Meu Perfil
Um weblog anti-apocalíptico sobre polí­tica, música, futebol e literatura.



email: idelberavelar gmail ponto com
Sobre o autor
 Curriculum Vitae
 Página pessoal em Tulane
 Prêmio Itamaraty (pdf)
 The Untimely Present
 The Letter of Violence
 Alegorias da Derrota
 Ensaio sobre o PT
 Balanço Governo Lula
 Ensaio Música Mineira
 Ensaio sobre 11/09
 Entrevista no Chile
 Entrevista no Gravatá
 Ensaio sobre o Galo


Sobre ela
 Um defeito de cor
 Ao lado e à margem do que sentes por mim
 Prêmio Casa de las Américas
 Comentário de Millôr
 Comentário de Risério
 Resenha na Folha de Pernambuco
 Entrevista na Record
 Entrevista na Globo News
 Entrevista na Novae (2002)


Direto do arquivo
 Decálogo do blogueiro
 Perfil do direitista tupiniquim
 ABC das eleições americanas
 Valsa, Polca e Maxixe
 Discoteca do Mangue Beat
 Homenagem a Silviano Santiago
 A Globo e as eleições
 Katrina, em 10 datas
 On Cult studies and blogs
 Bloomsday
 Sobre o luto
 Entrevista com José M. Wisnik
 Entrevista com Martín Kohan


Histórico
 julho 2008
 junho 2008
 maio 2008
 abril 2008
 março 2008
 fevereiro 2008
 janeiro 2008
 dezembro 2007
 novembro 2007
 outubro 2007
 setembro 2007
 agosto 2007
 julho 2007
 junho 2007
 maio 2007
 abril 2007
 março 2007
 fevereiro 2007
 janeiro 2007
 novembro 2006
 outubro 2006
 setembro 2006
 agosto 2006
 julho 2006
 junho 2006
 maio 2006
 abril 2006
 março 2006
 janeiro 2006
 dezembro 2005
 novembro 2005
 outubro 2005
 setembro 2005
 agosto 2005
 julho 2005
 junho 2005
 maio 2005
 abril 2005
 março 2005
 fevereiro 2005
 janeiro 2005
 dezembro 2004
 novembro 2004
 outubro 2004


Assuntos
 Clube de leituras
 Fenomenologia da Fumaça
 Filosofia
 Futebol e redondezas
 Gênero
 Literatura
 Metablogagem
 Música
 New Orleans
 Polí­tica
 Primeira Pessoa



Visito
 Acontecimentos
 Afrodite sem Olimpo
 Afonso, o Chato
 After the Fall
 Agência Carta Maior
 Aguafuertes
 Alcinéa Cavalcante
 Alê Felix
 Além do jogo
 Alessandra Alves
 Alfarrábio
 Amante profissional
 Ane Aguirre
 Animot
 Antônio Carlos Miguel
 Ao mirante, Nelson!
 Arrastão
 Bala perdida
 Balípodo
 Bereteando
 Biajoni!
 Bibi's Box
 Big muff
 Blog do Alon
 Blog do Cássio
 Blog do galinho
 Blog do Juarez
 Blog do Mello
 Blog do Rovai
 Blog do Sakamoto
 Blog dos Perrusi
 Blogafora
 blowg
 The brain eaters
 Brainstorm # 9
 Branco Leone
 Bratislava
 Bugio
 Caldos de tipos
 Caquis caídos
 O carapuceiro
 Carla Rodrigues
 Carnet de notes
 Carreira solo
 Carta da Itália
 Caryorker
 A casa da colina
 Casa da tolerância
 Casa de paragens
 Catarro Verde
 Catatau
 Cinefilia
 Cinematógrafo
 Cintaliga
 Cocadaboa
 Conejillo de Indias
 Consenso, só no paredão
 Contra Capa
 Contraditorium
 Controvérsia
 Conversa afiada
 Cria Minha
 Cris Dias
 Crônicas perversas
 Cyn City
 Cynthia Semíramis
 Uma dama não comenta
 Daniel Lopes
 De olho no fato
 De primeira
 De Rasuras
 Diálogico
 Diário da Lulu
 Diário da Odalisca
 Diário de Bordo
 Diario de trabajo
 Diário gauche
 Diplomacia bossa nova
 Direitos fundamentais
 Discoteca básica
 Dissidência
 Dito assim parece à toa
 Doidivana
 Don Quijote
 Dossiê Alex Primo
 ¡Drops da Fal!
 Duas Fridas
 É bom para quem gosta
 É por aqui que vai pra lá?
 eblog
 Ecologia Digital
 Enloucrescendo
 Enquanto seu blog não vem
 Epicaos
 EraOdito
 Escrúpulos Precários
 Estado anarquista
 Eugenia in the meadow
 O eu profundo
 Fabricio Carpinejar
 Faca de fogo
 Faça sua parte
 Favoritos
 A Feminista
 Ferréz
 Fiapo de jaca
 Fósforo
 Fina flor
 Fogo nas entranhas
 Fotógrafos brasileiros
 Frankamente
 Fundo do poço
 Futebol, política e cachaça
 Gabinete dentário
 Galo é amor
 Garotas que dizem ni
 Gejfin
 Gravatá
 Gravataí Merengue
 Groselha news
 Guga Alayon
 Guia de literatura
 Hargentina
 Hedonismos
 Hermenauta
 Histórias do Brasil
 Homem do plano
 HQ e cultura
 Hunny.bunny
 Idéias mutantes
 Impedimento
 Impostor
 Imprensa Marrom
 Incautos do ontem
 Ingresia
 Inter-esse
 InternETC
 Interney
 Ius communicatio
 jAGauDArTE
 Jon Kepa
 Juca Kfouri
 Juliano Rosa
 Kit Básico da Mulher Moderna
 La lectora provisoria
 Lembrança eterna de uma mente sem brilho
 Letícia na web
 Liberal Libertário Libertino
 Limpo no lance
 Linkillo
 Lino Resende
 Lixo Tipo Especial
 Lixomania
 Lord Broken Pottery
 Luis Nassif
 Luz de Luma
 Mac's daily miscellany
 Maísa na blogosfera
 Uma Malla pelo mundo
 Marcelo Coelho
 Marconi Leal
 Marmota
 Martelada
 Melômano
 Meta.comunix
 Milton Ribeiro
 Mineiras, uai!
 Mino Carta: direto da Olivetti
 Mothern
 Monolingua
 Mox in the sky with diamonds
 Música popular do Brasil
 Na prática a teoria é outra
 Nababu
 Nación apache
 Nalu
 Nei Lopes
 Noncapisconiente
 Nova corja
 Novo mundo
 Nóvoa em folha
 Odisséia literária
 Óleo do diabo
 Olho de boi
 Onde anda Su?
 Ontem e hoje
 A Ostra e o vento
 Outros dias
 Overmundo
 Palestina do espetáculo triunfante
 Pálido ponto branco
 Panóptico
 Para ler sem olhar
 Paralelos
 Parede de meia
 Pátria futebol clube
 Paulodaluzmoreira
 Pecus Bilis
 Pedro Alexandre Sanches
 Pedro Dória
 O pensador selvagem
 Pensamentos esparsos
 Pensar enlouquece
 Perto do coração selvagem
 Pirão sem dono
 Poemas del alma
 Ponto media
 Por um punhado de pixels
 Porão abaixo
 Posthegemony
 Prás cabeças
 Puente aéreo
 Quando, onde e como
 Quarentena
 Que cazzo
 Querido leitor
 Rafael Galvão
 Recordar repetir elaborar
 Retrato do artista quando tolo
 Ricardo Antunes da Costa
 Río fugitivo
 Rizomas
 Roda de ciência
 Rosebud NYC
 RS urgente
 Sandino
 Seqüências parisienses
 Sergio Leo
 Serbão
 Sérgio blog 2.3
 Silenzio, no hay banda
 O sinistro
 Sob(re) a pálpebra da página
 Soninha
 Soninha (gabinete)
 A Sopa no exílio
 Sovaco de cobra
 Sub rosa v.2
 Superfície reflexiva
 Talqualmente
 Tapera
 Taxitramas
 Tentativas de mitologia
 Terapia Zero
 Tiago Dória
 Todo prosa
 Todos os fogos o fogo
 Tordesilhas
 Torero
 Torre de marfim
 Tudo pode acontecer
 Tudo que é sólido se desmancha no ar
 Túlio Vianna
 Umbigo do sonho
 Ultimas de Babel
 Universo anárquico
 Vejo tudo e não morro
 Velho do farol
 Viajando nas palavras
 La vieja bruja
 A vida em palavras
 Virunduns
 A volta dos que não foram
 Zema Ribeiro




