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quarta-feira, 04 de abril 2007

Os 100 melhores romances em língua espanhola dos últimos 25 anos

bolaño.jpg
O maldito canonizado: Roberto Bolaño emplacou 3 romances entre os 100 melhores do mundo hispânico no último quarto de século.

A revista colombiana Semana recentemente jogou lenha na fogueira das discussões literárias hispano-americanas ao reunir 81 críticos, jornalistas e escritores para eleger os 100 melhores romances em língua espanhola dos últimos 25 anos. Como sempre no caso dessas listas, o único interesse é brincar, comparar gostos e descobrir novos títulos. Jamais se chegará, claro, a nenhum acordo nem mesmo sobre o que constitui um grande romance. A lista dos 25 primeiros colocados, com as respectivas sinopses, encontra-se aqui. As 75 obras seguintes, acompanhadas só do nome do autor, país de origem e data de publicação, estão aqui.

Quatro escritores foram recordistas de citações, com três obras cada: o colombiano García Márquez, o espanhol Javier Marías e, surpreendentemente para quem conhece o tradicional predomínio da poesia sobre a prosa no país, os chilenos Diamela Eltit e Roberto Bolaño. Este último, inclusive, emplacou seus três romances entre os 15 primeiros, dois deles no top 5 – prova definitiva da rápida canonização desse insólito e talentoso escritor que, até poucos anos antes de sua morte em 2003, permanecia quase desconhecido até entre seus compatriotas.

Os 15 primeros colocados foram:

1. El amor en los tiempos del cólera. Gabriel García Márquez.
2. La fiesta del Chivo. Mario Vargas Llosa.
3. Los detectives salvajes. Roberto Bolaño.
4. 2666. Roberto Bolaño (um inesquecível mega-romance, mais longo que Um defeito de cor, da Ana).
5. Noticias del imperio. Fernando del Paso.
6. Corazón tan blanco, Javier Marías
7. Bartleby y Compañía, Enrique Vila-Matas
8. Santa Evita, Tomás Eloy Martínez
9. Mañana en la batalla piensa en mí, Javier Marías
10. El desbarrancadero, Fernando Vallejo
11. La virgen de los sicarios, Fernando Vallejo
12. El entenado, Juan José Saer
13. Soldados de Salamina, Javier Cercas
14. Estrella distante, Roberto Bolaño
15. Paisaje después de la batalla, Juan Goytisolo.


diamela.jpg
Minha amiga Diamela Eltit ficou bem na fita e emplacou três romances: Lumpérica (58 lugar), El cuarto mundo (67) e Los vigilantes (100).

Tendo lido uns 80% dos romances listados na enquete e sendo fã incondicional de dezenas de outros que nela não entraram, dou meus pitacos. Quem sabe não há algum editor brasileiro atento por aí.

1. Entre os 25 primeiros, só 16 são latino-americanos, o que significa que a literatura espanhola está grosseiramente sobre-representada (são 34 romances ibéricos no total). O fato se explica, pelo menos parcialmente, pelos melhores canais de distribuição de que desfruta a literatura espanhola. Na Colômbia é bem mais fácil encontrar livros dos espanhóis Muñoz Molina e Enrique Vila Matas que dos argentinos Alan Pauls (que só emplacou uma entre as quatro obras primas que já publicou) e Sergio Chejfec (que nem foi lembrado), romancistas a meu ver muito superiores.

2. Considero o romance que ficou em 12 lugar, O enteado, de Juan José Saer, infinitamente melhor que aquele que acabou abiscoitando o primeiro, O Amor nos Tempos de Cólera, de García Márquez.

3. Dos 100 livros listados, só 23 são argentinos. O país, que há décadas produz a mais variada e rica prosa de ficção da língua espanhola, merecia umas 40 citações pelo menos. Alguns dos argentinos ausentes da lista do Semana que eu incluiria são: El vértice (Gustavo Ferreyra), Dos veces junio (Martín Kohan), Segundos afuera (Martín Kohan), El desamparo (Gustavo Ferreyra), El dock (Matilde Sánchez), El desierto y su semilla (Jorge Barón Biza), En breve cárcel (Sylvia Molloy), Montserrat (Daniel Link), Lenta biografía (Sergio Chejfec), Boca de lobo (Sergio Chejfec), El pudor del pornógrafo (Alan Pauls), Wasabi (Alan Pauls), Como me hice monja (César Aira), Santo (Juan José Becerra) e Cuerpo a cuerpo (David Viñas).

