Na Folha de hoje, caderno de esportes, lemos a manchete (link para assinantes): Zaga vacila, e Santos congela no Sul. Depois, o subtítulo: Ávalos faz pênalti tolo, e Adaílton perde bola boba nos gols que dão vantagem ao Grêmio na semifinal da Libertadores. É curioso. No jogo que eu assisti, parecia haver uma equipe, vestida de azul, branco e negro, que fez aqueles gols. Êta imprensa esportiva brasileira! Mais uma vez tratam o Rio Grande do Sul como se fosse outro país.
Também na Folha, Fernando Henrique Cardoso declarou, sobre a Operação Navalha: Acho que o nível de corrupção extrapolou. Não me refiro especificamente a este caso. Mas eu acho que temos assistido a uma série infinita de processos de corrupção. Alguém poderia explicar a ele a diferença entre a febre e o termômetro? "Assistimos" uma série infinita de processos de corrupção porque há alguém trazendo-os à luz, não é mesmo, ex-presidente? Quando os casos de corrupção não estão sendo revelados, fica um pouco mais difícil "assisti-los", não é?
Em São Paulo, hoje, às 19:30, no Instituto Cervantes (Paulista, 2.439), a ensaísta argentina Beatriz Sarlo conversa com o Prof. Jorge Schwartz, da USP. Se você está em Sampa, gosta de literatura e nunca viu Beatriz falar, compareça. É uma das 4 ou 5 pessoas que mais admiro no mundo hoje. Sem exagero.
O link cômico de hoje não foi unanimidade, então aqui vai um link muito sério.
Caco Barcellos é um dos maiores jornalistas investigativos da história do Brasil. Especialista com décadas de trabalho sobre violência policial, é o autor de Rota 66: A polícia que mata, livro que documenta o assassinato de 4.200 pessoas, todas jovens e pobres, pela Polícia Militar de São Paulo. Caco já venceu duas vezes o Jabuti e recebeu dezenas de prêmios por reportagens especiais. Obviamente, coleciona também ameaças de morte.
Se você quer ter uma aula sobre as raízes da violência no Brasil, com lúcida explicação dos papéis do Estado, da polícia e da imprensa, dada por quem pesquisa a coisa de perto, leia esta entrevista em duas partes com Caco Barcellos. Ela não é nova, mas continua atualíssima.
PS: lembrei-me do Caco numa troca de emails com o Biajonicus.
Se você só tem 3:40 minutos para perder na internet hoje, perca-os aqui. O personagem tem 5 anos, mas o vídeo é para maiores de 18:
O menino é um caso para Mothern nenhuma botar defeito. É só parte do show do grupo de humor Óbvios que acontece toda terça-feira, às 21 horas, no Bar Radio Club Brasil (Av. Cotovia, 749, Moema) e que inclui também a poderosa Brenda Ligia, prima da Ana.
Pronto. O Dunga convocou o goleiro Diego, do Galo, para a Seleção. Agora é que o moleque não completa nem mais meia dúzia de jogos pelo Atlético mesmo.
Ah, como eu odeio esse Dunga.
Aliás, por que continuamos nos importando com futebol mesmo?
Eu vou ter que discordar do meu amigo Gravata. Não de todo o texto, mas do ângulo geral da coisa. Não sou necessariamente apoiador da invasão da reitoria da USP – estando fora do país e acompanhando o caso pela imprensa, aliás, me sinto desobrigado de emitir um juízo de um lado ou de outro. Como a partir do impasse que se arrasta há 3 semanas na USP, no entanto, muito se disse por aí sobre autonomia universitária, eu achei que deveria acrescentar uns pitacos.
1. Pessoalmente, não sou fã do método de invasão de reitoria, desde minha época de estudante. E não por ser contra a invasão em si – a ocupação de uma fábrica como forma extrema de forçar a discussão de problemas de uma categoria, por exemplo, me parece atitude justificada. Mas há uma diferença entre ocupar uma fábrica e ocupar uma reitoria. Ocupa-se uma fábrica com o objetivo de pará-la. Ocupando-se uma reitoria não se para muita coisa, como é, aliás, o caso na USP, onde várias escolas continuam tendo aulas. No fundamental e formador para todos -- discentes e docentes -- que é a pesquisa, quem faz continua fazendo a sua, mesmo se vinculado a escolas que estão paradas.
