Meu Perfil
Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



Email:
idelberavelar arroba gmail ponto com

No Twitter No Facebook No Formspring No GoogleReader RSS/Assine o Feed do Blog

O autor
Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane


Histórico
 setembro 2015
 dezembro 2014
 outubro 2014
 maio 2014
 abril 2014
 maio 2011
 março 2011
 fevereiro 2011
 janeiro 2011
 dezembro 2010
 novembro 2010
 outubro 2010
 setembro 2010
 agosto 2010
 agosto 2009
 julho 2009
 junho 2009
 maio 2009
 abril 2009
 março 2009
 fevereiro 2009
 janeiro 2009
 dezembro 2008
 novembro 2008
 outubro 2008
 setembro 2008
 agosto 2008
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 A eleição de Dilma
 A eleição de Obama
 Clube de leituras
 Direito e Justiça
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Junho-2013
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Palestina Ocupada
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Indispensáveis
 Agência Carta Maior
 Ágora com dazibao no meio
 Amálgama
 Amiano Marcelino
 Os amigos do Presidente Lula
 Animot
 Ao mirante, Nelson! (in memoriam)
 Ao mirante, Nelson! Reloaded
 Blog do Favre
 Blog do Planalto
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blogueiras feministas
 Brasília, eu vi
 Cloaca News
 Consenso, só no paredão
 Cynthia Semíramis
 Desculpe a Nossa Falha
 Descurvo
 Diálogico
 Diário gauche
 ¡Drops da Fal!
 Futebol política e cachaça
 Guaciara
 Histórias brasileiras
 Impedimento
/  O Ingovernável
 Já matei por menos
 João Villaverde
 Uma Malla pelo mundo
 Marjorie Rodrigues
 Mary W
 Milton Ribeiro
 Mundo-Abrigo
 NaMaria News
 Na prática a teoria é outra
 Opera Mundi
 O palco e o mundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pedro Alexandre Sanches
 O pensador selvagem
 Pensar enlouquece
 Politika etc.
 Quem o machismo matou hoje?
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Rede Brasil Atual
 Rede Castor Photo
 Revista Fórum
 RS urgente
 Sergio Leo
 Sexismo na política
 Sociologia do Absurdo
 Sul 21
 Tiago Dória
 Tijolaço
 Todos os fogos o fogo
 Túlio Vianna
 Urbanamente
 Wikileaks: Natalia Viana



Visito também
 Abobrinhas psicodélicas
 Ademonista
 Alcinéa Cavalcante
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Alguém testou
 Altino Machado
 Amante profissional
 Ambiente e Percepção
 Arlesophia
 Bala perdida
 Balípodo
 Biajoni!
 Bicho Preguiça
 Bidê Brasil
 Blah Blah Blah
 Blog do Alon
 Blog do Juarez
 Blog do Juca
 Blog do Miro
 Blog da Kika Castro
 Blog do Marcio Tavares
 Blog do Mello
 Blog dos Perrusi
 Blog do Protógenes
 Blog do Tsavkko, Angry Brazilian
 Blogafora
 blowg
 Borboletas nos olhos
 Boteco do Edu
 Botequim do Bruno
 Branco Leone
 Bratislava
 Brontossauros em meu jardim
 A bundacanalha
 Cabaret da Juju
 O caderno de Patrick
 Café velho
 Caldos de tipos
 Cão uivador
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinema e outras artes
 Cintaliga
 Com fé e limão
 Conejillo de Indias
 Contemporânea
 Contra Capa
 Controvérsia
 Controvérsias econômicas
 Conversa de bar
 Cria Minha
 Cris Dias
 Cyn City
 Dançar a vidao
 Daniel Aurélio
 Daniel Lopes
 de-grau
 De olho no fato
 De primeira
 Déborah Rajão
 Desimpensável/b>
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Didascália e ..
 Diplomacia bossa nova
 Direito e internet
 Direitos fundamentais
 Disparada
 Dispersões, delírios e divagações
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Dossiê Alex Primo
 Um drible nas certezas
 Duas Fridas
 É bom pra quem gosta
 eblog
 Ecologia Digital
 Educar para o mundo
 Efemérides baianas
 O escrevinhador
 Escrúpulos Precários
 Escudinhos
 Estado anarquista
 Eu sei que vivo em louca utopia
 Eu sou a graúna
 Eugenia in the meadow
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Foi feito pra isso
 Fósforo
 A flor da pele
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Gabinete dentário
 Galo é amor
'  Garota coca-cola
 O gato pré-cambriano
 Geografias suburbanas
 Groselha news
 Googalayon
 Guerrilheiro do entardecer
 Hargentina
 Hedonismos
 Hipopótamo Zeno
 História em projetos
 Homem do plano
 Horas de confusão
 Idéias mutantes
 Impostor
 Incautos do ontem
 O incrível exército Blogoleone
 Inquietudine
 Inside
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jean Scharlau
 Jornalismo B
 Kit básico da mulher moderna
 Lady Rasta
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 A Lenda
 Limpinho e cheiroso
 Limpo no lance
 Língua de Fel
 Linkillo
 Lixomania
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 O malfazejo
 Malvados
 Mar de mármore
 Mara Pastor
 Márcia Bechara
 Marconi Leal
 Maria Frô
 Marmota
 Mineiras, uai!
 Modos de fazer mundos
 Mox in the sky with diamonds
 Mundo de K
 Na Transversal do Tempo
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Neosaldina Chick
 Nóvoa em folha
 Nunca disse que faria sentido
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 Ou Barbárie
 Outras levezas
 Overmundo
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Parede de meia
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 A pequena Matrioska
 Peneira do rato
 Pictura Pixel
 O pífano e o escaninho
 Pirão sem dono
 políticAética
 Política & políticas
 Política Justiça
 Politicando
 Ponto e contraponto
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Porco-espinho e as uvas
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Professor Hariovaldo
 Prosa caótica
 Quadrado dos Loucos
 Quarentena
 Que cazzo
 Quelque chose
 Quintarola
 Quitanda
 Radioescuta Hi-Fi
 A Realidade, Maria, é Louca
 O Reduto
 Reinventando o Presente
 Reinventando Santa Maria
 Retrato do artista quando tolo
 Roda de ciência
 Samurai no Outono
 Sardas
 Sérgio Telles
 Serbão
 Sergio Amadeu
 Sérgio blog 2.3
 Sete Faces
 Sexismo e Misoginia
 Silenzio, no hay banda
 Síndrome de Estocolmo
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Somos andando
 A Sopa no exílio
 Sorriso de medusa
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 SublimeSucubuS
 Superfície reflexiva
 Tá pensando que é bagunça
 Talqualmente
 Taxitramas
 Terapia Zero
 A terceira margem do Sena
 Tiago Pereira
 TupiWire
 Tom Zé
 Tordesilhas
 Torre de marfim
 Trabalho sujo
 Um túnel no fim da luz
 Ultimas de Babel
 Um que toque
 Vanessa Lampert
 Vê de vegano
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 Viomundo
 Viraminas
 Virunduns
 Vistos e escritos
 Viva mulher
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro







selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« Aviso aos navegantes :: Pag. Principal :: Eventos »

terça-feira, 07 de novembro 2006

Sobre Terras do sem fim

jorge-amado.jpg Terras do Sem Fim (1943) é algo diferente do realismo “social” de Jubiabá (1935), do realismo mais claramente socialista de Seara Vermelha (1946) ou da sensualidade ligeiramente folclorizada de Gabriela (1958). Se em Seara Vermelha os personagens parecem ser marionetes de forças mais poderosas que eles (as tais “leis da história”, entendidas segundo um marxismo já naquele momento stalinizado), acredito que em Terras do sem fim as escolhas dos personagens são mais genuinamente abertas. No final eles sucumbem à “lei do lugar”, que é afinal de contas a lei da selva que rege o processo de concentração de terras da indústria cacaueira. Mas essa lei é produto também de uma seqüência de ações humanas cujo sentido não estava dado de antemão. Por isso eu diria que Terras do sem fim é um romance mais polifônico e plural, menos naturalista que Seara Vermelha, por exemplo. Ou seja, na minha escala de valores, um melhor romance.

O texto começa com a cena do navio que transporta trabalhadores e coronéis à região cacaueira, e que oferece uma espécie de panorama do que virá: chefes locais na primeira classe, caixeiros-viajantes, jogadores e prostitutas na segunda, trabalhadores migrantes com sonhos de enriquecimento na terceira. Mesmo o leitor mais distraído já sabe que ali tais sonhos serão derrotados, mas o uso do discurso indireto livre (colocando o leitor “na cabeça” dos personagens) vai construindo empatia com as quimeras de, por exemplo, Antonio Vítor, que se despede da amada com a promessa Enrico num ano, venho lhe buscar. Ao mesmo tempo, o romance vai tecendo um retrato do mandonismo e coronelismo na zona cacaueira, mas os coronéis do livro estão longe, muito longe de serem meros monstros.

Pelos perfis já antecipados no navio, o leitor vai conhecendo os dois coronéis mito que lutam por hegemonia sobre o território: Horácio e Sinhô Badaró (este último acompanhado do irmão mais novo, o não menos temido Juca Badaró). São coronéis distintos de boa parte dos que encontramos na literatura sertaneja realista: há uma certa glorificação de suas figuras. Parecem-se, em certos momentos, com cavaleiros medievais. São bárbaros e violentos, mas também corajosos e heróicos; aliás, não deixam de ter seu próprio código de ética. Plurais, contraditórios, elês têm que encarar escolhas não muito comuns entre seus antecessores no romance brasileiro.

Avessa àquele mundo rude, Ester, a esposa de Horácio, é seduzida pela elegância cosmopolita do Dr. Virgílio, o advogado do coronel Horácio. Corneado pelo próprio advogado, Horácio só descobre o chifre depois da morte de Ester – acontecimento que, como apontou o Milton Ribeiro, convenientemente serve para resolver o dilema que o adultério apresentava (ela morre da febre que assolou o lugar, justo depois de cuidar fervorosamente do marido que havia caído doente com a mesma febre).

Mas a morte de Ester, eu acho, serve para mais que isso. Ester é nome de ressonância bíblica, claro. A sua trajetória no livro repete o padrão ordem – transgressão – punição, que rege o castigo às mulheres no romance de adultério tradicional. Ali, as saídas são três: morte, enlouquecimento ou convento. Talvez exista um mundo em que Ester e Virgílio possam se unir e viver o que seria o único amor real e recíproco do romance, mas eles são impotentes para escapar do “coração das trevas” e chegar a esse mundo: no momento em que Virgílio é destratado pelo coronel Badaró em público ante uma mulher, ele é obrigado a entrar na lógica selvagem do lugar sob o preço de perder a honra. Tem que mandar matar. Na terra do cacau, elegância tem limite.

Alguns dos trechos que mais gostei foram os momentos de falhas dos personagens: o coronel Badaró é ludibriado por um mentiroso contumaz e jogador ladrão João Magalhães; o experiente atirador negro Damião fraqueja e erra um tiro ao pôr-se a pensar na mulher e no filho de sua vítima; o incrivelmente covarde Dr. Jessé é recompensado com a prefeitura depois da mudança dos ventos políticos em nível estadual. Cada um desses personagens escapa daquilo que poderíamos chamar sua "vocação histórica". Nesse momento, me parece, tornam-se personagens menos redutores, mais plurais, mais interessantes.

Claramente o desejo de Jorge Amado era escrever um panorama da vida no coronelismo cacaueiro. Depois, em São Jorge dos Ilhéus (1944), ele acrescentaria a descrição de um momento posterior, aquele em que tanto os Badarós como os Horácios cairiam ante a chegada do capital estrangeiro. Nestes dois romances, a concepção de história é claramente etapista. Mas o mais interessante do texto passa por fora desse esquema histórico e tem lugar no desencaixe entre os personagens e sua função histórica. Mais uma vez a riqueza da ficção não reside necessariamente onde o seu autor esperava.

PS: Mesmo sem citá-lo diretamente, fiz uso do livro de Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado: Romance em Tempo de Utopia (Record, 1996).



  Escrito por Idelber às 02:54 | link para este post | Comentários (39)


Comentários

#1

Ontem, transformei o grande comentário que faria aqui num pequeno post. Não foi grandemente elogioso, mas foi compreensivo, penso. Lá vai:

É estranho reler Jorge Amado depois de mais trinta anos. Não deixa de ser um retorno ao Colégio Júlio de Castilhos e a suas "leituras obrigatórias". Nós, gaúchos meio ou menos bairristas, sempre tivemos problemas com o baiano. Naqueles anos, havia dois escritores que conseguiam viver de seus livros no Brasil: Jorge Amado e Erico Verissimo. Sendo Verissimo gaúcho de Cruz Alta, sempre fazíamos seu elogio à custa de críticas ao baiano. Pura bobagem. Não obstante, éramos obrigados a ler dois de seus romances para o colégio: Gabriela Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos. Claro, estes romances, nos anos 70, quando comparados à produção de Erico daquela época - Incidente em Antares, O Senhor Embaixador e os dois autobiográficos Solo de Clarineta, fazia com que Jorge parecesse um escritor folclórico, malemolente e brejeiro, de menor importância. Como resultado, acabávamos nos afastando dele.

