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terça-feira, 22 de maio 2007

Giorgio Agamben

Agamben.jpgCapitaneado pela antenada Mànya Millen, o Prosa e Verso deste sábado (link para cadastrados) dedicou uma página a Giorgio Agamben, filósofo italiano com cinco livros lançados em português, mas ainda pouco conhecido em terra brasilis. As duas resenhas – a cargo de Pedro Duarte de Andrade e Alberto Pucheu – celebram o lançamento de Profanações (Boitempo) e A Linguagem e a Morte (pela atentíssima editora da UFMG). Os livros já publicados no Brasil anteriormente, Estado de exceção, Homo Sacer e Infância e História, são até mais capitais para o pensamento de Agamben mas -- é claro -- são de se saudar os lançamentos recentes. Infelizmente, as resenhas de Andrade e Pucheu são úteis para quem já leu Agamben, mas não muito amigáveis para quem nunca o leu – contextualizam-no muito pouco. Em todo caso, para os que acompanham o pensamento italiano contemporâno, cabem duas observações sobre Agamben:

1. Ele tem pouquíssima – se é que tem – relação com o chamado pensiero debole, o “pensamento frágil” associado a Gianni Vatimo, que celebra, de alguma forma, a queda dos universais como “pátria” e “Deus” e tenta armar, a partir daí, uma ética da precariedade. Não é essa a turma de Agamben.

2. Tem ele também pouquíssimo que ver com o marxismo obreirista italiano de figuras como Toni Negri que, a partir de uma leitura eufórica da globalização, enxergam o novo comunismo nos lugares mais insólitos, até no Bolsa Família de Lula.

Agamben é um pensador que propõe menos saídas, celebra menos, indica menos caminhos. Arrasta-se no pensar com um pouco menos de pressa. Meu livro favorito de Agamben é O que resta de Auschwitz: A Testemunha e o Arquivo (ainda inédito em português, acho), onde encontramos frases como :

a notícia atroz que os sobreviventes carregam dos campos para a terra dos seres humanos é precisamente a de que é possível perder a dignidade e a decência para além da imaginação, de que ainda há vida na degradação mais extrema. E que esse saber agora se torna a pedra de toque pela qual se medirá e se julgará toda moral e toda dignidade.

Capital mesmo para o pensamento de Agamben é a definição de Carl Schmitt (sim, o conservadoríssimo e católico jurista alemão) do soberano como aquele decide sobre o estado de exceção . O conceito de estado de exceção tornar-se-ia chave para Agamben e inspiraria um belo livro, dedicado a pensar o problema da exceção (à lei, especialmente) no mundo pós 9/11 e pós-bombardeio ao Afeganistão. O vetusto debate entre as correntes jusnaturalistas e positivas do direito é revisitado por Agamben em outro livro elegantíssimo, Meios sem fim (Mezza senza fine, de 1996, que eu saiba ainda inédito no Brasil), onde ele revira de ponta a cabeça o debate jurídico sobre meios e fins.

Mas os conceitos pelos quais Agamben é mais conhecido são os de homo sacer e de vida nua, noções que ganharam ainda mais relevância depois da instalação dos campos de tortura em Guantánamo: com homo sacer Agamben nomeia aquele humano no limite do animal, aquele humano cuja morte não tem epitáfio e cuja existência é completamente descartável. Com vida nua ele designa esse estado de vida / morte, próprio a esses humanos: árabes torturados em Guatánamo e palestinos mortos sem epitáfios hoje, vítimas do regime do apartheid na África do Sul de uns poucos anos atrás. Figuras cuja proliferação diz algo, argumenta Agamben, sobre o mundo contemporâneo.

Traduzir mais citações eu não poderia, já que só possuo Agamben em inglês, os originais em italiano da biblioteca estão emprestados e eu jamais cometeria com vocês a deselegância de traduzir do inglês um texto escrito originalmente em italiano. Mas os importantes livros Homo Sacer e Estado de exceção estão disponíveis aí no Brasil, em boas traduções. Com certeza vale a conferida, mesmo para quem não é leitor costumeiro de filosofia.



