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segunda-feira, 25 de junho 2007
A Fapesp deve explicações
Viu-se na semana passada mais um exemplo da forma irresponsável e caluniosa de se fazer política própria a alguns colunistas da Revista Veja. Uma pesquisa coordenada pelas Profs. Stella Pereira de Almeida e Maria Teresa de Araújo Silva (cujos currículos podem ser vistos aqui e aqui) levou à confecção de folhetos informativos dirigidos a usuários de ecstasy, como parte de um projeto intitulado Baladaboa. Ancorado en anos de investigações em Neurociências e Psicologia Experimental, o projeto maneja o modelo conhecido como redução de danos, que parte da premissa de que em situações de dependência química, é importante trabalhar com o fato de que a droga será consumida, reduzir ao máximo os riscos à saúde do dependente, orientá-lo médica e higienicamente e, a partir daí, estabelecer uma intervenção preventiva. A Prof. Stella dedicou ao tema nada menos que sua tese de doutorado.
Pois bem, um dos panfletos informativos produzidos sob a supervisão dessas especialistas cai nas mãos de Reinaldinho Azevedo da Veja. Inicia-se o linchamento das professoras, acusadas de “gastar dinheiro público incentivando o consumo de drogas”. Na caixa de comentários do dito cujo – que, até que comece a linkar aqueles a quem ataca, será aqui nomeado sem link – começa uma verdadeira chuva de impropérios contra as professoras, inclusive com acusações graves, judicialmente defíniveis como calúnias ou injúrias. Resultado? Algumas horas depois, Fernando Cunha, o assessor de comunicação da agência financiadora, a Fapesp, avisa a ele, mas não às professoras, que o financiamento do projeto estava suspenso. A comunicação enviada é um verdadeiro documento do perigo que se corre com a fábrica de calúnias montada no portal da Revista Veja:
Prezado Reinaldo Azevedo,
Envio Nota Oficial da FAPESP sobre a notícia “Dinheiro público, da Fapesp, é usado para ensinar o ‘consumo responsável’ de ecstasy. Sim, você leu direito!”, publicada em seu blog.
Um abraço,
Fernando Cunha
FAPESP
Assessor de Comunicação
ÍNTEGRA DA NOTA
Dada a gravidade das denúncias veiculadas pela imprensa, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, determinou a imediata suspensão da liberação de recursos para o projeto de pesquisa "Implantação e avaliação de programa de redução de danos para o uso de Ecstasy na cidade de São Paulo" até que sejam averiguados completamente os fatos denunciados.
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP
18/6/2007
O Sr. Reinaldinho Azevedo -- que já se cansou de escrever estrema-esquerda em seu blog, mas tem como passatempo predileto corrigir o português alheio para desqualificar o interlocutor -- acha que é capaz de julgar o mérito do trabalho acadêmico de duas pesquisadoras de neurociências a partir da leitura de um título ou de um panfleto. Sobre a imensa hipocrisia de um liberal que brande consignas individualistas quando lhe convém, mas escuda-se na tutela de uma mera portaria ministerial para demonizar qualquer tratamento mais sensato da questão das drogas ilegais, o meu amigo Gravataí Merengue já disse tudo. Sobre a tremenda incoerência do incendiário que volta atrás e tenta apagar o próprio incêndio quando se dá conta de que a agência financiadora do projeto é de um estado governado por seu querido PSDB, o Hermenauta já disse tudo. Sobre a fábrica de calúnias armada no portal da Veja e o dano provocado neste caso, Luis Nassif também já disse o necessário.
Eu, de minha parte, acrescento que não sou competente para julgar se a política de redução de danos – ancorada em anos de pesquisa das Profs. Stella e Maria Teresa – já deu ou dará resultados. Mas sei ler currículos e sei reconhecer duas pesquisadoras sérias quando as vejo. E também sei reconhecer um canalha quando o vejo. Também sei que, em qualquer área do conhecimento, até que você tenha a oportunidade de pesquisar, ora ora, é impossível saber.