4. Arrisco-me a dizer que só não inclui La ciudad ausente, de Ricardo Piglia, entre os melhores dos últimos tempos quem não leu o livro. Se você não leu, largue este blog e vá comprá-lo. Existe em tradução (embora conste como esgotado no site da Livraria Cultura).

5. A escolha de La fiesta del chivo, de Vargas Llosa, como o segundo melhor romance hispânico do último quarto de século só pode ser piada. Eu não o incluiria nem entre os 100 melhores romances peruanos. Os mexicanos Carlos Fuentes e Angeles Mastretta, que emplacaram dois títulos cada um, tampouco entrariam na minha lista.

6. A ausência do mexicano Jorge Volpi – pelo menos de seu monumental En busca de Klingsor – é inaceitável.

7. A obra-prima El pasado, de Alan Pauls, que injustamente ficou em 31 lugar (merecia colocação melhor) sai em breve em tradução brasileira pela CosacNaify. Os leitores deste blog que decidirem encará-lo terão uma divertida surpresa lá pela página 300.

Para terminar, deixo duas perguntinhas para que vocês se entretenham na caixa de comentários:

a) Seria interessante saber quais desses romances estão disponíveis em português. Com certeza os de García Márquez e Vargas Llosa, por exemplo, são facilmente encontráveis aí no Brasil. Quais outros?

b) Que livros brasileiros você incluiria numa lista similar, ou seja, num cânone do que de melhor se publicou no romance tupiniquim desde a tragédia do Sarriá?



  Escrito por Idelber às 05:43 | link para este post | Comentários (26)


Comentários

#1

Sinto que o Brasil fica distanciado das listas justamente por causa da língua. O Português nos isola dentro do contexto latino americano.
No minha lista, entraria os brasileiros "Feliz Ano Novo" de Rubem Fonseca e "Mãos de Cavalo" de Daniel Galera.
Beijus

Luma em abril 4, 2007 7:51 AM


#2

"os detetives selvagens" está traduzido e foipublicado pela Comanhiadas Letras!

Maria Andréia em abril 4, 2007 8:34 AM


#3

Li somente uns poucos da lista, mas concordo que La fiesta del chivo, do Llosa, não entraria no meu top 10 de jeito nenhum. Idelber, lembra de uma pequena lista similar feita pelo "Estado de Minas"? Eles na época elegeram os 15 melhores. Veja só: http://odisseia2005.blogspot.com/2005/07/vale-pena-ler-literatura-brasileira.html

Leandro Oliveira em abril 4, 2007 9:54 AM


#4

Não entendo essa fixação com "Duas vezes junho". Eu achei ele bonzinho, e só. Me diverti muito mais lendo A Festa do Bode.

Bender em abril 4, 2007 11:07 AM


#5

pois eu tenho a sensação de que só eu não li ainda o Bolaño, que o Milton já me disse tantas vezes que preciso, preciso conferir.

e tenho que ler Piglia, também, senão a Olivia vai me dar castigo.

boto dois jovens e recentes na lista dos brazucas: O Paraíso é Bem Bacana, do André Sant'anna, e o Corpo Presente do JP Cuenca.

abraço! :-)

tiagón em abril 4, 2007 11:48 AM


#6

Fico felicíssimo por meu querido e amado Bolaño. Eis um escritor que adoro! Há dois livros traduzidos pela Cia das Letras: Noturno Chileno e o citado Os Detetives Selvagens.

Ele merece. Mesmo!

Milton Ribeiro em abril 4, 2007 11:52 AM


#7

Acho que passo por episódio Alzheimer-like:

- Qual o nome do autor de "Armadilha para Lamartine"? Esse é um deles.

- A trilogia de Fernando Monteiro - o terceiro ainda não saiu - e que começa com "O Grau Graumann" e "As Confissões de Lúcio".

- Nenhum Noll.