2. Na longa seqüência de posts feitos sobre o assunto pelo Reinaldinho Azevedo da Veja – que, até que comece a linkar ou pelo menos nomear aqueles a quem ataca, será aqui nomeado sem link – eu já vi execração pública de professores de currículo muito superior ao dele, grosseiras caracterizações dos estudantes ocupadores como “remelentos” e maconheiros e chamados à invasão imediata da PM, além dos indefectíveis vitupérios nas caixas de comentários, exigindo fechamento dos cursos de humanas ou privatização já.
3. Mas não vi nenhuma discussão do fato de que um dos decretos de Serra – do qual, inclusive, ele já recuou como fruto do movimento na USP – impunha como membro do Conselho de Reitores o “Secretário de Ensino Superior” nomeado pelo Governador! Ora, se isso não fere a autonomia universitária sacramentada na constituição, vocês me leiam aí de novo, por favor, o artigo 207 da Carta Magna. Conselho de Reitores das Estaduais Paulistas? Chefiado por um “Secretário” indicado politicamente pelos PFL’s da vida? O CR que reúne os reitores responsáveis por 50% da pesquisa e pós-graduação brasileiras? Que invasão é essa de um corpo intra-universitário?
4. Sim, sim, nesse decreto o Serra já voltou atrás. Sim, sim, os reitores já disseram que os decretos que restaram não ferem nada. Disseram-no, em parte, como resultado do impasse produzido pelo movimento, sublinhe-se. E é ou não preocupante que decretos assim sejam impostos num contexto em que o “Secretário” em questão envia cartas como esta a uma reitora, impondo apadrinhados seus à pós-graduação da melhor universidade da América Latina?
Ora, se você é um reitor submetido a um acosso assim, não é complicada a presença do Secretário em questão como membro do Conselho de Reitores? Não começa a parecer nebuloso todo esse remanejamento? No seu artigo sobre o problema, o Secretário Pinotti diz que os supostos decretos que cerceariam a autonomia universitária não existem -- pena que quase ninguém se dê ao trabalho de procurá-los e analisá-los . Ora, eu me dei ao trabalho de procurá-los. Sacumé, né secretário, tô de férias, e trabalho numa universidade onde a autonomia gerencial-orçamentária do meu departamento nem a minha autonomia de ensino e pesquisa estão ameaçadas. Aí dá tempo até de fazer umas leituras a mais.
Nos decretos que restam, ainda há muito que é preocupante aos olhos de uma parcela significativa das comunidades da USP, Unicamp, Unesp. É injusto dizer que não se explicou claramente qual o problema com eles. O blog da Ocupação traz um relato minucioso com documentação linkada sobre o que o movimento vê de problemático nos decretos.
Em particular, o decreto 51.460 é daninho. O seu art. 4, inc. III transfere as Universidades Estaduais para a Secretaria de Ensino Superior e o seu artigo 7, inc. XII transfere o Centro de Educação Tecnológica Paula Souza (CEETPS) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para a Secretaria de Desenvolvimento. Em outras palavras? Arranca o fomento à pesquisa do âmbito da educação e transfere-a ao “desenvolvimento”. Quebra o laço institucional da FAPESP com as universidades. Quebra o vínculo entre ensino e pesquisa. Fere, na tora, o artigo 207 da Constituição.
O decreto 51.471 reza que ficam vedadas a admissão ou contratação de pessoal no âmbito da Administração Pública Direta e Indireta, incluindo as autarquias, inclusive as de regime especial. Ora, se o decreto 6283, de janeiro de 1934, define a USP como autarquia de regime especial, como é que o 51.471/2007 não representa a possibilidade de congelamento de contratações na USP, alguém me explique? Basta, para debelar esses medos, uma declaração de boas intenções de um político?
Perguntou-se “para que serve” a autonomia universitária. Caro contribuinte paulista que por ventura leia este blog: a autonomia jamais quis dizer falta de prestação de contas. O Tribunal de Contas da União é responsável pela verificação das contas das universidades, e isso ele já faz. No caso das estaduais paulistas, elas recebem esses 9,57% do ICMS, o uso dos quais é escrutinado pelo TCU. A USP, a Unicamp e a Unesp respondem por mais de 50% da pesquisa e da pós-graduação brasileiras. A USP continua sendo, tranqüilamente, a melhor universidade da América Latina. O dinheiro está sendo bem empregado: a questão é garantir acesso de amplas camadas da população ao ensino universitário com qualidade USP. O que há que se melhorar ali -- e muito haverá -- não é da ordem do "prestar mais contas ao estado". É muito mais estrutural que isso.
Sem autonomia orçamentária (possibilidade de remanejar recursos internamente) e autonomia completa de definição de pautas de pesquisa e ensino (o que significa, sim, que a existência do curso de sânscrito na USP não está aberta a plebiscito entre os contribuintes paulistas), sem isso, pois, não existe universidade – no máximo, um colégio técnico. Não digo que o movimento grevista esteja correto em todas suas interpretações. Mas há alguns sinais preocupantes no governo Serra, sim, quanto à relação com a universidade.
