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Um weblog anti-apocalíptico sobre política, música, futebol e literatura.
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sábado, 21 de julho 2007
Recesso
Como no caso de recessos anteriores do blog, o desta semana não foi planejado. Acabou se impondo e continuará por algum tempo, não maior que 10 dias. Enquanto isso, eu viajo com a família e me meto de cabeça numa pilha de tarefas: artigos, cartas, pareceres, revisões de tese.
Em agosto, então, volta o blog.
Bom fim de mês para todo mundo :-)
Escrito por Idelber às 19:58 | link para este post
segunda-feira, 16 de julho 2007
Campeões, quem diria, com sobras

essa era a Argentina saindo do primeiro tempo do jogo.
O Rivail, meu inseparável companheiro de arquibancada no hexacampeonato mineiro de 1978-83, pontificou ao final de um daqueles 6 ou 7 Brasileirões em que o Galo, depois de somar mais pontos que todos os outros times, frustrou o sonho do bicampeonato em mais uma semifinal ou final fatídica: Não adianta, Idelber. O futebol é um esporte regido por um Deus pior que o do Velho Testamento: egoísta, ciumento, vingativo e com ódio da humanidade. Bem, o blog vem dar a cara a tapa e parabenizar a Seleção de Dunga. Que atire a primeira pedra quem previu que essa seleção fosse enfiar uma goleada tão inapelável na Argentina.
O que aconteceu nas prévias a este jogo foi inédito no Brasil. Na sua coluna de domingo na Folha, ninguém menos que Tostão escreveu:
Em outras épocas, se um torcedor brasileiro dissesse que iria torcer para a Argentina, seria internado como louco ou exilado. Os tempos mudaram. Muitos dizem que vão torcer para o Brasil perder porque faria justiça ao melhor time da Copa América, Dunga poderia sair e ninguém se iludiria com certos atletas. Outros querem torcer contra o Brasil, mas pega mal. O torcedor está confuso.
Ter uma parcela da torcida brasileira chegando às raias da heresia de torcer pela Argentina foi uma motivação e tanto para o time de Dunga. É inconfundível a cara de um time que entra para morder a bola. Pesou, quem vai negar, o incrível jabuti que os argentinos carregam nas costas há década e meia quando vêem a amarelinha. Levando um gol de placa daqueles aos 4 minutos de jogo, então, nem se fala. O fato é que quando Ayala empurrou a segunda bola para dentro do gol, a Argentina já estava morta. E eu me vi xingando o Júlio Baptista quando ele atrapalhou, em impedimento, o que seria o quarto gol do Brasil, pelos pés do Robinho.
Mão à palmatória, pois. Retiro alguma coisa do que eu disse sobre o Dunga? De jeito nenhum. Continuo achando que foi péssimo para o futebol brasileiro ganhar essa Copa América com essa comissão técnica. Mas se houve uma vitória incontestável no futebol mundial dos últimos anos, foi esse 3 x 0. Há os que vemos um futuro sombrio, justificado com os louros dessa vitória; há os que mudaram de opinião sobre Dunga e o “futebol de resultados”; e há os que celebram a desmoralização dos “pessimistas” e “traíras” da crônica esportiva, que não entendem nada de futebol. É do jogo. Aliás, se há algo que a história do nosso futebol ensina, é que o melhor papel que a crônica esportiva pode cumprir é o de desacreditar a seleção. Não falha nunca.
Escrito por Idelber às 04:31 | link para este post
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sexta-feira, 13 de julho 2007
Copa América 2007: A era Dunga 2
Se Dunga fosse escritor, ele seria aquele sub-sub-sub-Rubem Fonseca, semi-alfabetizado, que leva a língua a níveis inauditos de tosqueira, repetição e previsibilidade. Se Dunga fosse uma banda de rock, seria uma das de arranjos bem óbvios, melodias primárias e muita pretensão – algo como Journey ou RPM. Se Dunga fosse uma comida, seria um daqueles pratos pseudo-franceses com muita pompa e nenhuma substância, que “acabam antes da hora”. Se o time de Dunga fosse da política, ele seria o Conselho de Ética do Senado, recheado de figuras que ninguém conhece e a quem ninguém deu voto.
