saiba que o mesmo ódio que devota ao povo brasileiro e à esquerda, a esquerda e o povo brasileiro devotam à sua pessoa – mesquinha, desprezível, racista."

Não é possível duvidar que o Sader chamou o senador de assassino e de racista, entre outros xingamentos, sem margem à interpretação.

O que eu acho mais constrangedor é o fato de signatários do abaixo-assinado em defesa de Emir Sader afirmarem defender a liberdade de expressão, mas não assinarem abaixos-assinado em casos semelhantes quando os autores não pertencem à "panelinha".

Afinal a Ivana Jinkings está processando o César Benjamin, candidato à vice-presidente na chapa do PSol, num processo onde o próprio Sader é testemunha de acusação.

Ou seja, o Sader acha que não fica bem na pele de Acusado, mas adora se travestir de Carrasco.

Homero em novembro 15, 2006 7:13 PM


#53

Sobre a questão levantada no post acima, seria interessante ler a manifestaçao˜da Ivana Jinkings neste link.
http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12824

Leo Vidigal em novembro 15, 2006 7:36 PM


#54

Simples como um raio: tem que acabar. Inclusive a imunidade parlamentar.(do jeito que está obviamente).

Edkallenn em novembro 15, 2006 9:06 PM


#55

É isso mesmo. O emérito professor Emir Sader parece flertar com a CENSURA!
Da minha parte prefiro a liberdade de imprensa.

Paulo em novembro 16, 2006 8:58 AM


#56

Esse caso entre o Benjamin, a Ivana e o Emir mostra bem como funciona certos mecanismos...

Só para resumir em sua "defesa" na a Ivana acusa estar sendo atacada pela "direita". É essa única defesa de muitos. Sempre quando um crime lhes é imputado sempre a saíde é acusar a direita... mesmo quando essa direita é o Benjamin vice na chapa do PSOL. É mole?

Resumindo o caso trata-se de um superfaturamento de um projeto do Benjamin que por sua decisão foi para dentro da UERJ no instituto dirigido pelo Emir. Edição de um livro. Benjamin, pelos seus motivos queria editar o livro em sua editora (foi ele que levantou os fundos de organizações esquerdistas na Alemanha), por decisão do Emir, que impôs sua coordenação no projeto, deveria haver uma licitação de pelo menos três editoras. Bejamin concordou.

E não é que por engano, Emir não mandou um email para o Benjamin, onde ele combina com a Ivana a publicação do livro pela sua editora? Logicamente SUPERFATURADO.

A UERJ se livou de um peso...

Pablo Vilarnovo em novembro 16, 2006 12:45 PM


#57

Parte do processo que corre na 4ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Território (retirado do site do odiado Reinaldo Azevedo):

Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2004
Prezados colegas:
Chegando de viagem no domingo à noite, leio a mensagem da secretária Fabiana, que me comunica a “proposta final” de reformatação do nosso projeto para 2005-2006. Sinto-me envergonhado por vocês. Eu estava presente no ambiente em que as reuniões se realizaram, mas nunca fui comunicado delas e nunca as percebi.


O ponto de partida dos problemas ocorreu há alguns meses, quando, em reunião ordinária, com a presença de todos, fui surpreendido pelo pedido de Emir Sader de que eu cedesse a ele a coordenação. Achei o pedido indelicado, mas me senti constrangido de negá-lo. (...) Estabeleceu-se uma hierarquia rígida e cada vez mais opaca. As decisões foram centralizadas e tornaram-se crescentemente inacessíveis. Nenhuma informação mais circulou. As próprias reuniões ordinárias do projeto deixaram de existir. Em vez de um coordenador, passamos a ter um chefe. (...)

Qualquer um que passe os olhos pelos textos preparados por Emir Sader poderá reconhecer sem dificuldades que eles transitam da nulidade à insignificância. Alguns, por excesso de raquitismo, chegam a ser ofensivos à inteligência alheia. Mal pensados, mal estruturados, mal escritos e malfeitos, servem apenas para reforçar nos leitores menos sagazes a idéia de que política se reduz a intrigas entre ministros e disputas entre candidatos. (...); essa maneira de tratar a política é deseducativa, para dizer o menos.

(...)Hoje, penso que seria interessante se conseguíssemos recapitular como uma pessoa chamada para desempenhar uma tarefa específica, no âmbito de um projeto, consegue estragar a tarefa para a qual havia sido chamada e, simultaneamente, por meio de sucessivas manipulações, obter um poder despótico, exclusivo, patronal, sobre todo o projeto. Há uma explicação: quem não tem cão caça com gato; quem não tem talento e disposição para trabalhar precisa agarrar-se ao poder.