selinho_idelba.jpg


Movable Type 3.36
« Resposta de Paulo Cesar de Araújo a Roberto Carlos :: Pag. Principal :: Meme das pedras de toque »

segunda-feira, 09 de abril 2007

Deus, um Delírio, de Richard Dawkins

Somos todos ateus no que concerne à maioria dos deuses que a humanidade já acreditou. Alguns de nós só vão um deus além disso.

Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo.

Bush e Bin Laden estão, na verdade, do mesmo lado: o lado da fé e violência, em oposição ao lado da razão e discussão. Ambos têm uma fé implacável de que estão certos e de que o outro é maligno. Ambos acreditam que, quando morrerem, ascenderão aos céus. Cada um crê que, quando matar o outro, seu caminho ao paraíso no outro mundo será muito mais rápido. O ilusório 'outro mundo' será bem-vindo a ambos. Este mundo seria um lugar muito melhor sem nenhum dos dois. (fonte)


dawkins.jpgRichard Dawkins, biólogo e professor da cátedra de Compreensão Pública da Ciência na prestigiosa Oxford University, talvez seja o ateu mais ilustre do nosso tempo. Pesquisador premiado, talentoso popularizador da ciência e introdutor do termo meme, uma espécie de equivalente cultural do conceito biológico de “gene”, Dawkins é mais conhecido (e atacado) por sua feroz crítica das religiões. Ao contrário dos cientistas que – apesar de ateus ou agnósticos, como o são a esmagadora maioria dos cientistas – estão reconciliados com a idéia de que ciência e religião são empresas que podem coexistir desde que os limites de cada uma sejam respeitados, Dawkins encara as religiões como uma perigosa fonte de obscurantismo que ameaça a busca da verdade, o trabalho da razão e a paz.

A culminação da sua cruzada anti-religiosa (valha o oxímoro) é o livro The God Delusion, que será lançado no Brasil pela Companhia das Letras no segundo semestre. Até onde pude averiguar, o livro deve sair com o título de A Ilusão de Deus, o que é uma tradução no mínimo imperfeita. “Delusion”, em inglês, designa um tipo de ilusão com características patológicas. “Delírio”, neste caso, talvez fosse uma melhor solução. Para piorar, a ambigüidade própria ao genitivo no português pode sugerir que é o não-existente Deus que anda iludido. . . Talvez a tradução mais conforme com as intenções do autor fosse Deus, um Delírio. Atualização: a tradução que saiu terminou optando pelo título que considerávamos melhor; parabéns aos tradutores.

Terminei de ler o livro, com tremenda admiração pela coragem e erudição de Dawkins. A obra poderia ser dividida, grosso modo, em duas partes: uma demonstração cientifica da extrema improbabilidade da existência de Deus e uma tentativa de explicação do porquê da popularidade das religiões ao redor do mundo. A primeira parte do argumento é impecável; a segunda, bem mais fraca.

Alguns dos pressupostos do livro de Dawkins são irrefutáveis. Os ateus e agnósticos formam um enorme contingente humano, mas não encontraram ainda canais efetivos para a defesa de sua visão de mundo. Prova disso é o fato de que qualquer candidato a presidente dos EUA que se declarasse ateu estaria condenado a perder a eleição. Apesar de que é improvável que qualquer amostra de 500 indivíduos norte-americanos instruídos não inclua um ateu, nenhum dos membros do Congresso tem coragem de se declarar não crente – isso implicaria condenar-se a não ser reeleito. Nenhuma pregação da eliminação de um grupo étnico ou sexual seria protegida pela primeira emenda à constituição americana, a que garante liberdade de expressão, já que ela não inclui discursos que incitam o ódio. No entanto, basta que o ódio se apresente como religioso (“a homossexualidade é um pecado!”) para que ele passe a ser aceitável. Ninguém questionaria o direito de qualquer cidadão declarar que o marxismo ou o liberalismo são idéias imbecis, mas qualquer ataque à religião nesses termos é imediatamente qualificado como um desrespeito. A religião desfruta desse curioso privilégio: a livre discussão de seus postulados continua barrada à razão, mais de 200 anos depois da revolução iluminista. Ninguém se referiria a uma criança de 5 anos de idade como "conservadora" ou "liberal", mas fala-se impunemente de "criança católica" ou "criança muçulmana", ao invés do que seria correto, "crianças de pais católicos" ou "crianças de pais muçulmanos". Ninguém tem nenhuma prova de que os religiosos são pessoas mais morais em suas ações que os ateus, mas essa associação automática continua operando em nossa sociedade, com conseqüências desastrosas. Por outro lado, há montanhas de evidências correlacionando o ateísmo a níveis mais altos de informação, preparação científica e QI, mas a palavra "ateu" ainda carrega um terrível estigma. delusion.jpg

