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domingo, 08 de julho 2007
Flip, segundo dia
A primeira mesa da sexta-feira aqui na Flip foi dedicada ao tema das biografias e da liberdade de expressão. Reuniu os dois maiores biógrafos do país, Fernando Morais (autor de biografias de Assis Chateaubriand e Olga Benário Prestes) e Ruy Castro (que relatou as vidas de Carmem Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues) num papo com Paulo Cesar de Araújo, autor da recentemente proibida biografia de Roberto Carlos. Foi, talvez, a declaração pública com mais detalhes que tenha dado Paulo Cesar sobre o processo de proibição do livro. A tal "audiência de reconciliação", meus caros, foi mais vergonhosa que eu imaginava. O juiz chegou a ameaçar a Planeta de fechamento -- o que certamente pesou na decisão dessa editora espanhola, dirigida no Brasil por um argentino, de interromper o apoio que até então havia dado ao autor. Antes mesmo de que se começassem a discutir possíveis acordos que permitissem a circulação do livro, o juiz fez, com Paulo Cesar, uma reunião repleta de ameaças. Depois, como já sabem os leitores deste blog, o juiz Tércio Pires tirou seu CDzinho da sacola para oferecê-lo a Roberto Carlos, com o pedido que ele desse sua opinião sobre a "obra". Paulo Cesar emocionou-se ao lembrar que o livro é dedicado à sua filha Amanda, de 5 anos, que inúmeras vezes pediu que o pai não saísse e recebeu como resposta que "papai está trabalhando num livro sobre Roberto Carlos". Ao ser perguntada sobre o cantor, Amanda recentemente disse, numa mesa de restaurante, que não gosta mais dele, pois "está processando meu pai". Ao longo do relato, só aumentava o meu respeito por esse extraordinário pesquisador e ser humano que é Paulo Cesar de Araújo.
Na seqüência, Ruy Castro relatou o processo que lhe moveram as filhas de Garrincha na época da publicação de Estrela solitária. Aflorou um detalhe que eu, pelo menos, não conhecia: logo depois que o Fantástico fez uma matéria com Ruy Castro, no domingo anterior à chegada da obra às livrarias, o biógrafo recebeu um telefonema dos advogados das filhas de Garrincha dizendo que iria processar mas que "havia acordo". Ou seja, o caráter mercenário do processo já ficou nítido no primeiro momento. Ruy rendeu homenagem à Companhia das Letras, que o apoiou durante 11 anos no kafkiano processo, até que o litígio fosse abandonado por absoluto cansaço das partes. Fernando Morais, por sua vez, incendiou a platéia (que foi uma das maiores da Flip) com a proposta de que Paulo Cesar vá até o "Tribunal de Haia", se necessário, para defender o livro. Completou com a sugestão de uma emenda constitucional que esclareça, de uma vez por todas, que o raio do direito à privacidade não deve jamais se sobrepor ao direito à informação e à livre expressão sobre temas de interesse público. Paulo Cesar recebeu a solidariedade incondicional de Ruy e Fernando, e os três biógrafos foram longamente aplaudidos. Bola cheia para a Flip por essa mesa.
Ana Maria Gonçalves e a escritora anglo-egípcia Ahdaf Soueif fizeram uma mesa cheia de cumplicidade. Ana leu os primeiros (e brutais) parágrafos de Um defeito de cor. Emocionou a platéia. Ahdaf fez uma leitura de dois trechos do seu belo Mapa do amor. Achei as perguntas do mediador bem fracas, mas como Ana e Ahdaf já haviam estabelecido uma amizade, o bate-bola não foi prejudicado. Sobre Ana, os leitores deste blog já sabem muito, então me limito a falar de Ahdaf Soueif: se levo algo desta Flip, são a alegria e a honra de ter conhecido essa mulher extraordinária. Eu já lera alguns de seus artigos sobre a causa palestina. Viúva, vivendo a dureza que é a experiência de uma árabe no Reino Unido (ela divide seu tempo entre Londres e Cairo), Ahdaf emana tranqüilidade e sabedoria. Comecei a ler Mapa do amor e estou absolutamente encantado. O livro relata a história de dois amores separados por um século, tendo como pano de fundo o confisco das terras palestinas pelo estado de Israel. O mediador cuidadosamente evitou os temas políticos, substituídos por repetitivas perguntas sobre o "romance histórico". De longe, os melhores momentos da mesa foram aqueles em que Ana e Ahdaf bateram bola de forma independente sobre seus respectivos processos de criação. Especialmente interessante foi o relato de Ahdaf sobre a tradução ao árabe de Mapa do amor, feita por sua mãe, que é professora universitária de literatura -- e bisbilhoteira, como costumam ser os professores universitários. Impunha mudanças ao romance de Ahdaf. Depois de muitas brigas familiares, foram chegando a um consenso, e Ahdaf relatou o caso como uma experiência que terminou sendo enriquecedora.
