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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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sexta-feira, 30 de março 2007

Qual foi mesmo o grande absurdo dito pela Ministra Matilde?

A turba que enlouquece de raiva sempre que o tema do racismo brasileiro entra em pauta e que se especializa em criar simetrias ilusórias do tipo “os negros também são racistas” recebeu da ministra Matilde Ribeiro o presente que esperava: uma declaração que não tem nada de absurda, mas que, tirada do contexto, foi suficiente para que a República Morumbi-Leblon começasse a queima em efígie da Ministra como uma perigosa Goebbels afro-tupiniquim. A hipocrisia de certas reações à fala da ministra demonstra o quanto o Brasil ainda está longe de enfrentar o tema das relações raciais. O motivo para tanto escarcéu? A seguinte citação:


BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?

Matilde Ribeiro - Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

Vamos por partes. A primeira lição retórica que todo político progressista deveria aprender não é a de dar boas respostas; é a de desconstruir perguntas tendenciosas. Em primeiro lugar, como residente dos Estados Unidos há 17 anos, não sei a que “racismo de negro contra branco” nos EUA o entrevistador se refere. Estará pensando nas instituições exclusivamente negras (como universidades) criadas na época em que aos negros não era permitido entrar nas instituições brancas? Se é verdade que nos EUA há mais separação e segregação racial que no Brasil, só um lunático da Klux Klux Klan atribuiria isso ao “racismo de negros contra brancos”. O tema do racismo nos EUA é longo e complexo; não quero me estender sobre ele aqui. Mas a primeira coisa que a Ministra deveria ter feito é questionar essa estranha comparação, ancorada num factóide que o entrevistador pressupôs mas não demonstrou.

Daí vieram as frases que deliciaram a turba, louca para lançar suas pérolas de que “os negros são racistas” (até o termo gentinha, de ilustre história racista, foi ressucitado nos ataques de indignação). A frase Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco, quando justaposta à frase seguinte, me parece de sentido óbvio: o racismo é uma estrutura social que faz com que negros diariamente apanhem da polícia por serem negros, que sejam enviados ao elevador de serviço por serem negros, que sejam barrados na boate por serem negros, que se vejam privados de um emprego ou um financiamento porque se requer “boa aparência” (essa pérola eufemística do racismo brasileiro). Entendido como estrutura social que priva o outro de oportunidades e lhe diminui em sua condição humana – entendido nesse sentido – o “racismo de negro contra branco” obviamente não existe; não estão dadas as condições sociais para que ele exista. É só isso o que disse a ministra. O racismo como estrutura social não pode ser comparado à hipotética animosidade que pode sentir um negro contra um branco (será que a turba atentou para o uso do artigo indefinido singular aqui?) porque são fenômenos de ordens completamente diferentes. São alhos e bugalhos. A operação de criar simetrias ilusórias para justificar situações de opressão é conhecida. A ministra foi ingênua politicamente. Só isso.

Passemos ao tema de se é “natural” a hipotética animosidade do negro contra o branco. Aqui faço, como dizem os gringos, uma full disclosure ou, em bom tupiniquim, ponho os pingos nos i’s: dado meu interesse por candomblé, samba, funk, secondlines, capoeira e outras manifestações da cultura negra, eu provavelmente já passei mais tempo no interior de comunidades afrodescendentes do que a maioria. Incontáveis vezes já participei de desfiles em New Orleans ou shows na periferia de Belo Horizonte onde, entre centenas de pessoas, eu era um dos únicos brancos. Jamais senti qualquer agressividade, animosidade ou olhar do tipo “o que esse branquelo está fazendo aqui?” - o que não quer dizer que eu não acharia compreensível que isso ocorresse. Quando e se ocorrer, agirei – quero acreditar – de forma a minorar essa hipotética animosidade, em vez de tomá-la calhorda, hipocritamente, como prova de que “racismo é tudo igual” e que um gesto de hostilidade é equivalente a 500 anos de sujeição, desumanização e preconceito.

As reações à fala da ministra dizem muito, muito mais sobre a ansiedade da República Morumbi-Leblon com o tema da raça e da etnia do que qualquer coisa que a ministra tenha dito. Um pouquinho mais de compreensão sobre o que se está debatendo aqui, rapaziada.

E viva Nei Lopes.

Leituras relacionadas:

o caso Grafite
o debate sobre as cotas I
o debate sobre as cotas II
A cor não é transparente, no blog Diário da Lulu.



  Escrito por Idelber às 05:32 | link para este post | Comentários (53)



quinta-feira, 29 de março 2007

Sobre a Copa 2014 e o Mineiro 2007

galo-2.jpg

1. Com quatro dias de atraso, aí vão os parabéns pelos 99 anos de glórias do primeiro campeão da cidade de BH, primeiro campeão mineiro, primeiro campeão brasileiro, primeiro campeão da Copa Sul-Americana Conmebol, primeiro clube brasileiro a deslumbrar a Europa, único clube de futebol do planeta a derrotar a Seleção Brasileira, recordista absoluto de público da história do Campeonato Brasileiro, dono da mais apaixonada torcida e do mais cantado hino de futebol do Brasil, paixão maior do povo de Minas Gerais. Parabéns, Galo!

2. Quando saiu a tabela do Campeonato Mineiro deste ano, bati o olho e disse: “foi feita na sede do Ex-Ipiranga.” Não é verdade, claro. Ela foi escrita na Federação Mineira de Futebol, com a participação de todos os clubes, inclusive com os energúmenos, imbecis diretores do Clube Atlético Mineiro. Mas ela é prova cabal da diferença de poder existente nos bastidores do futebol mineiro. Pois bem, 90 dias depois de eu - não especializado em futebol, com dois filhos, namorada, orientandos, um emprego, livro para escrever, blog para manter, etc. – ter feito uma constatação que me demorou 90 segundos, o técnico atleticano Levir Culpi descobriu a América e viu que a tabela grosseiramente favorece o ex-Ipiranga.

Desculpa antecipada de perdedor? Não. Aliás, essa é a razão pela qual esperei que o Galo confirmasse a classificação para as finais para fazer este post. Já estamos lá e brigaremos pelo título.

