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segunda-feira, 12 de março 2007
Resposta a um texto de Jorge Coli
No dia 18 de fevereiro, Jorge Coli publicou, na Folha de São Paulo, um texto sobre a crítica literária que merece resposta. Publico quase na íntegra o texto de Coli, em itálicos. Intercalo meus comentários em negrito.
Leitura e leitores
JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA
A literatura sempre vazou suas intuições complexas sobre o mundo no prazer de ler. Mas houve uma reviravolta há algumas décadas na maneira de estudá-la.
Sim, houve. Como houve outra há dois séculos. Houve outra com Platão. etc. Nisso a literatura não difere de nenhum outro objeto de estudo: as maneiras de estudá-lo mudam.
Os romances e poemas tornaram-se objeto de dissecação científica; a tal ponto que sumiram, ou quase, diante da destreza analítica.
Na verdade nas quatro últimas décadas tem ocorrido o contrário. A última voga de um projeto de análise “científica” para a literatura ocorreu com o estruturalismo, cujo auge já passara no final dos anos 1960.
Quantos velhos e bons departamentos universitários de literatura não se metamorfosearam em "de teoria literária"?
A resposta correta para esta pergunta retórica é: “nenhum”. Nos EUA, alguns departamentos de literatura comparada substituíram, até certo ponto, o velho modelo da comparação entre literaturas nacionais à base de “fontes” e “influências” e passaram a oferecer mais cursos que poderiam ser catalogados como de “teoria literária”. Nenhum dos departamentos de literaturas nacionais que eu conheça, nos EUA ou no Brasil, “se metamorfoseou em ‘de teoria literária'”. Nas Faculdades de Letras brasileiras, os departamentos de língua vernácula continuam ensinando a língua e a literatura escrita na dita cuja. Os departamentos de românicas continuam ensinando francês e espanhol e as literaturas escritas nas ditas cujas. Que mais ou menos professores desses departamentos tenham sido influenciados pela teoria literária não implica que não estejam ensinando literatura. O resto é papo furado de quem não sabe do que está falando.
Note-se, para quem gosta de gramática, que "literária" é apenas adjetivo de "teoria", sujeito e substância.
Como sabem os bons gramáticos, a ênfase, em qualquer sintagma nominal, pode recair no adjetivo ou no substantivo. Depende da enunciação e, claro, do ouvido de quem escuta ou dos olhos de quem lê.
O romance, o poema passaram a ser pretextos muito secundários, trampolins para exercícios mentais altamente sofisticados.
Seria difícil provar que isso é algo que passou a ocorrer recentemente. Platão e Hegel, para não ir mais longe, usaram poemas para exercícios mentais que me parecem bem mais sofisticados, até, que os atuais.
Essa atitude intelectual chega a extremos engraçados. Há um exemplo paradoxal: um livro de Walter Benjamin [1892-1940], grande sábio alemão,
“escritor”, “filósofo”, “crítico” ou “ensaísta” seriam designações que soariam mais apropriadas ou menos irônicas aqui no caso.
intitula-se "Origem do Drama Barroco Alemão". Essa obra, por sinal bem complicada e obscura, foi traduzida e publicada no Brasil [ed. Brasiliense].
Trata-se de uma obra de crítica literária – disciplina especializada – escrita em 1924. Não é mais “obscura” nem “complicada” para um crítico literário atual que um tratado sociológico de 1924 para um sociólogo atual, ou um livro de criminologia de 1920 para um criminólogo de hoje.
Por mais que seu conteúdo seja autônomo no processo reflexivo, ele pede alguma noção, mínima que seja, a respeito do drama barroco alemão.
Não necessariamente. Claro que conhecer o objeto da obra crítica ajuda, mas nada impede que se leia um livro sobre Clarice antes de conhecer a autora. A legibilidade do livro dependerá de quão esclarecedor for o trabalho de análise ao dar resumos dos enredos, contexto do autor, etc.
Ora, quantos deles existem editados no Brasil? É fácil apostar que nenhum. Esse é um caso sintomático, no qual a especulação intelectual prescinde do objeto.
