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terça-feira, 06 de março 2007
Páginas da Vida
Todos os apelidos de personagens são roubados de Falzuca ; Marina W já comentou também.
Pressão do público ou fruto do absurdo show de bola do Marcos Caruso: o Francisco ficou mesmo com o avô. Porque não era para ser. A narrativa vinha encaminhando outra coisa: Clarinha com a mãe adotiva, a Densa, e o Francisco com o casal bunitim formado pela Jujuba Traíra e pelo Embuchador D. Pedro I. No final o vovô-pobre-mas-honesto, o Boca de Alma, não só manteve o moleque como levou a Renata Sorrah de quebra.
Para dar verossimilhança à resolução que não era a que a trama encaminhava, Manoel Carlos escreveu um par de capítulos malucos na última semana – onde Jujuba e D. Pedro I, sempre tão razoáveis na novela inteira, entravam na casa de Densa insultando-a por ter escondido a identidade de Clarinha. Era necessário completar a construção da antipatia do público ante o casal, que havia se iniciado meio que sem querer. Levantar a bola para a catarse pró-vovô do último capítulo.
Completinha a parábola, todos os vilões triunfaram. O crime compensa. Sim, porque apesar das aparências criadas pela performance tão brilhante de Caruso, o avô é maligno também, ou não? Pouca gente notou isso. Ora, é o único da novela que dá porrada em mulher, destila ressentimento a cada frase e tem esse estranho jeito de amar o neto, exigindo retribuição e exclusividade – transtorno afetivo narcísico que aparece à beça entre amantes, mas que eu nunca vi, naquele grau pelo menos, entre pai e filho ou avô e neto. É um obsessivo-compulsivo com distúrbio narcisista em último grau, o cabra. Mais cinco anos com aquele avô e o moleque precisará da freudiana braba. Mas Caruso é tão show de bola que nos identificamos. 
Os outros vilões todos venceram: Alícia, a PCC (Perua Ciumenta Consumista), vê o ex-namorado bonitão perder os dois processos, esfrega a derrota na cara dele e ainda embolsa uma bolada; Winnits, a Abusada, embolsa metade da grana roubada por Gregui Falcatrua e ainda o relega à posição de amante quando Machadão, o porteiro, ganha na megasena; o Gregui Falcatrua termina onde no fundo sempre quis estar, com grana e na posição de segundo homem de alguma perua. Dona Martha escapa do sanatório e de ter que morar com Boca de Alma e moleque. A única vilã que se dá mal é a Craudétes, a racista-mineira-mas-de-sotaque-Leblon, que morre queimada no ônibus. O buzum ia para BH mas, pelo sotaque, o destino era Juiz de Fora, no máximo.
No racismo a novela derrapa. Feio. Tentou fazer o gesto, mas não deu. Porque o racismo brasileiro pode chegar a cúmulos, mas ninguém – nem mesmo o pior racista – rejeita uma comida porque foi feita com mãos negras. Não no país da servidão doméstica institucionalizada. Não cola. O tema do racismo perdeu verossimilhança ali.
E os dois casais de mocinho com mocinha que a novela prometia para o final? Formaram-se, mas sem nenhum charme: Embuchador D. Pedro I ficou com Jujuba Traíra, mas sem as crianças. O casal fracassou tanto como polarizador de simpatia do público que a última cena do D. Pedro I não foi com Jujuba, mas com a antiga namorada, a megera, comemorando a derrota dele no tribunal. Sem as crianças, a Jujuba perde seu encanto. Ela era o duplo do fantasma de Nanda, um mero eco.
O Capitão Cueca com a empregadinha Big Broda era o casal que dava audiência mesmo. Terminaram casando-se na igreja, claro. Na alegoria incestuosa tupiniquim, o pobre que sabe o seu lugar até ganha a recompensa – o filho do patrão para a Big Broda e a Carmen Opera Bufa, ex-corna e ninfomaníaca monogâmica, para o jardineiro. Mas quem preside sobre a porra toda ainda é o Tide - ninguém sai daquele casarão, que no final das contas é a própria imagem da endogamia. Casam-se, mas não se mudam.