Mas se você, leitor, fosse representante do Galo na confecção da tabela, você aceitaria isso? 12 equipes, 11 jogos para cada, somente em turno. Como são três equipes de BH, Galo e ex-Ipiranga jogam 9 vezes contra equipes do interior. Desses 9 jogos, o ex-Ipiranga faz 5 em BH e 4 fora. O Galo faz 4 em BH e 5 fora. Sim, trata-se de uma pequena vantagem. Até que observamos onde são os jogos de cada um. A pequena vantagem se transforma num monstro. Colocando entre parêntesis a distância, em kms, de cada cidade a BH, temos a seguinte combinação: O ex-Ipiranga joga em Andradas (527, sua única viagem longa), Sete Lagoas (56), Nova Lima (15), Ipatinga (217). Termina o Campeonato Mineiro viajando 815 kms. O Galo vai a Governador Valadares (324), Poços de Caldas (468), Ituiutaba (527), Divinópolis (114), Juiz de Fora (255). Não termina o Campeonato antes de viajar 1.658 kms. O ex-Ipiranga disputa o Campeonato em BH e em volta da cidade. O Galo viaja para a fronteira com o Rio de Janeiro, com São Paulo, com Goiás e com o Espírito Santo. Faltou marcar um jogo do Galo para Caxias do Sul ou Mossoró. É frustrante quando as pessoas responsáveis por vê-lo na hora – pessoas cuja única função é cuidar disso - não conseguem enxergar o óbvio e deixam que o mais querido de Minas seja prejudicado. Repito: o Mineiro deste ano é nosso. Mas que os energúmenos que dirigem o Galo prestem atenção na próxima.

2014.jpg 3. Não me entusiasma nem um pouco a idéia de o Brasil sediar a Copa de 2014. Mais que preocupar-me com o possível vexame logístico e organizativo, penso no risco de se colocar ainda mais poder e dinheiro em mãos de gente da laia de Ricardo Teixeira, em conluios nem sempre muito claros com a iniciativa privada e com o dinheiro público. Os últimos dias mostraram a “transparência” que terá o processo: o maior estádio particular do Brasil – e também um dos mais modernos –, o Morumbi, já foi praticamente descartado, sob a esdrúxula justificativa de que as obras necessárias “ficariam muito caras”. Dos grandes estádios brasileiros que competem pelo direito de sediar jogos, só cinco são particulares: Arena da Baixada, Arruda, Morumbi, Beira-Rio, Olímpico. Todos os outros – Maracanã, Pacaembu, Engenhão, Mineirão, Mangueirão, Fonte Nova, Castelão, Serra Dourada e Mané Garrincha – pertencem ao poder público; vários deles precisam de reformas tão ou mais caras que as necessárias no Morumbi (imaginem a farra). Como o São Paulo Futebol Clube não se curva à quadrilha de Ricardo Teixeira, o Morumbi fica fora. Aguardem outras decisões suspeitas. O Ubiratan Leal, que sabe tudo, noticiou que em Brasília, já há um movimento de parlamentares contrários à Bancada da Bola para criar uma agência nacional apenas para fiscalizar os gastos na organização da Copa. Seria bacana que as feras do jornalismo blogueiro de Brasilia ficassem de olho na lambança que vem por aí.

4. Ainda sobre futebol: Milton Ribeiro dá uma excelente espanada no assunto 1.000 gols de Romário x 1.000 gols de Pelé.



  Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post | Comentários (9)



quarta-feira, 28 de março 2007

Convite aos cariocas

machado.jpg

Acontece na Livraria Unibanco Artiplex (Praia de Botafogo, 319), às 19 horas desta quinta-feira, o lançamento do livro Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo, com seleção, ensaio e notas do meu amigo Eduardo de Assis Duarte, professor da UFMG. É um volume imperdível para quem se interessa por Machado de Assis, e muito especialmente para quem acompanha o debate sobre as relações raciais em sua obra. Aí vai a reprodução do release da obra:

Joaquim Maria Machado de Assis, romancista, dramaturgo, contista, poeta, cronista, crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço de negro e português, viria a tornar-se o maior escritor do país. O estilo dissimulado do escritor turvou por muito tempo a interpretação de sua obra. Por mais que tenha proporcionado deleite literário para várias gerações, obtido reconhecimento geral e sido enterrado com pompas de estadista, Machado sempre foi acusado de não olhar atentamente para as grandes questões que o rodeavam - e aqui se destaca o movimento abolicionista - como era esperado de um autor de tal nível, precedido e sucedido por escritores que faziam questão de levar isso em conta. Passou décadas tachado de alienado e despolitizado, um sujeito que daria um voto nulo numa eleição sem sequer se preocupar com quem eram os candidatos.

O detalhe é que o "homem de seu tempo e de seu país" deixou um conjunto de escritos que é um universo de enigmas. Na antologia Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo, o pesquisador e crítico Eduardo de Assis Duarte relê a obra do escritor a partir das manifestações de afro-descendência presentes nos textos. E demonstra que os posicionamentos a respeito de temas como a escravidão e as relações inter-raciais no século XIX estão presentes, sim, na obra, mas integrados à matéria literária e não como panfletos de época. A forma dissimulada e homeopática com que Machado trata a questão étnica e o escravagismo ainda hoje é confundida com alienação e negação de suas origens.

A partir de uma minuciosa seleção e análise de textos, Eduardo de Assis Duarte constrói uma abordagem inédita da obra de nosso maior escritor e nos revela o escritor-caramujo que soube ser o guerrilheiro consciente de suas armas e de seus alvos.

PS: Por falar em livrarias, completou um mês a absurda decisão da 20a Vara Cível do Rio de Janeiro, de ordenar a retirada de circulação a obra Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo Cesar de Araújo. O blog registra o recebimento de simpática mensagem do autor, em agradecimento à solidariedade manifestada por nós aqui. Agora fiquei curioso: o livro sumiu mesmo das livrarias?



