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quarta-feira, 04 de julho 2007
Ah-eroportos
Meninos, eu vi. Deve ter sido o pior dia da história de Guarulhos. Se houve outro pior, que me mostrem os anais.
Domingo à noite, mochila nas costas, zarpo com Ana para o aeroporto de Santiago, depois de uma bela festa com amigos chilenos, só atrapalhada pela vitória de Robinho e do árbitro contra la Roja. Vôo marcado para as 2 da manhã, horário ideal. 6 da matina chego em Sumpaulo, às 9 nas Alterosas, penso eu na minha infinita estupidez mal-informada. Já na chegada ao aeroporto chileno, algo se via mal. Ou melhor, não se via nada. A neblina era cortável com faca. Já na sala de embarque, o aviso: todas as decolagens estão canceladas. Era o começo da odisséia.
As acomodações das salas de embarque do aeroporto de Santiago são melhores que costumam ser as brasileiras. Foi possível dormir, com interrupções, até a manhã de segunda, quando recebemos a notícia de que o avião sairia às 14 horas. Só aí já eram 12 horas de atraso. Na chegada a São Paulo, lá pelas 19 horas, eu achei que tinha retrocedido no tempo uns 90 anos, mais exatamente à tomada do Palácio de Inverno pelos bolcheviques russos: multidão sem rumo, funcionários atônitos dando ordens contraditórias, câmaras de TV procurando cenas de caos, aglomerados que um dia talvez tivessem sido uma fila.
Claro que não embarquei na segunda. Encarei um amontoado gigantesco no check-in de transferência para validar o cartão de embarque que eu já possuía e ouvir da atendente da TAM que as malas deveriam seguir comigo para o hotel e ser despachadas na manhã seguinte – ou seja, que o check-in de transferência não era um check-in de transferência. Cheguei a BH às 14:30 de terça-feira, 38 horas depois de sair rumo ao aeroporto de Santiago. Sim, sim, eu sei que há gente por aí demorando 3 dias de Recife ao Rio. Mas não sou dos que se consolam com a desgraça alheia.
Sobre o caos nos aeroportos, aqui vão algumas observações:
1.Houve uma época em que a classe média tupiniquim era a arrogância em pessoa nos aeroportos. Insultava funcionários das companhias aéreas por qualquer coisa. Via no ato de viajar de avião uma espécie de salvo-conduto de classe. Nas 15 horas de caos que presenciei em Guarulhos, o que mais me chamou a atenção foi a docilidade de todos. Nem um único grito, nenhuma manifestação de indignação. Só rostos resignados e obedientes.
2.Não seria relativamente simples descongestionar o Galeão e Guarulhos construindo um aeroporto em, sei lá, Goiás, só para as conexões internacionais rumo ao Nordeste? Não entendo do assunto, mas me parece meio absurdo ver tanta gente sobrevoar a Bahia rumo ao caos de São Paulo para, depois de muita luta, voar rumo à ... Bahia! Sei que o caos que se viu esta semana em Guarulhos tem outras raízes, mas não seria a hora de se pensar um pouco mais seriamente na descentralização das hubs, dos portos de entrada e distribuição de passageiros?
3.Será que a TAM já está começando a pagar o preço por ter tentado dar “um passo maior que as pernas”?
Agora, com licença que eu vou ali em Confins pegar um avião para o Rio e depois um carro rumo a Parati. Com sorte, pintam por aqui alguns posts sobre a Flip deste ano, que promete.
PS 1: O NoMínimo morreu, viva o NoMínimo. Já estão a todo vapor, em novos endereços, dois amigos deste blog, o Pedro Dória e a Carla Rodrigues.
PS 2: O belíssimo trabalho do Global Voices Online agora tem versão em português! (via Alfarrábio)
Escrito por Idelber às 01:31 | link para este post
| Comentários (16)
#1
A situação dos aeroportos está mesmo periclitante. Eu mesmo experimentei alguns maus bocados dela em minhas últimas idas e vindas. Penso que a construção de um outro "hub" de triagem de passageiros internacionais possa ser uma solução razoável, mas boa parte do problema ainda se concentra na incapacidade dos aeroportos -- e dos gestores dos serviços de transporte aéreo comercial brasileiro -- em cumprir com suas funções mais básicas, como a de fazer simples vôos domésticos na hora certa. Como você mesmo disse, é um caso crônico de passos maiores do que as pernas.
