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sexta-feira, 09 de março 2007

Jean Baudrillard (1929-2007)

baudrillard.jpgDa gama de pensadores iconoclastas que alcançam a maioridade na França nos anos 60, Jean Baudrillard não foi o de maior importância ou brilhantismo. Mas foi, certamente, o mais engraçado e o mais capaz de despertar fúria: salvo engano, foi o último de alguma estatura a morrer. Há tempos ele não me inspirava muito, mas depois de ler os fracos obituários do Globo e da Folha, não há como não registrar aqui um Requiescat in pace para Baudrillard.

Havia algo de bufão e xamã em Baudrillard: careca, baixinho, fumante, adepto de proclamações hiperbólicas e visionárias, ele influenciou o cinema (em Matrix a influência é inclusive reconhecida), a televisão, a web art e duas gerações na sociologia, nos estudos culturais e na filosofia. Operava como um agent provocateur, carreira na qual chegou ao cume com a afirmação La guerre du Golfe n’a pas en lieu (“a Guerra do Golfo” – a primeira! – “não aconteceu” ou, literalmente, “não teve lugar”): título de artigo e de livro, a frase foi cifra de uma reflexão sobre o caráter midiático, espetacularizado, tecnológico, “de videogame” da primeira Guerra do Golfo, a da CNN. O “ultramoderno processo de eletrocução” não configurou, para Baudrillard, uma guerra, mas uma “paralisia ou lobotomia de um inimigo experimental longe do campo de batalha sem qualquer possibilidade reação”. 10.000 toneladas de armas, dizia, não são suficientes para fazer uma guerra: quando os americanos finalmente saíram de trás da sua cortina de bombas, os iraquianos já haviam se escondido atrás da sua cortina de fumaça, dizia ele. Massivas mortes e destruição, claro, mas fora de toda visibilidade. Sobre o 1991-92 no Golfo, Baudrillard escreveu:

Quem poderia ter prestado mais serviço a todos, em período tão curto e a tão baixo custo além de Saddam Hussein? Ele reforçou a segurança de Israel (refluxo da Intifada, giro da opinião pública mundial para Israel), assegurou a glória das armas americanas, deu a Gorbatchev uma chance política, abriu as portas para o Irã e os Xiitas, lançou de novo a ONU, etc. tudo isso de graça, já que só ele pagou o preço em sangue. Podemos conceber um homem tão admirável? E ainda por cima nem caiu! Permanece um herói para as massas árabes. É como se ele fosse um agente da CIA disfarçado de Saddam Hussein.

Para quem acompanhou as três últimas décadas de Baudrillard, com seus insólitos paradoxos e provocações, seus aforismos vertiginosos, é difícil imaginar o autor dos primeiros livros: um pensador sóbrio, respeitoso com os conceitos. Ele dedicou-se a fazer com o estudo dos signos (semiótica, semiologia) o que Marx havia feito com a economia política: Para uma crítica da economia política do signo (1972) é uma demolição rigorosa dos restos de aristotelismo em Marx, enclaustrados no conceito de “valor de uso” – conceito cujo enterro Baudrillard prepara com pompa e circunstância. O livro pacientemente desmonta o par valor uso / valor troca e o substitui pelo par valor troca / valor signo. O “sistema das necessidades” humanas ao qual o valor de uso responderia não seria senão um mito empirista, uma hipótese falsa. Tudo é desde sempre troca e signo.

Ao contrário do que incorretamente informa o obituário do Globo, Baudrillard não foi um “feroz crítico da sociedade de consumo” nem um “crítico radical dos meios de comunicação”. Em suas primeiras obras, de Sistema dos Objetos (1968) a Sociedade de consumo (1970) a Troca simbólica e morte (1976), ele foi um teórico do consumo, um analista dedicado a desenredar os seus componentes: ali ele encontra a reprodução de desejos, a mitologia das supostas “necessidades naturais”, a produção industrial das diferenças, o caráter simulador, fantasmagórico do marketing, os embriões do que depois ele identificaria como o fim da separação entre realidade e simulacro.

Baudrillard tampouco foi “feroz crítico” desses processos na sua última fase. Nela, dedicou-se a dar à noção de “simulação” uma operacionalidade, alguma nobreza filosófica, um terreno no qual ser ferramenta para o pensamento. Sua escrita, inclusive, era uma constante mímesis dessa simulação. Em Simulacro e Simulação (1981), proclamou que a imagem passa por quatro fases, nas quais ela sucessivamente

1. reflete uma realidade básica.
2. mascara e perverte uma realidade básica
3. mascara a ausência de uma realidade básica
4. não mantém qualquer relação com qualquer realidade: é o seu próprio simulacro. america.jpg

Sobre Brasília, Baudrillard escreveu:

Em Brasília, a abstração da cidade oferece pelo menos uma certeza: ao menos aqueles que são loucos o suficiente para atravessar suas vias expressas urbanas – pondo a perigo suas vidas no processo – são seres humanos. A raça humana não é, em nenhum lugar, tão incongruente como nesse entorno extra-terrestre, com a exceção dessas criaturas minúsculas que se tocam e andam a pé.