Por isso, acho que a Fapesp deve explicações sobre a suspensão deste projeto sem qualquer motivo que não o incêndio criminoso armado por um ex-monitor de química que acha que pode julgar doutoras e lançar turbas de fanáticos para caluniar uma equipe de pesquisa. Que tal uma singela e educada consulta? O email da ouvidoria da Fapesp é ouvidoria@trieste.fapesp.br.
PS: O amigo Marcos VP me chama para mais um meme, perguntando se acho que existe competição na blogosfera. Acho que existe, sim, como em qualquer lugar. Mas, como em qualquer área, quem está tranqüilo com o que faz não costuma se preocupar muito com isso. Aí estão vários excelentes blogs, como o do próprio Marcos VP, para confirmar.
PS 2: Biajoni acaba de ganhar importantíssimo processo contra a Fiat. Parabéns!
Escrito por Idelber às 00:21 | link para este post
| Comentários (21)
#1
O pior foi o cara ter voltado atrás.
O inho da Veja pode falar o que quiser (sem ferir a lei), inclusive mentiras divertidas. O que não dá é um burocrata cair no conto do polemista.
Na minha opinião esse cara é uma baita de uma mulherzinha.
Bender em junho 25, 2007 8:38 AM
#2
A única forma de parar a Veja é atrolhá-la com processos jurídicos bem onerosos.
Foi assim que a RBS foi obrigada a demitir um de seus jornalistas mais Reinaldo Azevedo que conheci.
Profs. Stella e Maria Tereza, por favor, juntem documentação e processem a revista. Suas carreiras estão sendo jogadas na sarjeta por um desqualificado. Peçam uma bela grana e sigam competentes e capitalizadas pelos idiotas.
Abraços.
Milton Ribeiro em junho 25, 2007 10:29 AM
#3
Sobre a sugestão do Milton, que eu endosso totalmente, há, no blog do Nassif, um interessante post sobre o "custo/benefício" da calúnia. Segundo Nassif, a Veja continua perdendo, semanalmente, processos judiciais por injúria, difamação ou calúnia, mas mantém a tática. Deve ser porque vale a pena economicamente. O que não significa, repito, que eu não endosse a sugestão do Milton. Só acho que as condenações deveriam incluir direito de resposta com espaço, na revista, proporcional ao texto causador do dolo. Pagar 20 ou 30 mil em danos, para a Veja, é troco.
Idelber em junho 25, 2007 10:46 AM
#4
Sinceramente, direi a mesma coisa que já disse no Hermenauta: como esse fulano consegue ser lido? Já tentei acessar algumas vezes o blog dele, segundo indicações de blogueiros que respeito muito. Mas só vejo por lá asneiras!
Sou completamente ignorante no assunto 'reinaldo azevedo'. Não entendo como é dada tanta atenção a uma voz que pronuncia tantas asneiras...
catatau em junho 25, 2007 11:00 AM
#5
Claro, o valor teria de ser maior e com direito de resposta, o que "sujaria" a revista. A jogada da calúnia tem que tornar-se um mau negócio.
Milton Ribeiro em junho 25, 2007 12:09 PM
#6
no dia em que pulhas como esse reinaldo começarem a definir as agendas de pesquisa das universidades eu pego o meu chapéu e me retiro. vou viver de cozinhar; algo para o qual já tenho alguma estrada. e concordo com você e o milton: tem que ter processo com direito de resposta em cima dos caras. bj
cris em junho 25, 2007 1:09 PM
#7
Caro Idelber
Embora com atraso, agradeço sua visita e link ao meu blog. Fiquei honrada.
Confesso que ao ler seu post sobre a ocupação na USP terminei não comentando porque me senti na obrigação de escrever algo mais elaborado. Mas a falta de tempo termina por corroer algumas tarefas. Foi-se o momento.