Não assisti às mesas com Antônio Torres / Mia Couto e Dennis Lehane / Guillermo Arriaga. Na última mesa do dia, o israelense Amós Oz e a sul-africana Nadine Gordimer também bateram bola com cumplicidade, amigos que são já há alguns anos. Nadine tem uma bela história, não só de oposição ao apartheid mas também de recusa a qualquer tratamento especial: ela teve livros banidos pelo regime racista que terminou em 1994 e, ante a suspensão do banimento, recusou o "privilégio" até que também fossem suspensas as proibições a escritores negros que haviam passado pela mesma experiência. Amós Oz, fundador do grupo Peace Now, relatou as várias acusações de "traidor" que já sofreu em Israel por sua posição em favor da paz e da solução biestatal ao conflito. Claro que não apareceram perguntas do tipo como você concilia sua condição de pacifista com o seu apoio ao muro, ao bombardeio israelense aos civis libaneses e à quase destruição da infra-estrutura sul-libanesa por causa do seqüestro de dois soldados? Afinal de contas, isso seria prejudicial à sua fama de "pacifista". Em todo caso, foi uma bela mesa, na qual Oz teve a elegância de recusar a sistemática comparação (feita não só pelo mediador, mas pela própria organização da Flip) entre a sua condição em Israel e a experiência de Gordimer sob o apartheid.
Logo que possível, coloco um post sobre as quatro primeiras mesas do sábado, nas quais estive presente (com destaque, como já esperado, para o interessantíssimo papo entre Maria Rita Kehl e Alan Pauls).
PS: Também estão por aqui Sergio Fonseca e Ane Aguirre, com belas fotos.
Escrito por Idelber às 14:18 | link para este post
| Comentários (13)
#1
Já vou me programar para ir ao FLIP de 2008! Por agora, "viajo" de carona com seus relatos, preciosos. Fiquei feliz com a participação da Ana Maria. Fora tanta "substância", quero aproveitar das belezas que ainda não conheço...
Cláudio Costa em julho 8, 2007 3:52 PM
#2
Que história! O judiciário capricha quando a tarefa é ser lamentável e constrangedor.
César em julho 8, 2007 5:23 PM
#3
"entre a sua condição em Israel e a experiência de Gordimer sob o apartheid."
Provavelmente porque o tratamento de Israel dado aos palestinos é bem pior que dado aos negros na Africa do Sul do Apartheid... ;)
André Kenji em julho 9, 2007 3:40 AM
#4
Bacana. A idéia de Fernando Morais quanto a legislação sobre privacidade poderá se tornar um artigo de primeira necessidade, se quisermos contar a História do nosso país.
Paulo em julho 9, 2007 7:48 AM
#5
Idelber,
Descobri o "Biscoito" justamente quando lia o ótimo "Eu não sou cachorro,não" e procurei mais informações sobre o autor na internet, já sabendo que se tratava do mesmo autor da biografia "proibida" de Roberto Carlos.
Na busca, achei a entrevista com Paulo César de Araújo no "Biscoito" (e o próprio).
Como Martín Fierro,que só sabe cantar opinando, me animei e, de imediato, enviei uma mensagem.
Mesmo reconhecendo que provavelmente Roberto Carlos não teria o direito postulado na ação, sustentei que sua atitude não deveria ser qualificada com censura, pois se tratou de exercício legítimo de um direito.
