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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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segunda-feira, 30 de abril 2007
Galo campeão mineiro de 2007
Qual a grande diferença entre os pequenos ou médios e os verdadeiramente grandes? Ela não reside tanto no cavalheirismo do saber perder, mas no ganhar com classe. Por isso Parreira e Zagallo jamais chegarão aos pés de Telê Santana. Em décadas recentes, um pequeno time da colônia italiana que já passou por meia dúzia de nomes veio a desbancar o América-MG como maior aspirante a rival do Clube Atlético Mineiro, o único grande time do povo de Minas. Tendo ganhado alguns títulos, o ex-Palestra e ex-Yale abusou do direito de exibir a falta de classe de quem ainda não vence com naturalidade, não está acostumado a ganhar, não chegou ainda a ser grande.

No começo deste Campeonato Mineiro, quando o Atlético perdeu os dois primeiros jogos e estreou na lanterna, o Sr. Perrela declarou que o Galo tomara "gosto pela segunda divisão", que deveria cuidar-se "para não ir disputar a segundona do Mineiro", que o ex-Ipiranga jogaria com a equipe júnior: típicas declarações de clube que ainda não é grande, que tem o complexo próprio àquele que somente aspira a ser rival de. Tratava-se de um Campeonato Mineiro que o ex-Ipiranga disputaria quase totalmente em BH e ao redor, enquanto o Galo visitava as fronteiras com ES, SP, RJ e GO. Eles falaram, falaram, falaram. Menosprezaram o primeiro campeão de BH, de Minas, do Brasil, primeiro a encantar a Europa, primeiro e único do mundo a bater a Seleção Brasileira.* Oh, quantas vezes queimarão a língua antes de aprender que o apelido Galo Vingador não é gratuito? Já se esqueceram da lição do Campeonato Brasileiro de 1999? Abusaram do direito de exibir sua condição de novos ricos e de demonstrar, com declarações apressadas, seu ressentimento e inveja da mais respeitada do Brasil:

A vingança foi doce. Neste que é o único grande clássico brasileiro com um diferencial histórico de quase 50 chapuletadas a mais de um lado sobre o outro, ficou claro outra vez qual é a ordem natural das coisas. A diferença agora é que o Galo restaurou a ordem com um massacre marcado por algo que eu, pelo menos, jamais havia visto no futebol: um goleiro ir ao fundo da rede para buscar duas bolas numa só viagem. Senão vejam este inacreditável vídeo, no qual Fábio, o guarda-metas ex-ipiranguista, entra, talvez, para a história do futebol como o único arqueiro a ir buscar a bola do quarto gol com a do terceiro ainda lá no fundo do barbante.

Em vez de ocupar os tradicionais 2/3 do Mineirão que, mais uma vez, ocupou ontem, a massa alvinegra preencherá 90% do estádio no jogo da entrega das faixas, domingo que vem. Será um espetáculo inesquecível. Salve, Galo Metal. Salve Tristão, Doutor Cláudio, Dolabela, Mineiras, Uai.
Galo, campeão mineiro de 2007.
Atualização. Eis aqui a imagem inédita na história do futebol, a de um goleiro buscando bolas de dois gols:

O piti completo do goleiro Fábio pode ser visto nesse vídeo.
* Atualização II: Artur Perrusi me corrige com razão: O Santa Cruz também já venceu a Seleção Brasileira. Foi por 2 x 1, no dia 10 de outubro de 1934. Valeu, Artur.
Escrito por Idelber às 02:28 | link para este post
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domingo, 29 de abril 2007
Na bola de cristal
Previsões do Biscoito para as finais que começam hoje:
Em São Paulo, dá Santos.
No Rio, dá Botafogo.
No Rio Grande, dá Grêmio.
No Paraná, Paraná Clube.
Em Minas, Galo.
Ou seja, o blog aposta na lógica, contra as zebras. Semana que vem vocês me cobram.
Escrito por Idelber às 01:46 | link para este post
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sexta-feira, 27 de abril 2007
O bule emprestado
Slavoj Zizek escreveu recentemente um livro intitulado Iraq: The Borrowed Kettle, no qual relata a divertida sucessão de silogismos de pé quebrado que antecederam a invasão do Iraque. O momento número 1, de princípios de 2003, rezava que o Iraque possuía armas de destruição em massa que colocavam um “perigo claro e iminente” não só para Israel como também para os estados ocidentais democráticos. O que fazer, então, quando em setembro de 2003 David Kay, o próprio oficial da CIA encarregado da busca, reconhece que o país havia sido revirado pelo avesso mas as armas não haviam sido encontradas? Passa-se ao segundo momento: mesmo que Saddam Hussein não tenha nenhuma arma de destruição em massa, ele está envolvido com (deals with) a al-Qaeda, autora dos ataques do 11 de setembro. A guerra seria necessária para impedir tais ataques no futuro. O que fazer quando o próprio presidente Bush reconhece, em setembro de 2003, que “não há evidência de que Saddam Hussein estivesse envolvido com os ataques de 11/09”? Ora, passa-se ao terceiro momento: mesmo que não tivesse armas e nem estivesse envolvido com a al-Qaeda, Saddam era um perigoso ditador que representava uma ameaça ao seu próprio povo....