(...) o episódio da publicação do livro Governo Lula: Decifrando O Enigma, que reuniu nossos textos, deve ser citado, por ser exemplar. Num primeiro momento, havíamos combinado, por consenso, que a Contraponto (editora da qual sou sócio) faria o livro. As vantagens disso eram a praticidade e a confiabilidade, na medida em que assim eu me tornava completamente responsável, diante da equipe e da Fundação, por assegurar a melhor combinação possível de qualidade, velocidade e custos. Num momento posterior, com o trabalho de edição em andamento, Emir, já formalmente coordenador, me comunicou que a combinação que havíamos feito não poderia ser mantida, pois as regras da Fundação exigiam que fizéssemos uma concorrência entre três editoras. Não lhe retirei a razão. Regras são regras. Comuniquei então que não achava ético que a Contraponto participasse da licitação, pois, como integrante do projeto, isso me colocaria na incoerente posição de licitante e licitado. Pedi que buscássemos três outras editoras interessadas.


No mesmo dia, por erro de endereçamento, entrou em minha caixa postal uma mensagem em que Emir combinava com a Boitempo (editora de sua namorada) a preparação do mesmo livro. Redigi uma longa carta a Emir, dizendo que nossos padrões éticos eram diferentes e alertando-o explicitamente para o fato de que, em geral, a fraude em licitações conduz a superfaturamentos, o que seria inaceitável no âmbito do nosso projeto. Minha advertência não adiantou: o livro foi feito pela Boitempo, por meio de uma licitação fraudada, com visível superfaturamento. Fiquei muito constrangido diante da Fundação. E compreendi, definitivamente, o tamanho da arrogância e do sentimento de impunidade do nosso auto-empossado coordenador.

(...)

Tenho consciência de que meus próprios erros originaram os problemas. De volta da Alemanha, onde desenhamos conjuntamente o projeto, fui eu quem levou Joachim Wahl à casa de Emir Sader, a quem convidei para que preparasse os textos regulares sobre política. Fui eu quem propôs que o projeto se alojasse no LPP da UERJ. Fui eu quem entregou pacificamente a coordenação que, na origem, me cabia e era exercida democraticamente. Tudo o que posso dizer é que agi de boa-fé. Pensava estar lidando com um intelectual respeitável e uma pessoa de bem. Estava duplamente equivocado.
Atenciosamente,
César Benjamin

Pablo Vilarnovo em novembro 16, 2006 12:49 PM


#58

Gente, o negócio vai longe. O Rogério Cézar de Cerqueira Leite escreveu um artigo na Folha de hoje defendendo o Emir Sader e tentando incluir dúvidas nos elementos jurídicos do processo. E o odiado blog do Reinaldo Azevedo fez uma das mais destruidoras desconstruções que já vi na vida. Em um post, ele simplesmente arrasa todos os argumentos do renomado físico e em outro lista as razões pelas quais o artigo foi escrito. Para os admiradores da arte da argumentação, vale a pena a visita ao odiado blog.

Juca Azevedo em novembro 16, 2006 1:51 PM


#59

A Direita, sempre que quer "discutir" este assunto, o faz da maneira usual: jogando areia no ar para que não se veja nada claramente. Exatamente por isso, vale a pena colocar que:

1-A qualidade intelectual e a proficiência profissional do Professor Sader, o fato dele estar envolvido numa pendência com César Benjamin, e assuntos conexos, são IMATERIAIS do ponto de vista da questão maior em pauta, que é a tentativa da Direita, que acabou de perder o monopólio ideológico na última eleição, de continuar pautando o debate político neste país em termos de suas preferências, que é o que se quer fazer pela via da indução à auto-censura.

2-Quanto ao significado de "raça": um nobre do Antigo Regime poderia orgulhosamente dizer: "o primeiro da nossa raça foi Tructesindo, que teve solar em Treixedo" (Obrigado, Eça). "Raça" traduz a idéia de linhagem, de comunidade de sangue, de espécie. Dizer que o PT é uma "raça" é separar implicitamente seus partidários e aderentes da condição humana geral - desumanizá-los, na verdade. Daí ao episódio contado pelo Alfredo Sirkis nas suas memórias, do direitista que em 1968 açulava um policial a espancar um estudante: "bate, que isso aí não é gente!" qual é o espaço que falta? Grande ou pequeno? O dever de ter cuidado com as palavras é algo que aplic´-se a todos, não só aos nossos desafetos...