Dawkins desmonta admiravelmente a hipótese deísta, mostrando que a ciência da evolução já nos forneceu os mecanismos para entender como a complexidade surge da simplicidade. É óbvio que a ciência não pode provar a inexistência de Deus, assim como não pode provar a inexistência de fadas ou do saci-pererê. Mas a hipótese deísta, de um Deus criador de toda a complexidade do mundo, além de não ser capaz de apresentar qualquer evidência que a sustente, contraria toda a evidência disponibilizada pela pesquisa científica acumulada ao longo dos séculos. A desconstrução que oferece Dawkins das “provas” da existência de Deus são alguns dos momentos mais brilhantes do livro, só comparáveis ao rolo compressor que ele passa sobre a falácia do “projeto inteligente” (intelligent design), máscara pseudo-científica recentemente encontrada pelos criacionistas para tentar conquistar espaço igual ao da ciência nas escolas e que, apesar de generosos subsídios de fundações conservadoras como a Templeton, ainda não conseguiu alistar nem meia dúzia de cientistas sérios em sua defesa.

A principal crítica feita por Terry Eagleton ao livro de Dawkins – a de que ele ignora as sutilezas da teologia – me parece, por isso, essencialmente injusta. Dawkins escreveu um livro que tenta demonstrar porque a hipótese deísta não se sustenta. Exigir que ele dedique páginas às diferenças entre São Tomás de Aquino e Duns Scott é como esperar que uma crítica racional da astrologia perca tempo debatendo as diferenças entre os astrólogos chineses e os mexicanos. Continuo achando extremamente engraçado que um marxista como Eagleton escreva frases como porque o universo é de Deus, ele compartilha de sua vida, que é a vida da liberdade. É por isso que ele funciona por si mesmo, e é por isso que tanto Richard Dawkins como a ciência são possíveis. O mesmo é verdadeiro dos seres humanos: Deus não é um obstáculo a nossa autonomia e prazer mas, como argumenta Aquino, o poder que permite que sejamos nós mesmos . Qual é a evidência que apresenta Eagleton para sua tese? Nenhuma. É porque é. Porque Aquino disse. É difícil acreditar que alguém possa escrever coisas assim e ainda declarar-se marxista. O pobre Karl deve estar revirando-se no Highgate Cemetery, com seguidores como Eagleton.

O livro também foi criticado por razões, digamos, táticas, ou seja, por “jogar gasolina no incêndio”, como argumenta Marcelo Gleiser, um ateu, nesses dois artigos na Folha (link para assinantes). Muitos acreditam que é melhor concentrar-se na crítica aos fundamentalismos religiosos, ao invés de empurrar todos os crentes para o campo inimigo. Essa é, acredito, a posição dos que reclamam do “radicalismo” ou “intolerância” de Dawkins, como alguns dos leitores dessa resenha escrita por Lucia Malla. Eu concordo com a resposta da Lucia, de que não se deve confundir ênfase com intolerância. Muitas vezes, o ataque ao “radicalismo” de alguém é só uma forma de reconhecer que seus argumentos não podem ser refutados com facilidade.

Há críticas do livro de Dawkins, no entanto, que me parecem atinadas, e Eagleton reproduz algumas delas. Dawkins tem uma tendência a exagerar a influência negativa da religião e a desprezar o papel positivo que ela pode cumprir em algumas situações. Sua análise de fenômenos sociais é grosseiramente unidimensional. Ele chega a declarar, por exemplo, que a abolição da religião representaria o fim dos problemas no Oriente Médio ou na Irlanda, o que é uma brutal simplificação. Qualquer que seja sua posição sobre a ocupação colonial eufemisticamente conhecida como o “conflito israelo-palestino”, a explicação do problema não pode prescindir de uma análise da estrutura política estabelecida a partir da fundação do estado de Israel. Que a religião passe, depois, a simbolizar o conflito para muitos dos atores nele envolvidos não quer dizer que ela seja a causa decisiva. Houve incontáveis contextos históricos nos quais judeus, cristãos e muçulmanos conviveram em relativa harmonia, como por exemplo na Al-Andalus medieval (para detalhes, consultar este livro). Não é correto afirmar, como o faz Dawkins, que a situação semi-colonial da Irlanda ante a Inglaterra se remonte a uma mera rixa entre protestantes e católicos, por mais que essa seja a fachada mais visível do conflito. Ao explicar os ataques terroristas do 11 de setembro como uma mera conseqüência do fundamentalismo religioso, Dawkins ironicamente repete os argumentos da direita religiosa que é sua grande inimiga – desprezando assim a análise da evidência histórica que mostra as raízes políticas do problema.

Em outras palavras, como biologia e cosmologia o livro é impecável e confirma a sólida reputação do autor. Quando ele se move na direção do terreno das ciências sociais e da filosofia, patina. Acho inconcebível que um ateu tente explicar o papel das religiões no mundo sem engajar-se nem uma única vez com Nietzsche, Freud ou Marx. Esses três “pensadores da suspeita” ofereceram ferramentas sofisticadíssimas para a compreensão do problema. Dawkins as ignora e substitui-as por um modelo tosco, mecânico, reducionista, que se limita a explicar a religião como resquício de um modo de pensamento infantil. Mas claro, se Dawkins soubesse tanto de filosofia e ciências sociais como ele sabe de biologia e cosmologia, ele não seria Dawkins. Seria Deus.

Leituras relacionadas
(em português):
Resenha de O Anti-Cristo, de Friedrich Nietzsche, cá neste blog.
O fantasma de Darwin, de José Colucci Jr.
Santa Ilusão, resenha de Hélio Schwartsman na Folha.
Resenha de Renato Zamora Flores, na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.
Capítulo de Decompondo o Arco-Íris, de Richard Dawkins.
Resenha de A Escalada do Monte Improvável, de Richard Dawkins.
Portal do Ateísmo.
Entrevista com Richard Dawkins.
Citações de Richard Dawkins.