A mentirada inventada pela junta bushista como justificativa da guerra de rapinha no Iraque replica, para Zizek, a estrutura de uma anedota contada por Freud para ilustrar a estranha lógica dos sonhos. Um sujeito empresta um bule a um amigo. Recebe de volta o bule danificado. Ante a reclamação do dono, retruca:
1. Eu jamais tomei nenhum bule seu emprestado.
2. Aliás, eu lhe devolvi o bule inteirinho!
3. Inclusive, quando você me emprestou o bule, ele já estava estragado!
Pois bem, o blog hoje abre sua caixa de comentários para que você crie a sua própria variação desse joguinho de afirmativas incongruentes que é o relato freudiano do bule emprestado. Histórias que contenham Mangabeira Unger, Zagallo, Reinaldo Azevedo ou Galvão Bueno terão preferência :-)
Escrito por Idelber às 05:23 | link para este post
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quarta-feira, 25 de abril 2007
5 coisas para se fazer em BH
Como o Biscoito só adere aos memes para os quais ele não é convidado, aqui vai minha contribuição ao mais recente que anda circulando por aí, o das “5 coisas para se fazer na sua cidade”. Quem levantou a bola foi o camarada Ian Black. A Cynthia completou, com dois posts imperdíveis sobre Boi... quero dizer, Goiânia. Eu tenho duas cidades, mas sobre New Orleans já escrevi bastante ultimamente. Aqui vão 5 dicas quentes do que fazer em Belo Horizonte:
1. Mercado Central: Se você não conhece, bem, sinto informar: você não sabe o que é Belo Horizonte. Não, não é um mercado como qualquer outro. É uma espécie de museu de tudo, o excesso mais obsceno, a hipérbole em estado puro. Localizado numa construção enorme, que ocupa um quarteirão inteiro naquele que era o centro da BH original – a Praça Raul Soares – o mercado é uma orgia de sons, cheiros, sabores. Encontra-se tudo para comprar, desde um avestruz até um alfinete persa, passando pela maior coleção de cachaças de Minas Gerais (no site do Mercado, clique em "lojas" e delicie-se). Nos bares que ocupam as entradas, montanhas de seres humanos se aglomeram tomando cerveja em pé, com o copo no balcão. Quem vê de longe não entende por que alguém tomaria cerveja naquelas condições. Misturam-se os que estão terminando a noite com os que estão começando o dia. Dica de um “insider”: Dadá Maravilha passa por lá aos sábados e pontifica sobre as problemáticas sem solucionática.
2. Pedacinhos do Céu: é uma das 5 maiores casas de choro do Brasil. Localizado no alto do Caiçara, o bar tem dois andares, mas o quente é chegar cedo (nunca depois das 9) para conseguir uma mesa de frente para a banda. O cidadão honorário de Belo Horizonte, Ausier Vinícius, comanda o show: choro da melhor qualidade, que passeia sempre por Pixinguinha, Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim. Nas paredes, fotos de todas as lendas vivas que já passaram por lá. A galeria é um “who’s who” do choro e do samba, de Paulinho da Viola a Beth Carvalho. Os tira-gostos são divinos, mas o foco é a música. Não leve amigos chatos e falastrões. Em certa ocasião, às 2 da matina, depois de uma noite inesquecível, Christopher Dunn escreveu num guardanapo os títulos de 4 ou 5 choros obscuros da década de 1920. A banda tocou um por um, com modulações que brincavam com e reescreviam as versões originais. Chris quase se ajoelhou em sinal de respeito. Se você mora em BH, gosta de música e nunca foi ao Pedacinhos do Céu, eu não sei o que lhe dizer.
3. Chef Túlio: na Silviano Brandão, Sagrada Família. Sem dúvida, um dos maiores cozinheiros dessa terra de cozinheiros. Com mesas na praça, serve pratos de sua invenção, combinações de cozinhas de países diferentes e até iguarias de New Orleans, onde ele esteve fazendo cursos de culinária (a jambalaya do Chef Túlio não faz feio ante as melhores daqui de Nawlins). O lugar está fora do circuito óbvio do turismo em BH e só quem é de lá conhece. As explicações do Chef sobre cada prato são um show à parte. Vá com fome. 
4. Macacos: BH é rodeada de cachoeiras e atrações naturais de todo tipo, mas Macacos ainda é a opção mais deslumbrante. Arraial cuja origem se remonta a fins do século XVII, Macacos é aquela combinação maravilhosa de natureza e cultura. Matos, cachoeiras e montanhas, sim, mas sempre com uma cervejinha por perto. Catedrais e construções históricas, mas sempre com opções de um bom restaurante: há pelo menos oito de alta qualidade. Já anda no radar dos turistas, então se apresse.