Se alguém como Dunga tivesse sido o técnico da seleção em 1982, o Brasil teria entrado em campo com: Waldir Peres; Perivaldo, Orlando Fumaça, Rondinelli e Wladimir; Chicão, Caçapava, Teodoro e Biro-Biro; Nílton Batata e Serginho Chulapa (crédito ao leitor seusilva, do Juca Kfouri, pela idéia da escalação).
Segundo o professor Dunga, este seria o escrete que teria ganho a Copa de 1982, por oposição ao time de Telê Santana, que “jogava bonitinho”, “fazia firulas” e “não deu resultados”. Se a Seleção Nike-CBF-Dunga ganhar a Copa América, serão mais três anos, pelo menos, de viram? e vocês vão ter que nos engolir. Será o inferno, a facada final no nosso futebol. Toda vez que a mediocridade e a tacanhice, a serviço da corja da CBF, tomar conta da seleção brasileira, vou torcer contra mesmo, coisa que nunca havia conseguido fazer e que fiz pela primeira vez no Chile (nos 3 x 0 roubados, não nos 6 x 1 vergonhosos).
O papel de todo patriota do ludopédio brasileiro é torcer para que a aconteça a lógica na final da Copa América e a Argentina dê uma goleada histórica nessa palhaçada. Aliás, qual das três possibilidades abaixo você acha que se concretizará no domingo?
a) a Argentina derrota a Seleção CBF-Nike com tranqüilidade, por dois ou três gols de diferença;
b) a Argentina enfia na Seleção CBF-Nike um massacre para ficar na história dos confrontos, de 4 ou mais.
c)Papai Noel desce na Venezuela de Chávez e leva a seleção-brucutu de Dunga a vencer os argentinos.
O palpite do blog é 4 x 1, porque quem tem Robinho acaba fazendo um gol de honra. Que se desgoste da Argentina o quanto se quiser, mas uma cacetada de Riquelme e cia. sobre a seleção Nike-CBF seria a melhor coisa que poderia acontecer ao futebol brasileiro neste fim de semana.
Escrito por Idelber às 03:41 | link para este post
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quinta-feira, 12 de julho 2007
Texto novo na Germina
A reunião de expatriados corre o perene perigo de fundar estranhas seitas dedicadas a render culto a uma identidade perdida que nunca existiu. Nestes 17 anos de residência nos Estados Unidos, embora eu sempre tenha cultivado amizades brasileiras, tornei-me cético e cínico quanto ao poder simbólico, ou mesmo imaginário, desses rituais de recuperação retrospectiva da identidade. Exilada no México durante as duas últimas ditaduras em seu país (1966-73 e 1976-83), a escritora argentina Tununa Mercado – cordobesa, não portenha, ressalte-se – nota, num belo livro intitulado En estado de memoria, que os argentinos que mais se queixavam da obsessão carnívora da cozinha argentina foram aqueles que, uma vez no México, entraram em depressão pela falta do bife de chorizo e do doce de leite. De volta, já na redemocratização, eles passaram a arrastar-se na saudade do chile chipotle mexicano que, no exílio, suportavam como um mal necessário e que agora -- ¡carajo!– era impossível encontrar em Buenos Aires. Se não se cuidar, o expatriado vira um mero projétil nesse monótono ping-pong do imaginário.
Continue lendo Expatriamentos, o texto deste mês no Alegorias, minha coluna na Germina. Fique à vontade para voltar e comentá-lo aqui.
