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Um blog de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral, com algum arquivo sobre futebol. Estamos na rede desde 28/10/2004.



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terça-feira, 26 de junho 2007

Sepultura

Por hoje, só um aviso rápido aos navegantes, especialmente à turma que é fã de música pesada (alô, Tiagón): finalmente está disponível em pdf o meu último artigo sobre o Sepultura, publicado há uns anos no Journal of Latin American Cultural Studies. Como foi o próprio pessoal da revista quem pôs o texto na internet, saudavelmente mandando às favas os direitos autorais, eu dou o link ao artigo sem problemas.

Abraços aos leitores aqui da incomparável Buenos Aires.



  Escrito por Idelber às 09:41 | link para este post | Comentários (14)



segunda-feira, 25 de junho 2007

A Fapesp deve explicações

Viu-se na semana passada mais um exemplo da forma irresponsável e caluniosa de se fazer política própria a alguns colunistas da Revista Veja. Uma pesquisa coordenada pelas Profs. Stella Pereira de Almeida e Maria Teresa de Araújo Silva (cujos currículos podem ser vistos aqui e aqui) levou à confecção de folhetos informativos dirigidos a usuários de ecstasy, como parte de um projeto intitulado Baladaboa. Ancorado en anos de investigações em Neurociências e Psicologia Experimental, o projeto maneja o modelo conhecido como redução de danos, que parte da premissa de que em situações de dependência química, é importante trabalhar com o fato de que a droga será consumida, reduzir ao máximo os riscos à saúde do dependente, orientá-lo médica e higienicamente e, a partir daí, estabelecer uma intervenção preventiva. A Prof. Stella dedicou ao tema nada menos que sua tese de doutorado.

Pois bem, um dos panfletos informativos produzidos sob a supervisão dessas especialistas cai nas mãos de Reinaldinho Azevedo da Veja. Inicia-se o linchamento das professoras, acusadas de “gastar dinheiro público incentivando o consumo de drogas”. Na caixa de comentários do dito cujo – que, até que comece a linkar aqueles a quem ataca, será aqui nomeado sem link – começa uma verdadeira chuva de impropérios contra as professoras, inclusive com acusações graves, judicialmente defíniveis como calúnias ou injúrias. Resultado? Algumas horas depois, Fernando Cunha, o assessor de comunicação da agência financiadora, a Fapesp, avisa a ele, mas não às professoras, que o financiamento do projeto estava suspenso. A comunicação enviada é um verdadeiro documento do perigo que se corre com a fábrica de calúnias montada no portal da Revista Veja:

Prezado Reinaldo Azevedo,
Envio Nota Oficial da FAPESP sobre a notícia “Dinheiro público, da Fapesp, é usado para ensinar o ‘consumo responsável’ de ecstasy. Sim, você leu direito!”, publicada em seu blog.
Um abraço,
Fernando Cunha
FAPESP
Assessor de Comunicação

ÍNTEGRA DA NOTA

Dada a gravidade das denúncias veiculadas pela imprensa, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, determinou a imediata suspensão da liberação de recursos para o projeto de pesquisa "Implantação e avaliação de programa de redução de danos para o uso de Ecstasy na cidade de São Paulo" até que sejam averiguados completamente os fatos denunciados.
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP
18/6/2007

O Sr. Reinaldinho Azevedo -- que já se cansou de escrever estrema-esquerda em seu blog, mas tem como passatempo predileto corrigir o português alheio para desqualificar o interlocutor -- acha que é capaz de julgar o mérito do trabalho acadêmico de duas pesquisadoras de neurociências a partir da leitura de um título ou de um panfleto. Sobre a imensa hipocrisia de um liberal que brande consignas individualistas quando lhe convém, mas escuda-se na tutela de uma mera portaria ministerial para demonizar qualquer tratamento mais sensato da questão das drogas ilegais, o Gravataí Merengue já disse tudo. Sobre a tremenda incoerência do incendiário que volta atrás e tenta apagar o próprio incêndio quando se dá conta de que a agência financiadora do projeto é de um estado governado por seu querido PSDB, o Hermenauta já disse tudo. Sobre a fábrica de calúnias armada no portal da Veja e o dano provocado neste caso, Luis Nassif também já disse o necessário.

Eu, de minha parte, acrescento que não sou competente para julgar se a política de redução de danos – ancorada em anos de pesquisa das Profs. Stella e Maria Teresa – já deu ou dará resultados. Mas sei ler currículos e sei reconhecer duas pesquisadoras sérias quando as vejo. E também sei reconhecer um canalha quando o vejo. Também sei que, em qualquer área do conhecimento, até que você tenha a oportunidade de pesquisar, ora ora, é impossível saber.

Por isso, acho que a Fapesp deve explicações sobre a suspensão deste projeto sem qualquer motivo que não o incêndio criminoso armado por um ex-monitor de química que acha que pode julgar doutoras e lançar turbas de fanáticos para caluniar uma equipe de pesquisa. Que tal uma singela e educada consulta? O email da ouvidoria da Fapesp é ouvidoria@trieste.fapesp.br.

PS: O amigo Marcos VP me chama para mais um meme, perguntando se acho que existe competição na blogosfera. Acho que existe, sim, como em qualquer lugar. Mas, como em qualquer área, quem está tranqüilo com o que faz não costuma se preocupar muito com isso. Aí estão vários excelentes blogs, como o do próprio Marcos VP, para confirmar.

PS 2: Biajoni acaba de ganhar importantíssimo processo contra a Fiat. Parabéns!



  Escrito por Idelber às 00:21 | link para este post | Comentários (21)



sexta-feira, 22 de junho 2007

Pedofilia na Igreja Católica

Se você entende inglês falado ou está disposto a fazer o esforço de ler legendas em italiano, não deixe de investir 39 minutos para assistir este estarrecedor documentário intitulado “Sex crimes and the Vatican”. O documentário é produto de extensa investigação da BBC que demonstra:

1. que a prática da pedofilia e do abuso de menores é global na Igreja Católica.