Neste ano, talvez a partir da homenagem que lhe fez a Flip, ocorre uma espécie de reavaliação -- normalmente para melhor -- de Amado. Foi com este espírito que abri Terras do Sem Fim. Ao abri-lo, tive uma surpresa: o romance, escrito em 1943, homenageia numa dedicatória Dmitri Shostakovich, "compositor e soldado de Leningrado". Mas as surpresas ficam por aí, pois, ao iniciar a leitura deparo-me com a frase inicial: "O apito do navio era como um lamento e cortou o crepúsculo que cobria a cidade." Achei a frasezinha meio sem-vergonha e vi que ou me adaptava ou passaria maus bocados, pensando em cortar frases e expressões desnecessárias ou de gosto duvidoso. Apesar de duvidar da necessidade de recuperar Amado, mudei, passando a me ater não aos detalhes mas à trama a fim de suportar a leitura. Ainda sublinhei diversas dessas pérolas e erros, mas não vou encher o saco de vocês nem copiar mais trechos do livro.

A postura de comer a história contada e esquecer a linguagem revelou-se a correta. O romance funciona muito bem desse jeito. O capítulo em que o negro Damião fraqueja é autenticamente maravilhoso, assim como a construção de alguns personagens, como a dos coronéis combatentes, a do advogado Virgílio, a do Dr. Jessé e a do jogador "capitão" João Magalhães. A única coisa de que realmente não gostei foi do atalho que Amado percorreu para desfazer o triângulo amoroso entre o Coronel Horácio, sua mulher Ester e Virgílio. Em vez de encarar o conflito, em vez de nos colocar a interessante questão sobre quem seria mais mais importante para o violento coronel, se a mulher que amava ou o competente advogado que lhe apoiava, Amado arranja uma providencial e implacável febre que mata a mulher e o conflito. Para não ficar muito chato, o romancista volta à questão num quase epílogo, fazendo com que Horácio descubra a traição postumamente. Porém, naquela altura, o trabalho do advogado não era mais fundamental, a luta acabara. É uma covardia muito utilizada e aceita pela maioria das pessoas; prova disso é que grande parte das pessoas enterneceu-se com o filme dos caubóis (Brokeback Mountain), onde também um personagem morre justo no momento em que seu amante cobra-lhe uma solução e uma continuidade para seu caso amoroso. Detesto este gênero de expediente e isto prejudica muito o romance, em minha opinião.

Sobram uma história bem contada, uma narrativa envolvente e talvez aquilo que fosse o objetivo do comunista Jorge Amado: a denúncia das condições de vida na região do cacau. Sim, não tenho dúvidas, nisto o romance é poderoso. Mas, convenhamos, o romance poderia ser melhor. Minha dúvida é se Erico também era tão descuidado...

Para finalizar, tenho que dizer três coisas que julgo importante.

1. Não é necessário recuperar Jorge Amado.

2. Porém, se for para demonstrar que o Brasil já teve bons romancistas vendedores de livros, se for para demonstrar nossa decadência ao eleger Yed..., ops, Paulo Coelho e a atual auto-ajuda de Lya Luft como campeões de vendas, RECUPEREM AGORA O BAIANO COM TODO MEU APOIO!

3. Certas cenas de Terras do Sem Fim são pura Rede Globo. Espero que Paulo Coelho não venha futuramente influenciar nossa televisão. Aumentaria a venda de anti-eméticos e de suicídios no país.

Milton Ribeiro em novembro 7, 2006 6:34 AM


#2

Alguns pensamentos desconexos, minhas primeiras impressões sobre a leitura:

- Ler Jorge Amado, para mim, é um ato de disciplina. Tenho extrema dificuldade de atravessar as primeiras 90/100 páginas, quando os personagens estão sendo apresentados e a trama, desenvolvida. Depois de superar esse obstáculo inicial, a leitura é envolvente e emocionante.

- A literatura de Amado é altamente cinematográfica, e não é à toa que muitos romances dele foram adaptados para a televisão. Me lembro de ler a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade imaginando cenas inteiras de uma minissérie (que obviamente nunca será feita), elencando atores, escutando até uma trilha sonora possível.

- Sobre Terras do Sem Fim, especificamente, uma das características que mais me interessou foi justamente essa humanização dos coronéis. Já desde o início da trama me peguei "torcendo" por um ou por outro, conforme o foco da narração mudava. Nenhum dos dois é herói nem vilão, e ao fim todos estão errados. Inclusive quem estava certo. ;-)

- Concordo com o Milton, teria sido mais instigante ver como Horácio se decidiria ao ter que escolher entre a mulher amada e o advogado necessário. Mas também entendo o propósito da morte redentora - imagino que nos anos 40 a empatia dos leitores por uma mulher adúltera, mesmo num romance de Jorge Amado, não seria a mesma de hoje, e talvez a morte fosse a única possibilidade de absolvição. (Ou não?)

- Fiquei com dúvidas em relação à epoca em que se passa a ação. Procurei pistas na narrativa, mas não consegui me decidir se estamos na década de 1900, 1910, 1920...

- Por fim, uma pergunta pro professor Idelber: existe uma razão para o autor mudar os tempos verbais em determinados trechos do livro? A narrativa ora é feita com verbos no passado, ora com verbos no presente. Isso me incomoda um pouco. Parece que estou perdendo alguma coisa, hehehehe

Bjs

Monix em novembro 7, 2006 8:06 AM


#3

Chega de Emma (Madame Bovary) e Luísa (O primo Basílio) e Ester: adúlturas que pagam o preço. Se eu fosse uma escritora famosa, minha adúltera se daria bem, só para contrariar. Não que eu seja a favor da traição, mas é uma mesmice: o leitor sempre sabe que a adúltera vai se dar mal. O homem, nem sempre.
Voltarei com outro comentário. Com calma.

Isadora em novembro 7, 2006 8:19 AM


#4

Desde que ficou definida a leitura de "Terras do Sem Fim" no clube, comecei a desarmar meu espírito para encarar novamente Jorge Amado. Eu também não lia o baiano havia muitos anos, talvez uns vinte. Li no colégio, pela última vez. Sempre tive enorme atração pela literatura nordestina, especialmente pelo sertão e, depois de ler José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, passei a achar Jorge Amado um autor menor. Confesso: parte da minha avaliação vinha permeada de preconceito, não necessariamente acadêmico, mas na linha "se é bom para a rede Globo, não será bom para mim".