5. Mineirão. Não tem Flamengo nem Corinthians. A torcida do Clube Atlético Mineiro é a paixão futebolística em estado puro. Para mim, conhecer uma cidade sempre significou conhecer seu principal estádio. Orgulho-me de conhecer os principais estádios brasileiros, e o Mineirão ainda é meu favorito, por várias razões. Dicas do "insider": escolha um jogo do Glorioso contra uma equipe de fora ou contra o América (a imigração italiana, que deu grandes frutos na Argentina, não foi muito feliz em BH). Tendo a opção, escolha o acesso pela Antônio Carlos. Suba a Av. Abraão Caram e não entre no estacionamento do estádio. Deixe o carro uns dois ou três quarteirões antes do fim da rampa; sempre há vagas. Caminhe até a Churrascaria Farroupilha, peça uma Bohemia e observe a chegada da nação alvi-negra entoando o mais cantado hino de futebol do planeta. O Mineirão tem quatro portões de acesso à arquibancada: 3, 6, 9 e 12. Prefira o 9, já que o 12 foi colonizado pelas "organizadas" (o 3 é reservado para o pequeno clube da colônia italiana). Depois da vitória, o seu carro estará à frente do trânsito. Dê a volta e pare num dos bares da Pampulha, com vista para a lagoa.
Digam lá, belo-horizontinos, do que me esqueci. E você aí na sua cidade, deixe a dica quente e colabore com a socialização da informação.
PS: Feliz aniversário, lindona!
Escrito por Idelber às 06:52 | link para este post
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terça-feira, 24 de abril 2007
Performing Brazil, Madison, Wisconsin

arte do cartaz: Talía Guzmán-González.
Registrar congressos acadêmicos no blog é chato, mas o encontro Performing Brazil, na Universidade de Wisconsin, Madison, não pode passar em branco. Talvez eu me lembre de colóquios de estudos culturais tão bons como esse. Melhores, duvido. Os Profs. Severino Albuquerque e Kathryn Sánchez, além de impecáveis na organização, tiveram a ótima idéia de convidar oito "keynote speakers", abrir um call for papers e, depois de seleção bem feita, montar um programa coerente. Nada que lembrasse os arrazoados em que se transformam os congressos que privilegiam a quantidade. Foram 2 dias de maratonas de 10 horas de banquete intelectual – pontuadas por almoço com cardápio à brasileira, da melhor qualidade, e concluídas à noite com visitas aos excelentes restaurantes de Madison que, além de tudo, servem cerveja local que ombreia com as melhores do mundo.
Contar tudo é impossível, mas aqui vão meus destaques:
Uma incrível apresentação de Bryan McCann, autor do premiado Hello, Hello Brazil: Popular Music in the Making of Modern Brazil, sobre a era do rádio. Sem um único pedaço de papel, demonstrando só com o iPod e a gaita, Bryan examinou desta vez as pouco estudadas raízes da bossa nova no blues. Foi montando uma história alternativa da bossa nova para além da tríade Jobim-Gilberto-Vinícius, com fantásticos exemplos musicais como Horace Silver (née Horácio da Silva, para quem não sabe). Bryan ainda deu, de gorjeta, a melhor explicação da famosa flatted fifth (quinta bemolizada) que já vi. Foi um show de historiografia e análise musical.
Apresentar depois de um cara desses é um pesadelo, mas meu brother e colega daqui de Tulane, Christopher Dunn, entrou e deu outro show: um passeio pelas paródias e brincadeiras visionárias de Tom Zé com o tema do cidadão e da cidadania. Entre os exemplos musicais, “São, São Paulo” no festival da canção e uma performance recente, dos anos 90, de “Identificação”, no Teatro Vila Velha em Salvador, tão inesquecível que é realmente um crime que Chris não tenha subido a joça ao Youtube ainda.
A turma de estudos de música que veio era da pesada e não terminava aí: Jason Stanyek, de Nova Iorque, com gravações de entrevistas e demonstrações musicais, mapeou o já vasto terreno do samba nos EUA. Passou por figuras como Jorge Alabe e Curtis Pierre – ambos com trajetória aqui em New Orleans – e demonstrou, com a competência de musicólogo que também é compositor, as mutações do suíngue (esse curioso monossílabo inglês que os brasileiros transformamos em trissílabo) na diáspora tupinambá daqui. De quebra, Jason emplacou uma bela elaboração do conceito de groove e exibiu um daqueles vídeos de Jorge Alabe em que se tem sensação de que há uma orquestra percussiva tocando. Outra apresentação de babar.
Daniel Sharp, mestre em música com dissertação sobre o mangue beat e doutor com tese sobre a música de Arcoverde, foi de Assis Calixto ao revolucionário Cordel do Fogo Encantado. Com super conhecimento de causa (Dan já virou até nome de crepe por aquelas bandas), deu aula magistral sobre a música do portal do sertão pernambucano.
Outro ponto alto foi a mega revisão da obra de Nelson Pereira dos Santos por Darlene Sadlier, permeada por clips bem escolhidos, que foram tecendo um belo painel da obra de Nelson e me encheram de vontade de rever os filmes que já vi ou assistir àqueles que ainda não conheço. Rebecca Atencio fez uma leitura fina de uma peça que levanta todo tipo de problemas ético-estéticos: Lembrar é resistir, encenada nas dependências do DOPS em SP e ambiciosa (alguns diriam invasiva) em sua manipulação da tour que recebe a platéia pelos corredores do horror.