Por outro lado, fiquei feliz com a notícia da volta dos combatentes da valente companhia NoMínimo. Já bloguei a respeito.
Fiquei feliz também com seu elogio ao Global Voices em Português. Estamos abertos a sugestões, críticas, eventuais elogios e sobretudo a ofertas de colaboração quaisquer, seja ajudando nas traduções, seja repercutindo e difundindo o conteúdo publicado. "Tamos aê!"
Abraços do Verde.
Daniel Duende em julho 4, 2007 6:01 AM
#2
Construir novos aeroportos poderia ajudar a resolver o problema, mas nao seria uma soluçao.. Alem do mais o espaço aereo do sudoeste nao esta mais movimentado do que o de Frankfurt, por exemplo..O buraco dos atrasos e caos é mais embaixo.
Mas concordo que nao faz sentido alguem ter que ir a Sao Paulo ou ao Rio para ir a Macapa. Acho que parte da culpa é das companhias aereas brasileiras, que centralizam suas operaçoes nesses aeroportos. Companhias aereas estrangeiras preferem estar nos grandes centros economicos..A ampliaçao de aeroportos ja existentes poderia criar hubs nesses locais mais perifericos..
Um abraço!
Ah, o Prosaico mudou para o Wordpress mas continua o mesmo ;-)
Celinho em julho 4, 2007 10:09 AM
#3
é verdade, idelber...
se fosse em outro governo os sindicalistas e os movimentos sociais estariam nos aeroportos empunhando faixas e gritando palavras de ordem defendendo o "povo" que viaja de avião e bradando comtra o governo da hora. pedindo até impeachment do presidente pela falta de atenção e descaso com o "povo" que está nos aeroportos.
e agora? bem, agora o presidente é lulla, os movimentos sociais e os sindicaliustas vão muito bem obrigado, sob as asas do poder e o "povo" que se exploda. e como vc bem disse, viajar de avião é coisa de classe média arrogante e todo mundo tem mais é que se conformar, se arrombar, engulir a raiva, ficar caladinho, e dar vivas ao apedeuta lulla. o brasileiro é mesmo o homem cordial e quem mobilizava o "povo" agora tem seu carguyinho e suas verbas federais. é verdade, o brasil está no caminho certo....
thiago em julho 4, 2007 10:34 AM
#4
Daniel, conte comigo para divulgar e ajudar na tarefa de encontrar voluntários para traduções. No que precisar, estamos aí.
Oi, Celinho, obrigado pelo toque, e em breve a atualização do link.
thiago, acho que o ódio anti-Lula o impediu de entender o post... Está implícito lá que viajar de avião não é mais coisa exclusiva de classe média.
Abraços de Parati,
Idelber em julho 4, 2007 12:41 PM
#5
no meio deste apagão aéreo eu não vi nenhuma vez na televisão ou mesmo nos aeroportos a presença dos pobretões do bolsa familia. a classe média é q continua viajando de avião comercial. só que como afirmou o thiago, a classe média nunca reclamou de nada e ela não interessa mais aos "grupos de pressão" aninhados no governo lula. antes a classe média caía na conversa fiada de q era defendidda pelos "grupos de pressão". já a classe alta, aliada de lula, viaja nos seus jatinhos empresariais e corporativos. e a nomenklatura petista arranja uma maneira de burlar o caos furando fila nos aeroportos e embarcando numa boa, a exemplo do que aconteceu ontem com o ex ministro palocci, flagrado pelas câmeras abusando do privilégio de ser parte do poder e furando fila na hora do embarque. o caos nos aeroportos é culpa do governo e lá se vão 5 (cinco) anos de governo "progressista" e NADA está sendo feito para investir na infra estrutura do país. tá faltando entrar em ação o "ministério do vai dar merda" porque a merda em todos os setores já vazou e tá entupindo a latrina chamada brasil
rian em julho 4, 2007 1:28 PM
#6
Idelber, aproveite muito a FLIP por mim. Ano passado eu estava aí...
E Parati é meu paraíso na Terra. Eu amo este lugar.