Escrito por Idelber às 01:22 | link para este post
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quarta-feira, 11 de julho 2007
Flip: terceiro dia e fofocas
Aqui vão algumas considerações finais sobre as mesas de sábado da Flip e o evento como um todo:
A primeira mesa reuniu, numa homenagem a Nelson Rodrigues, a crítica Leyla Perrone-Moisés, o artista plástico e escritor Nuno Ramos e o escritor e letrista Nelson Motta, que substituiu Arnaldo Jabor. Leyla apresentou uma pesquisa sobre o uso da linguagem em Nelson. Começou questionando a afirmação de que Nelson teria “retratado” a fala popular em seu teatro. Sem citá-la, Leyla dava uma estocada em Barbara Heliodora que, na abertura da festa, havia ressaltado o pioneirismo do anjo pornográfico na incorporação da linguagem real do carioca ao teatro. A insistência de Leyla em que ele “não podia ser reduzido a um documentarista” me pareceu injusta, já que Barbara não tinha feito redução nenhuma; havia simplesmente enfatizado a artificialidade da linguagem teatral anterior a Nelson. Daí em diante, Leyla fez uma compilação de uma série de elementos interessantes dos diálogos de Nelson, por exemplo a propensão de que as perguntas sejam respondidas com outras perguntas. Da boa intervenção de Nuno Ramos, ficou em minha memória o comentário sobre o caráter “solto”, “sem precursores” de Nelson Rodrigues na literatura brasileira, além de uma bela desmistificada na imagem de um Nelson “explorador das profundezas” da psique humana. Para Nuno, a exterioridade, a conversão de tudo em teatro, seria uma imagem mais adequada para descrever sua obra. Quem finalizou o papo foi Nelson Motta, contando divertidas – mas já conhecidas – anedotas sobre o Nelson Rodrigues que desmascarou a suposta neutralidade dos comentaristas de futebol, com sua desbragada paixão tricolor exposta na TV. Não faltou a indefectível citação de que todas as vezes que o videoteipe desmentia Nelson, o anjo pornográfico não perdia a oportunidade de decretar que o videoteipe é burro. Arnaldo Jabor não apareceu, mas gravou um depoimento. Não nutro grandes simpatias por Jabor, mas tenho que confessar que dei boas gargalhadas com o vídeo: um dos relatos mais curiosos foi sobre o ciúme que tomou conta de Nelson na época em que Guimarães Rosa passou a ser incensado como o grande autor brasileiro. Reproduzindo o vozeirão de Nelson, Jabor imitava: ontem me encontrei com Guimarães Rosa na rua, imponente e elegante, de paletó e gravatinha borboleta, e lhe disse: Guimarães Rosa, não seja tão Guimarães Rosa!
A mesa “Dos dois lados do balcão” reuniu César Aira, um dos mais insólitos escritores argentinos, e Silviano Santiago, crítico, poeta e romancista brasileiro. Silviano leu trechos de Em Liberdade, romance-diário sobre o qual os leitores deste blog sabem algo. César Aira, autor de mais de 30 livros – Aira escreve com um furor tremendo, pondo em ação uma verdadeira estratégia de saturação do mercado –, leu um texto curioso sobre a crescente dificuldade que têm os humanos de desmontar as máquinas que constroem (por oposição aos velhos tempos quando bons mecânicos ou técnicos desmontavam qualquer carro ou fogão). Daí passou a uma descrição curiosa sobre seu método de escrita (e quem já leu as bizarras histórias de Aira sabe do que falo): deixar cair o primeiro disparate que me ocorre e depois tentar consertá-lo. Ao ser confrontado com uma pergunta sobre a inverossimilhança do estranho ser metade papagaio e metade morcego que aparece em seu romance Las noches de Flores, Aira retrucou com tranqüilidade: mas veja que umas páginas depois revela-se que se tratava de um agente da polícia disfarçado (como se isso, claro, tornasse a coisa toda muito verossímil!). César Aira tem algo em comum com Will Self: falam sempre com a cara mais séria do mundo, mas não podem senão provocar gargalhadas. Se você gosta de literatura, nunca leu Aira, viu-o em ação em Parati, mas mesmo assim não saiu correndo para ler um de seus livros, ora ora, eu não sei o que lhe dizer.
A terceira mesa do sábado era, para mim, a grande atração da Flip: Maria Rita Kehl e Alan Pauls falando sobre o amor. Este papo valeu a viagem. Maria Rita foi criticada por algumas pessoas por passar todo o tempo falando d´O Passado, o extraordinário romance de Pauls recém traduzido no Brasil. Onde já se viu, vir à Flip e ficar falando de um livro! Eu, de minha parte, achei a postura de Maria Rita elegantíssima: signatária de respeitável obra ensaística, ela preferiu não falar de si. Leu com cuidado o romance do convidado e armou o diálogo a partir dele. Pauls simplesmente deu um show. Relatando as freqüentes perguntas que lhe dirigem sobre o amor desde a publicação d´O Passado, como se ele fosse um especialista, Pauls retrucou: não falo como especialista. Do amor, eu sou, como todos, uma vítima. O Passado narra, ao longo de quase 600 páginas e 20 anos, o amor entre Sofia e Rímini. Foram exibidos, antes da mesa, uns 5 minutos do filme de Héctor Babenco que estréia em outubro, baseado no romance. Rímini é um personagem na linha dos vários anti-heróis do romance do século XX (Kafka, Joyce). Não consegue agir. É sempre contemporâneo do que lhe acontece: ao contrário de Sofia, ele não consegue ter um discurso sobre o amor. Sofia, por sua vez, transforma em transparente qualquer homem que olhe. Em um determinado momento, ela constitui uma espécie de “célula política” dedicada ao amor: estranho projeto de levar o amor ao limite, convertendo-o quase em doutrina, em ato político. Sobre o romance, Maria Rita fez uma observação muito sagaz: a tentativa de fazer do amor uma obra de arte resulta, quase sempre, numa obra kitsch. 