Parabéns pelo blog (ainda não consegui lê-lo por completo: sinal de sua densidade).
Estou acompanhando-o pelo Technorati.
Aguardo-o suas visitas também.
Abraços
Cintia em junho 25, 2007 4:59 PM
#8
O que é isso, decidir sem avaliação por pares, inquérito administrativo ou coisa parecida? E olha que a Fapesp não mudou de subordinação como o Serra queria, imagina se mudasse. Qualquer maledicência de colunista da Veja iria servir pra suspender pesquisas ou demitir pesquisadores.
Todo pesquisador que mexe com temas polêmicos sofre perseguição de gente tacanha. Vide Albert Kinsey.
Te em junho 25, 2007 5:18 PM
#9
Pessoal: cheguei em Buenos Aires. A conexão está muito boa aqui no hotel. Quem sabe até dê para fazer um post hoje à noite, se eu não me empanturrar de carne a ponto de perder a lucidez.
A notícia boa é que o Biscoito foi destaque lá no blog do Noblat hoje. Muita gente chegando de lá.
Cintia, obrigado por este primeiro comentário seu aqui; volte sempre e mantenhamos o contato. Senti muita identificação com o seu blog, ao qual continuarei atento.
Abração a você e ao resto da turma, que já é de casa.
Idelber em junho 25, 2007 6:03 PM
#10
Professor,
Reinaldinho agora inventou uma Cruzada contra a Universidade de São Paulo. Julgando prestar um serviço à sociedade, tem atacado sistematicamente inúmeros professores da USP agindo quase que exatamente da mesma forma como fez com as duas ilustres professoras.
Ainda esses dias, num post (cujo link não darei, seguindo sua atitude corretíssima) que não prima pela boa educação e pelo respeito, Reinaldinho insultou gravemente a professora-doutora Ana Fani Carlos, uma das geógrafas mais respeitadas do DG-FFLCH, baseado em platitudes que extraiu de dois títulos de dissertações de alunos da professora. Conhecendo Reinaldinho, você deve saber o nível do post e das opiniões - inclusive de sua torcida organizada nos comentários.
A ignorância é tamanha que ao dizer que a professora é "especialista em espaço", pensou estar fazendo uma piada qualquer (de um humor barato e podre), quando, na verdade, não faz a menor idéia da estultice que acabara de cometer.
Alguém precisa pôr um freio nesse senhor, Professor. Em um lugar correto, esse senhor, sua corja e o veículo de informação que lhe dá suporte, já teriam sido chamados a responder judicialmente com relação a esses ataques infames e difamadores.
Perdoe o desabafo, mas o Reinaldinho e os seus costumam me tirar do sério.
Abraços, Idelber.
Thiago em junho 25, 2007 6:28 PM
#11
Reinaldo Azedo é divertido, Idelber. De vez em quando leio suas sandices. Se mete a entender de tudo. Seu maior argumento para desqualificar Lula como presidente é "porque ele não leu Aristóteles".
E ele deve inventar comentaristas nos seus posts - muitos são anônimos, nenhum tem e-mail ou blog.
Serbão em junho 25, 2007 7:35 PM
#12
Caramba, eu nunca tinha parado p/ ler esse Reinaldo Azevedo. Chega a ser cômico de tão ruim. Não sei o que o enfureceu tanto na USP para ele querer detoná-la dessa maneira, mas os argumentos dele são ridículos. Como um cara que num post reclama tanto da classificação indicativa, dizendo que é censura prévia, resolve, no post seguinte, determinar o que é e o que não é tema "sério" para pesquisa da Universidade?
A coisa que ele mais curte, aparentemente, é quando alguém coloca vírgula entre o sujeito e o predicado, que aí ele pode detonar à vontade, na falta de outra coisa para detonar. Ele insiste tanto nisso ao longo dos posts que eu, fiquei com vontade de usar vírgula entre o sujeito e o predicado só para aporrinhar.