Acho que eu me manteria nessa postura míope se não tivesse lido uma obra que me marcou muito recentemente e me ajudou a olhar a produção cultural dita "popular" por outros ângulos. Falo do livro "Eu não sou cachorro, não", do jornalista Paulo César de Araújo, que nessa tese de mestrado analisa a produção musical "cafona" dos anos 1970. Esse livro me fez enxergar o preconceito que vicejava nas minhas análises sobre a obra dita "popular" em si e sobre sua influência na vida social. Com esse espírito renovado e esforçando-se para ser desarmado, encarei a leitura.

Muito do que o Milton comentou aqui é minha opinião. Como adiantei ontem, no comentário sobre novelas, em vários momentos eu me vi com essa sensação, a de estar assistindo a uma produção global enquanto avançava nas páginas do livro. Sendo o livro tão anterior ao boom das novelas, é óbvio que a influência, que parece mesmo ter existido, foi do livro, da obra de Jorge Amado em geral em relação à TV, e não o contrário. E por se parecer tanto com uma novela - não no sentido de gênero literário - é que talvez eu tenha sentido certo desconforto com o andamento da trama.

De novo, concordo com o Milton e com o Idelber na eficiência de Jorge Amado na condução da trama. O melhor a fazer é esquecer as confusões de tempos verbais e as evocações quase parnasianas e se deixar envolver pela história. Mas foi justamente na condução da história que o ritmo novelesco me desagradou. Um panorama amplo das lutas no setor cacaueiro, sem dúvida, mas uma superficialidade de folhetim televisivo foi o que sobressaiu para mim. Milton lembrou minha passagem favorita - a hesitação do negro Damião, sua "amarelada" na hora definitiva. Um capítulo magistral, um looping psicológico irresistível, e assim acabou-se Damião, praticamente engolido pela história em uma cena - a da morte do curandeiro Jeremias - que diretor de novela nenhum imaginaria melhor. Esse aprofundamento que Jorge Amado fez na mente de Damião me fez falta em muitas outras passagens.

Por exemplo, eu queria "ver" melhor a primeira noite de amor entre Ester e Virgílio, queria sentir o corpo dela nos braços do amante, queria sentir vivo o momento em ela descobrisse o prazer. A construção da personagem de Don´Ana Badaró também me desapontou. Ela surge como uma fagulha libertária naquele universo machista do lugar, mas não se realiza. A cena em que ela desafia os homens de Horácio é forte, mas não leva a nada. Ela os encara e pronto, vai embora, vai cumprir seu destino de casar com o escolhido pelo tio e pelo pai, para parir um Badaró e pronto. Se é para puxar pelo fio da meada do Milton, na comparação com Érico Veríssimo, impossível não evocar outra Ana, a Terra, que personifica essa herdeira familiar, matriarca de pulso, personagem marcante o bastante para influenciar García-Márquez. Talvez eu estivesse esperando Ana Terra na mata do Sequeiro Grande, o que provavelmente não faria sentido...

Nesse ponto, me despeço dos defeitos e abraço aquele que me parece o grande mérito do romance, já evidenciado pelo Idelber: a revelação de uma sociedade injusta, baseada na lei do mais forte, nas mentiras sociais e na hipocrisia geral. Pensando que "Terras do Sem Fim" foi escrito em período de vigência de longas e determinantes ditaduras (no Brasil e no mundo), em plena Segunda Guerra, foi uma postura corajosa a de Jorge Amado, ao traçar personagens tão truculentos quanto qualquer ditador, e tão humanos a ponto de parecerem verossímeis.

E ainda que seja superficial, há o mérito de despertar o interesse do leitor para uma realidade e um tempo que não são necessariamente os seus, mas que não deixam de ser fundamentais para compreender nossa história, refletir sobre ela. Em geral, não gosto dessa visão "utilitária" da arte, sou romântica e prezo que a arte seja inútil, no sentido de ter fim em si mesma, mas também não vejo mal nenhum em reconhecer a contribuição que um livro possa dar no despertar de corações endurecidos e mentes avoadas.

Alessandra Alves em novembro 7, 2006 8:25 AM


#5

Puxa, belos comentários. Pena eu estar com pouco tempo agora. Achei curiosa a observação da Isadora sobre as adúlteras. Ela que não veja-ouça as óperas de Verdi...

Fecho com a Monix sobre a questão da balzaquiana apresentação dos personagens. É muito século XIX, não?

As falhas dos personagens, apontadas pelo Idelber, me passaram, mas são inteiramente verdadeiras e importantes. Tempos verbais, Alessandra? Pois é, tentei entender aquilo, mas depois esqueci. O estranho é que costumo fazer aquila confusão e depois passo o maior trabalho corrigindo... Me parece não haver uma "lei de formação".

Bem, passarei a tarde e parte da noite fora e não acompanharei as outras intervenções. Como gosto de me atravessar, vou desde logo sugerindo um dos dois Raduan Nassar para a próxima. Afinal, "Lavoura Arcaica" acaba de completar 30 aninhos...

Abraços.

Milton Ribeiro em novembro 7, 2006 9:44 AM


#6

Eu discordo de algumas coisas que foram colocadas. Uma delas me deixa até sem graça:

- Porque eu odiei o capítulo do negro Damião amarelando. Que é uma coisa que me incomoda demais no Jorge Amado, embora eu não conheça muito. Eu acho que a humanização que ele prentede sai pela culatra. E eu fico com a sensação de idealização mesmo. Pra tentar evitar um suposto maniqueísmo, ele suprime a maldade. Detesto mesmo. Desnecessário todo aquele lenga de como o negro Damião brincava com as crianças da fazenda. Claro que ele não ouve qualquer um dizendo "você acha bom matar gente, juca?". É o próprio totem dele quem diz isso e fica clara relação de reverência que ele tem com Sinhô Badaró. Mas a reavaliação que ele faz da vida eu achei bastante pobre. Eu brinco com crianças. E só? Isso é suficiente? Se ele consegue ver apenas isso, não teria condição de ter toda essa vertigem psicanalítica. Acho que o autor pesa a mão pra tentar me mostrar que não existe vilão. E eu sempre tendo a ficar rebelde quando noto que um livro tenta me dirigir e tal. E tem o lado da guerra ter começado por conta de um dilema existencial. E aí eu sou meio "leis da história" demais também.

- Eu prefiro a Ana Badaró do que a Ester também. E eu até concordo que é bastante careta ele ter matado a adúltera. Mas nesse caso, acho que coube. E ela tinha que morrer de febre. Porque ela tem medo do lugar, durante todo o tempo. Ela se sente enterrada ali. Ela chegou sabendo que o lugar a mataria. No navio, um homem fala "aquilo é o cu do mundo". Adoro. (tem várias "vulgaridades" no livro, e é uma coisa que eu realmente amo nos livros dele). Bem. Não existe príncipe encantado nem grande amor no cu do mundo.