Aproveito para deixar um abraço especial aos leitores da megalópolis querida, Sampa, o desejo de que os direitos de todos -- grevistas e não grevistas -- sejam respeitados e o convite a que você dê o seu pitaco na caixa de comentários.
PS: Sobre a universidade, recomenda-se, com muita ênfase, a leitura de um grande livro do filósofo chileno Willy Thayer: La crisis no moderna de la universidad moderna (Epílogo del conflicto de las facultades). Santiago: Cuarto Propio (editora feminista daquelas bandas trans-andinas), 1996.
Atualização: Na Folha de hoje, há uma excelente coluna (link para assinantes) de Fernando de Barros e Silva sobre a questão.
Atualização II: O blog da ocupação deveria ter, pelo menos, moderação de comentários que impedisse que qualquer um fosse lá insultá-los sob pseudônimo e um email para contato na página principal -- o básico do básico. Falta assessoria blogueira aí, rapaziada. Logo em Sampa, onde é impossível sair na rua sem tropeçar com um blogueiro.
Confesso que, quando visito o lindo blog da Marina W, penso em revogar minha decisão, mas agora já não há volta. Parei.
O vício, amigo, é barra pesada: você se esconde ali no cantinho, jurando ao seu super ego que será a última vez. Esconde o ato ilícito do seu amigo, do seu cônjuge, até do seu psicanalista. Chafurda-se na lama do comportamento compulsivo, na ilusão de que é a última vez, de que já não cederá à vontade, de que amanhã você para. Você sabe que o vício é daninho à sua saúde física, mental, emocional. Você promete e quebra promessas no círculo vicioso da denegação e do auto-engano.
Até que um dia você . . . para e não sente mais vontade! Sim, é o que aconteceu comigo. Podem acreditar. Já fez cinco dias. E não sinto a menor vontade. Mesmo. Nem um único momento de tentação eu passei nesta semana.
Parei mesmo de seguir a novela das oito.
Uma satã e uma santa gêmeas é suspensão da descrença demais para o meu gosto. E aquele Olavo (como se chama o ator mesmo?), que vilão mais inverossímil! Não dá.
Dediquei meu tempo de novela da Globo a ler Don DeLillo. Amanhã, um post sobre ele.
Aqui em Tulane está se armando um projeto interessante de estudo das representações do subúrbio (carioca) na literatura e no cinema. A pessoa responsável, carioca da gema e conhecedora das Zonas Norte e Oeste do Rio (amiga de Nei Lopes), está equipadíssima para fazer o trabalho. Vai centrá-lo, por claras razões, em Lima Barreto (crônicas e ficção) e em Nélson Pereira dos Santos.
Portanto não é por ela, mas por minha própria curiosidade que faço a pergunta que segue:
Além dos clássicos de Lima, textos curtos de João Antônio e Clarice Lispector e uns parcos momentos de Rubem Fonseca, não consegui me lembrar de representações do subúrbio (ou do suburbano) carioca que tenham me marcado. Fiquei curioso por ler mais.
Alguém aí tem dicas? Subúrbio, não o morro ou a periferia.
Estou preparando um curso sobre Borges. É mais ou menos como se um moleque de 13 anos, especialista em sorvetes, chegasse na Amor aos Pedaços, aí em Sampa, para escolher um sabor. São 14 semanas, com 2 horas e meia de contato em sala de aula por semana. Seria possível dedicar todo esse tempo a dois livros de Borges: Ficciones (1944 - cuja primeira metade saiu em 1941 como El jardín de los senderos que se bifurcan, volume depois completado em 1944 por Artificios) e El aleph (1949). Desses dois livros saem os grandes clássicos da contística borgeana: "Funes, o memorioso", "O jardim dos caminhos que se bifurcam", "Pierre Menard, autor do Quixote", "Emma Zunz", "Três versões de Judas", "A morte e a bússola", "As ruínas circulares", "A biblioteca de Babel", "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", "Loteria de Babilônia", "O milagre secreto", "O aleph". Todos esses contos são paradas obrigatórias. Decidir de qual ponto de vista lê-los já é um exercício que pode tomar um tempo considerável, posto que essas duas dezenas de contos --- que a grande maioria dos leitores considera "a obra de Borges" -- geraram, e eu não exagero, algumas centenas de livros e alguns milhares de artigos dedicados a analisá-los.