  Escrito por Idelber às 06:17 | link para este post | Comentários (9)



terça-feira, 20 de março 2007

Um link

Irretocável o texto do Pedro Dória sobre o triste quarto aniversário da guerra do Iraque. Discordo veementemente de muita coisa que o Pedro escreve sobre outros rincões do Oriente Médio, mas assino embaixo e ao lado desse texto. Como já é de tradição em vários dos excelentes blogs do NoMínimo, dispensa-se a leitura da caixa de comentários.



  Escrito por Idelber às 14:54 | link para este post | Comentários (13)




Mardi Gras Indians

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Sobre os Mardi Gras Indians, eu já disse algo aqui: é uma tradição afro-neworleaniana que rende tributo aos índios que albergaram escravos fugidios no século XIX. Rendeu incontáveis canções em formato chamada e resposta, cantadas pelas ruas de New Orleans não só no carnaval, mas em outras datas como o Super Sunday, que acabamos de festejar.

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Houve uma época em que a violência era a marca registrada dos encontros entre as “tribos” de New Orleans. Desde pelo menos os anos 1960 os chefes convencionaram levar a rivalidade para o terreno do figurino, do batuque e da cantoria.

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Já estão de volta a New Orleans, com todo fôlego, as secondlines: os inconfundíveis desfiles das brass bands, bandas de metais acompanhadas de percussão e seguidas por centenas de pessoas, numa dança que chega a atravessar a cidade. Não é raro dançar durante umas duas ou três horas e descobrir, no final, que se está a 6 ou 7 milhas do carro...

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E as secondlines deste ano em New Orleans têm presenças muito especiais :-) Mais fotinhas aqui.

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PS: Em breve, uma resenha de The God Delusion, de Richard Dawkins, que sai no Brasil pela Companhia das Letras só no segundo semestre. Terminei de ler, muito impressionado. Mas tenho críticas.



  Escrito por Idelber às 02:08 | link para este post | Comentários (2)



quinta-feira, 15 de março 2007

Meme dos autores abandonados

Uns 34 anos atrás, o Hermenauta me passou um meme perguntando sobre três autores dos quais eu tenha desistido de ler, uma brincadeira que ele buscou lá na blogosfera anglo. Na temporalidade baiana que anda regendo o blog, respondo agora, com o devido atraso. Pressupondo que a idéia é nomear autores que já li bem e depois desisti de ler – por oposição aos que ainda não li e já não gostei –, aí vai a lista:

dickens.jpg1. Charles Dickens: Foi dos primeiros autores ingleses que li no original; foi peça chave da formação do meu vocabulário e sensibilidade literária. Admirei as frases retorcidas e os enredos cheios de peripécias. Mas não me vejo revisitando um livro de Dickens tão cedo; a decisão se deve à notável pieguice de que ele é capaz na caracterização dos personagens. Especialmente as crianças, em Dickens, são de uma bondade que nenhum capetinha de 10 anos de idade reconheceria como verossímil. As crianças sabem muito bem que são capazes de crueldades incríveis – só em Dickens elas não sabem disso. Great Expectations, especialmente, padece dessa pieguice. O melhor de Dickens, ainda acho, é A Tale of Two Cities. Para mim já deu.

2. Mario Vargas Llosa: Foi, sim, um grande escritor. Nos anos 1960. Os patéticos rituais da masculinidade em La ciudad y los perros (1963), as vertigens próprias à entrada da selva na modernidade da onírica e fragmentada La casa verde (1966), as histórias intercaladas no turbilhão político de Conversación en la catedral (1969) e até mesmo sua conservadoríssima versão de Canudos em La guerra del fin del mundo (1981) são obras de respeito. Ainda pariu um belo romance em 1987, El hablador. Ali já havia se convertido num arremedo neoliberal, profeta das benesses que a modernização conservadora um dia trará – esperen y verán – ao Peru e à América Latina, contanto que se apliquem os preceitos de austeridade fiscal, se obedeça a orientação norte-americana e os indígenas e trabalhadores não atrapalhem. Hoje Vargas Llosa converteu-se numa espécie de Olavo de Carvalho do criollismo hispano-americano, pobre caricatura do escritor que foi. Num de seus últimos romances, o único personagem positivamente retratado é o policial. Por sorte Tulane tem um excelente professor de literatura peruana, porque não há chance de que eu revisite esse cabra.

3. Fernando Henrique Cardoso: Eu li os livros de FHC, ao contrário de 99 de cada 100 entre aqueles que atacam Lula como “o analfabeto” (não confundir com os que têm críticas políticas legítimas ao governo). De FHC, eu li inclusive os que prestam. Vamos aos pingos nos i’s: FHC foi um sociólogo de alguma importância, mas passa longe de ter estatura de fundador nas ciências sociais brasileiras. Passa longe de ombrear-se com Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro ou Florestan Fernandes, eles sim, definidores de paradigmas de compreensão da sociedade brasileira. Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional (1962) tem o mérito de desbancar teses marxistas ortodoxas anteriores, que não conseguiam pensar a coexistência de capitalismo e escravidão – mas mesmo naquele momento essa relação já havia sido bem pensada por outros autores. Dependência e desenvolvimento na América Latina (com Enzo Faletto, 1969) traz quiçá a sua única contribuição conceitual original, a noção de dependência, que ele renegaria como o diabo à cruz pouco tempo depois. Sobre Autoritarismo e democratização (1975) eu já escrevi meia dúzia de páginas no meu livro Alegorias da derrota: trata-se de um FHC que lê a ditadura de modo ideológico, já do ponto de vista de uma aliança liberal-conservadora que a poderia suceder. Incrivelmente, o livro defende a tese de que a ditadura representava os interesses da burocracia estatal: nada mais simples, então, que removê-la sem mexer no modelo econômico. O FHC de 1975 já anuncia o Fernando liberal de 1994. Ao contrário do que pensam alguns, FHC não “trai” o seu passado. Para encerrar o assunto, li, sim, o Arte da Política: a história que vivi (2006), memórias da presidência. Vale a pena pela quantidade de observações internas à máquina estatal, mas é de uma desfaçatez atroz. Não vou me estender sobre tudo o que ele omite, porque o leitor já imaginará. Pensei em resenhar aqui no blog, mas desisti. Para mim, chega.