(em inglês):
The Atheist.
Interview with Richard Dawkins.
Beyond Belief, in the New York Times.



  Escrito por Idelber às 07:08 | link para este post | Comentários (66)


Comentários

#1

Excelente, Idelber. Vou lê-lo quando chegar ao Brasil, certamente.

Por falar em leituras, e o clube?

Abraços.

Milton Ribeiro em abril 9, 2007 8:17 AM


#2

Sua resenha é a mais completa que vi sobre o livro em língua portuguesa. Não tem colunista da Folha, jornalista do Estadão nem nada: foi Mestre Idelber quem fez e analisou esse livro tão polêmico da melhor e mais completa forma possível. A mídia tradicional deveria analisar as sandices que escreveu, quando tanto material mais interessante poderia sair desse livro. Vc mostra isso de maneira clara e elegante.

Excelente. Parabéns!! :)

(Eu estava no aguardo dessa resenha já há algum tempo. Sabia q vc ia dar show. Minhas expectativas não foram diminuídas.)

Beijos.

Lucia Malla em abril 9, 2007 10:14 AM


#3

Excelente resenha. Repetiu algumas coisas que eu já havia lido por aí (o que é bom, afinal esta é uma resenha).

Por falar em livros, o Clube de Leitura? Da última vez eu li um dos melhores livros da minha vida (GSV). Quero ver continuar com o padrão elevado :)

Bender em abril 9, 2007 10:44 AM


#4

Ótima resenha, Idelber. Mas eu sou um chato e ainda vou defender o Eagleton. Vai parecer que eu sou amigo ou apaniguado do sujeito, mas vamos lá.

Acho que as frases que você destaca da resenha servem mais como uma explicação da teologia cristã. Aliás, o próprio Eagleton se refere ao conteúdo dessas frases como "doutrinas tradicionais" - o que afasta qualquer necessidade ou mesmo possibilidade de apresentar evidências.

Ao contrário de você, acho que as sutilezas teológicas são importantes. Não é o caso de falar das diferenças entre Duns Scott e Tomás de Aquino, mas sim de entender de teologia o suficiente para notar que há formas de encarar Deus que são promotoras da tolerância não por concessão, mas por essência mesmo.

A argumentação do Eagleton fica mal colocada porque ele tenta defender esse ponto usando o que deve ter aprendido da teologia mais sofisticada quando começou a militar na esquerda católica inglesa na década de 60, enquanto o Dawkins fala da religião como ela se apresenta de forma mais concreta atualmente - pentecostalismo, padres marcelos e afins. O admirável arcabouço racional da teologia não tem quase nenhuma relevância para quem vai para a Igreja Universal ou mesmo para a grande maioria dos católicos que frequentam as missas aos domingos. Mas a questão é que mesmo a religião na sua forma massificada ("ao nível do senso comum", como diria Gramsci), tem suas sutilezas e não é necessariamente obscurantista.

Digo isso por experiência pessoal: se eu percebi imediatamente que coisas como o tal "Design inteligente" são falácias ridículas não foi por ter sido apaixonado por Biologia na infância e ter devorado tudo o que uma criança poderia ler sobre o assunto. Foi, antes de tudo porque uma das minhas primeiras aulas do catecismo (aos 8 anos!) me ensinou que o Genêsis "nos mostra por que Deus criou o mundo, enquanto a Biologia nos ensina como o mundo foi criado", e que, portanto, a Bíblia nunca poderia ser considerada como uma referência para a história natural. Hoje eu sou ateu, mas mesmo se ainda fosse católico não teria nenhuma restrição ao darwinismo, por exemplo. Por causa de uma única frase, inteligível para uma criança de oito anos. Uma criança que era um bocado inteligente, claro, mas apenas uma criança. :)

Por fim, sobre Marx se revirar na tumba, você leu esse livro? É sobre as ligações entre marxismo, cristianismo e teologia da libertação, do ponto de vista de um marxista respeitado como o Michael Löwy. Aliás, lembro que vc falou certa vez que os tais "padres progressistas" eram muitas vezes algumas das fontes de autoritarismo dentro do PT, o que me fez pensar se o Löwy talvez não tenha uma avaliação benigna demais sobre esquerda religiosa no Brasil. Mas isso seria outra discussão, e o meu comentário já está terrivelmente longo, como é de costume. :) Um abraço, Idelber.

Edson em abril 9, 2007 4:46 PM


#5

Bender e Milton, voltemos, sim com o Clube de Leituras em breve. Vocês têm alguma sugestão?

Lu, é uma honra que você tenha gostado. Como lhe disse, minha idéia era fazer justiça a cientistas como você :-)

Edson, estou redigindo um comentário mais detalhado sobre sua excelente ponderação. Valeu :-)

Idelber em abril 9, 2007 6:04 PM


#6

Caro Idelber,

Fico com o Marcelo Gleiser: que guerra mais perdida - e por quanta antecipação...

Não quero parecer um elitista cínico, mas para mim a discussão levantada pelo Dawkins parece um delírio típico dos primórdios do iluminismo.

Acho que não podemos esperar que todo o gênero humano esteja sedento de Razão, tenha o mesmo prazer (solitário como outro tão condenado pela Igreja) que nós temos em fazer uma "descoberta", em arrancar leite de pedra para chegar a uma conclusão minimamente racional - e ainda assim, sabermos que ela é perecível, contestável.

Você definiu muito bem a trindade Marx-Freud-Nietzsche como "pensadores da supeita".

A dúvida é uma companheira inseparável de todo conhecimento sério.

Só que essa é uma tarefa custosa e insuportável para a maioria das pessoas (com o perdão pelo meu método meio tabajara de quantificação).

A certeza em qualquer coisa, por mais falsa e improvável que seja, me parecer ser a primeira necessidade na formação mental das pessoas (perdão agora pelo psicologismo igualmente tabajara) e creio que continuará sendo na maior parte das vidas delas.

Até hoje o pensamento crítico e "desencantado" alcançou grandes vitórias apesar de, no fundo, no fundo, ser entendido apenas por uma minoria.

Se agora essas vitórias estão ameaçadas, não sei bem com que armas temos de lutar.

Mas tenho comigo que não vai ser com essa curiosa "teologia de libertação dos incréus" que propõe o Dawkins (pelo menos é o que tenho entendido da maioria das leituras, inclusive da sua ótima resenha).