  Escrito por Idelber às 01:07 | link para este post | Comentários (18)


Comentários

#1

Idelber, suas "resenhas" são muito boas, claras e consistentes - aquela do Dawkins é fabulosa. Parabéns! Quanto a Agamben, incomoda-me várias de suas posições. Ex-aluno de Heidegger, adotou Foucault posteriormente e deu alguns desdobramentos aos seus conceitos (um amigo meu que está na Inglaterra chegou a chamá-lo de "o novo Foucault" - acho um exagero) principalmente à sua noção de biopoder. Como não há espaço para uma discussão mais profunda, tentarei esquematizar. Considero Foucault (e Agamben), do ponto de vista de uma teoria política, um grande pensador do "totalitarismo" ou dos "perigos totalitários" que estão inscritos na modernidade e rondam a democracia contemporânea. A noção de biopoder serve muito bem para essa tarefa: ou para estudo de situações ou instituições totalitárias ou para o estudo de situações ou instituições totalitárias em condições de “normalidade democrática”. Na minha opinião, é aqui que reside o problema, pois geralmente ocorre uma extrapolação ou generalização do alcance da noção de biopoder — de algumas instituições, deduz-se todas as instituições. A democracia contemporânea é vista, assim, como uma espécie de “totalitarismo doce”. Creio até que Agamben radicaliza essa generalização. Mas qual seria a tradução política dessa posição? Resistências, novas formas de anarquismos? Pergunto isso, pois “Profanações” parece ser um livro sobre ação política. Tenho medo do impasse prático-político, típico de várias posições da esquerda acadêmica que se nutre do pós-estruturalismo e quejandos (no qual me incluo - Laclau, Zizek...; paradoxalmente, tenho uma estranha consciência disso). Enfim, prefiro uma noção “fraca” de biopoder (bem como de “estado de exceção” e de “vida nua”) aplicada a diversas situações e instituições de nossa "contemporaneidade", mas não a todas; exemplo: a “vida nua” não coincide, como defende Agamben, com todo (integralidade) o espaço político - acho exagerado e falta fundamentação empírica. E critico uma noção “forte” de biopoder, aplicada a toda situação e instituição da "contemporaneidade".

abração

Artur Perrusi em maio 22, 2007 10:30 AM


#2

O pensamento de Agamben vai entrando em várias áreas no Brasil, da literatura à sociologia. Há o risco de virar uma onda, assim como ocorreu com Toni Negri e Michael Hardt em alguns grupos de estudos.
Já assisti a conferências de economistas que o citam para falar da globalização e do "estado de exceção", em que a economia coloca a política.
Os mais conhecidos divulgadores de Agamben têm sido Paulo Arantes e Vladimir Safatle, da USP.
Raul Antelo utilizou conceitos de Agamben (sobre o gênio) para analisar Cesar Aira.
Nas minhas preocupações, um caminho que ele abre é a crítica da "biologização da vida". Tudo se reduz ao corpo animal do ser humano. Nessa linha, por exemplo, a tristeza é um problema de uma substância química do cérebro. As soluções para os problemas são todas científicas.

Heloiza Sousa em maio 22, 2007 11:19 AM


#3

Perfeito, perfeitíssimo, Artur, muito bem dito. Eu já experienciei, no Chile, entre grupos influenciados por Agamben, essa tendência a universalizar a noção de biopoder. Compartilho sua preocupação com ela.

Obrigado, Heloiza, acho que conheço esse texto do Raúl Antelo, mas não sabia que Paulo Arantes já se havia metido com Agaben -- é curioso, para um hegeliano como Arantes. Não conheço o trabalho de Safatle, vou procurar. Abraços,

Idelber em maio 22, 2007 1:09 PM


#4

Ainda não conheço o autor, mas gostaria de fazer uma pergunta: os conceitos de homo sacer e vida nua poderiam referir-se, na nossa realidade social, ao que se observa entre os policiais/bandidos etc.?