- Parece mesmo minissérie da globo. E a minha Ester é a Patrícia Pillar e a Ana Badaró é a Gloria Pires. Talvez mesmo influenciada por O Tempo e o Vento. (o elenco da novela: http://pt.wikipedia.org/wiki/Terras_do_Sem_Fim - nao lembro mesmo de ninguem)

mary w. em novembro 7, 2006 10:08 AM


#7

Na casa dos meus pais (bastante religiosos) Jorge Amado sempre foi meio que um tabu. Tanto que só vim ler um dos seus livros quando já estava na universidade. Agora pude ler com liberdade e curiosidade histórica, até comentei isso no Milton Ribeiro quando fui conferir seu excelente post. Desculpem o trocadilho, mas Terras do sem fim grudou em minhas mãos feito visgo de cacau mole. E falando em visgo do cacau, Jorge Amado abusou um pouco dessa linguagem: O visgo do cacau mole se grudava neles (p. 48);O visgo de cacau mole preso na sola dos pés (p. 48); Dizem que é aquele visgo do cacau mole que prende o homem ali (p. 134);O visgo do cacau mole está pegado na sola dos seus pés (p. 134); O visgo do cacau mole que gruda nos pés de um e nunca mais larga (p.135);E eles todos, trabalhadores, jagunços, coronéis, advogados, médicos, comerciantes e exportadores, tinham o visgo do cacau preso na alma, lá dentro, no mais profundo do coração (p. 149);Não adianta mais pensar em fugir, agora seus pés estão presos ao visgo daquela terra, visgo de cacau mole, visgo de sangue também (p. 150);Se sentia sujo, metido naquele visgo do cacau até o pescoço (p. 177); Os pés livres do visgo de cacau mole que os prende ali (p. 178)... Estava na fazenda, sem o livro, e por sorte encontrei o e-book neste link, foi assim que pude resgatar esses trechos.
Estou adorando os comentários e voltarei... ;)

Isadora em novembro 7, 2006 11:19 AM


#8

Uau. Primeira lida nos comentários, estou adorando. Obrigado mesmo, e volto depois.

Idelber em novembro 7, 2006 1:04 PM


#9

Desenvolvendo uma pesquisa sobre desenvolvimento rural e valorização do agricultor, embora ainda esteja na revisão de literatura, cada vez fica mais claro para mim que o rural não tido como um lugar para o esclarecimento (de aufklarüng). Olha só o que Riobaldo dizia: "Ah, eu só queria ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente!" ou as aspirações de Zé Bebelo: "Não queria saber do sertão, agora ia para a capital, grande cidade. Mover com comércio, estudar para advogado" (Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa, pp. 407; 606). A distinção feita por Hannah Arendt entre work e labor parece se aplicar a este caso: em relação às pessoas do campo, seu trabalho estaria ligado ao que é definido para labor, ou seja, nessa perspectiva, o trabalho num escritório, por exemplo, poderia ser considerado superior a "tudo aquilo relacionado ao trabalho físico, desgastante e brutal próprio do homo laborans e não do cidadão". Isso pode ser porque, segundo Abramovay, "no meio rural brasileiro se conserva a tradição escravista que dissocia o trabalho do conhecimento". De fato, em A ideologia alemã, Marx e Engels já diziam que "a maior divisão do trabalho material e intelectual é a separação entre a cidade e o campo" (p. 55).
Não me surpreendi com as queixas de Ester, que significa estrela. Imagine um bibelô daqueles no meio de uns brutos? Coitadinha, enquanto sua amiga se divertia em Paris. Outro dia, assistindo In my country (Em minha terra), com Juliette Binoche, fiquei surpresa com a estante de livros de sua mãe, esposa de um fazendeiro sul-africano e que, inclusive, conhecia Paris. Por que não uma boa biblioteca no rural? Acesso a internet, TV por satélite, ouvir jazz, ópera (hein, Milton?), degustar um Cablanca acompanhado de um bom vinho, enquanto se conversa sobre saber ambiental, literatura, música... O morador do rural vivendo ali por opção e não por uma contingência. Repito o que disse no comentário anterior: se fosse uma escritora famosa minha personagem seria uma Ester bem diferente.

Isadora em novembro 7, 2006 1:08 PM


#10

Isadora, uma adúltera mais próxima do que você colocaria no seu romance talvez seja a fantástica protagonista de The Awakening, escrito (surprise, surprise) por uma mulher, a sulista Kate Chopin. Personagem completamente fora do esquemão do castigo à la Flaubert, Tostói e Eça. É um assombroso livro, porque além do mais é narrado em indireto livre do ponto da vista da adúltera. Ela não se "dá bem" exatamente no final, mas tampouco é "punida", nessa lógica meio chata e previsível que preside os romances de adultério tradicionais.

Eu tenho uma amiga que tem a tese de que o romance de adultério é produto da separação entre literatura e política. Já não se limitando a narrar peripécias dos homens de estado, o romance passa a ter que entrar na alcova.

E ali só o adultério, porque amores duradouros e felizes, esses, ora bolas, e literatura não narra. Não teria por quê.

Idelber em novembro 7, 2006 1:33 PM


#11

Monix, quanto às idas e vindas nos tempos verbais, haveria que se ver. Se você me mostrasse um trecho de J.A. em que um mesmo evento no passado, no mesmo parágrafo, é descrito com uma oscilação entre verbos no pretérito e no presente, eu não me surpreenderia nem um pouco. Esse "desleixo" está lá, é verdade.

Mas acho que em outros momentos pode ser simplesmente o uso particular que o Amado faz do indireto livre, que é uma voz diferente do discurso direto (Alex disse: 'quero laranja') e do indireto simples (Alex disse que queria laranja).

O indireto livre mantém os verbos no passado mas elimina o "Alex disse". Vai encadeando verbos no passado, em geral, produzindo o efeito de que se está "na cabeça" do personagem. Se o autor quer reduzir totalmente a distância entre o leitor e aquele personagem, muda o verbo para o presente, como se a gente "virasse" o Alex. Jorge Amado joga muito, muito com isso. Nem sempre é convincente, como vocês apontaram. Mas a mim não incomoda muito não.