Borges tem essa singularidade: é um minimalista enciclopédico. Jamais escreveu, eu acredito, nada que tivesse mais de dezesseis páginas. E gerou essas bibliotecas imensas, escrevendo, concisamente, sobre o infinito.
Neste curso eu decidi enveredar por outro caminho e examinar algumas coisas insólitas que escreveu Borges -- se você, leitor deste blog, quiser acompanhar, junte-se ao time. O curso rola da primeira semana de setembro a meados de dezembro. Para quem quer ler Borges a sério em português eu sugiro, claro, as Obras Completas em 4 volumes, da Globo, que são uma tradução integral das Obras Completas publicadas em espanhol pela Emecé. Ali tem 70% do que realmente importa.
O que significa que as Obras Completas de Borges não estão, obviamente, completas. A elas faltam: os três livros de ensaios curtos, juvenis, criollistas, populisto-nacionalistas que escreveu Borges nos anos 20: Inquisiciones (1925), El tamaño de mi esperanza (1926) e El idioma de los argentinos (1928). São fundamentais para entender o Borges que volta da Suiça depois da Primeira Guerra Mundial e integra-se à vanguarda poética do seu país, com um olho na ultra-modernidade européia e outro olho nas bombachas dos pampas (alô, Tiagón). Saíram reeditados em espanhol nos anos 90, são fáceis de encontrar. Que eu saiba, não existem em português.
Às Obras Completas também faltam, claro, todos os livros escritos em colaboração, compilados depois em Obras completas em colaboración, também inédita, que eu saiba, em português, apesar de que alguns dos volumes saíram, avulsos, em pindorâmico. Aqui, há dois destaques:
1) Borges, ah, Borges, escrevendo tantos livros em colaboração com mulheres sem nunca ter comido nenhuma. Ironia das mais incríveis, essa. Poupo-lhes a história de como Borges perdeu Norah Lange. É demasiado humilhante. Com outras mulheres escreveu O livro dos seres imaginários (1967 - com Margarita Guerrero, livro absurdamente indispensável, este sim, disponível em português), O que é o budismo (1977 - com Alicia Jurado), Breve antologia anglo-saxã (1978 - com María Kodama) e Introducción a la literatura inglesa (1965) e Literaturas germánicas medievales (1966), ambos com María Esther Vásquez.
2) os livros publicados com o pseudônimo de Bustos Domecq e escritos em parceria com seu amigo Adolfo Bioy Casares -- contos policiais pastichados, exacerbados ao limite da paródia. É aqui, com este pseudônimo, que Borges e Adolfito escrevem sua definitiva autópsia do peronismo, "La fiesta del monstruo", conto pouquíssimo conhecido fora da Argentina.
Aliás é o peronismo -- vocês sabiam disto? -- que transforma Borges de diretor da Biblioteca Nacional em inspetor de frangos. Não minto. É episódio pouco estudado, e o que mais me interessa descobrir é: o burocrata peronista que fez essa crueldade havia, com certeza, lido Borges. O gentleman portenho, claro, renunciou. Voltou ao cargo de diretor da Biblioteca Nacional depois, com a queda do peronismo.
As Obras Completas da Emecé -- e por conseguinte da Globo -- também não incluem a miríade de textos jornalísticos, de resenha, que Borges publicou no diário Crítica em 1933-34 (compilados num incrível livro, que inclui resenha de Borges sobre um brasileiro chamado Pedro Faria de Magalhães, alguém sabe quem é?) e os textos publicados por ele na legendária revista Sur, porta-voz da elite intelectual anti-esquerda da Argentina nos anos 1930-70.
Além disso, há os Textos recobrados, também inéditos em português, publicados em espanhol em três volumes -- crônicas, resenhas, colaborações a revistas, entrevistas, porque, como se sabe, no final de sua vida, Borges dava palpite em tudo, até em futebol e casamento, assuntos nos quais ele tinha zero experiência. Fora isto, está tudo nos quatro volumes das Obras completas da Globo aí no Brasil.
Os que mais insistiram pela volta do clube de leituras foram Meg, Alessandra, Milton e Bender. Para quem topar mergulhar em Borges, está aberto o convite. Diga lá o que você já leu e o que quer ler.
PS 2: Sobre Borges: Mac Williams defendeu, mês passado, aqui em Tulane, sob minha orientaçao, uma brilhante tese que discute as complexas reinterpretações das várias religiões na obra de Borges. Mac, religioso (mormon) e eleitor de políticos conservadores (pelo menos até recentemente). Eu, ateu e xiita de esquerda. Poucas vezes um orientando e um orientador foram tão diferentes e se deram tão bem. Parabéns, Mac. Consulte-se, em breve, a tese de Mac na Internet.