A última mesa que vi foi a dos jornalistas Lawrence Wright e Robert Fisk, autores de livros sobre o Oriente Médio e, respectivamente, apoiador e crítico da permanência dos EUA no Iraque. Não sou exatamente um observador neutro, mas todos aqueles com os quais conversei concordaram comigo e com Marcelo Tas: foi nocaute no primeiro round. Ante o argumento de que os EUA não deveriam conversar com determinados “terroristas”, Fisk listou uma dezena de exemplos em que governos ocidentais diziam que não conversariam com determinadas forças políticas e terminaram fazendo-o (o governo francês cansou-se de dizer que não conversaria com os “terroristas” argelinos, só para se desmentir depois). Ante o argumento de que a saída dos americanos do Iraque provocaria uma guerra civil, Fisk ofereceu uma dezena de exemplos em que se disse o mesmo em outras situações de ocupação colonial e não ocorreu guerra civil alguma. Quando a mediadora propôs que trocassem perguntas, Lawrence Wright escolheu a mais fraca possível: você acha que os EUA mereciam ser atacados em 11 de setembro? (a velha pergunta retórica que usam aqueles que querem desqualificar as responsabilidades dos americanos na germinação do terrorismo atual). Fisk não perdoou: esta é uma pergunta estúpida. Ninguém merece ser atacado. Os iraquianos mereciam ser atacados em 2003? Daí passou a explicar por A + B a diferença entre merecer e ter responsabilidades políticas. Era um dos maiores jornalistas políticos ocidentais, sem dúvida o maior entre os que se dedicam ao Oriente Médio, debatendo com um peso-pena. Foi um massacre.
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Fofocas de bastidores da Flip:
Ninguém me contou, eu não ouvi falar, aconteceu na minha frente e eu vi: à escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif, ativista da causa palestina, foi dito que deveria “evitar esses temas políticos para concentrar só na literatura”. Enquanto isso, o “pacifista” israelense Amós Oz – que apóia o muro da vergonha e apoiou o massacre israelense do ano passado contra o Líbano – dissertou longamente sobre política.
Conversei rapidamente com Robert Fisk, que me relatou uma de suas interessantes histórias sobre o serviço de imigração americano, que uma vez o barrou em San Francisco com a pergunta: o sr. já esteve com algum terrorista? Resposta de Fisk: sim, eu já entrevistei Osama bin Laden e Ariel Sharon. Ante a menção de Sharon, claro, liberaram-no.
O grande problema da Flip, sem dúvida, é o excesso de reverência, que faz com que o público aplauda qualquer coisa. São irritantes as repetidas interrupções para aplausos. É ali que se vê com mais nitidez quão tênue e longínqua é a relação com a literatura que mantém a grande maioria do público que ali está.
O Globo deu de 10 x 0 na Folha nesta Flip. Foi vergonhoso o texto que assinaram, na segunda-feira, Eduardo Simões, Marcos Stecker e Sylvia Colombo. É um exemplo de mau jornalismo: muito adjetivo e pouca informação. As detalhadas argumentações de Robert Fisk sobre o Oriente Médio receberam o título de “rasos antiamericanismos” do “histriônico” Fisk. Para piorar, escolheram desqualificar Fisk e a leitura de trechos de Nelson com o péssimo neologismo “flopou”.
Paulo Cesar de Araújo, em definitivo, é pop. Paulo me confidenciou – e eu lhe prometi que era em off – qual é o tema de seu próximo livro. Guardem aí: vai fazer mais barulho que Eu não sou cachorro não e Roberto Carlos em detalhes. Não há dúvidas: em breve, Roberto Carlos não será mais que um pequeno capítulo na biografia de Paulo Cesar de Araújo.
Nesta quinta-feira à noite, o Roda Viva exibe entrevista com Nadine Gordimer com participação de Ana Maria Gonçalves.
Para finalizar: gostei muito, valeu o passeio, mas acho que foi minha última.