Daniel em junho 25, 2007 8:53 PM
#13
Idelber,
Honrado com a presença do Blog do Galinho nos links do Biscoito, gostaria de colocar duas coisas:
1) O Nassif publicou a pouco uma troca de correspondências entre a professoara Maria Teresa e o dr. Drauzio Varela acerca dos flyers produzidos, objetos da escrita odiosa do neofacista reinaldinho. É sempre bom ver gente civilizada comversando.
2) Por formação política e credo humano defendo à morte o livre direito de expressão, independentemente da minha concordância ou não com pontos de vista expostos. Nesse sentido, habituei-me a ler o que todas as correntes políticas produzem, desde Cesar Maia a Mangabeira Unger -pra falar da cena política brasileira. Fui leitor assíduo da Primeira Leitura, até o seu fim. Cheguei a incluir o reinaldinho nos links do meu blog. E confesso que me sinto derrotado pela imposição dos fatos, trata-se de um dos piores exemplos de jornalismo desde Lacerda, revelando diariamente uma abordagem que passa em muito os limites da ideologia: é má-fé mesmo e assim sendo desisto do gesto democrático de linkar a quem não concordo mas teria o maior prazer de manter a decisão se visse honestidade intelectual contribuindo para o bom debate.
3) A Fapesp deve explicações sim, vou nessa direção também. Isso vale a pena fazer, gastar teclas com o reinaldinho não.
paulo galo em junho 25, 2007 11:33 PM
#14
hehehehe, gostei dessa do Daniel: utilizemos todos vírgulas entre sujeito e predicado, só para aporrinhar!
Thiago, desabafe à vontade, cumpadi.
Pois é, Serbão, sabe que às vezes fico pensando nisso também? Que monte de gente sem nome próprio, sem email e sem blog!
paulo, um dos bons saldos dessa coisa toda foi que o blog do Nassif deu um salto, ele deu uma "acordada".
Abraços,
Idelber, exausto e empanturrado de carne em Buenos Aires em junho 25, 2007 11:39 PM
#15
Idelber
O mais grave ao meu ver é a acusação de apologia ao uso de drogas.
André Kenji em junho 26, 2007 2:51 AM
#16
Caro Idelber
Aparentemente, e paradoxalmente, este Reinaldo Azevedo só vem se fortalecendo!
Paulo em junho 26, 2007 6:51 AM
#17
Putz, a Veja dá nó na garganta e embrulha o estômago. Os seus "articulistas" são de matar. Idelber, só tenho a agradecer a você, cujo blog proporciona sempre debates inteligentes e de conteúdo mais que civilizado. É saudável.
Ananda em junho 26, 2007 11:19 AM
#18
Gostei da maneira como vc se referiu à ele: canalha. Temos de radicalizar, Idelber. A canalhada não pode mais continuar mandando e desmandando nesse país. Pau neles!
Bruno Ribeiro em junho 28, 2007 6:50 PM
#19
Pois é Idelber, ñ tem como ñ ficar indignada com essa situação...é vergonhosa!!!!
Isso só prova o qto precisamos estar atentos com a manipulação de informações exercida diariamente pela imprensa escrita e falada, não é?
Um abraço
Lene em junho 30, 2007 4:26 PM
#20
Fico pasma com o que se chama 'jornalismo' e, meu amigo, o futuro não é lá muito promissor com o que tenho visto nas universidades.
Alena em julho 2, 2007 8:56 PM
#21
Reinaldinho não se cansa mesmo de suas sandices. Isso porque ele é um vagabundo que não faz nada o dia inteiro e fica delirando em suas teses paranóicas sobre os assuntos do dia. É o exemplo maior de reacionarismo e subserviência de classe hoje na imprensa tupiniquim. Pelo menos esta no lugar certo q é a Veja (q mentira).
João Humberto Venturini em julho 3, 2007 9:40 PM
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