E você aí, tem autores que já leu e não voltará a visitar?



  Escrito por Idelber às 20:43 | link para este post | Comentários (29)



terça-feira, 13 de março 2007

Observação rápida

Anda se estabelecendo no Brasil, pelo menos desde as últimas eleições, um padrão curioso, que se repete com tediosa previsibilidade:

Momento 1: Algum grande meio comunicação de massa ou mui visível figura pública diz uma asneira.

Momento 2: Os blogs, comunidades online, foros, listserves debatem a dita cuja, com uma cacetada de argumentos.

Momento 3: Começa a surgir a troupe dos defensores do "coitadinho" que disse a asneira, que supostamente estaria sendo vítima de "patrulhamento", "linchamento" ou "fúria persecutória". Não debatem o tema em questão. Só ficam choramingando contra a poderosa "patrulha".

Discordo da posição do Alberto Dines e do Marcelo Coelho. Trata-se, simplesmente, de entender que na era da internet o dito recupercute mais ampla e rapidamente, só isso. Talvez Renato Janine Ribeiro tenha subestimado o efeito que suas palavras teriam. Mas se quer participar do debate público - e bem ou mal ele atualizou, no Brasil, a figura do filósofo "participante", "propositivo", "ativo na sociedade civil e na mídia" - tem que estar disposto a ouvir também.

O que eu acho inconcebível é um intelectual público escrever algo, presenciar centenas de pessoas de posições políticas diferentes criticá-lo - independentemente e sem notícia umas das outras - e depois ele (ou algum "defensor") vir reclamar de "patrulha", como se as reações tivessem sido produto de uma torcida organizada.

Coisa mais chata, né não, Bia? Lição do imortal Vicente Matheus: está na chuva, é prá se queimar. Quer fazer um "desabafo" com desejo de tortura e morte na Folha de São Paulo? Maravilha. Segure o rojão depois. Não se constrói debate público sem a escuta de argumentos contraditórios - que podem vir a fazer um barulho proporcional à visibilidade de quem iniciou a conversa. Lançou o debate? Escute o barulho. É a regrinha da brincadeira na era da internet.

O que não vale é lançar o debate e sair dele reclamando que está sendo vítima de patrulha. Não é uma boa ética para uma sociedade democrática. Nesses casos eu estou sempre contra a "vítima", esteja ela na esquerda, direita, centro, em cima ou embaixo.

E acho que alguém deveria convidar o Alberto Dines para comentar futebol domingo à noite. Não seria pior do que o que ele anda fazendo como comentarista de mídia e política no Observatório da Imprensa.



  Escrito por Idelber às 04:01 | link para este post | Comentários (22)



segunda-feira, 12 de março 2007

Resposta a um texto de Jorge Coli

book-1.jpgNo dia 18 de fevereiro, Jorge Coli publicou, na Folha de São Paulo, um texto sobre a crítica literária que merece resposta. Publico quase na íntegra o texto de Coli, em itálicos. Intercalo meus comentários em negrito.

Leitura e leitores

JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA

A literatura sempre vazou suas intuições complexas sobre o mundo no prazer de ler. Mas houve uma reviravolta há algumas décadas na maneira de estudá-la.

Sim, houve. Como houve outra há dois séculos. Houve outra com Platão. etc. Nisso a literatura não difere de nenhum outro objeto de estudo: as maneiras de estudá-lo mudam.

Os romances e poemas tornaram-se objeto de dissecação científica; a tal ponto que sumiram, ou quase, diante da destreza analítica.

Na verdade nas quatro últimas décadas tem ocorrido o contrário. A última voga de um projeto de análise “científica” para a literatura ocorreu com o estruturalismo, cujo auge já passara no final dos anos 1960.


Quantos velhos e bons departamentos universitários de literatura não se metamorfosearam em "de teoria literária"?

A resposta correta para esta pergunta retórica é: “nenhum”. Nos EUA, alguns departamentos de literatura comparada substituíram, até certo ponto, o velho modelo da comparação entre literaturas nacionais à base de “fontes” e “influências” e passaram a oferecer mais cursos que poderiam ser catalogados como de “teoria literária”. Nenhum dos departamentos de literaturas nacionais que eu conheça, nos EUA ou no Brasil, “se metamorfoseou em ‘de teoria literária'”. Nas Faculdades de Letras brasileiras, os departamentos de língua vernácula continuam ensinando a língua e a literatura escrita na dita cuja. Os departamentos de românicas continuam ensinando francês e espanhol e as literaturas escritas nas ditas cujas. Que mais ou menos professores desses departamentos tenham sido influenciados pela teoria literária não implica que não estejam ensinando literatura. O resto é papo furado de quem não sabe do que está falando.

Note-se, para quem gosta de gramática, que "literária" é apenas adjetivo de "teoria", sujeito e substância.

Como sabem os bons gramáticos, a ênfase, em qualquer sintagma nominal, pode recair no adjetivo ou no substantivo. Depende da enunciação e, claro, do ouvido de quem escuta ou dos olhos de quem lê.

O romance, o poema passaram a ser pretextos muito secundários, trampolins para exercícios mentais altamente sofisticados.

Seria difícil provar que isso é algo que passou a ocorrer recentemente. Platão e Hegel, para não ir mais longe, usaram poemas para exercícios mentais que me parecem bem mais sofisticados, até, que os atuais.

Essa atitude intelectual chega a extremos engraçados. Há um exemplo paradoxal: um livro de Walter Benjamin [1892-1940], grande sábio alemão,

“escritor”, “filósofo”, “crítico” ou “ensaísta” seriam designações que soariam mais apropriadas ou menos irônicas aqui no caso.

intitula-se "Origem do Drama Barroco Alemão". Essa obra, por sinal bem complicada e obscura, foi traduzida e publicada no Brasil [ed. Brasiliense].