PS: Há em Parati um restaurante chamado Brik-a-Brak. Evitem-no.
Escrito por Idelber às 04:45 | link para este post
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domingo, 08 de julho 2007
Flip, segundo dia
A primeira mesa da sexta-feira aqui na Flip foi dedicada ao tema das biografias e da liberdade de expressão. Reuniu os dois maiores biógrafos do país, Fernando Morais (autor de biografias de Assis Chateaubriand e Olga Benário Prestes) e Ruy Castro (que relatou as vidas de Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues) num papo com Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos. Foi, talvez, a declaração pública com mais detalhes que tenha dado Paulo Cesar sobre o processo de proibição do livro. A tal "audiência de reconciliação", meus caros, foi mais vergonhosa que eu imaginava. O juiz chegou a ameaçar a Planeta de fechamento -- o que certamente pesou na decisão dessa editora espanhola, dirigida no Brasil por um argentino, de interromper o apoio que até então havia dado ao autor. Antes mesmo de que se começassem a discutir possíveis acordos que permitissem a circulação do livro, o juiz fez, com Paulo Cesar, uma reunião repleta de ameaças. Depois, como já sabem os leitores deste blog, o juiz Tércio Pires tirou seu CDzinho da sacola para oferecê-lo a Roberto Carlos, com o pedido que ele desse sua opinião sobre a "obra". Paulo Cesar emocionou-se ao lembrar que o livro é dedicado à sua filha Amanda, de 5 anos, que inúmeras vezes pediu que o pai não saísse e recebeu como resposta que "papai está trabalhando num livro sobre Roberto Carlos". Ao ser perguntada sobre o cantor, Amanda recentemente disse, numa mesa de restaurante, que não gosta mais dele, pois "está processando meu pai". Ao longo do relato, só aumentava o meu respeito por esse extraordinário pesquisador e ser humano que é Paulo Cesar de Araújo.
Na seqüência, Ruy Castro relatou o processo que lhe moveram as filhas de Garrincha na época da publicação de Estrela solitária. Aflorou um detalhe que eu, pelo menos, não conhecia: logo depois que o Fantástico fez uma matéria com Ruy Castro, no domingo anterior à chegada da obra às livrarias, o biógrafo recebeu um telefonema dos advogados das filhas de Garrincha dizendo que iria processar mas que "havia acordo". Ou seja, o caráter mercenário do processo já ficou nítido no primeiro momento. Ruy rendeu homenagem à Companhia das Letras, que o apoiou durante 11 anos no kafkiano processo, até que o litígio fosse abandonado por absoluto cansaço das partes. Fernando Morais, por sua vez, incendiou a platéia (que foi uma das maiores da Flip) com a proposta de que Paulo Cesar vá até o "Tribunal de Haia", se necessário, para defender o livro. Completou com a sugestão de uma emenda constitucional que esclareça, de uma vez por todas, que o raio do direito à privacidade não deve jamais se sobrepor ao direito à informação e à livre expressão sobre temas de interesse público. Paulo Cesar recebeu a solidariedade incondicional de Ruy e Fernando, e os três biógrafos foram longamente aplaudidos. Bola cheia para a Flip por essa mesa.
Ana Maria Gonçalves e a escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif fizeram uma mesa cheia de cumplicidade. Ana leu os primeiros (e brutais) parágrafos de Um defeito de cor. Emocionou a platéia. Ahdaf fez uma leitura de dois trechos do seu belo Mapa do amor. Achei as perguntas do mediador bem fracas, mas como Ana e Ahdaf já haviam estabelecido uma amizade, o bate-bola não foi prejudicado. Sobre Ana, os leitores deste blog já sabem muito, então me limito a falar de Ahdaf Soueif: se levo algo desta Flip, são a alegria e a honra de ter conhecido essa mulher extraordinária. Eu já lera alguns de seus artigos sobre a causa palestina. Viúva, vivendo a dureza que é a experiência de uma árabe no Reino Unido (ela divide seu tempo entre Londres e Cairo), Ahdaf emana tranqüilidade e sabedoria. Comecei a ler Mapa do amor e estou absolutamente encantado. O livro relata a história de dois amores separados por um século, tendo como pano de fundo o confisco das terras palestinas pelo estado de Israel. O mediador cuidadosamente evitou os temas políticos, substituídos por repetitivas perguntas sobre o "romance histórico". De longe, os melhores momentos da mesa foram aqueles em que Ana e Ahdaf bateram bola de forma independente sobre seus respectivos processos de criação. Especialmente interessante foi o relato de Ahdaf sobre a tradução ao árabe de Mapa do amor, feita por sua mãe, que é professora universitária de literatura -- e bisbilhoteira, como costumam ser os professores universitários. Impunha mudanças ao romance de Ahdaf. Depois de muitas brigas familiares, foram chegando a um consenso, e Ahdaf relatou o caso como uma experiência que terminou sendo enriquecedora.