2. que mesmo nos casos de réus confessos, como o padre Oliver O´Grady (que aparece no documentário simulando a sedução de um menor), a atitude da Igreja Católica foi sempre a de esconder os culpados, trasladando-os de paróquia em paróquia com o objetivo de abafar os escândalos.

3. que uma série de casos de traslado de padres coincidem com o estouro de denúncias de pedofilia e abuso sexual.

4. que a Igreja chegou a compor um manual que ensinava como esconder os pedófilos e desqualificar as vítimas. O autor do manual? Cardeal Joseph Ratzinger, o atual papa.

5. que a prática da pedofilia inclui não só a Europa e os EUA (onde mais de 4.500 denúncias já foram feitas), mas também o Brasil, como mostra o caso detalhado no documentário, ocorrido no interior de Goiás.

6. que um secretíssimo documento interno da Igreja, produzido já em 1962, orientava os bispos a impor silêncio às vítimas que denunciassem casos de estupros cometidos por padres contra crianças.

Vale a pena conferir o documentário.

(cheguei lá via Flavio Prada).



  Escrito por Idelber às 07:12 | link para este post | Comentários (53)



terça-feira, 19 de junho 2007

O novo romance de Biajoni e um papo com Ana Maria Gonçalves

capa_virginiaberlim.jpgE fiquei ali bebendo, deitado no chão e estava passando para o sono quando, de súbito, bateram à porta. Levantei de um pulo, bêbado e nu. Chutei, no salto, o copo – esparramando a bebida, um pouco de gelo e cacos. Tentei correr para o quarto em busca de algo para me vestir e pisei em um enorme pedaço de vidro. Gritei. E ouvi, do outro lado da porta, alguém me chamar, perguntando se estava tudo bem. E era ela! Minha cabeça rodou de dor e espanto. Não podia ser. E. Corri assim mesmo, na ponta dos dedos, vesti um calção e abri, e ela... E era ela mesmo, sorriso avoado, de surpresa, com um bom cheiro e uma presença miúda, abissal. Meus cabelos desgrenhados se ouriçaram e suas sobrancelhas arquearam ainda mais diante da cena: meus olhos inchados e úmidos da dor, o pé escorrendo sangue.

É um trecho de Virgínia Berlim, o novo petardo de Luiz Biajoni. O Bia tem essa capacidade extraordinária de tomar pequenas fatias da experiência e arrancar delas o insólito, o bizarro, o amargamente cômico. Quem conhece o Bia já sabe, antes de ler o livro, que o título só pode ser uma alusão a Lou Reed. Além de Lou, passeiam pela história Chet Baker, Nick Cave, Neil Young e outros, compilados no CD que acompanha o livro. Ao contrário de Sexo Anal – o romance pop mais comentado da internet brasileira – Virgínia Berlim é contado em primeira pessoa e cria empatia instantânea com o narrador, um funcionário de escritório apaixonado por uma mulher comprometida. O corte no pé dá origem a uma seqüência vertiginosa de acontecimentos que culmina em .... Vai lá comprar! São R$ 28,50 muito bem empregados, eu garanto. De quebra você leva um CD com as canções presentes no romance, com as letras impressas e traduzidas.

****************************************************

É hoje, às 19:30, em Belo Horizonte, na Serraria Souza Pinto (embaixo do viaduto Santa Teresa, aquele dos arcos onde Drummond e cia. se equilibravam bêbados depois das noitadas), o papo com Ana Maria Gonçalves sobre Um defeito de cor. O encontro é parte do Salão do Livro de Belo Horizonte. Ana será entrevistada por Eduardo de Assis Duarte, professor de literatura brasileira da UFMG. Os eventos do Salão têm sido interessantes, bem informais e com muita participação do público. Se estiver em BH, apareça. Entrada franca.



  Escrito por Idelber às 08:19 | link para este post | Comentários (15)



segunda-feira, 18 de junho 2007

Lamarca

mor_1971_carlos_lamarca_foto.jpgA Folha de São Paulo e até mesmo o Estadão são capazes, via de regra, de articular posições conservadoras com tranqüilidade e ponderação. Mas quando o tema é a ditadura militar, ah, mes amis, neste caso costumam sair-lhes as garras raivosas. A propósito da recente indenização concedida à família de Carlos Lamarca, assassinado pelo exército brasileiro em 17 de setembro de 1971 – sim, assassinado, não “morto em combate” --, o Estadão publicou um editorial em que abusa de termos como “facínora” e “terrorista” para caracterizar Lamarca, concluindo com a pérola de que vivemos um despencar generalizado de valores éticos. Talvez a ética da qual o Estadão sinta saudades seja a ética da tortura a adversários políticos, realizada com a cumplicidade dos grandes veículos de mídia que, salvo poucas exceções, docilmente reproduziram as versões e o vocabulário do aparato repressivo. A Folha de São Paulo tem todo o direito de se opor à indenização, mas não tem o direito de mentir, afirmando em editorial que Lamarca foi “morto em combate”, versão amplamente desacreditada pela historiografia do período. A própria Folha reconhece, em reportagem publicada no mesmo dia, que a indenização é simplesmente uma conseqüência da decisão da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça que, em 1996, estabeleceu que Lamarca já estava sob o cerco de agentes do Estado, sem condição de reagir.

Lamarca desertou do exército cinco anos depois que o exército havia desertado da democracia. Junto a outros setores da esquerda que haviam rompido com o PCB, participou da opção pela luta armada que incluiu, sim, assaltos a bancos e uma expropriação de armas do exército, realizada no dia de sua deserção, 24 de janeiro de 1969. Mas não há sentido aceitável da palavra “terrorista” que se aplique a Lamarca. Cuidado aí com a banalização dos termos, senhores editorialistas. Sim, a desastrada teoria foquista, inspirada em Régis Debray e Che Guevara, propunha que a revolução brasileira seria possível a partir das ações de um grupo vanguardista armado e bem treinado, visão adotada por setores da esquerda ante o recrudescimento da repressão, o imobilismo do PCB e a completa desarticulação da oposição democrática. Salvo pouquíssimos casos, seus autores pagaram amargamente pela avaliação equivocada. Mas o termo “terrorista” simplesmente não se aplica.