No mais, parabéns pelo conteúdo do seu blog, a que acabei chegando pelas recomendações entusiasmadas - e justas, pelo que vejo - de outro blogueiro que tem tido paciência com esse meu tom levemente alterado de (digamos) argumentar, o Sergio Leo.

P.S.: só pra não perder a viagem, me lembrei da frase do Diderot, de que deísta é uma pessoa que não viveu tempo suficiente para se tornar ateu.

Dourivan Lima em abril 9, 2007 9:51 PM


#7

Complementando sua idéia sobre o suicídio político de se declarar godless:

http://scienceblogs.com/pharyngula/2007/03/should_we_be_happy_about_this.php#commentsArea

É notícia do mês passado, mas não deixa de estar relacionada ao tema proposto pelo post.

Bjs.

Lucia Malla em abril 10, 2007 1:43 AM


#8

Edson e Dourivan aqui vai a resposta aos excelentes comentários de vocês.

No fundo acho que não há grandes discordâncias entre nós, embora eu continue defendendo o direito de Dawkins ignorar as diferenças entre, digamos, Aquino e Duns Scott. O que Dawkins argumentaria é que qualquer teologia falha no teste mais básico de rigor acadêmico, a demonstrabilidade com base na evidência. A partir daí, a forma como cada uma cria seus labirintos conceituais particulares é de pouca importância, já que nenhuma consegue responder a pergunta básica, quais as provas que você tem daquilo que está dizendo.

Dito isso, devo concordar com o Edson que Dawkins não atenta suficientemente para a possibilidade de que religiosidade e intolerância não andem sempre juntas assim. Isso é verdade.

Quanto ao Lowy, eu não li esse livro em particular, mas já li outras intervenções dele sobre a história da teologia da libertação no Brasil. Não resta dúvida de que a avaliação do Lowy sobre a esquerda religiosa no Brasil foi demasiado benigna. Eu venho de Minas Gerais, um dos bastiões mais fortes do PT católico. Conheço muito bem o modus operandi da esquerda católica. Teve, sim, alguns méritos, especialmente no trabalho com populações muito pobres, às quais a extrema esquerda chegava só com dificuldade. Mas as práticas partidárias da liderança católica no PT sempre foram de um autoritarismo e dogmatismo tremendos. Alguns, como Luiz Dulci, frequentemente chegaram às raias do anti-comunismo puro e simples.

Dourivan, gostei muito da sua caracterização da "teologia da libertação dos incréus" e acho interessante a sua resignação. Talvez você e o Gleiser estejam certos, quem serei eu para julgar. Sabe o que tenho notado? Que o entusiasmo pelo livro do Dawkins é maior entre os cientistas ateus, menor entre os humanistas ateus. Quiçá porque esteja mais forte entre os cientistas a idéia de que as coisas evoluem através de um paulatino desvendamento da verdade, crença que os profissionais das ciências humanas tendemos a ver com um pouco mais de ceticismo.

Talvez a grande discussão do nosso tempo nao seja entre ateus e deistas, mas entre humanistas e cientistas.

Idelber em abril 10, 2007 2:50 AM


#9

Muito boa resenha.

Vou elaborar mais minhas idéias a respeito, mas por enquanto tenho a dizer o seguinte:

a) Tenho profundas reservas quanto à segunda frase que encima o post: "Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo" (a qual, suspeito, é uma tradução feita por você de um trecho do livro do Dawkins). Na minha opinião, cada vez mais fortificada por leituras no decorrer dos anos e dos embates com deístas, esta descrição do modo de agir do pensamento religioso é muito incompleta: ela parte de uma convicção iluminista muito errônea, qual seja, a de que é possível compreender o mundo em sua totalidade pela Razão, e sua reflexão especular, qual seja, a de que ao substituir a Razão pela Fé a religião abandonaria a compreensão pelo obscurantismo. O fato, porém, é que é a própria religião que é na verdade uma tentativa de compreender o mundo, e uma tentativa assaz pretensiosa, pois julga que fomos feitos à imagem de Deus e, como Deus foi quem fez o mundo, temos o poder de conhecer o mundo. Essa idéia pode ser traçada de Descartes a Platão. Por outro lado, uma consequencia pouco explorada do darwinismo é a de que é perfeitamente compreensível que em algum momento os humanos se depararão com uma barreira impenetrável ao seu entendimento: afinal, nossa inteligência é apenas uma ferramenta, selecionada porque tem valor adaptativo aqui na Terra, o planeta na qual nossa espécie se originou e desenvolveu. Nada garante, porém, que esse ferramenta tenha capacidade de funcionar no desvendamento de fenômenos que ocorrem em escalas de tempo e tamanho tremendamente distantes daquelas que encontramos em nosso planeta. A ciência, após o darwinismo, tem que ser considerada um empreendimento bastante mais humilde: a pretensão à totalidade é que está nas mãos da religião.

b) Eu ainda não li o livro, mas do que andei ouvindo falar, reafirmo o que já disse em outras plagas: Dawkins não é o homem para oferecer respostas filosóficas sobre o fenômeno religioso; acho Dennet muito mais adequado para isso. De qualquer forma, o estudo da religião a partir da teoria da evolução e da psicologia evolucionária já é um campo bem estabelecido. Para quem quiser ler uma excelente introdução a essa visão crítica, sugiro o livro "Religion Explained", do Pascal Boyer.

c) Gostei dessa frase:

"Ninguém questionaria o direito de qualquer cidadão declarar que o marxismo ou o liberalismo são idéias imbecis, mas qualquer ataque à religião nesses termos é imediatamente qualificado como um desrespeitoso."

Em minha humilde opinião está mais do que na hora de guindar o marxismo à qualidade de religião. :)

Hermenauta em abril 10, 2007 12:54 PM


#10

Parfait, Hermê. As epígrafes são, sim, de Dawkins, mas as traduções não são minhas. Coloquei lá o link para a fonte, que tinha ficado escondida no final do post.

Valeu a sugestão do livro do Boyer. Vou procurar sim :-)

Idelber em abril 10, 2007 4:10 PM


#11

Mas é claro que não existem provas da existência de Deus. Se existissem, acreditar em Deus não seria uma questão de fé, e sim de lógica.

Ou por acaso vocês não conhecem o famoso "Babel fish Argument"?