Falou-se das mulheres da novela, mas os homens são todos emasculados. O único homem é Tide, o patriarca, essa estranha figura do fálico-quase-virgem: homem que não gerou homens, só mulheres e meninos. A família tem um pequeno probleminha com a reprodução da Lei do Pai. Bem apropriado, então, que não haja rolado nada com a Sônia Braga - que estava de visual medonho. O casal emblema da novela termina sendo, então, a Olhos Arregalados com o Boca de Gato: comportado, o bom mocismo incestuoso (eles são ex-cunhados) continua sentado à direita do pai. Priminhos brincando. Bons modos. O pai fálico-quase- virgem preside a mesa.
Confirmo-lhes, jubilante, que suportei a Regina Duarte durante 6 meses. E ganhei a recompensa: 10 minutos de Eva Wilma, poderosíssima, no episódio final. Vai ser charmosa assim lá longe.
Foi bom seguir uma novela - tenho mantido a minha média de uma a cada vinte anos.
Escrito por Idelber às 01:30 | link para este post
| Comentários (27)
#1
Hahaha.. Dessa vez vc foi mais rapido que a Fal, Idelber ;-) To louco pra ler o final dela tbm. Confesso que nao consegui ver a novela toda, as novelas do Manoel Carlos sao insuportaveis.. Mas agora, acompanhando a Fal, todas as novelas valem a pena. No entanto nao perdi o ultimo capitulo dessa, que foi ridiculamente maçante por sinal, e concordo com tudo o que vc disse. Ninguem merece Densa com figurino de shakespeare no ultimo capitulo.. Mas enfim :-D Veja la se acompanha a proxima pra melhorar a media.. Abraço!
Celinho em março 6, 2007 5:09 AM
#2
porra Idelber...
com essa impressionante média de uma novela a cada vinte anos, vc foi escolher justo uma das piores dos últimos vinte anos?
q azar, hein, cara?
abs,
dra em março 6, 2007 10:51 AM
#3
E quem não fica charmoso falando um português impecável, de salto alto e toga passada, penteado Global, numa sala com ar-condicionado no "Leblon"? Imagine o perfume.
Uma boa análise, que transmitiu em palavras a tremenda translocação significante de mais de 100 horas de vídeo. Uma loucura, enfim.
Lucas em março 6, 2007 11:17 AM
#4
Idelber! hahahaha Muito bom!
Sobre o personagem do Caruso: que contradição, heim? A Martha Louca tinha razão, o homem era um traste que não fazia nada, arrumou um empreguinho meia-boca de office-boy da AMA no meio da novela e se acomodou por lá. E no penúltimo capítulo (sei lá) quase estrangulou a mulher!? Que avô e que pai é esse? Maneco é craque em fazer novelas em que todos os personagens são loucos de pedra e precisam de, no mínimo, um Prozac'zinho.
A nova novela é um horror, parece continuação da última, nem o cenário se deram ao trabalho de mudar, e, convenhamos, é cópia da novela da Record... :-P
Beijos
Ana em março 6, 2007 12:04 PM
#5
eu tenho um hábito diferente (que na verdade é uma ausência de hábito): assisto um capítulo de tempão em tempão, ao léu. Volto a assitir a novela, e não mudou muita coisa, hehehe
catatau em março 6, 2007 12:10 PM
#6
Poxa, ninguém gostou da novela?
Idelber em março 6, 2007 1:11 PM
#7
Idelber, estou me matando de rir com esse texto!
Eu estou a uns nove anos de completar meus vinte sem novela, de modos que pulei essa também, não entendi patavina do que você escreveu, mas o texto está tão bom e engraçado que me levou de volta a uma velha máxima a que me apego há muito tempo - um bom texto sobre um assunto que não me interessa é capaz de me prender, enquanto um mau texto sobre algo que me interessa não me prende nem até a metade. O triunfo da forma sobre o conteúdo!
Professor, e nosso clube de leituras, hein?!
Alessandra Alves em março 6, 2007 2:05 PM
#8
Se os caras tem grana pra produção, tem bons autores e bons atores, por que eles fazem merda?
Um amigo meu , atualmente roteirista por lá, foi franco: estão fazendo merda conscientemente, porque creem que algo com melhor nivel não sera consumido...hum..
Quanto ao Manoel Carlos do Leblon, outro dia escrevi sobre ele: me irrita profundamente essa forma "pedagógica" com que ele trata a pancada, acho um nojo.
Quanto a formatação , o fato de ser novela, não acho que seja, por definição boa ou ruim. Não creio que nenhum meio é bom ou ruim por definição.