Errado. Benjamin não “prescindiu do objeto” quando escreveu o livro. Ele conhecia o corpus. Se esse corpus não é conhecido no Brasil e seu livro sobre ele passa a despertar interesse, não seria isso algo a se celebrar, na medida em que a crítica está gerando a reedição de obras ou a publicação de traduções, abrindo assim possibilidades de leituras até então desconhecidas? 
Para continuar no mesmo autor: quantos leitores de Benjamin, que conhecem e citam suas referências a Baudelaire e Proust, leram, de fato, Baudelaire e Proust?
A pergunta retórica é, de novo, falsa. Se alguém acha que pode falar de Proust sem lê-lo, baseando-se somente no ensaio de Benjamin, a culpa não é deste último. A pergunta que importa é outra: quantos leitores foram levados a aproximarem-se de Proust ou Baudelaire justamente porque leram os ensaios de Benjamin? Conheço muitos; eu, inclusive, sou um deles.
Júbilo
Declarações recentes de Tzvetan Todorov, grande sábio búlgaro ainda vivo, enchem o coração de alegria. Todorov, lingüista e filósofo muito cabeça, num chat da revista francesa "Télérama": (Pergunta) "No seu último livro ["La Littérature en Péril", A Literatura em Perigo], o sr. diz, a propósito do ensino da literatura, que, "na escola, não se ensina aquilo que os livros dizem, mas aquilo que dizem os críticos. O senhor pode explicar sua opinião?" (Todorov) "Há algum tempo que, na escola, pararam de refletir sobre o sentido dos textos e passaram a estudar de preferência os conceitos e métodos de análise. Nesse sentido, é possível dizer que se estudam as teorias dos críticos, e não as obras dos autores.
Ora, para nós, ignorante é quem não leu "Madame Bovary" [de Flaubert] ou "As Flores do Mal" [de Baudelaire], e não quem não sabe, por exemplo, distinguir focalização interna de focalização externa."
Se Benjamin não foi um “sábio”, Todorov muito menos. Se Jorge Coli quer saber como anda a crítica literária, eu sugeriria fontes outras além do “grande sábio búlgaro”. Para quem não o leu: Todorov é, há 40 anos, uma espécie de “grande turista dos métodos de análise entendidos como moda”. Escreveu seus tratados de estruturalismo quando o dito cujo estava em voga, passou pelas teorias do “carnavalesco” quando estas eram populares, depois conseguiu cometer a incrível gafe de escrever um livro sobre a Conquista da América sem conhecer a bibliografia (e propondo a bizarra tese de que a conquista espanhola se explicava não pela pólvora, mas pela superioridade do seu sistema de signos!), para, pelo que parece, resignar-se a concluir a brilhante carreira como uma espécie de Allan Bloom, lamentando a barbárie imposta pelos novos tempos.
Para dar um exemplo de como a argumentação de Todorov é mistificada: quem leu Madame Bovary e Dom Casmurro e entendeu a diferença entre um romance de adultério narrado em terceira pessoa e o relato de um pretenso adultério feito pelo marido ciumento certamente já entendeu a diferença entre focalizações interna e externa. Que só os especialistas usem os termos não quer dizer que a realidade designada por eles não tenha importância, seja imperceptível para o leitor comum ou seja algo obscuro e não relacionado ao "prazer da leitura". Da mesma forma como eu, leigo em química, sei que o carro funciona com a gasolina que compro no posto.
*******
Mais
(Pergunta) "Quais os conselhos para um jovem estudante que deseja se lançar nos estudos literários?" (Todorov) "Antes de tudo, não confundir os meios e os fins. Os fins da leitura de textos literários são os de melhor compreender o sentido deles e, por meio deles, o que nos dizem da própria condição humana. Os meios são todos os métodos de aproximação crítica, que podem nos permitir ler melhor, com a condição de não formarem uma cortina de fumaça diante dos textos.
Sobre os fins: O fins da literatura não são “compreender a condição humana”. Os fins da literatura são, por definição, abertos e não definíveis de antemão. São construídos e reconstruídos a cada leitura. Todorov e Jorge Coli parecem não se dar conta, mas a idéia de que a literatura tem por fim “compreender a condição humana” é também uma teoria, só uma. Nada mais. Aliás, trata-se de uma teoria, o humanismo, que já teve melhores momentos e proponentes mais sólidos em sua argumentação.
