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sábado, 16 de junho 2007

Bloomsday 2007

jj.laughtears.jpg Salve, joyceanos; salve, Irlanda; salve, bebedores de cerveja de todo o mundo! É hoje! Em primeiro lugar, cabe avisar que no Bloomsday tupiniquim, já é de praxe – lá se vão três anos -- acompanhar a fabulosa cobertura do Leandro Oliveira no seu Odisséia Literária. O blog do Leandro estará fervilhando de posts durante todo o sábado.

É sabido que a ação de Ulisses, de James Joyce, tem lugar em 16 de junho de 1904 porque naquele dia ele saiu pela primeira vez com Nora Barnacle, futura Nora B. Joyce, a quem o bruxo dublinense havia conhecido no dia 10 e de quem recebera um “bolo” no dia 15. O que não se sabe com certeza é se foi mesmo naquela noite em que ela abriu a braguilha dele. Verdade, Joyce assim o afirma na carta a ela enviada em 03 de dezembro de 1909, na qual é acometido de masculina paranóia: você nunca, nunca, nunca havia sentido o pau de um homem ou de um garoto em seus dedos até desabotoar minha braguilha? Mas há quem diga, com boas razões, que a desabotoada de braguilha esteticamente mais produtiva da história da humanidade só ocorreu no dia 27 de agosto, pois afinal Nora Barnacle era senhorita séria. Naqueles idos, 18 anos antes da publicação de Ulisses, Joyce até que era boa pinta:

JJ_1904_curran.jpg

Há poucos, entre os que leram Ulisses, que não o considerem a mais radical, revolucionária, inovadora, brilhante, genial, surpreendente e escandalosa narrativa de ficção jamais escrita (foi o Sergio quem me elogiou dizendo que eu argumento antes de adjetivar? Eu não me canso de decepcionar os amigos...). Em todo caso, copio do meu post do ano passado:

A história? Nada mais banal. No dia 16 de junho de 1904, Stephen Dedalus, professor de escola secundária, conversa com seu amigo Buck Mulligan, dá uma aula e passeia no rio; Leopold Bloom, vendedor, atormentado por uma possível traição de Molly, sua mulher, toma café da manhã, recebe uma carta de amor endereçada ao seu alter-ego, vai a um funeral, visita um editor de jornal, lancha num bar, olha um anúncio de jornal na biblioteca (enquanto Dedalus discute Shakespeare com amigos), responde a carta recebida, leva porrada de um anti-semita, masturba-se observando duas garotas, encontra-se com Dedalus num hospital, leva-o a um bordel e convence-o a acompanhá-lo até a sua casa; ambos urinam no jardim, Bloom entra e se deita ao lado de Molly, que fecha o romance com um monólogo cheio de pornografia. Fim da história.

Em cada um dos 18 capítulos, aproximadamente uma hora de ação; em cada um, correspondências cheias de ironia com um episódio da Odisséia, de Homero; em cada um, um sistema detalhado de referências a uma ciência ou ramo do conhecimento; em cada um, uma parte do corpo alçada a símbolo; em cada um, uma infinidade de enigmas, jogos de palavras, paródias, trocadilhos, paranomásias, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos e todas as operações com a linguagem que você puder imaginar e mais algumas. Foi o romance que inventou essa coisa que hoje parece tão banal: o monólogo interior.

Publicado em 1922 e proibido como “pornográfico” nos EUA até 1933, Ulisses pode até não ser o maior livro jamais escrito, mas com certeza é a resposta mais produtiva à famosa perguntinha sobre qual livro levar à ilha deserta. "Eu coloquei nele tantos enigmas e quebra-cabeças que ele manterá os professores ocupados durante séculos", disse Joyce sobre a obra. Menos de 100 anos se passaram, mas já se sabe que ela dará trabalho por muito mais.

Portanto, hoje, pelo menos, não cometa a heresia de beber vinho. Saboreie uma boa Guinness (na falta dela, uma Bohemia ou Original) e, caso ainda não tenha lido Ulisses, pare de ler blogs ou jornais, que isso não leva a nada, e comece imediatamente. Não entre nesse papo de que é "difícil". Depois do INTROIBO AD ALTARE DEI a coisa flui que é uma beleza. Não se esqueça de dedicar ao neto de Joyce todo o amor que os atleticanos dedicamos a José Roberto Wright.

Aí vão alguns links que valem a pena neste Bloomsday 2007: em primeiríssimo lugar, a enxurrada de posts que vem por aí no Odisséia Literária. E, para quem lê inglês:

A incrível edição em hipertexto do romance.
Downloadable Ulysses, no Projeto Gutemberg.
Ulysses for Dummies, para quem não leu e “não quer passar vergonha”, como diz o Leandro.
Completíssimo portal sobre James Joyce.
Mapas, biografias, curiosidades, alusões e links relacionados à obra.
Recopilação histórica do Bloomsday.
Coleção de imagens relacionadas a Joyce.

PS: é um crime sujar o Bloomsday com um post scriptum destes, mas não resisto. A matéria do Estadão diz que Joyce influenciou "decisivamente o desenvolvimento da ´corrente de consciência´" (será que o rapaz quis dizer "fluxo de consciência" ou "monólogo interior"? Cynthia, forgive ´em, for they know not what they do), a coluna de Clóvis Rossi diz que "o mundo moderno transformou-se no que o escritor peruano Mário Vargas Llosa chama de ´sociedade do espetáculo´" e a Revista Bravo! caracteriza Philip K. Dick como "o autor de Blade Runner". Eu vou ali abrir uma Guinness. Happy Bloomsday.