A indenização à família de Lamarca foi feita nos termos da lei e é independente de qualquer avaliação que se faça sobre a deserção ou a luta armada. Durante anos, o exército propagou a versão de que Lamarca teria sido morto em troca de tiros com agentes do exército. O diálogo que ele teria tido com seus perseguidores, segundo a já desacreditada versão oficial, é digna de algum sargento que assistiu demasiados filmes de bang-bang: ‘Quem é você?’ – ’Carlos Lamarca.’ – ‘Sabe o que aconteceu com a Iara?’ – ‘Ela se suicidou em Salvador.’ – ‘Onde está sua mulher e seus filhos?’ – ‘Estão em Cuba.’ – ‘Você sabe que é um traidor da Pátria?’. Lamarca teria morrido sem responder a esta última pergunta (fonte).

Note-se aí, claro, o clichê cinematógrafico do herói que morre sem responder a última pergunta; a inverossimilhança da declaração atribuída a Lamarca, reconhecendo o “suícidio” de sua companheira Iara e endossando a versão do exército (já desacreditada e revista por historiadores); e, por último, a extrema improbabilidade de que os perseguidores do temido atirador Lamarca se limitassem a “bater um papinho” com um capturado ainda em condições de reagir. Sabem do que falo aqueles que conhecem a sucessão de mentiras produzidas para justificar mortes sob tortura durante o regime militar, desmascaradas em definitivo com o caso Herzog.

Merecem meus parabéns os que deram boas respostas às reações da mídia acerca da indenização à família de Lamarca: o Prof. Luiz Felipe de Alencastro, o jornalista Mário Magalhães (que, sem alarde, vem fazendo um brilhante trabalho como ombudsman da Folha, tendo desconstruído neste domingo o editorial publicado pelo jornal na sexta), Alan Feuerwerker (embora eu não concorde com a analogia entre o regime militar brasileiro e a França ocupada, o que me impede de concordar com a comparação entre Lamarca e Maurice Thorez) e o blogueiro Jayme Serva (valeu, gugala). Foram as vozes mais sensatas a se opor à histeria da mídia que, em sua forma mais abjeta - a da revista Veja , claro - incluiu até mesmo a criação do obsceno termo "bolsa-terrorismo".

PS:
Registro a alegria e a honra de ter conhecido pessoalmente alguém cujo trabalho eu admiro muito, o grande poeta e artista multimídia mineiro Ricardo Aleixo.

PS 2: Bem vindo à blogosfera, mestre Antonio Cícero.



  Escrito por Idelber às 04:09 | link para este post | Comentários (52)



sábado, 16 de junho 2007

Bloomsday 2007

jj.laughtears.jpg Salve, joyceanos; salve, Irlanda; salve, bebedores de cerveja de todo o mundo! É hoje! Em primeiro lugar, cabe avisar que no Bloomsday tupiniquim, já é de praxe – lá se vão três anos -- acompanhar a fabulosa cobertura do Leandro Oliveira no seu Odisséia Literária. O blog do Leandro estará fervilhando de posts durante todo o sábado.

É sabido que a ação de Ulisses, de James Joyce, tem lugar em 16 de junho de 1904 porque naquele dia ele saiu pela primeira vez com Nora Barnacle, futura Nora B. Joyce, a quem o bruxo dublinense havia conhecido no dia 10 e de quem recebera um “bolo” no dia 15. O que não se sabe com certeza é se foi mesmo naquela noite em que ela abriu a braguilha dele. Verdade, Joyce assim o afirma na carta a ela enviada em 03 de dezembro de 1909, na qual é acometido de masculina paranóia: você nunca, nunca, nunca havia sentido o pau de um homem ou de um garoto em seus dedos até desabotoar minha braguilha? Mas há quem diga, com boas razões, que a desabotoada de braguilha esteticamente mais produtiva da história da humanidade só ocorreu no dia 27 de agosto, pois afinal Nora Barnacle era senhorita séria. Naqueles idos, 18 anos antes da publicação de Ulisses, Joyce até que era boa pinta:

JJ_1904_curran.jpg

Há poucos, entre os que leram Ulisses, que não o considerem a mais radical, revolucionária, inovadora, brilhante, genial, surpreendente e escandalosa narrativa de ficção jamais escrita (foi o Sergio quem me elogiou dizendo que eu argumento antes de adjetivar? Eu não me canso de decepcionar os amigos...). Em todo caso, copio do meu post do ano passado:

A história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.

Em cada um dos 18 capítulos, aproximadamente uma hora de ação; em cada um, correspondências cheias de ironia com um episódio da Odisséia, de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, paranomásias, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas. Foi o romance que inventou essa coisa que hoje parece tão banal: o monólogo interior.

Publicado em 1922 e proibido como “pornográfico” nos EUA até 1933, Ulisses pode até não ser o maior livro jamais escrito, mas com certeza é a resposta mais produtiva à famosa perguntinha sobre qual livro levar à ilha deserta. "Eu coloquei nele tantos enigmas e quebra-cabeças que ele manterá os professores ocupados durante séculos", disse Joyce sobre a obra. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que ela dará trabalho por muito mais.

Portanto, hoje, pelo menos, não cometa a heresia de beber vinho. Saboreie uma boa Guinness (na falta dela, uma Bohemia ou Original) e, caso ainda não tenha lido Ulisses, pare de ler blogs ou jornais, que isso não leva a nada, e comece imediatamente. Não entre nesse papo de que é "difícil". Depois do INTROIBO AD ALTARE DEI a coisa flui que é uma beleza. Não se esqueça de dedicar ao neto de Joyce todo o amor que os atleticanos dedicamos a José Roberto Wright.