Sobre os meios: O medo de que os métodos de análise possam “formar uma cortina de fumaça” ante os textos ou “retirar o prazer” da leitura é absurdo ao extremo: alguém diria que o conhecimento da química da cevada tira o prazer de degustar a cerveja? ou que o conhecimento de astronomia tira o prazer da contemplação da noite? Só na literatura ainda nos encontramos na posição de ter que defender o direito de elaborar um conhecimento especializado sobre o objeto sem sermos patrulhados pelos guardiões do “prazer da leitura” ou da “simplicidade da literatura”.
Intervenções como as de Todorov e Jorge Coli, sob o pretexto de “defender a experiência do leitor comum”, são na verdade patrulhamentos mal-informados sobre o que é a crítica literária. É óbvio que qualquer leitor pode desfrutar da leitura de romances, poemas e peças sem estudar nada de teoria literária. Aqui no Clube de Leituras, alguns dos comentários mais atinados sobre as obras foram de pessoas que não se dedicam a estudar literatura profissionalmente.
Mas há que se convir: esse papo de que os desalmados técnicos da obscura teoria literária são os culpados pelo “fim do prazer da leitura” ou por uma suposta “decadência da leitura” das grandes obras é mais uma miragem reacionária, nostálgica e mal-informada. Populismo que joga para a platéia e cultiva a ignorância. Se você quer saber o que se passa com a crítica literária para além desse chororô apocalíptico, há gente muito mais séria para se ler.
Escrito por Idelber às 05:26 | link para este post
| Comentários (15)
#1
Só essa superficialidde que v. aponta no Todorov (ou populismo) explica o ataque, por parte de um acadêmico, ao estudo da teoria, mestre Idelber. Qualquer estudioso sério sabe que não existe esse contato direto com algum objeto qualquer de estudo; sempre alguma teoria, explícita ou não, orienta a análise, e até as expectativas que conduzem o prazer ou desprazer da leitura, no caso da literatura.
E se é óbvio que se pode desfrutar uma leitura sem conhecimento da teoria, é também verdade que conhecer teorias nos dá outras chaves para as leituras, enriquece o sabor dos textos, abre mais portas para essa construção e reconstrução de que v, fala.
Em resumo: mandou bem.
S Leo em março 12, 2007 11:03 AM
#2
Considerar que ensinar Teoria da Literatura é deixar de esinar Literatuar é tolice. Como você disse bem, a influência da teoria em outros departamentos das faculdades de letras não significa que tais departamentos mudaram seu foco de estudo para a própria teoria. E o populismo fica claro na segunda "pergunta retórica", com relação a Proust, Baudelaire e Benjamin - particularmente, li os estudos depois de ter lido o poeta e o ficcionista.
Curiosamente, os meus professores de teoria literária são justamente os que mais "ensinam literatura". Estes ataques aos "desalmados técnicos" são extremamente infrutíferos.
Rodrigo em março 12, 2007 11:26 AM
#3
Gaitadas, Idelber, gaitadas!
Teu método de, digamos, "decupagem" é extremamente engraçado e destrutivo. Ainda mais quando o objeto de análise de análise mostra-se tão "pronto" a uma implosão.
Não sei se meu prazer foi de leitura ou se deve ser remetido a coisas também humanas como o sadismo, etc. e tal. De qualquer forma, envio-te profilaticamente a ordem de nunca mais ir a meu blog. Sou sádico, mas não me adaptei bem ao sado-masô, sabe?
Além do mais tenho outros problemas: o fato de não entender como se pode ganhar um campeonato mundial com gol de Gabiru fez-me perder totalmente o prazer da comemoração. Uma merda, isso.
(Lembras que em Lunik 9 Gilberto Gil esboça a irônica tese de que "É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites de luar", e depois, de forma análoga ao teu amigo analisado, vai mais longe no que o entendimento pode gerar de desprazer?
A mim me resta disso tudo uma tristeza só
Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção
O que será do verso sem luar?
O que será do mar, da flor, do violão?