Idelber em novembro 7, 2006 2:11 PM


#12

Idelber, agora estou no trabalho, mas vou consultar um trecho em casa pra trazer aqui. Me ficou uma sensação de proximidade maior com a ação quando os verbos vêm para o presente, é verdade. Mas também deu uma impressão de ser algo meio aleatório, o que casa com a idéia de desleixo. Ou seja, fiquei na dúvida se a oscilação dos tempos verbais seria intencional ou acidental. Vou olhar de novo e tentar chegar a alguma conclusão.
Bjs

Monix em novembro 7, 2006 3:22 PM


#13

mary, acho que você matou mesmo a charada com essa frase pra tentar evitar um suposto maniqueísmo, ele suprime a maldade . Acho que é isso mesmo, na pinta. Até houve um Jorge Amado maniqueísta, no começo, naqueles romances mais chapadões dos anos 30, em que os coronéis são fascínoras executando a tal lei da história. Mas depois o maniqueísmo é abolido, em parte porque os coronéis viram cavaleiros heróicos quase que feudais, mas também por isso que você diz, ele passa a escrever romances onde todo mundo no fundo é bom.

E foi sintomático eu ter me esquecido de falar da Ana Badaró. Como personagem feminina tem muito mais potencial para escapar do estereótipo que Ester, claro, mas é significativo que esta produza muito mais tensão dramática, e que o(a) leitor(a) se interesse mais pelo destino dela que o de Ana. O intento de construir uma personagem feminina "guerreira e independente" não me convenceu aqui.

Idelber em novembro 7, 2006 3:56 PM


#14

olá, colegas!
até agora, estou adorando os comentários. e com medo de falar qualquer coisa e ter que ir pra seçao de hortifruti, lá onde estao as abobrinhas. mas, coraggio:
1. alessandra alves, eu nao senti falta de "ver" a cena de amor, já que pra mim foi bastante forte, explícita e convincente a cena em que ela vai pra cama com o marido pensando no virgílio no quarto em frente. a partir dali eu achei que ela aprendeu o caminho das pedras, e pronto, rs, rs.

2. achei sensacionais as duas cenas de "viagens" no medo e na angústia, a 1a. aquela da ester sofrendo com as cobras, a 2a.,a da "amarelada" do damião, a 1a., na beira de surtar, o 2o. surtando de vez. achei as cenas bem conduzidas, deu pra sentir que eles estavam com a garganta apertada, dor no estômago, coraçao acelerado, suor nas mãos, calorao subindo. nao que eu seja especialista, rs.rs.

3. acho maravilhoso em jorge amado a capacidade de amarrar as histórias, os personagens. nesse livro, essa habilidade estava se desenvolvendo ainda. em livros posteriores (TENDA DOS MILAGRES, p.ex.) acho que ele faz isso com perfeiçao.

abraços.

vera em novembro 7, 2006 4:30 PM


#15

Adorei a dica Idelber. Você falou em Tolstói e para mim ele foi exageradamente duro com a mulher adúltera: não se tira um filho de uma mãe. Coitada da Anna, aquilo foi cruel.
E não podemos esquecer dos filmes: em "Madame de..." com a ex de Depardieu, a belíssima Carole Bouquet (Milton, ela merece um "porque hoje é sábado") as trapalhadas da personagem causam pena. E ela morre... de febre.

Isadora em novembro 7, 2006 6:23 PM


#16

"Demais Donana tinha a visão de vida dos dos Badarós e não chegava a encontrar mal nenhum nas aventuras de Juca desde que ele desse à esposa tudo que ela necessitava. (...) Porém nesse momento ela fita Olga com certa inveja da sua calma, da indiferença ante o mistério que perdura na sala."
(página 108)

Taí um exemplo, Idelber. Uma mudança de tempo verbal aparentemente aleatória, pois não me parece ter servido para criar uma aproximação psicológica, pelo menos não propositalmente. Por outro lado, observo que o trecho com os verbos no presente de fato mostra os sentimentos de Donana em relação a Olga - não que o anterior não mostrasse. Ah, sei lá, fiquei confusa com esse negócio dos verbos, mas isso não deve ter a menor importância... Hahaha!
BJs

Monix em novembro 7, 2006 7:41 PM


#17

aliás, isadora, nao existe absolutamente uma única relaçao intensa mãe/filho nesse livro, voces repararam?

vera em novembro 7, 2006 7:42 PM


#18

Faz muito tempo que não leio Jorge Amado. Mas li vários, e o que mais me tocou foi mesmo "Capitães de Areia", que li quando tinha mais ou menos a mesma idade daqueles personagens habitantes das praias de Salvador. Preciso reler em breve.

Daniel Lopes em novembro 7, 2006 10:19 PM


#19

Verdade, Vera. Mas acho que é um livro que fala de um mundo muio masculino, embora tenha algumas personagens femininas interesantes, como as citadas Ester e Donana, e, claro, não podemos esquecer a Margot.

Monix em novembro 8, 2006 5:36 AM


#20

A discussão está fantástica, o post tb.
Mas, não deu tempo de ler o livro... :-(
De qq forma, aprendi um bocado por aqui hj!
Bjs

Ana em novembro 8, 2006 6:28 AM


#21

monix,
1.sim, o romance é masculino, e eu falei na relaçao mae/filho porque a isadora se lembrou de anna karenina. em terras..., me pareceu que a ester nem se importava com o filho. aliás, ali ninguém tem mãe, hahaha. aliás, só existe esta relaçao da risoleta com donana, e eu já vi esta fascinaçao da mãe preta/pobre por um "filho" bonitinho em outros lugares, até na vida real.
2. sobre os tempos verbais, no trecho citado eu acho o emprego dos dois perfeito: primeiro ele falava do processo de construçao da personalidade/visao de mundo de donana, depois ele passou para a hora presente, voce nao achou? pelo menos nesse caso específico, eu nao achei nem um pouco aleatória a escolha.
abraços a todos.

vera em novembro 8, 2006 6:47 AM


#22

Carole Bouquet... Tá bom.

Milton Ribeiro em novembro 8, 2006 8:06 AM


#23

Vera, essa é impressão que passa, sim, talvez porque o filho de Ester nem tenha nome. É o menino para Horácio e o filho para Ester. Embora, na p. 28 tenha essa passagem: No fim de dez meses nascera um filho, agora tinha ano e meio e Ester via horrorizada que Horácio nascera novamente na criança (...) Mas ainda assim o queria, o amava ardentemente e sofria por ele. E na p. 29: Levantava-se, arrancava as cobertas, atirava-se para a cama do filho. Quando se convencia de que ele estava dormindo sem perigo, realizava uma busca por todo quarto.
Acho que essa impressão ficou porque o autor deu pouca ênfase ao relacionamento mãe/filho preferindo conduzir a personagem para conflitos interiores e o amor pelo advogado.
Monix, gostei de sua observação sobre o mundo do livro ser meio masculino.

Isadora em novembro 8, 2006 10:05 AM


#24

Milton, veja este link. É ela.