Aí vão alguns links que valem a pena neste Bloomsday 2007: em primeiríssimo lugar, a enxurrada de posts que vem por aí no Odisséia Literária. E, para quem lê inglês:

A incrível edição em hipertexto do romance.
Downloadable Ulysses, no Projeto Gutemberg.
Ulysses for Dummies, para quem não leu e “não quer passar vergonha”, como diz o Leandro.
Completíssimo portal sobre James Joyce.
Mapas, biografias, curiosidades, alusões e links relacionados à obra.
Recopilação histórica do Bloomsday.
Coleção de imagens relacionadas a Joyce.

PS: é um crime sujar o Bloomsday com um post scriptum destes, mas não resisto. A matéria do Estadão diz que Joyce influenciou "decisivamente o desenvolvimento da ´corrente de consciência´" (será que o rapaz quis dizer "fluxo de consciência" ou "monólogo interior"? Cynthia, forgive ´em, for they know not what they do), a coluna de Clóvis Rossi diz que "o mundo moderno transformou-se no que o escritor peruano Mário Vargas Llosa chama de ´sociedade do espetáculo´" e a Revista Bravo! caracteriza Philip K. Dick como "o autor de Blade Runner". Eu vou ali abrir uma Guinness. Happy Bloomsday.



  Escrito por Idelber às 03:35 | link para este post | Comentários (17)



sexta-feira, 15 de junho 2007

Plágio

plagio.gifO plágio é o tema da vez em alguns dos blogs pelos quais eu circulo. O Allan, do Carta da Itália, foi plagiado por outro blog. Recentemente, a Ticcia também foi. Ontem, o Rafael Galvão fez um post resumindo o que eu penso sobre o assunto mas, em todo caso, aqui vai um pitaco.

Entendo a raiva de quem encontra um texto seu copiado sem crédito. Eu, pessoalmente, nunca procurei saber se um texto do Biscoito foi plagiado em algum lugar. Recebi uma vez, por email, o meu ensaio sobre o Galo atribuído a Armando Nogueira e só aí me dei conta de que o texto havia dado várias voltas na internet e em caixas de correio com a falsa atribuição (da qual, obviamente, Mestre Armando não tem culpa nenhuma: trata-se de um daqueles fenômenos da cultura digital que a Corinha analisa num belo livro). Depois, vi que um balanço do governo Lula que escrevi a pedido do site InfoBrazil.com havia sido deturpado em alemão (publicado com crédito, mas em tradução parcial e grosseira); daí foi um pulo para alguns mal-entendidos em húngaro.

Vou esquentar a cabeça com isso? Se for, fico louco. Se tenho uma pesquisa em andamento, ainda não publicada em livro, pode ter certeza que ela não virá parar aqui no blog. Depois de publicada, eu, feliz da vida, colocaria a dita cuja por aqui, se não estivesse com isso violando a lei de direitos autorais – a lei mais caduca, decimonônica, atrasada e fora da realidade que existe por aí. Quando Roberto Carlos plagia a canção entregue a ele por uma fã e ganha, com isso, alguns milhões, faz coisa bem distinta – ética e legalmente -- do moleque que copia um texto seu para fazer um perfil no Orkut. Para começar, o ganho econômico com o fruto do plágio torna o caso uma operação bem diferente, pelo menos aos olhos da lei.

Não quero com isso sugerir que a indignação do plagiado não tenha razão de ser, embora eu ache que, muitas vezes, a obsessão com o tema é uma espécie de mecanismo de validação: “veja, já fui plagiado!”. Para quem gosta de falar em processos judiciais, seria interessante investigar se há algum precedente de condenação a alguém por fazer um copy / paste na internet. Suspeito que não. Isso não faz do plagiário um ser mais moral, obviamente, mas talvez ajude o plagiado a matizar um pouco sua indignação. Pessoalmente, acho que a denúncia com o link já é punição suficiente: na grande maioria dos casos, o plagiado tem tráfego infinitamente maior que o plagiador.

De novo: que nenhum plagiado, pelamor, sinta que sua raiva esteja aqui sendo desqualificada. O objetivo do post é só sublinhar a máxima do imortal filósofo Vicente Matheus que é a pauta ética deste blog: quem está na chuva é para se queimar.

Leituras recomendadas:

1.Polêmica argentina (ver os 19 textos linkados à direita) sobre o recente cancelamento do prêmio La Nación-Sudamericana a Bolivia construcciones, romance de Sergio Di Nucci no qual – depois da honraria concedida por um jurado de notáveis escritores – um muchacho de 19 anos descobriu nada menos que 30 páginas copiadas de Nada, romance da década de 1940 escrito pela espanhola Carmen Laforet. Nessas 30 páginas, Di Nucci se limitara a trocar os pronomes femininos pelos masculinos e substituir as palavras ibéricas que soariam inverossímeis no castelhano platense. Vale a pena acompanhar a discussão, bem mais interessante que qualquer uma que eu tenha visto aqui sobre o tema. Atenção especialmente à intervenção de Josefina Ludmer, a extraordinária sátira de Estanislao Figueroa, o duro ataque de Elsa Drucaroff, a resposta de Susana Santos e a cacetada final de Drucaroff.

2.A ideologia da propriedade intelectual (em pdf), notável texto de Túlio Vianna sobre o anacronismo das leis de copyright.



  Escrito por Idelber às 06:21 | link para este post | Comentários (33)



quarta-feira, 13 de junho 2007

Reforma Política

Vai começar hoje no Congresso o debate sobre a reforma política. Acabei de ler a gerigonça. As alianças contra e a favor do projeto são um verdadeiro angu de caroço. Nenhum partido tem posição unânime sobre o tema. Segundo a reportagem da Folha (link para assinantes), aproximadamente 60% das bancadas de PT, PMDB e PSDB e 80% do DEM (ex-PFL) apóiam o projeto. O leque de apoiadores vai de Ronaldo Caiado (DEM-GO) a José Dirceu. Não surpreende. Tal como está, o projeto interessa, fundamentalmente, aos caciques dos grandes partidos e aos atuais detentores de mandatos.