Tenho pensado tanto, mas nem sei")
Para terminar, Beatriz Sarlo foi o farol da FLIP 2005. Maravilhosa, sozinha ou ao lado de Roberto Schwarz. Fiquemos com ela.
Abraço!
Milton Ribeiro em março 12, 2007 12:09 PM
#4
Julio, só mesmo um leitor do Reinaldo Azevedo para imaginar que ele inventou o copiar e colar com comentários intercalados. O método já era conhecido de Parmênides. Dê uma conferida.
Esses são os que chamam Lula de analfabeto...
Idelber em março 12, 2007 12:54 PM
#5
pô, eu ADORO o coli quando ele fala sobre filmes blockbuster, filmes comerciais... ele sempre acha coisas interessantes em filmecos, eu acho isso bárbaro. mas nessa aí ele errou FÊO.
:>)
Biajoni em março 12, 2007 12:55 PM
#6
Gozado,
Eu sempre acho que coisas assim se resolvem com um método simples, que é o "cada um na sua". Pegando o seu exemplo:
_ um cara que está apenas admirando a Lua não deve opinar sobre selenologia, ou seja, o estudo da formação geológica da Lua;
_ um astrônomo não deve opinar sobre a apreciaçào estética que um casal de namorados está fazendo sobre a Lua, com afirmativas do gênero "ah, mas vocês acham a Lua bonita? Que bobagem, é um astro ordinário; Saturno, por exemplo, tem mais de 30 luas, algumas delas muito maiores que a lua terrestre e com uma conformação geológica muito mais interessante...".
Enfim, é a visão de um leigo.
O que eu quero mesmo é saber se blog é literatura. :)
Hermenauta em março 12, 2007 11:56 PM
#7
Uma vez escutei do Coli que um historiador *nunca* deveria ter experiência com desenho ou pintura. Como se Giorgio Vasari não fosse originalmente um pintor.
Blá.
André Kenji em março 13, 2007 1:39 AM
#8
Também li o texto e achei uma tremenda bobagem. Parece que virou mania criar essa dicotomia fruição X teoria. Parte-se do pressuposto de que todo leitor é mais que capacitado para usufruir uma leitura, sendo a crítica e a teoria literária um meio de impedir isso. Ou também aquele pensamento de que a teoria literária não é desenvolvida por causa da literatura e sim é um achismo que apareceu do nada, uma "viagem" de acadêmicos.
Leandro Oliveira em março 13, 2007 10:16 AM
#9
Não fui aluna do Coli porque, quando fiz História, acabei tendo outras opções teóricas e não frequentei os cursos de hist. da arte.
Minha experiencia com ele, foi, somente, uma vista a Bienal de 89. Onde nós, com 20 anos, achavamos tudo muito engraçado. Eu ainda acho, alias.
Achei sua argumentação tenaz e muito interessante, acho que vc foi contundente e claro.
Eu vou dar uma revisitada no Todorov, confesso pra vc que , não só acho o trabalho pertinente , como o uso no meu proprio trabalho.
Mas vou reler, depois do seu post.abç.
Vivien em março 13, 2007 3:01 PM
#10
Oi, Vivien, também acho muita coisa que o Todorov fez bastante pertinente. Eu também já o utilizei muito no meu trabalho. O livro sobre o fantástico, especialmente, me foi muito útil. O que incomoda nele é uma espécie de relação "casual" com as correntes de pensamento, que ele adota e descarta na medida em que elas vão entrando ou saindo da moda. Mas sem dúvida ele fez, sim, muita coisa de valor. Abraços,
Idelber em março 13, 2007 3:53 PM
#11
Muito interessante o post, para além das bobagens que o Coli escreveu, aliás, ele mesmo, crítico de arte, vale sempre pensar na função da crítica literária que aliás é diferente da da teoria literária. Uma boa análise de literatura, seja que linha seguir, nunca vai descartar a obra analisada, quando a obra serve somente de pretexto para o crítico falar o que já pensava de antemão, trata-se de um crítico ruim, simples assim.