Assegurado o direito de defesa a Paulo César e após o devido processo legal, ao Judiciário caberia dizer com que estava a razão. Assim as divergências se resolvem na democracia.
Aquela censura, da Sra. Solange Hernandez (lembra?), era outra coisa.
De qualquer sorte, eu recomendaria a Roberto: "conte ao menos até três. Se precisar, conte outra vez", antes de mover a ação judicial.
Sobre o mesmo tema, muito interessante a matéria (acho que é ensaio, mas não sei bem o que é isso)de Ricardo Lísias na "Carta Capital" n. 450. Essa matéria revela que Paulo César somente teria utilizado no livro informações já publicadas anteriormente sobre o biografado. Logo, absurda a inconformidade de Roberto Carlos.
Por outro lado, na edição n. 551, da "Carta", Nirlando Beirão diz que a Flip está muito "direitista". O que você pensa disso?
Saudaões democráticas, como sempre.
Ricardo Petrucci Souto em julho 9, 2007 10:15 AM
#6
Perdão, a matéria do Nirlando Beirão a que me referi está na "Carta" n. 451
Ricardo Petrucci Souto em julho 9, 2007 10:20 AM
#7
Olá Idélber. Acho que seu blogue papou o meu segundo comentário no seu post sobre o Global Voices em Português.
De qualquer forma, agradeço muito pelo destaque e adoraria receber a sua colaboração, naquilo que te interessar.
Se quiser bater um papo a respeito, basta entrar em contato.
Abraços do Verde.
Daniel Duende em julho 9, 2007 3:39 PM
#8
Idelber, caríssimo, me conta como que você foi parar no livro do Alan Pauls. Quase morri do coração quando me deparei com seu nome lá. Beijos, pena não termos nos visto na FLIP.
Ivana Arruda Leite em julho 9, 2007 5:09 PM
#9
Idelber
Que bom que você está aí na Flip. Assim, temos um relato mais do que vivo - perspicaz - do evento, embora eu tenha minhas desconfianças em relação às proporções midiáticas que a Flip está tomando este ano.
Abraços
Cintia em julho 10, 2007 12:27 AM
#10
Provavelmente porque o tratamento de Israel dado aos palestinos é bem pior que dado aos negros na Africa do Sul do Apartheid... ;)
E a hipocrisia de "pacifistas" israelenses que apóiam o bombardeio de populações civis não tem nenhum termo de comparação entre brancos sul-africanos que se opunham ao apartheid.
Idelber em julho 10, 2007 12:02 PM
#11
Idelber, propus-me a fazer algum comentário nobre, mas devo apenas confessar: morro de inveja! (como se diz na TV, inveja positiva, claro). Abração e boa Flip, meu caro!
jayme em julho 10, 2007 8:32 PM
#12
Ricardo, vou procurar esse texto da Carta Capital. Ouvi coisas muito ruins a respeito dele. Não acho que a Flip seja "direitista", de forma nenhuma. Mas como digo, não li o texto.
Daniel, meu caro, me desculpe. Às vezes, quando há links num comentário, o Movable Type o lê como junk e envia-o à respectiva pasta. Já fui lá, achei e publiquei o comentário. Grato pela leitura!
Respondi a alguns dos comentários desta caixa por email, e demorei pacas para responder os outros, por causa da viagem. Em todo caso, deixo o abraço a todos.
Idelber em julho 11, 2007 1:08 PM
#13
Espero que estejam bem. Prossigo em silêncio, observaram? Aliás não fui chamado a oferecer defesa. Aguardo a definitividade da discussão envolvendo a biografia do cantor Roberto Carlos; ao que tenho hoje no STJ. Ao depois exteriorizarei minha versão - com elenco de testemunhas presenciais - até aqui, e estranhamente, não apresentadas pelo biógrafo. E asseguro que em muito se afastará da por ele exibida na referida flip, e em outros tantos lugares, em presença de expressivo número de pessoas. A mim não me surpreendeu pelo simples fato de que dele nunca havia ouvido falar antes do episódio. Saudações do Juiz de Direito Tércio Pires - SP.
Tércio Pires em outubro 30, 2010 7:29 PM