Trata-se de uma obra de crítica literária – disciplina especializada – escrita em 1924. Não é mais “obscura” nem “complicada” para um crítico literário atual que um tratado sociológico de 1924 para um sociólogo atual, ou um livro de criminologia de 1920 para um criminólogo de hoje.

Por mais que seu conteúdo seja autônomo no processo reflexivo, ele pede alguma noção, mínima que seja, a respeito do drama barroco alemão.

Não necessariamente. Claro que conhecer o objeto da obra crítica ajuda, mas nada impede que se leia um livro sobre Clarice antes de conhecer a autora. A legibilidade do livro dependerá de quão esclarecedor for o trabalho de análise ao dar resumos dos enredos, contexto do autor, etc.

Ora, quantos deles existem editados no Brasil? É fácil apostar que nenhum. Esse é um caso sintomático, no qual a especulação intelectual prescinde do objeto.

Errado. Benjamin não “prescindiu do objeto” quando escreveu o livro. Ele conhecia o corpus. Se esse corpus não é conhecido no Brasil e seu livro sobre ele passa a despertar interesse, não seria isso algo a se celebrar, na medida em que a crítica está gerando a reedição de obras ou a publicação de traduções, abrindo assim possibilidades de leituras até então desconhecidas? book-2.jpg

Para continuar no mesmo autor: quantos leitores de Benjamin, que conhecem e citam suas referências a Baudelaire e Proust, leram, de fato, Baudelaire e Proust?

A pergunta retórica é, de novo, falsa. Se alguém acha que pode falar de Proust sem lê-lo, baseando-se somente no ensaio de Benjamin, a culpa não é deste último. A pergunta que importa é outra: quantos leitores foram levados a aproximarem-se de Proust ou Baudelaire justamente porque leram os ensaios de Benjamin? Conheço muitos; eu, inclusive, sou um deles.

Júbilo
Declarações recentes de Tzvetan Todorov, grande sábio búlgaro ainda vivo, enchem o coração de alegria. Todorov, lingüista e filósofo muito cabeça, num chat da revista francesa "Télérama": (Pergunta) "No seu último livro ["La Littérature en Péril", A Literatura em Perigo], o sr. diz, a propósito do ensino da literatura, que, "na escola, não se ensina aquilo que os livros dizem, mas aquilo que dizem os críticos. O senhor pode explicar sua opinião?" (Todorov) "Há algum tempo que, na escola, pararam de refletir sobre o sentido dos textos e passaram a estudar de preferência os conceitos e métodos de análise. Nesse sentido, é possível dizer que se estudam as teorias dos críticos, e não as obras dos autores.
Ora, para nós, ignorante é quem não leu "Madame Bovary" [de Flaubert] ou "As Flores do Mal" [de Baudelaire], e não quem não sabe, por exemplo, distinguir focalização interna de focalização externa."

Se Benjamin não foi um “sábio”, Todorov muito menos. Se Jorge Coli quer saber como anda a crítica literária, eu sugeriria fontes outras além do “grande sábio búlgaro”. Para quem não o leu: Todorov é, há 40 anos, uma espécie de “grande turista dos métodos de análise entendidos como moda”. Escreveu seus tratados de estruturalismo quando o dito cujo estava em voga, passou pelas teorias do “carnavalesco” quando estas eram populares, depois conseguiu cometer a incrível gafe de escrever um livro sobre a Conquista da América sem conhecer a bibliografia (e propondo a bizarra tese de que a conquista espanhola se explicava não pela pólvora, mas pela superioridade do seu sistema de signos!), para, pelo que parece, resignar-se a concluir a brilhante carreira como uma espécie de Allan Bloom, lamentando a barbárie imposta pelos novos tempos.

Para dar um exemplo de como a argumentação de Todorov é mistificada: quem leu Madame Bovary e Dom Casmurro e entendeu a diferença entre um romance de adultério narrado em terceira pessoa e o relato de um pretenso adultério feito pelo marido ciumento certamente já entendeu a diferença entre focalizações interna e externa. Que só os especialistas usem os termos não quer dizer que a realidade designada por eles não tenha importância, seja imperceptível para o leitor comum ou seja algo obscuro e não relacionado ao "prazer da leitura". Da mesma forma como eu, leigo em química, sei que o carro funciona com a gasolina que compro no posto.
*******

Mais
(Pergunta) "Quais os conselhos para um jovem estudante que deseja se lançar nos estudos literários?" (Todorov) "Antes de tudo, não confundir os meios e os fins. Os fins da leitura de textos literários são os de melhor compreender o sentido deles e, por meio deles, o que nos dizem da própria condição humana. Os meios são todos os métodos de aproximação crítica, que podem nos permitir ler melhor, com a condição de não formarem uma cortina de fumaça diante dos textos.

Sobre os fins: O fins da literatura não são “compreender a condição humana”. Os fins da literatura são, por definição, abertos e não definíveis de antemão. São construídos e reconstruídos a cada leitura. Todorov e Jorge Coli parecem não se dar conta, mas a idéia de que a literatura tem por fim “compreender a condição humana” é também uma teoria, só uma. Nada mais. Aliás, trata-se de uma teoria, o humanismo, que já teve melhores momentos e proponentes mais sólidos em sua argumentação.

Sobre os meios: O medo de que os métodos de análise possam “formar uma cortina de fumaça” ante os textos ou “retirar o prazer” da leitura é absurdo ao extremo: alguém diria que o conhecimento da química da cevada tira o prazer de degustar a cerveja? ou que o conhecimento de astronomia tira o prazer da contemplação da noite? Só na literatura ainda nos encontramos na posição de ter que defender o direito de elaborar um conhecimento especializado sobre o objeto sem sermos patrulhados pelos guardiões do “prazer da leitura” ou da “simplicidade da literatura”.

Intervenções como as de Todorov e Jorge Coli, sob o pretexto de “defender a experiência do leitor comum”, são na verdade patrulhamentos mal-informados sobre o que é a crítica literária. É óbvio que qualquer leitor pode desfrutar da leitura de romances, poemas e peças sem estudar nada de teoria literária. Aqui no Clube de Leituras, alguns dos comentários mais atinados sobre as obras foram de pessoas que não se dedicam a estudar literatura profissionalmente.