A realização maior do simulacro para Baudrillard seria a América, lugar da “utopia realizada”. A ela dedica um livrinho delicioso, poético, que culmina a tradição inaugurada por Tocqueville e deixa como rastro, no Brasil, a bela série de TV feita por João Moreira Salles. Algumas das páginas mais hilárias já escritas sobre Reagan ou a Disneylândia encontram-se nesse livro.

Baudrillard deixou ainda uma reflexão sobre o problema do mal como objeto situado além de toda moralidade (Transparência do mal: Ensaio sobre fenômenos extremos), um escandaloso volume sobre a sedução em que lamentava o abandono, por parte de Freud, da hipótese da sedução infantil como base da teoria da sexualidade, um debochado convite a Esquecer Foucault e 5 tomos de aforismos e lembranças, Cool Memories. Seu adeus a qualquer posição "de esquerda" foi dado num livro de belíssimo título: À sombra das maiorias silenciosas.

Morreu aos 77 anos de idade.

PS: Ver também o belo post da Sheila Lerner e as duas partes da sua ótima entrevista com Baudrillard para o Estadão (hat tip: gugala)



  Escrito por Idelber às 00:31 | link para este post | Comentários (18)


Comentários

#1

Oi Idelber:

A morte de Baudrillard não aconteceu.

pesquei lá no Carnet de Notes, q é um blogue q eu acho q vc devia conhecer (se é q já não conhece)...

ando sem tempo pra comentar muita coisa e, pra falar a verdade, nunca li Baudrillard. ;-)

abs,

dra em março 9, 2007 11:00 AM


dra em março 9, 2007 11:02 AM


#3

ê, laiá, de manoel carlos a baudrillard.
esse é meu idelber.
:>)

Biajoni em março 9, 2007 11:46 AM


#4

Só li o "Simulacro e Simulação", mas após ler este obituário fiquei curioso com os outros. Mandou bem, Idelber!

Túlio Vianna em março 9, 2007 11:50 AM


#5

Ah se não fosse o imaginário e a fantasia! Que seriam dos preços e dos valores? Se paramos para pensar, o fetichismo economico não existiria. Excelente blog!

Thiago Quintella em março 9, 2007 1:53 PM


#6

Ótimo post da Sheila Leirner,amiga do Jean Baudrillard, com título "Isto não é necrológio" .
http://sheilaleirner.blogspot.com/
abç

gugala em março 9, 2007 3:04 PM


#7

Ia sugerir a leitura do necrológio afetivo da Sheila, para complementar seu excelente funéreo acadêmico pro sujeito, Idelber. Já sua referência a Brasília é claramente uma provocação, e inveja pura só porque aqui os únicos redemoinhos são os dos sacis do cerrado.
O Joca (Baudrillard me permitia que o chamasse assim, quando assistíamos juntos, eu, ele e a Sheila Lerner, os capítulos de Lost, em sua água furtada em Paris) tem umas passagens divertidas das Cool Memories dele, sobre o Brasil. Em resumo, como todo francês, ele se encantava com a malemolência brasileira.
No fundo, acho, ele sonhava um dia ter um simulacro de mulata só para ele desconstruir, semantema poor semantema, num fim de semana à beira do Sena...

Afinal, adorei o texto, mas não entendi essa de que ele não criticava a sociedade de consumo; fazia uma bela análise, sim, mas o que resultava disso era uma crítica demolidora dos mitos dessa mesma sociedade, ou será que li errado a orelha do livro? Feroz, concordo, é exagero, coisa de jornalista. Mas crítico, muito.

Anonymous em março 9, 2007 4:30 PM


#8

Perdão, não assinei. Anonymous uma ova. Nem simulacro nem simulação disso.

Fraquinhos mesmo O Globo e a Folha. Minha esperança é o necrológio do cara no estadão desse fim de semana. Deram uma merreca de matéria na semana, acho que para fazer o devido registro no domingo.