Não assisti às mesas com Antônio Torres / Mia Couto e Dennis Lehane / Guillermo Arriaga. Na última mesa do dia, o israelense Amós Oz e a sul-africana Nadine Gordimer também bateram bola com cumplicidade, amigos que são já há alguns anos. Nadine tem uma bela história, não só de oposição ao apartheid mas também de recusa a qualquer tratamento especial: ela teve livros banidos pelo regime racista que terminou em 1994 e, ante a suspensão do banimento, recusou o "privilégio" até que também fossem suspensas as proibições a escritores negros que haviam passado pela mesma experiência. Amós Oz, fundador do grupo Peace Now, relatou as várias acusações de "traidor" que já sofreu em Israel por sua posição em favor da paz e da solução biestatal ao conflito. Claro que não apareceram perguntas do tipo como você concilia sua condição de pacifista com o seu apoio ao muro, ao bombardeio israelense aos civis libaneses e à quase destruição da infra-estrutura sul-libanesa por causa do seqüestro de dois soldados? Afinal de contas, isso seria prejudicial à sua fama de "pacifista". Em todo caso, foi uma bela mesa, na qual Oz teve a elegância de recusar a sistemática comparação (feita não só pelo mediador, mas pela própria organização da Flip) entre a sua condição em Israel e a experiência de Gordimer sob o apartheid.
Logo que possível, coloco um post sobre as quatro primeiras mesas do sábado, nas quais estive presente (com destaque, como já esperado, para o interessantíssimo papo entre Maria Rita Kehl e Alan Pauls).
PS: Também estão por aqui Sergio Fonseca e Ane Aguirre, com belas fotos.
Escrito por Idelber às 14:18 | link para este post
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sexta-feira, 06 de julho 2007
FLIP, primeiro dia
Começou na quarta-feira à noite a 5a Festa Literária Internacional de Parati. O primeiro evento foi uma aula magistral de Barbara Heliodora sobre o homenageado do ano, Nelson Rodrigues. Foi bom ver Barbara em ação de novo: essa mulher já entrada em anos, fundadora da crítica shakespeareana no Brasil, mostrou como um especialista pode falar clara, compreensiva e ao mesmo tempo instrutivamente para um público amplo (curiosidade: Barbara Heliodora é filha do primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, o lendário goleiro Marcos de Mendonça, do Fluminense). Foi um passeio elegante pela vida e obra de Nelson, pontuada por um achado: Nelson foi o primeiro a registrar no teatro a fala popular carioca -- com suas modulações, sintaxe, léxico -- exatamente por não ser carioca, por trazer a sensibilidade para o diverso que nunca deixou de acompanhar seus ouvidos pernambucanos.
Depois vieram as boas-vindas bilíngües da idealizadora da Festa, a editora inglesa Liz Calder, que recordou com nostalgia a época em que a Flip era uma reunião de meia dúzia de visionários. Falou em belo português, a Dona Liz, só traída no momento em uma quase homofonia entre duas palavras e um desses nossos malditos ditongos produziu uma hilária referência à uma bolsa na báia de Parati. Nada que apagasse o brilho da tremenda simpatia de Dona Liz, claro.
Aí veio a música. A Orquestra Imperial, com seus 18 integrantes, já tem 5 anos de estrada e inclui figuras conhecidas como o baterista Wilson das Neves, ídolos pop como Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, os três membros do grupo +2 (Moreno Veloso, Kassin e Domenico) e uma bela seção de metais, além de duas divas, Thalma de Freitas e Nina Becker. Foram acompanhados por uma lenda viva, João Donato, que, sorridente e de boné cor-de-rosa, parecia um menino de 72 anos ao teclado. Tocaram clássicos da bossa nova e do samba, além de composições próprias. É o tipo de show que agrada a todo mundo, até a quem não gosta de música. Eu diria que agrada principalmente a quem não gosta de música: versões light, arranjos macios, um som que "não incomoda". Nada contra, longe de mim. Acho até que é o tipo ideal de show de abertura para eventos como este (os gringos a-do-ram). Mas eu, particularmente, prefiro um som mais áspero, mais cheio de recovecos, descontinuidades, com algum grau de desconforto.