Para setembro: À ínfima porcentagem de leitores do blog que compram livros acadêmicos em inglês, vão aí a propaganda e o auto-jabá. A editora Palgrave lança, nos próximos meses, The Ethics of Latin American Criticism: Reading Otherwise, livro compilado por Erin Graff Zivin que inclui um ensaio meu ('Cultural Studies in the Blogosphere: Academics Meet New Technologies of Online Publication'), uma versão bem aumentada e melhorada dessa palestra. A extensão veio por conta de uma polêmica com um texto de Habermas, publicado na Folha de São Paulo, em que o vetusto filósofo alemão dá mostras de não ter pensado muito bem ainda sobre a Internet. O texto inteiro do artigo eu não posso postar sem violar o copyright, claro.
Para julho: Ana Maria Gonçalves é destaque na Flip, de Parati.
Para julho e agosto este blog transmitirá direto de Recife e, no finalzinho de junho, de Santiago.
Para dentro de uns dias: Liberal Libertário Libertino transmitindo de Havana. Quem viver verá. Caso o Alex consiga boa conexão, claro.
Para já: pintou na Verbeat o Atmosfera, blog coletivo sobre o clima.
Já falou-se muito de liberdade de expressão aqui no blog, e eu já me posicionei várias vezes acerca de processos judiciais onde foi cerceada a expressão de alguém. Jamais achei que o direito à livre expressão tivesse fronteiras com o direito à calúnia (se Diogo Mainardi disse que Franklin Martins traficou influência no Congresso Nacional e participou da quebra do sigilo do caseiro, por exemplo, que apresente provas do que disse ou que responda pela sua boca na justiça; é o que acho que vale dizer sobre esse caso).
Mas o processo que é matéria deste post é outro, é claramente de liberdade de expressão e me é muito caro, porque trata de legislação sobre o uso da língua portuguesa. Para quem acompanhou os primórdios deste blog, é assunto antigo. Mas não o é para quem chega agora, e por isso vale a pena recapitular a história: na sua coluna da semana passada na Veja, Millôr Fernandes confirmou que está sendo processado por Aldo Rebelo por ter chamado de idioletice o projeto do deputado que proíbe estrangeirismos na língua portuguesa. O projeto, na sua imensa ignorância (e quem o chama de ignorante sou eu, Idelber Avelar), determina o seguinte:
Todo e qualquer uso de palavra ou expressão em língua estrangeira, ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... será considerado lesivo ao patrimônio cultural brasileiro, punível na forma da lei. . . . Toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira .... ressalvados os casos excepcionados nesta lei ... terá que ser substituída por palavra ou expressão equivalente em língua portuguesa no prazo de 90 (noventa) dias a contar da data de registro da ocorrência.
Quem quiser ler a excrescência por inteiro, pode fazê-lo aqui. Sobre esse projeto, Millôr comentou, na Folha: "Ele sabe do que está falando? Quanta idioletice!". Resposta do Dep. Aldo Rebelo? Um processo judicial.
Há que se dizer, em primeiro lugar, o seguinte: o projeto de Aldo Rebelo é de ignorância mastodôntica, infinita, no que diz respeito a como funciona a linguagem. Eu não sou o primeiro profissional da área de letras a dizê-lo. O prof. John Schmitz, da UNICAMP, já escreveu seis ensaios demonstrando a encefalia da coisa. Meu amigo Mario Perini, lingüista da UFMG, com elegância, já desancou o absurdo. Para resumir o que colegas mais pacientes que eu diriam de outra forma, o projeto de Aldo Rebelo contra os estrangeirismos é de imbecilidade:
a) sociolingüística, porque ignora que sobre a língua viva não se legisla.
b) filológica, porque não sabe que a evolução da língua inclui a incorporação de vocábulos estrangeiros. Ou será que a digníssima esposa do deputado usa porta-seios, ao invés de sutiãs? Será que ele ignora que este último foi, um dia, um vocábulo estrangeiro?
c) pragmática, porque ignora que cada falante, individualmente, tenderá a ter a capacidade de selecionar os estrangeirismos adequados para cada contexto e, no caso de não fazê-lo, a própria interação subseguinte com os outros falantes atuará, corrigindo-o.
d) psicolíngüística, porque quer cercear legislativamente o leque de escolhas lexicais do falante da língua.