- "Dois Irmãos" do meu xará Hatoum.

- "O Homem Amoroso" de Luís A. de Assis Brasil e...

... pode ser que eu volte...

Abraço.

Milton Ribeiro em abril 4, 2007 12:04 PM


#8

Não li a grande maioria dos livros desta lista, mas estranhei que A Louca da Casa de Rosa Montero não tenha aparecido ali. Acho esse livro muito melhor que O vôo da Rainha, do Eloy Thomas Martinez, por exemplo.

Pra dar um palpite numa lista de livros brasileiros, eu colocaria Dois Irmãos do Milton Hatoum e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios do marçal Aquino.

Arnaldo em abril 4, 2007 2:08 PM


#9

Idelber,

Vou ser chato pra c*.

Assim, do jeito que você põe a lista dos livros e seus comentários sobre eles, fica uma coisa muito "argumento de autoridade". Tipo, ah, esse é o livro que o Idelber gosta, esse é o autor que o Idelber despreza, etc.

Seria legal se você mostrasse quais são seus critérios para fazer os julgamentos que fez. Isso permitiria que o eventual leitor "conversasse" mais com seu post e com suas opiniões sobre a lista. Principalmente no caso das pessoas que não leram nem um décimo dos livros ai citados, como é o meu caso (embora eu tenha algumas opiniões ab ovo, como por exemplo a de que é impossível dizer se a literatura da Espanha está super- ou sub- representada se a gente não conhece o número total de lançamentos literários na Espanha vis a vis o resto do mundo hispanohablante). É claro que você sempre poderia dizer que se meu caso é esse eu nem deveria estar lendo este post, quanto mais dando palpite nele. Porém, como disse, eu sou chato pra c*.

abçs

Hermenauta em abril 4, 2007 2:12 PM


#10

Caraca, Hermenauta, se para fazer este post eu já tive que ficar até as 6 da matina, imagine se eu fosse argumentar os critérios!

Mas eu entendo sua ponderação, fica tudo solto mesmo. E gosto de leitores chatos :-)

Idelber em abril 4, 2007 2:16 PM


#11

Sei lá, acho q li pouca literatura (os chamados clássicos). Mas gosto: é q durante um bom tempo tive de ler textos + teóricos, sabe? Me ocorreram só livros de poesia: "Melhores Poemas de Paulo Leminski" (1996) - é o q tenho dele e gosto muitíssimo - e "Trevo" (1988) da Orides Fontella. Muitos dos poemas de ambos foram escritos antes de 1982 (é essa a data inicial válida?), mas outros depois. Abraço. E adorei as indicações do post sobre literatura em língua espanhola. Daqueles só tinha lido o Garcia Marques.

Sibila em abril 4, 2007 2:32 PM


#12

caro idelber. sei que voce odeia vargas llosa porque ele não reza pela ultrapassada cartilha marxista que voce ainda defende. e a crise aérea, grande mestre? genial isso q li:

Lula, o que não aprende nada, discursou e prometeu mais recursos para a Aeronáutica, o que, no contexto, chegou a ser quase ofensivo. Porque é isto: ele acha que, no fim das contas, basta acenar com alguma grana, que as coisas voltam a seu lugar. É o que lhe ensina a sua experiência sindical; essa é a linguagem que fala a Nova Classe Social que está no poder. No fim das contas, ele não concebe que possa haver valores que o dinheiro e algumas prebendas não podem comprar.

quem escreveu essa verdade crisyalina? outro q voce não deve gostar. reinaldo azevedo

belchior em abril 4, 2007 3:06 PM


#13

15 bons romances brasileiros dos ultimos 15 anos (tive que googlar "saria") eu nao consigo dizer nao. se incluir antologias de contos, tem uma ou outra. se incluir obras em portugues de modo geral, aih lobo antunes, saramago e mia couto vao praticamente expulsar os brasileiros da lista... tah dificil...

alex castro em abril 4, 2007 4:32 PM


#14

E eu que achei que o único Roberto Bolaño(s) famoso era o Chaves.

Afonso Andrade em abril 4, 2007 4:45 PM


#15

Ops, corrija-se "me ocorreram por me ocorreu". Faço mtos erros mas pelo menos esse eu consegui perceber. BJ.