Na quinta-feira, assisti à mesa dos jovens escritores Cecília Gianetti, Fabrício Corsaletti e Veronica Stigger. Daí pulei para o destaque da manhã, o papo sobre poesia e letra de música com Chacal e Lobão. Foi uma bela mesa. Chacal, nome chave da poesia-mimeógrafo dos anos 70, comemora sua transformação em monumento literário, com a publicação de "Obras Completas" pela CosacNaify, em volume que, na sua divertida descrição, "fica em pé sozinho". O recital apresentado pelo poeta fluminense foi um petardo: cheio de jogo de corpo, privilegiando alguns poemas de forte apelo sonoro, Chacal deu um verdadeiro show. Lobão levou o violão, cantou e defendeu-se da acusação de ter renunciado a combater a indústria fonográfica -- com o argumento de que, afinal de contas, "já a transformamos e agora é o momento de ocupá-la para nossos objetivos". Entremeio, reflexões de ambos sobre seus processos de composição.
Após o almoço, a fera em pessoa: Augusto Boal, em depoimento comovente sobre Nelson Rodrigues. Ao contrário da fala solta que é de praxe na Flip, Boal leu um texto. Passeou por mitologias cariocas, refletiu sobre essa insólita amizade entre um esquerdista e um direitista, recordou a desastrosa palestra de Nelson que tentou organizar na universidade (à qual chegaram meia dúzia de gatos pingados, em vez da multidão prevista), divertiu-se com o fato de que, durante sua prisão sob a ditadura, Nelson chegou a mentir para defender o amigo, afirmando que ele "só fazia teatro" e "não tinha nada a ver com política de comunista". Disse muito mais. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o caderno de Boal: daqueles antigos, de espirais que começam a se desarmar, com páginas amassadas; tudo escrito a mão. Só Boal foi aplaudido de pé até agora por esse público da Flip que, convenhamos, aplaude qualquer coisa (sobre o insólito papel dos aplausos na Flip, farei um post em breve). O companheiro de mesa de Boal, o diretor Eduardo Tolentino, também falou bonito, recordando sua experiência dirigindo Vestido de Noiva na Polônia, sem falar uma palavra de polonês.
Às 5 da tarde, houve a mesa com dois dos visitantes de língua inglesa: o americano Jim Dodge e o britânico Will Self. Aquele é um velhinho simpático, daqueles naturebas que abundam na Califórnia. Vive num rancho e tudo mais. Teve lançado por aqui, pela José Olympio, o seu Fup, relato de vida de uma pata. Pareceu-me um escritor menor. O poema que leu era longo, chato e verborrágico, uma espécie de sub-Allen Ginsberg.
O tal do Will Self, mes amis, eu não conhecia tampouco, mas vou querer conhecer. O homem parece saído de um filme de terror. Tem dois metros de altura e é feio como a morte:

Com um vozeirão de locutor de rádio e um olhar de psicopata, Will Self dedica-se a inventar mundos bizarros, insólitos, terroríficos. Diz barbaridades, horrores, com a cara mais séria do mundo, até que o absurdo que ele vai tecendo dê alguma pista para que se penetre na ironia. Uma espécie de Kafka punk. O homem inspirava tanto terror que não havia outra reação possível que não as gargalhadas. Entrou para a minha lista, com certeza. Fácil, fácil, foi o mais divertido até agora.
A última mesa, com Kiran Desai e José Eduardo Agualusa, eu acabei perdendo, para fazer algo muito mais importante: tomar uma cervejinha com Carla Rodrigues, que lança, em Belo Horizonte, nesta segunda-feira (às 19:30, no Palácio das Artes), a sua biografia de Betinho. Até agora foi isso.
Escrito por Idelber às 01:09 | link para este post
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quarta-feira, 04 de julho 2007
Ah-eroportos
Meninos, eu vi. Deve ter sido o pior dia da história de Guarulhos. Se houve outro pior, que me mostrem os anais.