'NÃO gosto de novela" ou "gosto de novela" me parecem afirmações tão estranhas. Gosto quando é interessante , não gosto quando é lixo.
E só.
Vivien em março 6, 2007 2:14 PM
#9
Eu gostava, mas achava uma merda. Faz sentido? E ficava constrangido quando resolviam enfiar à força uns jabás de livros e peças, tipo alguém falar do nada "gente, vi uma peça fantástica ontem!" – "É mesmo?? Me conta tudo!"
Acho que o problema não era o texto, era a direção, que tirava dos atores atuações exageradas e falsas – com pouquissimas exceções.
Mas era divertidíssimo acompanhar as viradas mirabolantes que tentavam encaixar na história, além da reação do público, os imprevistos, como atrizes que engravidaram, atores que pediram demissão, atrizes que reclamavam que não faziam nada, etc...
E o Greg virou meu herói. Além de mau-caráter, era tão cínico que perdia a paciência quando alguém chamava atenção dele para as maracutaias que ele fazia.
Daniel em março 6, 2007 2:59 PM
#10
Novela do Manoel Carlos tem dois lugares-comuns:
- Os personagens masculinos são ora coadjuvantes dos femininos, ora fracotes que sofrem nas mãos das mulheres soberanas. Depois de fazer um papel inexpressivo, o Antônio Fagundes disse que nunca mais faria novela do Manoel Carlos;
- O personagem faz vilanias mil a novela inteira mas no final não morre, nem vai pra cadeia, nem fica pobre.
Te em março 6, 2007 8:28 PM
#11
Eu gostei, Idelber, achei de altíssimo padrão, fiquei mais culta e mais sabida, aderi a todas aquelas campanhas politicamente corretas, vou deicar a minha cabela igual a da Fuma, enfim, show de bola. Adorei.
Sua análise está impecável, meu querido. Vc é bom demais. Se quiser assumir o Drops, é seu.
Fal em março 6, 2007 8:59 PM
#12
Está muito do extraordinário mesmo o resumão da Fal. É pa' humilhar os nossos mesmo, môs fios.
Alessandra, querida, clube de leituras não está nos planos imediatos não. Dá um trabalho medonho, e eu ando baiano com o blog :-)
Idelber em março 6, 2007 10:31 PM
#13
Engraçado. Notaram como as novelas da Globo ultimamente andam levando as histórias para o lado Ghost da vida? Vira e mexe é gente que morre e volta, vê alminhas do outro mundo, reencarna e etc. Quanto a mim, esgotei minha quota. Depois do "Inferno de Dante" da Glória Perez em América, eu perdi a motivação para assistir qualquer coisa que envolva o assunto "espiritualidade" na Globo.
Mas eles bem que poderiam fazer o remake de "Espelho Mágico" de preferência envolvendo assuntos barra pesada do meio artístico. A audiência hoje é bem maior que naquela época e creio que muitos conceitos sobre a televisão mudariam. Acho... =)
Ollie McGee em março 6, 2007 10:44 PM
#14
Detalhe que esqueci de mencionar no post: mais de uma pessoa já me disse que muita criança de escola primária no Brasil fica aterrorizada à mera menção do termo "moça bonita"... Começam a ver o fantasma da Nanda da novela e a sonhar com ela. É a rebordosa.
Idelber em março 6, 2007 11:46 PM
#15
"Moça Bonita" é a nova versão da "mulher do espelho"?
Idelber, um dos deslizes do Maneco foi mudar a postura do patriarca Aristides na reta final, de íntegro passou a corrompido.
Beijus
Luma em março 7, 2007 6:42 AM
#16
"Moça Bonita" é a nova versão da "mulher do espelho"?
Idelber, um dos deslizes do Maneco foi mudar a postura do patriarca Aristides na reta final, de íntegro passou a corrompido.
Beijus
Luma em março 7, 2007 6:43 AM
#17
Acompanhei, no século passado, a gravação de um capítulo da novela aquela, que tinha o carlos vereza fazendo de conta que era um Suplicy mais maluco. Travei então conhecimento com esse espécime conhecido como "diretor de novela da Globo". Dá para entender. São escolhidos entre os tais Homer Simpsons para quem o Will Bonner faz o Jornal nacional, aposto. Não tem diretor de novela que dê jeito, qinda se quisesse.