PS: Sim, eu acredito Nele. Afinal, o "Babel Fish" não existe. :)

Ricardo Antunes da Costa em abril 10, 2007 6:43 PM


#12

Provas de deus existem, o problema é que elas só funcionam para quem têm fé. Quem acredita lê Descartes, por exemplo, e diz: não falei, não falei, fazendo uma dancinha. Pra quem não acredita, é só um ah, então tá.

Aliás esse é meu argumento para duvidar quem é ateu por uma crança enorme. Eu desconfio muto de quem prega contra deus como uma profissão de fé. Quem tem fé acredita no que quer, basicamente. Se você precisa de fé pra não acreditar, é um ótimo argumento a favor da existência de deus, não?

Ah, claro, eu sou agnóstica;)

Juliana em abril 10, 2007 8:55 PM


#13

Ex-ce-len-te até não mais poder o que escreveu a respeito . Mais que uma resenha é um diálogo com o texto, ou com algumas partes da es~encia do texto.
E acho que eu, hoje, já não diria mais, como a Juliana:-) que sou agnóstica, mesmo que com o indefectível smiley no final.;-)
O que me impressiona é o quanto são "comprehensive" o livro e seus argumentos.
Hu-mi-lhan-te!
===
Quanto ao Clube da Leitura, Idelber, eu queria, não sei se poderia, sugerir algo que parece simples e reducionista (realismo mágico ou fantástico) mas algum ou alguns contos de Murilo Rubião.
O que acha?
bj
Meg

Meg (Sub Rosa) em abril 10, 2007 11:51 PM


#14

Murilo Rubião seria fantástico, um luxo.

Mas faz mais de uma década que não leio, shame on me.

Então eu topo, mas com uma condição: Meg e Milton me ajudam a pilotar. Que tal ?

Idelber em abril 11, 2007 12:12 AM


#15

Juliana, acho que não se precisa de fé para não se acreditar. Precisa de razão, apenas. Ou seja, está acessível a qualquer indivíduo da espécie Homo sapiens. A escolha é de cada um.

Lucia Malla em abril 11, 2007 1:26 AM


#16

Lúcia, eu acho isso muita arrogância. E eu nem tenho fé alguma.

Juliana em abril 11, 2007 3:42 AM


#17

Não acho q seja arrogância. Acho que vc infelizmente não leu minha colocação com o tom que eu imaginei ao escrever. Desculpa se soou arrogante, mas não era pra ser. Vou tentar colocar de forma menos sucinta e mais explicativa.

Acho q poder escolher entre fé e razão é muito mais uma demonstração do livre arbítrio que cada um possui. Porque a escolha entre fé e razão não é excludente em minha opinião - embora para Dawkins o seja. Uma pessoa pode escolher por ambas em diferentes âmbitos de sua vida - é somente ela, pessoa, quem decide isso. O problema que o livro do Dawkins discorre (e que eu particularmente concordo) é quando você insere a fé sobre a ciência, que é uma parte do conhecimento onde a razão deveria sempre prevalecer. Não acreditar, na ciência, é fundamental para seu desenvolvimento. Vc precisa de fatos, hipóteses, evidências, não de achismo. Quando a fé interfere nesse movimento da ciência, aí realmente é necessário ficarmos atentos.

Lucia Malla em abril 11, 2007 9:52 AM


#18

Esse artigo do Daily Telegraph resume perfeitamente minha opinião sobre o assunto ;)

André Kenji em abril 11, 2007 7:16 PM


#19

O comentário acima, do André, tinha sido postado umas 24 horas atrás e foi acidentalmente apagado. O Biscoito anda recebendo enormes quantidades de spam e o comentário dele, por causa da presença de um link, foi lido como spam. Comentário restaurado, então :-)

Idelber em abril 11, 2007 7:18 PM


#20

It seems that atheists suffer from the same problem as gnostics. Most of the terminology that refers to their beliefs make them some aberration from the "norm." A-theists, un-believers, a-gnostics, a-religious. Perhaps a new term is in order to refer to atheists without the oppositional moniker.

A diferencia de lo que dijo Dawkins, George W. Bush no debe creer que va a ir directamente al cielo cuando se muere. Un "buen cristiano" debe estar preocupado siempre de las consecuencias de sus acciones. Lastimadamente, muchos cristianos creen que parte de ser buen cristiano es condenar a los demas, es insistir en que su forma de adorar y ser moral sea la unica. Es como si nadie actualmente leyera las escrituras hoy dia. Es una lastima. La doctrina de Cristo es bastante racional, amar a su projimo como a si mismo es muy buen consejo, no importa sus creencias. The problem is that so few truly live this counsel.

Me gustaria leer el libro de Dawkins.

Mac Williams em abril 12, 2007 2:29 AM


#21

Mac: for a while the attempt was made to get people to refer to non-believers as "brights", instead of "atheists". The idea was to follow what homossexuals had done to the word "gay". It didn't catch on, though. I guess it sounded too pretentious.

I'll put the Dawkins book in your box tomorrow. But don't tell your dad ;->

Idelber em abril 12, 2007 3:18 AM


#22

“E assim nós, ... através de rodeios, descobrimos nossa direção.”
“quais as provas que você tem daquilo que está dizendo” ?

Uau! Dawkins faz isso. Aliás, todos que usam hipérboles em seus argumentos fazem sucesso: vide Nietzsche e Voltaire (!). Parabéns pelo post.

Eu como já fui católico, protestante, ateu ortodoxo muito mais chato que o Dawkins acho que devo opinar sobre o assunto. Se me permite:

1. Sim, mestre Idelber, Dawkins é intolerante. E nesse ponto se assemelha ao Bin Laden e ao Bush. Sua intolerância está em se negar a perceber os benefícios (sim, eles existem) da Religião ao exacerbar as (boas, utilíssimas) características da Ciência.