Em outras palavras, em todos os ramos da linguística, o projeto do deputado Aldo Rebelo – conhecido por querer instituir o dia do Saci Pererê e legislar sobre a composição da farinha de mandioca – é de uma idiotice sem fim. E ele está processando Millôr porque este chamou o projeto de idioletice (criação do Millôr, claro, formada pelo sufixo -ice na palavra "idioleto", que significa língua ou dialeto individual).
Agora imaginem: como explicamos para o deputado que, ao processar Millôr por chamar sua excrescência de projeto de idioletice, ele está passando o atestado de idiotice mesmo? Ou seja, está automaticamente julgando seu reclamo improcedente? E quantos querem apostar que há juiz por aí que daria ganho de causa ao digníssimo xenófobo deputado sobre Millôr neste processo?
Em 1998, os EUA aprovaram o Copyright Term Extension Act – também conhecido aqui como Mickey Mouse Protection Act. A essência daquela legislação era estender o copyright – que até então cobria a vida do autor e mais 50 anos, ou 75 anos para criações de corporações – para inacreditáveis “vida do autor mais 70 anos” e 95 anos para corporações. Era a Disney deitando e rolando com seu lobby na Washington D.C. de Clinton, "protegendo" Mickey Mouse e cia. Bons tempos aqueles, os da ameaça de impeachment por uns boquetes. Éramos felizes e não sabíamos.
Mas tergiverso.
Eis que no New York Times (link aberto temporariamente), o Sr. Mark Helprin – vá lá, leitor, ajude-nos a saber quem é – propõe copyright perpétuo sobre bens intelectuais. Sim, isso mesmo é o que a proposta significa: que se daqui a 800 anos você quiser fazer uma adaptação teatral d’ "A Terceira Margem do Rio", terá que negociar pagamento com algum deca-neto maluco de Guimarães Rosa, que sacará do colete uma tabelinha de preços. Isso é o que “copyright perpétuo” significa. Não se trata de nada que tenha a ver com garantir ao autor da obra uma compensação justa por sua criação – que é a idéia da legislação original de copyright – mas sim algo que aprisiona a posteridade nessa farsa que é a posse sobre bens intelectuais passando de geração a geração.
Sabe do que falo quem acompanha a batalha ingrata que livram os estudiosos da obra de James Joyce com um neto possessivo, maluco, obsessivo e frustrado. A ironia, claro, é que, na obra do avô, essa figura caberia em algo assim como meia linha.
Pois bem, logo depois da publicação da idéia absurda no New York Times, surgiu uma página estilo wiki com argumentação copiosa contra o copyright perpétuo. O primeiro argumento já rebate de cara a analogia proposta por Helprin com a posse dos bens físicos: esta última é um jogo de soma zero. Para que eu compre a casa da Main Street número 50, alguém tem que se desfazer dela. A posse do direito de uso -- citação e transformação -- de bens intelectuais, imateriais, obviamente não implica isso.
Meu direito de usar e citar e transformar Guimarães Rosa não altera o direito de ninguém fazer o mesmo. A posse do direito de uso de bens intelectuais não é uma equação de soma zero.
Este blog é pelo fim total do direito de herança sobre bens intelectuais. Vê lá se não tenho coisa melhor para deixar aos meus filhos que o direito e a tarefa de ficar decidindo quem pode ou não reaproveitar coisas que escrevi em parcos livrinhos. Ora bolas.
Atualização: A partir de hoje, o blog terá duas ou três atualizações diárias, ao invés do tradicional texto semi-diário. Você, que visita as caixas de comentários, acostume-se a descer a barra de rolagem. O site está programado para exibir, na página principal, os posts dos últimos 15 dias. Se, com o novo ritmo, ela ficar pesada, avisem.
A ameaça da Microsoft com as patentes é outro exemplo do ditado de Franklin Delano Roosevelt de que a única coisa a se temer é o próprio medo. Primeiro, a Microsoft teve sucesso como empresa porque, na maior parte, refinou as inovações nas quais outras companhias foram pioneiras. Portanto a Microsoft tem sérios problemas com defesas de reivindicações de patentes baseadas em “arte prévia” e “obviedade.” Segundo, os criadores do GNU e do Linux foram inspirados pelo Unix, não pelo Windows, e o Unix é bem mais velho que o Windows. De novo, com defesas baseadas em arte prévia e obviedade. Terceiro, a Microsoft já vendeu, inclusive, licenças Unix, chamadas Xenix (que eles licenciaram da SCO), mas a Microsoft depois abandonou o Xenix em favor do Windows NT, o que indicaria (para mim, pelo menos) que as idéias para as patentes da Microsoft relacionadas ao Windows são provavelmente tecnologia bem diferente do Xenix. ... Quinto, e talvez mais importante, Linus Torvalds enviou por email a Charlie Babcock, do InformationWeek, o argumento de que a maioria das inovações que dizem respeito a funções dos sistemas operacionais perderam proteção de patente há muito tempo, já que a maior parte da teoria básica de sistemas operacionais já estava pronta nos anos 1960. A discussão do Slashdot sobre este último tema pode ser encontrada clicando aqui. Sexto, o advogado do IT, Andy Updegrove, já disse que não está impressionado com as reivindicações de patente da Microsoft. A discussão do Slashdot desta história encontra-se clicando aqui.