S leo em março 9, 2007 4:35 PM


#9

belo post, bem completo e expressivo das idéias do autor. Sempre fiquei com o pé atrás com Baudrillard, mais por dizeres relativos a ele do que por conhecimento dos seus escritos. Teu post ajudou a passar de um preconceito ingênuo (talvez expresso em um breve post do Catatau sobre Baudrillard) ao interesse...

um abraço,

catatau em março 9, 2007 8:39 PM


#10

Ultimamente tenho me entretido com a idéia (que certamente não é original) de que o simulacro é a unidade básica das ciências sociais, conhecida por criar teorias que explicam fatos, que exigem teorias que as expliquem e assim sucessivamente até que o que menos importe sejam os fatos, ou melhor, até que as próprias teorias sejam os fatos a serem explicados. Se é que me entendem.

De resto achei o ó o Sergio Leo aparecer aqui pra defender Brasília. Eu também defendo, mas isso é porque tanto ele quanto eu só andamos de carro, e ainda assim ainda não conseguimos nos visitar em nossas respectivas casas.

Mas o Baudrillard tá de sacanagem, como sabe qualquer um que já tenha andado ao pé da Torre Eiffel.

abçs

hermenauta em março 10, 2007 11:00 AM


#11

Será 'ficcção' o mesmo que 'simulacro'? Essa última série de posts, Idelber, estão soberbas. Abrs.

Cláudio Costa em março 10, 2007 6:45 PM


#12

Sergio, você tem razão em não ter entendido a minha crítica ao uso do termo "crítico". Não estava nada clara - faltaram umas duas frases de explicação.

O que quis dizer é que Baudrillard era bem cético quanto ao alcance mesmo de um projeto de "crítica". Não acredito que ele visse sua leitura da sociedade do simulacro como uma "crítica" a esta; não era uma celebração dela tampouco, como alguns de seus desafetos insistiam. Mas Baudrillard via a "crítica" (e tudo o que a esse projeto sempre se associou, ou seja, o desvendamento, o desmascaramento, o ato de trazer à luz algo escondido, etc.) como um resquício de uma visão ainda tradicional de cultura, segundo a qual ainda era possível separar a realidade das coisas de sua mistificação.

Para resumir: o "crítico" seria alguém que desvenda a essência por trás da aparência (a isso se dedicaram todas as "críticas" modernas, dos iluministas a Marx e além), enquanto que o pensador do simulacro vive e lê um mundo onde já não é possível estabelecer essa diferença entre o rosto e a máscara...

Como vocês em Brasília sabem bem :-)

Idelber em março 12, 2007 6:14 AM


#13

Espera aí um pouquinho: mesmo em um mundo de simulacros um "crítico" ainda pode "criticar" algo ou alguém puramente por motivos privados (políticos, por exemplo), sem ser preciso postular um Bom, Belo e Verdadeiro por trás. Meio, assim, que nem em mesas redondas de futebol, já que o futebol é puro simulacro também.

Ou não? :)

Hermenauta em março 12, 2007 6:49 PM


#14

D'accord, d'accord, Hermê, poderia. Mas o caso é que "crítico" na expressão "crítico dos meios de comunicação" sempre significou - bem, modernamente, pelo menos - criticar esses meios como representações distorcidas, tendenciosas, incompletas, manipuladas (escolha-se o adjetivo que se queira) de uma coisa que ainda recebe o nome de "realidade", correto?

Em outras palavras, em tese você está certo. Mas fica difícil imaginar o que seria uma "crítica" dos meios de comunicação de massa que não passasse pela dicotomia representação x realidade. Mesmo as críticas puramente políticas (o exemplo que você mencionou) tendem a reclamar de uma distorção ou falsidade.

Enfim, o ponto original era que Baudrillard achava a palavra, o projeto associado à palavra "crítica" algo de pouco interesse, ainda iluminista demais....

Conclusão que eu estou longe de endossar, sublinhemos ;)

Idelber em março 12, 2007 9:04 PM


#15

Eu gostei muito do seu livro Seduction em que ele faz uma critica severa do vacio da seduccion.

Acordei que faz dois o tres anos a revista Time fez uma lista das cem pessaos mais importantes do mondo e eu estava asombrado que ele estivesse na lista.

Mac Williams em março 14, 2007 1:50 PM


#16

Pelo pouco que sei sobre Baudrillard, já o admirei e a sua maneira de pensar e expressar seus pensamentos foi única...(Estudante de publicidade)

Anonymous em abril 3, 2007 2:28 PM


#17

Convidamos a todos a fazer o curso sobre o pensamento de Jean Baudrillard. Informações em
http://filosofiafrancesacontemporanea. blogspot.com

Jorge Barcellos em julho 24, 2007 10:58 PM


#18

Boa tarde...sou de Portugal...estudante universitário...Estou neste momento a fazer um trabalho sobre Jean Baudrillard...e encontro-me algo confuso. Não entendo as suas visoes acerca da Guerra do Golfo...Alguem me poderia elucidar???

Cumprimentos, é urgente

Pedro em outubro 17, 2007 12:20 PM


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