Domingo à noite, mochila nas costas, zarpo com Ana para o aeroporto de Santiago, depois de uma bela festa com amigos chilenos, só atrapalhada pela vitória de Robinho e do árbitro contra la Roja. Vôo marcado para as 2 da manhã, horário ideal. 6 da matina chego em Sumpaulo, às 9 nas Alterosas, penso eu na minha infinita estupidez mal-informada. Já na chegada ao aeroporto chileno, algo se via mal. Ou melhor, não se via nada. A neblina era cortável com faca. Já na sala de embarque, o aviso: todas as decolagens estão canceladas. Era o começo da odisséia.
As acomodações das salas de embarque do aeroporto de Santiago são melhores que costumam ser as brasileiras. Foi possível dormir, com interrupções, até a manhã de segunda, quando recebemos a notícia de que o avião sairia às 14 horas. Só aí já eram 12 horas de atraso. Na chegada a São Paulo, lá pelas 19 horas, eu achei que tinha retrocedido no tempo uns 90 anos, mais exatamente à tomada do Palácio de Inverno pelos bolcheviques russos: multidão sem rumo, funcionários atônitos dando ordens contraditórias, câmaras de TV procurando cenas de caos, aglomerados que um dia talvez tivessem sido uma fila.
Claro que não embarquei na segunda. Encarei um amontoado gigantesco no check-in de transferência para validar o cartão de embarque que eu já possuía e ouvir da atendente da TAM que as malas deveriam seguir comigo para o hotel e ser despachadas na manhã seguinte – ou seja, que o check-in de transferência não era um check-in de transferência. Cheguei a BH às 14:30 de terça-feira, 38 horas depois de sair rumo ao aeroporto de Santiago. Sim, sim, eu sei que há gente por aí demorando 3 dias de Recife ao Rio. Mas não sou dos que se consolam com a desgraça alheia.
Sobre o caos nos aeroportos, aqui vão algumas observações:
1.Houve uma época em que a classe média tupiniquim era a arrogância em pessoa nos aeroportos. Insultava funcionários das companhias aéreas por qualquer coisa. Via no ato de viajar de avião uma espécie de salvo-conduto de classe. Nas 15 horas de caos que presenciei em Guarulhos, o que mais me chamou a atenção foi a docilidade de todos. Nem um único grito, nenhuma manifestação de indignação. Só rostos resignados e obedientes.
2.Não seria relativamente simples descongestionar o Galeão e Guarulhos construindo um aeroporto em, sei lá, Goiás, só para as conexões internacionais rumo ao Nordeste? Não entendo do assunto, mas me parece meio absurdo ver tanta gente sobrevoar a Bahia rumo ao caos de São Paulo para, depois de muita luta, voar rumo à ... Bahia! Sei que o caos que se viu esta semana em Guarulhos tem outras raízes, mas não seria a hora de se pensar um pouco mais seriamente na descentralização das hubs, dos portos de entrada e distribuição de passageiros?
3.Será que a TAM já está começando a pagar o preço por ter tentado dar “um passo maior que as pernas”?
Agora, com licença que eu vou ali em Confins pegar um avião para o Rio e depois um carro rumo a Parati. Com sorte, pintam por aqui alguns posts sobre a Flip deste ano, que promete.
PS 1: O NoMínimo morreu, viva o NoMínimo. Já estão a todo vapor, em novos endereços, dois amigos deste blog, o Pedro Dória e a Carla Rodrigues.
PS 2: O belíssimo trabalho do Global Voices Online agora tem versão em português! (via Alfarrábio)
Escrito por Idelber às 01:31 | link para este post
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segunda-feira, 02 de julho 2007
Abaixo-assinado em apoio ao Baladaboa
O blog convida seus leitores, com muita ênfase, a emprestar seus nomes ao abaixo-assinado em apoio ao projeto Baladaboa, das Profs. Maria Teresa Araujo Silva, 67, professora titular de psicologia da USP e Stella Pereira de Almeida, 43, pós-doutoranda de psicologia na USP. O financiamento deste projeto foi suspenso pela Fapesp depois de uma campanha de calúnias orquestrada por um jornalista da Revista Veja.
Juntando sua assinatura à petição, você só está dizendo que as professoras devem ter a liberdade de pesquisar em paz. Só isso.
O blog solicita, encarecidamente, o seu apoio.
(direto de Santiago onde, sem muito sucesso, tive minha primeira experiência secando a seleção Nike-Dunga).
Escrito por Idelber às 09:00 | link para este post
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