A partir da percepção correta de que a corrupção e o clientelismo são, em grande parte, produtos da fragilidade do sistema partidário brasileiro, as lideranças políticas do Congresso preparam uma reforma que é uma grande tunga na patuléia, como costuma dizer o Elio Gaspari. Os pontos mais polêmicos são a chamada “lista fechada”, a cláusula de barreira e o financiamento público de campanha.

O primeiro é de uma desfaçatez atroz e, no meu modo de ver, é o mais daninho dos componentes do projeto. Em português claro: o eleitor não teria mais o direito de eleger seus deputados e vereadores. Os votos dados a todos os candidatos de cada partido seriam somados e determinariam o número de vagas que caberia a esse partido no parlamento. Se o partido tiver direito a 30 cadeiras, entram os 30 primeiros candidatos de uma lista pré-definida por cada agremiação. Isso mesmo. Você, caro eleitor do PSDB, pode votar em André Montoro e eleger um Paulo Renato. Você, caro eleitor do PT, pode votar em Soninha Francine e eleger um Delúbio.

Na sua argumentação em favor do projeto, José Dirceu sugere que as listas seriam democraticamente definidas pelos filiados. Balela. Nem mesmo no PT – que, queiram ou não, é marcado por mais participação dos militantes nas decisões – é possível dizer que as listas não seriam fruto das manipulações da burocracia partidária. Na imprensa, Elio Gaspari (link para assinantes Folha-UOL) tem sido o mais ferrenho crítico do projeto. Alon Feuerwerker também é contra, com excelentes razões. A resposta de Dirceu à coluna de Gaspari não me convence. Afirma, por exemplo, que o fechamento de questão nas bancadas, com a conseqüente submissão da minoria à decisão da maioria, é prática universal em todos os partidos nos países democráticos. Uma rápida olhadela às votações dos Congressos americano ou europeus desmente a afirmativa de Dirceu.

Sou a favor de mecanismos severos que coíbam o troca-troca de partidos. Se esses mecanismos são os que estão presentes no projeto, é outra história. Também sou a favor de que se criem instrumentos para limitar a proliferação de legendas de aluguel. Tenho minhas dúvidas de que isso se realize com a chamada cláusula de barreira (que limita o funcionamento parlamentar apenas às legendas que, em cada eleição, obtiverem, no mínimo, 2% dos votos válidos, distribuídos em 1/3 ou mais dos estados, e que elejam, pelo menos, um representante em cinco desses estados). Sou a favor de medidas que coíbam a influência do dinheiro nas eleições. Sobre se o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais é o caminho eu também tenho minhas dúvidas.

Não chega a surpreender que um tema tão importante para o futuro da democracia não esteja sendo mais debatido, nem na mídia tradicional nem na blogosfera. Não tenho posição fechada sobre todos os aspectos do projeto e convido aos eruditos leitores do blog a que dêem seus pitacos. E olho no Congresso aí, pessoal.

PS. o post scriptum de hoje vai dedicado às leitoras: deliciem-se com "Tortura Moderna", essa hilária história de uma depilação.



  Escrito por Idelber às 05:10 | link para este post | Comentários (42)



terça-feira, 12 de junho 2007

Roberto Carlos processado por plágio

ipartituraerli1.jpg

Salvo engano deste blogueiro, a questão passou desapercebida da grande imprensa: depois de fazer fogueiras de Torquemada com a obra de um pesquisador sério, Roberto Carlos volta aos tribunais, desta vez como réu: "Traumas", gravada por Roberto e Erasmo em 1971, seria exatamente idêntica a uma canção composta pela professora de ensino municipal Erli Cabral Ribeiro Antunes e registrada por ela na Escola Nacional de Música sob o título de "Aquele amor tão grande". Depois de ser impedida pelos seguranças de se aproximar do Rei -- a quem queria entregar a canção -- Erli teria passado a fita ao saxofonista da banda, sob a promessa de que o material chegaria a Roberto. Estarrecida, ela ouviu a canção alguns meses depois, lançada sem qualquer crédito à sua autoria. Vale lembrar que Roberto Carlos já foi condenado por plágio a outro compositor (Sebastião Braga) em 1987.

Leiam a matéria completa.



  Escrito por Idelber às 08:19 | link para este post | Comentários (40)



segunda-feira, 11 de junho 2007

Sobre autonomia universitária

ufmg.jpg Um dos efeitos mais daninhos do recente imbróglio na USP é a confusão entre a autonomia universitária (consagrada pela constituição federal) e uma suposta “falta de prestação de contas” dos gastos da universidade. Eu já tratei do tema aqui, mas se um dos melhores blogs jornalísticos do Brasil insiste em reproduzir essa confusão, ela deve ser mais disseminada que eu imaginava. Volto ao assunto.

Nesse post do dia 24 de maio, o Alon perguntava: por que as universidades públicas devem ter autonomia absoluta para gastar o dinheiro do povo como bem entenderem? Nos comentários, pelo menos 5 leitores diferentes explicaram que autonomia universitária não é bem isso; que o Tribunal de Contas da União tem a prerrogativa de fiscalizar as contas das universidades e já o faz; que é simplesmente falso, em outras palavras, dizer que as universidades não prestam contas do uso do dinheiro do contribuinte (na máquina de distorções de Reinaldinho Azevedo, por exemplo, procurem alguma referência a essa já existente prestação de contas; não há. Os desavisados que o lêem acham que não existe fiscalização dos recursos repassados à USP).

Pois bem, apesar das explicações dos leitores do Alon terem sido claríssimas, no post de 7 de junho, relativizando o caso Trofim Lysenko, emblema do desastre que acontece quando as universidades são submetidas aos ditames do poder executivo, o Alon volta a sofismar: quantos prêmios Nobel tem a melhor universidade brasileira, a autônoma e rica USP, na qual ninguém pode colocar a mão? Nos comentários, ele explica sua posição: O cidadão que paga imposto (todos os cidadãos, portanto) tem o direito de influir no que a universidade faz. Se, por exemplo, a universidade enlouquecer e decidir colocar montanhas de dinheiro para pesquisar a guerrilha do Araguaia, eu quero saber como faço para tentar mudar essa prioridade. Eu acho, por exemplo, que a universidade investe muito menos do que deveria na pesquisa de uma vacina para a malária. E aí? Como é que fica a autonomia? . Em resposta, o leitor Paulo Araújo fez um excelente comentário: Você tem a percepção que a universidade faz menos do que deveria no campo dos estudos sobre a malária. Sua percepção está equivocada. Entre no Google com a expressão "vacina contra a malária". Tenho certeza que a sua percepção sobre o que é a pesquisa brasileira para erradicação da malária vai mudar para melhor. Talvez o Alon não conheça o trabalho que se faz na USP com a malária.