Isadora em novembro 8, 2006 10:08 AM


#25

engraçado é que emendamos dois livros bem masculinos, com grande sertão e agora, sem fim. será prerrogativa da narrativa sertaneja, pois o sertanejo é antes de tudo UM forte e não uma mulher forte? acho que só mesmo a maria moura para se intrometer nesse universo.

sobre a questão da maternidade quase ausente, achei muito interessantes as colocações da isadora e da vera. eu mesma não tinha atentado para o fato de que ali quase todo mundo é filho de chocadeira! mas, sinceramente, não sei se isso foi deliberado ou fruto da superficialidade que permeia toda a trama. já era tanto personagem que administrar as mães deles talvez fosse demais.

comentei no blog do milton sobre o final do livro, quando jorge amado se coloca na trama, na figura do menino que assiste ao julgamento. alguém sabe se o autor viveu de fato algo parecido com aqueli?

Alessandra Alves em novembro 8, 2006 10:42 AM


#26

corrigindo: com aquilo.

Em tempo: professor, seu Galo precisa só de mais um pontinho, parabéns! beleza de gol de calcanhar, hein?!

Alessandra Alves em novembro 8, 2006 10:43 AM


#27

Alessandra, Jorge Amado nasceu na Fazenda Auricídia -- lembra do coronel Maneca Dantas? -- em Ferradas, distrito de Itabuna, em 1912, justamente próximo ao período do livro. Acho que ele é o menino "que anos depois veio a escrever as histórias dessa terra" se inspirando em personagens reais, tal qual Graciliano Ramos.
Por exemplo: Jorge Amado fala num coronel Misael (pp. 41, 84 e 134) que realmente existiu, foi prefeito de Ilhéus e proprietário de fazendas de cacau, todas localizadas em áreas nobres e perto da estrada de ferro (ver link).

Isadora em novembro 8, 2006 11:51 AM


#28

Olha, de Jorge Amado só gosto mesmo é de Gabriela, e ainda assim da Gabriela imaginária que vive em minha mente, que tem a cara, a cor e as coxas da Sônia Braga dos bons tempos.

Para deixar bem claro que eu não deveria mesmo estar comentando aqui, tenho razoável certeza de que nunca li nada do Amado que não tivesse sido obrigatório na escola. "Capitães de Areia", e mais uma ou duas coisas.

Uma vez fui a Ilhéus, bem novo. Desembarquei na rodoviária umas cinco da manhã, chovia a cântaros. Desisti de ficar lá e comprei uma passagem pra Porto Seguro. Eis meu momento de máxima proximidade do mundo Amadiano.

Eis porque serei off topic e repetirei o pedido que fiz no post aí debaixo: cadê o post sobre as mid terms, rapaiz?

PS:

Úia, a Carole Bouquet é a moça do Obscuro Objeto do Desejo. Bela foto dela aqui, Milton:

http://laboiteaimages.hautetfort.com/images/medium_carolebouquet.jpg

Hermenauta em novembro 8, 2006 12:10 PM


#29

Olha, o profe vai ficar muito puto se vocês ficarem alimentando o "Porque hoje é sábado" aqui! Dizem que ele dá reguadas virtuais muito dolorosas!

Milton Ribeiro em novembro 8, 2006 1:56 PM


#30


Ao contrário de muitos comentaristas aqui, eu gostei de ter lido Terras do Sem Fim.
Nunca Havia lido Jorge Amado e foi uma grata surpresa.
E lí sem nenhum esforço ou preconceito, sem posição entre às diferenças da Confederação do Equador e República do Piratini, peguei o livro e fui lendo e fui gostando, principalmente do rítimo. Eu sou um leitor fácil.
O livro começa ao final de um dia, quase noite, e já nos anuncia a grande 'noite' que está por vir. A despedida no cais cheia de movimentos e sinalizações de adeus é cinematográfica. Enquanto a trilha sonora das canções da terceira classe dá um tom melancólico pelo sentimentos de saudades da vida que ficava para tráz, o livro vai nos apresentando com poucas luzes, os personagens. A lua vermelha citada repetidamente, prenúncia um futuro sinistro. O primeiro capitulo é cheio de cortes, e apresenta com rápidas pinceladas as peças do jogo. Esse recurso da velocidade nos ‘cortes’, que previlegia a ação em detrimento da profundidade dos personagens, segue pelo livro, que como um filme, os meandros das vidas dos personagens fica meio que sugerido, dando a nós o poder de imaginá-los. O exemplo de como isso funciona é o debate que provocou aquí, cada um sugere um aprofundamento ou desdobramento aquí ou alí, de um ou outro personagem. Imaginem isso na época em que o livro foi escrito. Talvez daí o sucesso?.
E tal qual Planeta dos Macacos, eu aqui em Sampa, assistiria este filme várias vêzes em noites de chuva.
Jorge Amado expõe claramente o lugar dos personagens no tabuleiro daquele jogo, e sem aprofundar na vida de cada peça, dá informação suficiente para não interromper o ritimo da ação. A trilha sonora se cala nos capítulos seguintes, não sem antes o capitão do navio em tom de vaticínio dizer: "-Por vezes me sinto como o comandante de um daqueles navios negreiros do tempo da escravidão..." E o vaticínio nos leva a seguir.
O 'corte' no 'pico' de um trecho para outro, é um truque bom, tanto que é usado nas telenovelas. E segue prendendo a atenção.
É um filme... Mas se fosse realmente um filme, talvez não haveria crítica ao roteiro à fotografia ou à direção. Reivindicaria sim ,pipoca e cobertor.
Entretanto, seguindo o roteiro de livros sugerido para leituras, comecei a ler paralelamente, Jorge Amado; Romance em Tempo de Utopia de Eduardo A.D., e outros mais que me indicava este livro. Então, lí novamente o romance, e gostei ainda mais do livro do Eduardo. A.D. e dos paralelos
Ficou impossível para mim ler Jorge Amado sem contextualizá-lo no momento histórico/politico em que o livro foi escrito, como faz E.A.D.. E foi mais fácil entender o propósito político/literário de Jorge Amado, em Terras do Sem Fim.
Escrito na segunda fase do projeto modernista, fase ideológica, (1930) o livro (1944) é antes de tudo um é um artifício em defesa do projeto político do etapismo, como já disse o Idelber, que São Jorge de Ilhéus completa . E acho que deveria ter sido incluído a leitura de São Jorge de Ilhéus na leitura, já que um livro completa outro no propósito político/literário de Jorge Amado.
A revolução passiva do etapismo, segundo a qual é preciso primeiro estabilizar a economia para depois distribuir renda, está clara no livro (graças ao E.A.D.). Talvez por isso a ‘humanização’ dos coronéis, que segundo a tese de E.A.D. se deve a um propósito: ‘O texto objetiva configurar as lutas pela conquista da terra como uma ‘etapa vencida’ do processo econômico brasileiro. Daí Terras do sem fim funcionar como primeira parte da saga a ser concluída em São Jorge dos Ilhéus. O empenho de ambas as narrativas está em representar o momento de expancão da fronteira agrícola como pré-hidtória da dominação burguesa e imperialista.
Nesta segunda etapa (I.S.J.), os coronéis vêem seu poder reduzir-se cada vez mais diante das manobras dos exportadores. São Jorge dos Ilhéus evidencia o quanto os fazenderiros são “crianças tímidas’ nas mãos do capital estrangeiro e quanto toda aquela economia voltada para a exportação dependia de um mercado controlado pelos cartéis e monopólio. O texto nos diz que, diante da vilania do grande capital, os coronéis não passam de aprendizes de feiticeiros, que vêem, um a um, seu mundo ruir frente à manipulação dos preços internacionais. Visto a partir do segundo romance (S.J.I.) o primeiro (T.S.F.) ganha uma dimenção nova que relativiza em muito a possível glorificação dos exploradores”.
Bem , não quero me estender muito mais neste comentário, mas garanto que continuo contextualizando, e gostando cada vez mais de mais autores, A, B, C ou D.