Vais ver a Orquestra Imperial tocar? Ô delícia...
Beijos
alline em julho 4, 2007 2:02 PM
#7
Idelber deve saber isso até melhor que nós. Por exemplo nos EUA cada empresa aéra possui sua base de operações em algum aeroporto. Aqui no Brasil, talvez até por motivos econômicos todas possuem sua base em Congonhas.
Então as vezes quando eu saio do Rio para no nordeste tenho que passar em SP. Certa vez para ir ao Rio Grande do Sul, por pura necessidade de datas (ou falta delas) fiz o trajeto Rio, Curitiba, SP, Porto Alegre.
A VARIG até se aproveitou disso para obrigar a gastarmos mais o Smiles. Antes utilizávamos pela viagem, agora é pelo trecho... Como quase todos os vôos passam por SP...
Aqui no Rio a situação melhorou muito quando migraram muitos vôos para o Galeão, porém é verdade que aqui a distância do Galeão ao Centro é menor que de Guarulhos para SP.
Sei não, acho que quem pega avião, na sua maioria nos dias de semana são pessoas a trabalho.
Os problemas nos aeroportos atrapalham a todos, perdemos renda, o turismo que é grande empregador, já perdeu. Reduzir esse problema a mais uma luta de classes é burrice e cegueira ideológica.
Pablo Vilarnovo em julho 4, 2007 3:28 PM
#8
veja no endereço abaixo do youtube, o ministro palocci, do PT claro, dando uma voltinha malandra e embarcando na maior cara de pau, enquanto a "classe média privilegiada" é tratada como lixo nos aeroportos. viva as benesses do poder e a população que relaxe e goze!
http://www.youtube.com/watch?v=ei5AXqz8emE
elaine em julho 4, 2007 3:43 PM
#9
alline, estou saindo agora para ver a Orquestra Imperial. Beberemos uma por você, bom vê-la por aqui :-)
Pois é, Pablo, eu continuo achando que resolver o problema da centralização excessiva no Rio-São Paulo já seria um grande passo.
elaine e rian, eu compartilho com você a indignação com a furada de fila do Palocci. É uma pena que você reproduza aqui o mesmíssimo procedimento, desonestamente assinando dois nomes diferentes, quando são a mesma pessoa.
Idelber em julho 4, 2007 4:59 PM
#10
Idelber, rânei, Orquestra Imperial é tudo na vida do "cerumano", aproveite bastante!
E o Rio ,vai ser mesmo só passagem? :-(
Se puder passa lá no Dufas que eu escrevi umas coisas envolvendo músicas & cabelos e fiquei curiosa pra saber o que vc acharia se lesse.
Beijoca estalada!
Helê
Helena Costa em julho 4, 2007 11:04 PM
#11
Grande Idelber,
pelo visto os ânimos anti-governistas andam acirrados por aqui. Vou passar de fininho pela discussão para vender meu peixe, que não é só meu mas beneficia as blogosferas de todos os cantos (principalmente os periféricos), e aqueles que se interessam nelas (leia-se, nós todos).
Fico muito feliz pela sua oferta de ajuda. Estamos começando os trabalhos agora, e toda ajuda é bem vinda -- principalmente quando vinda de gente de tão alta qualidade como você e o copoanheiro Bicarato.
E aproveitando então a "deixa", já vou sugerindo umas duas formas pelas quais você pode ajudar -- e muito -- o Global Voices em Português.
A primeira delas é ficar de olho no que está rolando por lá e, sempre que te interessar, citar as matérias ou usá-las como "links de apoio" em suas blogadas. Isso já vai fazer uma ENORME diferença em divulgação e reputação para esta iniciativa bacana que está ainda em seus primeiros passos na Lusosfera.