Tomemos o argumento dos Prêmios Nobel e depois falemos de autonomia. Parece que a diatribe de Alon contra a autonomia universitária repousa no fato de que a USP nunca ganhou um Prêmio Nobel. Limito-me aqui a fazer uma observação sobre a minha área, a literatura. Componhamos uma lista de escritores do século XX que nunca receberam um Prêmio Nobel? James Joyce, Marcel Proust, Franz Kafka, Robert Musil, Bertolt Brecht, Fernando Pessoa, Ezra Pound, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges. Em 1922, enquanto Joyce publicava Ulisses, o Prêmio Nobel foi dado a quem? Jacinto Benavente. Já leram? Tentem ler e depois me contem. A Guatemala tem um Prêmio Nobel de literatura, o Brasil não tem nenhum. Nem o guatemalteco mais patriota diria que sua literatura é superior à brasileira. O Chile tem dois Prêmios Nobel na área, a Argentina nenhum. Conheço meia Santiago e jamais encontrei um chileno que considerasse sua literatura superior à argentina. Pode ser que nas ciências a discrepância entre a premiação e a realidade não seja tão aguda. Mas convenhamos, não é um bom critério para se avaliar a universidade brasileira.

Mas suponhamos que seja. No país que é campeão em Prêmios Nobel, os EUA, jamais se levaria a sério o argumento de que as pautas de pesquisa da universidade devem ser definidas pelo “cidadão” (e incomoda-me que esta categoria seja reduzida a seu conteúdo fiscalista, ao ato de pagar impostos, porque daí para a conclusão de que quem paga mais deve ser mais “cidadão” que os outros é um pulo). Um dos segredos da pujança econômica dos EUA é o investimento maciço em ciência e tecnologia, refletido na força das suas 4.000 instituições de ensino superior. Não sou dos que acham que os EUA devem ser modelo para o Brasil em todos os casos, mas se o argumento é a relação entre Prêmios Nobel e autonomia universitária, aí, meu amigo, é só olhar o caso americano, onde a autonomia é sagrada. Imaginem um plebiscito entre os contribuintes para definir se a USP deve ou não continuar oferecendo cursos de sânscrito ou hebraico. Já dá para imaginar o resultado, não é? Agora imaginem 30 ou 40 plebiscitos assim e vocês têm a fórmula para destruir a melhor universidade da América Latina.

A educação é, sim, uma mercadoria – comprada ou subsidiada –, mas trata-se de uma mercadoria de caráter distinto às outras. Quando quero comprar um sapato, sei qual é o modelo que desejo. Imponho minha vontade ao vendedor. Se ele não tem o que procuro, vou a outra loja. Posso escolher, claro, a universidade em que quero estudar, mas por definição estou adquirindo um produto cujo conteúdo eu ainda não conheço. Por isso sou radicalmente contrário à “paridade” entre alunos, professores e funcionários nos órgãos decisórios da universidade (faço questão de incluir este argumento para que não se diga que eu concordo com tudo o que quer o movimento estudantil). Aluno não tem que ter paridade com professor coisa nenhuma. O dia em que o conteúdo dos meus cursos de literatura for matéria de plebiscito, eu pego meu boné e vou vender pipoca na esquina – ou quem sabe vá oferecer meus talentos de centroavante ao Glorioso das Minas Gerais, porque pior que Galvão ou Vanderlei eu tenho certeza que não sou, mesmo com meus 15 Carltons diários. Por sorte, onde eu trabalho isso é simplesmente inimaginável. Nos EUA não há jornalistas achando que devem ter o direito de definir as prioridades do Departamento de Imunologia da universidade.

Um exemplo prático? O nosso departamento de espanhol e português em Tulane – que está entre os melhores do país – acaba de perder uma colega na área conhecida como siglo de oro da literatura espanhola (que na verdade são quase dois séculos, que vão da década de 1520, quando Juan Boscán e Garcilaso de la Vega trazem o verso petrarquista de 11 sílabas à Espanha, até 1695, quando morre Sor Juana Inés de la Cruz). Somos inteiramente autônomos para definir que não queremos substituí-la com um outro siglodeorista, mas com um especialista na literatura contemporânea escrita por latinos nos EUA. Ninguém, nem outra instância universitária nem extra-universitária jamais dará um pio sobre essa decisão. Se ela estiver equivocada, nós pagamos o preço depois. A universidade se diferencia das outras instituições educacionais por ter tarefas não só de repassar e reproduzir o conhecimento já adquirido -- ensino -- mas também de produzir conhecimento novo: pesquisa. Esta não existe a não ser em situação de autonomia completa. O resto é colégio técnico, importante e essencial, mas com outras tarefas.

Nos comentários ao post do Alon, o leitor Paulo Araújo fez outra observação muito pertinente. Segundo ele, se há duas coisas que funcionam bem no Brasil, são o Itamaraty e a pesquisa em ciência e tecnologia (eu acrescentaria a Polícia Federal). Podem melhorar? Claro. Mas o que deve mudar no ensino superior brasileiro são outras coisas: por exemplo, investimento que garanta mais acesso da população à universidade. E, na minha opinião – heresia das heresias para setores do movimento estudantil e docente – um mecanismo salarial de incentivo à produtividade. Se eu decidisse voltar e trabalhar no Brasil, por exemplo, eu provavelmente entraria como Professor Adjunto IV (categoria reservada aos professores que têm doutorado) e ganharia o mesmíssimo salário se trabalhasse na UFMG, na UFRJ ou na UFTO. Não acho justo. Quem produz mais deve ganhar mais. É ruim que um Adjunto IV que publica um livro a cada quatro anos e meia dúzia de artigos por ano, orienta cinco teses, dá palestras no exterior e regularmente apresenta trabalhos em congressos ganhe o mesmo salário de um Adjunto IV que vai à universidade, dá suas aulas e volta pra casa. Nesse ponto eu estou de acordo com os críticos do movimento docente.