Uma pequena observação sobre o nome Ester, além de significar estrela, é também um personagem bíblico -já indicado no post- que da nome a um dos livros do antigo testamento e conta a historia da rainha Ester. Ester da bíblia coma a Ester de Terras do sem fim eram orfãns. A Ester da bíblia era uma rainha e seu rei era Assuero. Durante um banquete (jantar) onde bebiam vinho, o rei Assuero pensa que Ester esta sendo assediada por Hãma, homen de sua confiança, e manda enforcá-lo. Resumidamente o desdobramento deste incidente teve como consequência a salvação dos judeus de um plano de Hamã para exterminá-los. Purim é o nome de uma festa judaica que comemora a libertação, provocada pelo incidente.
Também num jantar regado a vinho que Ester, de Terras do Sem Fim, flerta com seu futuro amante, e futuro homem de confiança de Horácio.

frank de morais em novembro 8, 2006 6:49 PM


#31

Hermê, impossível, cumpadi. Não acompanhei quase nada das eleições, e estou sentido um pouco de dificuldade de entusiasmar-me com a vitória democrata...

Mas a discussão aqui está ótima. Então a Isadora localizou a época em que transcorre o romance, hein?

Idelber em novembro 8, 2006 8:38 PM


#32

Gostei do comentário do Frank. Apesar de discordar dele, reconheço todos os seus argumentos como verdadeiros e consistentes. Fico pensando sobre como devo ser chato e infeliz por querer sempre mais...

Pô, a Isadora achou o Misael? O elo perdido com a cronologia da ação? Muito bom.

Milton Ribeiro em novembro 9, 2006 7:25 AM


#33

Idelber, Jorge Amado dá algumas pistas: fala sobre as guerras do padre Cícero (p.140), aliado de coronéis e que a partir de 1912 lutaram contra intervenções do governo federal, derrubando o governador do Ceará. Sobre um rico fazendeiro de nome Misael (pp. 41, 84, 134) que acredito ser o que foi prefeito de Ilhéus (1916-1919). No Wikipedia: "em 1921, quando inaugurou, sua casa, o "coronel" Misael Tavares ofereceu um banquete e o cardápio do jantar estava escrito em francês".  E tem os jornais: a "Folha de Ilhéus" (1919-1921) e "O comércio" (1920-1925), sendo que neste último o responsável foi realmente Manuel Antunes de Oliveira, que JA apresenta como Manuel Oliveira, jornalista, sempre filando uma bebida, amigo de Margot. Curioso: as datas dos dois jornais só coincidem em 1920 e 1921. Por fim, tem a intervenção do governo federal (p.166): em 1931, Artur da Neiva foi nomeado interventor da Bahia, nomeado por Getúlio Vargas. Era um médico baiano que morava no Rio de Janeiro.

Isadora em novembro 9, 2006 7:29 AM


#34

Ah, o e-book me ajudou a localizar páginas do livro. Fácil, fácil.

Isadora em novembro 9, 2006 7:35 AM


#35

Estou tão atarefada que nem lembrei de fechar meu comentário e por isso voltei. Por causa do comentário da Alessandra sobre J. Amado ter vivenciado aquilo. Bom, o julgamento de Horácio foi depois da intervenção (1931), então o escritor já teria cerca de 20 anos. Minha hipótese é que ele pode ter presenciado algum julgamento quando garoto e colocou essas lembranças na trama, mesmo fora de ordem.

Isadora em novembro 9, 2006 8:12 AM


#36

Isadora, muito obrigada pelas informações e pelo link!

Alessandra Alves em novembro 9, 2006 8:43 AM


#37

Oi, Idelber. Não vim comentar o post nem o livro, não estou acompanhando. Continuo um livro atrasada...
O recadinho é pra te dizer 3 coisas:
1. vi seu recado lá no blog sobre o doutorado, obrigada :) Estou muito feliz.
2. para aquecer meu inglês antes da prova, li partes do seu livro Letter of Violence e gostei especialmente do artigo sobre aquele filme do torturador. Só vi o trailler mas entendi aquilo tudo que vc disse, a Sigourney histérica, a dúvida do marido etc etc etc. Muito bacana a análise.
3. um amigo meu está lançando um livro que eu acho que vai te agradar: Mil e Uma Noites de Futebol - O Brasil Moderno de Mário Filho, de Marcelino Rodrigues da Silva. É a tese de doutorado dele. Vai ser no Balaio de Gato. R. Piauí, 1052. Dia 11, a partir das 17 horas. Será que vc vai estar na terra?
Beijos pra vc e Ana.

Laura em novembro 9, 2006 10:22 AM


#38

Idelber, off topic: estava em BH na terça, vi um pouquinho da festa pela vitória do Galo, e lembrei d'ocê :)
beijo!

Kellen em novembro 9, 2006 11:34 AM


#39

Kellen, é torcida para dar inveja em muita gente, né? Que bom que pôde ver um pouco da festa.

Laura, que legal, obrigado pela leitura! Claro que lembro do Marcelino, foi colega meu da Letras, e eu tinha notícia do livro pela Eneida - valeu o toque do lançamento! Eu chego aí dia 11 mesmo, hora do almoço, zumbi de sono, mas quem sabe. Vou tentar ir sim. Beijão procê e todo mundo aí.

Idelber em novembro 9, 2006 1:18 PM