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segunda-feira, 02 de abril 2007

Agora vai

cigarettes.jpgAquele que é atualmente o meu blog brasileiro favorito, o Contemporânea, publicou um post recomendando “O Último Cigarro”, novela recente de Henri-Pierre Jeudy publicada aí no Brasil pela Editora Sulina. O post da Carla veio bem a calhar porque esta é a semana em que vou ganhar essa batalha; estou convicto.

Não sei se vou reviver a Fenomenologia da Fumaça aqui no blog, porque afinal de contas quem já traiu o apoio dos leitores uma vez (até um leitor de direita que me enviava “hate mail” tinha vindo se solidarizar), não tenho cara-de-pau de pedir ajuda aqui de novo. Mas enfim, aos 38 anos de idade, 23 de fumante, filho de pai morto de câncer aos 59, a hora é agora. Sim, Biajoni, Rafael, Nelson, Renata: abandoná-los-ei. Sem virar um ex-fumante chato, obviamente.

Aproveitei o ensejo para revisitar um dos meus livros favoritos. Se você entende inglês, leitor (fumante ou não), adquira em algum momento essa obra-prima: Cigarettes are Sublime, de Richard Klein. É a melhor resposta para quem diz que a crítica literária não anda produzindo nada de interessante.

A história de Richard é incrível: ele havia chegado ao topo da profissão de professor universitário sem jamais escrever um livro. Construiu sua reputação escrevendo artigos, fundando revistas, organizando antologias e dando palestras pelo mundo. Chegou a professor titular de literatura francesa em Cornell University, uma das universidades mais prestigiosas dos EUA. Fundou diacritics, a revista que foi o ó do borogodó em teoria literária nas décadas de 80 e 90. Mas nunca havia escrito um livro.

Até que a pressão se tornou insustentável: Richard, você tem que escrever um livro. Ele aproveitou a luta contra o cigarro e produziu um belíssimo tratado sobre a mortalidade, alinhavado por uma análise do papel do tabaco na cultura ocidental, uma leitura de seu lugar no cinema de Hollywood, uma avaliação do seu estatuto simbólico no existencialismo e uma interpretação daquele que é o grande romance moderno sobre o último cigarro, A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Traduzo do livro de Richard:

Fumar cigarros está permanentemente associado à idéia de suspender a passagem do tempo ordinário e instituir um outro, mais penetrante, em condições de resignação e indiferença luxuriosa, pelas quais a sensibilidade poética sente irresistível atração (p. 8)

A introdução do tabaco na Europa do século XVI correspondeu à chegada da Era da Ansiedade, o começo da consciência moderna que acompanhou a invenção e a universalização dos livros impressos, a descoberta do Novo Mundo, o desenvolvimento dos métodos científicos, racionais e a conseqüente perda das certezas teológicas medievais (p.27)

O cigarro encontra condições propícias em tempos de crises políticas ou tensão social. No entanto, somente no Segundo Império Luis Napoleão, um usuário compulsivo de todos os tipos de tabaco e homem de cinqüenta cigarros por dia, legitimou o seu uso pela aristocracia. James B. Duke e sua máquina depois o tornariam democrático (p.41)

Até hoje, em muitos países, qualquer um, de qualquer classe, pode solicitar fogo a qualquer outro, e o pedido de um cigarro nunca é recusado. . . O mais miserável mendigo tem direito de pedir fogo ao rei, e ele não poderá recusar (p.86).

O paradoxo de Zeno explica o delicioso gosto que tem, depois que você começou a parar, aquele cigarro que você fuma para provar que é livre para fumar sem se viciar de novo
(p. 98)

No prefácio, Richard explicava porque a escrita desse livro havia sido decisiva para sua vitória definitiva contra o cigarro. Se há algo que qualquer fumante ou ex-fumante sabe, é que não há receita universal: cada um tem o seu método. O de Richard foi fazer uma análise minuciosa do cigarro em suas dimensões literária, histórica, cinematográfica. O prefácio é eufórico. Exala um odor de missão cumprida. O livro foi um sucesso estrondoso e é até hoje o volume mais vendido de todo o catálogo da prestigiosa editora universitária de Duke.

