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terça-feira, 08 de maio 2007

Crime à brasileira

Triste o país onde ainda se assassinam jornalistas por terem dito verdades sobre alguns poderosos de plantão: morte anunciada, como costuma ser o caso. Luiz Carlos Barbon Filho foi vítima de um clássico assassinato de encomenda à brasileira, frio, business-like, executado por mixaria a mando de algum bandido desmascarado pelo seu trabalho jornalístico. Eu penso nos garotos de 14 e 10 anos que deixou esse pai, morto de peito aberto por covardes de capuz contratados por algum corrupto, cafetão ou pedófilo. Se esses garotos poderão sempre falar dele de cabeça erguida, também é certo que o legado não substitui o que teria sido estar com esse pai na adolescência, na juventude, na vida adulta – com essa figura que, tudo demonstra, era excelente profissional, bacana, íntegro, dedicado ao trabalho, à investigação e à verdade. Ao longo da dor, Juliana e Luiz Felipe terão orgulho do pai: a poucos a expressão morreu como homem se aplica tão bem como a Luiz Carlos Barbon Filho.

É revoltante que o Brasil, sequer no interior de seu estado mais desenvolvido, não dê segurança básica a jornalistas cujo trabalho investigativo incomoda os interesses de poderosos. Sabia-se de onde poderiam estar vindo as ameaças a Barbon. Como com Chico Mendes e com tantos outros, executou-se a morte como anunciada, com aquele odor de crime de colarinho branco à brasileira, cujos culpados nunca vêm à luz ou, quando são julgados e condenados, acabam por sair da cadeia ou reeleger-se.

Encontrar os mandantes desse assassinato a sangue frio não é só uma questão de justiça para a família, os amigos, os leitores de Barbon. É um daqueles marcos para a própria democracia, um medidor da sua capacidade de garantir liberdade de jornalismo. Encontrar os covardes mandantes e aplicar punição exemplar, mesmo que seja necessário mobilizar a PF e a imprensa nacional numa blitz à cambada de suspeitos na região de Porto Ferreira: não deveria ser muito sonhar com solução assim para crimes tão odiosos.

Num sentido bem literal, Barbon deu a vida pelo meu, seu direito de acesso à verdade: afinal, um país onde assassinos como os de Barbon permanecem impunes acaba cultivando o péssimo hábito de varrer para debaixo do tapete os podres que descobre sobre si.



  Escrito por Idelber às 06:37 | link para este post | Comentários (9)


Comentários

#1

Assino embaixo.

Milton Ribeiro em maio 8, 2007 12:26 PM


#2

Mão tem opção: ou os culpados (executores e mandantes)são encontrados rapidamente e punidos exemplarmente, ou o ovo da serpente que eternamente está chocando ficará muito mais perto de eclodir.

E depois ninguém venha reclamar de falta de liberdade ...

Luiz em maio 8, 2007 4:19 PM


#3

a coisa no interior do estado é terrível, fico imaginando pelos rincões do país.
e dá medo ver o jornal A HORA DO POVO botando pilha pra alguém apagar o mainardi.
:>/

Biajoni em maio 8, 2007 4:31 PM


#4

Idelber, esses casos são sempre muito estranhos, assim como outros assassinatos de jornalistas em pequenos veículos de imprensa no interior. É sempre no interior.
Por isso, a questão é mais complicada.
A imprensa regional no Brasil está na fase da jagunçagem. Há uma simbiose de governos locais e pequenos jornais, rolando sobretudo corrupção e lavagem de dinheiro.
O combustível da engrenagem é o dinheiro de publicidade. Ou seja, tais jornalecos sobrevivem de dinheiro público e apoiam "criminosamente" o político que está no governo.
Ao mudar de governo, mudam para o outro lado. É um troço sempre esquisito. Daí arrumam-se inimigos que só deus sabe.
Não se deve colocar a mão no fogo por esses jornalistas e achar que são pessoas em busca da verdade. É preciso saber mais dessa história.

renzi em maio 8, 2007 4:42 PM


#5

POr favor, não se esqueça do Tim Lopes, que investigava as gangues do Rio, cujos restinhos foram encontrados três anos depois do crime. A morte dele me ensinou o outro significado de "microondas". Os bandidos cortam o cadéver em pedacinhos, colocam dentro de pneu. A borracha tem um ponto de combustão elevadíssimo e os restos mortais somem.

Acabei de ler matéria do "No Mínimo". Os dois crimes são parecidos, só que este, "anunciado". A impunidade dos bandidos é um problema.

tina oiticica harris em maio 8, 2007 8:12 PM


#6

Idelber, conheço bem Porto Ferreira, onde meu pai tinha um pesqueiro na beira do rio Mogi e onde passei todas as minhas férias escolares quando criança. Aquilo lá é o fim do mundo, cidade pequena dominada por fazendeiros e industriais que se confundem com políticos, vereadores com passagem pela polícia, vereadores que são analfabetos funcionais e, à margem disso tudo, uma grande população de bóias-frias e lavradores à mercê do voto de cabresto. O jornalista assassinado era o único repórter investigativo independente do lugar, visto que a imprensa local também é amarrada aos interesses políticos da corja caipira. Seu único erro foi a vaidade: Luiz Carlos Barbon gostava de se deixar fotografar e assinar todas as reportagens polêmicas que publicava. Não são raros os textos assinados por ele que vinham acompanhados de uma foto - por isso talvez a Fenaj tenha se referido à ele como "colunista". O que não justifica, em absoluto, o texto canalha e escroto divulgado essa semana. Ele era jornalista sim - e dos bons!

Bruno Ribeiro em maio 9, 2007 9:46 PM


#7

Bruno, obrigadão, depoimento esclarescedor, esse teu.

Idelber em maio 9, 2007 10:00 PM


#8

Um país de covardes silenciados? Triste e lastimável fato. Revoltante também.

Alena em maio 10, 2007 12:46 AM


#9

Idelber,

Eu fiz um trabalho sobre as quebradeiras de coco de babaçu no nordeste e sobre mulheres violentadas nos tantos canaviais espalhados pelo Brasil. Sinceramente, gostaria de saber em que lugar desse país tão grande reina quem diz a verdade? Terrível para as famílias que perdem seus entes queridos, jornalistas e outros profissionais que denunciam a vergonha e a falta de caráter dos poderosos, mas, indescritível para os pequenos que sofrem essa violência na própria pele, sem perspectiva, sem esperança e que, futuramente, se não morrerem de depressão, se tornarão eles os algozes. Nem precisa ir a Porto Ferreira - basta alcançar a periferia de São Paulo. Muito triste!

Meus sinceros sentimentos às famílias de todos esses corajosos que foram e também dos que virão!

Paula em maio 11, 2007 2:32 AM