Mas há que se convir: esse papo de que os desalmados técnicos da obscura teoria literária são os culpados pelo “fim do prazer da leitura” ou por uma suposta “decadência da leitura” das grandes obras é mais uma miragem reacionária, nostálgica e mal-informada. Populismo que joga para a platéia e cultiva a ignorância. Se você quer saber o que se passa com a crítica literária para além desse chororô apocalíptico, há gente muito mais séria para se ler.



  Escrito por Idelber às 05:26 | link para este post | Comentários (15)



sexta-feira, 09 de março 2007

Jean Baudrillard (1929-2007)

baudrillard.jpgDa gama de pensadores iconoclastas que alcançam a maioridade na França nos anos 60, Jean Baudrillard não foi o de maior importância ou brilhantismo. Mas foi, certamente, o mais engraçado e o mais capaz de despertar fúria: salvo engano, foi o último de alguma estatura a morrer. Há tempos ele não me inspirava muito, mas depois de ler os fracos obituários do Globo e da Folha, não há como não registrar aqui um Requiescat in pace para Baudrillard.

Havia algo de bufão e xamã em Baudrillard: careca, baixinho, fumante, adepto de proclamações hiperbólicas e visionárias, ele influenciou o cinema (em Matrix a influência é inclusive reconhecida), a televisão, a web art e duas gerações na sociologia, nos estudos culturais e na filosofia. Operava como um agent provocateur, carreira na qual chegou ao cume com a afirmação La guerre du Golfe n’a pas en lieu (“a Guerra do Golfo” – a primeira! – “não aconteceu” ou, literalmente, “não teve lugar”): título de artigo e de livro, a frase foi cifra de uma reflexão sobre o caráter midiático, espetacularizado, tecnológico, “de videogame” da primeira Guerra do Golfo, a da CNN. O “ultramoderno processo de eletrocução” não configurou, para Baudrillard, uma guerra, mas uma “paralisia ou lobotomia de um inimigo experimental longe do campo de batalha sem qualquer possibilidade reação”. 10.000 toneladas de armas, dizia, não são suficientes para fazer uma guerra: quando os americanos finalmente saíram de trás da sua cortina de bombas, os iraquianos já haviam se escondido atrás da sua cortina de fumaça, dizia ele. Massivas mortes e destruição, claro, mas fora de toda visibilidade. Sobre o 1991-92 no Golfo, Baudrillard escreveu:

Quem poderia ter prestado mais serviço a todos, em período tão curto e a tão baixo custo além de Saddam Hussein? Ele reforçou a segurança de Israel (refluxo da Intifada, giro da opinião pública mundial para Israel), assegurou a glória das armas americanas, deu a Gorbatchev uma chance política, abriu as portas para o Irã e os Xiitas, lançou de novo a ONU, etc. tudo isso de graça, já que só ele pagou o preço em sangue. Podemos conceber um homem tão admirável? E ainda por cima nem caiu! Permanece um herói para as massas árabes. É como se ele fosse um agente da CIA disfarçado de Saddam Hussein.

Para quem acompanhou as três últimas décadas de Baudrillard, com seus insólitos paradoxos e provocações, seus aforismos vertiginosos, é difícil imaginar o autor dos primeiros livros: um pensador sóbrio, respeitoso com os conceitos. Ele dedicou-se a fazer com o estudo dos signos (semiótica, semiologia) o que Marx havia feito com a economia política: Para uma crítica da economia política do signo (1972) é uma demolição rigorosa dos restos de aristotelismo em Marx, enclaustrados no conceito de “valor de uso” – conceito cujo enterro Baudrillard prepara com pompa e circunstância. O livro pacientemente desmonta o par valor uso / valor troca e o substitui pelo par valor troca / valor signo. O “sistema das necessidades” humanas ao qual o valor de uso responderia não seria senão um mito empirista, uma hipótese falsa. Tudo é desde sempre troca e signo.

Ao contrário do que incorretamente informa o obituário do Globo, Baudrillard não foi um “feroz crítico da sociedade de consumo” nem um “crítico radical dos meios de comunicação”. Em suas primeiras obras, de Sistema dos Objetos (1968) a Sociedade de consumo (1970) a Troca simbólica e morte (1976), ele foi um teórico do consumo, um analista dedicado a desenredar os seus componentes: ali ele encontra a reprodução de desejos, a mitologia das supostas “necessidades naturais”, a produção industrial das diferenças, o caráter simulador, fantasmagórico do marketing, os embriões do que depois ele identificaria como o fim da separação entre realidade e simulacro.

Baudrillard tampouco foi “feroz crítico” desses processos na sua última fase. Nela, dedicou-se a dar à noção de “simulação” uma operacionalidade, alguma nobreza filosófica, um terreno no qual ser ferramenta para o pensamento. Sua escrita, inclusive, era uma constante mímesis dessa simulação. Em Simulacro e Simulação (1981), proclamou que a imagem passa por quatro fases, nas quais ela sucessivamente

1. reflete uma realidade básica.
2. mascara e perverte uma realidade básica
3. mascara a ausência de uma realidade básica
4. não mantém qualquer relação com qualquer realidade: é o seu próprio simulacro. america.jpg

Sobre Brasília, Baudrillard escreveu:

Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.

A realização maior do simulacro para Baudrillard seria a América, lugar da “utopia realizada”. A ela dedica um livrinho delicioso, poético, que culmina a tradição inaugurada por Tocqueville e deixa como rastro, no Brasil, a bela série de TV feita por João Moreira Salles. Algumas das páginas mais hilárias já escritas sobre Reagan ou a Disneylândia encontram-se nesse livro.

Baudrillard deixou ainda uma reflexão sobre o problema do mal como objeto situado além de toda moralidade (Transparência do mal: Ensaio sobre fenômenos extremos), um escandaloso volume sobre a sedução em que lamentava o abandono, por parte de Freud, da hipótese da sedução infantil como base da teoria da sexualidade, um debochado convite a Esquecer Foucault e 5 tomos de aforismos e lembranças, Cool Memories. Seu adeus a qualquer posição "de esquerda" foi dado num livro de belíssimo título: À sombra das maiorias silenciosas.