Dois anos depois, estive com Richard e lhe dei os parabéns. Ele abriu um sorriso, agradeceu, enfiou a mão no bolso, tirou um cigarro e acendeu. Havia voltado a fumar.

O que não acontecerá com este blogueiro.

Atualização: Extra! Extra! Existe edição brasileira do livro de Klein: Cigarros são sublimes, publicado pela editora Rocco (valeu, Bruno!)



  Escrito por Idelber às 07:05 | link para este post | Comentários (20)


Comentários

#1

idelber, fumei dos 22 aos 30, parei 8 anos, fumei mais 8 anos, e parei... ou achei que tinha parado. tive algumas recaídas que duraram 1 ano cada, nas quais voltava a ser a louca por cigarro, aquela que aborda desconhecidos, que cata bagana no lixo, que lembra que jogou um dentro do violao, enfim, aquele inferno. hoje parei.eu dizia que, se soubesse que ia morrer dentro de 10 anos, voltaria a fumar. nao é improvável que nao morra daqui a 10 anos, mas estou convencida de que, se voltar a fumar, passarei apertos por conta do cigarro. nao vou dar essa chance ao azar. te desejo o maior sucesso no propósito. conte com minha torcida. abraço.

vera em abril 2, 2007 8:02 AM


#2

Idelber,
Estou torcendo por você. Eu sei, todos sabem que não é uma batalha fácil mas com força de vontade você consegue. Um beijo,
Hélia.

Hélia em abril 2, 2007 9:34 AM


#3

Idelber, tem um ano e meio que eu parei. Nem preciso dizer que a vontade ainda é grande mas que a gente se acostuma né? Um livro que me ajudou, embora não seja romance é Cigarro um adeus possível, do Flávio Gikovate. Tem uma abordagem diferente sobre o processo de parar de fumar, foi muito interessante ler. Boa sorte.

Nalu em abril 2, 2007 10:06 AM


#4

Concordo com a qualidade do Contemporânea. No início achei que fosse ser blog de mulher, felizmente eu estava enganado.

Quanto ao cigarro, boa sorte. Felizmente não sei o que se passa para largar o fumo pq nunca fui fumante.

Bender em abril 2, 2007 10:07 AM


#5

Tenho 30 e fumo desde os 15. Tentei parar duas vezes. Na primeira passei 6 meses sem fumar e não senti falta. Na segunda passei 4 meses e também não tive crises de abstinência. Nas duas oportunidades, voltei a fumar pelas razões de Richard Klein. A falta que sinto do cigarro é antes espiritual que física. Compartilho do que disse Quintana: "Não confio em quem não fuma; estes não têm alma, não têm vida interior. Porque fumar é um modo disfarçado de suspirar".

Idelber, eu acho que "Cigarros São Sublimes" já teve uma edição brasileira. Cheguei a ter o livro em mãos, há alguns anos, e me lembro de ter lido em português.

Abração!

Bruno Ribeiro em abril 2, 2007 10:13 AM


#6

Eu fumava desde os 13 anos, parei para ter minha filha, fiquei 8 anos sem fumar, depois voltei durante alguns meses, mas aí fiquei tão ruim de tosse e muco e falta de energia, que tive que parar de novo. E tenho que confessar: só de ler esses trechinhos que você traduziu do Richard klein, minha boca já saliva de vontade de um cigarrinho. Êta desgraça de vício bom do cão. :-P

Ju Sampaio em abril 2, 2007 11:13 AM


#7

Fumei poucos anos, achava e acho gostoso.
Parei o dia que soube que estava grávida, há 15 anos. Não voltei e nunca senti vontade.
Melhor assim.;0)

Vivien em abril 2, 2007 11:32 AM


#8

Não freqüento mais este blog se voltar a acontecer.Estou torcendo por vc.
gd ab

JULIO CESAR CORREA em abril 2, 2007 12:06 PM


#9

Boa sorte, meu caro.

Mas passei por aqui mais para te dizer que li há poucos dias o "Alegorias da Derrota" e adorei. Vou usar com meus alunos de relações internacionais, porque várias das suas análises são muito interessantes para discutir política latino-americana.