A segunda forma de ajudar é dando uma olhada, e algum destaque, para a iniciativa legal que o Global Voices Online está tendo, em prover microfinanciamentos para projetos de jornalismo cidadão pelo mundo afora. O nome do projeto é Rising Voices, e você pode ler mais sobre ele aqui:
http://pt.globalvoicesonline.org/2007/05/24/rising-voices-ajudando-a-populacao-global-a-tomar-parte-na-conversacao-global/
aqui:
http://pt.globalvoicesonline.org/2007/06/01/global-voices-abre-inscricao-para-patrocinio-de-projetos-de-estimulo-de-novas-midias/
e aqui:
http://pt.globalvoicesonline.org/2007/07/05/parabens-financiados-do-rising-voices/
A próxima leva de financiamentos do Rising Voices deve sair em setembro, mas já é hora da nossa galera marota daqui começar a se movimentar para aprontar seus projetos para envio (afinal, 3 meses passam voando). Se você puder dar uma difundida nessa história, eu vou ficar muito grato.
Existe uma terceira maneira de ajudar, mas esta ainda precisa de uns ajustes. Estou matutando uns jeitos bacanas de disponibilizar os feeds do GV em Português. Por hora só temos o RSS cru, mas em breve pretendo ter uns "chiclés" ou coisa do gênero para adocicar o lance.
Perdoe o abuso, mas estes dias eu ando que nem representante de ONG, pedindo ajuda pra todo mundo que passa pela frente. :)
Abraços do Verde.
p.s. estava conversando sobre você com o José Murilo, do Ecologia Digital, meu irmão, durante o jantar de hoje. seu nome é muito benquisto entre os Costa Carvalho, meu caro cara.
Daniel Duende em julho 5, 2007 2:57 AM
#12
Caro Idelber, parece que a bem informada ministra do Turismo (que nesta crise, É VERDADE, já pegou o bonde andando), estava certa. E FOI PRECISA ao pronunciar a já famosa frase. Ela deve saber muito bem de antigos problemas na área militar (que cuida da NOSSA aviação civil) e que podem ser vistos em parte no livro “Marechal Montenegro”, de Fernando Morais (as origens do atual problema já aparecem lá).
A ministra também deve saber muito bem que: em vários cargos-chave da ANAC há militares (muito militares); como ela também sabe que para quem foi autoridade no Brasil nos últimos quarenta anos, que não é conveniente PARA NINGUÉM, abrir a caixa-preta da VARIG; e que apesar da propalada boa conduta moral do ministro da Defesa, sua capacidade executiva já foi testada na Bahia, E O POVO NÃO APROVOU. REMEMORANDO: Após liderar uma ampla frente contra o famoso líder conservador baiano, o atual responsável pelo estado de coisas nos aeroportos, VENCEU A ANTIGA OLIGARQUIA E ..... seis meses depois não conseguia governar nem o seu partido! DESTA VEZ, eu creio que a ministra do Turismo tem MUITA razão!!!!
Paulo em julho 5, 2007 12:34 PM
#13
Essa idéia de que a classe média arrota privilégios e distinções sociais e que o povão, na sua sabedoria intuitiva e lírica, é estóico como um sertanejo euclidiano, é de um populismo que não combina com o requinte de suas análises, sempre muito interessantes.
A petulância, por um lado, e a civilidade, por outro, não são exclusivas de uma classe. Que a gente ainda romantize o povão, mesmo nessas descrições simples, não deixa de ser significativo de nosso (intelectuais, homens de letras, privilegiados) mal-estar de classe.
Mário Henrique em julho 5, 2007 2:51 PM
#14
Caro Mário Henrique, longe de mim achar que o povão é sempre sábio e a classe média sempre arrota privilégios. Se passei essa impressão, me expressei mal. Acho, sim, que durante muito tempo a classe média brasileira se comportou de maneira extremamente arrogante nos aeroportos, e que com a proletarização das viagens aéreas isso mudou muito. Quanto ao povão, é difícil saber: ainda não temos idéia muito clara de quão democratizador realmente foi o barateamento das passagens aéreas.
Em todo caso, grato pela leitura! Abraço,
Idelber em julho 5, 2007 4:48 PM
#15
que vc sobreviva ...
e chegue bem em Paraty...
bom FLIP...
abraços
marilia em julho 5, 2007 5:11 PM
#16
Os blogueiros são a mais pura expressão da liberdade! Mesmo não concordando com todos, mesmo não sendo se quer ser possível ler alguns, são os pequenos e grandes escritores que movimentam nosso ideário dia a dia.
Abaixo os representantes da imprensa vendida!
Att
MarcoSanto
Mensagem Personalizada
MarcoSanto em setembro 11, 2007 2:17 PM