Morreu aos 77 anos de idade.

PS: Ver também o belo post da Sheila Lerner e as duas partes da sua ótima entrevista com Baudrillard para o Estadão (hat tip: gugala)



  Escrito por Idelber às 00:31 | link para este post | Comentários (18)



terça-feira, 06 de março 2007

Páginas da Vida

paginas.jpgTodos os apelidos de personagens são roubados de Falzuca ; Marina W já comentou também.

Pressão do público ou fruto do absurdo show de bola do Marcos Caruso: o Francisco ficou mesmo com o avô. Porque não era para ser. A narrativa vinha encaminhando outra coisa: Clarinha com a mãe adotiva, a Densa, e o Francisco com o casal bunitim formado pela Jujuba Traíra e pelo Embuchador D. Pedro I. No final o vovô-pobre-mas-honesto, o Boca de Alma, não só manteve o moleque como levou a Renata Sorrah de quebra.

Para dar verossimilhança à resolução que não era a que a trama encaminhava, Manoel Carlos escreveu um par de capítulos malucos na última semana – onde Jujuba e D. Pedro I, sempre tão razoáveis na novela inteira, entravam na casa de Densa insultando-a por ter escondido a identidade de Clarinha. Era necessário completar a construção da antipatia do público ante o casal, que havia se iniciado meio que sem querer. Levantar a bola para a catarse pró-vovô do último capítulo.

Completinha a parábola, todos os vilões triunfaram. O crime compensa. Sim, porque apesar das aparências criadas pela performance tão brilhante de Caruso, o avô é maligno também, ou não? Pouca gente notou isso. Ora, é o único da novela que dá porrada em mulher, destila ressentimento a cada frase e tem esse estranho jeito de amar o neto, exigindo retribuição e exclusividade – transtorno afetivo narcísico que aparece à beça entre amantes, mas que eu nunca vi, naquele grau pelo menos, entre pai e filho ou avô e neto. É um obsessivo-compulsivo com distúrbio narcisista em último grau, o cabra. Mais cinco anos com aquele avô e o moleque precisará da freudiana braba. Mas Caruso é tão show de bola que nos identificamos. MarcosCaruso.jpg

Os outros vilões todos venceram: Alícia, a PCC (Perua Ciumenta Consumista), vê o ex-namorado bonitão perder os dois processos, esfrega a derrota na cara dele e ainda embolsa uma bolada; Winnits, a Abusada, embolsa metade da grana roubada por Gregui Falcatrua e ainda o relega à posição de amante quando Machadão, o porteiro, ganha na megasena; o Gregui Falcatrua termina onde no fundo sempre quis estar, com grana e na posição de segundo homem de alguma perua. Dona Martha escapa do sanatório e de ter que morar com Boca de Alma e moleque. A única vilã que se dá mal é a Craudétes, a racista-mineira-mas-de-sotaque-Leblon, que morre queimada no ônibus. O buzum ia para BH mas, pelo sotaque, o destino era Juiz de Fora, no máximo.

No racismo a novela derrapa. Feio. Tentou fazer o gesto, mas não deu. Porque o racismo brasileiro pode chegar a cúmulos, mas ninguém – nem mesmo o pior racista – rejeita uma comida porque foi feita com mãos negras. Não no país da servidão doméstica institucionalizada. Não cola. O tema do racismo perdeu verossimilhança ali.

E os dois casais de mocinho com mocinha que a novela prometia para o final? Formaram-se, mas sem nenhum charme: Embuchador D. Pedro I ficou com Jujuba Traíra, mas sem as crianças. O casal fracassou tanto como polarizador de simpatia do público que a última cena do D. Pedro I não foi com Jujuba, mas com a antiga namorada, a megera, comemorando a derrota dele no tribunal. Sem as crianças, a Jujuba perde seu encanto. Ela era o duplo do fantasma de Nanda, um mero eco.

O Capitão Cueca com a empregadinha Big Broda era o casal que dava audiência mesmo. Terminaram casando-se na igreja, claro. Na alegoria incestuosa tupiniquim, o pobre que sabe o seu lugar até ganha a recompensa – o filho do patrão para a Big Broda e a Carmen Opera Bufa, ex-corna e ninfomaníaca monogâmica, para o jardineiro. Mas quem preside sobre a porra toda ainda é o Tide - ninguém sai daquele casarão, que no final das contas é a própria imagem da endogamia. Casam-se, mas não se mudam.

Falou-se das mulheres da novela, mas os homens são todos emasculados. O único homem é Tide, o patriarca, essa estranha figura do fálico-quase-virgem: homem que não gerou homens, só mulheres e meninos. A família tem um pequeno probleminha com a reprodução da Lei do Pai. Bem apropriado, então, que não haja rolado nada com a Sônia Braga - que estava de visual medonho. O casal emblema da novela termina sendo, então, a Olhos Arregalados com o Boca de Gato: comportado, o bom mocismo incestuoso (eles são ex-cunhados) continua sentado à direita do pai. Priminhos brincando. Bons modos. O pai fálico-quase- virgem preside a mesa.

Confirmo-lhes, jubilante, que suportei a Regina Duarte durante 6 meses. E ganhei a recompensa: 10 minutos de Eva Wilma, poderosíssima, no episódio final. Vai ser charmosa assim lá longe.

Foi bom seguir uma novela - tenho mantido a minha média de uma a cada vinte anos.



  Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post | Comentários (27)



sexta-feira, 02 de março 2007

Resposta a Renato Janine Ribeiro

janine.jpgRenato,

Você não se lembra de mim e provavelmente não lerá isto, mas achei por bem fazer este post em forma de carta e evitando o tratamento de Sr. que, se justificável pela diferença etária e curricular existente entre nós, talvez pudesse, aqui no caso, soar irônica. Não é a intenção.