Ao meu ver há uma crise crônica de leitura, não só de literatura, mas de obras de arte, filmes, do mundo mesmo. Não se observa a construção da coisa, não se observa o objeto, não porque a teoria veda esse acesso, mas porque os sentidos andam mesmo embotados. As razões? Inúmeras, mas de fato são raras as críticas, especialmente na grande mídia, que de fato analisam a obra criticada. Fala-se do número de páginas, dos custos, da vida do autor, da beleza da autora. Sobre filmes, dicute-se sempre os custos, expõe-se os números da produção, contam-se as bilheterias. Quando um novo livro causa frisson, fala-se do frisson que o livro causou não sei aonde, mas não do livro, e isso ocorre especialmente nos cadernos cultrais das grandes mídias, cada vez menos culturais de fato, cada vez mais mercantilizados. Imputar o problema de incapacidade de análise aos estudos literários é não somente simplista mas também emburrecedor.
Mais, se algumas obras críticas são tão belas e boas que parecem bastar a si mesmas, como o ultra celebrado e ótimo ensaio O narrador, do Benjamin (que li e reli muito apesar de, até pouco tempo atrás, nunca lido o Leskov), é porque, ao menos no caso de Benjamin, a qualidade do texto e do pensamento ali presentes é tamanha que este acaba por alçar um valor que lhe é intrínsecoe que de fato, prescinde do objeto. As grandes obras críticas captam uma época inteira, traduzem um pensamento rico em linguagem forte e isso não retira delas o valor, pelo contrário. E sim, fiquei procurando contos do Leskov feito uma desesperada e quando achei, foi até emocionante.
Em tempos onde intelectuais cada vez mais dão guinadas para a direita, onde a reflexão crítica sobre o mundo é cada vez mais escassa e onde a própria leitura, a leitura que vai para além do entrenimento e que modifica de fato o leitor, quando o leitor se deixa transformar, são coisas cada vez mais raras, assusta esse descarte tão simplista e raso do pensamento crítico e teórico.
Mais medo, muito medo, e olha que fui aluna do Coli, num curso sensacional sobre justamente análise de obra de arte. Ver e pensar estão juntos, ler e pensar e sentir devem estar juntos, senão as portas se abrem, definitivamente, para a barbárie. E parece que esse desejo, ou a explicitação e normalização dele, estão cada vez mais na moda....
Luana em março 14, 2007 9:59 PM
#12
Uau, Luana, obrigado por esse comentário. Você sim coloca perguntas em relação à teoria que são minhas também. Concordo que se o que vai se dizer está pronto de antemão, é má crítica, sem mais - independente de quão "teórico" seja.
E você se lembrou do exemplo perfeito da dissociabilidade entre o objeto do ensaio e o valor do ensaio: ninguém sabe quem é Leskov, mas quase todo mundo que mexe com literatura profissionalmente (como crítico, ou aluno, ou estudioso de literatura) já leu o ou ouviu falar (ou repercutiu sem saber) o ensaio de Benjamin, "O Narrador".
Espero poder responder com calma outras coisas que você colocou, aqui na caixa ou num post futuro. Por agora, obrigado :-)
Idelber em março 15, 2007 3:22 AM
#13
Caro Idelber,
Estava a passear em seu blog, parabéns, é muito bem feito! Apenas queria deixar um comentário acerca desse post: li Todorov no começo da faculdade, justamente A Conquista da América; longe de defendê-lo (apesar de gostar bastante dele e de seu texto, por mais avesso que eu seja também a modismos filosóficos), na época eu aprendi que a metodologia que ele usava não era de não ler a bibliografia usada, mas sim não fazer pesquisa de campo; logo, me parece que o sábio-búlgaro se baseia justamente na biblio lida por ele, e não nas fontes, documentos históricos, arquivos etc.
De qualquer maneira, parabéns novamente, um abraço.
Denny em abril 25, 2007 5:32 PM
#14
senhor avelar,
faço parte da turma de 2006 (a primeira do Brasil) de Bacharelado em Estudos Literários, curso de graduação oferecido pela UNICAMP. seu texto causou uma certa agitação no nosso grupo de e-mail, do qual só participam meus colegas, e posto aqui minha contribuição a nossa discussão. ela está logo abaixo, entre aspas, e farei algumas adições pessoais após sua transcrição.
