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quarta-feira, 02 de maio 2007
Festival Internacional de Lafayette
O último final de semana do mês de abril e o primeiro do mês de maio têm sido, para mim, sagrados: é época de JazzFest em New Orleans. Por isso eu nunca havia feito a viagem para o Festival Internacional de Música de Lafayette, que coincide com os primeiros dias do JazzFest. Desta vez, eu e Ana resolvemos abrir mão da festa em New Orleans para viajar até o portal das terras acadianas da Louisiana. Valeu a pena. Em termos de atrações internacionais, o Festival de Lafayette é bem superior ao de New Orleans. Em vez dos abusivos 45 dólares diários cobrados aqui em NOLA, a festa em Lafayette é gratuita e celebrada nas ruas do centro da cidade, onde se armam meia dúzia de palcos bem separados, sem interferência sonora. A comida é um show à parte. Em vez da horrenda Budweiser que povoa o festival neworleaniano, em Lafayette as barraquinhas trazem opções de qualidade como a Heineken ou a Guinness.
Foram três dias de muita música, que começou na noite de sexta com o estranhíssimo som world music do octeto francês Les Yeux Noirs. Eles passam as sonoridades centro-européias e ciganas por um liquidificador pop, com destaque para alucinógenos solos de rabeca:

A noite de sexta terminou com um belo show de Vieux Farka Touré, filho do legendário guitarrista malinês Ali Farka Touré. A música de Vieux continua a tradição Sonrai desse verdadeiro ícone pop. Dele, infelizmente, não tiramos fotos aproveitáveis.
No sábado, sob um calor nordestino, começamos com o folk feminista das The Malvinas, um trio do Quebec-Texas-Louisiana à base de cordas: violão, bandolim, rabeca, banjo. A moça do Quebec quase se derretia na temperatura de 35 graus, mas elas mandaram bem o recado:

Daí passamos aos insólitos argentinos do Los Pinguos, que não se parecem com nenhuma música argentina que você já tenha ouvido. Utilizando violões, um tres cubano e um cajón peruano, eles vão da balada politizada à salsa. Confesso que ao ver um bando de argentinos com instrumentos acústicos num palco de dimensões consideráveis, temi por um desastre. Queimei a língua. Os caras botaram a multidão para dançar:

Depois foi a vez da banda americano-brasileira Rob Curto’s Forró for All. Nada que eu nunca tenha ouvido em Pernambuco, mas o baião e o xaxado eram muito bem executados:

Depois de um cochilo, só chegamos a pegar alguns acordes daquela que talvez seja a mais ilustre banda de música cajun, o Beau Soleil, que completava seu trigésimo aniversário. Dali a próxima opção era clara. Fomos ver o legendário pianista e vocalista de New Orleans, Eddie Bo, famoso por seu estilo percussivo ao piano e por suas composições que mesclam o melhor do rhythm’n’blues, funk e jazz new-orleaniano. Foi o primeiro show em que dancei com vontade:

Fechamos a noite com o reggae do jamaicano Clinton Fearon, conhecido como o grande baixista, vocalista e letrista da famosa banda dos anos 60, os Gladiators. Com o show super lotado e nossos corpos exaustos, vimos um pouco e saímos. Mas tinha boa pinta.
O domingo começou com a ponte afro-neworleaniana feita pela Gangbé Brass Band, do Benin. A fórmula é simples: polirritmia percussiva do oeste da África com muitos metais – trumpete, sax, tuba, trombone – na melhor tradição de New Orleans. A energia é contagiante:

Dali partimos para o show do Afrissippi, produto do encontro entre o guitarrista senegalês Guelel Kumba com Eric Deaton, e o tradicional blues de doze compassos aprendido por ele no Mississippi. Foi um bonito show mas, de novo, nada que não tivéssemos ouvido antes:

Muito original foi o show das mulheres batuqueiras da Guiné, as Amazones, que subvertem a tradição do homem-percussionista-mulher-dançarina comum nessa região:

