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terça-feira, 15 de maio 2007

A Jazz Funeral for Alvin Batiste (1932-2007)

alvinbatiste2007.jpg

Bendita a cidade que lembra a morte dos seus grandes com um desfile musical festivo pelas ruas. New Orleans mais uma vez se despediu a rigor de um dos seus gigantes. Alvin Batiste, um dos maiores clarinetistas da história, nos deixou no dia 06 de maio, aos 74 anos, de enfarte, horas antes do que teria sido um show consagrador com Branford Marsalis e Harry Connick Jr. no JazzFest.

Alvin Batiste redefiniu o som de New Orleans no século XX. Clarinetista de incríveis recursos, ia do dixieland mais tradicional às formas vanguardistas mais cabeludas, sem perder a pose. Incorporou toda a influência do bebop e combinou-a com o molejo inconfundível do som de New Orleans. Além de instrumentista e compositor, era um mestre, um professor nato. Dedicou-se durante décadas, na Southern University, a lecionar sua arte. Recebeu quase todos os prêmios a que pode aspirar um músico de jazz, mas percorria as escolas públicas de bairros pobres para compartilhar o que sabia. Estudaram sob Alvin Batiste o trumpetista Wynton Marsalis, os saxofonistas Branford Marsalis e Donald Harrison, o baixista Chris Severin, o pianista Henry Butler, além de centenas de outros músicos. Era amado, idolatrado na cidade. Deixou um legado de inesquecíveis gravações, mas vê-lo ao vivo era a experiência insubstituível.

Por isso, sabia-se que o Jazz Funeral que nos reuniria no úlitmo sábado, dia 12, seria um dos grandes e inesquecíveis. Já de manhã a multidão ia se aglomerando na Praça Lafayette:

DSC03670.BMP

O Jazz Funeral é uma experiência incomparável, fruto da extraordinária cultura musical de New Orleans. O do último sábado, que reuniu uma multidão nas ruas para dançar e cantar em homenagem à memória de Alvin Batiste, foi um marco do renascimento da nossa cidade. Depois da cerimônia religiosa, impecavelmente vestidos, os músicos vão se aglomerando na preparação da homenagem. Desce o féretro:

DSC03681_edited.JPG

A festa é pública e todos os amantes da música são bem vindos. No Jazz Funeral de Alvin Batiste, não faltaram os ex-alunos com souvenirs inauditos da carreira do mestre:

DSC03671.JPG

A música começa em tom solene, com notas graves e extensas, no ritmo conhecido como dirge. Uma porta-estandarte abre caminho, seguida por músicos engravatados e, logo depois, a multidão:

DSC03691.JPG

Ao longo de vários quarteirões, a banda segue com o dirge, enquanto vamos homenageando a memória do morto com uma dança contida:

DSC03711.JPG

Na chegada à histórica esquina de Rampart com Canal, a banda acelera e começa a tocar na batida das brass bands da cidade. A dança vai abandonando a contenção e cai num ritmo frenético. A partida de mais um mestre é lembrada com uma renovação do seu legado de amor à música e à cidade de New Orleans:

DSC03700.JPG

Ao longo do trajeto, especialmente quando nos aproximamos do French Quarter, não faltam os indefectíveis turistas, olhando estatelados, com a cara de quem se pergunta que estranha cidade é esta, onde se celebra a morte com uma tomada ritual das ruas por uma multidão dançante.

PS. Para conhecer a obra de Alvin Batiste, gravada com muito menos freqüência do que teria sido justo, recomenda-se os CDs Bayou Magic (1993) e Late songs, words, and messages (1993).

PS 2. Fotos do post: Ana Maria Gonçalves, que teve seu primeiro Jazz Funeral. Ana também fez filmes do desfile, que eu, por incompetência, não consegui subir ao YouTube. O filminho fica para a próxima :-)



  Escrito por Idelber às 02:59 | link para este post | Comentários (14)


Comentários

#1

Idelber, gostei tanto do texto que linkei do meu blog.

Outra coisa, quando teremos uma nova sessão do clube de leituras?

Bender em maio 15, 2007 9:36 AM


#2

Fantástico! De fato, bela forma de homenagear um grande músico: com música, muita música.

abs
Artur

Artur Perrusi em maio 15, 2007 11:45 AM


#3

Idelber,
Muito bom saber de um jazzista que não conhecia (não conheço muitos). E ver esse povo um tantão sofrido homenagiar o que foi a presença de Alvin Bastite numa festa, numa re-experiência viva e alegre de sua magia, de seu som e de sua própria figura - dela do povo e dele Alvin Bastide. Beijo. Viva New Orleans! Beijo.

Sibila em maio 15, 2007 1:11 PM


#4

Pra variar, eu da corrigilda, ou da corringinda: "homenagear" no texto acima.Beijo.

Sibila em maio 15, 2007 2:41 PM


#5

Eu tive o privilégio de ve-lo e ouvi-lo no Jambalaya Jazz no Rio em 2002, ele e os Jazztronauts. Não vi mas estavam lá também o flautista Ken Jordan o guitarrista Walter 'Wolfman' Washington o acordeonista Sean Ardoin o grupo de zydeco Sean Ardoin & Zydekool com o guitarrista Mark Whitfield. Mas quem realmente arrebentou foi a banda de metais New Birth Brass Band, que só pude assistir graças a um atraso de quase 4 horas para o início do show . A banda desceu do palco e terminou o show na rua. Foi um carnaval de New Orleans em plena Lapa.

frank em maio 15, 2007 2:53 PM


#6

Que bom ver NO, uma cidade única, dando a volta por cima!
Isso me lembro aquela famosa inicial de Viva e Deixe morrer do 007, lembra?
gd ab

JULIO CESAR CORREA em maio 15, 2007 2:55 PM


#7

Putz,...
filminho já!

Abs.

Edkallenn em maio 15, 2007 3:24 PM


#8

Como o Julio Cesar também me veio à cabeça aquela cena do 007 e por isso faço coro: filminho já! (sem pressão, quando der né?)abs

Márcia W. em maio 15, 2007 5:10 PM


#9

Oi, querido.
Nossa, não conhecia essa tradição, que fantástico! Assemelha-se ao gurufim (ou gurufinho) do início do século passado no Rio, né? Sensacional maneira de despedir-se...

Helê em maio 15, 2007 5:29 PM


#10

Estou conseguindo ajuda para postar o filminho. Acho que rola hoje ainda :-)

Idelber em maio 15, 2007 7:06 PM


#11

Helê querida, super bem lembrado o parentesco com o gurufim :-)

Idelber em maio 15, 2007 7:08 PM


#12

Tenho que voltar depois, a emoção é grande , pela cidade, pelo funeral, pela fotógrafa;-).
Não duvido que outro livro esteja sendo gestado.
Enfim, obrigada por este post belíssimo, antológico.
beijos em profusão.
Meg

Meg (Sub Rosa) em maio 15, 2007 9:57 PM


#13

Olá! Espero que tenho recebido meu mail. Foi inevitável. Tenho que ir dormir daqui a pouco. E vou voltar sim.

Beijos,

Tina do Universo Anárquico

tina oiticica harris em maio 16, 2007 8:08 AM


#14

Meguita :-)

Idelber em maio 17, 2007 1:41 PM


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