Bom, eu não ia entrar nesse meme, especialmente depois de ler a matéria do Inagaki, mas já que Biajoni, Marmota e Alessandra deram a este blog a honra da inclusão na lista de cinco que os fazem pensar, vamos lá. Abaixo seguem os links a cinco blogs que atualmente me estimulam o pensamento. Não cito o Ina, Bia, Marmota, Alessandra ou Rafael porque seria chover no molhado.
Favoritos: já citado pelo Ina, não posso deixar de endossar. O blog da Luiza Voll virou minha parada obrigatória diária. Leve, bonito, com achados espetaculares, dele saíram mais bookmarks para meu uso pessoal que de qualquer outro blog. Tem sido ótimo ter o Favoritos agora que a Bibi nos deixou órfãos.
Blog do Alon: comecei a ler na época da campanha eleitoral e não parei mais. Alon combina as vantagens de ter paixão pelo jornalismo político e não ser nem petista nem tucano. Raramente concordo com tudo e quase nunca comento (as regras são bem diferentes das daqui e terminaram me inibindo) mas é certamente um blog que me faz pensar, por mais que às vezes cometa frases que são verdadeiros empecilhos ao pensamento -- como, por exemplo, o debate sobre o aborto é um debate sobre o direito de matar, frase pragmaticamente falsa qualquer que seja sua posição sobre o direito ao aborto, posto que, de ser a frase verdadeira, não existiria debate. Mas o blog é parada diária minha.
Contemporânea: Não deve haver muita gente que conheça o Biscoito e não conheça o blog da Carla, mas ela não poderia faltar na lista. Jornalista, acadêmica, dona de um texto límpido e cristalino, com ótimo tino para encontrar materiais de reflexão por aí, ela assina um dos melhores blogs do Brasil, na minha opinião. Foi muito louvável a decisão de instalar a moderação nos comentários, porque o que acontecia ali (e ainda acontece, mesmo com a moderação) é de desanimar qualquer blogueiro. Já não tenho condições nem tempo de debater em caixa de comentários alheia, mas incentivo os leitores interessados a que passem por lá e participem da discussão, quando possível.
Hermenauta: confesso que achava que ele vivia gastando tinta inútil quando dedicava tantos posts a desmontar Olavo de Carvalho, mas hoje dou o braço a torcer – os sopapos diários de Hermê ao Reinaldo Azevedo são essenciais para questionar a credibilidade dessa verdadeira barricada de extrema-direita intolerante e falastrona hospedada no portal da Veja. Confiram, por exemplo, o post de hoje, desmontando a mentirada de que nas grandes democracias não existe regulação de conteúdo televisivo como o atualmente proposto pelo governo brasileiro.
Ao Mirante, Nelson!: porque pensa melhor quem pensa dando risadas. Os textos do Almirante são clássicos instantâneos de erudição e verve. Se você nunca leu um post chamado Se os diálogos de Platão fossem pelo MSN – encontre lá -- você ainda não conhece a contribuição brasileira aos top 5 da história da galáxia blogueira.
A Feminista (a quem deixo as condolências pela recente perda do pai), o Imprensa Marrom e o mais jovem Catatau também já me fizeram pensar muito. Que ninguém se sinta obrigado a repassar o meme, pelamor.
Capitaneado pela antenada Mànya Millen, o Prosa e Verso deste sábado (link para cadastrados) dedicou uma página a Giorgio Agamben, filósofo italiano com cinco livros lançados em português, mas ainda pouco conhecido em terra brasilis. As duas resenhas – a cargo de Pedro Duarte de Andrade e Alberto Pucheu – celebram o lançamento de Profanações (Boitempo) e A Linguagem e a Morte (pela atentíssima editora da UFMG). Os livros já publicados no Brasil anteriormente, Estado de exceção, Homo Sacer e Infância e História, são até mais capitais para o pensamento de Agamben mas -- é claro -- são de se saudar os lançamentos recentes. Infelizmente, as resenhas de Andrade e Pucheu são úteis para quem já leu Agamben, mas não muito amigáveis para quem nunca o leu – contextualizam-no muito pouco. Em todo caso, para os que acompanham o pensamento italiano contemporâno, cabem duas observações sobre Agamben:
1. Ele tem pouquíssima – se é que tem – relação com o chamado pensiero debole, o “pensamento frágil” associado a Gianni Vatimo, que celebra, de alguma forma, a queda dos universais como “pátria” e “Deus” e tenta armar, a partir daí, uma ética da precariedade. Não é essa a turma de Agamben.