Os dois melhores shows, no entanto, estavam reservados para o final. A Dirty Dozen Brass Band, criticada por puristas desse gênero pela sua incorporação do rock, rap, funk e outros ritmos, comandou um show emocionante, de levantar defunto, que marcava a volta definitiva de todos os músicos da banda ao seu estado depois do furacão Katrina. O show foi pontuado por brincadeirinhas eróticas e alusões à sensacional campanha dos New Orleans Saints ano passado no futebol americano:

Fechando com chave de ouro, o melhor show do fim de semana. O gigante da world music, o malinês albino Salif Keita, trouxe a banda completa, com kora e tudo, e sacudiu o público durante uma hora. O que mais me impressionou foi a sintaxe cuidadosamente armada da apresentação. Ele alternava canções uptempo com momentos de respiração líricos e emotivos, para logo depois voltar à música mais freneticamente dançante. É uma figura que impõe respeito:

Fica aí a dica. Na primeira semana de JazzFest, vale mais a viagem a Cajun Country.
Escrito por Idelber às 04:58 | link para este post
| Comentários (14)
#1
idelber, lá na fal, quando alguém conta algo que provoca muita inveja, a gente se lembra do chaves (sim, aquele seriado mexicano mesmo, que passa no SBT), entrando todo magoado na barrica dele, e cada um dispara seu: PIPIPIPIPIPI.
é tudo que posso dizer depois desse festival.
beijos
vera em maio 2, 2007 9:38 AM
#2
Então tá.
Vou subverter a tradição e fazer uma percussão de minha cabeça na parede...
Grande abraço.
(Só imagino a quantidade de piadas com o Fábio. Deve ter muito mais além das que nos passaste abaixo. Eles merecem.)
Milton Ribeiro em maio 2, 2007 11:28 AM
#3
Bacana o relato.
Mas caro Idelber, de fato Heineken é alguma coisa bem parecida com cerveja. O Canecão 'empurrou' esta marca por algum tempo, mas acabou desistindo desta 'exclusividade'.
Paulo em maio 2, 2007 8:08 PM
#4
Deve ser ótimo passar uns dias ouvindo música boa, conhecendo um pessoal novo que faz um trabalho legal.
Acho que esse ainda é o problema de Brasil, Santa Catarina, e, por fim Joinville. Qualquer artista que vier morar aqui fica rico. O povo é tão carente de eventos culturais de qualidade que quando vem um teatro, tá lá, lotado.
Você, que provavelmente nunca ouviu falar dessa tal de Joinville, a título de informação, mesmo sendo a maior cidade do estado de Santa Catarina ainda é superpobre quando o assunto é eventos. Daí tem gente que reclama da novela, dos filmezinhos sessão da tarde, é o que tem pra gente.
Curta os bons eventos daí, que a gente inventa os nossos aqui. Abraço!
Bruna em maio 2, 2007 9:56 PM
#5
Quando eu ficar boa, vou lá conferir. A descrição,mesmo do que não era novo, foi fascinante, pela mélange de povos negros, ritmos, músicos com tradição e sem.
Voltando ao futebol. No Google o único glorioso é o Botafogo por suas contribuições ao tri. Agora tudo que ganhar campeonato vai se auto-denominar "Glorioso"? O CAM eu entendo por ter camisa muito parecida. O Inter?
Um dia vou a New Orleans, onde seja, ouvir zydeco.
tina oiticica harris em maio 3, 2007 2:25 AM
#6
Bruna, oxente, é claro que eu conheço Joinville! E não só de ouvir falar; já passei por aí e aproveitei muito a estadia :-)
Idelber em maio 3, 2007 10:45 AM
Daniel em maio 3, 2007 11:25 AM
#8
Obrigado pelos links, Daniel. Planejo escrever, em breve, sobre o assunto :-)
Idelber em maio 3, 2007 11:33 AM
#9
Que maravilha!! E que banho de musica e cultura + diversao... Ai, ai... viver eh isso. Aproveite muito mais!
Andrea N. em maio 3, 2007 11:54 AM
#10