2. O que Dawkins faz é propor a substituição de um fundamentalismo por outro de base científica. Sua defesa da Ciência é algo quase religioso, eu diria. Ninguém é obrigado a acreditar que na evolução da espécie humana exista um “gap” de quase 400 mil anos sem explicação científica. Ou que o universo é composto de microcordas que vibram em dez (ou mais) dimensões. Ou que mais de 95% do universo “conhecido” seja absolutamente “desconhecido” para a ciência moderna (que aliás é péssima em nomes, como o que designa esta grandiosa ignorância cósmica: “matéria escura”. E mesmo em nomes como glúons, múons, quarks, bósons, mésons que são, no mínimo, risíveis). Ou seja: não se pode querer que alguém seja obrigado a acreditar que a ciência, mesmo com todos os avanços, pouco compreenda do mundo e que tão poucas respostas nos forneça (e estas respostas todas baseadas em “teorias”). A própria Ciência tem mecanismos maravilhosos para “lembrar” da sua incompletude, como dizia o (esse sim!) grande Carl Sagan. Um deles é a “margem de erro”. O outro são as teorias. Não importa a quantidade de vezes em que a teoria foi aplicada na prática com sucesso. Basta uma ou duas vezes em que ela (a teoria) falhe para que se duvide dela eternamente (ou até ser desenvolvida uma nova teoria). Dawkins e a maioria dos deístas esquecem isso.

3. Dawkins e a maioria dos deístas parecem querer negar o que a Ciência de fato é. A Ciência, assim como a Religião e a Filosofia são formas para se tentar entender o mundo e o milagre (científico ou não) que é a vida. E vistos assim são apenas tentativas incompletas de se atingir tal conhecimento. É isso mesmo, a Ciência não é a palavra final sobre a natureza, está, infelizmente, para nós e para ela mesma, grandiosamente incompleta (e essa é a sua essência – a incompletude). Ela é apenas, e tão somente, o conhecimento que temos dos fenômenos da natureza (e do homem ou das sociedades, enfim) em uma determinada ÉPOCA. Provas disso: ok, vamos lá – A lobotomia já foi considerada ciência séria e vanguardista premiando inclusive seu “descobridor” (um português!) com o prêmio Nobel. É isso mesmo. NAQUELA ÉPOCA isso (perfurar os lobos de alguém) era considerado ciência. Hoje é quase curandeirismo. Os amantes da Ciência (eu incluso) não podemos esquecer isso. A Ciência não é um conhecimento completo e final sobre o universo. Qualquer um que estude um pouquinho de Astronomia sabe que existem muito mais dúvidas do que certezas. Se o camarada não quer aceitar as teorias científicas, bem, isso é problema única e exclusivamente dele. Daí a achar que essa pessoa pode ser contrária à busca da verdade, violenta e uma ameaça ao conhecimento, bem, além de uma simplificação enorme é um “pré-conceito” brutal. Não é porque existe os fundamentalistas Bin Laden de um lado e o sr. Dawkins de outro que eu necessariamente despreze a Religião ou a Ciência.

4. Junto com a lobotomia existem milhões de exemplos. A idéia do éter foi um deles. Já foi ciência, hoje é motivo de piada (e lembrar, que até Einstein inferiu o éter em suas equações dá uma idéia de como a Ciência pode ser, por vezes, uma arapuca). O conceito de raças também já foi ciência (e isso levou aos etnocídios conhecidos). Enfim, Não é porque a neurologia e a psiquiatria já se utilizaram da leucotomia que eu hoje, se precisar, não irei a um neurologista. “A virtude está no meio”.

5. Dawkins só faz sucesso porque é um radical, professor. Talvez o livro dele não contenha esse radicalismo, mas em suas entrevistas mundo afora nota-se um desconforto grande dele com a Religião e com os religiosos em geral. Isto, a meu ver, não é ÊNFASE. Eu entendo o ponto de vista dele. Só não acho que a religião hoje possa ser generalizada por pessoas como o Bin Laden, os padres pedófilos, os pastores protestantes corruptos ou os budistas sedentos por poder (Assim como a Ciência não pode ser generalizada por sujeitos como Dawkins). Isto, em minha opinião, é um erro. Se um crente pode ouvir Dawkins e discordar, Dawkins pode ouvir um crente e discordar também. O que nenhum pode é obrigar o outro a aceitar dogmas que vão contra a própria natureza de cada um.

6. “Por outro lado, há montanhas de evidências correlacionando o ateísmo a níveis mais altos de informação, preparação científica e QI”. Bom, aí escorregamos para os achismos. Perdoe-me discordar professor. Conheço religiosos tão ou mais “informados”, “preparados cientificamente” e com “alto QI” do que “cientistas” e “pseudo-cientistas”. Posso daí generalizar? Não. A Ciência me ensina que devo fazer diferente. Sim, desconfio, apenas desconfio que os ateus sejam “mais informados”, “mais preparados cientificamente”, “com QI maior” do que a grande maioria dos crentes. Mas, o que isso me diz, assim “cientificamente”? Nada. São pessoas melhores por ter esse conhecimento? Em minha opinião, não. São apenas pessoas diferentes, como o senhor e eu professor e como eu e Dawkins (Graças a Deus!).

7. “a ciência da evolução já nos forneceu os mecanismos para entender como a complexidade surge da simplicidade”. Já? A quem? E os quase vários mil anos da evolução humana sem explicação científica? E as muitas outras inconsistências da teoria da evolução? E as muitas outras perguntas sem resposta? Isso invalida a [que doce e esquecida palavra] “teoria” da evolução? A meu ver, não. Da mesma forma como as muitas evidências que a sustentam ainda não a tenham tornado uma LEI científica. É sutil a diferença de LEI para TEORIA. Sutil, mas absolutamente crítica no contexto desta discussão.

8. Entre razão e fé, escolho as duas. Não acho que sejam excludentes, mas complementares. Fides et ratio. O mundo precisa de mais razão e mais fé e não menos das duas, que é o que temos acompanhado. De fé!!!! Sim, de fé, afinal para acreditar em algumas teorias científicas contemporâneas só tendo muita fé mesmo...

É claro que eu posso estar errado, ...,
... ou não. Acredita quem quiser.

P. S.: O Design inteligente é tão inconsistente que não merece nem nota.

Abs. e mil perdões pela enormidade do comentário.

Ed em abril 12, 2007 7:48 PM


#23

Como é gostoso discordar....
Viva as diferenças. Só há uma coisa em que sou absolutamente intolerante: com a própria intolerância.

Abs.

Ed em abril 12, 2007 7:50 PM


#24

Caríssimo Ed, fique à vontade para escrever sempre o quanto quiser. Tenho só duas observações.

1. Acho que quando você diz "deísta" está querendo dizer "ateu", correto? A expressão "Dawkins e a maioria dos deístas" não faz muito sentido. "Deísmo", segundo o Aurélio, é a "doutrina que considera a razão como a única via capaz de nos assegurar da existência de Deus, rejeitando, para tal fim, o ensinamento ou a prática de qualquer religião organizada". Dawkins rejeita a religião, mas nem de longe propõe Deus como objeto de estudo da razão, ou algo a que se chegue via razão. Dawkins é ateu de carteirinha mesmo. Para Dawkins a razão, levada às últimas consequências, dá no ateísmo.