  Escrito por Idelber às 03:35 | link para este post | Comentários (17)


Comentários

#1

naõ comentarei...seria heresia.
jamais cometeria tal asneira. valeu a aula. vou clicar em algumas indicações, manter viva a minha paixão pelo livro, e seguir o conselho maior: - tomar uma cerveja!
bom fim de semana, e um abraço...

marilia em junho 16, 2007 11:47 AM


#2

E Clovis Rossi é um dos baluartes da mídia brasileira!!!
É o ABC da Miséria Brasileira.

Renzi em junho 16, 2007 12:44 PM


#3

Happy Bloomsday, Professor.

*brinda a Guinness*

=D

Thiago em junho 16, 2007 1:50 PM


#4

Excelente a dica etílico-literária.

Quanto à literatura não posso fazer comentários porque não tenho "bala". Mas seguirei o conselho.

Quanto à bebida, realmente eu tomaria um vinho hoje. Porém vou substituí-lo por duas Bohemias que já estão geladeira há alguns dias. Para que a cerveja fique mais cremosa não é bom botar no "freezer", é melhor deixar gelar lentamente na geladeira. Se estiver muito calor, pode-se dar um reforço no "freezer" alguns minutos antes de beber.

Saudações democráticas.

Ricardo Petrucci Souto em junho 16, 2007 4:29 PM


#5

Sobre a origem do termo "sociedade do espetáculo", aqui vai uma boa dica.

Idelber em junho 16, 2007 5:37 PM


#6

Não vou defender Clóvis Rossi, mas só informar-lhe de que Llosa deu uma entrevista à Folha uns dias atrás falando sobre a "sociedade do espetáculo". Assim, Rossi não faz referência à origem do termo, mas apenas repercute a entrevista. Seria melhor ele ter se referido ao que "Llosa «chamou» há uns dias de...", mas, enfim, ele não "é" tão ignorante assim.

Adriano em junho 16, 2007 10:07 PM


#7

Estava em NYC neste dia, em 2003 ? Queria ir para ver alguns atores de dramas da Broadway cujas atuações conhecia. Fui dissuadida. Seria até o nascer do dia... Blabla.

Há muito tempo o Poeta Laureado insistia que eu lesse o Ulysses. Mais exatamente desde 1970. O Proust retraduzido para o inglês li e gostei muito. Ulysses? É difícil com as interrupções do cotidiano. As dicas eletrônicas ajudam. Verei. Aliás, seu queixume disfarçado sobre a Net está em Mastodonte É uma resenha boa de um "Veterano da Net" -- oxímoro máximo.

tina oiticica harris em junho 16, 2007 10:26 PM


#8

Põ... rendeu, esse post seu rendeu um bom passeio pelas Dublins virtuais...

obrigada!
lulu

lulu em junho 17, 2007 1:24 AM


#9

Adriano, que conste, eu adoro o Rossi. Mas acho que o presente do indicativo ali não deixa dúvidas sobre o mico.

O que não quer dizer que Vargas Llosa saiba quem é Debord, claro.

Idelber em junho 17, 2007 7:12 AM


#10

Sei não, tenho a impressão de que v. está pondo uma ênfase grande demais na sintaxe. Tal rigor pode até existir na filosofia, por exemplo; mas no caso do jornalismo, em que impera a pressa, o rigor fica muitas vezes em segundo plano, sendo mais importante a mensagem que se quer comunicar. Temos que ser caridosos (benefício da dúvida), mesmo porque o mesmo rigor pode ser usado contra nós, quando priorizamos também a mensagem geral em detrimento da precisão sintática.

Adriano em junho 17, 2007 2:32 PM


#11

e além de ser bloomsday é aniversário da lia!
:>)

Biajoni em junho 18, 2007 10:14 AM


#12

uau, que bacana fazer aniversário no Bloomsday. Com certeza será uma garota atenta aos recovecos do mundo :-)

parabéns pra lia!

Idelber em junho 18, 2007 10:24 AM


#13

Excelente, Idelber. Mas o P.S. realmente sujou o post. Da próxima vez que iniciares um parágrafo desta forma, acreditarei.

Mais: como sou um admirador dos teus textos, já tinha anotado mentalmente que argumentavas antes de adjetivar. Mas com tal livro, pode-se sair adjetivando de cara, não?

Abraço.

Milton Ribeiro em junho 18, 2007 11:23 AM


#14

Obrigado Idelber, mais uma vez foi um ótimo Bloomsday. Uma curiosidade: assim como a Lia, minha esposa também é nascida no Bloomsday. Uma bela coincidência, vai dizer?

Leandro Oliveira em junho 18, 2007 11:41 AM


#15

uau, Leandro, está explicada a paixão extra que você dedica à data! Mais uma vez você pilotou magistralmente as comemorações. Obrigado a você. Abração,

Idelber em junho 18, 2007 12:10 PM


#16

O dia 16/6 também é a data do aniversário de Adriano Suassuna: 80 anos, em 2007. Na falta de Guiness no Nordeste, tomemos pinga: Januária, Claudionor, Cesarina, Pitu, Piniscilina, De cabeça para baixo, Abaíra, Havana(ou Anísio Santiago) entre outras. A Europa ainda se dobrará ante o Brasil!

joão augusto rocha em junho 21, 2007 6:17 PM


#17

Yes

vale a pena também rever "Oh Brother Where Art Thou" dos Coen só de sacanagem por uma outra leitura da Odisséia e suas alusões (e seus contextos e significados em cada alusão).

I will yes

Penny em junho 16, 2009 8:59 PM