Mas convenhamos: que cagada, hein cara? Eu vou lhe contar uma coisa: com esse artigo que você escreveu para a Folha de São Paulo do dia 18/02, você pode ter jogado por terra toda a reputação construída ao longo de pelo menos 16 livros, uma centena de artigos e uma presença impecável na vida intelectual brasileira. A estas alturas do campeonato, você já deve ter se arrependido amargamente do que disse. Você quis agradar a direita e sacudir a esquerda, e acabou ridicularizado por aquela e desmontado por esta – para não falar na tunda que o Elio Gaspari lhe deu, na lição de classe que o italiano Andrea Lombardi, seu colega de USP, lhe brindou e nas aulas que você andou levando blogosfera afora. Você conseguiu desagradar todo mundo; ficou mal com gregos e baianos.

Tudo isso para satisfazer a sanha linchadora da turba depois do assassinato do menino João Hélio? Tudo isso para mostrar que o intelectual também pode ser durão como o Jornal Nacional, indignado como o Fantástico, paladino e denunciador como a Veja? Tudo isso pelo medo de remar contra a maré? Tudo isso para pegar carona nos discursos simplistas, por medo de discutir com argumentos um pouco mais tridimensionais o complicadíssimo problema da violência no Brasil? Você abdicou da principal tarefa do intelectual, que é desconfiar do senso comum e não ter medo de estar em minoria. Juntou-se à turba com argumentos tão patéticos que ela própria se encarregou de expulsá-lo do cerimonial do linchamento.

Você escreveu: Se não defendo a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho que é pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte . . . Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam de modo demorado e sofrido . janine-livro.gif

Custa acreditar que quem escreveu essas frases é a maior autoridade brasileira no ramo da filosofia conhecido como ética. Aliás, o que anda acontecendo com os professores de ética aí em São Paulo, hein? Primeiro, o Roberto Romano descobre o tucanato como culminação da razão ocidental; agora, no maior jornal do país, você fantasia estuprar e torturar prisioneiros com o argumento de que “pena de morte é pouco”. Você se lembra da época em que explicava o imperativo categórico kantiano (aja a cada momento como se o seu ato fosse ser universalizado) com a frase a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la? Sem dúvida, trata-se de uma explicação boa, compreensível, que capta o essencial da Crítica da razão prática. Como é que você vai explicar o imperativo categórico kantiano agora, hein Renato?

Você sabe, já li uma penca de livros seus. Meu favorito é A sociedade contra o social. Quando estou no Brasil, assisto ao seu programa sempre que posso. Ana também gosta. Era um belíssimo precedente de incorporação da filosofia, de forma aplicada, aos meios de comunicação de massa. Digo “era” propositalmente. Não é irônico que os episódios mais recentes tenham sido exatamente sobre a diferença entre justiça e vingança, sobre a irredutibilidade daquela a esta? Como é que você se esqueceu dessa diferença? Com que cara você vai apresentar esse programa agora?

Para satisfazer a turba, você disse: Se há Deus, e acredito que haja, embora não necessariamente antropomorfo, como admite Ele esse mal extremo, gratuito, crudelíssimo? . . . Não vejo diferença entre eles e os nazistas . . . Os nazistas foram culpados do que fizeram. Optaram pelo mal. Como esses assassinos.

Nazistas? Mal gratuito? Que pilha de platitudes pré-kantianas é essa? Depois de um homícido culposo, produto de uma trapalhada de um assalto feito com arma de brinquedo? O sofrimento horrível da criança e dos seus pais vai agora sair da esfera privada e virar inspiração para políticas públicas? Como é que você vai ensinar agora, aí na USP, a diferença entre um indivíduo culpado de um crime e uma política de exterminação estatal de mais de uma década? Você cometeu o pior erro que um progressista pode cometer em política: aceitar discuti-la com categorias morais.

Fiquei sabendo que no próximo domingo, no Mais!, você vai tentar “explicar” que não defendeu a pena de morte nem a tortura. Sabe, Renato, em Minas temos um bom ditado: merda, quanto mais mexe, mais fede. Não tente dizer que não o entendemos. Retire o que disse, retrate-se. É o mais digno.

Já sei: não faltará quem diga que estou absolvendo os criminosos. É o que sempre acontece quando alguém tenta introduzir um pouco de racionalidade no debate sobre o castigo. É fácil gritar: mais porrada, mais cadeia, mais polícia. Falamos de prevenção do crime, de políticas públicas para tentar atenuar a violência, e o patrulhamento só vê nisso a absolvição dos criminosos e a justificativa dos seus atos.

Veja bem, não nego que possam existir argumentos razoáveis a favor da redução da maioridade penal para 16 anos; não nego mesmo que possam existir argumentos razoáveis a favor da pena de morte. Eu sou radicalmente contra esta última, especialmente num país como o Brasil, onde o judiciário quase só funciona contra os pobres. Mas deixemos de fingir que a punição é a chave maior para resolver o problema, num país onde só 3% dos homicídios são esclarecidos.

Discutamos também as experiências reais, ainda que limitadas, de redução da violência. Diadema é um exemplo. Belo Horizonte não fez milagres, mas melhorou. Nas experiências com algum grau de sucesso, em geral se vê uma combinação de fatores: iniciativas educacionais, melhoria das condições de trabalho da polícia, programas de reintegração. Discutamos também alguma mudança na absurda política de drogas do Brasil, talvez a nossa grande chance de reduzir rápida e significativamente a taxa de homicídios dolosos.

Não, não acho que a “sociedade” seja culpada pelo crime dos assassinos do João Hélio, pelo menos não dessa maneira simplista; da mesma forma, Renato, que a lamentável ausência de um discurso de esquerda sobre a segurança pública no Brasil (que acaba deixando o tema nas mãos da direita) não é a culpada pela monumental cagada que você cometeu na Folha.

Mas não há dúvida que a luta contra a violência passa, sim, por medidas educacionais, ambientais e também penais, assim como a formulação de um discurso progressista sobre a segurança pública talvez possa impedir que no futuro apareçam no Brasil professores de ética defendendo a tortura de presos.

Atentamente,

Seu leitor.



  Escrito por Idelber às 00:31 | link para este post | Comentários (53)