Anonymous em novembro 18, 2006 1:22 PM


#60

No caso da sentência contra Emir Sader, mesmo os mais decididos defensores do sociólogo, se referem com especial ênfase à liberdade de opinião e, talvez pelo hábito que os intelectuais temos de valorizar essa liberdade, é difícil encontrar referências a aspectos mais perversos que a sentença do patético juiz Mûller mostra com exagerada crueza.
Inclusive, há algunas pessoas muito conhecidas no mundo do direito, que permanecen anónimas, que têm certeza de que essa sentência foi redigida pelos assessores do senador e apenas assinada pelo juiz. Não sei se isto é verdade, mas não acho tão raro.
Independemente de que, en alguns aspectos, a denúncia de Sader possa ter sido muito emocional, o que, em princípio não nego, é absolutamente óbvio que ela foi usada de pretexto para um processo de aterrorização de intelectuais e, em geral, de qualquer pessoa que tenha opinião independente. Ilustres membros do MP tem mostrado a exacerbação doentia do juiz para encontrar crimes onde, obivamente não existem. Quem leu a alegação do promotor do julgamento, pode ver que este se espanta de que o juiz tenha incluído inclusive critérios denegrintes contra a obra científica de Sader, como se isso tivesse algo a ver.
O que está em jogo, não é apenas cercear a liberdade de opinião. Isto seria muito grave, não duvido, qualquer que seja a ideologia da vítima. O que realmente aparece é um processo de continuidad ao terrorismo de estado, que parecia estar morto no Brasil, o qual é muito mais grave. É uma advertência aos intelectuais "calen a boca, não defendam esses negros favelados e criminosos, porque todos vocês vão apanhar". Qualquer pessoa que conheça em detalhe nossa vida Universitária, sabe que a UERJ sempre esteve na mira das forças mais reacionárias, covardes, e servis de nosso establishment, por ser a única universidade pública do Sudeste, onte tanto professores como alunos de origem e ideologia popular não são minoria absoluta, como na USP ou na Unicamp.
O Caso Sader é uma reedição da Rosa Branca, de 1943. Neste caso não há pena de morte porque os sicários no picadeiro não têm toda essa força, embora poderiam adquiri-la. Afinal, essa pena já foi defendida por conhecidos ideólogos do neo-nazismo não alemão (afinal, nem todo nazismo é alemão!), há três anos, quando pediu a pena de morte para um adolescente negro que tinha matado una adolescente branca e rica, numa passeata de vingança social representada em São Paulo.
Creo que as críticas pontuais são necessárias, porém não suficientes.
Concordo con o resto das pessoas dignas e progresistas que o governo Lula continua a economia neo-liberal que existia antes, que se curva perante as elites, etc., mas não pode negar-se que o governo defende, pelo menos teoricamente, a dignidade dos setores mais explorados, pretende construir novas universidades (para arrepio dos cientistas corporativos), se alinha de lado dos que não se ajoelham perante a Casa Branca.
Essas são as verdadeiras razões desta monstruosa sentência. Não é apenas que o juiz tenha tanta compaixão pela honra do senador e os honestos cidadãos que os votaram.
Creo que é necessária uma ação de impeachment contra esse lastimoso remedo de magistrado, recorrendo, se for míster, a organismos internacionais de defesa do direito.
Qualquer pessoa que se identifique con esta proposta pode me enviar um e-mail. Tenho começado a fazer alguns contatos, ainda não completos com organismos jurídicos da OEA, e, mesmo que não se consiga o impeachment, deve demonstrar-se que é necessário mais que cagüetes e delatores para assustar aos que queremos uma sociedade mais digna.
A prioridade não é tanto defender a Sader (embora seja importante) como derrotar todo este lixo aninhado nos poderes públicos.
Carlos Lungarzo
UNICAMP-Ex UERJ-CNPq

Carlos Lungarzo em novembro 27, 2006 12:01 PM


#61

Esquecia.
Sou o autor da mensagem #60.
Meu e-mail é

carlos.lungarzo@gmail.com

Carlos Lungarzo em novembro 27, 2006 12:07 PM


#62

Acusar, sem provar, sem fundamentos, merece punição, afinal o direito de livre expressão deve ser acompanhado pela responsabilidade dos próprios atos. Um texto de crítica não precisa ser agressivo, nem difamador, à moda de agitador soviéticos [manipulados pelos chefes do partido] para incitar populações à parte dos fatos. Quando se usa de jargões fortes, perde-se a razão, e a avaliação do conteúdo do texto é sobrepujada pelo crime de calúnia, sendo esta prática, portanto, totalmente ineficaz [referindo a Emir Sader, por exemplo]. Não que o Senador Bornhausen tenha um histórico divinal de atos, mas não é assim que se constrói um movimento "esquerdista". Quanto ao caso do ministro Tarso Genro, sou totalmente contra o processo. Nesse caso é clara a intimidação, pelo uso da máquina pública, para cercear o pensamento crítico. Como exemplo para ilustrar o vexamento que esta classificação gerou, minha mãe, professora em um colégio estadual, e exercendo à época o cargo de secretária, acabou muito pouco à vontade ao ter que estabelecer a definição de cor de pele/raça para diferenciar, evidentemente, os discentes. Uma atitude muito infeliz por parte do ministro, que pode ser criticada, dentro da norma moral de respeito (e portanto dependente de bom-senso, coisa que está escassa nestes tempos).

Anonymous em novembro 27, 2006 3:26 PM


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