Pois é, Andrea, mas você aí nessa cidade maravilhosa não tem motivos para se queixar, né ?
;>)
Idelber em maio 3, 2007 12:24 PM
#11
Oi Idelber:
Lafayette eu conheço, passei lá o Mardi Gras no ano em q morei na LA. meu "pai" americano tinha receio de ir no carnaval de New Orleans, dizia q era muito cheio de gente e confusão, então ficamos por Lafayette mesmo, hehe... e olhe q eu tava acostumado com a pipoca no Farol da Barra!
e putz... Salif Keita!! q inveja, pff...
risos.
abs,
PS: parabéns pelo Galo! mas não resisto a te mandar um youtube do último jogo q eu assisti ao vivo na Fonte Nova...
dra em maio 3, 2007 10:09 PM
#12
Incrível, Professor.
Um bando de gente que eu não conhecia - e, veja, fuço muito World Music.
'Brigado pelo post, pelas fotos, pelas dicas... =)
É sempre um prazer passar por aqui.
Grande abraço.
PS: Parabéns ao Galo! =D
Thiago em maio 4, 2007 5:13 PM
#13
This is probably the best review of the festival, in any language.
Mac Williams em maio 4, 2007 10:50 PM
#14
Ora, chamar isso de cultura...
Isto mostra o quanto estás desatualizado de teu país. Cultura, digamos assim, de mão cheia, é a que nos propõe a secretária de "cultura" do glorioso estado do Rio Grande do Sul, não façam piadas, posto que ela já está pronta: Diz o Blog RS Urgente, o seguinte:
"Um baile de debutantes nacional para resgatar os valores da família. Essa foi a proposta apresentada pelo colunista social Azul Marinho, e apoiada pela secretária estadual da Cultura, Mônica Leal, durante o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes da Cultura, realizado em Bento Gonçalves, entre os dias 26 e 28 de abril. Apesar de ser a vice-presidente do Fórum, que reuniu secretários de cultura de todo o país, a secretária Mônica Leal não participou dos debates do encontro. Apareceu rapidamente no sábado, saudou seus colegas dizendo que todos eram bem-vindos e desculpou-se por não participar dos debates pois tinha de acompanhar a governadora pela região. O fato de o Fórum reunir secretários de Cultura de outros Estados – que, por acaso, é a área de sua secretaria – não sensibilizou Mônica a compartilhar suas idéias sobre políticas para a cultura. Mas a secretária não fugiu de suas responsabilidades e, através de uma funcionária de uma agência contratada para fazer a recepção do encontro, recomendou que todos os secretários prestassem atenção na proposta que seria feita pelo colunista Azul Marinho.
Entra Azul Marinho em cena. Na apresentação de sua proposta para o Rio Grande do Sul sediar um baile de debutantes nacional, ele destacou a importância do evento para resgatar os valores da família. Após apresentar a idéia, distribuiu um kit-debutante com informações gerais para a realização do baile. Foi chamando, estado por estado, os representantes da cultura, que saíram todos abastecidos de informações sobre as potencialidades estratégicas do baile de debutantes para resgatar os valores da família. A secretária Mônica Leal não apareceu mais no encontro mas deixou o recado para que todos prestassem muita atenção na proposta. O que, de fato, ocorreu. A proposta do baile de debutantes freqüentou todas as conversas dali em diante. Os secretários e dirigentes culturais que participaram do Fórum em Bento Gonçalves saíram verdadeiramente impressionados e surpresos com o novo espírito que anima a política cultural do governo gaúcho. Se as idéias de Mônica Leal e Azul Marinho forem abraçadas pela cena cultural gaúcha em breve conheceremos todos um novo jeito de debutar."
Paulo Vilmar em maio 6, 2007 12:27 AM