O encerramento foi uma palestra memorável de uma das maiores críticas teatrais brasileiras (senão a maior), Silvana Garcia, que nos brindou com uma visita direto de São Paulo. O tema foi o Oficina, sobre o qual aprendi tudo o que sempre quis saber. Silvana fechou com chave de ouro, exibindo um clip de vinte minutos dessa maratona orgiástica que é a montagem do Zé Celso Martinez Corrêa d’ Os Sertões, de Euclides.
Quando alguém lhe disser que os brasilianistas dos EUA só fazem estereotipar e repetir clichês, sugira uma rápida visita às obras dessa turma e àquelas dos vários outros listados no programa que eu não citei.
Houve muito mais. Não seria exagero dizer que jamais aprendi tanto sobre música e teatro em dois dias. Severino e Kathryn, obrigado. Aos alunos de Wisconsin, especialmente às alunas do seminário de literatura contemporânea da Prof. Ksenija Bilbija, com as quais bati longo papo, aquele abraço pela hospitalidade.
Eu disse que as cervejas de Madison são incomparáveis? Quando for, não perca a Capital Amber e não deixe de ir ao Great Dane. Não perca tampouco um restaurante leste-africano, o Buraka. É isso. Valeu mesmo, Madison :-) Numa semana trágica para a universidade americana, foi inspirador ter o outro lado da moeda em grande estilo.
PS: O camarada Flávio Prada convida para um exercício de reflexão ecológica, inspirado pelo Faça sua parte. Todo apoio cá deste humilde.
Escrito por Idelber às 05:06 | link para este post
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domingo, 22 de abril 2007
O melhor e o pior da tecnologia
Adorei estas duas listas:
Os 50 melhores produtos da tecnologia (desde a invenção do primeiro PC).
Os 10 produtos mais insuportáveis
(ambos links via Corinha).
Diga lá, erudito tecno-leitor: o que sobrou e o que faltou nessas listas?
Escrito por Idelber às 03:39 | link para este post
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sexta-feira, 20 de abril 2007
Cripta em duas partes
Historinhas zizekianas:
1. Um marido e uma mulher vivem um acordo de que podem manter casos extraconjugais. Se, de repente, o marido vier contar a sua mulher sobre um caso que está tendo, ela terá bons motivos para entrar em pânico: Se é apenas um caso, por que você está me contando isso?
2. Como sabemos, os EUA sempre se utilizaram do assassinato e da tortura contra adversários políticos em várias partes do mundo, através da CIA ou de regimes-gorila instalados via golpes de estado. Se agora estão reconhecendo abertamente que torturam prisioneiros no Iraque, em Guantánamo e alhures, há motivos para se perguntar: o que significa essa admissão? Por que não continuam torturando em silêncio como antes?
3. Um rapaz no velho regime comunista da Iugoslávia chega ao exército e é encaminhado ao escritório para assinar um termo de compromisso de lealdade à pátria, a Tito e ao socialismo. O oficial lhe explica que ele deve assinar a declaração livremente, de sua própria vontade. Mas que se não assiná-la será encarcerado como traidor. O jovem replica: recuso-me. Mas se o senhor me der ordens para tanto, assino na hora. O oficial retruca: a declaração é anódina a não ser que seja assinada de livre e espontânea vontade. Mas se você não assinar, será preso.
4. João e Maria vivem na mais sublime das felicidades em seu amor. Maria diz a João: meu amor é tal que eu faço qualquer coisa que você me pedir. Seja P, Q, R, X, Y ou Z: peça-me e eu farei. João retruca: meu amor por você é tanto que P, Q, R, X ou Y não fazem a menor falta. Eu só preciso de Z. Eu nem preciso de que Z seja tão bem feito assim. Só preciso que você o faça sem que eu tenha que pedir. Porque a essência de Z é que, se ele for feito depois de um pedido, perde todo o significado.
****************************************
Simplificando grosseira, brutalmente, proponhamos: há duas formas de se entender a relação entre as coisas e os signos, a ordem bruta dos fatos e a ordem porosa, heterônoma da linguagem. A turma número 1 acredita que existe a ordem do real e, por outro lado, a ordem da representação - que pode ou não dar conta, e com maior ou menor fidelidade, desse real pré-existente.
A turma número 2, à qual eu me filio, acredita que qualquer alteração na ordem dos signos produzirá algum efeito, por mais mínimo, na ordem dos fatos que aqueles signos supostamente só representariam. A turma 2 acredita que qualquer representação altera a ordem do real, qualquer mapa transforma o território.
Ambos os grupos reconhecem a existência, por um lado, dos fatos e, por outro, de valores através dos quais esses fatos são compreendidos. Mas só a turma número 2 coloca-se a pergunta: a própria distinção entre fatos e valores pertenceria à ordem dos fatos ou à ordem dos valores? A turma número 1 não entende essa pergunta.
O abismo entre as duas turmas é irreconciliável, pois reconhecer a existência do desacordo já implica automaticamente filiar-se à turma número 2. A cisão entre elas seria, então, não uma diferença mas um diferendo: uma cisão que só pode ser nomeada optando-se por um dos lados. Não há uma linguagem neutra na qual a joça possa ser nomeada.
Uma das definições possíveis de democracia é: o labor de se transformar, incessantemente, diferendos em diferenças.