Sibila em abril 4, 2007 4:57 PM


#16

Idelber,
Acho que Dois Irmãos é, fácil, o melhor romance brasileiro publicado nos últimos 25 anos, mas a verdade é que eu não leio muita literatura brasileira recente. Um outro livro de que eu gosto bastante é Budapeste. Acho que muita gente tem bode dos livros do Chico Buarque porque não considera possível que um compositor de MPB consiga produzir literatura de qualidade. A questão é que ele consegue. Estorvo também é um livro subestimado
Um abraço,
Marcos

Marcos Matamoros em abril 4, 2007 5:09 PM


#17

Também gosto muito do Dois Irmãos, Marcos. Estaria com certeza na minha lista. E os três romances do Chico também.

A lista que o Leandro linkou é muito boa. Eu teria coisas a acrescentar, mas praticamente nenhuma a excluir. É um bom antídoto ao pessimismo do Alex.

Idelber em abril 4, 2007 6:27 PM


#18

Milton, o autor de Armadilha para Lamartine é Carlos Sussekind. Só que o livro é de 1976, se não me engano.

Você se lembra, Milton, que nosso primeiro contato foi através de um comentário meu a um post seu sobre Bolaño?

Idelber em abril 4, 2007 6:31 PM


#19

Ser informado sobre as mais variadas listas é coisa que o cidadão do século XXI não poderá mais se furtar. Mas cá entre nós caro Idelber, nada mais neo-liberal e globalizante (globalizante no pior sentido) do que estas listas!

Achei curioso que ‘La fiesta del Chivo’ tenha obtido colocação tão importante, e não tome isso como uma provocação por favor. Mas depois dessa eu recomendaria que você compre um bilhete de loteria. A probabilidade, no caso da loteria, está a seu favor.

Paulo em abril 4, 2007 7:09 PM


#20

Não lembrava, Idelber. Legal, muito legal.

Cara, off-topic: Eu gostaria de chamar tua atenção para alguns posts publicados no Cidades Crónicas, principalmente os do moçambicano Nelson Saúte.

Poderias dar uma olhadas nestes?

http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/a_minha_vida_esta_naquela_mala.html

e

http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/04/miquelina_angela_e_amelia_jere.html

Abraços.

Milton Ribeiro em abril 4, 2007 10:39 PM


#21

Antonio Muñoz Molina también tuvo tres novelas en la lista: #17 El jinete polaco, #27 El invierno en Lisboa y #35 Plenilunio. La que me gustó más era Plenilunio; no creo que haya sido traducida a ningún otro idioma todavía. La ausencia de La ciudad ausente de Piglia es impensable.

Mac Williams em abril 7, 2007 11:23 PM


#22

Compartilhamos o gosto pela literatura latino-americana. Acho que você já postou um texto meu aqui. Por isto e por aquilo, e por seu interessante blog, está linkado no meu http://laoutra.blogspot.com
bjs, tudo de bom

Maria Alzira em abril 20, 2007 10:06 AM


#23

Compartilhamos o gosto pela literatura latino-americana. Acho que você já postou um texto meu aqui. Por isto e por aquilo, e por seu interessante blog, está linkado no meu blog
bjs, tudo de bom
MA

Maria Alzira em abril 20, 2007 10:07 AM


#24

bom d ++

Anonymous em junho 13, 2007 4:31 PM


#25

Great boys
5ddd37feaa1b321b9a57ff6df9a7ea8c

Thanks boys em fevereiro 1, 2008 4:09 AM


#26

Um ano depois (só estou lendo O Passado agora)...

Sou da categoria "sempre te leio, nunca comento", mas vim aqui revirar seu blog atrás de algum comentário - seu ou de outrém - sobre essa bendita aparição no livro. Gargalhei ao ler, mesmo porque a visão que Rímini (ou Alan rs) tem de você é completamente oposta a que tenho. Você já se pronunciou alguma vez sobre isso? Se sim, me mostra onde? Vocês conhece o autor mesmo? Deve ser uma história ótima :D

Abraços!

Priscilla Fogiato em maio 4, 2008 7:34 PM


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