Ana Carolina em maio 22, 2007 1:34 PM


#5

Poderiam sim, Ana Carolina, desde que aquele que os aplicar achar que as condições de desumanização coincidem com aquelas pressupostas por uma noção extrema como a de homo sacer. Mas sim, na realidade brasileira dá para imaginar alguns casos.

Idelber em maio 22, 2007 2:31 PM


#6

Bom, deixo novamente o comentário abaixo ;)

Boa referência, e belo post!

Acabei me deparando com Agambem por acaso, a partir de uma colega que lê Nietzsche e Foucault, e busca mostrar precisamente como se dá o estado de exceção nesses autores. Já em Nietzsche há a menção (na Genealogia da Moral, se não me engano); em Foucault, quando trata de biopolítica, uma espécie de retomada. Legal ver o Agambem - como você disse, sem a pressa de outros autores, pelo que parece - retomando essas noções em vieses contemporâneos...

catatau em maio 22, 2007 3:01 PM


#7

Para aumentar o interesse por Agamben, seguem um link de uma entrevista feita pelo Vladimir Safatle com o autor e um artigo do mesmo Safatle comentando o livro "Profanações".
http://www.geocities.com/vladimirsafatle/vladi081.htm
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2754,1.shl
Sobre Paulo Arantes, ele foi mais hegeliano e filósofo no começo. Depois, começou a estudar uma tradição crítica brasileria a partir de Antonio Candido e Roberto Schwarz.
Atualmente, Arantes está concentrado nos estudos da guerra global pós-11 de setembro e os estados de exceção da sociedade brasileira. Também é o editor da coleção Estado de Sítio, da Boitempo Editorial, que lançou o livrinho "Estado de exceção", do Agamben.
Por sinal, dá um belo diálogo ler ao mesmo tempo "Cidade de Deus", de Paulo Lins, e "Homo Sacer".
Outra dica são os trabalhos de Peter Pál Pelbart, como este que está no link http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shl.

Heloiza Sousa em maio 22, 2007 3:14 PM


#8

Oi, Heloiza, super obrigado pelos links e desculpe a demora na liberação do comentário. Como ele continha links, o Movable Type por engano colocou-o na pasta de junk, e só agora eu vi :-)

Idelber em maio 22, 2007 6:55 PM


#9

Um trecho do "Profanações", na tradução portuguesa do livro. O texto se chama "Os seis minutos mais belos da historia do cinema":
"Sancho Pança entra num cinema de uma cidade de província. Está à procura de D. Quixote e encontra-o sentado a um canto, de olhos postos no écran. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de varanda — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Depois de algumas tentativas inúteis de ir ter com D. Quixote, Sancho senta-se contrariado na plateia, junto de uma menina (Dulcineia?) que lhe oferece um chupa-chupa. A projecção começou, é um filme de época, no écran correm cavaleiros armados, a certa altura aparece uma dama em perigo. De repente, D. Quixote levanta-se, desembainha a espada, precipita-se contra o écran e os seus golpes começam a rasgar a tela. No écran ainda se vêem os cavaleiros e a dama, mas o rasgão negro, aberto pela espada de D. quixote, vai-se alargando cada vez mais, devora implacavelmente as imagens. No fim, do écran já quase nada resta, vê-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público, indignado, abandona a sala mas, na galeria, as crianças não param de encorajar fanaticamente D. Quixote. Só a menina da plateia o contempla com ar de censura.
Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (talvez seja este o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando, no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos."

Heloiza Sousa em maio 23, 2007 3:47 PM


#10

só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos

é ou não um momento de vislumbre genial, poético de Agamben?