PS: Se você está em algum ponto do meio-oeste americano e se interessa por cultura e literatura brasileiras, seu lugar este fim de semana é aqui. Vem pra cá. O congresso começa hoje. Às 10 da matina, 12 de Brasília, eu entro em campo com a Nação Zumbi. Wisconsin, vou lhes contar, produz as melhores cervejas que já bebi na vida.
Escrito por Idelber às 02:56 | link para este post
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quarta-feira, 18 de abril 2007
Matança em Virginia Tech
Na época do furacão Katrina, Virginia Tech recebeu 24 estudantes de Tulane. Sinto gratidão pela acolhida que meus alunos receberam por lá. Os laços entre as duas instituições são estreitos; eu sou professor de várias pessoas que perderam conhecidos ou amigos na matança de Blacksburg, ocorrida nesta segunda-feira. O Departmento de Línguas Estrangeiras, acabo de receber a notícia, foi o mais atingido: perderam dois instrutores e duas salas cheias de alunos de francês e alemão.
Na manhã de terça, meus alunos de graduação, jovens como a maioria das vítimas em Blacksburg, me olhavam com aquelas caras de quem espera uma resposta. Por quê? Eram as mesmas caras que vi depois das matanças de Columbine e de tantas outras, tão freqüentes e tão tipicamente americanas: massacres a tiros sem vínculo com o crime organizado ou com qualquer organização política; sem relação com o tráfico de drogas ou com a vingança; não motivadas por disputas de qualquer natureza. Só um rapaz – em geral solitário e macambúzio – armado até os dentes, invadindo alguma escola na qual, em geral, ele mesmo estuda, e atirando em quem aparecer pela frente, matando quantos puder até ser abatido pela polícia ou cometer suicídio, como foi o caso esta semana em Virginia Tech.
A campanha Brady para prevenir a violência com armas dá à legislação do estado de Virgínia uma nota C-. Traduzo do site da campanha algumas perguntas relevantes:
Há um período de espera na compra de armas? Não
Há alguma limitação na venda de armas semi-automáticas? Não.
Pode o “attorney general” – autoridade judicial – regular a venda de armas? Não.
As cidades podem responsabilizar legalmente os fabricantes de armas? Não.
Há limitações sobre a posse de armas por menores de idade? Parcial. Não há limites para a venda de rifles ou espingardas para maiores de 12 anos.
Há algum requisito de licença para a compra de armas? Não.
Há algum treinamento para os compradores de armas? Não.
As cidades têm autonomia para estabelecer regras mais estritas para a compra de armas? Não.
E por aí vai. No dia 13 de março, Seung-Hui Cho, coreano residente há anos nos EUA, comprou, na Roanoke Firearms, uma Glock 19 de 9 mm. No dia 09 de fevereiro, já havia comprado uma arma calibre 22. Não se sabe por que um moleque de 23 anos precisaria de uma arma em Blacksburg – que é uma espécie de Conceição do Mato Dentro com uma grande universidade. O lobby de defesa das armas, treinado para manipular os fatos, já saiu dizendo que, se não fosse proibido carregar armas no campus de Virginia Tech, talvez mais alunos tivessem se salvado. Mais um vez, o interesse dos que lucram com a morte tenta extrair dos fatos uma mensagem exatamente oposta àquela que eles transmitem.
A pobre direita brasileira, coitada, quando não especula, no melhor estilo racista, que se houve matança é porque deve ter sido islâmico, encontra-se ocupada em atribuir o poderio econômico dos EUA ao direito de qualquer moleque comprar uma arma semi-automática em menos de 15 minutos – demonstrando assim profundo desconhecimento do próprio país que eles insistem em querer imitar.
PS: ótima cobertura da matança lá no Tiago Dória.
Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post
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segunda-feira, 16 de abril 2007
Sobre o aborto
É muito promissor para o debate sobre a descriminalização do aborto o editorial (link para assinantes) publicado pela Folha de São Paulo neste domingo, no qual o jornal se compromete com a causa que une feministas, ativistas dos direitos humanos e boa parte dos profissionais da saúde, além de outros setores da sociedade civil. As pesquisas indicam que a maioria da população brasileira ainda é contrária a mudanças na legislação atual, que só permite o aborto em casos de estupro e de risco à vida da gestante. Mas também é verdade que este é um tema que ainda não foi abertamente debatido na sociedade brasileira com a profundidade que merece.
O sucesso dos que defendemos o direito da mulher escolher interromper sua gestação legalmente, com segurança e assistência médica dependerá, eu acho, de alguns fatores:
1. Rechaçar a etiqueta de “abortistas’: ninguém é “a favor do aborto”. Quem já conheceu uma mulher que passou pela cirurgia (e quem não conhece?) sabe que ela sempre representa um momento difícil, duro, de escolha penosa. Reduzir o número de abortos realizados no país é do interesse de todos. É uma pena que os que defendem a manutenção da criminalização do aborto não se mostrem muito preocupados em formular políticas para reduzir os 1,1 milhão de abortos realizados anualmente no Brasil, preferindo a via fácil do discurso moral e da pregação da abstinência que, já está provado, não funciona (link via Hermenauta).