Mas quanto à autonomia, deixemos de dizer inverdades sobre ela. Os gastos das universidades são escrutinados. Melhorar a universidade pública brasileira não é tarefa para um tribunal de Torquemada. Eu já mencionei que o Tribunal de Contas da União fiscaliza os gastos das universidades? Por que aqueles que dizem que a universidade “não quer prestar contas” continuam omitindo este fato? A melhoria da universidade pública brasileira tem a ver com incrementar investimentos, garantir acesso e recompensar quem produz. A pesquisa que se faz ali já é, sim, de altíssima qualidade. Digo isso com a tranqüilidade de quem não é parte dela.

Foto: Campus da UFMG.

Atualização: O Alon respondeu. Vale a pena conferir.



  Escrito por Idelber às 06:28 | link para este post | Comentários (37)



quinta-feira, 07 de junho 2007

Gosto se discute (post republicado)

Este post já foi publicado antes; mas como faz mais de dois anos da postagem original, o tema é divertido e eu senti vontade de lhes deixar algo para que se entretenham enquanto pego o avião, aí vai a brincadeirinha de novo. Não é exatamente o mesmo post, porque alguns dos meus gostos já mudaram.

Meus favoritos:

Comida: 1. indiana; 2. árabe; 3. gaúcha/pampeana; 4. caribenha (incluindo a cajun); 5. mineira; 6. italiana; 7. vietnamita.

Carros: japoneses.

Cinema: italiano (tem um frescor e uma leveza tão próprios, mesmo quando se trata de drama ou tragédia).

Teatro: 1. alemão (sim, de Bertolt Brecht até Heiner Müller, é o teatro que mais me impressionou até hoje); 2. inglês.

Conto: argentino.

Romance: 1. anglo-americano (a quantidade de coisas de qualidade é impressionante, mesmo que o seja também a quantidade de porcarias); 2. argentino; 3. francês.

Religiões: marcianas (piores que as terráqueas não podem ser).

Música: 1. brasileira; 2. estadunidense; 3. cubana.

Poesia: 1. francesa, apesar de que a maior parte do meu tempo vai para a leitura da brasileira; 2. chilena; 3. portuguesa.

Televisão: nenhuma.

Cervejas: 1. inglesas; 2. alemãs; 3. de Wisconsin, USA; 4. tchecas.

Mulheres: 1. brasileiras; 2. brasileiras; 3. brasileiras.

Pronto. Podem acrescentar ou quebrar o pau.



  Escrito por Idelber às 00:06 | link para este post | Comentários (17)



quarta-feira, 06 de junho 2007

Links argentinos

wasabi.jpg Em meio a malas e encomendas, mando-lhes alguns links sobre a melhor prosa de ficção do mundo:

A mí me gustaría escribir un poco más normal: baixe aqui o vídeo de uma entrevista de 50 minutos com o originalíssimo César Aira, autor de mais de 40 livros e de uma ética singular: escrever uma página por dia, sempre. A entrevista foi feita no Chile (Via Linkillo).

Saiu ano passado na Argentina outro romance de Martín Kohan, cujo genial Duas vezes junho foi discutido aqui no Biscoito (em impecável versão ao português de Marcelo Barbão). O novo livro se intitula Museo de la revolución; dele gostei mais ainda que da obra que debatemos aqui. Alô, tradutores brasileiros, tá demorando!

À próxima edição da Flip vêm dois argentinos: Rodrigo Fresán, autor de uma literatura mais pop, e Alan Pauls, escritor ultra-refinado, de prosa burilada, ao melhor estilo argentino. Dos quatro romances de Pauls, só estava disponível no Brasil, até agora, o Wasabi. Sai em breve Acaba de sair (valeu a correção, Rodrigo), pela CosacNaify, a obra prima El pasado, ganhadora do prêmio Herralde de romance e comparada a Proust e Nabokov. A mesa com Pauls e Maria Rita Kehl em Parati é imperdível.

Deixo três dicas ao eventual editor que esteja lendo. Entre os muitos escritores argentinos que merecem tradução imediata, o blog recomenda três com muita ênfase:

1) Sérgio Chejfec, autor de pelo menos quatro romances indispensáveis; um deles traz um dos meus títulos favoritos em toda a literatura: Lenta biografia. Seu Boca de lobo é a prova de que ainda é possível escrever romances sobre a classe trabalhadora sem cair no populismo ou no panfleto.

2) minha última descoberta e paixão, Juan José Becerra, autor de romances nos quais acontece muito pouca coisa, mas onde o debruçar-se sobre as migalhas da experiência sempre leva a uma espécie de iluminação profana, dessas que só a literatura pode proporcionar.

3) Gustavo Ferreyra, autor de romances em que seres de crueldade inimaginável movem-se (e são descritos pelo narrador) como se fossem paradigmas da mais absoluta normalidade. Coisa insólita, terrorífica. De Ferreyra o blog recomenda os romances Vértice e Desamparo. Da mulher de Ferreyra é a declaração, dada depois da leitura de um dos seus livros: eu sou casada com um monstro e não sabia!

Para terminar, dois links a blogs indispensáveis para acompanhar o debate cultural argentino: Últimas de Babel e o coletivo Nación Apache.

Pronto! Aí há links para dois dias. O próximo post lhes chega de BH.



  Escrito por Idelber às 03:18 | link para este post | Comentários (12)



domingo, 03 de junho 2007

Aviso

Na quinta-feira eu pego o avião para Belo Horizonte. Durante os próximos três meses, o Biscoito transmite aí do Brasil, entre BH e Recife (com a exceção de um curto período em que eu estarei no Chile). As atualizações, portanto, devem sofrer um pouco durante esta semana.