"ainda bem que não sou só eu que penso nas piruetas da crítica; o senhor Coli também.
vendo a argumentação do Avelar, há uma hora que ele diz que a "crítica literária seria uma disciplina especializada". e eu me pergunto: somos mesmo? até que ponto? e especializados em quê, finalmente? em literatura? mas que diabos é literatura (a orna levin que o diga, senhores!).
pra mim, a arte não pode ser vista de forma pararela a nenhuma outra disciplina. médicos precisam de conhecimentos específicos em medicina para darem diagnósticos e curarem; engenheiros precisam de conhecimentos específicos em engenharia para construir. e nós? precisamos de conhecimento específico para julgar, quando o nosso próprio objeto de trabalho (literatura) é muitas vezes produzido por leigos, alheios ao meio acadêmico? e um leitor simples, precisa de conhecimentos específicos para ler (além da alfabetização)? creio que o crítico não passa de um leitor que, com um pouco mais de bagagem de leitura e noções amplas de referências literárias, críticas, artísticas e históricas, dá sua humilde opinião, sua pequena contribuição em abrir perspectivas interessantes de leituras de uma obra. e os "conhecimentos específicos" do crítico, se os há, são todos de caráter humanístico, incertos, não-científicos. e voltando ao paralelo criado por Avelar, ele diz que o livro do benjamim "Não é mais “obscuro” nem “complicado” para um crítico literário atual que um tratado sociológico de 1924 para um sociólogo atual, ou um livro de criminologia de 1920 para um criminólogo de hoje". só que eu acho que se a crítica, os ensaios e os artigos de literatura tem como público-alvo os próprios produtores (críticos literários, portanto), ela é absolutamente vazia. temos que ser simples e sagazes; inovadores mas inteligíveis. e lembrar que literatura é (pelo menos assim a concebo) propriedade exclusiva do leitor."
aqui se encerra o email que enviei ao grupo. agora, num diálogo mais direto com o senhor, caro avelar, adiciono algumas considerações. ao ler o texto do coli, entendi que ele não está preocupado de todo com a existência em si da crítica e da teoria literária, mas com o teor excessivamente hermético que esta pode vir a tomar em certos casos. creio ainda que coli não crítica a obra de benjamim citada por ele, apenas a usa como exemplo para mostrar que o mercado editorial brasileiro valorizou o livro em questão acima das próprias obras analisadas por ele. benjamim ja é canônico, por isso sua tradução se torna viável. o senhor crê que com a publicação deste livro, as obras barrocas do teatro alemão terão maior visibilidade no cenário brasileiro. eu (com muito pesar) creio que isso não acontecerá, e peço cordialmente ao senhor que observe se sua previsão se concretizará.
outro ponto argumentativo seu se baseia na idéia de que as obras críticas apresentam autores, e o senhor cita sua experiência pessoal com proust e baudelaire, introduzidos ao senhor através da crítica. ok, tudo isso é válido e coerente; creio mesmo que uma das funções da crítica é servir de "mordomo introdutório", pegando o leitor-visitante pela mão e o apresentando os cômodos da casa. todavia, tenho por crença que a crítica exige leitura da obra criticada; apenas em casos excepcionais ela funciona como "farol indicatório", e sua leitura deve ser refeita após a leitura dos textos literários originais. ou seja, se alguém conhece baudelaire através de benjamim, eu o aconselharia a fechar seu livrinho de crítica, ir ler as "flores do mal" e só então retornar ao que o ocupava antes.
uma última consideração. tenho um enorme medo da crítica literária quando ela se propõe a impor um cânone. ora, não tenho mais ingenuidade suficiente para acreditar que a crítica seja imparcial (ela nem se propõe mais como tal, atualmente). beleza. se a crítica é parcial, portanto direcionadora, o que teríamos se ela escolhesse os nossos objetos de leitura por nós mesmos? sorte que existem diversas tendências críticas, e que elas não entram de acordo entre si. espero que a crítica funcione como um termômetro, e que nunca, nunca, nunca tente tomar o primeiro plano.
Leonardo Saraiva em dezembro 6, 2007 8:33 PM
#15
Como aproximar o aluno da literatura e da toria litrária também?
regina em setembro 14, 2010 9:49 PM