2. Tem ele também pouquíssimo que ver com o marxismo obreirista italiano de figuras como Toni Negri que, a partir de uma leitura eufórica da globalização, enxergam o novo comunismo nos lugares mais insólitos, até no Bolsa Família de Lula.
Agamben é um pensador que propõe menos saídas, celebra menos, indica menos caminhos. Arrasta-se no pensar com um pouco menos de pressa. Meu livro favorito de Agamben é O que resta de Auschwitz: A Testemunha e o Arquivo (ainda inédito em português, acho), onde encontramos frases como :
a notícia atroz que os sobreviventes carregam dos campos para a terra dos seres humanos é precisamente a de que é possível perder a dignidade e a decência para além da imaginação, de que ainda há vida na degradação mais extrema. E que esse saber agora se torna a pedra de toque pela qual se medirá e se julgará toda moral e toda dignidade.
Capital mesmo para o pensamento de Agamben é a definição de Carl Schmitt (sim, o conservadoríssimo e católico jurista alemão) do soberano como aquele decide sobre o estado de exceção . O conceito de estado de exceção tornar-se-ia chave para Agamben e inspiraria um belo livro, dedicado a pensar o problema da exceção (à lei, especialmente) no mundo pós 9/11 e pós-bombardeio ao Afeganistão. O vetusto debate entre as correntes jusnaturalistas e positivas do direito é revisitado por Agamben em outro livro elegantíssimo, Meios sem fim (Mezza senza fine, de 1996, que eu saiba ainda inédito no Brasil), onde ele revira de ponta a cabeça o debate jurídico sobre meios e fins.
Mas os conceitos pelos quais Agamben é mais conhecido são os de homo sacer e de vida nua, noções que ganharam ainda mais relevância depois da instalação dos campos de tortura em Guantánamo: com homo sacer Agamben nomeia aquele humano no limite do animal, aquele humano cuja morte não tem epitáfio e cuja existência é completamente descartável. Com vida nua ele designa esse estado de vida / morte, próprio a esses humanos: árabes torturados em Guatánamo e palestinos mortos sem epitáfios hoje, vítimas do regime do apartheid na África do Sul de uns poucos anos atrás. Figuras cuja proliferação diz algo, argumenta Agamben, sobre o mundo contemporâneo.
Traduzir mais citações eu não poderia, já que só possuo Agamben em inglês, os originais em italiano da biblioteca estão emprestados e eu jamais cometeria com vocês a deselegância de traduzir do inglês um texto escrito originalmente em italiano. Mas os importantes livros Homo Sacer e Estado de exceção estão disponíveis aí no Brasil, em boas traduções. Com certeza vale a conferida, mesmo para quem não é leitor costumeiro de filosofia.
O trabalho de Paulo Cesar de Araújo é meu conhecido desde o revolucionário Eu não sou cachorro não: Música popular cafona e ditadura militar, obra monumental em que o autor analisa a música brega dos anos 70 e mostra, surpreendemente, que ela foi até mais censurada que a velha MPB -- trajetória que a academia e o jornalismo foram demasiado míopes para ver e que só a partir da obra de Paulo Cesar começou a ser devidamente estudada. Paulo Cesar é o autor de Roberto Carlos em Detalhes, obra cuja proibição inicial o Biscoito noticiou em primeira mão e a cuja posterior circulação na internet nós também demos vazão. Paulo Cesar estará em Tulane University, New Orleans, em março de 2008, para uma conversa sobre o caso. Por enquanto, aqui segue uma entrevista exclusiva com o historiador e pesquisador baiano, um dos maiores conhecedores da música brasileira popular. É honra recebê-lo aqui no blog.
1- Roberto Carlos se recusou a lhe conceder entrevistas na fase de preparação do livro. Como conhecedor profundo da vida dele, você sabia que ele já havia conseguido bloquear um outro livro, muito menos sério que o seu. Mas em algum momento você imaginou que a sua obra fosse parar na justiça?
Eu não esperava esta reação dele porque meu livro é completamente diferente do livro do ex-mordomo. Naquele o autor apenas relata inconfidências de su