2. “Por outro lado, há montanhas de evidências correlacionando o ateísmo a níveis mais altos de informação, preparação científica e QI”. Bom, aí escorregamos para os achismos.. Eu não uso o termo "montanhas de evidências" de forma casual, Ed . Não é achismo, e isso não implica, claro, que você não conheça religiosos inteligentes e cultos. A relação aqui apontada está amplamente documentada em pesquisas. Pode ser que você não as conheça, mas elas existem. Das centenas de cientistas que ganharam o Prêmio Nobel, só dois se declaram cristãos (menos de 1%), sendo que um deles confessa que freqüenta a igreja por razões sociais. Um estudo sistemático conduzido por Beit-Hallahmi e M. Argyle - The Psychology of Religious Behaviour, Belief, and Experience (Londres: Routledge, 1997) - conclui que o "entre os laureados do Nobel nas ciências, assim como na literatura, há um notável grau de irreligiosidade, comparado às populações de onde eles vieram" (tradução minha). Um estudo publicado por Larson e Witham na prestigiosa revista científica Nature estabeleceu que entre os cientistas respeitados o suficiente para serem eleitos para a National Academy of Sciences, só 7% acreditavam em Deus, contra mais de 90% na população americana em geral. Os membros da Royal Society (o equivalente britânico e da Commonwealth da Academia de Ciências Americana) também foram pesquisados: 213 ateus e 12 crentes. Michael Shermer, no livro How we believe: The Search for God in an Age of Science pesquisou amostras de adultos norte-americanos e todas as pesquisas conduzidas demonstraram correlação entre religiosidade e nível educacional baixo. A revista da sociedade dos indivíduos com QI alto (a Mensa) já publicou, desde 1927, 43 estudos sobre a relação entre religiosidade e QI. Praticamente todos os estudos (39) demonstraram relação proporcionalmente inversa entre os dois.

Achismo? Ou amplamente documentada relação?

Idelber em abril 12, 2007 9:02 PM


#25

Ed,

Gostaria de fazer um comentário restrito ao seu ponto #7.

Não sei bem qual a real posição do Idelber, mas em geral quem tem uma visão um pouco mais popperiana sobre o progresso científico não se abala com a idéia de que teorias não podem ser categoricamente provadas. No entanto, a frase em questão _ “a ciência da evolução já nos forneceu os mecanismos para entender como a complexidade surge da simplicidade” _ não me parece ter a força de uma comprovação. Que ela já forneceu esses mecanismos, é meio evidente _ acompanhe por exemplo o trabalho do pessoal que mexe com algoritmos genéticos, por exemplo. Por outro lado, é bastante errôneo falar em "tantos mil anos de evolução humana sem explicação científica". Não há dentro da comunidade científica muita duvida sobre a ação da evolução sobre a espécie humana. Outra coisa completamente diferente é o árduo trabalho de traçar toda a linhagem que levou dos primatas primitivos aos humanos atuais: esse é um caminho que talvez nunca seja satisfatoriamente conhecido e documentado com fósseis, devido, justamente, ao caráter necessariamente fortuito e dependente da sorte das descobertas arqueológicas.

Hermenauta em abril 13, 2007 2:49 AM


#26

Ed, o Hermenauta já disse mais ou menos o que eu ia dizer: do ponto de vista científico, não tem o menor sentido falar de "tantos mil anos de evolução humana sem explicação científica". Não há a menor dúvida, o menor debate, a menor discrepância dentro da comunidade científica sobre o fato de que a evolução é o processo que explica diacronicamente o estado atual dos seres vivos. É óbvio que há - e sempre haverá, como aponta o Hermê - intervalos entre a documentação fóssil existente, mas isso não quer dizer que o princípio da evolução, em si, não esteja exaustivamente provado e documentado. Se você conhece "inconsistências" na lei da evolução, bem, o Acre deve se preparar para receber seu primeiro prêmio Nobel, porque na comunidade científica do mundo todo a lei da evolução é consensualmente aceita, graças às massas gigantescas de provas colocadas sobre a mesa no último século e meio.

Colocar em dúvida a evolução com o argumento de que houve uma época em que os procedimentos X ou Y eram considerados científicos e hoje não o são é de pouca monta. A ciência não funciona com base a analogias dessa natureza, e sim na análise da evidência disponível. Lembremos: o teorema pitagórico e as leis de Newton também são bem antigos, e se sustentam até hoje.

Por isso não concordo com os que chamam Dawkins de "fundamentalista da ciência". O fundamentalista não examina argumentos contrários, não observa as provas colocadas sobre a mesa. Não se pode confundir paixão e entusiasmo pela ciência com fundamentalismo.

Idelber em abril 13, 2007 2:18 PM


#27

Interessante. Quando eu tive aula de Evolução na faculdade, a primeira coisa que foi frisada pelo professor foi: "Evolução é. Ponto final." É um fato, ela existe, não há discordância alguma no conceito geral. Chama-se (erroneamente a meu ver) de "teoria" apenas por questões semânticas. A Evolução já é uma "lei" biológica, assim como a gravidade é uma lei física. Os cálculos evolutivos (assim como os gravitacionais, de novo exemplificando) já levam em conta esse fato - não se discute. O que se discute no campo da Evolução - e há uma diferença entre evolução (o processo) e o campo que estuda esses processos de forma anatômica, ecolôgica, etc, também chamado de Evolução - são esses buracos que a ciência teoriza (porque os cientistas, esse grupo humano que busca insaciavelmente saber mais sobre como a vida e suas relações funcionam, querem tapar todos os buracos possíveis de qualquer assunto, esmiuçar ao máximo). Idelber e o Hermenauta explicaram muito bem. Não se discute o processo em si, pq ele já está mais que solidamente analisado, comprovado, etc.

Tudo que veio depois de Darwin em matéria de estudos evolutivos (Gould e cia. ltda.), foi apenas para complementar. As leis de Darwin não foram "refutadas" desde então, apenas enriquecidas, com mais detalhes e sutilezas interessantes.

Lucia Malla em abril 13, 2007 5:22 PM


#28

Evolução não é "ciência" (no conceito mais popperiano possível de c