2. Dirigir-se com especial atenção à população religiosa, apontando que, como demonstram as Católicas pelo Direito de Decidir, a identificação entre um feto de algumas semanas e uma vida humana é bem recente na história da Igreja. Não há nenhuma base científica para essa identificação. Quem se preocupa mesmo com a vida deve se perguntar: a proibição da cirurgia e a criminalização da gestante que a ela recorre é realmente uma defesa da vida? Mesmo? Pense bem, amigo católico.
3. Cobrar coerência dos que defendem a manutenção da criminalização da cirurgia. Se se trata da “eliminação de uma vida”, ora, os que a praticam e as que recorrem a ela teriam, por coerência, que ser julgados como assassinos. Quantos estão dispostos a encarcerar como homicidas as mulheres que recorrem ao aborto?
4. Entender que a descriminalização do aborto é uma peça num conjunto de medidas de prevenção e de educação sexual que são as únicas que podem alterar o triste quadro atual, de mortes e seqüelas ocasionadas por abortos de fundo de quintal.
5. Combater a desinformação. Num lamentável artigo (link para assinantes) escrito para a Folha, o deputado Luiz Bassuma (PT-BA), cometeu o seguinte disparate: Em 1988, ainda se questionava nos meios acadêmicos e científicos sobre o instante em que a vida tem origem. Hoje, com os avanços extraordinários da genética e da embriologia, não há espaço para qualquer dúvida: a vida começa no exato momento da concepção. Obviamente o deputado não cita nenhum geneticista ou embriólogo para apoiar tão descabelada afirmativa. O blog deixa aqui o desafio público para que ele nos cite qual é a base científica da afirmação de que a vida “começa no exato momento da concepçào”.
O resultado do plebiscito recente em Portugal é animador. A batalha é morro acima, sem dúvida. Mas vale a pena.
Texto anterior do Biscoito sobre o tema: Todo o apoio ao projeto de descriminalização do aborto.
Escrito por Idelber às 05:29 | link para este post
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sexta-feira, 13 de abril 2007
Links
Hoje, só alguns links, para seu prazer navegador:
Um velho leitor do Biscoito e amigo meu, o cientista político Diego Ambrosini (também conhecido como Dra) engrossa o rol dos excelentes blogs acadêmicos com um belo projeto: com vocês, Tentativas de Mitologias.
Eu cheguei a perdê-lo de vista por uns tempos, numa dessas novas dentições pelas quais passam os blogs. Reencontrá-lo foi uma grande alegria; não deixem de visitar Zé Carlos Cipriano, um dos maiores conhecedores da música brasileira, e o seu indispensável Sovaco de Cobra.
Não se trata de blog novo, mas eu acabo de conhecê-lo. O autor é sociólogo, conhecedor do mercado editorial e ainda por cima tem o bom gosto de ser vascaíno. Visitem a Quitanda do Chaves.
Das coisas mais brilhantes e divertidas que li ultimamente na blogofera foi esse texto do Matusca. Não deixem de ler (via Mestre Fábio).
O stalinista já recomendou, mas eu não posso deixar de concordar: o novo projeto de Ricardo Monteiro, Vidas e Imagens, é um olhar brilhante e original sobre o Brasil. Não deixe de passar por lá.
As atualizações não são tão freqüentes como eu gostaria, mas esse é um espaço que você não deve perder de vista: Ecologia Digital.
Poucas vezes vi um blogueiro levar tanta cacetada como Tim O'Reilly na sua última tentativa de elaborar um "código de conduta" blogueira. O problema não é sugerir alguns códigos. O problema é fazê-lo com esse tom de quem quer organizar a internet. A pior parte foi a sugestão de que os blogueiros "assumam responsabilidade" pelo dito pelos leitores, justamente numa época em que se conseguiram algumas vitórias importantes na justiça dos EUA, no sentido de aliviar a responsabilidade jurídica do blogueiro sobre o dito por outrém em seu blog. Via o indispensável Tiago Dória.
Um escândalo do tamanho das gravatas do Henry Sobel num país vizinho: Bryce Echenique, talvez o segundo escritor peruano mais conhecido em sua pátria e no estrangeiro, foi pego no plágio não de um, não de dois, mas de pelo menos oito textos diferentes, copiados de outrém verbatim e publicados em jornais sob sua assinatura. Em sua declaração sobre o assunto, Bryce se justificou remetendo o problema a uma confusão de sua secretária particular. Trata-se de um petardo em cheio que atinge um escritor até então queridíssimo, que praticamente não tinha desafetos. A história completa, com toda a documentação, está no excelente blog Punte aéreo, aqui, lá , acolá e alhures.
Elas não comentam mas, quando fazem seus posts, põem os pingos nos i's.
PS. Se você estiver próximo a Madison, Wisconsin, no próximo fim de semana, não perca este colóquio (veja o programa completo). A conferência de abertura acontecerá na sexta-feira às 10 da manhã e será dada por este atleticano blogueiro, que deixa o agradecimento à Universidade de Wisconsin em Madison pelo convite.
Escrito por Idelber às 04:46 | link para este post
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quarta-feira, 11 de abril 2007
Meme das pedras de toque
O Paulo Roberto Pires, do bom blog Toca Tudo, fez um post recordando um livro do José Lino Grünewald, que colecionava algumas das “pedras de toque” da poesia brasileira: imagens que condensam um universo poético, resumem a obra de um autor, dizem mais que o aparente à primeira vista. Daí o Paulo propôs as “pedras de toque” da letrística da música brasileira popular para ele; os leitores acharam várias outras, muito boas.