Para um confronto quixotesco com a pura superficialidade da tela do cinema, que lembram a citação deixada pela Heloiza, ver dois geniais contos hispano-americanos:

"Queremos tanto a Glenda", do argentino Julio Cortázar
"Cine Prado", da mexicana Elena Poniatowska.

Idelber em maio 23, 2007 5:33 PM


#11

Tentando compreender (e identificar) um "principal" mecanismo de dominação que se instalou no imaginário dos indivíduos, deparei-me com Agamben, mais precisamente com sua construção do homo sacer. Tenho tentado escapar de uma certa visão maniqueísta da realidade social, entretanto a cada nova leitura esse maniqueismo parece insistir em mostrar-se como figura privilegiada da dominação, através daquilo que chamei de plano de entendimento comum da realidade social colocado em movimento pelo que também chamei de sentido de ordem prática da vida. Nesse sentido, acredito ter encontrado esse "sentido" exatamente na noção de vida nua... sentido este que parece ter alargado a dimensão da noção de acumulação primitiva do velho Marx. Assim, o capital extrai o eu dos indivíduos, reduzindo-os a uma espécime repetidora de padrões de referência de consumo.
Bom, sei que tudo isso parece um tanto confuso, mas é o que tenho pensado com e através da leitura do Agamben (também).
Agradeço o espaço... e os possíveis comentários.

Carlos Augusto em novembro 4, 2007 8:24 PM


#12

cnalizeld

vigetoudomb em novembro 16, 2007 8:53 PM


#13

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oregon ducks em novembro 29, 2007 8:25 AM


#14

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#15

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#16

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valencia em dezembro 5, 2007 8:35 PM


#17

Ao ler os comentários acerca do pensamento de Giorgio Agamben, vejo uma certa pretensão de "enquadrá-lo" nos velhos esquemas classificatórios que marcaram (e marcam)"nossas" perspectivas analíticas doutas e, por vezes, ortodoxas. Lendo o autor, penso ver em perspectiva suas intuições quanto ao espaço/tempo contemporâneo. Isso já é suficiente para uma outra possibilidade de reconhecimento do real e do seu sentido de ordem prática na vida social. Compreendo as categorias acionadas por Agamben como instrumentos de leitura da realidade possível e não como classificações dessa realidade objetiva que se quer douta. Não é o caso de se colocar Agamben como uma espécie de espelho de Foucault ou qualquer outro pensador dessa estirpe. Trata-se, sim, de pensar na realidade objetiva, de maneira objetiva. Se a noção de vida nua ajuda a compreender-se, por exemplo, as relações entre polícia e bandidos e a própria produção de um estado de miséria absoluta para o qual são conduzidos milhões de indivíduos, então vale a pena seguir tal pista.

Carlos Augusto em março 31, 2008 8:57 AM


#18

Ao ler os comentários acerca do pensamento de Giorgio Agamben, vejo uma certa pretensão de "enquadrá-lo" nos velhos esquemas classificatórios que marcaram (e marcam)"nossas" perspectivas analíticas doutas e, por vezes, ortodoxas. Lendo o autor, penso ver em perspectiva suas intuições quanto ao espaço/tempo contemporâneo. Isso já é suficiente para uma outra possibilidade de reconhecimento do real e do seu sentido de ordem prática na vida social. Compreendo as categorias acionadas por Agamben como instrumentos de leitura da realidade possível e não como classificações dessa realidade objetiva que se quer douta. Não é o caso de se colocar Agamben como uma espécie de espelho de Foucault ou qualquer outro pensador dessa estirpe. Trata-se, sim, de pensar na realidade objetiva, de maneira objetiva. Se a noção de vida nua ajuda a compreender-se, por exemplo, as relações entre polícia e bandidos e a própria produção de um estado de miséria absoluta para o qual são conduzidos milhões de indivíduos, então vale a pena seguir tal pista.

Carlos Augusto em março 31, 2008 9:00 AM


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