No mês de maio, o Biscoito teve 156.560 pageviews, média superior a 5.000 por dia. A casa deixa o agradecimento pela preferência e promete manter, logo que eu estiver instalado em BH, o ritmo mais acelerado de atualizações que tem caracterizado o blog nas últimas duas semanas.

Enquanto isso, deixo com vocês o belíssimo clip da canção “Balada para Robert Johnson”, incluída no novo disco de Flávio Guimarães, Blues Etílicos. A letra é de Bráulio Tavares e a canção é interpretada pelo violeiro e repentista Sebastião da Silva. A dica é de Beth Salgueiro:

PS: o post scriptum de hoje deixa uma declaração de votos de boa sorte ao NoMínimo que, segundo informam os editores, corre o perigo de fechar por falta de patrocínio.



  Escrito por Idelber às 23:21 | link para este post | Comentários (28)



sábado, 02 de junho 2007

Uma crítica contundente e uma resposta insatisfatória

vania.gif Minha amiga Helena Costa deu um show de análise da imprensa nesta semana. O objeto foi a matéria intitulada "Risco de favelização", publicada n'O Globo do dia 20 de maio e dedicada às reivindicações das comunidades quilombolas da Ilha de Marambaia, no Rio de Janeiro. Em 1971 a Marinha brasileira, por cessão da ditadura militar, instalou na região o Centro de Adestramento da Ilha de Marambaia (Cadim), apontado pelas comunidades locais como responsável pela violação de direitos tão básicos como o de ir e vir ou de privacidade de correspondência.

A matéria d'O Globo definia as populações locais como supostos descendentes de quilombolas que reivindicavam um direito que dizem ter. Na verdade, quem diz que essas populações têm o direito sobre a terra é o decreto 4.887, promulgado no primeiro ano do governo Lula, 2003. Helê também demonstra que a matéria realiza uma curiosa mudança na forma de medir terras. Cito do artigo de Helê:

Em matérias sobre disputas de terra é mais comum utilizar hectare como medida. Metros quadrados, entretanto, parecem mais adequados quando podem ser contados aos milhões, claro. Mais adequado ainda quando convertidos em curiosa e incomum unidade de medida: maracanãs. A legenda informa que o território requerido pelos quilombolas equivale a setenta daquele que ainda hoje é tido com o maior estádio do mundo.

Se a comparação se refere às dimensões do campo de futebol, qualquer estádio oficial serviria como metáfora. Mais simples: 70 campos de futebol são suficientes para expressar a idéia que se quer passar de muita terra para pouca gente. Mas pra indignar o leitor contra os "supostos" são necessários drama e hipérbole, imagens mentais tão grandiosas quanto a foto da capa.

Helê apresenta uma série de outros argumentos contundentes que demonstram a manipulação. Fatos -- como a ascendência quilombola das populações locais ou o seu direito sobre a terra -- são apresentados como "supostos", como algo que eles "dizem ter". Suposições feitas pela Marinha -- como o tão decantado "risco de favelização" -- são utilizadas no título e na descrição do assunto, como se fossem fatos. Em outras palavras, Helê demonstra, com um show de análise retórica, que a matéria expressava, pura e simplesmente, o ponto de vista da Marinha.

A resposta de Paulo Motta, editor de Rio d'O Globo, é um arrazoado de grosserias (como as do primeiro e do último parágrafos), inconsistências lógicas, non sequiturs, generalizações, falsos silogismos e analogias enganosas. No que contém de substantivo, a resposta se limita a dizer que há outras matérias anteriores d'O Globo onde a perspectiva dos quilombolas é contemplada; que o jornal não havia tido acesso ao ponto de vista da Marinha; que só agora esta havia se manifestado e que As afirmações da Marinha, obviamente, não são de nossa responsabilidade, bem como não eram as dos quilombolas, das ONGs, do MP e do Incra .

Apresentar o ponto de vista da Marinha neste caso é obrigação jornalística. Apresentar suposições da Marinha como se fossem fatos já demonstra manipulação. Utilizar o sintagma "que dizem ter" para referir-se ao direito das populações sobre a terra é, pura e simplesmente, uma falsidade. E, sobre a utilização do Maracanã -- por que não o campo da Rua Bariri? -- como unidade de medida de terras, acredito que não seja necessário dizer mais nada.

Na verdade, a exemplo da surra que levou Ali "Não Somos Racistas" Kamel dos leitores do Observatório da Imprensa na época das grosseiras manipulações eleitoreiras da Globo, o texto de Paulo Motta pressupõe um leitor Homer Simpson: alguém que não saiba diferenciar entre ouvir e apresentar um ponto de vista e escrever a matéria a partir daquele ponto de vista, como se ele fosse o único e verdadeiro. Claramente, o leitor que Paulo Motta é capaz de imaginar não é o leitor do Observatório da Imprensa.

Para piorar, o jornalista desenterra matérias de 2002 para sugerir que Helê deve se preocupar em ter um mínimo de informações sobre o conteúdo do que vai analisar , como se o fato de que um veículo de mídia tenha coberto com isenção a eleição de, digamos, 1960 justificasse a manipulação de fatos referentes à eleição de, digamos, 1989. Para justificar o tendencioso título "Risco de favelização", o jornalista Paulo Motta nos sai com esta pérola: é fato que áreas ocupadas por instalações militares [...] têm estado livres da favelização e da especulação imobiliária. A frase implicitamente oferece uma solução para o problema de todas as favelas, não é mesmo?

Mas a passagem mais cômica do texto de Paulo Motta -- que, prometeu ele no primeiro parágrafo, seria, ao contrário do de Helê, "breve e substantivo" -- vem no miolo da pseudo-argumentação. Referindo-se às Organizações Globo, ele diz: Não manipulamos informação, não ajudamos a construir estereótipos e não reativamos preconceitos.

Alguém acredita?



  Escrito por Idelber às 02:38 | link para este post | Comentários (18)