Vamos roubar a brincadeira deles? Aí vão algumas das minhas:
Tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor
(Nélson Cavaquinho / Guilherme de Brito / Alcides Caminha, “A Flor e o Espinho”)
Cuidado Saci, cuidado com a toca
Treine bem e não se compromete
Pois esta aposta consiste
Em que você ande
Pelo sítio de patinete
(Jorge Ben, “Sasaci Pererê” - é puro Ben essa estrofe!)
Matou o ciúme que mata
Negou a mentira da nêga
Cantou o remorso num canto
Guardou o seu anjo-de-guarda
Chamou a doideira da chama
(João Bosco / Aldir Blanc, “Escadas da Penha” – parte B, depois da reviravolta)
E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo
E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o molambo ficou lá
Molambo eu, molambo tu
(Chico Science / Fred 04, “Rios pontes e overdrives”)
Aconteceu um novo amor
Que não podia acontecer
Não era hora de amar
Agora o que vou fazer?
(Dorival Caymmi, “Não tem solução”)
E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
(Orestes Barbosa, “A mulher que ficou na taça” - adoro esse pseudo-parnasianismo do samba dos anos 30. Cartola foi o mestre disso).
O meu cartão de crédito é uma navalha
(Cazuza / Nilo Romero / George Israel, “Brasil”)
Vou me desacorvardar dizendo não
A um coração que fez só desagasalhar
Quem o abrigou
(Cartola / Hermínio Bello de Carvalho, “Labaredas)
Diga lá, leitor, quais são as suas pedras de toque na música brasileira popular?
Escrito por Idelber às 05:56 | link para este post
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segunda-feira, 09 de abril 2007
Deus, um Delírio, de Richard Dawkins
Somos todos ateus no que concerne à maioria dos deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós só vão um deus além disso.
Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo.
Bush e Bin Laden estão, na verdade, do mesmo lado: o lado da fé e violência, em oposição ao lado da razão e discussão. Ambos têm uma fé implacável de que estão certos e de que o outro é maligno. Ambos acreditam que, quando morrerem, ascenderão aos céus. Cada um crê que, quando matar o outro, seu caminho ao paraíso no outro mundo será muito mais rápido. O ilusório 'outro mundo' será bem-vindo a ambos. Este mundo seria um lugar muito melhor sem nenhum dos dois. (fonte)
Richard Dawkins, biólogo e professor da cátedra de Compreensão Pública da Ciência na prestigiosa Oxford University, talvez seja o ateu mais ilustre do nosso tempo. Pesquisador premiado, talentoso popularizador da ciência e introdutor do termo meme, uma espécie de equivalente cultural do conceito biológico de “gene”, Dawkins é mais conhecido (e atacado) por sua feroz crítica das religiões. Ao contrário dos cientistas que – apesar de ateus ou agnósticos, como o são a esmagadora maioria dos cientistas – estão reconciliados com a idéia de que ciência e religião são empresas que podem coexistir desde que os limites de cada uma sejam respeitados, Dawkins encara as religiões como uma perigosa fonte de obscurantismo que ameaça a busca da verdade, o trabalho da razão e a paz.
A culminação da sua cruzada anti-religiosa (valha o oxímoro) é o livro The God Delusion, que será lançado no Brasil pela Companhia das Letras no segundo semestre. Até onde pude averiguar, o livro deve sair com o título de A Ilusão de Deus, o que é uma tradução no mínimo imperfeita. “Delusion”, em inglês, designa um tipo de ilusão com características patológicas. “Delírio”, neste caso, talvez fosse uma melhor solução. Para piorar, a ambigüidade própria ao genitivo no português pode sugerir que é o não-existente Deus que anda iludido. . . Talvez a tradução mais conforme com as intenções do autor fosse Deus, um Delírio. Atualização: a tradução que saiu terminou optando pelo título que considerávamos melhor; parabéns aos tradutores.
Terminei de ler o livro, com tremenda admiração pela coragem e erudição de Dawkins. A obra poderia ser dividida, grosso modo, em duas partes: uma demonstração cientifica da extrema improbabilidade da existência de Deus e uma tentativa de explicação do porquê da popularidade das religiões ao redor do mundo. A primeira parte do argumento é impecável; a segunda, bem mais fraca.