S Leo em março 7, 2007 5:28 PM
#18
idelber. vamos lembrar com tristeza profunda q no dia 5 de março é a data do falecimento do nosso (seu tambem, com certeza absoluta) grande e inesquecível líder joseph stálin.
mariano em março 7, 2007 5:46 PM
#19
Faça como eu: basta ver o primeiro e o último capítulos, mais algum do meio, para entender a novela inteira. Qualquer novela.
Eu também me espantei com o fato de que no final todos os vilões se deram bem. Deve ser a primeira novela realista da Globo.
Agora diz aí: foste tu mesmo que escreveste este texto? Sei não. :)
Hermenauta em março 7, 2007 11:27 PM
#20
Com a inauguração do shopping no Leblon, creio que Manoel Carlos já tem material para sua próxima novela. Que não será nem melhor nem pior do que qualquer uma que ele já escreveu.
Apesar de ser ficção, algumas contradições incomodam em Manoel Carlos. E desta vez ele exagerou um pouco!
Também em relação aos papéis femininos, parece que nesta novela o autor errou de mão, não conseguindo, por exemplo, emplacar Ana Paulo Arósio.
Vida que segue.
Paulo em março 8, 2007 5:20 AM
#21
Oi,
prazer Fabiano,estava na net,quando encontrei seu blog
fiquei olhando ele,nossa eu fiquei muito encanto,
é muito bom,show de bola.
tenho um blog tb.
e sendo assim gostaria de propor uma parceria comigo,
estou muito afim em poder ajudo-lo essa é minha inteção.
aceita trocar links comigo?
aguardo uma resposta.
olha o meu blogs aqui.
www.up.blog.br
Fabiano, a casa não troca links. Quando visito um blog e gosto, divulgo ou linko sem pedir nada em troca. Infelizmente não foi o caso do seu.
Fabiano Proença em março 8, 2007 5:14 PM
#22
Ah, Idelber, que prazer ler esse teu post. Eu abandonei a novela depois de uns 15 capitulos. Nao aguentei a Regina Duarte. Mas eu estava curiosissima pra saber como tinha sido o final, e estranhamente nao se fala mais em lugar nenhum. Falava-se antes da novela acabar, mas eu nao encontrava nada mais por aih. Morri de rir com teus apelidos apropriadissimos! Ouvi dizer que foi uma das piores novelas de todos os tempos. Pena. Saudade das otimas novelas das 8 pelas quais somos famosos internacionalmente. Saudade da Beatriz Segall de Odete Roitman, do Fagundao de Dono do Mundo... (suspiro)...
Abracos.
Andrea N. em março 8, 2007 5:31 PM
#23
Andrea, obrigado, mas eu confirmo que todos os apelidos (menos o PCC) são de autoria da Fal e cópia minha :-)
Idelber em março 8, 2007 10:33 PM
#24
Não sei se estou mais chata ou mais exigente. O fato é que eu não tenho mais paciência pra novela.
=P
Cissa em março 9, 2007 12:49 AM
#25
Idelber! uma a cada 20 anos... vou começar a pensar seriamente em fazer o mesmo. Essa acompanhei apenas o final, e te confesso...muito indignado com a falta de lógica de alguns personagens (se é que personagem de novela tem lógica). Mas não posso deixar de comentar o estrago das "plásticas" da maioria das atrizes. A "Namoradinha do Brasil" (a Densa) parecia a caricatura do Charada (do Batman) mesmo em momentos tristes ela não conseguia fazer uma cara de pesar...impressionante. E a "Artista Plástica" que veio de Nova York para o Rio apresentar suas obras indefinidamente. Outra coisa que me surpreendeu nas novelas é o frio que faz na Zona Sul do Rio (ou gasta-se muito com energia no ar-condicionado) ninguém dorme sem Edredom...e eu que achava que é aqui no Sul que faz frio...
Em suma. Que droga de novela!!
Gustavo Uriartt em março 9, 2007 12:36 PM
#26
GOSTEI MUITO DA NOVELA GOSTARIA QUE PASSASE DE VOLTA PARA NOS APRENDER MAIS COISAS SOBRE ELA
KAREM em abril 3, 2007 12:35 AM
#27
eu adoro essa novela**fala de mtas coisas importantes como por exemplo ah bulimia, o simdrome de dawn...e muitos outros assuntos!!!logo a novela é super interessante
marisa santos em abril 9, 2007 3:12 PM
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