Abraços

Mauricio Santoro em abril 2, 2007 2:45 PM


#10

Olha, Idelber, ouvi dizer que para a indústria tabagista só se é ex-fumante depois de ficar 10 anos sem fumar. Acho que você estaria em alguma classificação tipo potencial-futuro-ex-fumante. Mas força aí!

Márcia W. em abril 2, 2007 3:07 PM


#11

Boa sorte, trotskista. Você vai conseguir.

Rafael em abril 2, 2007 5:31 PM


#12

Idelber,

nesse mês de abril completo 5 anos sem fumar. Posso te afirmar, vale a pena, e muito!

Por experiência própria: o nível de sua convicção é uma arma muito, mas muito potente nessa batalha.

Quando estamos assim, "radicalmente convictos", é muito difícil perder para um simpls cigarro...

Boa sorte!

Umberto

umberto em abril 2, 2007 5:33 PM


#13

Vai sim. Boa sorte.

O Ao Mirante fuma? Não lembro. E olha que passei muitas horas com ele...

Abraço.

Milton Ribeiro em abril 2, 2007 6:13 PM


#14

Vou conferir o livro. Boa sorte com o projeto de parar de fumar. Abraco.

Leticia Marteleto em abril 2, 2007 11:21 PM


#15

Obrigado pela força :-)

Milton, o Almirante fuma Carltons, não é?

O que será um "blog de mulher"?

Idelber em abril 3, 2007 5:45 AM


#16

o bruno chegou antes, ia dizer que tem o livro em português e é mesmo ótemo.
:>)
salvo melhor juízo (hehehe, só para fazer menção ao post acima) o quarteto citado aí fuma Carltons e isso deve significar algo.
;>)
força na batalha. eu reduzi drasticamente meus CANUDOS depois que lia nasceu. estou fumando uns dois ou três cigarros por dia.

avante, neném.
:>*

Biajoni em abril 3, 2007 10:13 AM


#17

opa
bom renascimento!
porque a tarefa é essa: se libertar de um você que você não quer mais e construir algo novo, em outro lugar, né.

e não olha pra trás, senão vira estátua de sal!

a vontade vive no agora,
muita força aí.

abs
:)

daniel em abril 8, 2007 3:18 AM


#18

Cliquei quase por acaso no link "Fenomenologia da Fumaça" lá no meu blog, assim como por acaso às vezes também penso em parar, e recebo esta grande notícia com meses de atraso. E depois de 4 meses, como andam (ou não andam) as baforadas?

Tabac em agosto 15, 2007 3:43 PM


#19

Estava lendo hoje seu blog e fiquei curiosa, você dizia "agora vai!". E aí, foi?
Espero que tenha conseguido largar o cigarro e já esteja se sentindo melhor!
Abs
Mônica

Mônica em novembro 22, 2007 11:04 AM


#20

Não sei como fui parar aqui no seu pedacinho de internet, mas curti bastante seus textos sobre o racismo e agora sobre a dependencia ao tabaco. Parei de fumar há 4 anos. Depois de 10 anos tabagistas, numa noite quente com minha namorada, disse a ela na cama durante o cigarro pós sexo: "Este é o último maço que eu comprei, vou parar com esta porcaria aqui". Ela duvidou e assim aconteceu, decidi que seria o último maço e o maço acabou. Nunca mais tive vontade. Guardei o dinheiro do cigarro e juntei mais um pouco com o da gasolina e comprei uma bicicleta, daquelas MTB simples, sem muitos acessórios. Cara, uma das melhores aquisições que eu fiz. Meus pulmões são outros, tenho mais pique, mais disposição, o sabor dos alimentos "voltaram" e o pigarro sumiu. Só me arrependi de não ter parado antes. E nem foi tão doloroso assim, a galera fumante gosta de falar que é sofrível, insuportável, angustiante, impraticável, fazem o maior terror e outras coisas do gênero sobre por um fim no tabagismo. E outra a bike me leva a lugares que nem propaganda de cigarro na TV leva.

Força aí!

Dridri Brown em outubro 29, 2008 1:24 PM