Alguns dos pressupostos do livro de Dawkins são irrefutáveis. Os ateus e agnósticos formam um enorme contingente humano, mas não encontraram ainda canais efetivos para a defesa de sua visão de mundo. Prova disso é o fato de que qualquer candidato a presidente dos EUA que se declarasse ateu estaria condenado a perder a eleição. Apesar de que é improvável que qualquer amostra de 500 indivíduos norte-americanos instruídos não inclua um ateu, nenhum dos membros do Congresso tem coragem de se declarar não crente – isso implicaria condenar-se a não ser reeleito. Nenhuma pregação da eliminação de um grupo étnico ou sexual seria protegida pela primeira emenda à constituição americana, a que garante liberdade de expressão, já que ela não inclui discursos que incitam o ódio. No entanto, basta que o ódio se apresente como religioso (“a homossexualidade é um pecado!”) para que ele passe a ser aceitável. Ninguém questionaria o direito de qualquer cidadão declarar que o marxismo ou o liberalismo são idéias imbecis, mas qualquer ataque à religião nesses termos é imediatamente qualificado como um desrespeito. A religião desfruta desse curioso privilégio: a livre discussão de seus postulados continua barrada à razão, mais de 200 anos depois da revolução iluminista. Ninguém se referiria a uma criança de 5 anos de idade como "conservadora" ou "liberal", mas fala-se impunemente de "criança católica" ou "criança muçulmana", ao invés do que seria correto, "crianças de pais católicos" ou "crianças de pais muçulmanos". Ninguém tem nenhuma prova de que os religiosos são pessoas mais morais em suas ações que os ateus, mas essa associação automática continua operando em nossa sociedade, com conseqüências desastrosas. Por outro lado, há montanhas de evidências correlacionando o ateísmo a níveis mais altos de informação, preparação científica e QI, mas a palavra "ateu" ainda carrega um terrível estigma. 
Dawkins desmonta admiravelmente a hipótese deísta, mostrando que a ciência da evolução já nos forneceu os mecanismos para entender como a complexidade surge da simplicidade. É óbvio que a ciência não pode provar a inexistência de Deus, assim como não pode provar a inexistência de fadas ou do saci-pererê. Mas a hipótese deísta, de um Deus criador de toda a complexidade do mundo, além de não ser capaz de apresentar qualquer evidência que a sustente, contraria toda a evidência disponibilizada pela pesquisa científica acumulada ao longo dos séculos. A desconstrução que oferece Dawkins das “provas” da existência de Deus são alguns dos momentos mais brilhantes do livro, só comparáveis ao rolo compressor que ele passa sobre a falácia do “projeto inteligente” (intelligent design), máscara pseudo-científica recentemente encontrada pelos criacionistas para tentar conquistar espaço igual ao da ciência nas escolas e que, apesar de generosos subsídios de fundações conservadoras como a Templeton, ainda não conseguiu alistar nem meia dúzia de cientistas sérios em sua defesa.
A principal crítica feita por Terry Eagleton ao livro de Dawkins – a de que ele ignora as sutilezas da teologia – me parece, por isso, essencialmente injusta. Dawkins escreveu um livro que tenta demonstrar porque a hipótese deísta não se sustenta. Exigir que ele dedique páginas às diferenças entre São Tomás de Aquino e Duns Scott é como esperar que uma crítica racional da astrologia perca tempo debatendo as diferenças entre os astrólogos chineses e os mexicanos. Continuo achando extremamente engraçado que um marxista como Eagleton escreva frases como porque o universo é de Deus, ele compartilha de sua vida, que é a vida da liberdade. É por isso que ele funciona por si mesmo, e é por isso que tanto Richard Dawkins como a ciência são possíveis. O mesmo é verdadeiro dos seres humanos: Deus não é um obstáculo a nossa autonomia e prazer mas, como argumenta Aquino, o poder que permite que sejamos nós mesmos . Qual é a evidência que apresenta Eagleton para sua tese? Nenhuma. É porque é. Porque Aquino disse. É difícil acreditar que alguém possa escrever coisas assim e ainda declarar-se marxista. O pobre Karl deve estar revirando-se no Highgate Cemetery, com seguidores como Eagleton.
O livro também foi criticado por razões, digamos, táticas, ou seja, por “jogar gasolina no incêndio”, como argumenta Marcelo Gleiser, um ateu, nesses dois artigos na Folha (link para assinantes). Muitos acreditam que é melhor concentrar-se na crítica aos fundamentalismos religiosos, ao invés de empurrar todos os crentes para o campo inimigo. Essa é, acredito, a posição dos que reclamam do “radicalismo” ou “intolerância” de Dawkins, como alguns dos leitores dessa resenha escrita por Lucia Malla. Eu concordo com a resposta da Lucia, de que não se deve confundir ênfase com intolerância. Muitas vezes, o ataque ao “radicalismo” de alguém é só uma forma de reconhecer que seus argumentos não podem ser refutados com facilidade.
Há críticas do livro de Dawkins, no entanto, que me parecem atinadas, e Eagleton reproduz algumas delas. Dawkins tem uma tendência a exagerar a influência negativa da religião e a desprezar o papel positivo que ela pode cumprir em algumas situações. Sua análise de fenômenos sociais é grosseiramente unidimensional. Ele chega a declarar, por exemplo, que a abolição da religião representaria o fim dos problemas no Oriente Médio ou na Irlanda, o que é uma brutal simplificação. Qualquer que seja sua posição sobre a ocupação colonial eufemisticamente conhecida como o “conflito israelo-palestino”, a explicação do problema não pode prescindir de uma análise da estrutura política estabelecida a partir da fundação do estado de Israel. Que a religião passe, depois, a simbolizar o conflito para muitos dos atores nele envolvidos não quer dizer que ela seja a causa decisiva. Houve incontáveis contextos históricos nos quais judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em relativa harmonia, como por exemplo na Al-Andalus medieval (para detalhes, consultar |